Civilização: Ocidente X Oriente
O destino dos gullahs
linguagem da Constituição – deveria ser contado como três quintos de um
homem livre.
A pergunta é: como, então, resolvemos esse paradoxo no cerne da
civilização ocidental – de que a revolução mais bem-sucedida em nome da
liberdade tenha sido feita, em grande medida, por proprietários de escravos,
em uma época em que o movimento pela abolição da escravidão já
avançava a passos largos em ambos os lados do Atlântico?
O destino dos gullahs
Esta é outra história, sobre dois navios trazendo para as Américas um tipo
muito diferente de imigrante. Ambos partiram da pequena ilha de Gorée, na
costa do Senegal, um com destino à Bahia, no nordeste do Brasil, o outro
com destino a Charleston, Carolina do Sul. Ambos transportavam escravos
africanos – só uma diminuta fração dos 8 milhões que atravessaram o
Atlântico entre 1450 e 1820. Aproximadamente dois terços dos imigrantes
com destino às Américas entre 1500 e 1760 foram escravos; antes de 1580,
essa proporção era de um quinto, mas chegou a quase três quartos entre
1700 e 176079.
À primeira vista, a escravidão era uma das poucas instituições que a
América do Norte e a do Sul tinham em comum. Tanto a plantação sulista
de tabaco quanto o engenho brasileiro passaram a depender de escravos
importados da África quando ficou claro que eles eram mais baratos e
poderiam ser mais explorados que a mão de obra europeia em regime de
servidão por contrato, no Norte, e os índios, no Sul. Do rei de Dahomey
para baixo, os vendedores de escravos africanos não faziam distinção; eles
atendiam tanto os compradores britânicos quanto os portugueses, além dos
árabes, seus clientes tradicionais. Afinal, o comércio de escravos
transaariano remontava ao século II. Os portugueses encontraram mercados
de escravos em pleno funcionamento quando chegaram a Benin em 150080.
Para um africano cativo mantido na casa dos escravos de Gorée, parecia
fazer pouca diferença se ele seria transportado no navio com destino à América do Norte ou à do Sul. A probabilidade de que ele morresse no
caminho (cerca de uma em seis, já que sabemos que 16% não sobreviveram
ao martírio) era praticamente a mesma.
No entanto, houve diferenças importantes entre as formas de escravidão
que surgiram no Novo Mundo. A escravidão fora parte integral da
economia mediterrânea desde a Antiguidade, e foi revivida na época das
Cruzadas, ao passo que na Inglaterra estava basicamente extinta. O status
de vilania [os vilões deviam obrigações aos senhores feudais, mas,
diferentemente dos servos, não estavam presos à terra] havia deixado de
constar no common law em uma época em que os portugueses estavam
abrindo uma nova rota marítima dos mercados de escravos do oeste da
África ao Mediterrâneo e estabelecendo as primeiras plantações de açúcar,
primeiro nas Madeiras (1455) e então em São Tomé, no golfo da Guiné
(1500)81. Os primeiros escravos africanos chegaram ao Brasil em 1538; na
América do Norte, não houve nenhum escravo antes de 1619, quando então
350 chegaram a Jamestown, após terem sido roubados de um navio
espanhol com destino a Veracruz82. Não havia plantações de açúcar na
América do Norte; e estas – os engenhos da Bahia e de Pernambuco –
foram, sem dúvida, os lugares onde as condições de trabalho para os
escravos foram mais cruéis, devido às características do cultivo pré-
industrial de açúcar, que requeria mão de obra peculiarmente intensiva.83 As
minas de ouro do sudeste do Brasil (tais como as de Minas Gerais) não
eram muito melhores, nem tampouco as plantações de café do início do
século XIX. Foram transportados muito mais escravos africanos ao Brasil
que ao sul dos Estados Unidos. De fato, o Brasil rapidamente superou as
ilhas caribenhas como o principal centro mundial de produção de açúcar,
produzindo cerca de 16 mil toneladas por ano já em 1600. (Foi só mais
tarde que a produção em Santo Domingo e em Cuba alcançou níveis
comparáveis.)84 Embora a economia tenha se diversificado com o tempo,
passando da produção de açúcar à mineração, ao cultivo de café e à
manufatura básica, continuou-se a dar preferência à importação de escravos
que aos imigrantes livres, e a escravidão era a forma usual de mão de obra
em quase todos os setores da economia85. A escravidão foi tão importante para o Brasil que, em 1825, pessoas de origem ou ascendência africana
representavam 56% da população, em comparação com 22% na América
espanhola e 17% na América do Norte. Muito depois de o comércio de
escravos e a própria escravidão terem sido abolidos no mundo anglófono,
os brasileiros continuavam com ambos, importando mais de um milhão de
novos escravos entre 1808 e 1888, apesar de um tratado anglo-brasileiro de
1826 com o objetivo de colocar fim à comercialização. Na década de 1850,
quando as intervenções navais britânicas começaram a perturbar seriamente
o tráfico transatlântico, a população escrava brasileira era o dobro do que
havia sido em 1793.
A quantidade de escravos na América Latina pré-revolucionária não foi
de todo desprezível. As autoridades real e religiosa de fato intervieram para
aliviar a situação dos escravos, assim como tinham condições de limitar
outros direitos de propriedade privada. O pressuposto católico romano era
que a escravidão era, quando muito, um mal necessário; não podia alterar o
fato de que os escravos tinham alma. Os escravos nas plantações latino-
americanas tinham mais facilidade de conseguir a alforria que os das
plantações de tabaco na Virgínia86. Em 1872, três quartos dos negros e
mulatos no Brasil eram livres87. Em Cuba e no México, um escravo podia
até mesmo ter seu preço declarado e comprar sua liberdade em parcelas88.
Segundo consta, os escravos brasileiros também desfrutavam de mais dias
livres (todos os domingos, além de 35 dias santos) que seus congêneres nas
Índias Ocidentais Britânicas89. Começando no Brasil, tornou-se a norma, na
América Latina, que os escravos tivessem suas próprias parcelas de terra.
Certamente, não devemos imaginar um cenário demasiado otimista. No
auge das exportações, algumas plantações brasileiras de açúcar
funcionavam 24 horas por dia, sete dias por semana, e os escravos,
literalmente, eram explorados até a morte. Foi um proprietário rural
brasileiro que declarou que, “quando comprava um escravo, era com a
intenção de usá-lo por um ano, já que poucos sobreviviam mais tempo que
isso, mas que o fazia trabalhar o suficiente não só para compensar seu
investimento inicial, como também para obter um bom lucro”90. Assim
como nas ilhas caribenhas, os senhores viviam com medo das revoltas de escravos, e recorriam à brutalidade exemplar para manter a disciplina. Uma
punição comum em algumas plantações brasileiras eram as novenas, em
que o escravo era submetido a chibatadas por nove noites consecutivas,
durante as quais as feridas da vítima eram esfregadas com sal e urina91. Na
Minas Gerais do século XVIII, não era nenhum segredo que as cabeças
cortadas de escravos fugitivos eram expostas à beira das estradas. Não é de
surpreender que a expectativa de vida de um escravo brasileiro fosse, em
média, de apenas 23 anos ainda nos anos 1850; um escravo precisava durar
apenas cinco anos para que seu dono ganhasse o dobro do investimento
inicial92. Por outro lado, os escravos brasileiros pelo menos tinham o direito
de se casar, o que era negado aos escravos sob domínio britânico (e
holandês). E, tanto na América espanhola quanto na portuguesa, a tendência
era que os códigos de escravidão se tornassem menos draconianos com o
tempo.
Na América do Norte, os proprietários de escravos se sentiam no direito
de tratar todos os seus “bens móveis” como bem entendessem,
independentemente de serem seres humanos ou pedaços de terra. Conforme
a população de escravos cresceu – atingindo um pico de quase um terço da
população das colônias britânicas nas Américas em 1760 –, as autoridades
foram estabelecendo uma distinção cada vez mais nítida entre os
trabalhadores brancos em regime de servidão por contrato, cujo período de
servidão normalmente era estipulado em cinco ou seis anos, e os escravos
negros, que eram obrigados a servir durante toda a vida. A legislação
promulgada em Maryland em 1663 era inequívoca: “todos os negros ou
outros escravos na província [...] devem servir durante vitae; e todas as
crianças nascidas de qualquer negro ou outro escravo devem ser escravas
como o foram seus pais”93. E a escravidão na América do Norte se tornou
mais estrita com o tempo. Uma lei promulgada na Virgínia em 1669
declarava que não era nenhum crime se um senhor matasse seu escravo.
Uma lei da Carolina do Sul de 1726 afirmava explicitamente que os
escravos eram “bens” (posteriormente chamados “bens móveis”). A
punição corporal foi não só sancionada como codificada94. Chegou-se ao
ponto em que escravos fugitivos da Carolina começaram a atravessar a fronteira para a Flórida espanhola, onde o governador permitia que eles
estabelecessem um assentamento autônomo, desde que se convertessem ao
catolicismo95. Isso era uma mudança notável, considerando que – conforme
vimos – a escravidão havia sido extinta na Inglaterra séculos antes, o que
ilustra como as instituições europeias eram perfeitamente capazes de se
transformar estando em solo americano. Um magistrado da Virgínia captou
impecavelmente a tensão no cerne dessa “instituição peculiar” quando
declarou: “Os escravos não são apenas propriedade; são também seres
racionais, e têm direito à humanidade da Corte, quando esta possa ser
exercida sem ferir os direitos de propriedade”.96 Os comerciantes de
escravos só se tornaram alvo do ataque de abolicionistas no momento em
que ultrapassaram um limiar muito elevado, como fez o capitão do navio
Zong, de Liverpool, quando, em 1783, lançou 133 escravos ao mar, vivos e
acorrentados, devido a uma escassez de água a bordo. É notável o fato de
ele ter sido processado primeiro por fraude contra a seguradora, até que
Olaudah Equiano alertou o abolicionista Granville Sharp sobre a verdadeira
natureza do crime que ele havia cometido97.
Uma diferença especialmente marcante entre o Norte e o Sul é o tabu
norte-americano contra a procriação entre raças – a “miscigenação”, como
então se dizia. A América Latina aceitou desde o início a realidade das
uniões inter-raciais, classificando seus vários produtos (mestizos, os
descendentes de homens espanhóis e mulheres indígenas; mulatos, nascidos
da união de criollos e negros; e zambos, filhos de índios e negros) em
hierarquias cada vez mais elaboradas. O próprio Pizarro teve uma esposa
inca, Inés Huayllas Yupanqui, que lhe deu uma filha, Doña Francisca98. Em
1811, esses vários “mestiços” constituíam mais de um terço da população
da América espanhola, uma porção equivalente à da população indígena, e
superior à dos criollos de origem puramente hispânica, que representavam
menos de um quinto. No Brasil do século XVIII, os mulatos ocupavam
apenas 6% da mão de obra predominantemente africana nas plantações, mas
um quinto dos postos gerenciais e artesanais mais qualificados; eles eram a
classe subalterna do império português.
Já nos Estados Unidos, houve tentativas sofisticadas de proibir tais
uniões, ou pelo menos negar sua legitimidade. Isso foi, em parte,
consequência de mais uma diferença. Quando os britânicos emigraram para
a América, geralmente levaram consigo a esposa ou companheira. Quando
os homens espanhóis e portugueses atravessaram o Atlântico, quase sempre
viajaram sozinhos. Por exemplo, dos 15 mil nomes registrados no
“Catálogo de Pasajeros a Indias” (uma lista de passageiros espanhóis que
embarcaram para o Novo Mundo entre 1509 e 1559), apenas 10% eram
mulheres. Os resultados não eram difíceis de prever. Cientistas liderados
por Andrés Ruiz-Linares estudaram amostras de DNA mitocondrial de 13
populações de mestizos em sete países do Chile ao México. Os resultados
mostram claramente que, em toda a América Latina, homens europeus
tiveram como parceiras mulheres africanas e indígenas, e não o contrário99.
Estudos de caso de lugares como Medellín, na Colômbia – onde a
população costuma ser considerada “puramente” hispânica –, corroboram
essas descobertas. Em outra amostra, verificou-se que as linhagens de
cromossomo Y (herdado do pai) eram cerca de 94% europeias, 5%
africanas e apenas 1% ameríndias, ao passo que as linhagens de DNA
mitocondrial (herdado da mãe) eram 90% ameríndias, 8% africanas e 2%
europeias100.
Não que a miscigenação não tenha ocorrido na América do Norte.
Ocorreu. Thomas Jefferson é só o mais famoso norte-americano a ter
assumido a paternidade de filhos de uma de suas escravas. No fim da época
colonial, havia aproximadamente 60 mil mulatos na América britânica.
Hoje, entre um quinto e um quarto do DNA da maioria dos afro-americanos
nos Estados Unidos tem origens europeias. Mas o modelo que criou raízes
no período colonial foi essencialmente binário. Um indivíduo com uma
“gota” sequer de sangue afro-americano – na Virgínia, um único avô negro
– era categorizado como negro, não importava o quão clara fosse sua pele
ou caucasiana sua fisionomia. O casamento inter-racial era tratado como
crime passível de punição na Virgínia já em 1630, e foi legalmente proibido
em 1662; a colônia de Maryland havia adotado legislação similar um ano
antes. Tais leis foram promulgadas por cinco outras colônias norte-americanas. No século após a fundação dos Estados Unidos, o casamento
inter-racial foi banido em nada menos que 38 estados. Em 1915, 28 estados
ainda mantinham tais estatutos; dez deles chegaram a ponto de tornar
constitucional a proibição da miscigenação. Houve até mesmo uma
tentativa, em dezembro de 1912, de emendar a Constituição dos Estados
Unidos a fim de proibir a miscigenação “para sempre”101.
Nota: Os dados sobre a população miscigenada não estão disponíveis.
Fazia uma grande diferença, então, para onde iam os escravos africanos.
Aqueles com destino à América Latina acabaram em uma espécie de
caldeirão racial onde um escravo, sendo homem, tinha uma chance razoável
de obter sua liberdade se sobrevivesse aos primeiros anos de trabalho duro,
e, sendo mulher, tinha uma probabilidade não trivial de gerar um filho de
raça mista. Aqueles destinados aos Estados Unidos entravam em uma
sociedade em que a distinção entre branco e negro era definida e sustentada
de forma muito mais rígida.
Conforme vimos, foi John Locke quem fez da propriedade privada a base
da vida política na Carolina. Mas não era só a propriedade de terras que ele
tinha em mente. No artigo 110 de suas “Constituições fundamentais”, ele
afirmara claramente: “Todo homem livre da Carolina terá absoluto poder e
autoridade sobre seus escravos negros, qualquer que seja sua opinião ou
religião”. Para Locke, a propriedade de seres humanos era parte tão
integrante do projeto colonial quanto a propriedade da terra. E esses seres
humanos não seriam nem proprietários de terras, nem eleitores. Os
legisladores posteriores se esforçaram para manter essa distinção. A seção
X da lei que regulamentava a escravidão na Carolina do Sul, de 1740,
autorizava uma pessoa branca a deter e examinar qualquer escravo
encontrado fora de uma casa ou plantação que não estivesse acompanhado
de uma pessoa branca. A seção XXXVI proibia os escravos de saírem da
plantação, sobretudo nos sábados à noite, nos domingos e nos feriados. Os
escravos que violassem a lei poderiam ser submetidos a “chicotadas
moderadas”. A seção XLV proibia pessoas brancas de ensinarem escravos a
ler e a escrever.
Os profundos efeitos de tais leis se fazem notar ainda hoje em algumas
áreas dos Estados Unidos. A costa gullah vai de Sandy Island, na Carolina
do Sul, a Amelia Island, na Flórida. Nessa região, as pessoas têm seu
próprio dialeto, culinária e estilo musical característicos102. Alguns
antropólogos acreditam que gullah seja uma corruptela de “Angola”, de
onde possivelmente vieram os ancestrais dos habitantes. Começando em
meados do século XVII, uma proporção muito elevada de todos os escravos
transportados às Américas – talvez 44% – vieram de partes da África que
seus contemporâneos chamavam Angola (o país atual mais a região entre
Camarões e a margem norte do rio Congo)103. Um terço dos escravos que
passaram por Charleston veio de Angola104. A maioria destes foi tomada dos
povos mdunbu do reino Ndongo, cujo governante, o ngola, emprestou seu
nome ao país atual. Eles terminaram dispersos pelas Américas, do Brasil às
Carolinas, passando pelas Bahamas.
Que ainda haja ecos discerníveis de Angola na Carolina do Sul –
incluindo vestígios da língua quimbundo – é, por si só, significativo. As pessoas que vivem lá são descendentes diretos dos escravos angolanos, e
pouca coisa aconteceu para diluir seu conjunto de genes. A sobrevivência
da cultura gullah atesta a notável permanência da segregação racial em
estados como a Carolina do Sul. Já os angolanos enviados para a América
do Sul tiveram chances muito maiores de escapar da prisão da escravatura –
às vezes literalmente, como no caso dos fugitivos de Pernambuco que
fundaram seu próprio quilombo independente, também conhecido como
Pequena Angola, em Palmares, bem no meio da floresta do estado de
Alagoas. Em seu auge, esse pequeno reino teve uma população de mais de
10 mil e um chefe eleito, o “Ganga Zumba”. Fundada no início dos anos
1600, só foi conquistada por forças portuguesas em 1694. O destino do
gullah Jack Pritchard, um escravo angolano que planejou iniciar uma
rebelião contra os buckra (brancos) em Charleston em 1822, foi muito
diferente. Ele foi enforcado. Ironicamente, a Terra da Liberdade parecia ser,
para cerca de um quinto de sua população, a Terra da Escravidão
Permanente. Ao norte do Rio Grande, a escravidão se tornara hereditária.
No fim, é claro, a anomalia da escravidão em uma sociedade supostamente
livre só poderia ser resolvida por uma guerra entre os estados escravocratas
do Sul e os estados abolicionistas do Norte. Só a intervenção naval britânica
em favor da Confederação poderia ter derrotado os defensores da União, e
aquilo nunca foi muito provável. Mas, embora a Guerra Civil tenha
colocado fim à escravidão, muitos norte-americanos continuaram a
acreditar, por mais de um século, que sua prosperidade se devia à linha
divisória entre brancos e negros. Já na década de 1820, Edward Everett
escreveria na North American Review:
Não temos nenhuma consideração para com a América do Sul; não temos por eles simpatia
alguma, não podemos ter com eles nenhuma afinidade política fundamentada. Somos oriundos de
linhagens diferentes [...] Nem todos os tratados que poderíamos firmar, nem os comissários que
poderíamos enviar, nem o dinheiro que lhes poderíamos emprestar, transformariam seus [...]
Bolívares em Washingtons105.
Para uma geração posterior de partidários da supremacia branca, a
segregação era o principal motivo pelo qual os Estados Unidos haviam prosperado, ao passo que os povos “mesclados” da América Latina
atolaram na pobreza (sem falar, em alguns casos, no comunismo).
Com o lema “Segregação agora! Segregação amanhã! Segregação
sempre!”, George Wallace, o governador do Alabama, colocou, em época
recente – 1963 –, a divisão racial no cerne da história de sucesso norte-
americana, em seu discurso de posse:
Esta nação nunca foi concebida para ser uma unidade de uma [...], mas uma unidade de muitas [...]
Este é o exato motivo pelo qual nossos antepassados, amantes da liberdade, instituíram os estados,
para dividir os direitos e poderes entre os estados, garantindo que nenhum poder central pudesse
obter controle governamental soberano [...]
E assim também foi concebida nossa vida racial [...] cada raça em seu próprio contexto tem a
liberdade de ensinar [...] de instruir [...] de desenvolver [...] de pedir e de receber a merecida ajuda
de outros de raças distintas. Essa é a grande liberdade de nossos pais fundadores americanos [...],
mas se amalgamamos em uma unidade conforme defendem os filósofos comunistas [...] então o
enriquecimento de nossa vida [...] a liberdade para o nosso desenvolvimento [...] estarão perdidos.
Tornamo-nos, portanto, uma unidade mista de um sob um único governo todo-poderoso [...] e
representamos tudo [...] e nada.
Tais argumentos, na época, estiveram longe de ser pouco atrativos: 10
milhões de eleitores (13,5% do total) votaram em Wallace e em seu Partido
Americano Independente quando ele se candidatou à presidência em 1968.
Mas a ideia de que o sucesso dos Estados Unidos estava associado à
segregação racial era absurda. É um equívoco acreditar, como fez Wallace,
que os Estados Unidos eram mais prósperos e estáveis do que a Venezuela
ou o Brasil graças às leis antimiscigenação e à ampla gama de barreiras de
cor que mantinham brancos e negros separados em bairros, hospitais,
escolas, faculdades, locais de trabalho, parques, piscinas, restaurantes e até
mesmo cemitérios. Ao contrário, a América do Norte estava melhor que a
do Sul pura e simplesmente porque o modelo britânico de direitos de
propriedade privada e democracia amplamente distribuídos funcionava
melhor que o modelo espanhol de riqueza concentrada e autoritarismo.
Longe de ser indispensável para o sucesso, a escravidão e a segregação
eram obstáculos ao progresso norte-americano, e seu legado ainda é
dolorosamente visível nos problemas sociais – gravidez adolescente, baixo desempenho escolar, abuso de drogas e prisão desproporcional – que hoje
atormentam tantas comunidades afro-americanas.
Hoje, um homem com pai africano e mãe branca – que poderia ter sido
chamado mulato nos dias de Simón Bolívar – é o presidente dos Estados
Unidos, tendo derrotado um herói condecorado de guerra de origem clássica
escocesa e irlandesa, até mesmo no estado da Virgínia. Isso é algo que teria
parecido uma possibilidade absurdamente remota há apenas 30 anos,
quando visitei o sul dos Estados Unidos pela primeira vez. É fácil esquecer
que, em 1967, 16 estados ainda tinham leis proibindo o casamento inter-
racial. Foi só com o julgamento da Suprema Corte – no apropriadamente
denominado Loving versus Virginia – que as proibições legais de casamento
inter-racial foram consideradas inconstitucionais em todo o território norte-
americano. Mesmo assim, o Tennessee só repeliu formalmente o artigo de
sua Constituição em março de 1978, e o Mississippi postergou sua
eliminação até dezembro de 1987. As atitudes raciais norte-americanas
mudaram profundamente daí em diante. Toda uma gama de palavras e
pensamentos tradicionais já não pode ser pronunciada em público.
Ao mesmo tempo, as pessoas nas ruas de muitas cidades norte-
americanas se parecem cada vez mais com as da América do Sul. A
migração constante proveniente da América Latina, sobretudo do México,
significa que em 40 anos os brancos não hispânicos provavelmente serão
uma minoria da população dos Estados Unidos106. Então, é provável que o
país se torne bilíngue, se não oficialmente, ao menos na prática. E a
sociedade norte-americana também está se tornando racialmente mista
como em nenhum momento anterior. O censo dos Estados Unidos distingue
entre quatro categorias “raciais”: “negro”, “branco”, “nativo americano” e
“asiático ou nativo do Pacífico”. Com base nisso, uma em cada 20 crianças
nos Estados Unidos é de origem mista, uma vez que seus pais não
pertencem à mesma categoria racial. O número de tais casais inter-raciais
quadruplicou entre 1990 e 2000, chegando a aproximadamente 1,5 milhão.
Vista nessa perspectiva, a eleição de Barack Obama em 2008 parece muito
menos surpreendente.
Enquanto isso, uma das economias mais dinâmicas do mundo é a do
Brasil multicolorido. O segredo para o sucesso do Brasil – ainda uma das
sociedades mais desiguais do mundo – tem sido a reforma, há muito
necessária, de dar a uma parcela cada vez maior da população uma chance
de ter uma propriedade e ganhar dinheiro. Após mais de um século de
dependência excessiva e protecionismo, substituição de importações e
outras formas de intervenção estatal, a maior parte da América Latina –
com a lamentável exceção da Venezuela – vem alcançando maior
crescimento desde os anos 1980 com uma combinação de privatização,
investimento estrangeiro e incentivo às exportações107. Os dias em que as
economias da região oscilavam entre a hiperinflação e o não pagamento da
dívida parecem ter ficado no passado. Nos anos 1950, o Produto Interno
Bruto da América do Sul era menos de um quinto do norte-americano.
Hoje, está se aproximando de um terço.
Em outras palavras, 500 anos após o início do processo de conquista e
colonização, a enorme distância entre a Anglo-América e a América Latina
parece finalmente estar diminuindo. Em todo o hemisfério ocidental, enfim
está surgindo uma única civilização americana – uma espécie de realização
tardia do sonho pan-americano de Bolívar.
Isso, no entanto, é antecipação. Pois o auge das teorias de distinção racial
não foi no século XIX, e sim na primeira metade do século XX. Para
entender por que a raça se tornou uma preocupação da interação do
Ocidente com outras civilizações, devemos nos voltar agora para a própria
África, que se tornaria o ponto focal da expansão imperial europeia no
período. No discurso que apresentamos no início deste capítulo, Churchill –
cuja própria carreira imperial começou no Sudão e na África do Sul – fez
uma pergunta que, em muitos aspectos, foi central à vida de toda uma
geração de construtores de impérios: “Por que os mesmos princípios que
definiram a civilização livre, ordenada e tolerante das ilhas Britânicas e do
Império Britânico não poderiam ser úteis na organização deste mundo
inquieto?”. A civilização tal como ele a entendia havia sido capaz de criar
raízes na América do Norte – tanto nos Estados Unidos quanto nas regiões que permaneciam sob governo britânico. Havia florescido nas terras áridas
da Austrália. Por que não na África, também?
Na América, as quatro potências europeias haviam tentado plantar suas
civilizações em solo estrangeiro (cinco se considerarmos os holandeses na
Guiana e na “Nova Amsterdã”, seis se considerarmos os suecos em Saint-
Barthélemy, sete incluindo os dinamarqueses nas Ilhas Virgens, e oito com
os assentamentos russos no Alasca e na Califórnia), com graus muitíssimo
variados de sucesso. Na corrida por fazer a mesma coisa na África, haveria
ainda mais competidores. E o maior rival da Grã-Bretanha nessa corrida
acabou sendo o país que ela havia conseguido ofuscar na América: a
França.
Ele poderia muito bem ter chamado o continente de “Colômbia”, mas o livro Mundos novus (“Mundo
novo”), de Vespúcio, de 1504, roubou parte da repercussão de Colombo.
Fernández-Armesto, The Americas, p. 66.
As afirmações clássicas são de Pomeranz, The Great Divergence; Williams, Capitalism and Slavery.
Para uma versão modificada do argumento, ver Acemoglu et al., “The Rise of Europe”.
Barrera-Osorio, Experiencing Nature.
Churchill, “Civilization”, p. 45 ss.
Hemming, The Conquest of the Incas, p. 28.
Markham (Org.), Reports on the Discovery of Peru, p. 113-27.
Wood, Conquistadors, p. 134.
Hemming, The Conquest of the Incas, p. 121.
0 Bingham, Lost City of the Incas.
1 Burkholder, Colonial Latin America, p. 46.
2 Ibid., p. 126.
3 Findlay and O’Rourke, Power and Plenty, figura 4.4.
4 Lanning, Academic Culture in the Spanish Colonies.
5 Barrera-Osorio, Experiencing Nature.
6 Fernández-Armesto, The Americas, p. 95.
7 Departamento de Arquivos e História da Carolina do Sul, Charleston.
8 Tomlins, “Indentured Servitude in Perspective”.
9 Engerman e Sokoloff, “Once upon a Time in the Americas”.
0 Ver, em geral, Egnal, New World Economies.
1 Elliott, Empires of the Atlantic World, p. 411.
2 Adamson, “England without Cromwell”.
3 Clark, “British America”.
4 Acemoglu et al., “Reversal of Fortune”.
5 Clark, A Farewell to Alms.
6 Emmer, Colonialism and Migration, p. 35.
7 Especificamente, o suposto direito do filho homem de herdar a terra de seu pai; a distinção, quanto à
alienabilidade, entre fee simple [domínio pleno dos bens herdados] e fee tail [domínio limitado]; a distinção, quanto à garantia de posse da terra, entre freehold [posse efetiva] e copyhold [posse cedida em troca de serviços]; o uso de invasão e despejo para determinar o título e a legitimidade do “uso”; e o “fideicomisso” como uma forma de evadir obrigações feudais ou outras imposições.
8 North et al., Violence and Social Orders, cap. 3.
9 Fernández-Armesto, The Americas, p. 159.
0 A afirmação clássica é de North e Weingast, “Constitutions and Commitment”. Ver também, sobre o
papel da vantagem fiscal e da expansão ultramarina em O’Brien, “Inseparable Connections”.
1 Hobbes, Leviatã, parte I, cap. 13.
2 Ibid., cap. 18.
3 Ibid., parte II, caps. 17, 19.
4 Locke, Two Treatises of Government, Livro II, cap. 3.
5 Ibid., cap. 11.
6 Ibid., cap. 6.
7 Ibid., cap. 9.
8 Ibid., cap. 13.
9 Texto completo em http://avalon.law.yale.edu/17th_century/nc05.asp.
0 Engerman e Sokoloff, “Once upon a Time in the Americas”.
1 Arneil, John Locke and America, p. 98.
2 Locke, Two Treatises of Government, Livro II, cap. 5.
3 Elliott, Empires of the Atlantic World, p. 135.
4 Ibid., p. 40. Ver também Sato, Legal Aspects of Landownership in Colonial Spanish America.
5 Engerman e Sokoloff, “Once upon a Time in the Americas”.
6 Ibid.
7 Ver Clark, The Language of Liberty.
8 Clark, “British America”.
9 Aos 17 anos de idade, Washington foi nomeado supervisor do recém-criado condado fronteiriço de
Culpeper. Essas experiências lhe foram muito úteis quando ele se tornou oficial do Exército nas Guerras Franco-Indígenas, que os colonos chamaram Guerra dos Sete Anos. Em 1752, Washington começou sua carreira como especulador imobiliário ao comprar 1.459 acres ao longo do Bullskin Creek, no condado de Frederick, na Virgínia. Após a vitória na Guerra de Independência, ele e seus companheiros veteranos atacaram as terras a oeste do rio Ohio como os legítimos despojos de guerra.
0 George Washington a William Crawford, 20 de setembro de 1767, em Washington e Crawford,
Washington–Crawford Letters, p. 3 ss.
1 Ver Jasanoff, Liberty’s Exiles.
2 Lynch, Simón Bolívar, p. 63.
3 http://faculty.chass.ncsu.edu/slatta/hi216/documents/bolivar/sbwar1813.html.
4 No entanto, alguns clérigos apoiaram o movimento de independência, em particular em Nova
Granada, onde havia considerável insatisfação com os impostos que a Igreja sul-americana era obrigada a pagar à Coroa. Contra esses padres dissidentes, os monarquistas usaram a Inquisição de Cartagena.
5 Ortega, “Earthquakes during the Colonial Period”.
6 Lynch, “Bolívar and the Caudillos”, p. 6 ss.
7 King, “A Royalist View of Colored Castes in the Venezuelan War of Independence”.
8 Lynch, “Bolívar and the Caudillos”, p. 16 ss.
9 Woodward, “The Spanish Army and the Loss of America”.
0 Ullrick, “Morillo’s Attempt to Pacify Venezuela”, p. 553.
1 O aperitivo de Angostura (bitters), de fato, foi inventado por um alemão a serviço de Bolívar,
chamado dr. Johann Gottlieb Benjamin Siegert, que foi o primeiro a produzir o concentrado alcoólico com base em uma receita secreta, em 1824. Um Pisco Sour sem algumas gotas da invenção de Siegert não é digno do nome.
2 Hamnett, “The Counter Revolution of Morillo and the Insurgent Clerics of New Granada”.
3 Lynch, Simón Bolívar, p. 99.
4 Ver, em geral, Langley, The Americas in the Age of Revolution, esp. p. 243-84.
5 http://web.archive.org/web/19970615224356/www.umich.edu/~proflame/mirror/etext/bol5.html.
6 Williamson, The Penguin History of Latin America, p. 218.
7 http://web.archive.org/web/19970615224356/www.umich.edu/~proflame/mirror/etext/bol5.html.
8 Bolívar a Sir Henry Cullen, 6 de setembro de 1815, em Bolívar (Org.), Selected Writings of Bolívar,
vol. I, p. 114.
9 http://web.archive.org/web/19970615224356/www.umich.edu/~proflame/mirror/etext/bol2.html.
0 http://web.archive.org/web/19970615224356/www.umich.edu/~proflame/mirror/etext /bol5.html.
1 Lynch, Simón Bolívar, p. 218.
2 Engerman e Sokoloff, “Once upon a Time in the Americas”.
3 Brown, Adventuring through Spanish Colonies, figura 2.2.
4 Lynch, “Bolívar and the Caudillos”, p. 16 ss.
5 Dados de Engerman e Sokoloff, “Once upon a Time in the Americas”.
6 Lynch, “Bolívar and the Caudillos”, p. 34.
7 Lynch, Simón Bolívar, p. 276.
8 Cordeiro, “Constitutions around the World”.
9 Engerman e Sokoloff, “Once upon a Time in the Americas”.
0 Fage, “Slavery and the Slave Trade in the Context of West African History”, p. 395.
1 Curtin, Plantation Complex, p. 4-26.
2 Thornton e Heywood, Central Africans.
3 Cada etapa do processo – corte, transporte, moagem, fervura e secagem – era fisicamente extenuante,
e não podia haver atraso entre elas.
4 Curtin, The Rise and Fall of the Plantation Complex, p. 26; Klein e Luna, Slavery in Brazil, p. 28.
Ver também Prado, The Colonial Background of Modern Brazil; Poppino, Brazil.
5 Schwartz, “The Colonial Past”, p. 185.
6 Schwartz, Slaves, Peasants and Rebels, p. 46.
7 Graham, Patronage and Politics in Nineteenth-Century Brazil, p. 26.
8 Elkins, Slavery, p. 76.
9 Davis, “Slavery”, p. 72.
0 Thomas, The History of the Atlantic Slave Trade, p. 633.
1 Davis, “Slavery”, p. 78.
2 Schwartz, Slaves, Peasants and Rebels, p. 42.
3 Elkins, Slavery, p. 40.
4 Ibid., p. 50.
5 Elliott, Empires of the Atlantic World, p. 283.
6 Davis, “Slavery”, p. 125.
7 Walvin, Black Ivory, p. 16 ss.
8 Ver Rostworowski, Doña Francisca Pizarro.
9 Wang et al., “Geographic Patterns”.
00 Carvajal-Carmona et al., “Strong Amerind/White Sex Bias”; Bedoya et al., “Admixture Dynamics
in Hispanics”.
01 Ferguson, The War of the World, p. 20-22.
02 Creel, A Peculiar People.
03 Eltis, “The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade”, tabela 1.
04 Schaefer, Genealogical Encyclopaedia of the Colonial Americas; Thornton e Heywood, Central
Africans, Atlantic Creoles, and the Foundation of the Americas.
05 Langley, The Americas in the Age of Revolution, p. 240. Grifo nosso.
06 Sam Roberts, “Projections Put Whites in Minority in U.S. by 2050”, New York Times, 18 de
dezembro de 2009.
07 Haber, “Development Strategy or Endogenous Process?”.
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