Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 9 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Osman e Fritz

gravitação universal ou a verdadeira natureza da luz49. Newton também teve

uma discussão desagradável com Leibniz, que desprezava a gravidade por

considerar que esta tinha uma “qualidade oculta”50. Houve, de fato, uma

importante divisão intelectual aqui, entre o pensamento metafísico do

continente europeu e a prática empírica das Ilhas Britânicas. Sempre foi

mais provável que estas últimas, com sua cultura singular de

experimentação e observação paciente, produzissem os avanços

tecnológicos sem os quais não poderia ter havido Revolução Industrial (ver

Capítulo 5)51. O caminho que conduziu das leis de Newton à máquina a

vapor de Thomas Newcomen – usada pela primeira vez para drenar as

minas de carvão de Whitehaven em 1715 – foi notadamente curto e direto,

embora Newcomen não passasse de um humilde ferreiro mecânico de

Dartmouth52. Não é por acaso que três das mais importantes inovações

tecnológicas do mundo – a máquina a vapor aperfeiçoada de James Watt

(1764), o cronômetro marítimo de John Harrison (1761), capaz de informar

a localização longitudinal, e a máquina de fiar hidráulica de Richard

Arkwright (1769) – foram inventadas no mesmo país, na mesma década.

Quando Newton morreu, em março de 1727, seu corpo foi velado durante

quatro dias na abadia de Westminster, antes de um funeral em que seu

caixão foi carregado por dois duques, três condes e o chanceler do Reino. O

funeral foi presenciado por Voltaire, que ficou perplexo diante da veneração

dedicada a um cientista de berço humilde. “Eu vi”, escreveu o famoso

philosophe ao voltar para a França, “um professor de matemática, só por ter

sido excelente em sua vocação, ser enterrado como um rei querido por seus

súditos”. No Ocidente, a ciência e o governo haviam se tornado parceiros. E

nenhum monarca era capaz de exemplificar melhor os benefícios dessa

parceria que o amigo de Voltaire, Frederico, o Grande, da Prússia.

 

Osman e Fritz

 

Setenta anos após o cerco de Viena, dois homens personificavam a distância

cada vez maior entre a civilização ocidental e sua rival muçulmana no

Oriente Próximo. Em Istambul, o sultão Osman III presidia com indolência um Império Otomano decadente, ao passo que, em Potsdam, Frederico, o

Grande, implementava reformas que fariam do reino da Prússia um

sinônimo de eficiência militar e racionalidade administrativa.

Visto de longe, o Império Otomano ainda parecia uma autocracia tão

impressionante quanto havia sido nos dias de Solimão, o Magnífico. Mas,

na verdade, desde meados do século XVII, o império vinha sendo afligido

por graves problemas estruturais. Havia uma profunda crise fiscal, já que os

gastos eram maiores que os impostos arrecadados, e uma crise monetária,

pois a inflação, importada do Novo Mundo e agravada pela desvalorização

da moeda (como também aconteceu na Europa), provocou a elevação de

preços53. Sob o vizirato de Mehmed Köprülü, de seu filho Ahmed e de seu

malfadado filho adotivo Kara Mustafá, foi uma dificuldade constante cobrir

as despesas da imensa corte do sultão, conter os janízaros – a infantaria

otomana, outrora celibatária, que se tornara uma espécie de casta hereditária

com suas próprias leis – e controlar as províncias imperiais mais remotas. A

corrupção corria solta. As forças centrífugas estavam se fortalecendo. O

poder dos proprietários de terra, os sipahi, diminuía. Insurgentes como os

celali, na Anatólia, desafiavam a autoridade central. Houve, também, um

conflito religioso entre clérigos ortodoxos como Kadızâde Mehmed – que

atribuíam todos os reveses otomanos a desvios da palavra do Profeta54 – e

místicos sufistas como Sivasi Efendi55. A burocracia otomana fora equipada

com escravos (sob o sistema de devşirme), muitas vezes capturados nas

comunidades cristãs dos Bálcãs. Mas agora a seleção e a promoção

pareciam depender mais do suborno e do favoritismo que da aptidão; a taxa

de rotatividade se tornou absurdamente alta à medida que as pessoas se

acotovelavam para obter vantagens pessoais56. Hoje, os registros do

governo otomano dão uma ideia da deterioração nos padrões

administrativos. O censo de 1458, por exemplo, é um documento

meticuloso. Já em 1694, porém, os registros equivalentes haviam se tornado

irremediavelmente descuidados, com abreviações e rasuras57. As

autoridades otomanas estavam cientes da deterioração, mas a única solução

que podiam recomendar era um retorno aos bons velhos tempos de

Solimão, o Magnífico58.

Mas talvez o problema mais grave fosse o declínio na qualidade dos

próprios sultões. A rotatividade no topo era alta; houve nove sultões entre

1566 – quando Solimão, o Magnífico, morreu – e 1648 – quando Mehmed

IV subiu ao trono. Desses, cinco foram depostos e dois, assassinados. A

poligamia significava que os sultões otomanos não tinham as dificuldades

de monarcas cristãos como Henrique VIII, cujo esforço por produzir um

herdeiro masculino demandou não menos que seis esposas, das quais duas

foram submetidas à execução e outras duas, ao divórcio. Em Istambul, o

perigo era ser um dos quase sempre numerosos filhos do sultão. Só um

deles se tornaria sultão e, até 1607, os outros foram invariavelmente

estrangulados, como uma forma de garantir que não haveria disputas pela

sucessão. Tal medida estava longe de ser uma receita de amor paterno. O

destino do talentoso primogênito de Solimão, Mustafá, não foi de todo

atípico. Ele foi assassinado na tenda do próprio pai em consequência de

intrigas provocadas pela segunda esposa do sultão, sua madrasta, em favor

de seus próprios filhos. Outro filho, Bayezid, também foi estrangulado.

Quando Mehmed III subiu ao trono em 1597, 19 de seus irmãos foram

executados. Após 1607, essa prática foi abandonada em favor do governo

do primogênito. Daí em diante, os filhos mais jovens passaram a ser

confinados ao harém – literalmente, “o proibido” – habitado por esposas,

concubinas e descendentes do sultão59.

Descrever a atmosfera no harém como pouco saudável seria um

eufemismo. Osman III se tornou sultão aos 57 anos, tendo passado os 51

anteriores efetivamente como prisioneiro no harém. Na época em que subiu

ao trono, desconhecendo quase por completo o reino que deveria governar,

ele havia cultivado tamanho ódio por mulheres que deu de usar sapatos com

sola de ferro. Ao escutar seus passos, as damas do harém deveriam

desaparecer de vista. Meio século esquivando-se de concubinas dificilmente

era o melhor preparo para o poder. A vida real era muito diferente nas terras

ao norte dos Bálcãs.

“O governante é a primeira pessoa do Estado”, escreveu Frederico, o

Grande, em 1752, no primeiro dos dois Testamentos Políticos redigidos

para a posteridade. “Ele é bem pago para que possa manter a dignidade de seu gabinete. Mas, em troca, exige-se que trabalhe efetivamente para o

bem-estar do Estado.”60 Sentimentos muito similares haviam sido expressos

um século antes por seu bisavô Frederico Guilherme, o Grande Eleitor, cuja

conquista foi transformar o Marco de Brandenburgo, então uma terra

devastada pela guerra, no centro do Estado governado com maior rigidez da

Europa Central. Suas finanças eram baseadas na administração eficiente do

extenso reino, sua ordem social era baseada na classe proprietária de terras

– cujos membros foram servidores leais do reino, montados em cavalos ou

atrás de escrivaninhas –, e sua segurança era baseada em um exército

camponês bem treinado. Na época em que seu filho foi reconhecido como

“rei da Prússia”, em 1701, o reino de Frederico Guilherme era o que mais se

aproximava do ideal de monarquia absoluta recomendado pelo teórico

político inglês Thomas Hobbes como o antídoto para a anarquia. Era um

jovem e esbelto Leviatã.

O contraste com o sistema otomano é exemplificado pela residência real

favorita de Frederico, o Grande, em Potsdam. Projetada pelo próprio rei, era

mais uma mansão que um palácio, e, embora ele a chamasse de Sanssouci –

“Sem preocupação” –, seu senhor real era tudo menos despreocupado. “Não

posso ter interesses”, declarou, “que não sejam os interesses de meu povo.

Se os dois são incompatíveis, sempre devo dar preferência ao bem-estar e

ao benefício do reino.”

O projeto simples de Sanssouci servia de exemplo para toda a burocracia

prussiana. A rígida autodisciplina, a rotina férrea e a incorruptibilidade

imaculada seriam seus lemas. Frederico manteve apenas um pequeno

séquito de funcionários em Sanssouci: seis mensageiros, cinco criados

domésticos e dois pajens, mas nenhum criado pessoal devido à simplicidade

de seu guarda-roupa, quase invariavelmente um uniforme militar surrado,

manchado de rapé. Na opinião de Frederico, mantos reais não tinham um

propósito prático, e uma coroa era meramente “um chapéu que deixava a

chuva entrar”61. Em comparação com seus congêneres no Palácio de

Topkapı, ele vivia como um monge. Em vez de um harém, tinha uma esposa

(Isabel Cristina de Brunswick), a quem detestava. “A madame engordou” é

como ele a cumprimentava após uma das muitas longas separações62. Além disso, as minutas do Gabinete Real Prussiano – páginas e mais páginas de

decisões reais registradas vividamente – são a antítese dos documentos

otomanos do século XVIII.

O poeta Lorde Byron certa vez escreveu a um amigo: “na Inglaterra, os

vícios da moda são a prostituição e a bebida; na Turquia, a sodomia e o

fumo; nós preferimos uma garrafa e uma garota; eles, um cachimbo e um

[sodomita] passivo [...]” Ironicamente, é bem possível que Frederico, o

Grande, o pioneiro do despotismo esclarecido, tivesse sido mais feliz como

um jovem na corte otomana. Um intelectual extremamente sensível e

provavelmente homossexual, ele foi submetido a uma educação austera, e

às vezes sádica, sob comando do pai, o irascível e amante de desfiles

Frederico Guilherme I.

Enquanto Frederico Guilherme relaxava com companheiros rudes de

bebedeira em seu “Tabak Collegium”, o filho buscava conforto na história,

na música e na filosofia. O pai autocrático o descreve como “um garoto

afeminado, que não tem uma única inclinação masculina, que não sabe

cavalgar nem atirar, e, ainda por cima, é a sujeira em pessoa, nunca corta o

cabelo, e o encaracola feito um idiota”63. Quando Frederico foi pego

tentando fugir da Prússia, o pai o aprisionou no castelo de Küstrin e o

obrigou a assistir à decapitação do amigo que o ajudara a planejar a fuga,

Hans Hermann von Katte. O corpo e a cabeça do amigo foram deixados no

solo do lado de fora da prisão do Príncipe Herdeiro64. Ele permaneceu no

cativeiro em Küstrin por dois anos.

Mas Frederico não pôde repudiar a paixão do pai pelo exército prussiano.

Como coronel do regimento de Goltz (depois de ter sido libertado da

prisão), procurou aperfeiçoar suas habilidades militares. Estas se mostraram

indispensáveis quando ele se empenhou em compensar a posição geográfica

vulnerável da Prússia, que se estendia quase diagonalmente pela Europa

Central. Durante seu reinado, Frederico aumentou o tamanho do exército

que herdou, de 80 mil para 195 mil homens, transformando-o no terceiro

maior da Europa. De fato, com um soldado para cada 29 súditos, a Prússia

era, em termos relativos, o país mais militarizado do mundo no fim de seu

reinado, em 178665. E, ao contrário do pai, Frederico estava preparado para empregar seu exército não só nos desfiles mas também na conquista de

novos territórios. Alguns meses após assumir o trono em 1740, ele abalou o

continente ao invadir e cercar a próspera província de Silésia, na Áustria. O

esteta sensível que não conseguia montar em um cavalo e que preferia o

som da flauta ao de bater continência se revelou um artista no exercício do

poder: der alte Fritz.

Como é possível explicar essa transformação? Uma pista se encontra em

uma de suas primeiras obras de filosofia política, O anti-Maquiavel, um de

uma série de refutações reais ao notoriamente cínico manual para

governantes de Nicolau Maquiavel, O príncipe. Em sua versão, Frederico

defende o direito de um monarca a travar uma guerra preventiva “quando a

grandeza excessiva das maiores potências da Europa parecer prestes a

transbordar e engolir o mundo”; em outras palavras, manter o equilíbrio de

poder, “aquele sábio equilíbrio pelo qual a força superior de alguns

soberanos é contrabalançada pelas forças unidas das outras potências”: “É

[...] melhor travar uma guerra ofensiva quando se é livre para optar entre o

ramo de oliva e a coroa de louros do que esperar o momento perigoso em

que uma declaração de guerra posterga apenas temporariamente a

escravidão e a ruína”66. Frederico mais tarde descreveu a vizinha Polônia

como uma “alcachofra, pronta para ser consumida folha por folha” – e de

fato foi o que ocorreu quando a região foi repartida entre a Áustria, a

Prússia e a Rússia67. O ataque de Frederico à Silésia, portanto, não foi um

ato impensado. A expansão da Prússia seria como uma imagem espelhada

da contração otomana: a conquista de um novo tipo de poder baseado em

racionalismo implacável.

Frederico Guilherme I havia acumulado dinheiro, tirando cada centavo de

suas extensas terras da Coroa, e deixou a seu herdeiro um cofre com 8

milhões de táleres. Seu filho estava determinado a investir esse tesouro, não

só para aumentar seu domínio como também para lhe dar uma capital digna

de um reino de primeira classe. Um dos primeiros grandes edifícios que ele

pretendeu converter em um esplêndido fórum no coração de Berlim foi a

Ópera Estatal. Perto desta, construiu a magnífica catedral de Santa Edwiges.

Aos olhos desatentos dos turistas modernos, elas não são muito diferentes das casas de ópera e catedrais vistas em outras capitais europeias. Mas

requerem um exame mais minucioso. De maneira pouco usual no norte da

Europa, a Ópera Estatal de Berlim nunca esteve ligada a um palácio real.

Existia não para o prazer pessoal do monarca, e sim para o deleite de um

público mais amplo. A catedral de Frederico também era inusitada, já que

era uma igreja católica em uma cidade luterana – construída por um rei

agnóstico, não nas margens, de má vontade, e sim no centro da maior praça

da cidade. O pórtico da catedral é conscientemente inspirado no Panteão – o

templo de todos os deuses – da antiga Roma68. Sobrevive como um

monumento à tolerância religiosa de Frederico, o Grande.

O liberalismo dos decretos promulgados quando Frederico subiu ao trono

é impressionante até mesmo atualmente, tanto por sua absoluta tolerância

religiosa quanto por sua liberdade de imprensa irrestrita e por sua abertura

para os imigrantes. Em 1700, quase um em cada cinco berlinenses era, de

fato, um huguenote francês, vivendo em uma “colônia” francesa. Havia

também protestantes de Salisburgo, valdenses, menonitas, presbiterianos

escoceses, judeus, católicos e confessos céticos religiosos. “Aqui, todos

podem procurar salvação da maneira que lhes parecer mais apropriada”,

declarou Frederico, incluindo até mesmo os muçulmanos69. É verdade,

judeus e cristãos eram tolerados no Império Otomano, no sentido de que

podiam viver lá. Mas o status deles estava mais próximo daquele dos judeus

na Europa medieval: confinados a áreas e ocupações específicas, e

obrigados a pagar impostos mais altos70.

Estimulada pela combinação de liberdade e presença de estrangeiros, a

Prússia passou por um florescimento cultural marcado pela fundação de

novas sociedades de leitura, grupos de discussão, livrarias, publicações

periódicas e sociedades científicas. Embora o próprio Frederico professasse

o desprezo pelo próprio idioma, preferindo escrever em francês e falar em

alemão apenas com seu cavalo, seu reino viu uma explosão de novas

publicações em alemão. Foi sob seu governo que Immanuel Kant emergiu

como, talvez, o maior filósofo do século XVIII. Em sua Crítica da razão

pura (1781), investigou a própria natureza e as limitações da racionalidade

humana. Tendo vivido e trabalhado durante toda a vida na Universidade Albertina em Königsberg, Kant foi uma figura ainda mais austera que seu

rei, fazendo sua caminhada matinal com tanta pontualidade que os

moradores locais ajustavam seu relógio com base nele. Não importava nem

um pouco a Frederico que o grande pensador fosse neto de um fabricante de

selas escocês. O que importava era a qualidade de seu intelecto, e não seu

lugar de origem. Frederico também não se incomodava com o fato de que

um dos intelectuais quase à altura de Kant, Moisés Mendelssohn, fosse

judeu. O cristianismo, conforme observou o rei de maneira mordaz, estava

“cheio de milagres, contradições e absurdos, foi gerado nas imaginações

fervorosas dos orientais e então se espalhou para nossa Europa, onde alguns

fanáticos o adotaram, alguns confabuladores fingiram estar convencidos

dele e alguns imbecis de fato acreditaram nele71.

Aqui estava a própria essência daquele movimento que conhecemos como

Iluminismo, que foi, em muitos aspectos – embora não em todos –, uma

extensão da Revolução Científica. As diferenças eram duas. Primeiro, o

círculo de philosophes era mais amplo. O que estava acontecendo na

Prússia estava acontecendo em toda a Europa: editoras de livros, revistas e

jornais abasteciam um mercado expandido, graças a uma melhoria

significativa na taxa de alfabetização. Na França, a proporção de homens

capazes de assinar o próprio nome – um bom indicador de alfabetismo –

subiu de 29% nos anos 1680 para 47% nos anos 1780, embora os índices

com relação às mulheres (de 14% para 27%) permanecessem marcadamente

inferiores. Em Paris, em 1789, a taxa de alfabetização masculina girava em

torno de 90%, e a feminina, de 80%. A competição entre as instituições

protestantes e católicas, bem como o aumento da provisão estatal, os altos

índices de urbanização e a melhoria nos transportes, tudo isso tornou os

europeus mais capazes de ler. Mas o Iluminismo não foi transmitido

unicamente por meio da leitura. A esfera pública do século XVIII também

consistia de concertos para assinantes (como o de Wolfgang Amadeus

Mozart em Viena, em 1784), novos teatros e exposições de arte, sem falar

de uma rede complexa de sociedades culturais e fraternidades como as lojas

maçônicas que proliferaram nessa época. “Escrevo como um cidadão do mundo”, entusiasmou-se o poeta e dramaturgo alemão Friedrich Schiller em

1784:

 

O público, hoje, é tudo para mim: minha preocupação, meu soberano e meu amigo. A partir de

agora, eu pertenço apenas a ele. Desejo me colocar perante esse tribunal e nenhum outro. É a

única coisa que temo e respeito. Uma sensação de grandeza toma conta de mim diante da ideia de

que a única algema que uso é o veredicto do mundo – e de que o único trono ao qual devo apelar é

à alma humana72.

 

Em segundo lugar, a principal preocupação dos pensadores iluministas

não eram as ciências naturais, e sim as sociais, o que o filósofo escocês

David Hume chamou “ciências do homem”. O grau de cientificidade do

Iluminismo é questionável. O empirismo, sobretudo na França, estava em

baixa. Os cientistas do século XVII estavam interessados em descobrir

como era, de fato, o mundo natural. Já os philosophes do século XVIII

estavam mais preocupados em propor como a sociedade humana poderia ou

deveria ser. Já deparamos com Montesquieu afirmando o papel do clima na

formação da cultura política chinesa, Quesnay admirando a primazia da

agricultura na política econômica daquele país e Adam Smith

argumentando que a estagnação da China era decorrência de um comércio

exterior insuficiente. Nenhum desses homens havia estado na China. John

Locke e Claude Adrien Helvétius concordavam que a mente humana era

como uma tábula rasa, a ser formada pela educação e pela experiência. Mas

nenhum deles tinha o mínimo indício experimental que corroborasse essa

teoria. Isso, e muito mais, foi resultado de reflexão, e de uma boa dose de

leitura.

Onde o Iluminismo facilmente marcava pontos era ao contrapor a razão

às superstições associadas com a fé religiosa ou com a metafísica. Ao tratar

com desprezo o cristianismo, Frederico, o Grande, estava colocando às

claras o que Voltaire, David Hume, Edward Gibbon e outros insinuaram

mais sutilmente em seus escritos históricos ou filosóficos. O Iluminismo

sempre foi mais eficaz quando estava sendo irônico – como no capítulo de

tirar o fôlego que Gibbon escreveu sobre o início do cristianismo (volume I,

capítulo 15 de sua História do declínio e queda do Império Romano) ou em Cândido, a devastadora gozação de Voltaire sobre a afirmação de Leibniz

de que “vivemos sempre no melhor dos mundos possíveis”.73

Mas talvez a maior realização da época tenha sido a análise de Adam

Smith sobre os costumes que unem a sociedade civil (A teoria dos

sentimentos morais) e sobre a economia de mercado (A riqueza das

nações). De maneira significativa, em comparação com grande parte do que

foi escrito no período, ambos os trabalhos estiveram firmemente enraizados

em observações do mundo burguês escocês em que o autor viveu durante

toda a vida. Mas onde, claramente, a “mão invisível” do mercado teve de

ser inserida em uma rede de práticas costumeiras e de confiança mútua, os

philosophes francófonos mais radicais procuraram desafiar não só as

instituições religiosas estabelecidas como também as instituições políticas

estabelecidas. O contrato social (1762), do suíço Jean-Jacques Rousseau,

levantou dúvidas sobre a legitimidade de todo sistema político que não

fosse baseado na “vontade geral”. Nicolas de Caritat, marquês de

Condorcet, questionou a legitimidade do trabalho forçado em A escravidão

dos negros: reflexões (1781). E, se um rei prussiano podia ridicularizar a fé

cristã, o que impediria os escritores parisienses de dirigir insultos a seu

próprio monarca e a sua rainha? O Iluminismo deixava um longo rastro,

indo das alturas rarefeitas da Königsberg de Kant às profundezas insalubres

da sarjeta parisiense, lar dos chamados libelles (panfletos políticos), como a

Le Gazetier Cuirassé, editada por Charles Théveneau de Morande. Até

Voltaire ficou horrorizado com os ataques vulgares da Gazetier ao governo,

considerando-a “uma dessas obras satânicas em que todos, do monarca ao

último cidadão, são insultados com furor”74.

A ironia da consequência revolucionária – em parte intencional – do

Iluminismo é que este foi, em si mesmo, um assunto extremamente

aristocrático. Entre os adeptos estavam o barão de Montesquieu, o marquês

de Mirabeau, o marquês de Condorcet e o arquiateísta barão de Holbach.

Quanto aos philosophes provenientes das classes inferiores, todos

dependiam mais ou menos do mecenato real ou aristocrático: Voltaire, da

marquesa de Châtelet; Adam Smith, do duque de Buccleuch; Friedrich

Schiller, do duque de Württemberg; Denis Diderot, de Catarina, a Grande.

Assim como outros monarcas europeus, Frederico, o Grande, fez mais

que simplesmente libertar os intelectuais da religião e de outras limitações.

Seu mecenato foi muito além de oferecer a Voltaire um teto em Sanssouci.

Em junho de 1740 – impressionado com o modo como Maupertuis

comprovou a hipótese de Newton de que a Terra era uma esfera oblata, um

pouco achatada em ambos os polos –, Frederico convidou os franceses a

virem até Berlim e ajudarem a fundar uma equivalente prussiana da

Sociedade Real. Essa iniciativa sofreu um contratempo quando Maupertuis

foi desonrosamente aprisionado pelos austríacos durante a Primeira Guerra

Silesiana, mas o projeto sobreviveu75. Em janeiro de 1744, Frederico criou a

Academia Prussiana de Ciência e Belas-Letras, combinando uma antiga

Academia Real de Ciência e uma Sociedade Literária não governamental

fundada no ano anterior, e persuadiu Maupertuis a voltar a Berlim como seu

presidente – “a maior conquista da minha vida”, conforme afirmou o rei a

Voltaire76.

Sem dúvida, Frederico foi, ele próprio, um pensador sério. Em sua

insistência sobre a função do monarca como um servidor público, seu O

anti-Maquiavel é um documento marcadamente revolucionário:

 

a verdadeira sabedoria dos soberanos é fazer o bem e dar o exemplo em seus Estados [...] não é

suficiente que realizem ações brilhantes e satisfaçam suas ambições e glórias [...] Eles devem

preferir a felicidade da raça humana [...] Grandes príncipes sempre se esqueceram de si mesmos

em nome do bem comum [...] A um soberano impelido à guerra por sua ambição febril, é preciso

mostrar todas as consequências terríveis para seus súditos – os impostos que oprimem as pessoas

de um país, os alistamentos que levam seus jovens, as doenças contagiosas das quais tantos

soldados morrem indignamente, os cercos sanguinários, as batalhas ainda mais cruéis, os

mutilados privados de seu único meio de subsistência, e os órfãos cuja família foi arrebatada pelo

inimigo [...] Eles sacrificam por suas paixões impetuosas o bem-estar de uma infinidade de

homens a quem têm a obrigação de proteger [...] Os soberanos que tratam seu povo como escravos

arriscam a vida deles sem piedade e os veem morrer sem remorso, mas os príncipes que tratam os

homens como seus iguais e, em certos aspectos, como seus amos [comme leurs egaux et à

quelques egards [...] comme leurs maitres], são parcimoniosos com seu sangue e avaros com sua

vida77.

As composições musicais de Frederico também tinham mérito real –

sobretudo a serena “Sonata para Flauta em Dó maior”, que não é um mero

pastiche de Johann Sebastian Bach. Seus outros textos políticos estavam

longe de ser obras de um amador. Mas havia uma importante diferença

entre o Iluminismo tal como ele o concebia e a primeira Revolução

Científica. A Sociedade Real fora o centro de uma rede de comunicação

intelectual notadamente aberta. Já a Academia Prussiana foi concebida para

ser uma hierarquia, inspirada na própria monarquia absolutista. “Assim

como teria sido impossível para Newton delinear seu sistema de atração se

ele tivesse colaborado com Leibniz ou Descartes”, observou Frederico em

seu Testamento político (1752), “também é impossível que um sistema

político seja criado e sustentado se não surgir de uma única mente”78. Esse

tipo de coisa era frequente demais para que o espírito livre de Voltaire

pudesse suportar. Quando Maupertuis abusou de sua posição de autoridade

quase real para exaltar seu próprio princípio de ação mínima, Voltaire

escreveu Diatribe du Docteur Akakia, médecin du Pape, uma sátira cruel.

Este era precisamente o tipo de comportamento insubordinado que

Frederico não tolerava. Ele ordenou que os exemplares de Diatribe fossem

destruídos e deixou claro que Voltaire já não era bem-vindo em Berlim79.

Outros eram mais inclinados à submissão. Kant, que antes de se tornar

filósofo foi astrônomo, ganhou notoriedade em 1754 quando recebeu um

prêmio da Academia Prussiana por sua obra sobre o papel do atrito na

desaceleração da rotação da Terra. O filósofo mostrou sua gratidão em uma

passagem memorável de seu famoso ensaio “O que é Iluminismo?”, que

convocava todos os homens a “ousar saber!” (Sapere aude!), mas sem

desobedecer a seu rei:

 

Somente aquele que é iluminado (…) e tem um exército numeroso e disciplinado para garantir a

paz pública pode dizer: “Argumentem o quanto quiserem, e sobre o que quiserem, desde que

obedeçam!”. Uma república não ousaria dizer isso [...] Um grau maior de liberdade civil parece

vantajoso para a liberdade de pensamento, mas na realidade lhe impõe limitações intransponíveis.

Um grau menor de liberdade civil, ao contrário, proporciona à mente o espaço necessário para que

cada homem possa se desenvolver em sua plena capacidade80.

O Iluminismo da Prússia, em suma, estava associado com o pensamento

livre, e não com a ação livre. Além disso, esse pensamento livre era

concebido primordialmente para aumentar o poder do Estado. Assim como

os imigrantes contribuíram para a economia prussiana, o que permitiu o

aumento de impostos, a manutenção de um exército maior e a conquista de

mais territórios, também a pesquisa acadêmica poderia dar uma

contribuição estratégica. Pois o novo conhecimento podia fazer mais que

iluminar o mundo natural, desmistificando os movimentos dos corpos

celestes. Também tinha o potencial de determinar a ascensão e a queda dos

poderes terrenos.

Atualmente, Potsdam é só mais um subúrbio desleixado de Berlim,

poeirento no verão, sombrio no inverno, com o horizonte desfigurado por

prédios feios que carregam as marcas do “socialismo real” da Alemanha

Oriental. Na época de Frederico, o Grande, no entanto, a maioria dos

habitantes de Potsdam era composta de soldados, e quase todas as

edificações tinham algum tipo de relação com o exército ou um propósito

militar. O atual Museu do Cinema foi construído originalmente como um

laranjal, e então transformado em cocheira para a cavalaria. Numa

caminhada pelo centro da cidade, passamos pelo Orfanato Militar, pela

Praça de Desfiles e pela antiga Escola de Montaria. Na esquina da

Lindenstrasse com Charlottenstrasse, está o antigo Quartel da Guarda, cheio

de ornamentos militares. Até mesmo as casas eram construídas com um

andar adicional na parte superior para servir de alojamento aos soldados.

 

Produtividade do trabalho no exército francês.

Índice de tiro certeiro por soldado de infantaria, 1600-1750

Potsdam era a Prússia em caricatura e em miniatura. O auxiliar de

Frederico, Georg Heinrich von Berenhorst, certa vez observou, meio de

brincadeira, meio a sério: “A monarquia prussiana não é um território com

um exército, e sim um exército com um território onde está situado”81. O

exército deixou de ser apenas um instrumento do poder das dinastias;

tornou-se parte integral da sociedade prussiana. Os proprietários de terra

foram obrigados a servir como oficiais do exército, e os camponeses

fisicamente aptos ocuparam o lugar dos mercenários estrangeiros na

hierarquia militar. A Prússia era o exército – e o exército era a Prússia. No

fim do reinado de Frederico, mais de 3% da população prussiana pertencia

ao exército, mais que o dobro da proporção na França e na Áustria.

Um foco em treino e disciplina era considerado a essência do sucesso

militar prussiano. Nesse aspecto, Frederico foi o verdadeiro sucessor de

Maurício de Nassau e do rei sueco Gustavus Adolphus, os mestres da arte

da guerra no século XVII. De uniforme azul, a infantaria prussiana

marchava – como se fossem soldados mecânicos – a 90 passos por minuto,

desacelerando para 70 quando se aproximava do inimigo82. A Batalha de

Leuthen foi travada em dezembro de 1757, quando a própria existência da

Prússia esteve ameaçada por uma aliança das três grandes potências: a

França, a Áustria e a Rússia. Como de costume, a infantaria prussiana surpreendeu a longa linha austríaca, atacando em sua ala meridional e

encurralando-a. Mas então, quando os austríacos tentaram se reagrupar,

encontraram algo muito mais letal que um inimigo marchando depressa: a

artilharia. Pois a precisão fatal de sua capacidade de fogo foi tão crucial

para a ascensão da Prússia quanto a fabulosa “obediência cadavérica” de

sua infantaria83.

Nos primeiros anos, Frederico havia considerado a artilharia um “poço de

despesas”84. Mas passou a reconhecer seu valor. “Hoje estamos lutando

contra algo mais do que homens”, afirmou. “Devemos entender que o tipo

de guerra que travaremos de agora em diante será uma questão de duelos de

artilharia [...].”85 Em Leuthen, os prussianos tinham 63 canhões de

campanha e oito obuses, além de dez armas com calibre de 12 libras,

conhecidas como Brummer – “roncadores” –, devido a seu barulho

estrondoso. As baterias móveis de artilharia a cavalo criadas por Frederico

logo se tornaram um padrão europeu86. Seu desenvolvimento rápido e

concentrado em uma escala sem precedentes seria a chave das vitórias

posteriores de Napoleão Bonaparte.

Armas como essas exemplificaram a aplicação de conhecimento

científico ao domínio do poder militar. Foi um processo de competição,

inovação e progresso, que rapidamente abriu uma distância imensa entre o

Ocidente e o Oriente. Mas seus heróis continuam, em grande medida, não

celebrados.

Benjamin Robins nasceu desprovido de tudo, menos de inteligência. Sem os

meios necessários para frequentar a universidade, foi autodidata em

matemática e ganhou seu sustento como professor particular. Depois de

eleito membro da Sociedade Real aos 21 anos de idade, foi empregado pela

Companhia das Índias Orientais como oficial de artilharia e engenheiro

militar. No início dos anos 1740, Robins aplicou a física newtoniana ao

problema da artilharia, usando equações diferenciais para fornecer a

primeira verdadeira descrição do impacto da resistência do ar sobre as

trajetórias de projéteis de alta velocidade (um problema que Galileu não

fora capaz de resolver). Em Novos princípios de artilharia, publicado na

Inglaterra em 1742, Robins usou a Lei de Boyle e a proposição 39 do livro I dos Princípios de Newton (que analisa o movimento de um corpo sob a

influência de forças centrípetas), além de suas próprias observações

cuidadosas, para calcular a velocidade de um projétil quando este deixava a

boca do cano de uma arma. Então, usando seu próprio pêndulo balístico, ele

demonstrou o efeito da resistência do ar, que podia ser de até 120 vezes o

peso do próprio projétil, distorcendo completamente a trajetória parabólica

proposta por Galileu. Robins também foi o primeiro cientista a mostrar

como a rotação de uma bala de mosquete em movimento a fazia se desviar

da linha de fogo pretendida. Seu artigo “Of the Nature and Advantage of a

Rifled Barrel Piece”, que ele leu diante da Sociedade Real em 1747 – ano

em que foi premiado com a Medalha Copley –, recomendava que as balas

tivessem forma ovalada e que os canos das armas fossem estriados. A

conclusão do artigo demonstra que Robins compreendia muito bem a

importância estratégica e científica de seu trabalho:

 

todo Estado deve compreender por completo a natureza e as vantagens das peças com canos

estriados, e, ao facilitar e concluir sua construção, deve introduzir em seus exércitos seu uso geral

com uma destreza em seu manuseio; dessa forma, alcançará uma superioridade, que estará à altura

de praticamente tudo o que já se alcançou graças à excelência de um certo tipo de arma87.

 

Pois quanto mais precisa e eficaz se tornava a artilharia, menos valiosas

se tornavam as fortificações sofisticadas; e menos letais se tornavam até

mesmo os mais bem treinados regimentos de infantaria regulares.

Foram necessários apenas três anos para que Frederico, o Grande,

encomendasse uma tradução alemã dos Novos princípios de artilharia de

Robins. O tradutor, Leonard Euler, ele próprio um excelente matemático,

melhorou o original incluindo um apêndice abrangente de tabelas

determinando a velocidade, o alcance, a altitude máxima e o tempo de voo

para um projétil disparado a uma certa velocidade de saída e a um certo

ângulo de elevação88. Uma tradução francesa surgiu em 1751. Houve, é

claro, outros inovadores militares nessa época – notadamente o príncipe da

Áustria, Joseph Wenzel von Liechtenstein, e o general da França Gribeauval

–, mas é de Robins o crédito pela revolução balística do século XVIII. A ciência proporcionara ao Ocidente uma arma verdadeiramente letal: a