Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 17 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

A força devastadora da guerra

Na Batalha de Austerlitz,26 em 2 de dezembro de 1805, cerca de 73.200

tropas francesas derrotaram 85.700 russos e austríacos. Esses números

devem ser comparados com as forças em Yorktown em 1781, onde os

17.600 homens de Washington derrotaram os 8.300 casacas vermelhas de

Cornwallis. As baixas infligidas por essa batalha excederam todos os

participantes da primeira em mais de 12 mil. Em Austerlitz, mais de um

terço do exército russo foi morto, ferido ou capturado. Mas a artilharia

usada lá não foi notadamente distinta daquela usada pelo exército de

Frederico, o Grande, em Leuthen, quase meio século antes. A artilharia

móvel provocou a maioria das baixas. O que era novo era a escala da guerra

napoleônica, e não a tecnologia. Em 1812, o exército francês reunia 700 mil

homens. Ao todo, 1,3 milhão de franceses foram alistados entre 1800 e

aquele ano fatídico. Cerca de 2 milhões de homens perderam a vida em

todas as guerras travadas por Bonaparte; quase metade deles eram franceses

– aproximadamente um em cada cinco de todos os nascidos entre 1790 e

1795. Em mais de um aspecto, essa revolução devorou seus próprios filhos.

Havia alguma singularidade na sociedade civil norte-americana que deu à

democracia uma chance melhor do que na França, como afirmou

Tocqueville? O Estado francês, já centralizado, estava mais propenso a

produzir um Napoleão do que os Estados Unidos, descentralizados? Não

podemos saber ao certo. Mas não é ilógico perguntar quanto tempo a

Constituição dos Estados Unidos teria durado se o país tivesse sofrido as

mesmas pressões econômicas e militares que solaparam a constituição

francesa de 1791.

 

A força devastadora da guerra

 

A Revolução não devorou apenas seus próprios filhos. Muitos daqueles que

lutaram contra ela eram, literalmente, crianças. Carl von Clausewitz tinha

12 anos de idade e já era um anspeçada no exército prussiano, quando lutou

contra os franceses pela primeira vez. Um verdadeiro guerreiro erudito,

Clausewitz sobreviveu à demolidora derrota prussiana em Jena, em 1806,

recusou-se a lutar ao lado dos franceses contra os russos em 1812, e também lutou em Ligny em 1815. Foi ele quem, melhor que qualquer um

(incluindo o próprio Napoleão), entendeu como a Revolução Francesa havia

transformado a arte sombria da guerra. Sua obra-prima publicada

postumamente, Da guerra (1832), continua sendo a mais importante sobre

o assunto a ter sido produzida por um autor ocidental. Embora seja, em

muitos aspectos, uma obra atemporal, Da guerra também é uma observação

indispensável sobre a era napoleônica, pois explica por que a guerra havia

mudado de escala, e o que isso implicou para sua condução.

“A guerra”, declara Clausewitz, “é [...] um ato de força para compelir o

inimigo a fazer nossa vontade [...] não [é] meramente um ato de política,

mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações

políticas, realizadas com outros meios.” Essas são, talvez, suas palavras

mais famosas – e também mais mal traduzidas e mal compreendidas. Mas

não são as mais importantes. O que Clausewitz ajudou a compreender foi

que, no início da Revolução Francesa, uma nova paixão havia chegado ao

campo de batalha. “Até o mais civilizado dos povos”, observou, claramente

aludindo aos franceses, “pode atirar contra o outro com ódio passional [...].”

Após 1793, “a guerra, mais uma vez, tornou-se o negócio do povo”, em

oposição ao passatempo dos reis; tornou-se uma “força devastadora”

conduzida pelo “temperamento de uma nação”. Clausewitz reconheceu a

genialidade de Bonaparte como condutor dessa nova força militar

devastadora. Sua “audácia e sorte” haviam “lançado ao vento as velhas

práticas aceitas”. Sob Napoleão, a guerra havia “alcançado o estado de

perfeição absoluta”. De fato, o arrivista da Córsega era nada menos que “o

próprio Deus da Guerra [...], [cuja] superioridade levou sistematicamente ao

colapso do inimigo”. Mas essa liderança excepcional foi menos

significativa que o novo espírito popular que impulsionava seu exército.

A guerra, conforme escreveu Clausewitz, naquela que mereceria ser sua

formulação mais conhecida, era agora “uma trindade paradoxal – composta

de inimizade, ódio e violência primordiais, que devem ser considerados

uma força natural e cega; de sorte e probabilidade [...]; e de seus elementos

de subordinação, como um instrumento político, o que a torna sujeita

unicamente à razão”. É verdade que o “desejo de aniquilar as forças do inimigo” é muito intenso – “o primogênito” dessa nova guerra das nações.

Mas, alertou Clausewitz, a defesa é sempre “uma forma mais vigorosa de

luta do que o ataque”, pois “a força de um ataque pouco a pouco diminui

[...]”. Mesmo na defesa, há uma dificuldade inerente: “Tudo na guerra é

muito simples, mas a coisa mais simples é difícil [...] uma espécie de atrito

[...] diminui o nível geral de desempenho”. Por essas razões, um

comandante eficaz deve sempre lembrar quatro coisas. Primeiro, “avalie as

probabilidades”.27 Segundo, “aja com máxima concentração”. Terceiro, “aja

o mais rapidamente possível”:

 

O conjunto de toda a atividade militar deve, portanto, relacionar-se direta ou indiretamente com o

compromisso. O propósito para o qual o soldado é recrutado, fardado, armado e treinado [...] é

simplesmente que ele deve lutar no lugar certo e no momento certo.

 

Acima de tudo, no entanto, essa força devastadora deve ser mantida sob

controle. O que Clausewitz chama guerra “absoluta”, portanto, “requer [a]

primazia da política” – em outras palavras, a subordinação dos meios de

guerra aos objetivos da política estrangeira. Essa é a verdadeira mensagem

de Da guerra28.

Sendo assim, quais eram os objetivos políticos de Napoleão? Em alguns

aspectos, eles adquirem uma aparência reacionária: compare as pinturas A

coroação de Napoleão I (1804), de Jacques-Louis David, onde ele está

envolto no manto imperial de pele de arminho em Notre Dame, e Napoleão

no passo de Saint-Bernard (1801), o herói romântico do mesmo artista,

representando em cada centímetro o Zeitgeist revolucionário a cavalo (nas

palavras do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel). Essa metamorfose

causou tanta repugnância em Ludwig van Beethoven, o espírito musical da

época, que ele furiosamente rasurou o título original de sua Terceira

Sinfonia – “Buonaparte” – e o alterou para “Sinfonia heroica”. Havendo

coroado a si mesmo imperador em dezembro de 1804, Napoleão obrigou o

imperador austríaco Francisco II a renunciar ao título de sacro imperador

romano e então se casou com sua filha. Ao mesmo tempo, com a Concordata de 1801, Napoleão selou a paz da França com o papa,

eliminando o que restava do culto jacobino à razão.

Mas essa foi uma das poucas coisas retrógradas no império que Napoleão

tratou de construir na Europa, que foi verdadeiramente revolucionário. Ele

não só expandiu a França até suas “fronteiras naturais” e diminuiu a

Prússia, como também criou uma nova confederação suíça; uma nova

Confederação Germânica do Reno, com 40 Estados, estendendo-se do

Báltico aos Alpes; um novo reino da Itália (do Norte); e um novo ducado de

Varsóvia. É verdade que esses novos Estados seriam vassalos da França; ele

até mesmo instalou seu irmão caçula, o esbanjador Jerônimo, como

governante titular do novo reino da Vestfália, e seu vaidoso cunhado,

Joaquim Murat, como o equivalente em Nápoles. É verdade, também, que

os vencidos pagaram tributos onerosos aos franceses vencedores. Ao todo,

entre 1795 e 1804, os holandeses deram 229 milhões de florins aos

franceses, mais que a receita nacional de um ano. As campanhas de

Napoleão de 1806-7 não só foram autofinanciadas, como cobriram pelo

menos um terço dos gastos ordinários do governo francês. E, na Itália, entre

1805 e 1812, metade de todos os impostos recolhidos foi para o tesouro

francês. No entanto, o mapa europeu, tal como foi redesenhado por

Napoleão, transformou a antiga colcha de retalhos de territórios hereditários

em uma nova rede de Estados-nação. Além do mais, o governo francês foi

acompanhado de uma mudança fundamental na esfera jurídica, com a

introdução do novo código de direito civil que ele havia promovido – uma

mudança que, posteriormente, teria efeitos positivos e duradouros na

economia dos países envolvidos. O governo francês eliminou os privilégios

que até então protegiam a nobreza, o clero, as guildas e as oligarquias

urbanas e estabeleceu o princípio de igualdade perante a lei29. Quando, mais

tarde, Napoleão disse que seu “desejo era fundar um sistema europeu, um

código de leis europeu, um judiciário europeu”, de modo que “haveria um

único povo na Europa”, ele não estava inventando30. Só porque seu império

não durou não significa que ele carecia de visão política. Para Napoleão, a

guerra não era um fim em si mesmo. Era, como entendeu Clausewitz, um

meio para implementar uma política.

A falha não estava no objetivo de Bonaparte; estava, sim, no fato de que,

mais cedo ou mais tarde, as forças de seus inimigos acabariam sendo

numericamente superiores, mesmo que seus comandantes jamais chegassem

a ser tão habilidosos quanto ele. Desolada não tanto pelo inverno russo

quanto pela estratégia russa de terra arrasada,31 isso sem falar da epidemia

de tifo, a Grande Armée sucumbiu diante de um exército mais numeroso –

em particular, uma cavalaria mais numerosa – em Leipzig, em 181332.

Aconteceu quase a mesma coisa quando os prussianos fizeram a balança

pender em Waterloo, em 1815. Muito antes disso, no entanto, a França já

havia perdido a guerra no mar. Na baía de Aboukir (a Batalha do Nilo), em

1798, Sir Horatio Nelson ganhou reputação por atacar de maneira

habilidosa a frota francesa de ambos os lados, dando um golpe mortal no

sonho de Napoleão de conquistar o Egito. Sete anos mais tarde, em

Trafalgar, a força de Nelson, composta de 27 navios, esquivou-se de uma

flotilla maior franco-espanhola empregando o “toque de Nelson” – a tática

de velejar a grande velocidade pela linha inimiga, atirando contra o

estibordo de um navio, a popa de outro e então o bombordo do segundo.

A derrota de Napoleão no mar foi duplamente significativa. Em primeiro

lugar, a França foi sendo pouco a pouco privada de suas possessões

ultramarinas. Já em 1791, a colônia açucareira de Saint-Domingue,

extremamente lucrativa, havia eclodido em revolução sob a liderança do

escravo liberto François-Dominique Toussaint “Louverture” (literalmente,

“a abertura”) depois que a Assembleia Legislativa em Paris estendeu o

direito de voto aos mulatos e negros livres, mas não aos escravos. A

abolição da escravidão pela Convenção Nacional em 1794 submergiu a ilha

em uma sangrenta guerra civil racial, que se propagou para a vizinha

espanhola Santo Domingo e se alastrou, até que Toussaint foi preso e

deportado para a França em 1802 e a escravidão foi restaurada por

Napoleão. Ao todo, entre 160 mil e 350 mil pessoas perderam a vida na

Revolução Haitiana. Um ano mais tarde, os franceses optaram por vender

aos Estados Unidos o vasto território norte-americano então conhecido

como Louisiana (não deve ser confundido com o estado atual), e tudo por

uma pechincha: 530 milhões de acres por 15 milhões de dólares (menos de 3 centavos por acre). Em segundo lugar, e talvez o mais importante, a

França perdeu a guerra financeira. Apesar das vendas contínuas das antigas

terras da Igreja, da introdução de uma nova moeda e da extorsão de

contribuintes holandeses e italianos, Napoleão não conseguiu baixar o custo

dos empréstimos para menos de 6%. Entre Trafalgar e Waterloo, o

rendimento médio dos rentes (juros) do governo francês era dois pontos

percentuais superior ao dos títulos de dívida pública consolidada do

governo britânico. Era uma diferença fatídica.

Mercantilista como era, Bonaparte procurou enfraquecer a posição

econômica da Grã-Bretanha banindo o comércio entre o continente europeu

e a ilha. Mas os mercadores britânicos foram capazes de muito rapidamente

mudar para mercados além-mar, amparados pelo controle da Marinha Real

sobre as principais rotas marítimas. Às vezes, presume-se erroneamente que

a industrialização precoce da Grã-Bretanha tenha lhe dado uma vantagem

sobre Napoleão. Na verdade, foram o comércio e as finanças que venceram,

não o ferro e o vapor. Não só o comércio se manteve ativo; o aspecto

crucial é que a Grã-Bretanha foi capaz de manter um superávit de

transações correntes em ganhos invisíveis provenientes da marinha

mercante, de seguros e de investimentos ultramarinos, mais os lucros do

império (ganhos com o comércio de escravos e com a tributação dos

indianos por meio da Companhia das Índias Orientais). O superávit dos

serviços do Reino Unido totalizou 14 milhões de libras por ano entre 1808 e

1815, superando em muito o déficit do comércio de mercadorias durante o

mesmo período. Isso permitiu que a Grã-Bretanha fizesse transferências

volumosas ao exterior – em seu auge, equivalentes a 4,4% da receita

nacional anual – na forma de pagamento a seus exércitos e subsídios a seus

aliados. Entre 1793 e 1815, o país destinou, ao todo, 65,8 milhões de libras

aos inimigos continentais da França. O novo espírito da época, apoiado

contra um pilar na bolsa de valores, foi um judeu nascido em Frankfurt

chamado Nathan Rothschild – o Finanzbonaparte –, que desempenhou um

papel fundamental ao financiar a campanha de guerra do duque de

Wellington e seus aliados33.

Napoleão havia sido derrotado. A França, agora, se via onerada com uma

enorme indenização e com o retorno dos Bourbon ao trono, na forma do

corpulento Luís XVIII. Mas nem o sonho da revolução nem o sonho do

império revolucionário morreram com Napoleão quando ele faleceu, quase

certamente de câncer de estômago, na miserável Ilha de Santa Helena, no

sul do Atlântico, em 1821. A Revolução de 1789 dera à França um roteiro

político de drama sem paralelo. Durante a maior parte do século seguinte, a

tentação de reencenar a obra foi irresistível; aconteceu em 1830, em 1848 e

novamente em 1871. O ponto crítico é que, cada vez que as barricadas eram

levantadas nas ruas do centro de Paris, uma onda de choque – embora de

magnitude cada vez menor – atravessava a Europa e os impérios europeus.

A promessa da Declaração dos Direitos do Homem por parte dos

revolucionários vermelhos não podia simplesmente ser envolta em um

hábito preto e esquecida, como tão bem ilustra o romance O vermelho e o

negro (1830), de Stendhal. Qualquer um, afinal, podia adotar a terminologia

e a iconografia da Revolução. Os civis armados às pressas, os guerreiros de

dorso nu, os mártires cada vez mais frequentes – essas figuras tinham pela

frente uma longa carreira na forma de clichés.34

As revoluções de 1848 se alastraram mais ainda. As pessoas tomaram as

ruas em Berlin, Dresden, Hanover, Karlsruhe, Kassel, Munique, Stuttgart e

Viena, bem como em Milão, Nápoles, Turim e Veneza. Foi uma revolução

liderada por intelectuais desencantados, acima de tudo, com os limites que

os regimes monárquicos restaurados em 1815 impuseram à liberdade de

expressão. Tipicamente, o compositor Richard Wagner e o anarquista russo

Mikhail Bakunin fizeram sua parte em prol da “conflagração mundial” ao

tramar escrever juntos uma ópera sacrílega.35 A Grã-Bretanha foi um dos

poucos países poupados da Europa Ocidental, sobretudo porque 35 mil

soldados, 85 mil policiais especiais, 1.200 pensionistas militares e 4 mil

policiais estavam disponíveis para garantir que os cartistas – proponentes

do sufrágio universal – se comportassem. Em consequência, a Londres de

1848 foi marcada por discursos nos parques, e não por sangue nas ruas.

Mas a chamada Primavera dos Povos não se restringiu à Europa. Assim

como tantas outras ideias ocidentais no século XIX, a revolução ao estilo francês logo se tornou um fenômeno global. Em todo o Império Britânico

havia agitação – no Ceilão, na Guiana, na Jamaica, em Gales do Sul, na

Soberania do rio Orange, no Punjab e na Terra de Van Diemen (atual

Tasmânia)36. Ainda mais notáveis foram os acontecimentos nas colônias

francesas na África Ocidental. Lá, ao contrário do que ocorreu nas colônias

britânicas, a mudança política radical teve o apoio de um governo

revolucionário na metrópole.

Tudo isso serve para esclarecer a característica mais singular do

imperialismo francês: seu caráter revolucionário permanente. O Império

Britânico foi, por instinto, socialmente conservador; a cada ano que

passava, seus administradores se tornavam mais admiradores das elites

locais, mais confortáveis com o governo indireto por meio dos chefes

tribais e dos marajás cheios de ornamentos. Mas os franceses ainda nutriam

a esperança de que a liberdade, a igualdade e a fraternidade – junto com o

Code Napoléon e a comida enlatada (outra invenção napoleônica) – fossem

produtos de exportação universal37.

O império francês ultramarino, assim como todos os impérios europeus,

havia se apoiado pelo menos em parte na escravidão. Mas, em 1848, o novo

governo republicano da França declarou que a escravidão seria novamente

abolida em todo o Império Francês, inclusive no Senegal, sua colônia na

África Ocidental. Os britânicos já haviam feito isso em seu império 15 anos

antes. Mas a abolição foi só a primeira parte dessa revolução na África

francesa. Também se anunciou que os escravos recém-libertos teriam direito

a voto – ao contrário dos nativos nas colônias britânicas. Com a introdução

do sufrágio universal masculino em todo o Império Francês, o eleitorado

quase totalmente africano e métis, ou de raça mista (os brancos

correspondiam a apenas 1% do total), votou nas eleições de novembro de

1848 e escolheu o primeiro homem não branco a ocupar uma cadeira na

Assembleia Nacional francesa38. Embora o direito dos senegaleses de enviar

um deputado a Paris tenha sido revogado pelo imperador Napoleão III em

1852 e só restaurado em 1879, manteve-se a prática de eleger os

conselheiros das quatre communes (Saint-Louis, Gorée, Rufisque e Dacar)

com base no sufrágio universal masculino39. A primeira assembleia democrática multirracial na história africana se reuniu naquela que era,

então, a capital colonial de Saint-Louis.

Os homens da época reconheceram a enorme mudança que isso

significava. “Aquele que visitar o Conselho”, escreveu um britânico em

visita a Saint-Louis, “testemunhará, com frequência, um presidente negro

recriminando um membro europeu por sua brutalidade [...] Os membros

negros criticaram imerecidamente as autoridades no Senegal. Nenhuma

colônia britânica toleraria os ataques que os nativos fazem às autoridades

europeias no Senegal”40. Para os britânicos, o império consistia em

hierarquia, da mesma maneira que a sociedade em casa consistia em

classes. No topo estava Vitória, a rainha e imperadora. Todos os seus 400

milhões de súditos estavam dispostos abaixo dela em uma elaborada cadeia

de status, até chegar ao mais baixo punkah wallah em Calcutá. O Império

Francês era diferente.

Para os revolucionários de 1848, parecia evidente que os súditos coloniais

deveriam ser convertidos em franceses o mais rapidamente possível. No

jargão da época, os africanos seriam “assimilados”. Ao mesmo tempo, o

casamento inter-racial (métissage) entre oficiais franceses e mulheres

africanas era encorajado41. Esse imperialismo progressista foi personificado

por Louis Faidherbe, um soldado experiente que se tornou governador do

Senegal em 1854. Em Saint-Louis, Faidherbe supervisionou a construção de

novas pontes, estradas pavimentadas, escolas e desembarcadouros, além do

fornecimento de água doce e a implementação de um serviço regular de

balsa no rio. “Aldeias de liberdade” foram fundadas em todo o Senegal para

escravos emancipados. Em 1857, Faidherbe reuniu um exército colonial

senegalês – os Tirailleurs Sénégalais –, transformando o soldado africano,

então um trabalhador em regime de servidão por contrato, em um soldado

de infantaria regular e completamente preparado. Foi fundada uma escola

para os filhos dos chefes nativos42. O próprio Faidherbe se casou com uma

garota senegalesa de 15 anos de idade.

“Nossas intenções são puras e nobres”, declarou Faidherbe quando seu

mandato como governador chegava ao fim. “Nossa causa é justa.” É claro,

sua missão era mais que civilizar. “O objetivo”, conforme declarou em 1857, era “dominar o país ao custo mais baixo possível e, por meio do

comércio, obter as maiores vantagens”43. Ele havia recebido instruções de

estender a influência francesa para o interior e alcançar o mise en valeur

(desenvolvimento econômico) do Senegal desafiando o controle dos

africanos nativos sobre o comércio de goma arábica (feita da seiva das

árvores de acácia) e de amendoim. A estratégia de Faidherbe era construir

uma cadeia de fortes franceses ao longo do rio Senegal, começando em

Médine, abaixo da cachoeira Félou. Isso inevitavelmente levou a um

conflito com os poderes dominantes no interior: os mouros de Trarza em

Waalo, os cayor no sul e El Hadj Umar Tall, o governante muçulmano do

Médio Níger, que mais tarde estabeleceu o Império Toucouleur na vizinha

Mali44. De maneira gradativa e inexorável, entretanto, esses rivais africanos

foram forçados a se retirar. Em 1857, as forças francesas derrubaram a

república Lebu, transformando a capital Ndakarou na nova cidade colonial

de Dacar. O centro da cidade, hoje, continua sendo um monumento à

concepção colonial francesa, do palais branco do governador-geral à larga

avenida Faidherbe, das boulangeries com suas baguetes frescas e

aromáticas às pâtisseries servindo café au lait. Para formalizar o processo

de galicização, o país inteiro foi dividido em unidades administrativas – os

arrondissements, cercles e cantões. Na época em que Faidherbe deixou o

cargo, em 1865, um francês poderia passear por Saint-Louis e se orgulhar

das conquistas de seu país. Os antigos mercados de escravos haviam se

tornado exultantes entrepostos de cultura gálica. As vítimas do

imperialismo haviam se transformado em cidadãos com direito a voto e o

dever de portar armas. Conforme afirma o jornalista Gabriel Charmes:

 

Se a essas imensas regiões onde hoje reinam apenas o fanatismo e o banditismo [a França]

trouxesse [...] paz, comércio e tolerância, quem poderia dizer que houve uso indevido da força?

[...] Ter ensinado a milhões de homens a civilização e a liberdade a encheria do orgulho que

constitui uma grande nação45.

 

É claro que a realidade do imperialismo francês não tinha como

corresponder às expectativas dessa declaração exaltada. O maior desafio foi atrair funcionários competentes vindos da França. Aqueles que se ofereciam

para servir na África Ocidental, como afirmou, sem meias palavras, um dos

sucessores de Faidherbe, geralmente eram “pessoas que, se não

comprometidas em casa, eram no mínimo incapazes de garantir o próprio

sustento” em seu novo destino: se não criminosos mesquinhos, no mínimo

bêbados e falidos46. De acordo com um colonizador em 1894, as colônias

eram “o refugium peccatorum de todos os nossos desajustados, o depósito

do excremento de nosso organismo social e político”. Quando um homem

partia para uma das colônias, recorda o diretor da École Coloniale, seus

amigos perguntavam: “Que crime ele terá cometido? De que cadáver está

fugindo?”47. Uma série de administradores coloniais se tornou notória por

sua brutalidade para com os nativos; um homem, Emile Toqué, celebrou o

Dia da Bastilha em 1903 explodindo um prisioneiro com pólvora48. A

maioria dos administradores coloniais provavelmente compartilhava a visão

de pelo menos um professor na École de que seus súditos africanos eram

todos intelectualmente retardados. O código indigénat lhes dava poderes

para, se julgassem conveniente, aprisionar nativos rebeldes por até 15 dias

por 46 crimes diferentes, a maioria dos quais não era considerado ilegal na

França.49 Não havia mecanismo de apelação. O trabalho forçado (o corvée)

era parte inerente do sistema de tributação na África Ocidental; foi assim

que a ferrovia Dacar-Níger foi construída. Para um trabalhador em uma

plantação de borracha, o imposto per capita no Congo francês era

equivalente a cem dias de trabalho por ano. Capturavam-se reféns quando

as aldeias não cumpriam suas obrigações. Alguns administradores – como

aquele no Sudão francês condenado por vários assassinatos, pelo menos um

estupro, graves danos corporais, erros judiciais e apropriação indébita –

parecem ter tomado como modelo o personagem Kurtz do romancista

Joseph Conrad50. Um homem, chamado Brocard, decapitou por

“compaixão” um prisioneiro que ficara cego em consequência da falta de

saneamento em sua cela51. O ponto culminante de tal loucura foi a missão

de Paul Voulet e Julien Chanoine ao lago Chade (1898-9), que deixou um

rastro de aldeias incineradas, nativos enforcados e até mesmo crianças queimadas, até que finalmente os soldados africanos sob seu comando se

rebelaram contra os dois e os assassinaram52.

Entretanto, o nível dos administradores coloniais franceses melhorou

nitidamente, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial, quando a École

Coloniale atraiu não só melhores alunos como também etnólogos notáveis

como Maurice Delafosse e Henri Labouret. Como diretor da École, o

virtuoso Georges Hardy personificou a mission civilisatrice. Ao mesmo

tempo, os franceses fizeram um verdadeiro esforço para atrair e preparar

talentos nativos. Faidherbe tornou claro seu pensamento em um discurso

que deu ao conceder o posto de segundo-tenente a um soldado chamado

Alioun Sall:

 

Esta nominação [...] demonstra que, até mesmo para as posições mais elevadas em nossa

hierarquia social, a cor já não é motivo de exclusão [...] Só os mais capazes terão sucesso. Aqueles

que teimosamente preferem a ignorância à civilização continuarão ocupando os postos mais

baixos da sociedade, como é o caso em todos os países do mundo53.

 

Em 1886, o filho do rei de Porto-Novo (mais tarde Daomé/Benim) reuniu

uma dúzia de alunos asiáticos na École Coloniale. A cada ano, de 1889 até

1914, a “seção nativa” da École admitiu cerca de 20 estudantes não

franceses54. Claramente, foi graças à ideia francesa de uma missão

civilizatória que um homem como Blaise Diagne, nascido em uma casa

modesta no velho centro de comércio de escravos de Gorée em 1872, pôde

entrar para a alfândega colonial e ascender na hierarquia. Isso teria sido

muito mais difícil – de fato, quase inconcebível – na África britânica. Em

1914, Diagne era o primeiro africano negro (de raça pura) na Assembleia

Nacional Francesa, algo nada desprezível para o neto de um escravo

senegalês. Em comparação com o espírito dos outros impérios europeus da

época, não há dúvida de que o Império Francês era o mais liberal em sua

concepção. Nas comunas de Dacar, a canção wolof que era cantada para

celebrar a vitória de Diagne resumia de maneira sucinta a nova situação

política: “A ovelha negra [superou] a ovelha branca”55.

O elogio mais irônico ao imperialismo francês foi feito em 1922 por um

tal “Nguyen Ai Quoc”, em uma carta ao governador-geral de outra colônia

francesa do outro lado do mundo: a Indochina. “Sua Excelência”, começava

o autor, cujo nome verdadeiro era Nguyen Sinh Cung, e cujo francês fluente

ele devia à época em que frequentou o lycée de Hué:

 

Sabemos muito bem que sua afeição pelos nativos, pelas colônias em geral e pelos anameses em

particular é enorme. Sob seu proconsulado, o povo anamês conheceu a verdadeira prosperidade e a

felicidade real, a felicidade de ver proliferar em seu país um número cada vez maior de casas de

ópio e de bebidas alcoólicas que, com os esquadrões de fuzilamento, as prisões, a “democracia” e

todo o aparato aperfeiçoado da civilização moderna, combinam-se para fazer dos anameses os

mais avançados dos asiáticos e os mais felizes dos mortais. Esses atos de benevolência nos

poupam do trabalho de recordar todos os outros, tais como os empréstimos e os recrutamentos

forçados, as repressões sanguinárias, o destronamento e exílio de reis, a profanação de lugares

sagrados etc.56

 

Não fora só o idioma francês que o autor da carta aprendera na escola.

Sob outro pseudônimo, “Ho Chi Minh”, ele mais tarde lideraria o

movimento por um Vietnã independente – citando explicitamente a

Declaração de Direitos do Homem de 1791 em sua própria declaração de

independência vietnamita –, da mesma maneira que Vo Nguyen Giap, o

vitorioso da decisiva Batalha de Dien Bien Phu (e aluno do mesmo lycée),

havia aprendido a arte da guerra estudando as campanhas de Napoleão. Tal

era o destino inevitável de uma missão civilizatória que exportou a tradição

revolucionária juntamente com boules e baguetes57. Não é mero acaso que

os presidentes da Costa do Marfim, de Níger, de Daomé e do Mali após a

independência fossem todos oriundos da École William Ponty – assim

como o primeiro-ministro senegalês58.

E, ainda assim, tudo isso – toda a mission civilisatrice francesa – foi

ameaçado por um adversário letal – a doença – que tornou grandes

extensões de terra da África subsaariana praticamente inabitáveis para os

europeus59. Há um século e meio, a vida já era bastante curta no Ocidente.

Na Grã-Bretanha, a expectativa de vida ao nascer em 1850 era de apenas 40

anos, em comparação com os atuais 75. Mas, na África, os índices de mortalidade infantil e morte prematura eram assombrosamente altos. No