Civilização: Ocidente X Oriente
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Ciência
Fingi ter um grande interesse pela ciência; e, por fingir, logo me tornei verdadeiramente interessado. Deixei de ser um homem de negócios [...] Decidi abandonar minha terra natal, e minha saída da corte forneceu uma desculpa plausível. Atendi o rei; enfatizei o grande desejo que eu tinha de me familiarizar com as ciências do Ocidente, e insinuei que minhas viagens poderiam até mesmo lhe ser úteis.
MONTESQUIEU
Seria útil explicar de que modo a região arenosa de Brandemburgo veio a exercer tanto poder que os esforços dirigidos contra ela foram maiores que todos os esforços já reunidos contra Luís XIV.
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O cerco
Desde que o Islã se expandiu para além dos desertos árabes no século VII,
houve repetidos choques entre o Ocidente e o Oriente. Os seguidores de
Maomé travaram guerras santas contra os seguidores de Jesus Cristo, e os
cristãos retribuíram a cortesia com cruzadas à Terra Sagrada – nove ao todo
entre 1095 e 1272 – e com a reconquista da Espanha e de Portugal. Durante
a maior parte dos últimos 300 anos, apesar de um ou outro contratempo
ocasional, o Ocidente venceu sistematicamente o choque de civilizações.
Um dos principais motivos foi a superioridade da ciência ocidental. Essa
vantagem, no entanto, nem sempre existiu1.
Não foi só o fervor religioso que permitiu que os sucessores do profeta
Maomé estabelecessem um califado que, em meados do século VIII, estendia-se da Espanha ao Afeganistão, passando pela África do Norte,
pelas terras árabes centrais e daí seguindo para o norte, atravessando a Síria
e o Cáucaso, e então para a Pérsia, a leste – todo o percurso de Toledo a
Cabul. O califado dos abássidas esteve na vanguarda da ciência. Na Bayt al-
Hikma (Casa da Sabedoria), fundada pelo califa Harun al-Rashid na Bagdá
do século IX, textos gregos de Aristóteles e outros autores foram traduzidos
para o árabe. O califado também construiu aqueles que alguns consideram
os primeiros hospitais de verdade, como o bimaristan fundado em Damasco
pelo califa al-Waleed bin Abdel Malek em 707, concebido para curar em
vez de simplesmente abrigar os doentes. Também foi o lar daquela que, para
alguns, foi a primeira instituição de ensino superior, a Universidade Al-
Karaouine, fundada em Fez, em 859. Apoiando-se no conhecimento dos
gregos e sobretudo no dos indianos, os matemáticos muçulmanos
instituíram a álgebra (do árabe al-jabr, que significa “restauração”) como
uma disciplina distinta da aritmética e da geometria. O primeiro livro
didático de álgebra foi o Compêndio de cálculo para a restauração e a
comparação (Hisab al-Jabr W’al-Musqabalah), escrito em árabe pelo
estudioso persa Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī por volta de 820. O
primeiro cientista verdadeiramente experimental foi um muçulmano: Abū
‘Alī al-.Hasan ibn al-.Hasan ibn al-Haytham (965-c. 1039), cujo Livro de
Óptica, em sete volumes, derrubou uma série de conceitos antigos
equivocados, notadamente a ideia de que somos capazes de ver objetos
porque nossos olhos emitem luz. Foi Ibn al-Haytham quem estudou pela
primeira vez por que um projétil tem mais probabilidade de penetrar uma
parede quando a atinge em um ângulo reto. Também foi ele quem construiu
a primeira câmara escura – a câmara pinhole, usada ainda hoje para
apresentar a óptica aos estudantes – e o primeiro a perceber que as estrelas
não eram corpos sólidos. Seus estudos foram continuados pelo persa Kamal
al-Din al-Farisi, de fins do século XIII, que estudou os arco-íris2. O
Ocidente deve muito ao mundo muçulmano medieval, não só porque este
preservou a sabedoria clássica, mas também porque produziu novos
conhecimentos em cartografia, medicina e filosofia, bem como em matemática e óptica. O pensador inglês Roger Bacon reconheceu: “A
filosofia veio dos muçulmanos”3.
Sendo assim, como pode ser que o mundo muçulmano tenha ficado atrás
do Ocidente no âmbito da ciência? E como, exatamente, uma revolução
científica ajudou a civilização ocidental a dominar o mundo, tanto em
termos militares quanto acadêmicos? Para responder a essas perguntas,
devemos recuar mais de três séculos, ao último momento em que o império
islâmico ameaçou seriamente a segurança do Ocidente.
O ano era 1683, e mais uma vez – assim como havia ocorrido em 1529 –
um exército otomano estava nos portões de Viena. Seu líder era Kara
Mustafá Köprülü, grão-vizir do sultão Mehmed IV.
Uma dinastia anatoliana estabelecida nas ruínas do Império Bizantino, os
otomanos foram os porta-estandartes do Islã desde que conquistaram
Constantinopla em 1453. Seu império não se estendeu para o leste como o
califado dos abássidas,4 mas conseguiu propagar o Islã em território até
então cristão – não só nos antigos reinos bizantinos de ambos os lados dos
estreitos do mar Negro, mas também na Bulgária, na Sérvia e na Hungria.
Belgrado foi conquistada pelos otomanos em 1521, e Buda, em 1541. O
poder naval otomano também tomou Rodes (1522). Viena poderia ter
sobrevivido, como fez Malta. Mas, tendo o domínio otomano se estendido
de Bagdá a Basra; de Van, no Cáucaso, a Áden, na foz do mar Vermelho; e
ao longo da costa bárbara, de Argel a Trípoli, Solimão, o Magnífico (1520-
66), pôde legitimamente afirmar: “Sou o sultão dos sultões, o soberano dos
soberanos, o distribuidor de coroas aos monarcas do globo, a sombra de
Deus na Terra [...]”.5 A mesquita em Istambul que leva seu nome é um
testemunho permanente de sua afirmação de grandeza. Menos conhecido é
o fato de que Solimão também construiu uma escola médica (a Dâruttib ou
Süleymaniye Tıp Medresesi)6. Legislador e poeta talentoso, Solimão reuniu
poder religioso, político e econômico (sendo responsável, inclusive, pela
estipulação de preços). A seus olhos, o poderoso sacro imperador romano
Carlos V era meramente “o rei de Viena”7, e os mercadores aventureiros de
Portugal não passavam de piratas. Com Solimão no trono, estava longe de ser inconcebível que os otomanos se ergueriam contra os portugueses no
oceano Índico e os derrotariam8.
Para o enviado Ogier Ghiselin de Busbecq, do século XVI, o contraste
entre o Império dos Habsburgo e o Otomano era extremamente alarmante:
Pensar em qual seria o resultado de uma luta entre sistemas tão diferentes me faz estremecer; um
de nós deve prevalecer, e o outro deve ser destruído; não há maneira de ambos existirem em
segurança. Do lado deles, está a vasta riqueza de seu império, recursos irrestritos, experiência e
prática em armadas, uma tropa experiente, uma série ininterrupta de vitórias, prontidão para
enfrentar adversidades, união, ordem, disciplina, parcimônia e cautela. Do nosso lado,
encontramos um erário vazio, hábitos luxuriosos, recursos esgotados, espíritos dilacerados, uma
tropa despreparada e insubordinada, e disputas mesquinhas; não há consideração pela disciplina, a
permissividade corre solta, os homens se entregam à embriaguez e à libertinagem e – o que é pior
– os inimigos estão acostumados à vitória, e nós, à derrota. Podemos ter dúvidas quanto ao
resultado 9?
O século XVII presenciou mais conquistas otomanas: Creta foi tomada
em 1669. O domínio do sultão se estendia até mesmo à Ucrânia Ocidental.
O poder naval dos otomanos também era incrível10. Os acontecimentos de
1683, portanto, eram há muito temidos no Ocidente. Foi em vão que o sacro
imperador romano Leopoldo I11 aderiu à paz que havia sido assinada em
Vasvár em 166412. E foi em vão que ele disse a si mesmo que Luís XIV era
a ameaça mais grave.
No verão de 1682, o sultão fez sua primeira ofensiva, reconhecendo o
rebelde magiar Imre Thököly como rei da Hungria em troca de seu
reconhecimento da suserania (soberania) otomana. No decurso do inverno
seguinte, um imenso exército foi reunido em Adrianopla e então enviado a
Belgrado. Em junho de 1683, os turcos haviam entrado em território
habsburgo. Antes de julho eles já haviam tomado Győr. Em Viena,
enquanto isso, Leopoldo hesitava. As defesas da cidade eram
deploravelmente inadequadas, e a Guarda da Cidade fora dizimada por um
surto recente de peste. As forças ineptas dos Habsburgo sob Carlos de
Lorena pareciam incapazes de frear o avanço otomano. Falsas esperanças
foram trazidas pelo enviado de Leopoldo a Istambul, que lhe garantiu que a
força militar turca era “medíocre”13.
Em 13 de julho de 1683, essa força militar supostamente medíocre – um
exército otomano de 60 mil janízaros e cavaleiros sipahi, apoiado por 80
mil auxiliares balcânicos e um exército de tártaros temerosos – chegou aos
portões de Viena. No comando geral estava o grão-vizir Kara Mustafá
Köprülü, cujo apelido, Kara – “o negro” –, se referia tanto a seu caráter
quanto a sua compleição. Este era um homem que, após capturar uma
cidade polonesa em 1674, esfolara vivos os prisioneiros. Tendo montado
seu acampamento a 450 passos dos muros da cidade, Kara Mustafá
ofereceu aos defensores uma alternativa:
Aceitem o Islã, e vivam em paz sob o sultão! Ou entreguem a fortaleza, e vivam em paz sob o
sultão como cristãos; e, se algum homem preferir, poderá partir em paz, levando consigo seus
bens! Mas se insistirem [em resistir], então a morte ou a espoliação ou a escravidão será o destino
de todos vocês!14
Enquanto os conquistadores muçulmanos de Bizâncio confrontavam os
herdeiros cristãos de Roma, os sinos soaram em toda a Europa Central,
convocando os fiéis a rezar pela intercessão divina. O graffiti nas paredes
da catedral de Santo Estêvão dá uma ideia do clima em Viena: “Fora
Maomé, seu canalha!”. A resistência de Leopoldo, no entanto, não foi além
disso. Embora a ideia de fuga ferisse seu “senso de dignidade”, ele foi
persuadido a escapar para garantir sua segurança.
O acampamento otomano era, por si só, uma afirmação de autoconfiança.
Kara Mustafá tinha um jardim plantado em frente de sua própria tenda
palaciana15. A mensagem era clara: se necessário, os turcos tinham tempo
para fazer que os vienenses passassem fome até que se rendessem. Músicas
estranhas e ameaçadoras vinham do acampamento e atravessavam os muros
da cidade quando os otomanos batucavam seus imensos tambores kös. O
ruído também servia para encobrir o barulho das pás enquanto os turcos
cavavam túneis e construíam trincheiras. A detonação de uma imensa
bomba no dia 25 de julho conseguiu derrubar as fortificações da cidade, sua
primeira linha de defesa. Outra grande explosão abriu caminho para o
entrincheiramento dos austríacos no revelim, uma fortificação exterior triangular separada. No dia 4 de setembro, os turcos quase subjugaram os
defensores do forte central.
Mas então, fatalmente, Kara Mustafá hesitou. O outono havia chegado.
Suas linhas de comunicação em território otomano eram demasiado longas.
Seus homens, agora, careciam de suprimentos. E ele não tinha certeza de
qual deveria ser a próxima ação caso conseguisse capturar Viena. A
hesitação turca deu a Leopoldo tempo vital para reunir um exército em seu
auxílio. Antes da invasão otomana, ele havia assinado um tratado de defesa
mútua com o reino da Polônia; assim, foi o recém-entronado rei polonês Jan
III Sobieski quem liderou o exército polono-alemão, de 60 mil homens, até
Viena. Sobieski já havia passado da juventude, mas almejava a glória. Era,
de fato, uma força heterogênea a que ele liderava: poloneses, bávaros,
francônios e saxões, além de tropas habsburgas. E fez pouco progresso em
direção a Viena, sobretudo porque seu líder tinha noções um tanto
duvidosas de geografia austríaca. Mas, por fim, nas primeiras horas de 12
de setembro de 1683, o contra-ataque começou com um tiro de foguete. As
forças otomanas estavam divididas, algumas ainda tentando freneticamente
entrar na cidade, outras lutando contra a infantaria polonesa que avançava,
em uma ação de retaguarda. Kara Mustafá pouco havia feito para defender
as rotas de acesso. Às 5h da tarde, Sobieski lançou sua cavalaria em um
rápido ataque massivo partindo de Kahlenberg, a colina que paira sobre
Viena, rumo ao acampamento otomano. Conforme conta uma testemunha
turca, os corsários poloneses pareciam “uma enchente de piche negro
descendo da montanha, consumindo tudo que tocava”. A fase final da
batalha foi cruel, mas decidida rapidamente. Sobieski entrou na tenda de
Kara Mustafá e a encontrou vazia. O cerco de Viena havia terminado.
Saudado pelos vienenses como seu salvador, Sobieski estava exultante, e
modificou as famosas palavras de César para: “Nós viemos, nós vimos,
Deus conquistou”. Canhões otomanos capturados foram derretidos para que
fosse feito um novo sino para a catedral de Santo Estêvão, decorada com
seis cabeças turcas incrustadas. No refúgio, Kara Mustafá pagou o preço
final por seu fracasso. Em Esztergom, os turcos sofreram uma derrota tão grave que o sultão ordenou sua execução imediata. Ele foi estrangulado à
moda otomana tradicional, com um cordão de seda.
Uma série de lendas surgiu em consequência da libertação de Viena: que
as luas crescentes nas bandeiras turcas inspiraram o croissant,16 que se usou
café otomano abandonado para fundar o primeiro café vienense e preparar o
primeiro cappuccino, e que os instrumentos de percussão capturados
(címbalos, triângulos e tambores) foram adotados pelas bandas militares
austríacas. A verdadeira importância histórica do acontecimento foi muito
maior. Para o Império Otomano, este segundo fracasso em tomar Viena
marcou o início do fim: um momento em que o império havia se expandido
demasiadamente, com consequências desastrosas a longo prazo. Batalha
após batalha, culminando na vitória esmagadora do príncipe Eugênio de
Savoia em Zenta em 1697, os otomanos foram expulsos de praticamente
todas as terras europeias conquistadas por Solimão, o Magnífico. O Tratado
de Karlowitz, sob o qual o sultão renunciou a todas as reivindicações à
Hungria e à Transilvânia, foi uma humilhação17.
O levantamento do cerco de Viena não foi apenas uma reviravolta nessa
batalha secular entre o cristianismo e o islamismo. Foi também um
momento essencial na ascensão do Ocidente. No campo de batalha, é
verdade, os dois lados pareciam quase empatados em 1683. De fato, em
muitos aspectos havia pouco a escolher entre eles. Os tártaros lutaram de
ambos os lados. Tropas cristãs da Moldávia e da Valáquia, controladas pela
Turquia, foram obrigadas a apoiar os otomanos. As muitas pinturas e
gravuras da campanha tornam claro que as diferenças entre os dois
exércitos eram de vestimenta, mais que tecnológicas ou táticas. Mas o
momento do cerco foi significativo. Pois o fim do século XVII foi uma
época de mudanças aceleradas na Europa em dois campos cruciais: a
filosofia natural (como a ciência era então conhecida) e a teoria política.
Nos anos que se seguiram a 1683, houve profundas mudanças no modo
como o pensamento ocidental concebia a natureza e o governo. Em 1687,
Isaac Newton publicou seus Principia. Três anos mais tarde, seu amigo
John Locke publicou seu Segundo tratado sobre o governo. Se houve algo
que diferenciou o Ocidente do Oriente foi o nível em que tais conhecimentos novos e profundos foram sistematicamente buscados e
aplicados em cada uma dessas civilizações.
A longa retirada otomana após 1683 não ocorreu por razões econômicas.
Istambul não era uma cidade mais pobre que seus vizinhos próximos na
Europa Central; tampouco o Império Otomano foi mais lento que muitas
áreas da Europa para abraçar o comércio global e, posteriormente, a
industrialização18. A explicação para o declínio da China imperial proposta
no capítulo anterior não se aplica aqui; nas terras otomanas, não havia
carência de competição econômica nem de entidades corporativas
autônomas como as guildas19. Havia também grande competição entre
otomanos, safávidas e mongóis. O declínio otomano também não deve ser
entendido simplesmente como uma consequência da crescente
superioridade militar ocidental20. Examinando mais de perto, notamos que
tal superioridade se baseou em um aprimoramento na aplicação da ciência à
guerra e na aplicação da racionalidade ao governo. No século XV, conforme
vimos, a competição política e econômica havia dado ao Ocidente uma
vantagem crucial sobre a China. No século XVIII, sua vantagem sobre o
Oriente era tanto uma questão de capacidade intelectual quanto de
capacidade militar.