Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 24 de 33

Páginas do PDF

Civilização: Ocidente X Oriente

The Jeans Genie

jeans.

 

The Jeans Genie

 

Foi há muito tempo, no Velho Oeste, que nasceu a indumentária universal.

O jeans começou a vida como a calça nada prática dos mineradores e

vaqueiros. Nos anos 1970, era a peça de roupa mais popular do mundo – e

um símbolo politicamente potente do que havia de errado com o sistema

econômico soviético. Por quê? Por que os soviéticos não foram capazes de

copiar um Levi’s 501 como haviam copiado a bomba atômica?

O jeans tal como o conhecemos foi inventado em 1873, quando Levi

Strauss, um comerciante de produtos secos nascido na Bavária, e Jacob

Davis, um alfaiate do Reno, patentearam o uso de rebites de cobre para

reforçar os bolsos dos “macacões” dos mineradores. O tecido que eles

usaram era o brim, ou denim (originalmente, serge de Nîmes, assim como

“jeans” provavelmente deriva de Genoa, Gênova em inglês), fabricado na

tecelagem Amoskeag Mill em Manchester, New Hampshire, usando

algodão cultivado nos Estados Unidos tingido com índigo cultivado nos

Estados Unidos. As fábricas originais da Levi’s ficavam em São Francisco,

e foi lá que a conhecida etiqueta de couro foi usada pela primeira vez, em

1886, mostrando dois cavalos que não conseguiam rasgar um par de Levi’s;

a etiqueta vermelha foi adicionada em 1936. O jeans azul é barato de

produzir, fácil de limpar, difícil de destruir e confortável de usar. Mas

também o eram os macacões dos operários do tipo que se costumava usar

na Grã-Bretanha (mais famosamente por Churchill durante a guerra), bem

como os dungarees, que recebiam esse nome por causa do tecido

proveniente de Dongri, na Índia. Por que foi que o jeans californiano – que

também foi distribuído a presos em muitas penitenciárias estatais – passou a

dominar o mundo da moda? A resposta está em duas das indústrias de

maior sucesso do século XX: o cinema e a publicidade.

Começou quando o jovem John Wayne trocou as elaboradas chaparreiras

de couro com franja dos primeiros filmes de caubói pelo jeans comum que usou em No tempo das diligências (1939). Então vieram o jeans e a jaqueta

de couro de Marlon Brando em O selvagem (1953), seguidos do traje

vermelho (jaqueta), azul (jeans) e branco (camiseta) de James Dean em

Juventude transviada (1955) e do jeans negro de Elvis Presley em O

prisioneiro do rock and roll (1957). Os publicitários promoveram ainda

mais o novo visual rústico com o “homem de Marlboro”, o caubói que

usava jeans e fumava cigarro, concebido pelo executivo de publicidade

Burnett, em 1954. Marilyn Monroe também foi uma das primeiras a adotar

o jeans; em um de seus primeiros ensaios fotográficos, ela vestia um

uniforme de presidiária nada sedutor. Desde o começo, o segredo foi a

associação entre jeans e mau comportamento juvenil. Já na década de 1830,

o líder mórmon Brigham Young havia denunciado as calças com fecho de

zíper como “calças de fornicação”. Em 1944, a revista Life causou um

escândalo ao publicar uma fotografia de duas mulheres da Wellesley

College usando jeans101. Na época em que a marca Lee, concorrente da

Levi’s, implementou os zíperes, a reputação do jeans como sexualmente

estimulante se consolidou – um efeito curioso, considerando a dificuldade

que é fazer sexo com alguém usando um par de jeans apertados. O jeans

teve uma carreira ascendente. Começou nos traseiros de peões e

presidiários; foi obrigatório para os trabalhadores da defesa civil durante a

guerra; passou aos grupos de ciclistas nos anos pós-guerra; foi adotado

pelos estudantes de West Coast e então da Ivy League; graduou-se para

“conquistar” escritores, cantores de música folk e grupos pop nos anos

1960; e acabou sendo usado em público por todos os presidentes depois de

Richard Nixon. O crescimento da Levi’s foi espetacular. Em 1948, a

empresa vendeu 4 milhões de pares de jeans; em 1959, foram 10 milhões.

As vendas da Levi’s decuplicaram entre 1964 e 1975, passando da marca de

1 bilhão de dólares. Em 1979, haviam alcançado 2 bilhões de dólares. E a

Levi’s foi apenas uma das várias marcas de sucesso, com a Lee e a

Wrangler também na disputa.

Essas roupas 100% norte-americanas também eram atraentes para os

estrangeiros, como ficou claro quando a Levi’s lançou uma campanha para

promover a exportação do produto nos anos 1960 e 1970. Para os jovens de todo o mundo, o jeans simbolizou uma revolta geracional contra as

convenções asfixiantes da indumentária do pós-guerra. O gênio do jeans102

havia saído da garrafa, e a garrafa era, muito provavelmente, a embalagem

de vidro da Coca-Cola, com suas curvas acentuadas. Parecia ser só uma

questão de tempo para que a Levi Strauss & Co. alcançasse sua ambição

declarada de “vestir o mundo”. “The World is Blue Jeans Country Now”

[“O mundo, agora, é o país do jeans azul”], proclamou a revista Life em

1972103. Ao se expandir no exterior, a Levi’s estava seguindo o manual de

estratégia da Coca-Cola. O líquido efervescente marrom, inventado em

1886 quando John Pemberton carbonatou uma mistura de cocaína da folha

de coca e cafeína da noz de cola, conseguiu superar até mesmo a Singer

como uma marca global. A Coca-Cola se proclamava “a Bebida

Internacional” já em 1929, quando estava à venda em 78 países diferentes,

incluindo até mesmo a Birmânia – onde seu característico logotipo

manuscrito spenceriano podia ser visto, de maneira um tanto desarmônica,

na entrada do Pagode Schwedagon, em Yangon104. Na Segunda Guerra

Mundial, a Coke gerenciava 64 usinas de engarrafamento diferentes em seis

palcos de guerra. Conseguiu estabelecer uma usina de engarrafamento até

mesmo no Laos em 1973, no auge da Guerra do Vietnã.

Tanto para a Levi’s quanto para a Coca-Cola, no entanto, não havia

barreira mais impenetrável do que a Cortina de Ferro instalada na Europa

pela Guerra Fria. De fato, o chefe da Coca-Cola, Robert W. Woodruff, se

recusou, por princípio, a participar da Exposição Nacional Americana em

Moscou, culpando pessoalmente o vice-presidente Richard Nixon quando a

Pepsi conseguiu a proeza de fazer com que o líder soviético Nikita

Khrushchev experimentasse o refrigerante rival após o debate televisionado

dos dois líderes na abertura da Exposição, em julho de 1959105.

Na retórica da Guerra Fria, estava claro quem era o “Ocidente” e quem era

o “Oriente”. O Oriente começava onde o rio Elba marcava o fim da

República Federal da Alemanha e o início da República Democrática

Alemã. Terminava na fronteira entre a República Democrática Popular da

Coreia e a República da Coreia. Mas, do ponto de vista do verdadeiro

Oriente – do Oriente Médio ao Extremo Oriente –, o mundo parecia simplesmente ter sido dividido entre dois Ocidentes rivais, um capitalista e

um comunista. As pessoas no comando pareciam mais ou menos similares.

De fato, em muitos aspectos a União Soviética desejava imitar os Estados

Unidos, construir as mesmas armas – e também os mesmos bens de

consumo. Conforme Khrushchev deixou bem claro em seu “debate de

cozinha” com Nixon, os soviéticos aspiravam a se igualar aos norte-

americanos produto por produto. Com relação ao vestuário, havia pouco a

escolher entre os dois homens. Vestido totalmente em branco e negro, como

que para confundir a tecnologia da TV em cores que se esperava que ele

promovesse, Nixon parecia o austero advogado californiano que era.

Usando terno e chapéu de cor clara, Khrushchev parecia mais um

congressista dixiecrat que havia tomado muito martíni durante o almoço.

Assim como os jovens do mundo inteiro, os adolescentes da União

Soviética e seus satélites na Europa Oriental estavam clamando por jeans.

Portanto, é realmente estranho que o principal rival dos Estados Unidos no

mundo pós-guerra não tenha sido capaz de copiar essa peça de roupa tão

óbvia. Talvez se tenha pensado que a loucura ocidental por jeans havia

tornado a vida mais fácil para os soviéticos. Afinal, supostamente a União

Soviética era o paraíso proletário, e os jeans são muito mais fáceis de fazer

que as calças Sta-Prest, por exemplo (outra invenção de Levi Strauss,

introduzida em 1964). Mas, de alguma forma, o bloco comunista foi

incapaz de entender o poder de sedução de uma peça de indumentária que

poderia ter simbolizado com igual eficácia as virtudes do dedicado

trabalhador soviético. Em vez disso, o jeans azul, e a música pop com a

qual logo esteve intimamente associado, tornaram-se símbolos perfeitos da

superioridade ocidental. E, ao contrário das ogivas nucleares, o jeans foi de

fato lançado contra os soviéticos: houve exposições da Levi’s em Moscou

em 1959 e em 1967.

Se fosse um estudante vivendo atrás da Cortina de Ferro nos anos 1960 –

na Berlim Oriental, por exemplo –, você não ia querer vestir o uniforme de

um Jovem Pioneiro, o equivalente comunista dos escoteiros. Ia querer se

vestir como todos os jovens no Ocidente. Stefan Wolle era um estudante da

Alemanha Oriental naquela época. Ele recorda:

No começo, não era possível [comprar jeans na República Democrática Alemã]. O jeans era

considerado a personificação do imperialismo cultural anglo-saxão. E usar jeans era extremamente

malvisto. E não se podia comprar um. [Mas] muitos conseguiam com parentes que viviam no

Ocidente [...] Eles usavam, e os professores, os empregadores e os policiais nas ruas se irritavam.

Isso deu origem a um mercado negro de produtos ocidentais que parecia ameaçar o Estado.106

 

O jeans era tão desejado que as autoridades policiais soviéticas cunharam

o termo “crimes de jeans”, que se referia a “violações da lei provocadas por

um desejo de usar de qualquer meio para obter artigos feitos de jeans”. Em

1986, Régis Debray, filósofo esquerdista francês e antigo companheiro de

armas de Che Guevara, observou: “Há mais poder no rock, nos vídeos, no

jeans azul, na fast food, nas redes de notícias e nas antenas de TV do que

em todo o Exército Vermelho”107. Tudo isso estava se tornando claro em

meados dos anos 1980. Em 1968, no entanto, não era nada certo.

O ano de 1968 foi um ano de revolução em todos os aspectos, de Paris a

Praga, de Berlim a Berkeley, e até mesmo em Pequim108. Mas o fator

comum de todas essas rupturas ao duopólio de poder da Guerra Fria era a

juventude. Em raras ocasiões, nos tempos atuais, as pessoas entre 15 e 24

anos representaram uma parcela tão grande da população quanto na década

pós-1968. Tendo sido reduzidas a meros 11% da população dos Estados

Unidos em meados dos anos 1950, os jovens alcançaram um pico de 17%

em meados dos anos 1970. Na América Latina e na Ásia, superaram os

20%. Ao mesmo tempo, a expansão da educação superior, sobretudo nos

Estados Unidos, significou que uma proporção maior de jovens ia à

universidade. Em 1968, os estudantes universitários compunham mais de

3% de toda a população norte-americana, em comparação com menos de

1% em 1928. Uma expansão mais modesta acontecera também na Europa.

Estes eram os baby boomers do pós-guerra – jovens, numerosos, educados e

prósperos. Eles tinham todos os motivos para serem gratos à geração de

seus pais, que havia lutado por liberdade e de quem herdaram

oportunidades. Em vez disso, eles se revoltaram.

Em 22 de março de 1968, os estudantes franceses ocuparam a sala dos

professores no oitavo piso da Universidade de Paris em Nanterre – “Nanterre, a louca”, como ficou conhecido o feio campus de concreto. Em

maio, dezenas de milhares de estudantes, incluindo os da elite da Sorbonne,

entraram em confronto com a polícia nas ruas de Paris109. Uma greve geral

tomou conta do país quando os sindicatos aproveitaram a oportunidade para

reivindicar melhores salários a um enfraquecido governo. Cenas similares

ocorreram na Universidade de Berkeley, na Califórnia, na Universidade

Livre, em Berlim, e até mesmo em Harvard, onde os membros da

organização Students for a Democratic Society ocuparam a casa do

presidente, e membros da Worker-Student Alliance tomaram de assalto o

edifício da reitoria da Universidade (temporariamente rebatizado de

Edifício Che Guevara), desalojando o reitor e os diretores que trabalhavam

lá.

À primeira vista, essa revolta no campus foi dirigida contra a guerra dos

Estados Unidos que almejava preservar a independência do Vietnã do Sul,

uma guerra que, em 1968, havia custado a vida de mais de 30 mil

americanos e perdido a aprovação da maior parte do público. A geração de

1968 também apoiou o movimento pelos direitos civis dos afro-americanos,

uma oposição classicamente liberal aos obstáculos à igualdade racial que

ainda persistiam no Sul dos Estados Unidos. Mas grande parte da

linguagem de 1968 foi marxista, representando quase todo conflito, de

Israel à Indochina, como uma luta anti-imperialista. De acordo com líderes

estudantis mais doutrinários, como Daniel (“Danny, o Vermelho”) Cohn-

Bendit e Rudi Dutschke, o objetivo era a “insurreição nos centros do

capitalismo”. “A humanidade não será feliz”, os enragés declararam,

“enquanto o último capitalista não for enforcado com as entranhas do

último burocrata”. Como anarquistas, os membros da Internacional

Situacionista queriam a abolição do próprio trabalho, instando os estudantes

que os apoiavam: Ne travaillez jamais – Trabalhar, jamais110. Mas havia

uma demanda mais prática que dizia muito sobre os verdadeiros objetivos

da revolução: o acesso masculino irrestrito aos dormitórios femininos – daí

o ditame de “abrir a mente com tanta frequência quanto o zíper”. Conforme

um grafiteiro afirmou: “Quanto mais eu quero fazer amor, mais eu quero

fazer a revolução. Quanto mais eu quero fazer a revolução, mais eu quero

fazer amor”111. As estudantes eram encorajadas a experimentar graus de

exposição que até então eram tabus. Dos pijamas sem forma dos Guardas

Vermelhos de Mao às calças boca de sino dos hippies, a revolução de 1968

foi toda sobre roupas. Das minissaias aos biquínis, a revolução sexual foi

toda sobre a ausência delas. “As mulheres devem rejeitar seu papel como as

principais consumidoras no estado capitalista”, declarou Germaine Greer,

feminista de origem australiana, que gostava mais de festa do que de

política112.

A ironia foi que a geração de 1968, que denunciou o imperialismo norte-

americano no Vietnã e simbolicamente quebrou as vidraças do escritório da

American Express em Paris, prosseguiu com seu vício crônico na cultura

popular norte-americana. O blue jeans – agora remodelado com cintura

baixa e pernas boca de sino – continuou sendo o uniforme da rebelião

juvenil. As gravadoras de discos continuaram a fornecer a trilha sonora: as

músicas “Street Fightin’ Man”, dos Rolling Stones (lançada pela Decca em

dezembro de 1968), e “Revolution”, dos Beatles (lançada pelo selo Apple,

da própria banda, quatro meses antes), eram ambas notadamente céticas

quanto aos benefícios da revolução. Calças jeans e discos de vinil: esses

estiveram entre os produtos de maior sucesso do capitalismo do fim do

século XX. E, assim como nos anos 1920, uma política de proibição – dessa

vez de narcóticos – ofereceu um novo campo de oportunidade para a

indústria do crime. Os situacionistas franceses podiam acumular insultos à

sociedade de consumo, com sua cultura de materialismo obtusa e sua

publicidade onipresente (que Guy Debord desdenhosamente chamou

“sociedade do espetáculo”), mas aqueles que se rebelaram contra o

capitalismo em Paris estavam subestimando de maneira brutal os benefícios

que eles próprios colhiam do sistema. Com a exceção dos golpes ocasionais

desferidos pelos cassetetes de policiais simplórios e grosseiros que

desprezavam os “cabeludos” da classe média privilegiada, as autoridades no

mundo ocidental em geral concederam aos estudantes liberdade para

protestar. De fato, a maioria das universidades cedeu às exigências dos

estudantes. Outra ironia foi o fato de um movimento jovem que defendia

fazer “amor e não guerra” acabar sendo associado a tanta violência: conflitos raciais em cidades norte-americanas, aumento repentino na taxa de

homicídio e terrorismo na Europa Ocidental e no Oriente Médio. Uma nova

era começou em 23 de julho de 1968, quando a Organização para a

Libertação da Palestina sequestrou uma aeronave El Al que partia de Roma

com destino a Tel Aviv. Não tardou muito para que o turbante keffiyeh

defendido pelo líder da OLP, Yasser Arafat, se tornasse tão em voga quanto

a boina de Che Guevara.

Atravessar a Cortina de Ferro em 1968 era como atravessar um espelho.

Para o visitante proveniente da Europa Ocidental muita coisa soava

familiar. Os planejadores urbanos em ambas as metades da Europa haviam

cometido o mesmo erro, retirando as pessoas dos centros das cidades e

abandonando-as em prédios baratos e repulsivos no estilo Bauhaus

cruelmente funcional que havia fascinado os arquitetos do pós-guerra. Mas

algumas coisas familiares podiam ter significados diametralmente opostos.

Em Praga, os jovens também preferiram cabelo comprido e jeans em vez do

ideal do Partido Comunista – cabelo curto atrás e dos lados, ternos de

poliéster e gravatas vermelhas. Mas essa preferência era precisamente

porque eles evocavam o Ocidente capitalista. Os tchecos até chamavam o

jeans de Texas-skis – calças texanas113. Com os planejadores relutantes em

fabricar jeans, a única forma de obtê-los era por contrabando. O cantor pop

Petr Janda, cuja banda Olympic aspirava a ser os Beatles tchecos,114

adquiriu seu primeiro par de Levi’s 501 dessa maneira; era curto demais,

mas ainda assim seus amigos se corroeram de inveja115. Como em Paris,

também em Praga as universidades se tornaram barris de pólvora para um

choque de gerações. O poeta beatnik Allen Ginsberg visitou a Universidade

Carolina de Praga na primavera de 1965; ele foi expulso no início de maio

pelo caráter “libertino e moralmente perigoso” de seus escritos. Em

novembro de 1967, estudantes da Universidade Carolina se reuniram

durante um blecaute e marcharam para o centro de Praga segurando velas.

Um dos estudantes envolvidos no protesto foi Ivan Touška. Conforme ele

recorda:

Havia tantos cortes de luz na época – e as velas foram um símbolo prático durante o primeiro

protesto – tínhamos velas, mas queríamos luz elétrica. Mas “Queremos luz” obviamente tinha um

significado mais amplo: “luz” contra a “escuridão” do mais elevado corpo político da época – o

Comitê Central do Partido Comunista da Tchecoslováquia116.

 

Em abril de 1968, Alexander Dubček lançou seu “Programa de Ação”

para a liberalização econômica e política. De maneira significativa, sua

política econômica abandonou o foco na indústria pesada e passou a

centrar-se em bens de consumo. Mas a liderança soviética em Moscou viu a

Primavera de Praga como uma ameaça inaceitável. Às 4 da manhã de 21 de

agosto de 1968, os tanques e as tropas soviéticos cercaram o edifício que

abrigava o Comitê Central do Partido Comunista da Tchecoslováquia.

Ameaçados por uma multidão raivosa, os tanques abriram fogo, matando

um jovem. Por volta das 9 da manhã, tropas tomaram de assalto o edifício.

Dubček foi levado à União Soviética, de onde teve a sorte de voltar vivo.

Um ponto focal de resistência foi a praça Venceslau, onde os tchecos se

reuniam diariamente em torno da estátua equestre de Venceslau, o

beatificado duque da Boêmia do século X. Em Paris, os estudantes haviam

lançado coquetéis molotov em chamas contra a tropa de choque. Em Praga,

em 19 de janeiro de 1969, um estudante tcheco chamado Jan Palach

embebeu suas roupas em querosene e ateou fogo em si mesmo. Ele morreu

três dias depois. No Ocidente, os estudantes se enchiam de retórica

marxista, mas o que realmente queriam era amor livre. Do outro lado da

Cortina de Ferro, as reivindicações eram mais elevadas. O que estava em

discussão era a própria liberdade.

Após 1968, o regime comunista restaurado exigiu que todos os músicos

de rock tchecos fizessem uma prova escrita sobre marxismo-leninismo.

Uma peculiar banda vanguardista chamada The Plastic People of the

Universe, formada um mês depois da invasão soviética, respondeu com

canções como “100 Points”117 (“They are afraid of freedom./ They are

afraid of democracy./ They are afraid of the [United Nations] Human

Rights’ Charter./ They are afraid of socialism./ So why the hell are we

afraid of them?”).118 Logo ficou claro. Em janeiro de 1970, a licença de seus músicos profissionais foi revogada. Dois anos mais tarde, foram proibidos

de tocar em Praga, o que os obrigou a tocar em festas particulares no

interior da Boêmia. Foi após um desses eventos subversivos – o Segundo

Festival de Música da Cultura Alternativa em Bojanovice, em fevereiro de

1976 – que todos os membros da banda, incluindo seu vocalista canadense

Paul Wilson, foram presos. Dois deles, Vratislav Brabenec e Ivan Jirous,

foram levados aos tribunais acusados de “vulgaridade extrema [...]

antissocialismo [...] niilismo [...] e decadência” e condenados a períodos de

18 e oito meses de prisão. Foi seu julgamento que inspirou a fundação da

Carta 77, o grupo dissidente liderado por Václav Havel, o dramaturgo e

futuro presidente da Tchecoslováquia. Nunca em sua história o rock foi

mais politizado do que em Praga nos anos 1970.119

Então por que não deixar que os estudantes tchecoslovacos tivessem todo

o jeans e rock and roll que quisessem? A resposta é que a sociedade de

consumo apresentava uma ameaça fatal ao próprio sistema socialista. Era

baseada no mercado. Reagia aos sinais dos consumidores – suas

preferências por jeans em vez de calças de flanela, ou por Mick Jagger em

vez de Burt Bacharach. E destinava uma parte cada vez maior dos recursos

a satisfazer essas preferências. Isso o sistema soviético simplesmente não

podia fazer. O Partido sabia do que todos precisavam – trajes marrons de

poliéster – e fazia seus pedidos às fábricas estatais conforme a necessidade.

A alternativa era inerentemente subversiva. Um fato significativo é que as

autoridades da Alemanha Oriental colocaram a culpa da revolta dos

trabalhadores de 1953 nos provocadores ocidentais “com calças de caubói e

camisas texanas”120. Khrushchev pode ter desejado copiar a TV em cores;

mas ele certamente não queria os Beatles. “Os jovens da União Soviética

não precisam desse lixo cacofônico”, declarou. “É só um pequeno passo dos

saxofones [sic] aos canivetes.”121 De todo modo, para que os soviéticos

pudessem acompanhar os norte-americanos, muito mais ricos, na corrida

armamentista da Guerra Fria, os tanques precisavam ter precedência sobre

as camisetas regatas, os bombardeiros estratégicos sobre as guitarras

elétricas. Um crítico soviético observou, de maneira reveladora, que “cada

gota de energia usada na pista de dança era energia que poderia e deveria ter

sido investida na construção de uma usina hidrelétrica”122. Isso não impediu

que o jeans continuasse sendo contrabandeado para a própria Rússia por

comerciantes do mercado negro conhecidos como fartsovshchiki, que se

especializavam em permutar jeans por chapéus de pele e caviar, os únicos

suvenires que os visitantes ocidentais em Moscou já quiseram comprar. Um

par de jeans no mercado negro podia chegar a custar entre 150 e 250 rublos,

numa época em que o salário médio mensal era menos de 200 rublos, e um

par de calças comuns, fabricadas pelo Estado, era vendido por dez ou 20

rublos.

Com a repressão da Primavera de Praga, o sistema comunista na Europa

Oriental parecia indestrutível. Em Berlim, a divisão da cidade em Oriental e

Ocidental parecia um fato consumado. Mas, embora os comunistas fossem

bons em reprimir a oposição política, eram muito mais vulneráveis à

sociedade de consumo do Ocidente. A influência da moda ocidental se

mostrou impossível de deter, sobretudo quando os alemães orientais

puderam assistir televisão alemã ocidental (eles há muito tinham acesso à

rádio ocidental). Designers como Ann Katrin Hendel começaram a

confeccionar suas próprias roupas em estilo ocidental, vendendo-as em

porta-malas de carros. Hendel fez até mesmo seu próprio jeans:

 

Tentamos costurá-los usando lona encerada, ou roupa de cama, ou tecidos que não eram jeans.

Também tentamos tingi-los, mas também era muito difícil acertar no tingimento [...] Eles se

tornaram tão populares que as pessoas os arrancavam de nossas mãos. 123

 

O ponto crucial é que o sucesso das indústrias de consumo ocidentais era

agora comparado, como uma imagem espelhada, com o péssimo

desempenho de suas equivalentes soviéticas. Não só o crescimento era cada

vez mais baixo após 1973 (menos de 1%), como também os fatores de

produtividade total estavam diminuindo. Com efeito, alguns

empreendimentos estatais estavam subtraindo valor das matérias-primas

que processavam. Como Hayek havia alertado, na ausência de preços

significativos os recursos eram mal alocados; as autoridades corruptas

restringiam a produção para maximizar seus próprios ganhos ilícitos; os trabalhadores fingiam trabalhar e, em troca, os gestores fingiam pagá-los.

Não só o estoque de capital industrial, como também o estoque de capital

humano estavam sendo desperdiçados; as usinas de energia nuclear foram

arruinadas; o alcoolismo disparou. Longe de desafiar a supremacia

econômica dos Estados Unidos, como Khrushchev havia ameaçado, a

União Soviética alcançou um consumo per capita de cerca de 24% do nível

norte-americano – quando muito, um desafio à Turquia124. Ao mesmo

tempo, a mudança nas relações das superpotências rumo à détente e ao

desarmamento minou em grande medida a importância da capacidade dos

soviéticos de produzir mísseis em massa. A alta no preço do petróleo na

década de 1970 postergou apenas momentaneamente o colapso do sistema.

Quando o preço do petróleo caiu nos anos 1980, o bloco soviético ficou

sem nada além de dívidas em moeda forte – dinheiro emprestado do próprio

sistema que Khrushchev havia prometido “enterrar”. Mikhail Gorbachev,

nomeado secretário-geral do Partido Comunista Soviético em março de

1985, percebeu que agora não havia outra alternativa senão reformar tanto a

economia quanto o sistema político, incluindo o império soviético na

Europa Oriental. Com a glasnost e a perestroika como os novos lemas em

Moscou, os radicais em Berlim Oriental foram deixados sem salvação –

forçados a censurar publicações e relatórios não só do Ocidente como

também da União Soviética.

Assim como em 1848, e assim como em 1918, as revoluções de 1989 se

espalharam depressa. Em Varsóvia, em fevereiro de 1989, o governo

polonês concordou em dialogar com o sindicato livre Solidariedade; logo o

país estava se preparando para eleições diretas. Em Budapeste, em maio, os

comunistas húngaros decidiram abrir suas fronteiras com a Áustria. A

Cortina de Ferro começou a enferrujar. Por volta de 15 mil alemães

orientais partiram, via Tchecoslováquia, para “passar as férias” na Hungria

naquela que era, na realidade, uma viagem sem volta para o Ocidente. Em

junho, o Solidariedade venceu as eleições polonesas e tratou de compor um

governo democrático. Em setembro, os comunistas húngaros seguiram o

exemplo polonês, concordando com eleições livres. No mês seguinte,

enquanto Erich Honecker aprimorava seus planos de celebrar o quadragésimo aniversário da República Democrática Alemã, centenas, e

então milhares, e então dezenas de milhares, e então centenas de dezenas de

milhares de pessoas saíram às ruas em Leipzig, primeiro cantando “Wir

sind das Volk” (Nós somos o povo), e depois consertando para “Wir sind

ein Volk” (Nós somos um único povo). Dessa vez, ao contrário do que

aconteceu em Budapeste em 1956 e em Praga em 1968 – sem esquecer de

Gdánsk em dezembro de 1981 e Pequim em junho de 1989 –, as tropas

permaneceram em seus quartéis. No Partido Alemão Oriental, onde o

tamanho da bancarrota da República Democrática Alemã estava ficando

claro, Honecker foi afastado por “reformadores” mais jovens. Mas era tarde

demais para reformas. Outros, apparatchiks mais ágeis, notadamente na

Romênia, já estavam mudando de lado, calculando os prováveis benefícios

pessoais que obteriam com as reformas de mercado.

Em 9 de novembro de 1989, os jornalistas de Berlim Oriental receberam

com perplexidade a informação de que “[se havia] decidido permitir que

todos os cidadãos deixassem o país através dos pontos de travessia oficiais

[...] entrando em vigor imediatamente”, notícia que levou uma legião de

berlinenses orientais aos postos de controle da fronteira. Despreparados, os

guardas optaram por não resistir. À meia-noite, todos os postos de controle

haviam sido forçados a abrir passagem, e uma das maiores festas do século

estava a caminho, seguida de uma das maiores febres de compras. Com a

queda do Muro de Berlim, a Guerra Fria estava definitivamente encerrada,

apesar de que foi só com o fracasso do Golpe de Moscou, em agosto de

1991, e com a subsequente dissolução da União Soviética, que os Estados

bálticos, a Ucrânia e a Bielorrússia se tornaram Estados independentes,

junto com as três grandes repúblicas caucasianas e os cinco “istões” da Ásia

Central.

Poucos haviam previsto aquilo.125 Para alguns, era “o fim da história”, a

vitória definitiva do modelo capitalista liberal126. Para outros, era o “triunfo

do Ocidente”, a conquista política dos três líderes carismáticos: Ronald

Reagan, o papa João Paulo II e Margaret Thatcher127. Uma terceira visão

deu crédito ao nacionalismo. Mas o analista que mais chegou perto foi o

executivo de moda italiano que havia começado a comercializar uma linha de “jeans perestroika” justos. Foi, acima de tudo, como sociedades de