Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 10 de 33

Páginas do PDF

Civilização: Ocidente X Oriente

Excursões do Tanzimat

artilharia precisa. Foi uma realização um tanto surpreendente para um

homem como Robins – um quaker de berço.

É claro que os otomanos ficaram de fora de tal revolução balística, do

mesmo modo como haviam ignorado as leis newtonianas mais gerais do

movimento. No século XVI, os armamentos otomanos provenientes da Casa

de Fundição de Canhões do Estado Imperial foram mais do que um páreo

para a artilharia europeia89. No século XVII, isso começou a mudar. Já em

1664, Raimondo Montecuccoli, o grande estrategista de Habsburgo que

derrotou o exército otomano em São Gotardo, observou: “Esta enorme

artilharia [dos turcos] causa grandes danos quando atinge, mas é difícil de

manobrar e requer muito tempo para recarregar e apontar [...] Nossa

artilharia é mais manejável e eficiente, e aqui reside nossa vantagem sobre o

canhão dos turcos”90. Durante os dois séculos seguintes, essa distância só

aumentou, à medida que as potências ocidentais aprimoraram seu

conhecimento e seus armamentos em instituições como a Academia de

Engenharia e Artilharia de Woolwich, fundada em 1741. Quando o

esquadrão de Sir John Duckworth bloqueou o estreito dos Dardanelos em

1807, os turcos ainda estavam usando canhões antigos que arremessavam

enormes bolas de pedra na direção dos navios de ataque.

 

Excursões do Tanzimat

 

O romance epistolar de Montesquieu, Cartas persas, imagina dois

muçulmanos embarcando em uma viagem de descoberta com destino à

França, via Turquia. “Observei com assombro a fraqueza do império dos

osmanlis”, escreve Usbek durante sua jornada rumo a Oeste. “Esses

bárbaros abandonaram todas as artes, até mesmo a da guerra. Enquanto as

nações da Europa se tornam mais sofisticadas a cada dia, essas pessoas

permanecem em um estado de ignorância primitiva, e raramente pensam em

empregar novas invenções na guerra enquanto não tiverem sido usadas mil

vezes contra eles.”91

Tais expedições com o propósito de investigar as razões da superioridade

militar do Ocidente, que crescia visivelmente, de fato aconteceram. Quando

Yirmisekiz Çelebi Mehmed foi enviado a Paris em 1721, ele foi instruído a

“visitar a fortaleza, as fábricas e as obras da civilização francesa e indicar

quais delas poderiam ser aplicáveis”. De volta, ele escreveu com

entusiasmo sobre as escolas militares e os campos de treinamento franceses.

Nessa época, os otomanos já estavam cientes de que precisavam aprender

com o Ocidente. Em 1732, İbrahim Müteferrika, um oficial otomano

cristão, nascido na Transilvânia, presenteou o sultão Mahmud I com sua

obra Bases racionais para a política das nações, que levantava a pergunta

que desde então assombrou os muçulmanos: “Por que as nações cristãs, tão

débeis no passado em comparação às muçulmanas, hoje começam a

dominar tantas terras e até mesmo a derrotar os exércitos otomanos, outrora

vitoriosos?”. A resposta de Müteferrika foi muitíssimo abrangente. Ele se

referiu ao sistema parlamentar na Inglaterra e na Holanda, à expansão cristã

na América e no Extremo Oriente, e até mencionou que, enquanto o

Império Otomano estava sujeito à lei sharia (sheriat), os europeus tinham

“leis e regras inventadas pela razão”. Mas era, acima de tudo, a distância

militar que era preciso transpor:

 

Que os muçulmanos ajam com perspicácia e se tornem intimamente familiarizados com novos

métodos europeus, novas organizações, estratégias, táticas e operações militares europeias [...]

Todos os homens sábios do mundo concordam que o povo da Turquia se distingue dos outros

povos por sua natureza de aceitar o governo e a ordem. Se eles aprenderem as novas ciências

militares e forem capazes de aplicá-las, nenhum inimigo jamais resistirá a esse Estado 92.

 

A mensagem era clara: se quisesse ser digno de crédito como uma grande

potência, o Império Otomano deveria abraçar tanto a Revolução Científica

quanto o Iluminismo. Não é coincidência ter sido Müteferrika quem

finalmente introduziu a imprensa no Império Otomano em 1727 e quem,

um ano depois, publicou o primeiro livro a usar tipos móveis árabes, o

dicionário Van Kulu. Em 1732, ele publicou uma compilação de várias

obras inglesas e latinas como Fuyuzat-ı miknatisiye (“O esclarecimento do

magnetismo”)93.

Em 2 de dezembro de 1757, o servidor público e diplomata otomano

Ahmed Resmî Efendi partiu de Istambul rumo a Viena para anunciar a

ascensão de um novo sultão ao trono: Mustafá III. Esta seria uma expedição

otomana muito diferente daquela liderada por Kara Mustafá em 1683.

Resmî foi acompanhado não por um exército, mas por mais de cem oficiais

militares e civis; sua missão não era cercar a capital dos Habsburgo, e sim

aprender com ela. Após uma permanência de 153 dias, ele escreveu um

relatório detalhado – e entusiástico – de mais de 245 folhas manuscritas.94

Em 1763, foi enviado em outra missão diplomática, desta vez a Berlim. Na

verdade, ele ficou ainda mais impressionado com a Prússia do que com a

Áustria. Embora um pouco desconcertado com o traje de Frederico

(“poeirento com o uso diário”), ele aplaudiu a dedicação do rei à atividade

do governo, sua ausência de preconceito religioso e os abundantes indícios

de desenvolvimento econômico da Prússia95.

Os relatos anteriores sobre a Europa escritos por enviados otomanos

estavam cheios de escárnio. De fato, um complexo de superioridade crônico

fora mais um obstáculo à reforma otomana. Os relatos entusiásticos de

Resmî marcavam uma mudança drástica – e dolorosa. No entanto, nem

todos em Istambul foram receptivos. As críticas implícitas e explícitas de

Resmî aos sistemas otomanos de serviço civil e militar provavelmente

foram o motivo pelo qual o talentoso oficial nunca se tornou um grão-vizir.

Descrever a superioridade dos governos europeus era uma coisa.

Implementar reformas no sistema otomano era outra bem diferente.

Especialistas ocidentais foram convidados a Istambul para aconselhar o

sultão. Claude Alexandre, conde de Bonneval, supervisionou a reforma dos

Corpos de Mineiros e do Transporte de Artilharia otomanos, bem como dos

Corpos de Artilheiros. O barão François de Tott, um oficial francês de

origem húngara, foi trazido para supervisionar a construção de defesas

novas e eficazes para a capital otomana. Enquanto navegava pelo Bósforo,

De Tott percebeu com assombro que muitas das fortificações não só

estavam ultrapassadas como também situadas em lugar inadequado, e por

isso qualquer navio inimigo estaria completamente fora do alcance até

mesmo das armas modernas. Em suas memórias, ele as descreveu como “mais parecidas com as ruínas de um cerco do que com as preparações para

uma defesa”. De Tott instaurou o Sür’at Topçulari Ocaği, inspirada nos

“Corps de Diligents” franceses, e a Hendesehane (Academia Militar), onde

um escocês, Campbell Mustafá, instruía os cadetes em matemática. Ele

também construiu uma nova casa de fundição para a manufatura de canhões

e estimulou a criação de unidades de artilharia móvel96.

Reiteradas vezes, no entanto, as tentativas de mudança enfrentaram

oposição política, sobretudo a dos janízaros, que em 1807 conseguiram

desmantelar completamente o Exército da Nova Ordem (Nizam-ı Cedid),

instituído sob a direção de outro especialista francês, o general Albert

Dubayet. Nessa época, o exército otomano parecia ser administrado

primordialmente para o enriquecimento e a conveniência de seus oficiais.

Cada vez mais vulnerável em batalha, já não era eficaz nem mesmo para

conter revoltas internas97. Foi só durante a era do Tanzimat (a

Reorganização) – os reinos dos sultões reformadores Mahmud II e

Abdülmecid I – que um sultão esteve preparado para confrontar diretamente

tal oposição.

Em 11 de junho de 1826, em uma grande praça de desfiles perto dos

principais quartéis janízaros, 200 soldados demonstravam suas habilidades

usando novos uniformes em estilo europeu. Dois dias depois, cerca de 20

mil janízaros se reuniram para protestar, gritando: “Não queremos o

treinamento militar dos infiéis!”. Eles simbolicamente derrubaram seus

caldeirões de pilav [arroz turco] e ameaçaram marchar para o palácio de

Topkapı. Mahmud II agarrou a oportunidade. Os janízaros seriam

massacrados – declarou –, ou gatos caminhariam sobre as ruínas de

Istambul. Ele havia se preparado bem, assegurando a lealdade de unidades

essenciais do Exército, como os Corpos de Artilharia. Quando suas armas

se voltaram contra os quartéis dos janízaros, as forças reacionárias foram

desestruturadas. Houve centenas de mortes. Em 17 de junho, os janízaros

foram eliminados98.

Não só os uniformes do exército foram europeizados. Os soldados

também tinham de marchar em um ritmo completamente novo, seguindo

orientações do instrutor-geral da música otomana imperial, Giuseppe Donizetti, irmão do mais famoso Gaetano Donizetti, o compositor de

“Lucia di Lammermoor”. Donizetti escreveu dois hinos nacionais

marcadamente italianizados para seu empregador, além de supervisionar a

criação de uma banda militar em estilo europeu, a quem ensinou tocar

ouvertures de Rossini. Os tambores de guerra, que um dia incutiram o

temor a Alá nos defensores de Viena, haviam desaparecido. Conforme

informou o jornal francês Le Ménestrel em dezembro de 1836:

 

Em Istambul, a antiga música turca morreu agonizando. O sultão Mahmoud adora música italiana

e a introduziu em seus exércitos [...] Ele gosta particularmente de piano, tanto que solicitou muitos

instrumentos de Viena para suas damas. Eu não sei como elas vão aprender a tocar, já que até

agora ninguém conseguiu se aproximar delas99.

 

O símbolo mais duradouro da era da reforma foi construído pelo sultão

Abdülmecid I. Erguido entre 1843 e 1856, o palácio Dolmabahçe tinha não

menos de 285 aposentos, 44 salões, 68 banheiros e seis hammans (banhos

turcos). Foram usadas 14 toneladas de folha de ouro para folhear o teto do

palácio, do qual pendia um total de 36 candelabros. No topo da ofuscante

escadaria de cristal, o Salão Muayede (Cerimonial), o maior aposento do

palácio, ostenta um imenso carpete de uma única peça medindo 120 metros

quadrados e um candelabro que pesa mais de quatro toneladas. É uma

mistura da Grand Central Station com um palco montado na Opéra de

Paris.

Tudo que restava era implementar, após um atraso de quase 200 anos, a

Revolução Científica. Um relatório do governo publicado em 1838

confirmou a nova importância dada ao conhecimento ocidental: “O

conhecimento religioso traz salvação no mundo vindouro, mas a ciência

traz a perfeição do homem neste mundo”. No entanto, foi só em 1851 que

uma Assembleia do Conhecimento (Encümen-i Daniş) foi estabelecida nos

moldes da Académie Française (os membros deveriam ser “cultos e

versados em ciência, tendo um conhecimento perfeito de uma das línguas

europeias”), à qual se seguiu, dez anos mais tarde, a Sociedade Científica

Otomana (Cemiyet-i İlmiye-i Osmaniye).100 Ao mesmo tempo, com a criação de uma espécie de parque industrial a oeste de Istambul, houve um

esforço conjunto para construir fábricas capazes de produzir uniformes e

armamentos modernos. Parecia que os otomanos estavam, enfim, abrindo-

se sinceramente para o Ocidente101. O orientalista James Redhouse – que,

após abandonar o trabalho em um navio aos 17 anos de idade, fora

empregado como professor na Escola de Engenharia Naval otomana –

trabalhou duro por décadas para traduzir obras inglesas para o turco e

compilar dicionários, gramáticas e manuais que tornariam o conhecimento

europeu mais acessível aos leitores otomanos, além de ter contribuído para

melhorar a compreensão ocidental acerca dos turcos, que tinham má

reputação no Ocidente. Em 1878, Ahmed Midhat fundou o jornal Intérprete

da verdade, no qual publicou, em séries, muitas de suas próprias obras,

entre as quais Avrupa’da Bir Cevelan (Uma viagem pela Europa, 1889), que

descreve suas experiências na Exposição Universal de Paris e, em

particular, suas impressões sobre o Palácio das Máquinas102.

Contudo, apesar dos esforços sinceros de grão-vizires como Reshid

Pasha, Fuad e Ali Pasha e Midhat Pasha, nenhuma dessas mudanças foi

acompanhada pelo tipo de reforma no sistema de administração otomano

que poderia ter fornecido uma base sólida para apoiar essa bela fachada103.

Novos exércitos, novos uniformes, novos hinos e novos palácios, tudo isso

estava muito bem. Mas, sem um sistema fiscal efetivo para financiá-los,

uma parcela cada vez maior do custo era paga com empréstimos de Paris e

de Londres. E, quanto mais se gastava com o pagamento de juros aos

debenturistas europeus, menos sobrava para financiar a defesa do império,

agora decadente. Impulsionado pelos gregos nos anos 1820, e perdendo

grandes extensões de território nos Bálcãs em 1878, o Império Otomano

parecia estar em sua fase terminal, com sua moeda desvalorizada pela

emissão de notas grosseiras (e facilmente falsificadas) de papel-moeda

conhecidas como kaime104, uma parte cada vez maior de suas receitas

consumida pelo pagamento de juros aos credores europeus105, e sua periferia

ameaçada por uma combinação de nacionalismo eslavo e conspiração das

grandes potências. A tentativa de introduzir uma constituição para limitar o poder do sultão terminou com o exílio de Midhat Pasha e o