Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 22 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Tornando-se ocidental

somaram 453 milhões de dólares; as dos Estados Unidos, apenas 8,5

milhões de dólares. Mas, talvez, a estatística mais surpreendente de todas é

que, naquela época, o segundo maior exportador de produtos de algodão era

um país não ocidental – o primeiro membro do Resto a encontrar uma

forma de competir com o Ocidente. Esse país era o Japão52.

 

Tornando-se ocidental

 

Em 1910, o mundo estava economicamente integrado de uma forma jamais

vista. Os diferentes laços que o conectavam – ferrovias, rotas de navios a

vapor e linhas de telégrafos – foram quase todos inventados pelo Ocidente e

pertencentes ao Ocidente. O Ocidente encolheu o mundo. Se todas as

ferrovias dos Estados Unidos tivessem sido enfileiradas, o comprimento

teria sido 13 vezes a circunferência da Terra. Um homem podia viajar de

Versalhes a Vladivostok de trem. E as melhorias contínuas nos navios a

vapor – propulsão por hélice, cascos de ferro, motores compostos e

condensadores de superfície – tornaram a travessia oceânica mais rápida e

mais barata que a terrestre. A tonelagem bruta do Mauretania (1907) era 46

vezes a do Sirius (1838), mas a potência de seus motores era 219 vezes

maior, de modo que era três vezes mais rápido e atravessava o Atlântico

com uma carga muito maior, levando nove dias e meio em vez de 1653. Os

custos de frete marítimo caíram em mais de um terço entre 1870 e 1910.

Custava oito xelins enviar uma tonelada de produtos de algodão por

ferrovia de Manchester a Liverpool, a apenas 50 quilômetros de distância,

mas apenas 30 xelins para enviar os mesmos produtos para Bombaim,

11.650 quilômetros mais longe. O custo do transporte marítimo de roupas

equivalia a menos de 1% do custo dos produtos. A abertura do canal de

Suez (1869) e do canal do Panamá (1914) encolheu o mundo ainda mais, o

primeiro encurtando a rota Londres-Bombaim em mais de dois quintos, o

segundo reduzindo em um terço o custo do transporte do Oriente à costa

ocidental dos Estados Unidos54. No fim da década de 1860, graças à

introdução do revestimento de guta-percha, tornou-se possível instalar cabos submarinos e enviar telegramas de Londres a Bombaim ou a

Halifax55. A notícia da Revolta dos Sipaios, na Índia, levou 46 dias para

chegar a Londres em 1857, viajando a uma velocidade efetiva de seis

quilômetros por hora. As notícias do enorme terremoto de Nobi no Japão,

em 1891, levaram um único dia, viajando a 395 quilômetros por hora, 65

vezes mais rápido56.

A mão de obra fluía entre fronteiras como em nenhum momento anterior.

Entre 1840 e 1940, cerca de 58 milhões de europeus migraram para as

Américas, 51 milhões de russos para a Sibéria, para a Ásia Central e para a

Manchúria, e 52 milhões de indianos e chineses para o sudeste da Ásia, para

a Australásia ou para a costa do oceano Índico57. Por volta de 2,5 milhões

de migrantes do Sul e do Leste da Ásia também viajaram para as Américas.

Em 1910, um em cada sete da população norte-americana era estrangeiro,

um recorde que ainda está por ser quebrado58. O capital também fluía pelo

globo. A Grã-Bretanha era o banqueiro mundial, exportando quantidades

prodigiosas de capital ao restante do mundo; talvez os homens da época

devessem ter valorizado o “excesso de poupança” inglês em vez de se

queixar do imperialismo. No auge dos booms de investimento ultramarino –

1872, 1887 e 1913 –, o superávit de contas correntes da Grã-Bretanha

excedeu 7% do PIB59. As empresas britânicas estavam prontas para exportar

não só algodão, como também o maquinário para manufaturar algodão e o

capital necessário para comprá-lo.

Mas talvez a expressão mais notável dessa primeira globalização tenha

sido a indumentária. Com extraordinária velocidade, um modo de se vestir

que era marcadamente ocidental se espalhou para o restante do mundo,

consignando a vestimenta tradicional ao baú de disfarces da história.

Certamente, essa não foi a intenção manifesta da Singer Manufacturing

Company. Para a Feira Mundial “Grã-Colombiana” de 1892, em Chicago –

o 400o aniversário da descoberta do Novo Mundo –, Singer encomendou

uma série de 36 cartões comerciais chamados “Trajes do Mundo”, que

representavam pessoas de todas as cores, todas elas usando roupas

tradicionais, felizes por usar máquinas Singer. De um avental húngaro a um

quimono japonês,60 qualquer tipo de traje podia se beneficiar de ser costurado no devido tempo sob o característico metal arm de uma Singer.

Tanto os bósnios quanto os birmaneses foram beneficiários da

engenhosidade de Isaac Merritt; todos, de fato, da Argélia à Zuzulândia.

Não é de admirar que uma Singer tenha se tornado o presente escolhido

para potentados estrangeiros como o rei do Sião, dom Pedro II do Brasil e o

imperador japonês Hirohito. Mas aqui a história toma outro rumo. Longe de

usar suas máquinas Singer para confeccionar roupas tradicionais, os

presenteados, agradecidos, as usaram para um propósito completamente

diferente – isto é, para copiar e usar roupas ocidentais. As principais foram,

para os homens, a sobrecasaca, a camisa branca de colarinho gomado, o

chapéu de feltro e a bota de couro; e, para as mulheres, o espartilho, a

anágua e o vestido na altura do tornozelo.

Em 1921, dois herdeiros reais e imperiais – o príncipe Hirohito, do Japão,

futuro imperador Shōwa, e Eduardo, príncipe de Gales, o futuro Eduardo

VIII – posaram lado a lado para um fotógrafo. O trono que eles estavam

prestes a herdar quase não podia ser geograficamente mais distante. Mas ali

estavam ambos, na escadaria da Henry Poole & Co., a alfaiataria da Savile

Row,61 vestidos de maneira mais ou menos idêntica. O príncipe japonês

estava em Londres em uma viagem de compras pré-nupcial. Um

representante da Henry Poole já havia velejado até Gibraltar para tomar

suas medidas, que foram então telegrafadas a Londres. O livro contábil da

Henry Poole para o ano em questão mostra o enorme pedido feito em nome

de Hirohito: uniformes militares, coletes bordados, meias-casacas, fraques.

Em uma típica linha na lista, lemos: “um terno elegante de cashmere, um

terno de tecido azul, e um terno de flanela listrada”62. Hirohito estava longe

de ser o único dignitário estrangeiro no mercado para um terno inglês

confeccionado com perfeição. Preservados no porão da Henry Poole há

milhares de moldes de ternos para clientes que iam do último imperador da

Etiópia, Haile Selassie, ao último czar da Rússia, Nicolau II. O cliente mais

fiel de Poole era Jitendra Narayan, marajá de Cooch Behar, que, no decorrer

de sua vida, comprou mais de mil de tais ternos. Em todos os casos, o

objetivo era o mesmo: estar tão bem-vestido quanto um perfeito gentleman

inglês – e esse seria o fim dos “trajes do mundo”. É revelador que a palavra japonesa para terno seja sebiro: “Savile Row”, a famosa rua de Londres

onde até hoje se concentram as principais alfaiatarias. Mesmo hoje, os

ternos mais elegantes em Tóquio têm design inglês, daí a popularidade da

marca Eikokuya, que significa literalmente “loja inglesa”. Anglófilos

exigentes em Ginza, o West End de Tóquio, ainda procuram a Ichibankan,

fundada por um alfaiate que aprendeu seu ofício na Savile Row.

A revolução japonesa em vestuário data dos anos 1870. Em nome da

bunmei kaika (“civilização e iluminismo”) e do fukoku-kyōhei (“país rico,

exército forte”), a elite imperial da era Meiji havia trocado seus quimonos e

suas vestes de samurai por réplicas de vestidos e ternos europeus. A

inspiração para essas mudanças veio de uma viagem de dois anos de uma

delegação liderada pelo ministro Iwakura Tomomi aos Estados Unidos e à

Europa. Durante a viagem, o ministro precisou reconhecer que, após

séculos de isolamento voluntário, “em muitos aspectos nossa civilização é

inferior à deles”63. Desde 1853-4, quando a economia do Japão fora

obrigatoriamente reaberta ao comércio pelos ameaçadores “navios negros”

do comodoro norte-americano Matthew C. Perry, os japoneses haviam se

esforçado para compreender o que tornava o Ocidente tão mais rico e mais

poderoso do que o Resto. Viajar pelo Ocidente – uma prática tão comum

que inspirou um sugoroku (jogo de tabuleiro) – só levantou mais perguntas.

Qual era seu sistema político? Suas instituições educacionais? Sua cultura?

Ou o modo como se vestiam? Na dúvida, os japoneses decidiram não fazer

escolhas. Eles copiaram tudo. Da Constituição de 1889 em estilo prussiano

à adoção do padrão-ouro britânico em 1897, as instituições japonesas foram

remodeladas segundo modelos ocidentais. O Exército treinava como

alemães; a Marinha velejava como britânicos. Um sistema norte-americano

de escolas de ensino fundamental e médio também foi implementado. Os

japoneses começaram até mesmo a comer carne, até então um tabu, e

alguns reformadores chegaram a ponto de propor abandonar o idioma

japonês e adotar o inglês.

A mudança mais visível, no entanto, foi a aparência dos japoneses.

Começou em 1870, com uma proibição formal sobre o escurecimento dos

dentes e a raspagem de sobrancelhas na corte. Por volta da mesma época, os ministros começaram a cortar o cabelo no estilo ocidental. Um decreto

imperial de 1871 ordenou que os altos oficiais trajassem yōfuku, a

sobrecasaca europeia vestida sobre uma camisa branca de colarinho alto;

em 1887, essa era a vestimenta padrão para todos os funcionários

públicos64. Um ano mais tarde, por recomendação de seus conselheiros

reformistas, o até então recluso imperador Meiji apareceu pela primeira vez

em público, vestindo (de acordo com o embaixador austríaco) “um peculiar

uniforme europeu, metade marinheiro e metade embaixador!” – uma casaca

com uma porção de enfeites de ouro65. As Forças Armadas também tiveram

de usar uniformes europeus. O traje do novo marinheiro se baseava no da

Marinha Real, ao passo que o do Exército foi inicialmente inspirado no dos

franceses, embora mais tarde tenha aderido ao estilo prussiano66. As

mulheres da elite japonesa também começaram a usar vestidos ocidentais

em 1884, quando passaram a receber convidados estrangeiros no recém-

construído Rokumeikan,67 embora o quimono continuasse sendo usado na

vida privada. Até mesmo as roupas das crianças foram ocidentalizadas, com

a adoção dos uniformes em estilo prussiano para os meninos nas escolas

particulares de elite; os uniformes das meninas surgiram nos anos 1920 (e

não mudaram muito desde essa época). Ninguém abraçou o novo visual

ocidental com tanto entusiasmo quanto Ōkubo Toshimichi, um dos

principais arquitetos da remodelação Meiji. Um dia fotografado como um

samurai carregando uma espada, sentado orgulhosamente de pernas

cruzadas e vestindo uma túnica bem solta, ele agora posava ereto sobre uma

cadeira usando uma casaca negra de corte elegante, com a cartola nas mãos.

Quando a delegação que ele liderava chegou à Inglaterra em 1872, o

Newcastle Daily Chronicle relatou que “os cavalheiros usavam trajes

diurnos comuns e, exceto pela cor da pele e pelas feições orientais, mal

poderiam ser distinguidos de seus companheiros ingleses”. Dezessete anos

mais tarde, no dia em que a nova Constituição japonesa foi formalmente

adotada, o imperador usou o uniforme de um marechal europeu, sua

companheira, um encantador vestido de noite azul e rosa, e os ministros do

governo, túnicas militares negras com dragonas de ouro68.

Houve também aqueles que sentiram repulsa por essa macaqueação dos

modos ocidentais; de fato, alguns cartunistas ocidentais retrataram os

japoneses ocidentalizados precisamente como macacos69. O elemento de

humilhação também desagradou os japoneses tradicionalistas. Em 14 de

maio de 1878, quando estava a caminho de uma reunião do Conselho de

Estado no palácio Akasaka em Tóquio, Ōkubo foi atacado e assassinado

brutalmente por sete samurais, e tamanha foi a força do golpe mortal

desferido contra sua garganta que a espada permaneceu fincada no chão

abaixo dele70. Ōmura Masujirō, cujas reformas ocidentalizaram o exército

do Japão, foi outra vítima de assassinos tradicionalistas na era Meiji. Até os

anos 1930, esses representaram uma ameaça constante a ministros pró-

Ocidente. Mas não havia volta. Embora os japoneses permanecessem

vinculados ao código samurai do bushido, a maioria aceitava o argumento

de Ōkubo de que a ocidentalização era indispensável se o Japão quisesse

obter paridade com os impérios europeus e americanos, a começar por igual

tratamento nos tratados de comércio e no direito internacional71. Nas

palavras de um observador ocidental que conhecia bem o país, a motivação

japonesa era perfeitamente racional:

 

Sua grande ambição é ser tratados como homens, como cavalheiros, e como iguais aos Ocidentais.

Com roupas antiquadas, eles sabiam que nem eles nem seu país jamais poderiam ser levados a

sério. Logo vimos uma mudança no vestuário, não só entre soldados e samurais, como [também]

entre todos os funcionários do governo e até mesmo no próprio Mikado [...] Essa revolução nas

roupas foi de extrema utilidade para que o mundo inteiro reconhecesse o Japão como um igual na

irmandade das nações.72

 

Os japoneses haviam compreendido que as roupas ocidentais eram um

agente importantíssimo de desenvolvimento. Pois isso era muito mais do

que simplesmente uma remodelação para fora. Era parte de um avanço

essencial na história do mundo, já que o Japão se tornava a primeira

sociedade não ocidental a experimentar o poder transformador da

Revolução Industrial.

A disseminação do novo código de vestimenta coincidiu com o rápido

crescimento da indústria têxtil japonesa. Entre 1907 e 1924, o número de tecelagens de algodão no Japão dobrou de 118 para 232, o número de

fiadoras mais que triplicou e o número de teares setuplicou73. Em 1900, as

fábricas têxteis empregavam 63% de todos os trabalhadores fabris

japoneses74. Dez anos mais tarde, o Japão era o único exportador líquido de

linha, fio e tecido de algodão da Ásia; de fato, suas exportações excediam a

da Alemanha, a da França e a da Itália. Os trabalhadores da indústria têxtil

japonesa eram, de longe, os mais produtivos da Ásia. De 1907 a 1924, a

indústria japonesa do algodão aumentou sua produção por trabalhador em

80% – apesar do fato de que, como fica claro no retrato de 1887 de Adachi

Ginkō, Ladies Sewing [Damas costurando], a mão de obra era, em sua

maior parte, formada por jovens mulheres, com uma média de idade de

apenas 17 anos75. Para empresas como a Kanegafuchi, os anos que levaram

à Depressão foram anos de crescimento, com lucros excedendo em 44% o

capital76. Ao não apenas vestir roupas ocidentais mas também produzi-las, o

Japão pôs fim ao monopólio do Ocidente sobre a manufatura moderna.

Como no Ocidente, um avanço industrial foi seguido de outro. A primeira

ferrovia japonesa projetada por britânicos foi construída entre Tóquio e

Yokohama no início dos anos 1870. Logo, começando com o distrito de

Ginza, em Tóquio, as diferentes cidades do país começaram a adquirir redes

de telégrafo, lâmpadas de rua, pontes de ferro e paredes de tijolo no lugar

das de papel. Quatro conglomerados de negócios – os zaibatsu – emergiram

como os atores dominantes na economia: Mitsui, Mitsubishi, Sumitomo e

Yasuda. Rapidamente, sob instrução dos britânicos, os japoneses deixaram

de comprar locomotivas a vapor e passaram a construí-las.77 Em 1929, os

Platt Brothers, de Oldham – durante a maior parte do século os principais

fabricantes de maquinário têxtil –, pagaram direitos autorais aos inventores

japoneses do tear automático Toyoda78.

Nenhum outro país asiático abraçou o modo de vida americano com tanto

entusiasmo quanto os japoneses. Já na Índia, quando esta foi dominada

pelos britânicos, houve um esforço consciente por parte dos nacionalistas de

manter os modos de vestir indianos – do tapa-sexo de Gandhi aos casacos

de gola reta de Nehru e, mais tarde, os sáris de Indira Gandhi. Essa rejeição

simbólica das normas ocidentais era compreensível. O protecionismo e a produtividade da Grã-Bretanha haviam devastado a indústria têxtil

tradicional da Índia, baseada na produção manual. Ao contrário dos

japoneses, no entanto, os indianos foram lentos para adotar e explorar a

tecnologia da Revolução Industrial. Esse é um dos muitos enigmas da

história do século XIX. Os britânicos não tentaram monopolizar sua nova

tecnologia; ao contrário, eles a disseminaram por seu império. Os indianos

foram apresentados à tecelagem têxtil, à máquina a vapor e à ferrovia muito

antes dos japoneses. No início dos anos 1900, os equipamentos têxteis não

eram mais caros na Ásia do que na Europa continental. Nem tampouco o

carvão. O custo dos salários era 16% do da Inglaterra. Na Ásia, o número

de horas nas fábricas não era restringido por lei como acontecia nas fábricas

britânicas. O algodão cru estava muito mais disponível do que na Inglaterra.

Mas o desenvolvimento industrial não conseguiu deslanchar na Índia – e,

por sinal, nem na China (onde os custos de mão de obra eram ainda mais

baixos)79. A explicação é que, por mais barata que fosse a mão de obra

nesses dois países, a vantagem foi eliminada devido à produtividade

desoladoramente baixa. Um trabalhador norte-americano era, em média, de

seis a dez vezes mais produtivo que um indiano usando o mesmo

equipamento80. Os especialistas britânicos e norte-americanos ofereceram

várias explicações para isso, variando da inerente inferioridade racial ao

absenteísmo ou ociosidade crônica. “Em toda parte, era evidente que havia

pouca ou má supervisão, e uma total ausência de disciplina”, lamentou um

visitante norte-americano a uma tecelagem de Bombaim. “Máquinas de

fiação vazias e carretéis ou bobinas frouxas rolavam pelo chão, os resíduos

e as caixas de carretéis estavam amontoados, enquanto os carregadores de

cestas, e mesmo alguns dos tecelões mais velhos, reuniam-se em grupos

mascando bhang e chunam. Os supervisores, em sua maioria [pertencentes

à casta dos] mahrattas, passeavam preguiçosamente.”81 Uma explicação

atual poderiam ser as péssimas condições de trabalho: a ventilação quase

sempre insuficiente e as horas excessivas se combinavam com temperaturas

e doenças desconhecidas em Lancashire ou Lowell82. O que era mais difícil

de explicar era por que um país asiático – o Japão – estava obtendo ganhos tão rápidos em produtividade que, no fim dos anos 1930, havia obrigado

15% das tecelagens de Bombaim a fecharem suas portas.

As roupas britânicas significavam, é claro, mais do que modernidade

econômica. Em nenhuma parte as gradações sutis do sistema de classes

britânico se expressaram de maneira mais clara do que nas roupas

cuidadosamente confeccionadas. Esse era um mundo em que o status social

de um homem era julgado pelo corte de seu terno. Infelizmente para

Hirohito, e para os japoneses em geral, era um mundo em que era não

menos natural julgar o valor de uma pessoa pela cor de sua pele e por suas

feições.

Enquanto Hirohito voltava ao Japão com seus ternos ocidentais feitos sob

medida, o futuro rei Eduardo VIII foi a um baile à fantasia com um amigo,

o major Edward Dudley “Fruity” Metcalfe. Ambos estavam vestidos como

“coolies83 japoneses”. Para eles, tais vestimentas eram simplesmente tão

absurdas quanto os japoneses usando roupas ocidentais. De fato, em uma

carta à amante, Edward se referiu a Hirohito como um “macaco valioso” e

observou que o povo japonês “procria como coelhos”. O Japão em que

Hirohito cresceu era um país que admirava o Ocidente por sua modernidade

e se ressentia dele por sua arrogância. Para ser tratado como um igual, ao

que parecia, o Japão precisaria adquirir o acessório ocidental definitivo: um

império. Não tardou muito tempo. Em 1805, a Marinha japonesa em estilo

europeu derrotou a frota chinesa de Beiyang, em Weihaiwei, que fora

conduzida com inépcia. Nas ilustrações japonesas da época, os vitoriosos

pareciam quase europeus (até mesmo quanto às feições); os chineses

vencidos, com suas mangas excessivamente largas e seus rabos de cavalo,

estavam vestidos para a derrota84. Mas isso foi apenas o começo.

Desapontados por terem sido forçados a se conformar com reparações em

dinheiro e não em território como espólios de guerra, os japoneses

começaram a perceber que seus modelos europeus poderiam relutar em lhes

conceder o mesmo status imperial. Conforme afirmou com toda a franqueza

o ministro do Exterior Inoue Kaoru: