Até o verão terminar
Vinte e um
Junto ao peito dele, solto uma risada.
— É nisso que você está pensando agora?
— Já pensei em outra coisa. Só não falei em voz alta.
— Que coisa? — Olho para ele.
— Acho que está óbvio.
Balanço a cabeça.
— Não está, não. Acho que você vai ter que me contar.
Ele abaixa a cabeça e traz os lábios ao meu ouvido.
— Não vejo a hora de termos a nossa primeira vez — sussurra ele, antes de sair do chuveiro, como se aquilo jamais tivesse sido verbalizado. — Quer uma?
Estou meio em choque, eu acho, então levo uns segundos para responder.
— Uma o quê?
— Tatuagem.
Eu nunca tinha pensado nisso até este momento.
— Acho que quero.
Samson põe outra vez a cabeça debaixo do chuveiro e abre um sorriso.
— Olha só nós dois, querendo fazer tatuagem. Com certeza somos divertidos, Beyah.
Vinte e um — Tenho uma ideia — diz Marcos, com a boca cheia de comida.
— O meu amigo Jackson.
Hoje é noite de jantar batismal. Café da manhã outra vez. Não estávamos falando sobre nada específico, então ninguém sabe a que Marcos está se referindo. Nós o encaramos com olhares inexpressivos, e ele aponta para Samson.
— O Jackson tem cabelo loiro-escuro. Olhos azuis. A estrutura do rosto de vocês é diferente, mas duvido que fiquem olhando muito a sua identidade num estúdio de tatuagem.
Ah. Samson perdeu a carteira, e faz três dias que falou sobre fazer uma tatuagem.
Não dá para fazer tatuagem sem levar a identidade, e ele revirou a casa de cima a baixo nesses três dias, mas não teve sorte. Está achando que os últimos inquilinos talvez tenham encontrado e levado embora. Disse que o documento fica sempre em sua mochila, mas nós dois procuramos e não encontramos. As outras coisas todas estavam. Não sei como ele carrega aquela mochila com tanta facilidade por aí; o troço deve pesar uns vinte quilos.
Samson rumina sobre a sugestão de Marcos, então dá de ombros.
— Vale a tentativa.
— Estúdio de tatuagem? — pergunta meu pai. — Quem é que vai se tatuar?
— Esses dois — responde Sara de imediato, apontando para mim e Samson. — Eu não.
— Graças a Deus — murmura Alana.
Sei que sou só a filha do marido dela, mas esse comentário dói.
Ela não se incomoda que eu faça uma tatuagem, mas é óbvio que fica aliviada em saber que a própria filha não vai entrar nessa.
Meu pai me olha e diz:
— Vai tatuar o quê?
Aponto para o punho.
— Alguma coisa bem aqui. Só não sei ainda o quê.
— E quando é que vocês vão?
— Hoje à noite — responde Marcos, segurando o celular. — O
Jackson falou que a gente pode passar lá e pegar a carteira de motorista dele emprestada.
— Legal — diz Samson.
— Já sabe que desenho vai fazer, Samson?
— Ainda não — diz ele, enfiando uma garfada de ovos na boca.
Meu pai balança a cabeça.
— Vocês dois vão marcar o corpo com tinta pelo resto da vida daqui a umas horas, e nenhum dos dois sabe que desenho tatuará?
— Temos que pegar a balsa até lá — diz Samson. — Temos muito tempo para pensar. — Samson afasta a cadeira e se levanta. Com uma fatia de bacon na mão, leva o prato até a cozinha. — É melhor a gente ir andando. É domingo e a fila da balsa deve estar enorme.
— Beyah — diz meu pai, em tom de súplica. — De repente era bom você tirar umas semanas para refletir.
Que comentário típico de pai. Acho que gosto.
— Confia em mim, pai. Vou ter muitos outros arrependimentos na vida além de uma tatuagem.
Quando digo isso, meu pai hesita. Minha intenção era fazer uma brincadeira, mas agora ele parece genuinamente preocupado com minha capacidade de tomar decisões.
•
O estúdio de tatuagem está vazio, e acho que isso foi uma vantagem para nós. Quando o cara pegou a carteira de motorista falsa de Samson, olhou para Samson, então para o documento.
Balançou a cabeça, mas não disse nada. Apenas desapareceu por uma porta para tirar cópias dos documentos.
Mais cedo, quando Marcos retornou ao carro com a carteira de motorista de Jackson, eu não consegui parar de rir. Ele é, pelo menos, uns vinte quilos mais magro que Samson e deve ser uns doze centímetros mais baixo. Marcos disse a Samson que ele poderia dizer que andava puxando ferro, caso o cara do estúdio não acreditasse.
Eles nem questionaram. Se eu fosse Samson, ficaria ofendido.
— Devem estar desesperados por clientes — sussurro. — Nem te perguntaram nada.
Samson me empurra um álbum de fotografias, cheio de ideias de tatuagens. Pega outro para si, e começamos a folhear.
— Quero uma coisa delicada — digo, olhando imagens de corações e flores, mas nada me atrai.
— Eu quero o oposto de delicado — diz Samson.
Qual é o oposto de delicado? Vou passando as folhas, e mais para o fim do álbum me deparo com desenhos que parecem ser do estilo de Samson, mas acho que ele não vai gostar de nenhum. Quando chego à última página, fecho o álbum e tento me concentrar.
Delicado para mim quer dizer gracioso, suave, frágil. O que seria o oposto disso? Força? Durabilidade? Ameaça, talvez?
Neste exato momento, descubro o que ele precisa tatuar. Abro o celular e procuro imagens de furacões. Passo por várias, então encontro uma que acho que ele vai amar.
— Encontrei um desenho que você devia fazer.
— Tá bom — responde Samson, sem nem tirar os olhos de seu álbum. Ainda passando as folhas, ele retorce o braço esquerdo. —
Quero bem aqui. — Ele mostra um ponto na parte interna do antebraço. — Mostre o desenho ao cara, para ele começar logo.
— Mas você não quer ver primeiro?
Samson olha para mim.
— Você acha que eu vou amar?
Faço que sim.
— Acho.
— Então é a tatuagem que eu quero.
Seu jeito é pragmático, como se não houvesse dúvida de que essa tatuagem fala mais de mim que de outra coisa. Dou um beijo nele, incapaz de me conter.
•
Há dois tatuadores trabalhando hoje à noite, mas ainda não decidi que desenho que vou querer. Samson está na cadeira, com a máquina encostada no braço. Tem a cabeça inclinada para o outro lado, para não ver o desenho antes que esteja pronto.
Está mexendo no celular, tentando me ajudar a encontrar um para mim.
— E um sol nascendo? — pergunta ele.
Não é má ideia, então procuro alguns. No fim das contas, decido que não.
— Parece que requer muita tinta, e ficaria melhor em tamanho maior. Quero começar com algo pequeno.
Já folheei todos os álbuns do estúdio. Estou começando a dar razão ao meu pai. Talvez eu deva pensar mais um pouco.
— Tive uma ideia — diz Samson. — Vamos procurar significados e ver a que tipo de símbolos eles se relacionam.
— Pode ser.
— O que você quer que a tatuagem simbolize? — pergunta ele.
— Talvez algo relacionado a sorte. Seria bom ter um pouco mais de sorte na vida.
Ele vai olhar o telefone, enquanto eu confiro o progresso de sua tatuagem. Escolhi para ele um furacão, mas não todo em tinta preta.
Selecionei o desenho de um furacão num mapa climático, com muito vermelho, amarelo, azul e verde. Não é exatamente uma tatuagem em aquarela, mas a mistura de cores num contorno preto, meio desbotado, dá um pouco essa impressão.
Está saindo bem melhor que o esperado.
— Encontrei a sua — diz Samson. Ele estende o celular para que eu veja o que escolheu para mim, mas não o pego.
— Confio em você. É o justo.
— Pois não devia.
A expressão dele me suscita um embrulho de desconforto. Ele tem razão. Eu não devia confiar em alguém sobre quem não sei absolutamente nada. Só queria concordar em deixá-lo fazer o mesmo que fiz — escolher uma tatuagem às escuras. Por estranho que seja, porém, sinto que sou a mais confiável de nós dois. Pego o telefone e dou uma olhada.
— O que é isso?
— Um cata-vento.
Olho a imagem. É delicada. Colorida. E ele nem sabe que escolhi um furacão para ele, ou seja, seremos os dois tatuados com desenhos que se assemelham a um padrão de rotação.
— Dizem que os cata-ventos afastam o azar.
— É perfeito — sussurro.
•
Sara e Marcos saíram do estúdio faz umas duas horas e meia, enquanto preenchíamos nossos formulários, mas ainda não voltarem para reclamar da demora. Com certeza arrumaram uma boa distração.
Minha tatuagem está concluída. Ficou perfeita. Ele delineou o desenho com tinta preta, mas deixou as cores do cata-vento sangrando para fora do contorno, feito uma tinta escorrendo. Escolhi o pulso esquerdo. Mostrei a Samson, tirei uma foto e deixei o cara cobrir com um plástico.
O tatuador de Samson dá uma última limpada na dele. Samson não olhou nenhuma vez.
— Prontinho — diz o homem.
Samson se senta, sem olhar a tatuagem. Levanta-se, caminha até o banheiro e me intima a ir atrás, com um meneio de cabeça.
Ele quer olhar sem ninguém por perto. Não o culpo. Pode ser que odeie o resultado, e não só eu ficaria péssima, como o tatuador também.
Entro no banheiro com ele e fecho a porta. É um lavabo pequeno, então ficamos bem perto um do outro.
— Está nervoso?
— Não estava. Mas, agora que está pronto, estou.
Dou um sorriso e começo a saltitar.
— Olha logo, estou morrendo aqui.
Samson olha a própria tatuagem pela primeira vez. É do tamanho de um punho, desenhada na parte interna do antebraço, junto à dobra do cotovelo. Encaro seu rosto, à espera de uma reação.
Ele não tem reação.
Apenas olha o desenho.
— É o furacão Ike — explico, correndo o dedo por sobre o desenho. — Escolhi a imagem de um mapa climático do furacão passando bem em cima da península Bolívar.
A única coisa que Samson me devolve é um suspiro. E não sei nem se é um suspiro bom.
Agora estou ansiosa. Eu estava tão convencida de que ele ia gostar; não parei para pensar no que sentiria se ele não gostasse.