Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 18 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Médecins sans frontières

século XIX, a expectativa de vida no Senegal ficava entre 20 e 25 anos60.

Portanto, a África seria o terreno de prova derradeiro para o quarto atributo

da civilização ocidental: a capacidade da medicina moderna de prolongar a

vida humana.

 

Médecins sans frontières

 

Não sem motivo, a África Ocidental ficou conhecida como o cemitério do

homem branco: em toda a África, o projeto colonial europeu correu o risco

de ser extinto em sua infância. Uma boa ilustração dos riscos que os

europeus corriam na África é o monumento na Ilha de Gorée aos 21

médicos franceses que pereceram de um surto de febre amarela em 1878.

As doenças tropicais afetavam gravemente os servidores públicos da

colonização francesa; entre 1887 e 1912, um total de 135 dos 984 nomeados

(16%) morreram nas colônias. Em média, os administradores coloniais

aposentados morriam sete anos mais cedo que seus pares no governo

metropolitano. Até 1929, quase um terço dos 16 mil europeus que viviam

nas colônias francesas da África Ocidental era hospitalizado, em média,

durante 14 dias por ano61. As coisas não eram muito melhores na África

britânica. A taxa de mortalidade entre os soldados britânicos em Serra Leoa

era a pior em todo o Império Britânico, 30 vezes mais alta que para os

soldados que ficavam em casa. Se índices similares tivessem persistido, a

colonização da África pelos europeus certamente teria sido abandonada.

Como todas as boas administrações coloniais, a francesa mantinha

registros impecáveis. Nos Arquivos Nacionais em Dacar, ainda é possível

encontrar detalhes de todas as epidemias relatadas para cada doença que

acometeu os territórios franceses na África Ocidental: febre amarela no

Senegal, malária na Guiné, lepra na Costa do Marfim. Boletins de saúde,

leis de saúde, missões de saúde – a saúde, ao que parece, era uma obsessão

para os franceses. E por que não? Era preciso encontrar uma maneira de

manter essas doenças sob controle. Conforme Sir Rubert William Boyce

afirmou em 1910, a condição para a presença europeia nos trópicos se resumia nestes termos: “Mosquito ou homem”. “O futuro do imperialismo”,

nas palavras de John L. Todd, “reside no microscópio.”62 Mas os principais

avanços não seriam feitos nos laboratórios impecáveis das empresas

farmacêuticas e universidades ocidentais.

Em setembro de 1903, a revista satírica Punch publicou uma ode dos

insones aos estudiosos das doenças tropicais:

 

Homens de ciência, vocês que têm a audácia

De desafiar o micróbio em seu refúgio

Procurando pela densa floresta

O germe africano da Doença do Sono

Escutem, ah, escutem, minha última súplica

Enviem 63 um micróbio para mim !

 

Não era nenhuma fantasia imaginar os homens da ciência trilhando a

selva. Os pesquisadores de doenças tropicais instalaram laboratórios nas

colônias africanas mais remotas – o estabelecido em Saint-Louis em 1896

esteve entre os primeiros. Eles fizeram ensaios clínicos de vacinas com os

animais mantidos lá: 82 gatos receberam vacina contra disenteria e 11

cachorros contra tétano. Outros laboratórios investigaram cólera, malária,

raiva e varíola. Tais esforços tiveram suas origens no trabalho pioneiro

sobre germes desenvolvido por Louis Pasteur nos anos 1850 e 1860.

O Império inspirou uma geração de médicos europeus inovadores. Foi na

Alexandria, em 1884, que o bacteriologista alemão Robert Koch – que já

havia isolado o anthrax e os bacilos da tuberculose – descobriu a Vibrio

cholerae, a bactéria que transmite cólera, que no ano anterior havia matado

Louis Thuillier, o rival francês de Koch. Foi após um surto em Hong Kong

em 1894 que outro francês, Alexandre Yersin, identificou o bacilo

responsável pela peste bubônica64. Foi um médico no Serviço Médico

Indiano, Ronald Ross, quem pela primeira vez explicou em detalhes a

etiologia da malária e o papel do mosquito anopheles em sua transmissão;

ele próprio sofreu da doença. Foram três cientistas holandeses trabalhando

em Java – Christiaan Eijkman, Adolphe Vorderman e Gerrit Grijns – que

descobriram que o beribéri era causada por uma deficiência nutricional no arroz branco (a carência de vitamina B1). Foi de um italiano, Aldo

Castellani, a pesquisa em Uganda que identificou o protozoário

tripanossoma na mosca tsé-tsé, responsável pela doença do sono. E foi a

equipe de pesquisadores de Jean Laigret, do Instituto Pasteur em Dacar, a

primeira a conseguir isolar o vírus da febre amarela e vislumbrar uma

vacina que poderia ser administrada de maneira simples – por método de

escarificação –, sem a necessidade de agulhas e seringas esterilizadas, mais

tarde aprimorada para produzir a vacina Peltier-Durieux, que também

oferecia proteção contra a varíola65. Esses e outros avanços, concentrados

no período que vai da década de 1880 à de 1920, mostraram-se cruciais

para manter os europeus, e portanto o projeto colonial, vivos nos trópicos.

A África e a Ásia haviam se tornado laboratórios gigantes para a medicina

moderna66. E, quanto mais bem-sucedida a pesquisa – quanto mais remédios

(como o quinino, cujas propriedades antimalária foram descobertas no

Peru) pudessem ser descobertos –, mais os impérios ocidentais podiam se

espalhar e, com eles, o benefício supremo de vida humana mais longa.

No início, a colonização da África esteve limitada a assentamentos

costeiros. Mas, com o advento de outro progresso ocidental – a

mecanização da mobilidade –, pôde se espalhar para o interior. Ferrovias

como a que vai de Dacar a Bamako, em Mali, foram vitais para o projeto

imperial ocidental. “A civilização se espalha e cria raízes ao longo dos

caminhos de comunicação”, declarou Charles de Freycinet, o ministro de

Obras Públicas da França, em 1880. “A África, abrindo-se diante de nós,

demanda nossa especial atenção.”67 Após a criação, em 1895, da Federação

da África Ocidental Francesa (Afrique Occidentale Française), que se

estendia para além de Tombuctu, até o Níger, e expandia o governo francês

para mais de 10 milhões de africanos, este se tornou um dos leitmotivs do

governo francês. Nas palavras de Ernest Roume, o primeiro governador da

Federação:

 

Desejamos abrir verdadeiramente à civilização as imensas regiões que a perspicácia de nossos

estadistas e a bravura de nossos soldados e exploradores nos legaram [...] A condição necessária

para alcançar esse objetivo é a criação de linhas de penetração, um meio de transporte perfeito

para compensar a ausência de meios naturais de comunicação que mantiveram este país na

pobreza e no barbarismo [...] A verdadeira atividade econômica não pode nem sequer ser

concebida sem ferrovias. É, portanto, nosso dever [...] como nação civilizada tomar as medidas

que a própria natureza impõe e que são as únicas eficazes [...] É, hoje, convicção de todos que

nenhum progresso material ou moral em nossas colônias africanas é possível sem ferrovias.68

 

As ferrovias ajudaram a impor o domínio europeu ao interior africano.

Mas espalharam duas outras coisas: não só o comércio de amendoim e

borracha, como também o conhecimento médico ocidental. Pois, sem

melhorias na saúde pública, as ferrovias terminariam espalhando doenças,

aumentando assim o perigo de epidemias. Isso seriam os Médicos sem

Fronteiras ao estilo novecentista. Os benefícios foram muitas vezes

negligenciados por aqueles, como Gandhi, que afirmavam que os impérios

europeus não tinham nenhuma característica redentora.

À destruição das estruturas de poder nativas seguiu-se uma tentativa de

destruir as superstições nativas. Hoje, a aldeia de Jajak é notável porque

tem nada menos que três curandeiros tradicionais, um deles uma mulher

idosa chamada Han Diop. As pessoas vêm de quilômetros de distância para

consultá-la e, conforme me contou quando a visitei em Jajak, em 2010, ela

é capaz de curar qualquer coisa, de asma a dor de cotovelo, com remédios à

base de ervas e uma pitada de profecia. Esse tipo de medicina vem sendo

praticado pelos africanos há centenas, talvez milhares de anos. É um dos

motivos pelos quais a expectativa de vida na África permanece tão inferior

à do Ocidente. As ervas e os feitiços são notadamente ineficazes contra a

maioria das doenças tropicais.

Em 1897, as autoridades coloniais francesas baniram os curandeiros. Sete

anos depois, foram além, criando planos para o primeiro serviço de saúde

nacional africano, a Assistance Médicale Indigène. Os franceses não só

estenderam seu sistema de saúde pública a toda a África Ocidental

Francesa; em fevereiro de 1905, o governador-geral Roume emitiu uma

ordem criando um serviço gratuito de saúde para a população nativa, algo

que não havia na França. Daí em diante, os “postos de saúde” nas

localidades tornariam a medicina moderna disponível a todos os africanos

sob o governo francês69. Dirigindo-se à Assembleia Nacional em 1884, o

primeiro-ministro Jules Ferry resumira um novo estado de ânimo:

 

Cavalheiros, devemos falar com mais clareza e honestidade! Devemos dizer abertamente que, de

fato, as raças superiores têm um direito sobre as raças inferiores [...] Eu repito, as raças superiores

têm um direito porque elas têm um dever. Elas têm o dever de civilizar as raças inferiores [...] Na

história dos primeiros séculos, esse dever, cavalheiros, foi muitas vezes mal-entendido; e

certamente, quando os soldados e exploradores espanhóis introduziram a escravidão na América

Central, eles não cumpriram com seu dever como homens de uma raça superior [...] Mas, em

nossa época, eu insisto que as nações europeias se familiarizem com a generosidade, com a

grandeza e com a sinceridade desse dever civilizatório superior. 70

 

Isso era muito diferente do estilo indireto de governo cada vez mais

favorecido na África britânica. Nas palavras de Robert Delavignette, um

administrador colonial experiente e diretor da École Coloniale:71

 

O representante dos poderes da República de Dacar, um membro da maçonaria francesa e do

partido Radical Socialista, será, na África, diante da primeira dificuldade, um governador

autoritário, e usará métodos autocráticos de governo para conduzir os nativos ao progresso [...]

Muitos administradores quiseram tratar os senhores feudais [isto é, os chefes nativos] da mesma

maneira que os havíamos tratado durante a Revolução Francesa. Ou destruí-los ou usá-los para

nossos propósitos. Os administradores britânicos tiveram mais compaixão pelos senhores feudais;

era a aristocracia respeitando a aristocracia.72

 

Aos olhos de William Ponty, governador-geral da África Ocidental

Francesa entre 1908 e 1915, as instituições africanas tradicionais eram o

principal obstáculo entre seu povo e a civilização que ele estava tentando

disseminar. Os chefes tribais, conforme declarou Ponty, “não passavam de

parasitas”. “Nós não levamos os senhores feudais muito a sério”, recordou

um administrador colonial dos anos 1920. “Nós os consideramos um tanto

ridículos. Depois da Revolução Francesa, não se pode esperar que voltemos

à Idade Média.”73 Delavignette pensava de maneira similar. No império

revolucionário com o qual ele sonhava, os heróis eram os “camponeses

negros”, o título de seu premiado romance de 1931. Nas palavras do

primeiro socialista a assumir o Ministério de Colônias, Marius Moutet, o

objetivo da política francesa era “considerar a aplicação dos grandes princípios da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão aos países

além-mar”.74

Hoje, é fácil desprezar tais aspirações, considerando-as produto da

insuportável arrogância gálica. Mas não há dúvida de que aqui, como em

toda parte, o império ocidental promoveu um progresso real e mensurável.

Após a introdução da vacinação obrigatória em 1904, a varíola foi

significativamente reduzida no Senegal. Em apenas quatro anos entre 1925

e 1958 o número de casos excedeu 400 por ano75. A malária também foi

contida por meio da destruição sistemática dos criadouros pantanosos dos

mosquitos e por meio do isolamento das vítimas, bem como pela

distribuição gratuita de quinino76. A epidemia de febre amarela também se

tornou menos frequente no Senegal após a introdução de uma vacina eficaz.

A Partilha da África se tornou sinônimo de divisão cruel de um

continente inteiro por europeus opressores. Seu clímax grotesco foi o

incidente de Fachoda, quando expedições francesas e britânicas rivais

convergiram na cidade de Fachoda (atual Kodok), na província de Bahr-el-

Ghazal, no leste do Sudão. Os franceses, liderados pelo major Jean-Baptiste

Marchand, sonhavam com uma linha de Dacar a Djibuti (então a

Somalilândia francesa), ligando o Níger ao Nilo e criando uma cadeia

ininterrupta de controle francês do Senegal à costa do mar Vermelho. Os

britânicos, liderados por Sir Herbert (mais tarde Lorde) Kitchener, viram o

controle do Sudão como a chave para uma linha britânica comparável

estendendo-se de norte a sul, do Cairo ao Cabo. O confronto veio em 18 de

setembro de 1898, no ponto em que essas duas linhas se cruzavam. Embora

o número de homens fosse absurdamente pequeno – Marchand foi

acompanhado de 12 oficiais franceses e 150 tirailleurs – e o ponto de

discórdia um extremamente desolado pântano de junco, lodo e peixe morto,

Fachoda colocou a Grã-Bretanha e a França à beira de uma guerra77.

Mas a luta pela África também foi uma luta por conhecimento científico,

e esta foi tanto colaborativa quanto competitiva, com benefícios inegáveis

para os nativos e também para os europeus. O bacteriologista, muitas vezes

arriscando a própria vida para encontrar a cura para afecções letais, foi

outro tipo de herói imperial, tão corajoso, à sua maneira, quanto o soldado explorador. Nesse momento, toda potência europeia com ambições

imperiais sérias precisava ter um instituto de medicina tropical: o Instituto

Pasteur em Paris, fundado em 1887, foi posteriormente igualado pelas

escolas de medicina tropical de Londres e de Liverpool (1899) e pelo

Instituto de Marinha Mercante e Doenças Tropicais (1901), com sede em

Hamburgo.

No entanto, esses avanços encontraram limites. Em 1914, ainda havia

menos de cem médicos disponíveis nos postos de saúde rural no Senegal.

Mesmo mais recentemente, em 1946, havia apenas 152 postos de saúde em

toda a África Ocidental Francesa. No Congo francês, o posto em Stanley

Pool (mais tarde Brazzaville) deveria supostamente atender 80 mil pessoas

com um orçamento anual de apenas 200 francos. Quando o escritor André

Gide visitou a região, em 1927, disseram-lhe que se “o serviço médico

recebe solicitação de medicamentos, geralmente envia, depois de muita

demora, nada além de iodo, sulfato de soda e – ácido bórico!”. Essa

“lamentável penúria” fez com que “doenças que poderiam ser detectadas

facilmente [...] persistissem e até mesmo ganhassem terreno”78. Isso foi, em

parte, uma questão de realidade econômica. A própria França ainda estava

muito longe de ter um sistema de saúde universal. Simplesmente não havia

recursos disponíveis para enviar médicos e vacinas às aldeias isoladas do

interior do Senegal ou do Congo. Mas também foi uma questão de

prioridades. Os institutos de pesquisa ocidentais quase sempre estavam

mais interessados nas doenças que afetavam mais gravemente os europeus –

sobretudo a malária e a febre amarela – do que no cólera e na doença do

sono, as principais causas de morte dos africanos.

Originalmente, a missão civilizatória francesa havia se baseado na ideia

revolucionária de cidadania universal. Mas, à medida que o Império

Francês se expandiu, essa ideia recuou. Em teoria, um sujet da África

Ocidental ainda poderia se tornar um citoyen. Na prática, poucos eram

considerados elegíveis (por exemplo, praticar poligamia era considerado

uma desqualificação). Ainda em 1936, da população total de 15 milhões da

África Ocidental Francesa, havia apenas 2.136 cidadãos franceses fora das

quatro comunas costeiras79. A segregação residencial se tornou a norma (separando o “Plateau” europeu da “Médina” africana em Dacar, por