Até o verão terminar
Quatro
Marcos está ao telefone, e o outro sujeito tem os olhos fixos na câmera, ainda tentando encaixar a parte solta. Os dois caminham até um carro próximo ao nosso. Afundo em meu assento, na esperança de não ser vista.
Eles entram num BMW duas fileiras adiante, perto do meu pai.
No instante em que a balsa começa a atracar, meu pai encerra a ligação e dá partida no carro. Agora só há metade do sol equilibrado no céu. A outra metade foi tragada pela terra e o mar, e eu meio que queria que o mar me tragasse também.
— A Sara está superempolgada para te conhecer — diz meu pai, ligando o carro. — Além do namorado dela, não tem muita gente que frequenta a península regularmente. São mais casas de férias.
Airbnb, Vrbo, essas coisas. Tem muita gente nova circulando a cada três, quatro dias, então vai ser bom ela ter uma amiga.
As fileiras de carros começam a sair da balsa. Não sei por quê, mas quando o BMW passa por nós, eu fico olhando. O cara da câmera está olhando pela janela.
Quando ele me vê no banco do passageiro, meu corpo se enrijece.
Cruzamos olhares, mas ele tem o semblante impassível. Não gosto de perceber meu corpo respondendo a esse olhar, então viro o rosto e encaro a janela.
— Como se chama o namorado da Sara?
Desejo com todas as forças que não seja o tal Marcos, nem o amigo babaca dos belos olhos.
— Marcos.
Óbvio.
Quatro A casa não é tão extravagante quanto eu havia temido, mas mesmo assim é a casa mais linda em que já pus os pés.
Dois andares, de frente para a praia e erguida sobre umas pilastras, como todas as outras casas da vizinhança. Para chegar ao primeiro andar é preciso subir dois lances de escada.
No topo do segundo lance, eu paro, antes de acompanhar meu pai para dentro e conhecer sua nova família.
Tiro um instante para observar a vista. Mais parece uma muralha de praia e mar, estendendo-se até onde meus olhos alcançam. A água parece ter vida própria. O mar inspira. Expira. É magnífico e assustador ao mesmo tempo.
Será que minha mãe chegou a ver o oceano antes de morrer? Ela nasceu e cresceu no Kentucky, na mesma cidade onde morreu ontem à noite. Não me recordo de ouvir histórias sobre qualquer viagem que ela tenha feito, nem de ver fotografias de férias de infância. Sinto uma tristeza por ela. Não imaginava o que sentiria ao ver o oceano pela primeira vez, mas agora quero que todos os seres humanos na terra tenham essa experiência.
Ver o oceano ao vivo parece quase tão importante quanto ter casa e comida. Não é exagero pensar que deveria haver um projeto de caridade com o único propósito de ajudar as pessoas a conhecer a praia. Deveria ser um direito humano fundamental. Uma necessidade. É como se fossem anos de terapia contidos numa única vista.
— Beyah?
Desvio os olhos da praia e vejo uma mulher parada na sala de estar. Ela é exatamente como imaginei. Luminosa feito um picolé, com dentes brancos, belas unhas cor de rosa e cabelos loiros com aparência de caríssimos.
Solto um grunhido, mas não pretendia que fosse ouvido por ninguém. Acho que talvez tenha saído mais alto que o esperado, pois ela inclina a cabeça. Mesmo assim, a mulher sorri.
Vim preparada para evitar abraços, então seguro o quadro da Madre Teresa e a mochila na frente do corpo, como um escudo.
— Oi.
Entro na casa. O ambiente cheira a roupa de cama fresca e...
bacon. Que combinação estranha, mas até a dupla roupa de cama/bacon é muito melhor que o cheiro de bolor e fumaça de cigarro que vivia entranhado em nosso trailer.
Alana parece confusa com os cumprimentos, já que não há como me abraçar. Meu pai joga as chaves na cornija da lareira.
— Cadê a Sara? — pergunta ele.
— Chegando!
Ouço uma voz aguda e artificial, acompanhada do som de passos descendo as escadas. Uma versão mais jovem de Alana surge à vista, exibindo um sorriso ainda mais branco que o da mãe. Ela vem dando uns pulinhos, bate palmas e solta um gritinho. Honestamente, é assustador.
— Ai, meu Deus, como você é linda — diz a garota, avançando pela sala e agarrando minha mão. — Vem, vou te mostrar o seu quarto.
Ela não me dá nem tempo de recusar. Subo a escada, arrastada pela garota de rabo de cavalo. Ela usa um short jeans e a parte de cima de um biquíni, mas sem blusa. Cheira a óleo de coco.
— O jantar sai daqui a meia hora! — grita Alana, lá de baixo.
Quando chegamos ao andar de cima, Sara solta minha mão e abre uma porta.
Olho meu novo quarto. As paredes são de um azul tranquilo, quase no mesmo tom dos olhos do sujeito da balsa. A colcha da cama é branca, com a estampa de um enorme polvo azul.
A cama está feita à perfeição, com uma quantidade ultrajante de travesseiros.
Tudo parece intocável, de tão lindo e cheiroso, mas Sara se larga na cama e me olha, enquanto observo o quarto. É três vezes maior que o quarto onde cresci.
— O meu é logo ali na frente — diz Sara, apontando para a porta que acabamos de cruzar, e em seguida estende a mão para as duas portas que dão para uma sacada, com vista livre para a praia. —
Este quarto tem a melhor vista de todas.
Se tem a melhor vista, mas ninguém dorme nele, deve haver alguma pegadinha. De repente a praia é muito movimentada de manhã e o quarto acaba sendo barulhento demais.
Sara pula da cama, abre uma porta e acende a luz do banheiro.
— Não tem banheira, mas o chuveiro é ótimo. — Ela abre outra porta. — Aqui é o closet. Tem umas coisas minhas aqui, mas ao longo da semana eu tiro tudo. — Ela fecha a porta. Vai até a cômoda e abre a gaveta de baixo. Está cheia de coisas. — Aqui é a gaveta da bagunça, mas as outras três estão livres. — Ela fecha e torna a se sentar na cama. — E aí? Gostou?
Faço que sim com a cabeça.
— Que bom. Não sei em que tipo de casa você mora, mas esperava que não tivesse que baixar o padrão. — Ela estende a mão para a mesinha de cabeceira junto à cama e pega um controle remoto. — Todos os quartos têm tudo. Netflix, Hulu, Prime. Pode usar a nossa conta, está tudo certinho.
Ela não faz ideia de que diz isso a uma garota que nunca nem teve televisão. Desde que entramos no quarto, eu não me mexi nem abri a boca. Ela está falando por nós duas.
— Obrigada — consigo murmurar.
— Quanto tempo você vai ficar? — pergunta ela.
— Não tenho certeza. O verão todo, talvez.
— Ah, uau. Que maneiro.
Pressiono os lábios e assinto.
— Pois é. Maneiro.
Sara não percebe o sarcasmo. Abre um sorriso, ou talvez nunca tenha chegado a deixar de sorrir. Acho que ela deve ter passado a vida inteira sorrindo assim.
— Você já pode se instalar, está bem? Ajeitar as suas coisas.
Vou até a cômoda e deixo o saco plástico no balcão. Largo a mochila no chão.
— Cadê o resto das suas coisas? — pergunta ela.
— O aeroporto perdeu as minhas malas.
— Ai, meu Deus — diz ela, supercomovida. — Deixa eu te emprestar umas roupas até a gente ir a uma loja. — Ela pula da cama e sai do quarto.
Não sei dizer se o sorriso dela é genuíno. Isso me deixa ainda mais tensa do que eu estava antes de conhecê-la. Eu confiaria mais se ela fosse fechadona, ou mesmo se fosse uma escrota.
Parece um pouco as garotas da minha escola. Eu as chamava de “mocinhas de vestiário”. Bacanas na quadra, na frente do treinador.
Mas no vestiário era outra história.
No momento, não sei dizer se estamos na quadra ou no vestiário.
— Que tamanho você veste? — grita ela, do outro lado do corredor.
Vou até a porta e a vejo vasculhando a cômoda do outro quarto.
— Trinta e seis, eu acho. Talvez trinta e oito.
Eu a vejo pausar por um instante. Ela olha pelo corredor e assente de leve para mim, como se minha resposta a tivesse perturbado de alguma forma.
Essa magreza toda não é algo que eu me esforce para ter. Para mim tem sido uma batalha constante tentar ingerir calorias suficientes para manter a energia necessária para o vôlei, visto que não tenho o mesmo acesso à comida que a maioria das pessoas.
Até o fim do verão espero conseguir ganhar um pouco de peso.
— Bom, eu não visto trinta e seis — diz Sara, voltando ao meu quarto. — Visto três números a mais, na verdade. Mas toma aqui umas camisetas e dois vestidinhos. — Ela me entrega uma pilha de roupas. — Vão ficar largos em você, com certeza, mas dá para o gasto até a companhia aérea devolver as suas coisas.
— Valeu.
— Você faz dieta? — pergunta ela, me olhando de cima a baixo. —
Ou sempre foi magrinha assim?
Não sei dizer se o comentário é uma indireta. Talvez seja porque ela desconheça a razão da minha magreza, então parece um insulto. Meneio a cabeça de leve, desejando encerrar o assunto. Quero tomar um banho, trocar de roupa e ficar um pouco sozinha. Essa garota não parou de falar desde que me viu.
Ela não vai embora. Retorna à cama e se senta outra vez, deitando a lateral do corpo e apoiando a cabeça na mão.
— Você tem namorado?
— Não. — Levo as roupas ao armário.
— Ai, que bom. Tem um carinha que acho que você vai curtir. O
Samson. Ele mora aqui do lado.
Quero pedir a ela que não se dê esse trabalho, que os homens são todos lixo, mas ela certamente não teve o mesmo tipo de interação com caras que eu tive. Dakota não ofereceria dinheiro a uma menina feito Sara. Daria em cima dela de graça.
Sara pula da cama outra vez, vai até a porta da sacada e puxa uma banda da cortina.
— Aquela ali é a casa do Samson — diz ela, apontando pelo vidro.
— Ele é super-rico. O pai dele trabalha com petróleo, um troço assim. — Ela cola a testa ao vidro da janela. — Ai, meu Deus, vem cá.Eu me aproximo e olho pela vidraça. A casa de Samson é ainda maior que essa. Vejo uma luz acesa, na cozinha. Sara está apontando justamente para lá.
— Olha. Tem uma garota com ele.
Vejo um cara entre as pernas de uma garota, sentada na bancada da ilha da cozinha. Os dois estão se beijando. Quando se afastam, solto um arquejo silencioso.
Samson é o Babaca do Olho Azul. O cara que tentou me pagar vinte pratas para entrar com ele no banheiro de uma balsa.
Que nojo.
Mas até que fico impressionada. O cara não perde tempo. Estava na mesma balsa que eu, ou seja, deve ter chegado em casa faz uns dez minutos. Será que ofereceu vinte pratas a essa garota também?
— É esse o cara que você queria me apresentar? — pergunto, enquanto a língua dele explora o pescoço de outra garota.
— É — responde Sara, sem rodeios.
— Parece que ele já tem dona.
Sara ri.
— Não tem nada. Ela já está indo embora. O Samson só pega as garotas de fim de semana.
— Cruz-credo.
— É o típico riquinho mimado.
Olho para ela, confusa.
— E você quer me empurrar para ele?
— Ele é gato — devolve Sara, dando de ombros. — E é amigo do meu namorado. Seria legal se a gente saísse de casal, fizesse coisas juntos. Às vezes o Samson fica meio de vela.
Faço que não e me afasto da janela.
— Não tenho interesse.
— Pois é, ele falou a mesma coisa quando eu disse que talvez você passasse o verão aqui. Mas de repente, depois de se conhecerem, vocês mudam de ideia.
Eu já conheci. E não estou interessada.
— A última coisa que preciso agora é de um namorado.
— Ai, meu Deus, não. Não estou falando de namorar. Estou falando só... você sabe. Tipo uma ficada de verão... mas, enfim, já entendi. — Ela solta um suspiro, como se estivesse decepcionada.
Só quero que ela saia, para eu ter um pouco de privacidade. Ela me olha um instante, e a vejo pensando em outra pergunta, outro assunto para puxar.
— A minha mãe e o seu pai não são muito rígidos, já que a gente já terminou a escola. Só querem sempre saber onde a gente está, que é basicamente aqui na frente, na praia. A gente acende uma fogueira toda noite e fica por lá.
Então me ocorre que essa garota conhece mais do que eu o estilo de cuidado do meu pai. Até este momento eu não tinha pensado nisso. Sei que ele se chama Brian, que não quebrou a perna e que trabalha com finanças. E só.
— Onde é que você quer fazer compras amanhã? A gente vai ter que ir a Houston, aqui só tem um Walmart.
— No Walmart está ótimo.
Sara ri, mas quando vê que não estou rindo morde o lábio e fecha o sorriso.
— Ah. Você estava falando sério. — Ela solta um pigarro, muito desconfortável, e talvez seja este o momento em que ela percebe que não somos nada parecidas.
Não sei como vou sobreviver a um verão inteiro com uma garota que considera o Walmart uma piada. Passei a vida inteira comprando minhas coisas em brechós e bazares de garagem. O Walmart é um avanço para mim.
Sinto vontade de chorar e não sei por quê.
Percebo as lágrimas vindo. De repente, sinto saudade da minha antiga casa, da minha mãe dependente química, da geladeira vazia.
Sinto saudade até do cheiro dos cigarros dela, o que jamais imaginei que fosse possível. Pelo menos aquele cheiro era autêntico.
Este quarto tem cheiro de riqueza, elegância e conforto. Tem cheiro de fraude.
Aponto para o banheiro.
— Acho que vou tomar um banho.
Sara olha o banheiro, então para mim. Percebe que é a sua deixa para sair.
— Mas não demora, porque a mamãe gosta de jantar em família aos fins de semana. — Ela revira os olhos ao dizer “família” e fecha a porta do meu quarto.
Permaneço parada no meio desse quarto desconhecido. É coisa demais para absorver.
Acho que nunca me senti tão sozinha quanto agora. Quando morava no trailer com minha mãe, pelo menos sentia que pertencia àquele lugar. Por mais que fôssemos diferentes, ambas pertencíamos àquele cenário. Aprendemos a conviver e entrelaçamos nossas vidas. Aqui nessa casa, porém, não sei se consigo entrelaçar nada a essas pessoas. Eles parecem paredes de tijolo, com as quais posso dar de cara a cada curva.
É claustrofóbico.
Vou até as portas da sacada, abro uma e dou um passo à frente.
Assim que a brisa toca meu rosto, começo a chorar. Não é nem um choro discreto. É uma choradeira que estou adiando faz vinte e quatro horas.
Pressiono os cotovelos na grade da sacada e cubro o rosto com as mãos, tentando abafar o choro antes que Sara resolva voltar ao quarto. Ou pior, meu pai.
Nada adianta. Não consigo parar. Cinco minutos inteiros se passam comigo ali, aos soluços, encarando o mar com os olhos embaçados de lágrimas.
Preciso contar ao meu pai o que aconteceu ontem à noite.
Respiro fundo várias vezes e enxugo os olhos, reunindo toda a determinação possível para recuperar o controle de minhas emoções. No fim das contas, consigo secar um pouco das lágrimas e apreciar a vista do oceano enluarado.
A garota que Samson beijava na cozinha acaba de cruzar uma duna de areia entre as duas casas. Ela se une a um grupo de pessoas reunidas junto a uma fogueira. São todos jovens, provavelmente no fim da adolescência e começo da vida adulta.
Devem ser ricos, confiantes e despreocupados. Deve ser isso que a Sara faz toda noite, e esses decerto são os amigos dela.
Mais gente com quem não tenho nada em comum.
Não quero que ninguém me veja aqui em cima, aos prantos, então dou meia-volta para retornar ao quarto.
De repente, congelo.
Samson está parado na sacada ao lado, sozinho, me encarando com uma expressão indecifrável.
Eu o encaro de volta por dois segundos, depois entro no quarto e fecho a porta.