Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 6 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

O reino medíocre

 

As civilizações são coisas complexas. Durante séculos, elas podem

florescer em um centro de poder e prosperidade. Mas então, muitas vezes

de maneira um tanto abrupta, podem se transformar em caos.

A dinastia Ming na China nascera em 1368, quando o comandante militar

Yuanzhang mudou seu nome para Hongwu, que significa “grande poder

militar”. Durante a maior parte dos três séculos seguintes, conforme vimos,

a China Ming foi a civilização mais sofisticada do mundo em praticamente

todos os aspectos. Mas então, em meados do século XVII, o trem

descarrilou. Isso não é exagerar sua estabilidade inicial. Afinal de contas,

Yongle só sucedera Hongwu, seu pai, após um período de guerra civil e a

deposição do sucessor legítimo, o filho de seu irmão mais velho. Mas a

crise de meados do século XVII foi, sem dúvida, uma ruptura maior. O

facciosismo político foi exacerbado por uma crise fiscal à medida que o

poder de compra da prata, cada vez menor, foi minando o valor real das

receitas provenientes dos impostos43. O clima rigoroso, a fome e as

epidemias abriram caminho para rebeliões no interior do império e para

incursões de fora44. Em 1644, a própria Pequim foi dominada pelo líder

rebelde Li Zicheng. O último imperador Ming se enforcou por vergonha.

Essa drástica transição do equilíbrio confuciano à anarquia levou pouco

mais de uma década.

As consequências do colapso da dinastia Ming foram devastadoras. Entre

1580 e 1650, os conflitos e as epidemias reduziram de 35% a 40% a

população chinesa. O que havia dado errado? A resposta é que a reclusão

foi fatal, sobretudo para uma sociedade complexa e densamente povoada

como a chinesa. O sistema Ming havia criado um grande equilíbrio –

impressionante para fora, mas frágil para dentro. O campo era capaz de

sustentar um número enorme de pessoas, mas só à base de uma ordem

social estática, que literalmente parou de inovar. Foi uma espécie de

armadilha. E, quando o menor detalhe deu errado, a armadilha foi acionada.

Não havia recursos externos com os quais contar. É verdade que um número

considerável de estudiosos procurou representar a China da dinastia Ming como uma sociedade próspera, com comércio interno significativo e um

mercado vibrante para bens de luxo45. As mais recentes pesquisas chinesas,

no entanto, mostram que a renda per capita estagnou na era Ming e que o

estoque de capital de fato encolheu46.

 

Por outro lado, como a população da Inglaterra cresceu rapidamente no

fim do século XVII, a expansão ultramarina foi fundamental para que o país

não caísse na armadilha identificada por Thomas Malthus. O comércio

transatlântico trouxe um influxo de novos nutrientes, como batata e açúcar

– um acre de cana-de-açúcar produzia a mesma quantidade de energia que

12 acres de trigo47 –, além de muito bacalhau e arenque. A colonização

permitiu a emigração da população excedente. Com o tempo, o efeito foi

um aumento de produtividade, renda, nutrição e até mesmo estatura média.

Consideremos o destino de outro povo insular, situado, assim como os

ingleses, em um arquipélago da costa eurasiática. Enquanto os ingleses se voltaram agressivamente para fora, assentando as bases daquela que pode

ser apropriadamente chamada de “anglobalização”, os japoneses tomaram o

caminho oposto, com a política de reclusão estrita (sakoku) do xogunato de

Tokugawa após 1640. Todas as formas de contato com o mundo externo

foram proibidas. Em consequência, o Japão perdeu todos os benefícios

associados a um rápido aumento de migração e comércio global. Os

resultados foram alarmantes. No fim do século XVIII, mais de 28% da dieta

dos trabalhadores rurais ingleses consistia de produtos de origem animal;

seus congêneres japoneses viviam de uma dieta monótona, 95% composta

de cereais, principalmente arroz. Essa divergência nutricional explica a

diferença marcante em estatura que se fez notar após 1600. A altura média

dos condenados ingleses no século XVIII era de 1,69 metro. A altura média

dos soldados japoneses no mesmo período era de apenas 1,58 metro48.

Quando o Oriente encontrou o Ocidente naquela época, eles já não

conseguiam se olhar diretamente nos olhos.

Em outras palavras, muito antes da Revolução Industrial, a pequena

Inglaterra estava saindo à frente das grandes civilizações do Oriente devido

às vantagens materiais do comércio e da colonização. O caminho escolhido

pelos chineses e pelos japoneses – ignorar o comércio exterior e intensificar

o cultivo de arroz – significou que, com o crescimento populacional, as

rendas caíram, e também a nutrição, a estatura e a produtividade. Quando a

safra era escassa ou seu plantio era interrompido, os resultados eram

catastróficos. Os ingleses tiveram mais sorte também com relação às

drogas: há muito habituados ao álcool, foram despertados de sua

embriaguez no século XVII pelo tabaco norte-americano, pelo café árabe e

pelo chá chinês. Eles tiveram o estímulo das coffee houses, que

funcionavam em parte como cafeterias, em parte como bolsa de valores e

em parte como sala de bate-papo49; os chineses acabaram na letargia dos

antros do ópio, e seus cachimbos eram abastecidos por ninguém menos que

a Companhia Britânica das Índias Orientais50.

Nem todos os analistas europeus reconheceram, conforme fez Adam Smith,

a estagnação da China. Em 1697, o filósofo e matemático alemão Gottfried

Leibniz anunciou: “Publicarei uma nota em minha porta: Agência de Informação para o Conhecimento Chinês”. Em seu livro As últimas notícias

sobre a China, ele propôs que “missionários chineses fossem enviados até

nós para nos ensinar os objetivos e as práticas da teologia natural, assim

como nós enviamos missionários para instruí-los na religião revelada”.

“Não precisamos estar obcecados pelos méritos dos chineses”, declarou o

filósofo francês Voltaire em 1764, “para reconhecer [...] que seu império é,

de fato, o melhor que o mundo já viu.” Dois anos mais tarde, o fisiocrata

François Quesnay publicou O despotismo da China, que elogiava a

primazia da agricultura na política econômica chinesa.

Mas aqueles do outro lado do Canal que se interessavam mais pelo

comércio e pela indústria – e que também estavam menos inclinados a

idealizar a China como uma forma de criticar indiretamente seu próprio

governo – perceberam a realidade da estagnação chinesa. Em 1793, o

primeiro conde Macartney liderou uma expedição ao imperador Qianlong,

em um esforço vão de persuadir os chineses a reabrirem seu império ao

comércio. Embora Macartney tenha explicitamente se recusado a se

ajoelhar diante do imperador, ele levou consigo vários presentes: um

planetário feito por alemães, “possivelmente a maior e mais perfeita lente

de vidro já fabricada”, além de telescópios, teodolitos, bombas de ar,

máquinas elétricas e “um grande aparato para ajudar a explicar e ilustrar os

princípios da ciência”. Mas o velho imperador (então com mais de 80 anos)

e seus subordinados não ficaram impressionados com essas maravilhas da

civilização ocidental:

 

descobriu-se que o gosto [pelas ciências], se é que existiu, desapareceu por completo [...] [Todos]

foram [...] perdidos e jogados fora pelos chineses ignorantes [...] que, segundo consta, logo após a

morte do embaixador [sic] os amontoaram nas salas de madeira de Yuen-min-yuen [o Velho

Palácio de Inverno]. Não tiveram mais sucesso as várias demonstrações de arte e elegância dos

exemplos selecionados das manufaturas britânicas. A impressão que a contemplação de tais

artigos pareceu causar ao espírito dos cortesãos foi de pura inveja [...] Tal conduta provavelmente

pode ser atribuída a um tipo de política estatal, que desencoraja a introdução de novidades [...]

 

Posteriormente, o imperador dirigiu uma declaração desdenhosa ao rei

George III: “não carecemos de nada”, afirmou. “Nós nunca demos muita importância a objetos estranhos ou engenhosos, tampouco precisamos dos

produtos manufaturados de seu país.”51

A abertura infrutífera de Macartney para com a China foi um emblema

perfeito da transferência do poder global do Oriente ao Ocidente que vinha

ocorrendo desde 1500. O Reino do Meio, um dia o berço das invenções, era

agora o reino medíocre, deliberadamente hostil em relação às inovações dos

outros povos. Aquela engenhosa criação chinesa, o relógio, havia voltado

para casa, mas em sua forma europeia, modificada e melhorada, com

mecanismos ainda mais precisos compostos de molas e dentes de

engrenagem. Hoje, na Cidade Proibida, há uma sala inteira dedicada a uma

vasta coleção imperial de máquinas para marcar o tempo. Ao contrário do

imperador Qianlong, seus predecessores colecionaram relógios de maneira

obsessiva. Quase todos foram feitos na Europa, ou por artesãos europeus

vivendo na China.

A supremacia do Ocidente foi confirmada em junho de 1842, quando as

canhoneiras da Marinha Real Britânica subiram o Yangtze até o Grande

Canal, para retaliar a destruição dos estoques de ópio provocada por um

oficial chinês. A China teve de pagar uma indenização de 21 milhões de

dólares em prata, abrir cinco portos ao comércio britânico e ceder a ilha de

Hong Kong. Foi irônico, mas apropriado, que este primeiro dos chamados

“Tratados Desiguais” tenha sido assinado em Nanquim, no templo Jinghai –

originalmente construído em homenagem ao almirante Zheng He e a

Tianfei, a Deusa do Mar, que protegera o almirante e sua frota durante mais

de quatro séculos.

Atualmente, na China, estão construindo navios outra vez – grandes navios

capazes de circunavegar o globo, deixando contêineres cheios de produtos

manufaturados chineses e levando de volta as matérias-primas necessárias

para alimentar a economia industrial do país, que cresce de maneira

insaciável. Quando visitei o maior estaleiro de Xangai em junho de 2010,

fiquei chocado com o tamanho dos navios em construção. A cena fez as

docas de Glasgow de minha infância parecerem insignificantes. Nas

fábricas de Wenzhou, os trabalhadores produzem ternos às centenas de

milhares e canetas de plástico aos milhões. E as águas do Yangtze são constantemente agitadas por incontáveis barcas com grandes pilhas de

carvão, cimento e minério de ferro. A competição, as empresas, os

mercados, o comércio – estas são as coisas para as quais a China um dia

deu as costas. Já não mais. Hoje, o almirante Zheng He, a personificação do

expansionismo chinês e por tanto tempo esquecido, é um herói na China.

Nas palavras do maior reformador econômico da era pós-Mao, Deng

Xiaoping:

 

Hoje, nenhum país que deseje ser desenvolvido pode fechar suas portas. Nós já vivenciamos essa

experiência amarga e nossos ancestrais também. No início da dinastia Ming, no reino de Yongle,

quando Zheng He velejou pelo oceano ocidental, nosso país era aberto. Depois que Yongle

morreu, a dinastia entrou em declínio. A China foi invadida. Desde meados da dinastia Ming até

as guerras do ópio, durante 300 anos de isolamento, a China empobreceu, e se tornou atrasada e

atolada na escuridão e na ignorância. Não abrir as portas não é uma opção.

 

É uma leitura plausível da história (e notadamente similar à de Adam

Smith).

Há 30 anos, se você tivesse previsto que em meio século a economia da

China seria uma das maiores do mundo, teria sido considerado um lunático.

Mas, se em 1420 você tivesse previsto que a Europa Ocidental um dia

estaria produzindo mais que a Ásia inteira, e que em 500 anos a renda per

capita média dos britânicos seria nove vezes a dos chineses, não seria

considerado mais realista. Tal foi o efeito dinâmico da competição na

Europa Ocidental – e o efeito retardador do monopólio político na Ásia

Oriental.

 

Smith, Wealth of Nations, Livro I, caps. 8, 11, Livro IV, cap. 9.

Montesquieu, The Spirit of the Laws, Livro VIII, cap. 21. Ver também Livro VII, cap. 7, Livro XIX,

caps. 17-20.

Ver Bishop, China’s Imperial Way.

Tsai, Perpetual Happiness, p. 123.

Brook, The Confusions of Pleasure.

Pinker, The Better Angels of our Nature.

Castor, Blood and Roses.

Fogel, The Escape from Hunger and Premature Death, tabelas 1.2, 1.4.

Clark, A Farewell to Alms.

0 Dardess, “A Ming Landscape”, p. 323 ss.

1 Needham (Org.), Science and Civilization in China, vol. V, p. 52, 313.

2 Ibid., vol. VI, p. 558, 571, 581. Cf. Hobson, The Eastern Origins of Western Civilisation, p. 201.

3 Mokyr, Lever of Riches, p. 209 ss.

4 Needham (Org.), Science and Civilization in China, vol. IV, p. 184.

5 Ibid., vol. V, p. 61, 157, 354, 421. Cf. Hobson, The Eastern Origins of Western Civilisation, p. 207-

12.

6 Houve uma sétima viagem em 1430-33. Gavin Menzies afirmou que navios chineses circundaram o

Cabo da Boa Esperança, subiram pela costa oeste da África até as ilhas de Cabo Verde, atravessaram o Atlântico e então prosseguiram até a Terra do Fogo e a costa da Austrália; e que um dos almirantes de Zheng He pode ter chegado à Groelândia, voltando à China pela costa norte da Sibéria e pelo Estreito de Bering. Os indícios para tais afirmações são, quando muito, circunstanciais, se não inexistentes.

7 Levathes, When China Ruled the Seas.

8 Ray, “An Analysis of the Chinese Maritime Voyages”, p. 82.

9 Ibid., p. 82-4.

0 Duyvendak, “The True Dates of the Chinese Maritime Expeditions”.

1 Cotterell, The Imperial Capitals of China, p. 222. Ver também Fernández-Armesto, Millennium, cap.

4; Pathfinders, cap. 4.

2 Landes, The Wealth and Poverty of Nations, p. 95 ss.

3 Keay, China: A History, p. 385.

4 De acordo com Nicholas D. Kristof, “1492: The Prequel”, New York Times, 6 de junho de 1999.

5 Finlay, “Portuguese and Chinese Maritime Imperialism”, p. 240 ss.

6 Flynn e Giraldez, “Born with a ‘Silver Spoon’”, p. 204.

7 Chirot, “The Rise of the West”, p. 181 ss.

8 Cipolla, Guns and Sails in the Early Phase of European Expansion, p. 77-82.

9 Hoffman, “Why Was It that Europeans Conquered the World?” Sobre as deficiências do sistema de

impostos da dinastia Ming, ver Huang, 1587, p. 64.

0 Jones, The European Miracle, p. 67.

1 Ibid., p. 120.

2 Atualmente, a City of London Corporation é o órgão responsável pela City, o distrito financeiro de

Londres (também chamado Square Mile). O Common Council é o Conselho Municipal, formado por conselheiros municipais e aldermen (cada distrito da City elege um alderman para um mandato de seis anos). Os liverymen são membros seniores das 108 tradicionais corporações de ofício, e são responsáveis por eleger anualmente o lord mayor (o prefeito da City – mas não da Grande Londres) e também os dois sheriffs, cuja função hoje é simbólica. Um freeman (“homem livre”), na Idade Média, era todo indivíduo que não pertencia a um senhor feudal, mas que gozava do privilégio de ganhar dinheiro e ser proprietário de terras. Atualmente, é quem recebe o título de “cidadão honorário”, concedido pela City of London Freemen’s School. Tanto os conselheiros municipais quanto os aldermen devem ser freemen para ter o direito de ser membros do Common Council. (N. T.) Fonte:

http://www.cityoflondon.gov.uk/Corporation/LGNL_Services/Council_and_democracy/Councillors_ democracy_and_elections/glossary.htm

3 Birch, The Historical Charters and Constitutional Documents of the City of London, p. 3 ss.

4 Ibid., p. 19 ss.

5 Ibid., p. 61 ss.

6 Detalhes de Inwood, A History of London.

7 Burrage e Corry, “At Sixes and Sevens”.

8 Landes, Revolution in Time, p. 34-42.

9 Barmé, The Forbidden City.

0 Cotterell, The Imperial Capitals of China, p. 222.

1 Cotterell, China: A History, p. 178.

2 Catto, “Written English”.

3 Flynn e Giraldez, “Arbitrage, China, and World Trade in the Early Modern Period”.

4 Ebrey, The Cambridge Illustrated History of China, esp. p. 215.

5 Para um bom resumo, ver Goody, Capitalism and Modernity, p. 103-17.

6 Guan e Li, “The GDP and Economic Structure of the Ming Dinasty”.

7 Ver Mintz, Sweetness and Power, p. 191; Higman, “The Sugar Revolution”.

8 Clark, Farewell to Alms, p. 57.

9 Pelzer and Pelzer, “The Coffee Houses of Augustan London”.

0 Para uma abordagem revisionista, que subestima os danos sociais causados pelas exportações do ópio

por parte da British India, ver Newman, “Opium Smoking in Late Imperial China”.

1 Barrow, Some account of the Public Life of the Earl of Macartney, vol. I, p. 348 ss.

 

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