Civilização: Ocidente X Oriente
6 Trabalho
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Trabalho
O cristianismo vai deixar de existir. Vai definhar e desaparecer. Não preciso discutir isso; tenho razão, e o futuro vai mostrar que tenho razão. Hoje, somos mais populares que Jesus; eu não sei qual dos dois vai desaparecer primeiro – o rock and roll ou o cristianismo. Está tudo bem com Jesus, mas seus discípulos eram grosseiros e vulgares. Para mim, foram eles que arruinaram o cristianismo.
JOHN LENNON
Nos últimos 20 anos, percebemos que o cerne de nossa cultura é a religião de vocês: o cristianismo. É por isso que o Ocidente foi tão poderoso. A base moral cristã da vida social e cultural foi o que tornou possível o surgimento do capitalismo e então a transição bem-sucedida para a política democrática. Não temos dúvidas quanto a isso. MEMBRO ANÔNIMO DA ACADEMIA CHINESA DE CIÊNCIAS SOCIAIS
Ética do trabalho e ética da educação
No decurso de aproximadamente 500 anos, conforme vimos, a civilização
ocidental adquiriu uma posição de supremacia extraordinária no mundo.
Estruturas institucionais ocidentais como a corporação, o mercado e o
Estado-nação se tornaram os padrões globais para a política e a economia
competitiva – modelos a serem copiados pelo restante do mundo. A ciência
ocidental mudou os paradigmas; os outros a seguiram, ou ficaram para trás.
Os sistemas jurídicos ocidentais e os modelos políticos que daí surgiram,
inclusive a democracia, substituíram ou derrotaram as alternativas não
ocidentais. A medicina ocidental marginalizou os feiticeiros e outros
curandeiros. Acima de tudo, o modelo ocidental de produção industrial e consumo de massa deixou em dificuldade todos os modelos alternativos de
organização econômica. Nitidamente, mesmo nos anos 1990 o Ocidente
continuava sendo a civilização dominante do mundo. As cinco principais
potências ocidentais – os Estados Unidos, a Alemanha, o Reino Unido, a
França e o Canadá – eram responsáveis por 44% de toda a produção
mundial. O mundo científico foi dominado por universidades ocidentais,
cujos funcionários ficaram com a maior parte dos Prêmios Nobel e outras
distinções. Uma onda democrática varreu o mundo, sobretudo após as
revoluções de 1989. Marcas ocidentais como a Levi’s e a Coca-Cola
floresceram em toda parte; da mesma maneira, os arcos dourados do
McDonald’s eram vistos em todas as grandes cidades do mundo. Não só a
União Soviética havia ruído; o Japão, que, segundo algumas previsões,
dominaria os Estados Unidos, decaíra e mergulhara em uma década perdida
de crescimento próximo de zero e deflação. Os analistas de relações
internacionais se esforçaram para encontrar palavras grandiosas o bastante
para descrever a supremacia dos Estados Unidos, a principal potência do
mundo ocidental: um império? Um poder hegemônico? Uma
superpotência?
No momento em que escrevo este livro, após o estouro de duas bolhas
financeiras, duas guerras inesperadamente difíceis, uma grande recessão – e
sobretudo após a notável ascensão da China, que tomou o lugar do Japão
como a segunda maior economia do mundo –, a pergunta é se os 500 anos
de supremacia ocidental estão finalmente chegando ao fim.
Estamos vivendo a decadência do Ocidente? Não seria a primeira vez.
Assim Edward Gibbon descreveu a pilhagem de Roma pelos godos em
agosto de 410 d.C.:
No momento de selvageria, quando as paixões estavam inflamadas e se deixou de lado todo
comedimento [...] os romanos foram vítimas de uma carnificina cruel [...] as ruas da cidade foram
cobertas de cadáveres, que para consternação geral permaneceram sem ser enterrados [...] Sempre
que os bárbaros eram provocados pela oposição, eles estendiam o massacre promíscuo aos débeis,
aos inocentes e aos indefesos [...] As matronas e virgens de Roma foram expostas a danos mais
terríveis, temia-se mais a perda da castidade do que a própria morte [...] Os soldados cruéis
satisfaziam seus apetites sexuais sem consultar a disposição ou os deveres de suas cativas [...] Na
pilhagem de Roma, dava-se justa preferência a ouro e joias [...] mas, depois que essas riquezas
portáteis haviam sido levadas pelos usurpadores mais diligentes, os palácios de Roma foram
brutalmente despidos de seus móveis esplêndidos e caros [...]
A aquisição de riquezas só serviu para estimular a avareza dos bárbaros predadores, que
prosseguiram, com ameaças, golpes e torturas, forçando seus prisioneiros a entregarem o tesouro
escondido [...] Não foi fácil calcular a enorme quantidade de indivíduos que, de um status honrado
e uma fortuna próspera, foram subitamente reduzidos à condição miserável de cativos e exilados
[...] As calamidades de Roma [...] dispersaram os habitantes rumo aos refúgios mais solitários,
mais seguros e mais distantes 1.
Declínio e queda do Império Romano, publicado em seis volumes entre
1776 e 1788, conta a história do último momento em que o Ocidente ruiu.
Hoje, muitas pessoas no Ocidente temem que estejamos vivendo uma
espécie de sequela. Quando pensamos sobre o que causou a queda da antiga
Roma, tais medos parecem não de todo fantasiosos. Crise econômica;
epidemias que assolaram a população; imigrantes ultrapassando as
fronteiras imperiais; a ascensão de um império rival – o da Pérsia – no
Oriente; o terror personificado pelos godos de Alarico e pelos hunos de
Átila. Será possível que, depois de tantos séculos de supremacia, estejamos
enfrentando uma conjuntura similar? Em termos econômicos, o Ocidente
está estagnando em consequência da pior crise financeira desde a Grande
Depressão, enquanto muitos países de outras partes do mundo estão
crescendo em ritmos sem precedentes. Vivemos com medo de pandemias e
mudanças climáticas globais provocadas pelo homem. Há indícios
alarmantes de que algumas comunidades de imigrantes em nossa sociedade
se tornaram berços de ideologia islâmica e de redes de terroristas. Um
ataque nuclear terrorista seria muito mais devastador para Londres ou Nova
York do que os godos foram para Roma. Enquanto isso, um império rival
está em ascensão no Oriente: a China, que pode muito bem se tornar a
maior economia do mundo na próxima década.
O argumento mais provocador de Gibbon em Declínio e queda do
Império Romano é que o cristianismo foi um dos principais responsáveis
pela primeira versão da civilização ocidental. O monoteísmo, com sua
ênfase na vida após a morte, estava fundamentalmente em desacordo como o paganismo diversificado do império em seu apogeu. Mas foi uma forma
muito específica de cristianismo – a variante que surgiu na Europa
Ocidental no século XVI – que deu à versão moderna da civilização
ocidental a sexta das vantagens essenciais sobre o restante do mundo: o
protestantismo – ou melhor, a ética peculiar de trabalho duro e prosperidade
com a qual ele veio a ser associado. É hora de entender o papel que Deus
desempenhou na supremacia do Ocidente, e de explicar por que, no fim do
século XX, tantos ocidentais viraram as costas para Ele.
Se você fosse um próspero industrial vivendo na Europa no fim do século
XIX, haveria uma chance desproporcional de que fosse protestante. Desde a
Reforma, que levara muitos Estados do norte da Europa a se afastarem da
Igreja Católica Romana, o poder econômico havia passado de países
católicos, como a Áustria, a França, a Itália, a Espanha e Portugal, para
países protestantes, como a Inglaterra, a Holanda, a Prússia, a Saxônia e a
Escócia. Era como se as formas de fé e de culto estivessem, de algum
modo, relacionadas com a fortuna econômica das pessoas. A pergunta era: o
que havia de diferente no protestantismo? O que havia nos ensinamentos de
Lutero e de seus sucessores que encorajou as pessoas não só a trabalhar
duro como também a acumular capital? O homem que deu a resposta mais
influente a essas perguntas foi um professor alemão depressivo chamado
Max Weber – o pai da sociologia moderna e o autor que cunhou o termo
“ética protestante”.
Weber foi um jovem precoce. Cresceu em Erfurt, um dos baluartes da
Reforma alemã, e, aos 13 anos de idade, deu a seus pais de presente de
Natal um ensaio intitulado “Sobre o curso da história alemã, com especial
referência às posições do imperador e do papa”. Aos 14, já escrevia cartas
cheias de referências a autores clássicos, de Cícero a Virgílio, e era um
grande conhecedor da filosofia de Kant e de Espinosa, entre outros. No
início, sua carreira acadêmica foi uma sequência de triunfos: aos 22, ele já
havia se tornado advogado. Três anos depois, obteve um doutorado por uma
tese sobre “A história das organizações de negócios medievais” e, aos 27,
sua especialização em “História agrária romana e sua importância para o
direito privado” lhe garantiu um cargo de professor-assistente na Universidade de Berlim. Aos 30, foi nomeado professor de economia em
Freiburg, ganhando fama e notoriedade por sua aula inaugural, que
convocava a um imperialismo alemão mais ambicioso.
Essa trajetória de ascensão acadêmica foi dolorosamente interrompida em
1897, quando Weber sofreu um colapso nervoso paralisante, precipitado
pela morte do pai após uma briga ferrenha entre os dois. Em 1899, ele se
sentiu obrigado a renunciar a seu posto acadêmico. Passou três anos se
recuperando, e nesse período se tornou cada vez mais preocupado com a
religião e sua relação com a vida econômica. Seus pais haviam sido
protestantes; de fato, seu avô materno fora um calvinista devoto, e seu outro
avô, um próspero comerciante de linho. Sua mãe fora uma verdadeira
calvinista em seu ascetismo; seu pai, ao contrário, fora um bon-vivant,
vivendo a vida totalmente graças a uma fortuna herdada. A relação entre a
religião e a vida econômica era o enigma no cerne da existência do próprio
Weber. Qual de seus pais tinha a atitude correta para com a riqueza
mundana?
Até a Reforma, a devoção religiosa cristã fora vista como algo distinto
das questões materiais do mundo. Emprestar dinheiro cobrando juros era
pecado. Os homens ricos eram menos propensos do que os pobres a entrar
no Reino do Céu. As recompensas para uma vida devota estavam na vida
após a morte. Tudo isso havia mudado após os anos 1520, pelo menos nos
países que abraçaram a Reforma. Refletindo sobre sua própria experiência,
Weber começou a se perguntar o que havia na Reforma que fez que o norte
da Europa fosse mais receptivo ao capitalismo do que o sul. Foi necessária
uma viagem transatlântica para que ele encontrasse a resposta.
Em 1904, Weber viajou a St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, para
participar do Congresso de Artes e Ciências da Exposição Universal2. O
parque que abrigou a Exposição tinha mais de 200 acres, e parecia estar
transbordando com tudo que o capitalismo norte-americano tinha para
oferecer. Weber ficou fascinado com as luzes brilhantes do Palácio da
Eletricidade. O rei da corrente direta, o próprio Thomas Edison, estava
presente, a personificação do empreendedorismo norte-americano. St. Louis
estava repleta das maravilhas da tecnologia moderna, de aparelhos de telefone a filmes de cinema. O que poderia explicar o dinamismo dessa
sociedade, que fez até mesmo a Alemanha industrial parecer calma e lenta?
Com inquietude quase maníaca, Weber percorreu os Estados Unidos à
procura de uma resposta. Uma caricatura do professor alemão distraído, ele
causou uma forte impressão em suas primas norte-americanas Lola e
Maggie Fallenstein, que ficaram especialmente impressionadas com seu
traje um tanto estranho, um terno xadrez marrons com calças de golfe e
meias marrons até os joelhos. Mas aquilo não era nada em comparação com
a impressão que a América causou em Weber. Viajando de trem de St.
Louis a Oklahoma, passando por pequenas cidades do Missouri como
Bourbon e Cuba, Weber finalmente entendeu:
Esse tipo de lugar é mesmo uma coisa incrível: acampamentos de trabalhadores, sobretudo
acantonamentos para as numerosas ferrovias em construção; “ruas” em um estado natural,
normalmente besuntadas com petróleo duas vezes a cada verão para evitar a poeira, e com o cheiro
característico; igrejas de madeira de pelo menos 4-5 denominações [...] Soma-se a isso o
emaranhado usual de linhas de telégrafo e de telefone, e ferrovias elétricas em construção, para
que a “cidade” se estenda pela distância sem limites3.
A pequena cidade de St. James, cerca de 800 quilômetros a oeste de St.
Louis, é típica dos milhares de novos assentamentos que brotaram ao longo
das ferrovias à medida que estas se espalharam para o oeste dos Estados
Unidos. Quando Weber passou por ela há cem anos, ficou maravilhado com
o grande número de igrejas e capelas de todo tipo. Com a extravagância
industrial da Exposição Universal ainda fresca em sua memória, ele
começou a identificar uma espécie de aliança sagrada entre o sucesso
material dos Estados Unidos e sua vida religiosa vibrante.
Quando Weber voltou a seus estudos em Heidelberg, escreveu a segunda
e última parte de seu ensaio “A ética protestante e o espírito do
capitalismo”, que contém um dos mais influentes de todos os argumentos
sobre a civilização ocidental: que seu dinamismo econômico foi uma
consequência não intencional da Reforma Protestante. Enquanto outras
religiões associaram a sacralidade com a renúncia aos bens materiais –
monges em mosteiros, ermitões em cavernas –, as seitas protestantes viam os negócios e a prosperidade como manifestações de um novo tipo de
divindade trabalhadora. O “chamado” capitalista era, em outras palavras,
religioso em sua origem: “Para alcançar [...] autoconfiança [de que se é um
dos Eleitos], recomenda-se intensa atividade material [...] [Desse modo] o
ascetismo cristão [...] avançava para o mercado da vida”4. “O trabalho
incansável”, como Weber o chamava, era o sinal mais claro de que você era
um dos eleitos, isto é, de que pertencia àquele grupo seleto de pessoas
predestinadas por Deus à salvação. O protestantismo, segundo argumentou,
“tem o efeito de liberar a aquisição de riquezas das inibições da ética
tradicional; rompe as amarras daqueles que aspiram ao lucro, não só por
legalizá-lo, mas [...] por entendê-lo como um desejo direto de Deus”. Além
disso, a ética protestante forneceu ao capitalismo “trabalhadores sóbrios,
conscientes e extraordinariamente capazes, que se dedicavam ao trabalho
como a um propósito de vida desejado por Deus”5. Durante a maior parte da
história, os homens haviam trabalhado para viver. Mas os protestantes
viviam para trabalhar. Foi essa ética do trabalho, segundo Weber, que deu
origem ao capitalismo moderno, que ele definiu como “sóbrio capitalismo
burguês, com sua organização racional do trabalho livre”6.
A tese de Weber não estava isenta de problemas. Ele via a “conduta
racional com base na ideia do chamado” como “um dos elementos
fundamentais do espírito do capitalismo moderno”7. Mas, em outras partes,
reconhecia o caráter irracional do “ascetismo cristão”: “O tipo ideal de
empreendedor capitalista [...] não obtém nada de sua riqueza para si mesmo,
exceto a sensação irracional de ter feito bem o seu trabalho”; ele “existe
para o bem de seu negócio, e não o contrário”, o que, “do ponto de vista da
felicidade pessoal” era, mais uma vez, “irracional”8. Ainda mais
problemática era sua alusão mordaz aos judeus, que apresentava a exceção
mais óbvia a seu argumento.9 “Os judeus”, de acordo com Weber,
“defendiam um capitalismo aventureiro, de orientação política e
especulativa; seu ethos era [...] o do capitalismo pária. Só o puritanismo
carregava o ethos da organização racional do capital e do trabalho”10. Weber
também foi misteriosamente cego para o sucesso de empreendedores
católicos na França, na Bélgica e em outros lugares. De fato, a manipulação dos indícios é um dos defeitos mais visíveis de seu ensaio. As palavras de
Martinho Lutero e a Confissão de Fé de Westminster se encontram
constrangedoramente ao lado de citações de Benjamin Franklin e de alguns
dados do estado alemão de Baden, notadamente insatisfatórios, sobre nível
de educação e de renda de católicos e protestantes. Estudiosos posteriores,
em especial o historiador econômico fabiano R. H. Tawney, tenderam a
colocar em dúvida o argumento implícito de Weber de que o
comportamento econômico era consequência da doutrina religiosa11. Ao
contrário, grande parte dos primeiros passos em direção a um espírito
capitalista ocorreu antes da Reforma, nas cidades da Lombardia e de
Flandres, ao passo que muitos reformadores importantes expressaram
opiniões marcadamente anticapitalistas. Um grande estudo empírico de 276
cidades alemãs entre 1300 e 1900 não encontrou “nenhum efeito do
protestantismo sobre o crescimento econômico”, pelo menos segundo
indicado pelo aumento de tamanho das cidades12. Alguns estudos
comparados entre países chegaram a conclusões similares13.
No entanto, há razões para pensar que Weber havia descoberto alguma
coisa, ainda que estivesse certo pelos motivos errados. Após a Reforma,
houve de fato, conforme ele presumiu, uma clara tendência dos países
protestantes da Europa a crescerem mais rapidamente que os católicos, de
modo que, em 1700, os primeiros haviam superado os últimos em renda per
capita, e em 1940 os habitantes dos países católicos eram, em média, 40%
mais pobres que os dos países protestantes14. As antigas colônias
protestantes também tiveram melhor desempenho econômico que as
católicas desde os anos 1950, embora a religião não seja uma explicação
suficiente para essa diferença15. Devido à importância central que a leitura
individual da Bíblia ocupa no pensamento de Lutero, o protestantismo
encorajou a alfabetização, sem falar da imprensa, e essas duas coisas sem
dúvida impulsionaram o desenvolvimento econômico (a acumulação de
“capital humano”), bem como o estudo científico16. Essa proposição é
válida não só para países como a Escócia, onde os índices de alfabetização,
matrícula em escolas e gastos em educação eram excepcionalmente altos,
como também para o mundo protestante como um todo. Aonde quer que fossem os missionários protestantes, eles promoviam a alfabetização, com
benefícios mensuráveis a longo prazo para as sociedades que procuraram
educar; não se pode dizer a mesma coisa dos missionários católicos durante
o período que vai da Contrarreforma às reformas do Concílio Vaticano II
(1962-5)17. Foram os missionários protestantes os responsáveis pelo fato de
as taxas de matriculados nas escolas das colônias britânicas serem, em
média, quatro ou cinco vezes mais altas que as das colônias de outros
países. Em 1941, mais de 55% das pessoas na atual Kerala eram
alfabetizadas, uma proporção mais alta que em qualquer outra parte da
Índia, quatro vezes mais alta que a média indiana e comparável com as
taxas de países europeus mais pobres como Portugal. Isso porque os
missionários protestantes foram mais ativos em Kerala, atraídos por sua
antiga comunidade cristã, do que em qualquer outra parte da Índia. Nas
áreas das colônias britânicas onde os missionários protestantes não
estiveram presentes (por exemplo, em regiões ou protetorados muçulmanos
como Butão, Nepal e Siquim), as pessoas não apresentaram um índice mais
alto de educação18. O nível de atividade missionária protestante também se
mostrou um bom indicador de desempenho econômico e estabilidade
política após a independência. Pesquisas de atitude recentes mostram que os
protestantes apresentam níveis de confiança mútua atipicamente altos, uma
precondição importante para o desenvolvimento de redes de crédito
eficientes19. De maneira mais geral, a crença religiosa (em oposição à
observância formal) de todo tipo parece estar associada com crescimento
econômico, em particular onde os conceitos de céu e inferno fornecem
incentivos para o bom comportamento neste mundo. Isso tende a significar
não só trabalho duro e confiança mútua como também parcimônia,
honestidade e franqueza com estranhos, todas elas características
economicamente benéficas20.
As religiões importam. Nos capítulos anteriores, vimos como a “ética da
estabilidade” do confucionismo desempenhou um papel na incapacidade da
China para desenvolver o tipo de sistema institucional competitivo que
promoveu a inovação na Europa Ocidental – ainda que a China estivesse
longe da sociedade estática e imutável descrita por Weber em Confucionismo e taoismo (1916), sua sequência a A ética protestante.