Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 2 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Introdução: A pergunta de Rasselas

 

Ele não admitia civilização [na quarta edição de seu dicionário], apenas civilidade. Com todo o respeito, acredito que o termo civilização, do verbo civilizar, é mais apropriado, no sentido oposto a barbárie, do que civilidade.

JAMES BOSWELL

 

Todas as definições de civilização [...] pertencem a uma conjugação deste tipo: “Eu sou civilizado, você pertence a uma cultura, ele é um bárbaro”.

FELIPE FERNÁNDEZ-ARMESTO

 

Quando Kenneth Clark definiu o termo civilização em sua série homônima

de TV, deixou perfeitamente claro para os espectadores que se referia à

civilização do Ocidente – e sobretudo à arte e à arquitetura da Europa

Ocidental, da Idade Média até o século XIX. O primeiro dos 13 filmes que

ele fez para a BBC, ainda que sem ser indelicado, ignorava totalmente a

Ravena bizantina, as Hébridas celtas, a Noruega viking e até mesmo a

Aachen de Carlos Magno. Os tempos obscuros entre a queda de Roma e o

Renascimento do século XII simplesmente não se qualificavam como

civilização na concepção que Clark tinha da palavra. Esta só reviveu com a

construção da catedral de Chartres, habilitada – apesar de não concluída –

em 1260, e estava mostrando sinais de fadiga com os arranha-céus de

Manhattan de meados do século XX.

Extremamente bem-sucedida, a série de Clark, transmitida pela primeira

vez na Grã-Bretanha quando eu tinha cinco anos de idade, definiu

civilização para toda uma geração no mundo anglófono. Civilização eram os chateaux do Loire. Eram os palazzi de Florença. Era a Capela Sistina.

Era Versalhes. Dos interiores sóbrios da República holandesa às fachadas

exuberantes do Barroco, Clark soube explorar seus conhecimentos de

historiador da arte. A música e a literatura fizeram suas aparições; a política

e até mesmo a economia assomavam de vez em quando. Mas a essência da

civilização de Clark era, claramente, alta cultura visual. Seus heróis eram

Michelangelo, Da Vinci, Dürer, Constable, Turner, Delacroix.1

A série de Clark – sejamos justos – recebeu o subtítulo Uma visão

pessoal. E ele estava ciente da implicação, já problemática em 1969, de que

“a era pré-cristã e o Oriente” fossem, em certo sentido, incivilizados. No

entanto, com o passar de quatro décadas, tornou-se cada vez mais difícil

conviver com a visão de Clark, pessoal ou não (isso sem falar de seu leve ar

de superioridade). Neste livro, adotarei uma abordagem mais ampla e

comparativa, e espero ser mais simples do que sublime. Minha ideia de

civilização está tão associada com canos de esgoto quanto com

arcobotantes, se não até mais, porque sem uma rede hidráulica pública

eficiente as cidades são armadilhas fatais, transformando rios e poços em

paraísos para a bactéria Vibrio cholerae. Sem nenhum constrangimento,

estou tão interessado no custo de uma obra de arte quanto em seu valor

cultural. Para mim, uma civilização é muito mais do que o acervo de

algumas poucas galerias de arte de prestígio. É uma organização social

extremamente complexa. Suas pinturas, estátuas e edifícios podem muito

bem ser suas realizações mais cativantes em termos visuais, mas são

ininteligíveis sem alguma compreensão das instituições econômicas, sociais

e políticas que as conceberam, financiaram, executaram – e preservaram

para que pudéssemos contemplá-las.

“Civilização” é uma palavra de origem francesa, usada pela primeira vez

pelo economista francês Anne-Robert-Jacques Turgot em 1752, e publicada

pela primeira vez por Victor Riqueti, marquês de Mirabeau, pai do grande

revolucionário, quatro anos mais tarde2. Samuel Johnson, como a primeira

epígrafe a esta Introdução torna claro, não aceitava o neologismo,

preferindo “civilidade”. Se barbarismo tinha um antônimo para Johnson, era

a vida urbana educada (embora às vezes também completamente rude) que ele tanto apreciava em Londres. Uma civilização, conforme indica a

etimologia da palavra, gira em torno de suas cidades, e em muitos aspectos

são as cidades as heroínas deste livro3. Mas as leis de uma cidade (civis ou

não) são tão importantes quanto seus muros, sua constituição e seus

costumes – os hábitos de seus habitantes (civis ou não) –, tão importantes

quanto seus palácios4. Civilização é tanto os laboratórios dos cientistas

quanto os sótãos dos artistas. É tanto as formas de posse de terra quanto

suas paisagens. O sucesso de uma civilização é medido não apenas por suas

realizações estéticas, mas também, e sem dúvida esse é o aspecto mais

importante, pela duração e pela qualidade de vida de seus cidadãos. E essa

qualidade de vida tem muitas dimensões, nem todas facilmente

quantificáveis. Podemos ser capazes de estimar a renda per capita dos

povos em todo o mundo no século XV, ou sua expectativa média de vida ao

nascer. Mas e quanto a seu conforto? Higiene? Felicidade? Quantas peças

de roupa tinham? Quantas horas precisavam trabalhar? Que comida

conseguiam comprar com seu salário? As obras de arte, por si sós, podem

oferecer pistas, mas não conseguem responder a essas perguntas.

Claramente, de todo modo, uma cidade não faz uma civilização. Uma

civilização é a maior unidade de organização humana, maior até que um

império, embora mais amorfa. As civilizações são, em parte, uma resposta

prática das populações humanas a seu meio – os desafios de se alimentar, se

hidratar, se abrigar e se defender –, mas também são de caráter cultural;

muitas vezes, ainda que nem sempre, religioso; muitas vezes, ainda que

nem sempre, unidas por uma língua5. Elas são poucas, mas não raras.

Carroll Quigley contou duas dezenas nos últimos dez milênios6. No mundo

pré-moderno, Adda Bozeman identificou apenas cinco: o Ocidente, a Índia,

a China, Bizâncio e o Islã7. Matthew Melko contou 12 ao todo, das quais

sete desapareceram (a mesopotâmica, a egípcia, a cretense, a clássica, a

bizantina, a centro-americana e a andina) e cinco permanecem (a chinesa, a

japonesa, a indiana, a islâmica e a ocidental)8. Shmuel Eisenstadt contou

seis, agregando ao clube a civilização judaica9. A interação dessas poucas

civilizações umas com as outras, e também com seu próprio meio, está

entre os motores mais importantes de transformação histórica10. O mais surpreendente a respeito dessas interações é que as civilizações autênticas

parecem permanecer válidas internamente durante longos períodos, apesar

das influências externas. Conforme afirma Fernand Braudel: “Civilização é,

de fato, a história mais longa de todas [...] Uma civilização [...] pode

persistir ao longo de uma série de economias ou sociedades”11.

Se, em 1411, você tivesse sido capaz de circum-navegar o globo,

provavelmente teria ficado muito impressionado com a qualidade de vida

das civilizações orientais. A Cidade Proibida estava sendo construída na

China da dinastia Ming, e haviam começado as obras para a reabertura e

melhoria do Grande Canal; no Oriente Próximo, os otomanos estavam se

aproximando de Constantinopla, que finalmente tomariam em 1453. O

Império Bizantino dava seu último suspiro. A morte do guerreiro Timur

(Tamerlão) em 1405 havia eliminado a ameaça recorrente de hordas

invasoras assassinas provenientes da Ásia Central – a antítese da

civilização. Para o imperador Yongle, na China, e o sultão otomano Murad

II, o futuro era brilhante.

Já a Europa Ocidental, em 1411, o teria impressionado por ser um lugar

remoto e miserável, recuperando-se das devastações da peste negra – que

havia reduzido a população à metade conforme se propagou para o leste

entre 1347 e 1351 – e ainda assolada por péssimas condições sanitárias e

guerras aparentemente incessantes. Na Inglaterra, o rei leproso Henrique IV

ocupava o trono, depois de haver destronado e assassinado Ricardo II. A

França estava à mercê da guerra interna entre os seguidores do duque de

Borgonha e os do duque de Orléans, que havia sido assassinado. A Guerra

dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra estava prestes a ser retomada.

Os outros reinos belicosos da Europa Ocidental – Aragão, Castela, Navarra,

Portugal e Escócia – aparentavam estar um pouco melhores. Um

muçulmano ainda governava Granada. O rei escocês, Jaime I, era

prisioneiro na Inglaterra, após ter sido capturado por piratas ingleses. As

partes mais prósperas da Europa eram, de fato, as cidades-estados do norte

da Itália: Florença, Gênova, Pisa, Siena e Veneza. Quanto à América do

Norte, no século XV era uma selvageria anárquica em comparação com os

reinos dos astecas, dos maias e dos incas nas Américas Central e do Sul, com seus templos grandiosos e suas estradas em meio às nuvens. Quando

você terminasse sua volta ao mundo, a noção de que o Ocidente poderia vir

a dominar o restante durante grande parte dos 500 anos seguintes pareceria

absolutamente fantasiosa.

Mas aconteceu.

Por alguma razão, a partir do fim do século XV, os pequenos Estados da

Europa Ocidental, com suas línguas bastardas emprestadas do latim (e, em

menor medida, do grego), sua religião proveniente dos ensinamentos de um

judeu de Nazaré e suas dívidas intelectuais à matemática, à astronomia e à

tecnologia orientais produziram uma civilização capaz não só de conquistar

os grandes impérios orientais e subjugar a África, as Américas e a

Austrália, como também de converter os povos de todo o mundo ao modo

de vida ocidental – uma conversão alcançada, no fim das contas, mais pela

palavra do que pela espada.

Há aqueles que contestam tal afirmação, alegando que todas as

civilizações são iguais em certo sentido, e que o Ocidente não pode

reivindicar superioridade sobre o leste da Eurásia, por exemplo12. Mas tal

relativismo é comprovadamente absurdo. Nenhuma civilização anterior foi

capaz de exercer a dominação que o Ocidente exerce sobre o restante do

mundo13. Em 1500, as futuras potências imperiais da Europa dominavam

cerca de 5% da superfície da Terra, e quando muito 16% de sua população.

Em 1913, 11 impérios ocidentais14 controlavam aproximadamente três

quintos de todo o território e população, e quase três quartos

(surpreendentes 74%) da produção econômica mundial15. A expectativa de

vida média na Inglaterra era de quase duas vezes a da Índia. Os padrões de

vida mais altos no Ocidente também se refletiram em uma dieta melhor, até

mesmo para os trabalhadores agrícolas, e estatura mais alta, mesmo para os

presos e para os soldados comuns16. A civilização, conforme vimos, são as

cidades. Segundo esse critério, também, o Ocidente aparece em primeiro.

Em 1500, até onde podemos saber, a maior cidade do mundo era Pequim,

com uma população entre 600 mil e 700 mil habitantes. Das dez maiores

cidades do mundo naquela época, somente uma – Paris – era europeia, e sua

população não passava de 200 mil. Londres tinha, talvez, 50 mil habitantes. As taxas de urbanização também eram mais altas na África do Norte e na

América do Sul do que na Europa. Mas em 1900 observa-se uma

reviravolta impressionante. Só uma das dez maiores cidades do mundo

nessa época era asiática, e essa cidade era Tóquio. Com uma população de

cerca de 6,5 milhões, Londres era a megalópole global17. O domínio do

Ocidente tampouco terminou com o declínio e a queda dos impérios

europeus. Com a ascensão dos Estados Unidos, o abismo entre Ocidente e

Oriente tornou-se ainda maior. Em 1990, a renda per capita dos norte-

americanos era 73 vezes a dos chineses18.

Além disso, ficou claro, na segunda metade do século XX, que a única

forma de diminuir a enorme distância quanto à renda era que as sociedades

orientais seguissem o exemplo do Japão, adotando as mesmas (embora não

todas) instituições e maneiras de operar do Ocidente. Em consequência, a

civilização ocidental tornou-se uma espécie de modelo para o modo como o

restante do mundo aspirava a se organizar. Antes de 1945, é claro, havia

vários modelos de desenvolvimento – ou sistemas operacionais, para usar

uma metáfora da computação – que podiam ser adotados pelas sociedades

não ocidentais. Mas os mais atraentes eram todos de origem europeia: o

capitalismo liberal, o socialismo nacional, o comunismo soviético. A

Segunda Guerra Mundial matou o segundo na Europa, embora tenha

sobrevivido com outros nomes em muitos países em desenvolvimento. O

colapso do império soviético entre 1989 e 1991 matou o terceiro.

Sem dúvida, muito se falou, no início da crise financeira global, sobre os

modelos econômicos asiáticos alternativos. Mas nem mesmo o relativista

cultural mais fervoroso recomenda uma volta às instituições da dinastia

Ming ou dos mongóis. O atual debate entre os proponentes dos livres

mercados e aqueles da intervenção estatal é, em essência, um debate entre

escolas de pensamento notadamente ocidentais: os seguidores de Adam

Smith e os de John Maynard Keynes, com alguns poucos devotos

obstinados de Karl Marx que ainda persistem. Os lugares de nascimento de

todos os três falam por si sós: Kirkcaldy, Cambridge, Tréveris. Na prática, a

maior parte do mundo hoje está integrada a um sistema econômico

ocidental em que, conforme recomendou Adam Smith, o mercado estipula a maior parte dos preços e determina o fluxo de comércio e a divisão de

trabalho, mas o governo desempenha um papel mais próximo daquele

vislumbrado por Keynes, intervindo para tentar abrandar o ciclo de

negócios e reduzir a desigualdade de renda.

Quanto às instituições não econômicas, não há nenhum debate digno de

nota. Em todo o mundo, as universidades estão convergindo para as normas

ocidentais. Isso também é válido para o modo com que a ciência médica é

organizada, das pesquisas abstrusas aos sistemas de saúde na linha de

frente. A maioria das pessoas, hoje, aceita as grandes verdades científicas

reveladas por Newton, Darwin e Einstein e, mesmo que não aceitem, ainda

procuram avidamente pelos produtos da farmacologia ocidental diante do

primeiro sintoma de gripe ou bronquite. Só algumas poucas sociedades

continuam a resistir à invasão dos padrões ocidentais de marketing e

consumo, bem como ao próprio estilo de vida ocidental. Cada vez mais

seres humanos seguem uma dieta ocidental, vestem roupas ocidentais e

vivem em uma casa ocidental. Até mesmo o modo tipicamente ocidental de

trabalhar – cinco ou seis dias por semana, das 9h às 17h, com duas ou três

semanas de férias – está se tornando uma espécie de padrão universal.

Enquanto isso, a religião que os missionários ocidentais procuraram

exportar para o restante do mundo é seguida por um terço da humanidade, e

vem fazendo progressos notáveis no país mais populoso do mundo. Mesmo

o ateísmo, pioneiro no Ocidente, vem avançando de maneira

impressionante.

A cada ano que passa, mais e mais seres humanos compram como nós,

ficam saudáveis (ou doentes) como nós e rezam (ou não rezam) como nós.

Hambúrgueres, bicos de Bunsen, Band-Aids, bonés de beisebal e Bíblias:

não é possível se livrar deles facilmente, aonde quer que se vá. Apenas na

esfera das instituições políticas ainda resta uma diversidade global

significativa, com uma ampla gama de governos pelo mundo resistindo à

ideia do Estado de direito, com sua proteção aos direitos individuais, como

a base para um governo representativo significativo. É tanto como ideologia

política quanto como religião que um Islã militante procura resistir ao

avanço das normas ocidentais do século XX de igualdade de gênero e

liberdade sexual19.

Portanto, não é “eurocentrismo” ou (anti)“orientalismo” dizer que a

ascensão da civilização ocidental é o fenômeno histórico mais importante

da segunda metade do segundo milênio depois de Cristo. É uma afirmação

do óbvio. O desafio é explicar como isso aconteceu. O que houve na

civilização da Europa Ocidental depois do século XV que lhe permitiu

sobrepujar os impérios visivelmente superiores do Oriente? Sem dúvida, foi

algo mais que a beleza da Capela Sistina.

A resposta fácil, se não tautológica, a essa pergunta é que o Ocidente

dominou o Oriente por causa do imperialismo20. Ainda hoje, há muitas

pessoas que podem se sentir profundamente indignadas com os excessos

dos impérios europeus. Excessos decerto existiram, e não estão ausentes

destas páginas. Também está claro que as diferentes formas de colonização

– povoamento versus exploração – tiveram impactos muito diferentes a

longo prazo21. Mas, para a história, o império não é uma explicação

suficiente da supremacia ocidental. Houve impérios muito antes do

imperialismo denunciado pelos marxistas-leninistas. De fato, o século XVI

viu uma série de impérios asiáticos aumentarem significativamente seu

poder e sua extensão. Entretanto, após o fracasso do projeto de Carlos V –

de um grande império dos Habsburgo estendendo-se da Espanha à

Alemanha, passando pelos Países Baixos –, a Europa ficou mais

fragmentada do que nunca. A Reforma desencadeou mais de um século de

guerras religiosas europeias.

Um viajante do século XVI dificilmente deixaria de notar o contraste.

Além de abarcar a Anatólia, o Egito, a Arábia, a Mesopotâmia e o Iêmen, o

Império Otomano – sob Solimão, o Magnífico (1520-66) – estendeu-se até

os Bálcãs e a Hungria, ameaçando os portões de Viena em 1529. Mais ao

leste, o Império Safávida, sob Abbas I (1587-1629), estendia-se de Ispaã e

Tabriz a Kandahar, ao passo que o norte da Índia, de Déli a Bengala, era

governado pelo poderoso imperador mongol Akbar (1556-1605). A China

Ming também parecia serena e segura atrás do grande muro. Poucos

europeus que visitassem a corte do imperador Wanli (1572-1620) poderiam

ter previsto a queda de sua dinastia menos de três décadas após sua morte.

Escrevendo de Istambul no fim da década de 1550, o diplomata flamengo

Ogier Ghiselin de Busbecq – o homem que transplantou tulipas da Turquia

à Holanda – comparou, nervoso, a situação fraturada da Europa com a

“grande prosperidade” do Império Otomano.

É verdade que o século XVI foi uma época de intensa atividade europeia

no além-mar. Mas, para os grandes impérios do Oriente, os navegantes

portugueses e holandeses pareciam o exato oposto dos portadores de

civilização; eram apenas os últimos bárbaros a ameaçar o Reino do Meio,

de fato mais repulsivos – e certamente mais malcheirosos – que os piratas

do Japão. E o que mais atraía os europeus à Ásia além da qualidade superior

dos tecidos indianos e da porcelana chinesa?

Foi só em 1683 que um exército otomano marchou até os portões de

Viena – a capital do império Habsburgo – e exigiu que a população da

cidade se rendesse e se convertesse ao islamismo. E só após o levantamento

do cerco que o mundo cristão pôde começar, pouco a pouco, a repelir o

poder otomano na Europa Central e Oriental ao longo dos Bálcãs em

direção ao Bósforo, e levou muitos anos até que algum império europeu

pudesse se equiparar às conquistas do imperialismo oriental. A “grande

divergência” entre o Ocidente e o Oriente foi ainda mais lenta de se

materializar em outros lugares. As diferenças materiais entre a América do

Norte e a do Sul não estavam muito bem demarcadas até meados do século

XIX, e até o início do século XX a maior parte da África não esteve sob

domínio europeu; só umas poucas faixas litorâneas.

Se a supremacia ocidental não pode, portanto, ser explicada nos velhos

termos gastados do imperialismo, teria sido – como afirmam alguns

estudiosos – simplesmente uma questão de sorte? Foi a geografia ou o

clima da extremidade ocidental da Eurásia o que fez com que a grande

divergência acontecesse? Os europeus só tiveram a sorte de tropeçar nas

ilhas do Caribe, com sua localização tão ideal para o cultivo de açúcar, rico

em calorias? O Novo Mundo proporcionou à Europa os “acres fantasmas”

dos quais a China carecia? E é só por causa da Lei de Murphy que os

depósitos de carvão da China eram mais difíceis de explorar e transportar

do que os da Europa22? Ou será que a China, de alguma forma, foi vítima de

seu próprio sucesso – presa na “armadilha do equilíbrio”, devido à

capacidade de seus agricultores de fornecer a um grande número de pessoas

apenas a quantidade suficiente de calorias para sobreviver23? Será mesmo

possível que a Inglaterra tenha se tornado a primeira nação industrial

porque a falta de saneamento e as doenças mantiveram a vida

excepcionalmente curta para a maioria das pessoas, dando aos ricos e aos

empreendedores melhor chance de transmitir seus genes24?

O imortal lexicógrafo inglês Samuel Johnson rejeitou todas essas

possíveis explicações para a supremacia ocidental. Em seu livro História de

Rasselas: príncipe da Abissínia, publicado em 1759, ele leva Rasselas a

perguntar:

 

Por que meios [...], então, os europeus são poderosos? Por que, já que eles podem visitar a Ásia e a

África com tanta facilidade para o comércio ou para a conquista, os asiáticos e africanos não

conseguem invadir sua costa, implementar colônias em seus portos e impor leis a seus príncipes

naturais? O mesmo vento que os traz de volta nos levaria para lá.25

 

À qual o filósofo Imlac responde:

 

Eles são mais poderosos do que nós porque são mais sábios, Sir; o conhecimento sempre

predominará sobre a ignorância, da mesma forma que o homem governa os outros animais. Mas

por que o conhecimento deles é maior que o nosso, eu não sei que outra razão pode ser dada além

do desejo insondável do Ser Supremo26.

De fato, conhecimento é poder, quando proporciona maneiras melhores

de navegar, escavar materiais, usar armas de fogo e curar doenças. Mas será

mesmo que os europeus têm mais conhecimento que outros povos? Talvez

tivessem em 1759; a inovação científica, por cerca de dois séculos e meio

após 1650, foi quase exclusivamente de origem ocidental27. Mas e em 1500?

Conforme veremos, durante séculos a tecnologia chinesa, a matemática

indiana e a astronomia árabe estiveram muito à frente.

Foi, portanto, uma diferença cultural mais nebulosa o que permitiu que os

europeus saíssem à frente de seus pares orientais? Esse foi o argumento do

sociólogo alemão Max Weber. Manifesta-se de várias formas – o

individualismo inglês medieval, o humanismo e a ética protestante –, e foi

buscado em toda parte, da força de vontade dos agricultores ingleses às

regras de etiqueta das cortes reais, sem falar dos livros contábeis dos

mercadores mediterrâneos. Em A riqueza e a pobreza das nações, David

Landes defende o argumento da diferença cultural, afirmando que a Europa

Ocidental liderou o mundo desenvolvendo uma pesquisa intelectual

autônoma, o método científico de verificação e a racionalização da pesquisa

e sua difusão. Mas mesmo ele admitiu que algo mais era necessário para

que aquele modo de operação florescesse: intermediários financeiros e um

bom governo28. A chave – e isso torna-se cada vez mais visível – está em

suas instituições.

É claro que as instituições são, em certo sentido, produto da cultura. Mas,

uma vez que formalizam um conjunto de normas, costumam ser aquilo que

mantém uma cultura no rumo certo, determinando até que ponto esta

conduz ao bom comportamento e não ao mau. Para ilustrar esse argumento,

o século XX fez uma série de experimentos, impondo instituições muito

diferentes a dois conjuntos de alemães (ocidentais e orientais), dois

conjuntos de coreanos (do Norte e do Sul) e dois conjuntos de chineses

(dentro e fora da República Popular). Os resultados foram muito

impressionantes, e a lição, claríssima. Se tomarmos o mesmo povo, com

mais ou menos a mesma cultura, e impusermos instituições comunistas a

um grupo e capitalistas a outro, quase imediatamente haverá uma

divergência no modo como se comportam.

Hoje, muitos historiadores concordariam que havia poucas diferenças

realmente profundas entre as extremidades oriental e ocidental da Eurásia

em 1500. Ambas as regiões adotaram desde cedo a agricultura, as trocas

baseadas no mercado e as estruturas estatais centradas em cidades29. Mas

houve uma diferença institucional crucial. Na China, consolidou-se um

império monolítico, ao passo que a Europa permaneceu politicamente

fragmentada. Em Armas, germes e aço, Jared Diamond explica por que a

Eurásia havia avançado mais que o restante do mundo30. Mas foi só em seu

ensaio “Como ficar rico” (1999) que ele deu uma resposta à pergunta de por

que uma ponta da Eurásia esteve, até agora, à frente da outra. A resposta era

que, nas planícies da Eurásia Oriental, os impérios orientais monolíticos

freavam a inovação, ao passo que, na Eurásia Ocidental, montanhosa e

dividida por rios, várias monarquias e cidades-estados se engajaram na

competição criativa e na comunicação31.

É uma resposta atraente. Mas ainda não basta. Observemos as duas séries

de gravuras chamadas “As misérias da guerra”, publicadas pelo artista

Jacques Callot, de Lorraine, nos anos 1630, como que para alertar o restante

do mundo dos perigos do conflito religioso. A competição entre os

pequenos Estados da Europa – e também no interior deles – durante a

primeira metade do século XVII era desastrosa, despovoando grandes

extensões de terra da Europa Central e mergulhando as ilhas britânicas em

mais de um século de disputas recorrentes e debilitantes. A fragmentação

política muitas vezes tem esse efeito. Se você duvida, pergunte aos

habitantes da ex-Iugoslávia. A competição é certamente uma parte da

história da supremacia ocidental, conforme veremos no Capítulo 1; mas só

uma parte.

Neste livro, quero mostrar que o que distinguiu o Ocidente do Oriente – as

molas propulsoras do poder global – foram seis novos sistemas de

instituições identificáveis e as ideias e os comportamentos associados a

eles. Para simplificar, abaixo eu os resumo em seis tópicos:

 

1. A competição

2. A ciência

3. Os direitos de propriedade

4. A medicina

5. A sociedade de consumo

6. A ética do trabalho

 

Para usar a linguagem do mundo computadorizado e sincronizado de

nossos dias, estes foram os seis “incríveis aplicativos” (ou apps) que

permitiram que uma minoria da humanidade, originando-se no extremo

oeste da Eurásia, dominasse o mundo durante a maior parte dos últimos 500

anos.

Agora, antes que você escreva para mim indignado, reclamando que

esqueci algum aspecto crucial da supremacia ocidental, como o capitalismo

ou a liberdade ou a democracia (ou, aliás, armas, germes e aço), leia as

seguintes breves definições:

 

1. A competição: uma descentralização da vida política e econômica, que

criou as condições para o surgimento dos Estados-nação e do

capitalismo.

2. A ciência: uma forma de estudar, entender e, finalmente, transformar o

mundo natural, que deu ao Ocidente (entre outras coisas) uma importante

vantagem militar sobre o restante.

3. Os direitos de propriedade: o controle da lei como um meio de

proteger os proprietários privados e solucionar pacificamente as disputas

entre eles, que assentou a base para a forma mais estável de governo

representativo.

4. A medicina: um ramo da ciência que possibilitou uma importante

melhoria na saúde e na expectativa de vida, inicialmente nas sociedades

ocidentais, mas também em suas colônias.

5. A sociedade de consumo: um modo de vida material em que a

produção e a compra de roupas e outros bens de consumo desempenham

um papel econômico central, e sem o qual a Revolução Industrial teria

sido insustentável.

6. A ética do trabalho: um sistema moral e um modo de atividade

derivados do cristianismo protestante (entre outras fontes), que fornece

coesão à sociedade dinâmica e potencialmente instável criada pelos itens

1 a 5.

 

Não se engane: esta não é mais uma versão presunçosa do “triunfo do

Ocidente”32. Pretendo mostrar que não foi só a superioridade ocidental que

levou à conquista e à colonização de grande parte do restante do mundo; foi

também a fraqueza fortuita de seus rivais. Na década de 1640, por exemplo,

uma combinação de crise fiscal e monetária, mudança climática e epidemia

desencadeou uma rebelião e o colapso da dinastia Ming. Isso não teve nada

a ver com o Ocidente. Da mesma maneira, o declínio político e militar do

Império Otomano teve mais causas internas do que externas. As instituições

políticas norte-americanas floresceram à medida que cresciam as feridas da

América do Sul; mas o fracasso de Simón Bolívar em criar os Estados

Unidos da América Latina não foi culpa dos gringos.

O ponto crítico é que a diferença entre o Ocidente e o restante do mundo

era institucional. A Europa Ocidental superou a China em parte porque no

Ocidente havia mais competição tanto na esfera política quanto na

econômica. A Áustria, a Prússia e, mais tarde, até mesmo a Rússia se

tornaram mais eficazes em termos administrativos e militares porque a rede

de comunicação que levou à Revolução Científica surgiu no mundo cristão,

mas não no muçulmano. A razão pela qual as ex-colônias norte-americanas

se saíram muito melhor que as da América do Sul é que os colonizadores

ingleses estabeleceram no Norte um sistema de direitos de propriedade e

representação política completamente diferente daquele implementado por

espanhóis e portugueses no Sul. (O Norte era uma “ordem de acesso

aberto”, em vez de fechado, administrada segundo os interesses de elites

exclusivas e em busca de privilégios.)33 Os impérios europeus foram

capazes de penetrar na África não só porque tinham a metralhadora Maxim;

eles também conceberam vacinas contra doenças tropicais às quais os

africanos eram igualmente vulneráveis.

Da mesma maneira, a industrialização precoce do Ocidente refletia

vantagens institucionais: a possibilidade de uma sociedade de consumidores

em massa existia nas ilhas britânicas bem antes do advento e da

disseminação da energia a vapor ou do sistema fabril. Mesmo quando a

tecnologia industrial estava disponível quase universalmente, a diferença

entre o Ocidente e o restante do mundo persistiu: de fato, tornou-se ainda

maior. Sem um maquinário totalmente padronizado de fiação e tecelagem

de algodão, o trabalhador europeu ou norte-americano ainda era capaz de

trabalhar de maneira mais produtiva, e seu empregador capitalista de

acumular riqueza mais depressa do que seus pares orientais34. O

investimento em saúde e em educação pública deu bons resultados; onde

não houve investimento, as pessoas continuaram pobres35. Este livro é sobre

todas essas diferenças – por que existiram e por que foram tão importantes.

Até agora, usei palavras como “Ocidente” e “ocidental” de maneira mais ou

menos aleatória. Mas exatamente a que – ou a que lugar – eu me refiro

quando digo “civilização ocidental”? Os homens brancos anglo-saxões

protestantes do pós-guerra costumavam situar o Ocidente (também

conhecido como “o mundo livre”), de maneira mais ou menos instintiva, em

um corredor relativamente estreito que ia (certamente) de Londres a

Lexington, Massachusetts, e (possivelmente) de Estrasburgo a São

Francisco. Em 1945, quando esses homens tinham acabado de voltar dos

campos de batalha, a primeira língua do Ocidente era o inglês, seguida de

um francês hesitante. Com o sucesso da integração europeia nos anos 1950

e 1960, o clube ocidental se expandiu. Hoje, poucos discordariam que os

Países Baixos, a França, a Alemanha, a Itália, Portugal, a Escandinávia e a

Espanha pertencem ao Ocidente, ao passo que a Grécia é um membro

extraoficial, apesar de sua fidelidade posterior ao cristianismo ortodoxo,

graças à nossa dívida duradoura para com a filosofia helênica antiga e às

dívidas mais recentes dos gregos para com a União Europeia.

Mas e quanto ao restante do sul e do leste do Mediterrâneo, abarcando

não só os Bálcãs ao norte do Peloponeso, como também a África do Norte e

a Anatólia? E quanto ao Egito e à Mesopotâmia, berços das primeiras

civilizações? A América do Sul – colonizada por europeus tanto quanto a América do Norte, e geograficamente no mesmo hemisfério – é parte do

Ocidente? E quanto à Rússia? A Rússia europeia é verdadeiramente

ocidental, mas a Rússia além dos montes Urais será, em alguns aspectos,

parte do Oriente? Durante toda a Guerra Fria, a União Soviética e seus

satélites foram chamados de “bloco oriental”. Mas sem dúvida há razões

para afirmar que a União Soviética foi um produto da civilização ocidental

tanto quanto os Estados Unidos. Sua ideologia central tinha a mesma

origem vitoriana que o nacionalismo, o abolicionismo e o sufrágio universal

feminino: nasceu e se formou na velha sala de leitura circular da Biblioteca

Britânica. E sua extensão geográfica era um produto da expansão e da

colonização europeia tanto quanto o povoamento das Américas. Na Ásia

Central, assim como na América do Sul, os europeus governavam os não

europeus. Nesse sentido, o que aconteceu em 1991 foi simplesmente a

morte do último império europeu. Mas a mais influente das definições

atuais de civilização ocidental, a de Samuel Huntington, exclui não só a

Rússia como todos os países com tradição religiosa ortodoxa. O Ocidente

de Huntington consiste apenas de Europa Ocidental (excluindo o Leste

Ortodoxo), América do Norte (excluindo o México) e Australásia. Grécia,

Israel, România e Ucrânia não foram escalados; nem as ilhas caribenhas,

apesar do fato de muitas serem tão ocidentais quanto a Flórida36.

“O Ocidente”, então, é muito mais do que apenas uma expressão

geográfica. É um conjunto de normas, comportamentos e instituições com

fronteiras nebulosas ao extremo. As implicações disso são dignas de

análise. É realmente possível que uma sociedade asiática se torne ocidental

ao adotar as formas ocidentais de se vestir e fazer negócios, como fez o

Japão a partir da era Meiji, e como grande parte do restante da Ásia parece

estar fazendo agora? Tempos atrás, esteve em voga insistir que o “sistema

mundial” capitalista impunha uma divisão de trabalho permanente entre o

Ocidente – o centro – e o Resto – a periferia37. Mas e se o mundo inteiro

acabar sendo ocidentalizado, pelo menos quanto à aparência e ao estilo de

vida? Ou será que, conforme argumentou Huntington, as outras civilizações

são mais resilientes – sobretudo a civilização “sínica”, ou seja, a Grande

China,38 e o Islã, com suas “entranhas e fronteiras sangrentas”?39 Até que ponto a adoção de modos ocidentais de operar é meramente uma

modernização superficial, sem qualquer profundidade cultural? Essas

perguntas serão abordadas a seguir.

Outro enigma com relação à civilização ocidental é que a falta de unidade

parece ser uma de suas características decisivas. No início dos anos 2000,

muitos analistas norte-americanos reclamavam do “alargamento do

Atlântico” – a ruptura dos valores comuns que uniam os Estados Unidos a

seus aliados da Europa Ocidental durante a Guerra Fria40. Se, em

comparação com a época em que Henry Kissinger foi secretário de Estado,

ficou um pouco mais fácil saber a quem um estadista norte-americano

deveria chamar quando quisesse falar com a Europa, ficou mais difícil dizer

quem atende o telefone em nome da civilização ocidental. Mas a divisão

atual entre a América do Norte e a “Velha Europa” é branda e amigável em

comparação com os grandes cismas do passado, por religião, por ideologia

– e até mesmo pelo significado da própria civilização. Durante a Primeira

Guerra Mundial, os alemães afirmaram estar travando a guerra de uma

Kultur mais elevada contra uma civilisation anglo-francesa espalhafatosa e

materialista (a distinção foi feita por Thomas Mann e Sigmund Freud, entre

outros). Mas essa distinção foi difícil de conciliar com o incêndio da

Biblioteca da Universidade de Leuven e as execuções sumárias dos civis

belgas na primeira fase da guerra. Os propagandistas britânicos replicaram,

definindo os alemães como “hunos” – bárbaros além dos limites da

civilização – e chamaram a própria guerra de “a grande guerra pela

civilização” em sua medalha da vitória41. Falar do “Ocidente” como

civilização unitária tem mais sentido hoje do que em 1918?

Por fim, vale lembrar que a civilização ocidental já havia decaído e

sucumbido antes. As ruínas romanas espalhadas por toda a Europa, pelo

Norte da África e pelo Oriente Próximo servem como lembretes

contundentes disso. A primeira versão do Ocidente – a Civilização

Ocidental 1.0 – surgiu no chamado Crescente Fértil, estendendo-se do vale

do Nilo à confluência dos rios Eufrates e Tigre, e alcançou seu auge com a

democracia ateniense e o Império Romano42. Os principais elementos de

nossa civilização atual – não só a democracia, como também o atletismo, a aritmética, o direito civil, a geometria, o estilo clássico de arquitetura e uma

proporção considerável das palavras em inglês moderno – têm suas origens

no antigo Ocidente. Em seu apogeu, o Império Romano foi um sistema

incrivelmente sofisticado. Grãos, manufaturas e moedas circulavam em

uma economia que ia do norte da Inglaterra à cabeceira do Nilo; os estudos

acadêmicos floresceram; havia lei, medicina e até centros de compras,

como o Fórum de Trajano, em Roma. Mas essa versão da civilização

ocidental se deteriorou rapidamente no século V d.C., arruinada por

invasões bárbaras e divisões internas. No espaço de uma geração, Roma, a

grande metrópole imperial, estava em ruínas, os aquedutos, quebrados, os

esplêndidos mercados ao ar livre, desertos. O conhecimento do Ocidente

clássico teria sido totalmente perdido se não fosse pelos bibliotecários de

Bizâncio43, pelos monges da Irlanda44 e pelos papas e padres da Igreja

Católica Romana – e não podemos esquecer os califas abássidas45. Sem sua

liderança, a civilização do Ocidente não poderia ter ressurgido como

ressurgiu na Itália renascentista.

O declínio e a queda são o destino que paira sobre a Civilização Ocidental

2.0? Em termos demográficos, faz muito tempo que a população das

sociedades ocidentais representa uma minoria dos habitantes do mundo,

mas hoje ela está visivelmente definhando. Um dia tão dominantes, as

economias dos Estados Unidos e da Europa estão atualmente diante da

possibilidade real de ser superadas pela China em 20 anos, ou mesmo em

dez, e o Brasil e a Índia não ficam muito atrás. O poderio militar e

econômico do Ocidente parece estar se desgastando no Grande Oriente

Médio, do Iraque ao Afeganistão, ao passo que o “Consenso de

Washington” sobre a política econômica de livre mercado se desintegra. A

crise financeira que começou em 2007 também parece indicar uma falha

fundamental no cerne da sociedade de consumidores, com sua ênfase na

terapia do consumo estimulada pelas compras a prazo. A ética protestante

da prosperidade, que um dia pareceu tão central ao projeto ocidental,

praticamente desapareceu. Enquanto isso, as elites ocidentais são acossadas

por medos quase milenares de um apocalipse ambiental vindouro.

E, o que é ainda mais grave, a civilização ocidental parece ter perdido a

confiança em si mesma. A começar por Stanford em 1963, uma sucessão de

importantes universidades parou de oferecer o curso de história da

“Civilização Ocidental” a seus graduandos. Nas escolas, também, as

grandes narrativas da ascensão ocidental estão fora de moda. Graças a uma

nova mania entre os educadores de – em nome da “Nova História” – dar

mais importância às “habilidades históricas” que ao conhecimento histórico,

somada às consequências não intencionais do processo de reforma

curricular, muitos estudantes britânicos saem do ensino médio conhecendo

apenas fragmentos desconectados da história ocidental: Henrique VIII e

Hitler, com uma pequena dose de Martin Luther King Jr. Uma pesquisa com

estudantes do primeiro ano de História de uma importante universidade

britânica revelou que apenas 34% sabiam quem foi o monarca inglês na

época da Armada, 31% sabiam a localização da Guerra dos Bôeres, 16%

sabiam quem comandou as forças britânicas em Waterloo (mais que o dobro

destes pensava que tivesse sido Nelson em vez de Wellington) e apenas

11% foram capazes de mencionar um único primeiro-ministro britânico do

século XIX46. Em uma pesquisa similar, 17% dos adolescentes ingleses

entre 11 e 18 anos pensavam que Oliver Cromwell havia lutado na batalha

de Hastings e 25% situavam a Primeira Guerra Mundial no século errado47.

Além disso, em todo o mundo anglófono, ganhou terreno o argumento de

que devemos estudar as outras culturas, e não a nossa. A coleção musical

enviada para o espaço com a aeronave Voyager em 1977 continha 27 faixas,

e somente dez delas eram de compositores ocidentais, incluindo não só

Bach, Mozart e Beethoven como também Louis Armstrong, Chuck Berry e

Blind Willie Johnson. Uma história do mundo “em cem objetos”, publicada

pelo diretor do Museu Britânico em 2010, incluía não mais de trinta

produtos da civilização ocidental48.

Mas qualquer história das civilizações do mundo que subestime sua

subordinação gradativa ao Ocidente depois de 1500 não dá conta do ponto

essencial – aquele que mais requer uma explicação. A ascensão do Ocidente

é, pura e simplesmente, o fenômeno histórico mais notável da segunda

metade do segundo milênio depois de Cristo. É a história no próprio cerne da história moderna. É, talvez, o enigma mais desafiador que os

historiadores têm de resolver. E devemos resolvê-lo não só para satisfazer

nossa curiosidade. Pois é só identificando as verdadeiras causas de nossa

supremacia que podemos esperar estimar com certa precisão a iminência de

nosso declínio e queda.

 

Clark, Civilisation.

Braudel, A History of Civilizations.

Ver também Bagby, Culture and History; e Mumford, The City in History.

Sobre costumes, ver Elias, The Civilizing Process.

Ver Coulborn, The Origin of Civilized Societies e, mais recentemente, Fernández-Armesto, Civilizations.

Quigley, The Evolution of Civilizations.

Bozeman, Politics and Culture in International History.

Melko, The Nature of Civilizations.

Eisenstadt, Comparative Civilizations and Multiple Modernities.

0 McNeill, The Rise of the West.

1 Braudel, A History of Civilizations, p. 34 ss.

2 Ver Fernández-Armesto, Millennium; Goody, Capitalism and Modernity e The Eurasian Miracle;

Wong, China Transformed.

3 McNeill, The Rise of the West. Ver também Darwin, After Tamerlane.

4 Os 11 impérios eram Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Rússia,

Reino Unido e Estados Unidos. Destes, somente França, Portugal e Espanha existiam em 1500 de forma similar à do início do século XX. Sobre a reivindicação da Rússia de ser considerada parte do Ocidente, ver a seguir.

5 Com base em dados de Maddison, The World Economy. Os números históricos sobre a produção

mundial (Produto Interno Bruto) devem ser tratados ainda com mais cuidado que aqueles sobre a população, devido às suposições heroicas que Maddison teve de fazer para construir suas estimativas, e também porque ele escolheu calcular o PIB em termos de paridade de poder de compra para levar em conta os preços muito mais baixos de produtos não comercializados em países relativamente pobres.

6 Detalhes em Fogel, The Escape from Hunger and Premature Death, tabelas 1.2, 1.4.

7 Dados de Chandler, Four Thousand Years of Urban Growth.

8 Calculado em dólares atuais, do banco de dados on-line dos Indicadores de Desenvolvimento

Mundial do Banco Mundial.

9 Ver uma esclarecedora discussão em Scruton, The West and the Rest.

0 Ver, por exemplo, Laue, “The World Revolution of Westernization”.

1 Acemoglu et al., “Reversal of Fortune”; Putterman e Weil, “Post-1500 Population Flows”.

2 Pomeranz, The Great Divergence.

3 Elvin, The Pattern of the Chinese Past.

4 Clark, A Farewell to Alms.

5 De fato, essa questão estava sendo levantada nos impérios não ocidentais durante o século XVIII. Em

1731, o escritor otomano Ibrahim Müteferrika perguntou: “Por que as nações cristãs, que foram tão débeis no passado em comparação com as nações muçulmanas, passaram a dominar tantas terras e até mesmo a derrotar os outrora vitoriosos exércitos otomanos?”.

6 Johnson, The History of Rasselas, p. 56 ss.

7 Murray, Human Accomplishment.

8 Landes, The Wealth and Poverty of Nations.

9 Hibbs e Olsson, “Geography”; Bockstette et al., “States and Markets”.

0 Diamond, Guns, Germs and Steel.

1 Diamond, “How to Get Rich”.

2 Ver, por exemplo, Roberts, The Triumph of the West.

3 Ver North, Understanding the Process of Economic Change; North et al., Violence and Social

Orders.

4 Clark, A Farewell to Alms, p. 337-42.

5 Rajan e Zingales, “The Persistence of Underdevelopment”; Chaudhary et al., “Big BRICs, Weak

Foundations”.

6 Huntington, The Clash of Civilizations.

7 Wallerstein, The Modern World-System.

8 É uma noção peculiar que uma das civilizações mais veneráveis do mundo tenha um nome que não é

conhecido por ninguém, a não ser por um teórico político. Em seu ensaio original de 1993, Huntington usou o termo “confuciana”.

9 Huntington, The Clash of Civilizations.

0 Ver, por exemplo, Kagan, Of Paradise and Power e, mais recentemente, Schuker, “A Sea Change in

the Atlantic Economy?”.

1 Ver mais recentemente Osborne, Civilization.

2 Morris, Why the West Rules.

3 Brownworth, Lost to the West.

4 Cahill, How the Irish Saved Civilization. No momento em que este livro está sendo escrito, ainda é

preciso saber se o elogio será retribuído.

5 Dawson, The Making of Europe; Woods, How the Catholic Church Built Western Civilization.

6 Matthews, “The Strange Death of History Teaching”; Guyver, “England and the Battle”.

7 Amanda Kelly, “What Did Hitler Do in the War, Miss?”, Times Educational Supplement, 19 de

janeiro de 2001.

8 MacGregor, A History of the World in 100 objects.

 

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