Civilização: Ocidente X Oriente
Introdução: A pergunta de Rasselas
Ele não admitia civilização [na quarta edição de seu dicionário], apenas civilidade. Com todo o respeito, acredito que o termo civilização, do verbo civilizar, é mais apropriado, no sentido oposto a barbárie, do que civilidade.
JAMES BOSWELL
Todas as definições de civilização [...] pertencem a uma conjugação deste tipo: “Eu sou civilizado, você pertence a uma cultura, ele é um bárbaro”.
FELIPE FERNÁNDEZ-ARMESTO
Quando Kenneth Clark definiu o termo civilização em sua série homônima
de TV, deixou perfeitamente claro para os espectadores que se referia à
civilização do Ocidente – e sobretudo à arte e à arquitetura da Europa
Ocidental, da Idade Média até o século XIX. O primeiro dos 13 filmes que
ele fez para a BBC, ainda que sem ser indelicado, ignorava totalmente a
Ravena bizantina, as Hébridas celtas, a Noruega viking e até mesmo a
Aachen de Carlos Magno. Os tempos obscuros entre a queda de Roma e o
Renascimento do século XII simplesmente não se qualificavam como
civilização na concepção que Clark tinha da palavra. Esta só reviveu com a
construção da catedral de Chartres, habilitada – apesar de não concluída –
em 1260, e estava mostrando sinais de fadiga com os arranha-céus de
Manhattan de meados do século XX.
Extremamente bem-sucedida, a série de Clark, transmitida pela primeira
vez na Grã-Bretanha quando eu tinha cinco anos de idade, definiu
civilização para toda uma geração no mundo anglófono. Civilização eram os chateaux do Loire. Eram os palazzi de Florença. Era a Capela Sistina.
Era Versalhes. Dos interiores sóbrios da República holandesa às fachadas
exuberantes do Barroco, Clark soube explorar seus conhecimentos de
historiador da arte. A música e a literatura fizeram suas aparições; a política
e até mesmo a economia assomavam de vez em quando. Mas a essência da
civilização de Clark era, claramente, alta cultura visual. Seus heróis eram
Michelangelo, Da Vinci, Dürer, Constable, Turner, Delacroix.1
A série de Clark – sejamos justos – recebeu o subtítulo Uma visão
pessoal. E ele estava ciente da implicação, já problemática em 1969, de que
“a era pré-cristã e o Oriente” fossem, em certo sentido, incivilizados. No
entanto, com o passar de quatro décadas, tornou-se cada vez mais difícil
conviver com a visão de Clark, pessoal ou não (isso sem falar de seu leve ar
de superioridade). Neste livro, adotarei uma abordagem mais ampla e
comparativa, e espero ser mais simples do que sublime. Minha ideia de
civilização está tão associada com canos de esgoto quanto com
arcobotantes, se não até mais, porque sem uma rede hidráulica pública
eficiente as cidades são armadilhas fatais, transformando rios e poços em
paraísos para a bactéria Vibrio cholerae. Sem nenhum constrangimento,
estou tão interessado no custo de uma obra de arte quanto em seu valor
cultural. Para mim, uma civilização é muito mais do que o acervo de
algumas poucas galerias de arte de prestígio. É uma organização social
extremamente complexa. Suas pinturas, estátuas e edifícios podem muito
bem ser suas realizações mais cativantes em termos visuais, mas são
ininteligíveis sem alguma compreensão das instituições econômicas, sociais
e políticas que as conceberam, financiaram, executaram – e preservaram
para que pudéssemos contemplá-las.
“Civilização” é uma palavra de origem francesa, usada pela primeira vez
pelo economista francês Anne-Robert-Jacques Turgot em 1752, e publicada
pela primeira vez por Victor Riqueti, marquês de Mirabeau, pai do grande
revolucionário, quatro anos mais tarde2. Samuel Johnson, como a primeira
epígrafe a esta Introdução torna claro, não aceitava o neologismo,
preferindo “civilidade”. Se barbarismo tinha um antônimo para Johnson, era
a vida urbana educada (embora às vezes também completamente rude) que ele tanto apreciava em Londres. Uma civilização, conforme indica a
etimologia da palavra, gira em torno de suas cidades, e em muitos aspectos
são as cidades as heroínas deste livro3. Mas as leis de uma cidade (civis ou
não) são tão importantes quanto seus muros, sua constituição e seus
costumes – os hábitos de seus habitantes (civis ou não) –, tão importantes
quanto seus palácios4. Civilização é tanto os laboratórios dos cientistas
quanto os sótãos dos artistas. É tanto as formas de posse de terra quanto
suas paisagens. O sucesso de uma civilização é medido não apenas por suas
realizações estéticas, mas também, e sem dúvida esse é o aspecto mais
importante, pela duração e pela qualidade de vida de seus cidadãos. E essa
qualidade de vida tem muitas dimensões, nem todas facilmente
quantificáveis. Podemos ser capazes de estimar a renda per capita dos
povos em todo o mundo no século XV, ou sua expectativa média de vida ao
nascer. Mas e quanto a seu conforto? Higiene? Felicidade? Quantas peças
de roupa tinham? Quantas horas precisavam trabalhar? Que comida
conseguiam comprar com seu salário? As obras de arte, por si sós, podem
oferecer pistas, mas não conseguem responder a essas perguntas.
Claramente, de todo modo, uma cidade não faz uma civilização. Uma
civilização é a maior unidade de organização humana, maior até que um
império, embora mais amorfa. As civilizações são, em parte, uma resposta
prática das populações humanas a seu meio – os desafios de se alimentar, se
hidratar, se abrigar e se defender –, mas também são de caráter cultural;
muitas vezes, ainda que nem sempre, religioso; muitas vezes, ainda que
nem sempre, unidas por uma língua5. Elas são poucas, mas não raras.
Carroll Quigley contou duas dezenas nos últimos dez milênios6. No mundo
pré-moderno, Adda Bozeman identificou apenas cinco: o Ocidente, a Índia,
a China, Bizâncio e o Islã7. Matthew Melko contou 12 ao todo, das quais
sete desapareceram (a mesopotâmica, a egípcia, a cretense, a clássica, a
bizantina, a centro-americana e a andina) e cinco permanecem (a chinesa, a
japonesa, a indiana, a islâmica e a ocidental)8. Shmuel Eisenstadt contou
seis, agregando ao clube a civilização judaica9. A interação dessas poucas
civilizações umas com as outras, e também com seu próprio meio, está
entre os motores mais importantes de transformação histórica10. O mais surpreendente a respeito dessas interações é que as civilizações autênticas
parecem permanecer válidas internamente durante longos períodos, apesar
das influências externas. Conforme afirma Fernand Braudel: “Civilização é,
de fato, a história mais longa de todas [...] Uma civilização [...] pode
persistir ao longo de uma série de economias ou sociedades”11.
Se, em 1411, você tivesse sido capaz de circum-navegar o globo,
provavelmente teria ficado muito impressionado com a qualidade de vida
das civilizações orientais. A Cidade Proibida estava sendo construída na
China da dinastia Ming, e haviam começado as obras para a reabertura e
melhoria do Grande Canal; no Oriente Próximo, os otomanos estavam se
aproximando de Constantinopla, que finalmente tomariam em 1453. O
Império Bizantino dava seu último suspiro. A morte do guerreiro Timur
(Tamerlão) em 1405 havia eliminado a ameaça recorrente de hordas
invasoras assassinas provenientes da Ásia Central – a antítese da
civilização. Para o imperador Yongle, na China, e o sultão otomano Murad
II, o futuro era brilhante.
Já a Europa Ocidental, em 1411, o teria impressionado por ser um lugar
remoto e miserável, recuperando-se das devastações da peste negra – que
havia reduzido a população à metade conforme se propagou para o leste
entre 1347 e 1351 – e ainda assolada por péssimas condições sanitárias e
guerras aparentemente incessantes. Na Inglaterra, o rei leproso Henrique IV
ocupava o trono, depois de haver destronado e assassinado Ricardo II. A
França estava à mercê da guerra interna entre os seguidores do duque de
Borgonha e os do duque de Orléans, que havia sido assassinado. A Guerra
dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra estava prestes a ser retomada.
Os outros reinos belicosos da Europa Ocidental – Aragão, Castela, Navarra,
Portugal e Escócia – aparentavam estar um pouco melhores. Um
muçulmano ainda governava Granada. O rei escocês, Jaime I, era
prisioneiro na Inglaterra, após ter sido capturado por piratas ingleses. As
partes mais prósperas da Europa eram, de fato, as cidades-estados do norte
da Itália: Florença, Gênova, Pisa, Siena e Veneza. Quanto à América do
Norte, no século XV era uma selvageria anárquica em comparação com os
reinos dos astecas, dos maias e dos incas nas Américas Central e do Sul, com seus templos grandiosos e suas estradas em meio às nuvens. Quando
você terminasse sua volta ao mundo, a noção de que o Ocidente poderia vir
a dominar o restante durante grande parte dos 500 anos seguintes pareceria
absolutamente fantasiosa.
Mas aconteceu.
Por alguma razão, a partir do fim do século XV, os pequenos Estados da
Europa Ocidental, com suas línguas bastardas emprestadas do latim (e, em
menor medida, do grego), sua religião proveniente dos ensinamentos de um
judeu de Nazaré e suas dívidas intelectuais à matemática, à astronomia e à
tecnologia orientais produziram uma civilização capaz não só de conquistar
os grandes impérios orientais e subjugar a África, as Américas e a
Austrália, como também de converter os povos de todo o mundo ao modo
de vida ocidental – uma conversão alcançada, no fim das contas, mais pela
palavra do que pela espada.
Há aqueles que contestam tal afirmação, alegando que todas as
civilizações são iguais em certo sentido, e que o Ocidente não pode
reivindicar superioridade sobre o leste da Eurásia, por exemplo12. Mas tal
relativismo é comprovadamente absurdo. Nenhuma civilização anterior foi
capaz de exercer a dominação que o Ocidente exerce sobre o restante do
mundo13. Em 1500, as futuras potências imperiais da Europa dominavam
cerca de 5% da superfície da Terra, e quando muito 16% de sua população.
Em 1913, 11 impérios ocidentais14 controlavam aproximadamente três
quintos de todo o território e população, e quase três quartos
(surpreendentes 74%) da produção econômica mundial15. A expectativa de
vida média na Inglaterra era de quase duas vezes a da Índia. Os padrões de
vida mais altos no Ocidente também se refletiram em uma dieta melhor, até
mesmo para os trabalhadores agrícolas, e estatura mais alta, mesmo para os
presos e para os soldados comuns16. A civilização, conforme vimos, são as
cidades. Segundo esse critério, também, o Ocidente aparece em primeiro.
Em 1500, até onde podemos saber, a maior cidade do mundo era Pequim,
com uma população entre 600 mil e 700 mil habitantes. Das dez maiores
cidades do mundo naquela época, somente uma – Paris – era europeia, e sua
população não passava de 200 mil. Londres tinha, talvez, 50 mil habitantes. As taxas de urbanização também eram mais altas na África do Norte e na
América do Sul do que na Europa. Mas em 1900 observa-se uma
reviravolta impressionante. Só uma das dez maiores cidades do mundo
nessa época era asiática, e essa cidade era Tóquio. Com uma população de
cerca de 6,5 milhões, Londres era a megalópole global17. O domínio do
Ocidente tampouco terminou com o declínio e a queda dos impérios
europeus. Com a ascensão dos Estados Unidos, o abismo entre Ocidente e
Oriente tornou-se ainda maior. Em 1990, a renda per capita dos norte-
americanos era 73 vezes a dos chineses18.
Além disso, ficou claro, na segunda metade do século XX, que a única
forma de diminuir a enorme distância quanto à renda era que as sociedades
orientais seguissem o exemplo do Japão, adotando as mesmas (embora não
todas) instituições e maneiras de operar do Ocidente. Em consequência, a
civilização ocidental tornou-se uma espécie de modelo para o modo como o
restante do mundo aspirava a se organizar. Antes de 1945, é claro, havia
vários modelos de desenvolvimento – ou sistemas operacionais, para usar
uma metáfora da computação – que podiam ser adotados pelas sociedades
não ocidentais. Mas os mais atraentes eram todos de origem europeia: o
capitalismo liberal, o socialismo nacional, o comunismo soviético. A
Segunda Guerra Mundial matou o segundo na Europa, embora tenha
sobrevivido com outros nomes em muitos países em desenvolvimento. O
colapso do império soviético entre 1989 e 1991 matou o terceiro.
Sem dúvida, muito se falou, no início da crise financeira global, sobre os
modelos econômicos asiáticos alternativos. Mas nem mesmo o relativista
cultural mais fervoroso recomenda uma volta às instituições da dinastia
Ming ou dos mongóis. O atual debate entre os proponentes dos livres
mercados e aqueles da intervenção estatal é, em essência, um debate entre
escolas de pensamento notadamente ocidentais: os seguidores de Adam
Smith e os de John Maynard Keynes, com alguns poucos devotos
obstinados de Karl Marx que ainda persistem. Os lugares de nascimento de
todos os três falam por si sós: Kirkcaldy, Cambridge, Tréveris. Na prática, a
maior parte do mundo hoje está integrada a um sistema econômico
ocidental em que, conforme recomendou Adam Smith, o mercado estipula a maior parte dos preços e determina o fluxo de comércio e a divisão de
trabalho, mas o governo desempenha um papel mais próximo daquele
vislumbrado por Keynes, intervindo para tentar abrandar o ciclo de
negócios e reduzir a desigualdade de renda.
Quanto às instituições não econômicas, não há nenhum debate digno de
nota. Em todo o mundo, as universidades estão convergindo para as normas
ocidentais. Isso também é válido para o modo com que a ciência médica é
organizada, das pesquisas abstrusas aos sistemas de saúde na linha de
frente. A maioria das pessoas, hoje, aceita as grandes verdades científicas
reveladas por Newton, Darwin e Einstein e, mesmo que não aceitem, ainda
procuram avidamente pelos produtos da farmacologia ocidental diante do
primeiro sintoma de gripe ou bronquite. Só algumas poucas sociedades
continuam a resistir à invasão dos padrões ocidentais de marketing e
consumo, bem como ao próprio estilo de vida ocidental. Cada vez mais
seres humanos seguem uma dieta ocidental, vestem roupas ocidentais e
vivem em uma casa ocidental. Até mesmo o modo tipicamente ocidental de
trabalhar – cinco ou seis dias por semana, das 9h às 17h, com duas ou três
semanas de férias – está se tornando uma espécie de padrão universal.
Enquanto isso, a religião que os missionários ocidentais procuraram
exportar para o restante do mundo é seguida por um terço da humanidade, e
vem fazendo progressos notáveis no país mais populoso do mundo. Mesmo
o ateísmo, pioneiro no Ocidente, vem avançando de maneira
impressionante.
A cada ano que passa, mais e mais seres humanos compram como nós,
ficam saudáveis (ou doentes) como nós e rezam (ou não rezam) como nós.
Hambúrgueres, bicos de Bunsen, Band-Aids, bonés de beisebal e Bíblias:
não é possível se livrar deles facilmente, aonde quer que se vá. Apenas na
esfera das instituições políticas ainda resta uma diversidade global
significativa, com uma ampla gama de governos pelo mundo resistindo à
ideia do Estado de direito, com sua proteção aos direitos individuais, como
a base para um governo representativo significativo. É tanto como ideologia
política quanto como religião que um Islã militante procura resistir ao
avanço das normas ocidentais do século XX de igualdade de gênero e
liberdade sexual19.
Portanto, não é “eurocentrismo” ou (anti)“orientalismo” dizer que a
ascensão da civilização ocidental é o fenômeno histórico mais importante
da segunda metade do segundo milênio depois de Cristo. É uma afirmação
do óbvio. O desafio é explicar como isso aconteceu. O que houve na
civilização da Europa Ocidental depois do século XV que lhe permitiu
sobrepujar os impérios visivelmente superiores do Oriente? Sem dúvida, foi
algo mais que a beleza da Capela Sistina.
A resposta fácil, se não tautológica, a essa pergunta é que o Ocidente
dominou o Oriente por causa do imperialismo20. Ainda hoje, há muitas
pessoas que podem se sentir profundamente indignadas com os excessos
dos impérios europeus. Excessos decerto existiram, e não estão ausentes
destas páginas. Também está claro que as diferentes formas de colonização
– povoamento versus exploração – tiveram impactos muito diferentes a
longo prazo21. Mas, para a história, o império não é uma explicação
suficiente da supremacia ocidental. Houve impérios muito antes do
imperialismo denunciado pelos marxistas-leninistas. De fato, o século XVI
viu uma série de impérios asiáticos aumentarem significativamente seu
poder e sua extensão. Entretanto, após o fracasso do projeto de Carlos V –
de um grande império dos Habsburgo estendendo-se da Espanha à
Alemanha, passando pelos Países Baixos –, a Europa ficou mais
fragmentada do que nunca. A Reforma desencadeou mais de um século de
guerras religiosas europeias.
Um viajante do século XVI dificilmente deixaria de notar o contraste.
Além de abarcar a Anatólia, o Egito, a Arábia, a Mesopotâmia e o Iêmen, o
Império Otomano – sob Solimão, o Magnífico (1520-66) – estendeu-se até
os Bálcãs e a Hungria, ameaçando os portões de Viena em 1529. Mais ao
leste, o Império Safávida, sob Abbas I (1587-1629), estendia-se de Ispaã e
Tabriz a Kandahar, ao passo que o norte da Índia, de Déli a Bengala, era
governado pelo poderoso imperador mongol Akbar (1556-1605). A China
Ming também parecia serena e segura atrás do grande muro. Poucos
europeus que visitassem a corte do imperador Wanli (1572-1620) poderiam
ter previsto a queda de sua dinastia menos de três décadas após sua morte.
Escrevendo de Istambul no fim da década de 1550, o diplomata flamengo
Ogier Ghiselin de Busbecq – o homem que transplantou tulipas da Turquia
à Holanda – comparou, nervoso, a situação fraturada da Europa com a
“grande prosperidade” do Império Otomano.
É verdade que o século XVI foi uma época de intensa atividade europeia
no além-mar. Mas, para os grandes impérios do Oriente, os navegantes
portugueses e holandeses pareciam o exato oposto dos portadores de
civilização; eram apenas os últimos bárbaros a ameaçar o Reino do Meio,
de fato mais repulsivos – e certamente mais malcheirosos – que os piratas
do Japão. E o que mais atraía os europeus à Ásia além da qualidade superior
dos tecidos indianos e da porcelana chinesa?
Foi só em 1683 que um exército otomano marchou até os portões de
Viena – a capital do império Habsburgo – e exigiu que a população da
cidade se rendesse e se convertesse ao islamismo. E só após o levantamento
do cerco que o mundo cristão pôde começar, pouco a pouco, a repelir o
poder otomano na Europa Central e Oriental ao longo dos Bálcãs em
direção ao Bósforo, e levou muitos anos até que algum império europeu
pudesse se equiparar às conquistas do imperialismo oriental. A “grande
divergência” entre o Ocidente e o Oriente foi ainda mais lenta de se
materializar em outros lugares. As diferenças materiais entre a América do
Norte e a do Sul não estavam muito bem demarcadas até meados do século
XIX, e até o início do século XX a maior parte da África não esteve sob
domínio europeu; só umas poucas faixas litorâneas.
Se a supremacia ocidental não pode, portanto, ser explicada nos velhos
termos gastados do imperialismo, teria sido – como afirmam alguns
estudiosos – simplesmente uma questão de sorte? Foi a geografia ou o
clima da extremidade ocidental da Eurásia o que fez com que a grande
divergência acontecesse? Os europeus só tiveram a sorte de tropeçar nas
ilhas do Caribe, com sua localização tão ideal para o cultivo de açúcar, rico
em calorias? O Novo Mundo proporcionou à Europa os “acres fantasmas”
dos quais a China carecia? E é só por causa da Lei de Murphy que os
depósitos de carvão da China eram mais difíceis de explorar e transportar
do que os da Europa22? Ou será que a China, de alguma forma, foi vítima de
seu próprio sucesso – presa na “armadilha do equilíbrio”, devido à
capacidade de seus agricultores de fornecer a um grande número de pessoas
apenas a quantidade suficiente de calorias para sobreviver23? Será mesmo
possível que a Inglaterra tenha se tornado a primeira nação industrial
porque a falta de saneamento e as doenças mantiveram a vida
excepcionalmente curta para a maioria das pessoas, dando aos ricos e aos
empreendedores melhor chance de transmitir seus genes24?
O imortal lexicógrafo inglês Samuel Johnson rejeitou todas essas
possíveis explicações para a supremacia ocidental. Em seu livro História de
Rasselas: príncipe da Abissínia, publicado em 1759, ele leva Rasselas a
perguntar:
Por que meios [...], então, os europeus são poderosos? Por que, já que eles podem visitar a Ásia e a
África com tanta facilidade para o comércio ou para a conquista, os asiáticos e africanos não
conseguem invadir sua costa, implementar colônias em seus portos e impor leis a seus príncipes
naturais? O mesmo vento que os traz de volta nos levaria para lá.25
À qual o filósofo Imlac responde:
Eles são mais poderosos do que nós porque são mais sábios, Sir; o conhecimento sempre
predominará sobre a ignorância, da mesma forma que o homem governa os outros animais. Mas
por que o conhecimento deles é maior que o nosso, eu não sei que outra razão pode ser dada além
do desejo insondável do Ser Supremo26.
De fato, conhecimento é poder, quando proporciona maneiras melhores
de navegar, escavar materiais, usar armas de fogo e curar doenças. Mas será
mesmo que os europeus têm mais conhecimento que outros povos? Talvez
tivessem em 1759; a inovação científica, por cerca de dois séculos e meio
após 1650, foi quase exclusivamente de origem ocidental27. Mas e em 1500?
Conforme veremos, durante séculos a tecnologia chinesa, a matemática
indiana e a astronomia árabe estiveram muito à frente.
Foi, portanto, uma diferença cultural mais nebulosa o que permitiu que os
europeus saíssem à frente de seus pares orientais? Esse foi o argumento do
sociólogo alemão Max Weber. Manifesta-se de várias formas – o
individualismo inglês medieval, o humanismo e a ética protestante –, e foi
buscado em toda parte, da força de vontade dos agricultores ingleses às
regras de etiqueta das cortes reais, sem falar dos livros contábeis dos
mercadores mediterrâneos. Em A riqueza e a pobreza das nações, David
Landes defende o argumento da diferença cultural, afirmando que a Europa
Ocidental liderou o mundo desenvolvendo uma pesquisa intelectual
autônoma, o método científico de verificação e a racionalização da pesquisa
e sua difusão. Mas mesmo ele admitiu que algo mais era necessário para
que aquele modo de operação florescesse: intermediários financeiros e um
bom governo28. A chave – e isso torna-se cada vez mais visível – está em
suas instituições.
É claro que as instituições são, em certo sentido, produto da cultura. Mas,
uma vez que formalizam um conjunto de normas, costumam ser aquilo que
mantém uma cultura no rumo certo, determinando até que ponto esta
conduz ao bom comportamento e não ao mau. Para ilustrar esse argumento,
o século XX fez uma série de experimentos, impondo instituições muito
diferentes a dois conjuntos de alemães (ocidentais e orientais), dois
conjuntos de coreanos (do Norte e do Sul) e dois conjuntos de chineses
(dentro e fora da República Popular). Os resultados foram muito
impressionantes, e a lição, claríssima. Se tomarmos o mesmo povo, com
mais ou menos a mesma cultura, e impusermos instituições comunistas a
um grupo e capitalistas a outro, quase imediatamente haverá uma
divergência no modo como se comportam.
Hoje, muitos historiadores concordariam que havia poucas diferenças
realmente profundas entre as extremidades oriental e ocidental da Eurásia
em 1500. Ambas as regiões adotaram desde cedo a agricultura, as trocas
baseadas no mercado e as estruturas estatais centradas em cidades29. Mas
houve uma diferença institucional crucial. Na China, consolidou-se um
império monolítico, ao passo que a Europa permaneceu politicamente
fragmentada. Em Armas, germes e aço, Jared Diamond explica por que a
Eurásia havia avançado mais que o restante do mundo30. Mas foi só em seu
ensaio “Como ficar rico” (1999) que ele deu uma resposta à pergunta de por
que uma ponta da Eurásia esteve, até agora, à frente da outra. A resposta era
que, nas planícies da Eurásia Oriental, os impérios orientais monolíticos
freavam a inovação, ao passo que, na Eurásia Ocidental, montanhosa e
dividida por rios, várias monarquias e cidades-estados se engajaram na
competição criativa e na comunicação31.
É uma resposta atraente. Mas ainda não basta. Observemos as duas séries
de gravuras chamadas “As misérias da guerra”, publicadas pelo artista
Jacques Callot, de Lorraine, nos anos 1630, como que para alertar o restante
do mundo dos perigos do conflito religioso. A competição entre os
pequenos Estados da Europa – e também no interior deles – durante a
primeira metade do século XVII era desastrosa, despovoando grandes
extensões de terra da Europa Central e mergulhando as ilhas britânicas em
mais de um século de disputas recorrentes e debilitantes. A fragmentação
política muitas vezes tem esse efeito. Se você duvida, pergunte aos
habitantes da ex-Iugoslávia. A competição é certamente uma parte da
história da supremacia ocidental, conforme veremos no Capítulo 1; mas só
uma parte.
Neste livro, quero mostrar que o que distinguiu o Ocidente do Oriente – as
molas propulsoras do poder global – foram seis novos sistemas de
instituições identificáveis e as ideias e os comportamentos associados a
eles. Para simplificar, abaixo eu os resumo em seis tópicos:
1. A competição
2. A ciência
3. Os direitos de propriedade
4. A medicina
5. A sociedade de consumo
6. A ética do trabalho
Para usar a linguagem do mundo computadorizado e sincronizado de
nossos dias, estes foram os seis “incríveis aplicativos” (ou apps) que
permitiram que uma minoria da humanidade, originando-se no extremo
oeste da Eurásia, dominasse o mundo durante a maior parte dos últimos 500
anos.
Agora, antes que você escreva para mim indignado, reclamando que
esqueci algum aspecto crucial da supremacia ocidental, como o capitalismo
ou a liberdade ou a democracia (ou, aliás, armas, germes e aço), leia as
seguintes breves definições:
1. A competição: uma descentralização da vida política e econômica, que
criou as condições para o surgimento dos Estados-nação e do
capitalismo.
2. A ciência: uma forma de estudar, entender e, finalmente, transformar o
mundo natural, que deu ao Ocidente (entre outras coisas) uma importante
vantagem militar sobre o restante.
3. Os direitos de propriedade: o controle da lei como um meio de
proteger os proprietários privados e solucionar pacificamente as disputas
entre eles, que assentou a base para a forma mais estável de governo
representativo.
4. A medicina: um ramo da ciência que possibilitou uma importante
melhoria na saúde e na expectativa de vida, inicialmente nas sociedades
ocidentais, mas também em suas colônias.
5. A sociedade de consumo: um modo de vida material em que a
produção e a compra de roupas e outros bens de consumo desempenham
um papel econômico central, e sem o qual a Revolução Industrial teria
sido insustentável.
6. A ética do trabalho: um sistema moral e um modo de atividade
derivados do cristianismo protestante (entre outras fontes), que fornece
coesão à sociedade dinâmica e potencialmente instável criada pelos itens
1 a 5.
Não se engane: esta não é mais uma versão presunçosa do “triunfo do
Ocidente”32. Pretendo mostrar que não foi só a superioridade ocidental que
levou à conquista e à colonização de grande parte do restante do mundo; foi
também a fraqueza fortuita de seus rivais. Na década de 1640, por exemplo,
uma combinação de crise fiscal e monetária, mudança climática e epidemia
desencadeou uma rebelião e o colapso da dinastia Ming. Isso não teve nada
a ver com o Ocidente. Da mesma maneira, o declínio político e militar do
Império Otomano teve mais causas internas do que externas. As instituições
políticas norte-americanas floresceram à medida que cresciam as feridas da
América do Sul; mas o fracasso de Simón Bolívar em criar os Estados
Unidos da América Latina não foi culpa dos gringos.
O ponto crítico é que a diferença entre o Ocidente e o restante do mundo
era institucional. A Europa Ocidental superou a China em parte porque no
Ocidente havia mais competição tanto na esfera política quanto na
econômica. A Áustria, a Prússia e, mais tarde, até mesmo a Rússia se
tornaram mais eficazes em termos administrativos e militares porque a rede
de comunicação que levou à Revolução Científica surgiu no mundo cristão,
mas não no muçulmano. A razão pela qual as ex-colônias norte-americanas
se saíram muito melhor que as da América do Sul é que os colonizadores
ingleses estabeleceram no Norte um sistema de direitos de propriedade e
representação política completamente diferente daquele implementado por
espanhóis e portugueses no Sul. (O Norte era uma “ordem de acesso
aberto”, em vez de fechado, administrada segundo os interesses de elites
exclusivas e em busca de privilégios.)33 Os impérios europeus foram
capazes de penetrar na África não só porque tinham a metralhadora Maxim;
eles também conceberam vacinas contra doenças tropicais às quais os
africanos eram igualmente vulneráveis.
Da mesma maneira, a industrialização precoce do Ocidente refletia
vantagens institucionais: a possibilidade de uma sociedade de consumidores
em massa existia nas ilhas britânicas bem antes do advento e da
disseminação da energia a vapor ou do sistema fabril. Mesmo quando a
tecnologia industrial estava disponível quase universalmente, a diferença
entre o Ocidente e o restante do mundo persistiu: de fato, tornou-se ainda
maior. Sem um maquinário totalmente padronizado de fiação e tecelagem
de algodão, o trabalhador europeu ou norte-americano ainda era capaz de
trabalhar de maneira mais produtiva, e seu empregador capitalista de
acumular riqueza mais depressa do que seus pares orientais34. O
investimento em saúde e em educação pública deu bons resultados; onde
não houve investimento, as pessoas continuaram pobres35. Este livro é sobre
todas essas diferenças – por que existiram e por que foram tão importantes.
Até agora, usei palavras como “Ocidente” e “ocidental” de maneira mais ou
menos aleatória. Mas exatamente a que – ou a que lugar – eu me refiro
quando digo “civilização ocidental”? Os homens brancos anglo-saxões
protestantes do pós-guerra costumavam situar o Ocidente (também
conhecido como “o mundo livre”), de maneira mais ou menos instintiva, em
um corredor relativamente estreito que ia (certamente) de Londres a
Lexington, Massachusetts, e (possivelmente) de Estrasburgo a São
Francisco. Em 1945, quando esses homens tinham acabado de voltar dos
campos de batalha, a primeira língua do Ocidente era o inglês, seguida de
um francês hesitante. Com o sucesso da integração europeia nos anos 1950
e 1960, o clube ocidental se expandiu. Hoje, poucos discordariam que os
Países Baixos, a França, a Alemanha, a Itália, Portugal, a Escandinávia e a
Espanha pertencem ao Ocidente, ao passo que a Grécia é um membro
extraoficial, apesar de sua fidelidade posterior ao cristianismo ortodoxo,
graças à nossa dívida duradoura para com a filosofia helênica antiga e às
dívidas mais recentes dos gregos para com a União Europeia.
Mas e quanto ao restante do sul e do leste do Mediterrâneo, abarcando
não só os Bálcãs ao norte do Peloponeso, como também a África do Norte e
a Anatólia? E quanto ao Egito e à Mesopotâmia, berços das primeiras
civilizações? A América do Sul – colonizada por europeus tanto quanto a América do Norte, e geograficamente no mesmo hemisfério – é parte do
Ocidente? E quanto à Rússia? A Rússia europeia é verdadeiramente
ocidental, mas a Rússia além dos montes Urais será, em alguns aspectos,
parte do Oriente? Durante toda a Guerra Fria, a União Soviética e seus
satélites foram chamados de “bloco oriental”. Mas sem dúvida há razões
para afirmar que a União Soviética foi um produto da civilização ocidental
tanto quanto os Estados Unidos. Sua ideologia central tinha a mesma
origem vitoriana que o nacionalismo, o abolicionismo e o sufrágio universal
feminino: nasceu e se formou na velha sala de leitura circular da Biblioteca
Britânica. E sua extensão geográfica era um produto da expansão e da
colonização europeia tanto quanto o povoamento das Américas. Na Ásia
Central, assim como na América do Sul, os europeus governavam os não
europeus. Nesse sentido, o que aconteceu em 1991 foi simplesmente a
morte do último império europeu. Mas a mais influente das definições
atuais de civilização ocidental, a de Samuel Huntington, exclui não só a
Rússia como todos os países com tradição religiosa ortodoxa. O Ocidente
de Huntington consiste apenas de Europa Ocidental (excluindo o Leste
Ortodoxo), América do Norte (excluindo o México) e Australásia. Grécia,
Israel, România e Ucrânia não foram escalados; nem as ilhas caribenhas,
apesar do fato de muitas serem tão ocidentais quanto a Flórida36.
“O Ocidente”, então, é muito mais do que apenas uma expressão
geográfica. É um conjunto de normas, comportamentos e instituições com
fronteiras nebulosas ao extremo. As implicações disso são dignas de
análise. É realmente possível que uma sociedade asiática se torne ocidental
ao adotar as formas ocidentais de se vestir e fazer negócios, como fez o
Japão a partir da era Meiji, e como grande parte do restante da Ásia parece
estar fazendo agora? Tempos atrás, esteve em voga insistir que o “sistema
mundial” capitalista impunha uma divisão de trabalho permanente entre o
Ocidente – o centro – e o Resto – a periferia37. Mas e se o mundo inteiro
acabar sendo ocidentalizado, pelo menos quanto à aparência e ao estilo de
vida? Ou será que, conforme argumentou Huntington, as outras civilizações
são mais resilientes – sobretudo a civilização “sínica”, ou seja, a Grande
China,38 e o Islã, com suas “entranhas e fronteiras sangrentas”?39 Até que ponto a adoção de modos ocidentais de operar é meramente uma
modernização superficial, sem qualquer profundidade cultural? Essas
perguntas serão abordadas a seguir.
Outro enigma com relação à civilização ocidental é que a falta de unidade
parece ser uma de suas características decisivas. No início dos anos 2000,
muitos analistas norte-americanos reclamavam do “alargamento do
Atlântico” – a ruptura dos valores comuns que uniam os Estados Unidos a
seus aliados da Europa Ocidental durante a Guerra Fria40. Se, em
comparação com a época em que Henry Kissinger foi secretário de Estado,
ficou um pouco mais fácil saber a quem um estadista norte-americano
deveria chamar quando quisesse falar com a Europa, ficou mais difícil dizer
quem atende o telefone em nome da civilização ocidental. Mas a divisão
atual entre a América do Norte e a “Velha Europa” é branda e amigável em
comparação com os grandes cismas do passado, por religião, por ideologia
– e até mesmo pelo significado da própria civilização. Durante a Primeira
Guerra Mundial, os alemães afirmaram estar travando a guerra de uma
Kultur mais elevada contra uma civilisation anglo-francesa espalhafatosa e
materialista (a distinção foi feita por Thomas Mann e Sigmund Freud, entre
outros). Mas essa distinção foi difícil de conciliar com o incêndio da
Biblioteca da Universidade de Leuven e as execuções sumárias dos civis
belgas na primeira fase da guerra. Os propagandistas britânicos replicaram,
definindo os alemães como “hunos” – bárbaros além dos limites da
civilização – e chamaram a própria guerra de “a grande guerra pela
civilização” em sua medalha da vitória41. Falar do “Ocidente” como
civilização unitária tem mais sentido hoje do que em 1918?
Por fim, vale lembrar que a civilização ocidental já havia decaído e
sucumbido antes. As ruínas romanas espalhadas por toda a Europa, pelo
Norte da África e pelo Oriente Próximo servem como lembretes
contundentes disso. A primeira versão do Ocidente – a Civilização
Ocidental 1.0 – surgiu no chamado Crescente Fértil, estendendo-se do vale
do Nilo à confluência dos rios Eufrates e Tigre, e alcançou seu auge com a
democracia ateniense e o Império Romano42. Os principais elementos de
nossa civilização atual – não só a democracia, como também o atletismo, a aritmética, o direito civil, a geometria, o estilo clássico de arquitetura e uma
proporção considerável das palavras em inglês moderno – têm suas origens
no antigo Ocidente. Em seu apogeu, o Império Romano foi um sistema
incrivelmente sofisticado. Grãos, manufaturas e moedas circulavam em
uma economia que ia do norte da Inglaterra à cabeceira do Nilo; os estudos
acadêmicos floresceram; havia lei, medicina e até centros de compras,
como o Fórum de Trajano, em Roma. Mas essa versão da civilização
ocidental se deteriorou rapidamente no século V d.C., arruinada por
invasões bárbaras e divisões internas. No espaço de uma geração, Roma, a
grande metrópole imperial, estava em ruínas, os aquedutos, quebrados, os
esplêndidos mercados ao ar livre, desertos. O conhecimento do Ocidente
clássico teria sido totalmente perdido se não fosse pelos bibliotecários de
Bizâncio43, pelos monges da Irlanda44 e pelos papas e padres da Igreja
Católica Romana – e não podemos esquecer os califas abássidas45. Sem sua
liderança, a civilização do Ocidente não poderia ter ressurgido como
ressurgiu na Itália renascentista.
O declínio e a queda são o destino que paira sobre a Civilização Ocidental
2.0? Em termos demográficos, faz muito tempo que a população das
sociedades ocidentais representa uma minoria dos habitantes do mundo,
mas hoje ela está visivelmente definhando. Um dia tão dominantes, as
economias dos Estados Unidos e da Europa estão atualmente diante da
possibilidade real de ser superadas pela China em 20 anos, ou mesmo em
dez, e o Brasil e a Índia não ficam muito atrás. O poderio militar e
econômico do Ocidente parece estar se desgastando no Grande Oriente
Médio, do Iraque ao Afeganistão, ao passo que o “Consenso de
Washington” sobre a política econômica de livre mercado se desintegra. A
crise financeira que começou em 2007 também parece indicar uma falha
fundamental no cerne da sociedade de consumidores, com sua ênfase na
terapia do consumo estimulada pelas compras a prazo. A ética protestante
da prosperidade, que um dia pareceu tão central ao projeto ocidental,
praticamente desapareceu. Enquanto isso, as elites ocidentais são acossadas
por medos quase milenares de um apocalipse ambiental vindouro.
E, o que é ainda mais grave, a civilização ocidental parece ter perdido a
confiança em si mesma. A começar por Stanford em 1963, uma sucessão de
importantes universidades parou de oferecer o curso de história da
“Civilização Ocidental” a seus graduandos. Nas escolas, também, as
grandes narrativas da ascensão ocidental estão fora de moda. Graças a uma
nova mania entre os educadores de – em nome da “Nova História” – dar
mais importância às “habilidades históricas” que ao conhecimento histórico,
somada às consequências não intencionais do processo de reforma
curricular, muitos estudantes britânicos saem do ensino médio conhecendo
apenas fragmentos desconectados da história ocidental: Henrique VIII e
Hitler, com uma pequena dose de Martin Luther King Jr. Uma pesquisa com
estudantes do primeiro ano de História de uma importante universidade
britânica revelou que apenas 34% sabiam quem foi o monarca inglês na
época da Armada, 31% sabiam a localização da Guerra dos Bôeres, 16%
sabiam quem comandou as forças britânicas em Waterloo (mais que o dobro
destes pensava que tivesse sido Nelson em vez de Wellington) e apenas
11% foram capazes de mencionar um único primeiro-ministro britânico do
século XIX46. Em uma pesquisa similar, 17% dos adolescentes ingleses
entre 11 e 18 anos pensavam que Oliver Cromwell havia lutado na batalha
de Hastings e 25% situavam a Primeira Guerra Mundial no século errado47.
Além disso, em todo o mundo anglófono, ganhou terreno o argumento de
que devemos estudar as outras culturas, e não a nossa. A coleção musical
enviada para o espaço com a aeronave Voyager em 1977 continha 27 faixas,
e somente dez delas eram de compositores ocidentais, incluindo não só
Bach, Mozart e Beethoven como também Louis Armstrong, Chuck Berry e
Blind Willie Johnson. Uma história do mundo “em cem objetos”, publicada
pelo diretor do Museu Britânico em 2010, incluía não mais de trinta
produtos da civilização ocidental48.
Mas qualquer história das civilizações do mundo que subestime sua
subordinação gradativa ao Ocidente depois de 1500 não dá conta do ponto
essencial – aquele que mais requer uma explicação. A ascensão do Ocidente
é, pura e simplesmente, o fenômeno histórico mais notável da segunda
metade do segundo milênio depois de Cristo. É a história no próprio cerne da história moderna. É, talvez, o enigma mais desafiador que os
historiadores têm de resolver. E devemos resolvê-lo não só para satisfazer
nossa curiosidade. Pois é só identificando as verdadeiras causas de nossa
supremacia que podemos esperar estimar com certa precisão a iminência de
nosso declínio e queda.
Clark, Civilisation.
Braudel, A History of Civilizations.
Ver também Bagby, Culture and History; e Mumford, The City in History.
Sobre costumes, ver Elias, The Civilizing Process.
Ver Coulborn, The Origin of Civilized Societies e, mais recentemente, Fernández-Armesto, Civilizations.
Quigley, The Evolution of Civilizations.
Bozeman, Politics and Culture in International History.
Melko, The Nature of Civilizations.
Eisenstadt, Comparative Civilizations and Multiple Modernities.
0 McNeill, The Rise of the West.
1 Braudel, A History of Civilizations, p. 34 ss.
2 Ver Fernández-Armesto, Millennium; Goody, Capitalism and Modernity e The Eurasian Miracle;
Wong, China Transformed.
3 McNeill, The Rise of the West. Ver também Darwin, After Tamerlane.
4 Os 11 impérios eram Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Rússia,
Reino Unido e Estados Unidos. Destes, somente França, Portugal e Espanha existiam em 1500 de forma similar à do início do século XX. Sobre a reivindicação da Rússia de ser considerada parte do Ocidente, ver a seguir.
5 Com base em dados de Maddison, The World Economy. Os números históricos sobre a produção
mundial (Produto Interno Bruto) devem ser tratados ainda com mais cuidado que aqueles sobre a população, devido às suposições heroicas que Maddison teve de fazer para construir suas estimativas, e também porque ele escolheu calcular o PIB em termos de paridade de poder de compra para levar em conta os preços muito mais baixos de produtos não comercializados em países relativamente pobres.
6 Detalhes em Fogel, The Escape from Hunger and Premature Death, tabelas 1.2, 1.4.
7 Dados de Chandler, Four Thousand Years of Urban Growth.
8 Calculado em dólares atuais, do banco de dados on-line dos Indicadores de Desenvolvimento
Mundial do Banco Mundial.
9 Ver uma esclarecedora discussão em Scruton, The West and the Rest.
0 Ver, por exemplo, Laue, “The World Revolution of Westernization”.
1 Acemoglu et al., “Reversal of Fortune”; Putterman e Weil, “Post-1500 Population Flows”.
2 Pomeranz, The Great Divergence.
3 Elvin, The Pattern of the Chinese Past.
4 Clark, A Farewell to Alms.
5 De fato, essa questão estava sendo levantada nos impérios não ocidentais durante o século XVIII. Em
1731, o escritor otomano Ibrahim Müteferrika perguntou: “Por que as nações cristãs, que foram tão débeis no passado em comparação com as nações muçulmanas, passaram a dominar tantas terras e até mesmo a derrotar os outrora vitoriosos exércitos otomanos?”.
6 Johnson, The History of Rasselas, p. 56 ss.
7 Murray, Human Accomplishment.
8 Landes, The Wealth and Poverty of Nations.
9 Hibbs e Olsson, “Geography”; Bockstette et al., “States and Markets”.
0 Diamond, Guns, Germs and Steel.
1 Diamond, “How to Get Rich”.
2 Ver, por exemplo, Roberts, The Triumph of the West.
3 Ver North, Understanding the Process of Economic Change; North et al., Violence and Social
Orders.
4 Clark, A Farewell to Alms, p. 337-42.
5 Rajan e Zingales, “The Persistence of Underdevelopment”; Chaudhary et al., “Big BRICs, Weak
Foundations”.
6 Huntington, The Clash of Civilizations.
7 Wallerstein, The Modern World-System.
8 É uma noção peculiar que uma das civilizações mais veneráveis do mundo tenha um nome que não é
conhecido por ninguém, a não ser por um teórico político. Em seu ensaio original de 1993, Huntington usou o termo “confuciana”.
9 Huntington, The Clash of Civilizations.
0 Ver, por exemplo, Kagan, Of Paradise and Power e, mais recentemente, Schuker, “A Sea Change in
the Atlantic Economy?”.
1 Ver mais recentemente Osborne, Civilization.
2 Morris, Why the West Rules.
3 Brownworth, Lost to the West.
4 Cahill, How the Irish Saved Civilization. No momento em que este livro está sendo escrito, ainda é
preciso saber se o elogio será retribuído.
5 Dawson, The Making of Europe; Woods, How the Catholic Church Built Western Civilization.
6 Matthews, “The Strange Death of History Teaching”; Guyver, “England and the Battle”.
7 Amanda Kelly, “What Did Hitler Do in the War, Miss?”, Times Educational Supplement, 19 de
janeiro de 2001.
8 MacGregor, A History of the World in 100 objects.
OceanofPDF.com