Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 7 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

2 Ciência

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Ciência

 

Fingi ter um grande interesse pela ciência; e, por fingir, logo me tornei verdadeiramente interessado. Deixei de ser um homem de negócios [...] Decidi abandonar minha terra natal, e minha saída da corte forneceu uma desculpa plausível. Atendi o rei; enfatizei o grande desejo que eu tinha de me familiarizar com as ciências do Ocidente, e insinuei que minhas viagens poderiam até mesmo lhe ser úteis.

MONTESQUIEU

 

Seria útil explicar de que modo a região arenosa de Brandemburgo veio a exercer tanto poder que os esforços dirigidos contra ela foram maiores que todos os esforços já reunidos contra Luís XIV.

VOLTAIRE

 

O cerco

 

Desde que o Islã se expandiu para além dos desertos árabes no século VII,

houve repetidos choques entre o Ocidente e o Oriente. Os seguidores de

Maomé travaram guerras santas contra os seguidores de Jesus Cristo, e os

cristãos retribuíram a cortesia com cruzadas à Terra Sagrada – nove ao todo

entre 1095 e 1272 – e com a reconquista da Espanha e de Portugal. Durante

a maior parte dos últimos 300 anos, apesar de um ou outro contratempo

ocasional, o Ocidente venceu sistematicamente o choque de civilizações.

Um dos principais motivos foi a superioridade da ciência ocidental. Essa

vantagem, no entanto, nem sempre existiu1.

Não foi só o fervor religioso que permitiu que os sucessores do profeta

Maomé estabelecessem um califado que, em meados do século VIII, estendia-se da Espanha ao Afeganistão, passando pela África do Norte,

pelas terras árabes centrais e daí seguindo para o norte, atravessando a Síria

e o Cáucaso, e então para a Pérsia, a leste – todo o percurso de Toledo a

Cabul. O califado dos abássidas esteve na vanguarda da ciência. Na Bayt al-

Hikma (Casa da Sabedoria), fundada pelo califa Harun al-Rashid na Bagdá

do século IX, textos gregos de Aristóteles e outros autores foram traduzidos

para o árabe. O califado também construiu aqueles que alguns consideram

os primeiros hospitais de verdade, como o bimaristan fundado em Damasco

pelo califa al-Waleed bin Abdel Malek em 707, concebido para curar em

vez de simplesmente abrigar os doentes. Também foi o lar daquela que, para

alguns, foi a primeira instituição de ensino superior, a Universidade Al-

Karaouine, fundada em Fez, em 859. Apoiando-se no conhecimento dos

gregos e sobretudo no dos indianos, os matemáticos muçulmanos

instituíram a álgebra (do árabe al-jabr, que significa “restauração”) como

uma disciplina distinta da aritmética e da geometria. O primeiro livro

didático de álgebra foi o Compêndio de cálculo para a restauração e a

comparação (Hisab al-Jabr W’al-Musqabalah), escrito em árabe pelo

estudioso persa Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī por volta de 820. O

primeiro cientista verdadeiramente experimental foi um muçulmano: Abū

‘Alī al-.Hasan ibn al-.Hasan ibn al-Haytham (965-c. 1039), cujo Livro de

Óptica, em sete volumes, derrubou uma série de conceitos antigos

equivocados, notadamente a ideia de que somos capazes de ver objetos

porque nossos olhos emitem luz. Foi Ibn al-Haytham quem estudou pela

primeira vez por que um projétil tem mais probabilidade de penetrar uma

parede quando a atinge em um ângulo reto. Também foi ele quem construiu

a primeira câmara escura – a câmara pinhole, usada ainda hoje para

apresentar a óptica aos estudantes – e o primeiro a perceber que as estrelas

não eram corpos sólidos. Seus estudos foram continuados pelo persa Kamal

al-Din al-Farisi, de fins do século XIII, que estudou os arco-íris2. O

Ocidente deve muito ao mundo muçulmano medieval, não só porque este

preservou a sabedoria clássica, mas também porque produziu novos

conhecimentos em cartografia, medicina e filosofia, bem como em matemática e óptica. O pensador inglês Roger Bacon reconheceu: “A

filosofia veio dos muçulmanos”3.

Sendo assim, como pode ser que o mundo muçulmano tenha ficado atrás

do Ocidente no âmbito da ciência? E como, exatamente, uma revolução

científica ajudou a civilização ocidental a dominar o mundo, tanto em

termos militares quanto acadêmicos? Para responder a essas perguntas,

devemos recuar mais de três séculos, ao último momento em que o império

islâmico ameaçou seriamente a segurança do Ocidente.

O ano era 1683, e mais uma vez – assim como havia ocorrido em 1529 –

um exército otomano estava nos portões de Viena. Seu líder era Kara

Mustafá Köprülü, grão-vizir do sultão Mehmed IV.

Uma dinastia anatoliana estabelecida nas ruínas do Império Bizantino, os

otomanos foram os porta-estandartes do Islã desde que conquistaram

Constantinopla em 1453. Seu império não se estendeu para o leste como o

califado dos abássidas,4 mas conseguiu propagar o Islã em território até

então cristão – não só nos antigos reinos bizantinos de ambos os lados dos

estreitos do mar Negro, mas também na Bulgária, na Sérvia e na Hungria.

Belgrado foi conquistada pelos otomanos em 1521, e Buda, em 1541. O

poder naval otomano também tomou Rodes (1522). Viena poderia ter

sobrevivido, como fez Malta. Mas, tendo o domínio otomano se estendido

de Bagdá a Basra; de Van, no Cáucaso, a Áden, na foz do mar Vermelho; e

ao longo da costa bárbara, de Argel a Trípoli, Solimão, o Magnífico (1520-

66), pôde legitimamente afirmar: “Sou o sultão dos sultões, o soberano dos

soberanos, o distribuidor de coroas aos monarcas do globo, a sombra de

Deus na Terra [...]”.5 A mesquita em Istambul que leva seu nome é um

testemunho permanente de sua afirmação de grandeza. Menos conhecido é

o fato de que Solimão também construiu uma escola médica (a Dâruttib ou

Süleymaniye Tıp Medresesi)6. Legislador e poeta talentoso, Solimão reuniu

poder religioso, político e econômico (sendo responsável, inclusive, pela

estipulação de preços). A seus olhos, o poderoso sacro imperador romano

Carlos V era meramente “o rei de Viena”7, e os mercadores aventureiros de

Portugal não passavam de piratas. Com Solimão no trono, estava longe de ser inconcebível que os otomanos se ergueriam contra os portugueses no

oceano Índico e os derrotariam8.

Para o enviado Ogier Ghiselin de Busbecq, do século XVI, o contraste

entre o Império dos Habsburgo e o Otomano era extremamente alarmante:

 

Pensar em qual seria o resultado de uma luta entre sistemas tão diferentes me faz estremecer; um

de nós deve prevalecer, e o outro deve ser destruído; não há maneira de ambos existirem em

segurança. Do lado deles, está a vasta riqueza de seu império, recursos irrestritos, experiência e

prática em armadas, uma tropa experiente, uma série ininterrupta de vitórias, prontidão para

enfrentar adversidades, união, ordem, disciplina, parcimônia e cautela. Do nosso lado,

encontramos um erário vazio, hábitos luxuriosos, recursos esgotados, espíritos dilacerados, uma

tropa despreparada e insubordinada, e disputas mesquinhas; não há consideração pela disciplina, a

permissividade corre solta, os homens se entregam à embriaguez e à libertinagem e – o que é pior

– os inimigos estão acostumados à vitória, e nós, à derrota. Podemos ter dúvidas quanto ao

resultado 9?

 

O século XVII presenciou mais conquistas otomanas: Creta foi tomada

em 1669. O domínio do sultão se estendia até mesmo à Ucrânia Ocidental.

O poder naval dos otomanos também era incrível10. Os acontecimentos de

1683, portanto, eram há muito temidos no Ocidente. Foi em vão que o sacro

imperador romano Leopoldo I11 aderiu à paz que havia sido assinada em

Vasvár em 166412. E foi em vão que ele disse a si mesmo que Luís XIV era

a ameaça mais grave.

No verão de 1682, o sultão fez sua primeira ofensiva, reconhecendo o

rebelde magiar Imre Thököly como rei da Hungria em troca de seu

reconhecimento da suserania (soberania) otomana. No decurso do inverno

seguinte, um imenso exército foi reunido em Adrianopla e então enviado a

Belgrado. Em junho de 1683, os turcos haviam entrado em território

habsburgo. Antes de julho eles já haviam tomado Győr. Em Viena,

enquanto isso, Leopoldo hesitava. As defesas da cidade eram

deploravelmente inadequadas, e a Guarda da Cidade fora dizimada por um

surto recente de peste. As forças ineptas dos Habsburgo sob Carlos de

Lorena pareciam incapazes de frear o avanço otomano. Falsas esperanças

foram trazidas pelo enviado de Leopoldo a Istambul, que lhe garantiu que a

força militar turca era “medíocre”13.

Em 13 de julho de 1683, essa força militar supostamente medíocre – um

exército otomano de 60 mil janízaros e cavaleiros sipahi, apoiado por 80

mil auxiliares balcânicos e um exército de tártaros temerosos – chegou aos

portões de Viena. No comando geral estava o grão-vizir Kara Mustafá

Köprülü, cujo apelido, Kara – “o negro” –, se referia tanto a seu caráter

quanto a sua compleição. Este era um homem que, após capturar uma

cidade polonesa em 1674, esfolara vivos os prisioneiros. Tendo montado

seu acampamento a 450 passos dos muros da cidade, Kara Mustafá

ofereceu aos defensores uma alternativa:

 

Aceitem o Islã, e vivam em paz sob o sultão! Ou entreguem a fortaleza, e vivam em paz sob o

sultão como cristãos; e, se algum homem preferir, poderá partir em paz, levando consigo seus

bens! Mas se insistirem [em resistir], então a morte ou a espoliação ou a escravidão será o destino

de todos vocês!14

 

Enquanto os conquistadores muçulmanos de Bizâncio confrontavam os

herdeiros cristãos de Roma, os sinos soaram em toda a Europa Central,

convocando os fiéis a rezar pela intercessão divina. O graffiti nas paredes

da catedral de Santo Estêvão dá uma ideia do clima em Viena: “Fora

Maomé, seu canalha!”. A resistência de Leopoldo, no entanto, não foi além

disso. Embora a ideia de fuga ferisse seu “senso de dignidade”, ele foi

persuadido a escapar para garantir sua segurança.

O acampamento otomano era, por si só, uma afirmação de autoconfiança.

Kara Mustafá tinha um jardim plantado em frente de sua própria tenda

palaciana15. A mensagem era clara: se necessário, os turcos tinham tempo

para fazer que os vienenses passassem fome até que se rendessem. Músicas

estranhas e ameaçadoras vinham do acampamento e atravessavam os muros

da cidade quando os otomanos batucavam seus imensos tambores kös. O

ruído também servia para encobrir o barulho das pás enquanto os turcos

cavavam túneis e construíam trincheiras. A detonação de uma imensa

bomba no dia 25 de julho conseguiu derrubar as fortificações da cidade, sua

primeira linha de defesa. Outra grande explosão abriu caminho para o

entrincheiramento dos austríacos no revelim, uma fortificação exterior triangular separada. No dia 4 de setembro, os turcos quase subjugaram os

defensores do forte central.

Mas então, fatalmente, Kara Mustafá hesitou. O outono havia chegado.

Suas linhas de comunicação em território otomano eram demasiado longas.

Seus homens, agora, careciam de suprimentos. E ele não tinha certeza de

qual deveria ser a próxima ação caso conseguisse capturar Viena. A

hesitação turca deu a Leopoldo tempo vital para reunir um exército em seu

auxílio. Antes da invasão otomana, ele havia assinado um tratado de defesa

mútua com o reino da Polônia; assim, foi o recém-entronado rei polonês Jan

III Sobieski quem liderou o exército polono-alemão, de 60 mil homens, até

Viena. Sobieski já havia passado da juventude, mas almejava a glória. Era,

de fato, uma força heterogênea a que ele liderava: poloneses, bávaros,

francônios e saxões, além de tropas habsburgas. E fez pouco progresso em

direção a Viena, sobretudo porque seu líder tinha noções um tanto

duvidosas de geografia austríaca. Mas, por fim, nas primeiras horas de 12

de setembro de 1683, o contra-ataque começou com um tiro de foguete. As

forças otomanas estavam divididas, algumas ainda tentando freneticamente

entrar na cidade, outras lutando contra a infantaria polonesa que avançava,

em uma ação de retaguarda. Kara Mustafá pouco havia feito para defender

as rotas de acesso. Às 5h da tarde, Sobieski lançou sua cavalaria em um

rápido ataque massivo partindo de Kahlenberg, a colina que paira sobre

Viena, rumo ao acampamento otomano. Conforme conta uma testemunha

turca, os corsários poloneses pareciam “uma enchente de piche negro

descendo da montanha, consumindo tudo que tocava”. A fase final da

batalha foi cruel, mas decidida rapidamente. Sobieski entrou na tenda de

Kara Mustafá e a encontrou vazia. O cerco de Viena havia terminado.

Saudado pelos vienenses como seu salvador, Sobieski estava exultante, e

modificou as famosas palavras de César para: “Nós viemos, nós vimos,

Deus conquistou”. Canhões otomanos capturados foram derretidos para que

fosse feito um novo sino para a catedral de Santo Estêvão, decorada com

seis cabeças turcas incrustadas. No refúgio, Kara Mustafá pagou o preço

final por seu fracasso. Em Esztergom, os turcos sofreram uma derrota tão grave que o sultão ordenou sua execução imediata. Ele foi estrangulado à

moda otomana tradicional, com um cordão de seda.

Uma série de lendas surgiu em consequência da libertação de Viena: que

as luas crescentes nas bandeiras turcas inspiraram o croissant,16 que se usou

café otomano abandonado para fundar o primeiro café vienense e preparar o

primeiro cappuccino, e que os instrumentos de percussão capturados

(címbalos, triângulos e tambores) foram adotados pelas bandas militares

austríacas. A verdadeira importância histórica do acontecimento foi muito

maior. Para o Império Otomano, este segundo fracasso em tomar Viena

marcou o início do fim: um momento em que o império havia se expandido

demasiadamente, com consequências desastrosas a longo prazo. Batalha

após batalha, culminando na vitória esmagadora do príncipe Eugênio de

Savoia em Zenta em 1697, os otomanos foram expulsos de praticamente

todas as terras europeias conquistadas por Solimão, o Magnífico. O Tratado

de Karlowitz, sob o qual o sultão renunciou a todas as reivindicações à

Hungria e à Transilvânia, foi uma humilhação17.

O levantamento do cerco de Viena não foi apenas uma reviravolta nessa

batalha secular entre o cristianismo e o islamismo. Foi também um

momento essencial na ascensão do Ocidente. No campo de batalha, é

verdade, os dois lados pareciam quase empatados em 1683. De fato, em

muitos aspectos havia pouco a escolher entre eles. Os tártaros lutaram de

ambos os lados. Tropas cristãs da Moldávia e da Valáquia, controladas pela

Turquia, foram obrigadas a apoiar os otomanos. As muitas pinturas e

gravuras da campanha tornam claro que as diferenças entre os dois

exércitos eram de vestimenta, mais que tecnológicas ou táticas. Mas o

momento do cerco foi significativo. Pois o fim do século XVII foi uma

época de mudanças aceleradas na Europa em dois campos cruciais: a

filosofia natural (como a ciência era então conhecida) e a teoria política.

Nos anos que se seguiram a 1683, houve profundas mudanças no modo

como o pensamento ocidental concebia a natureza e o governo. Em 1687,

Isaac Newton publicou seus Principia. Três anos mais tarde, seu amigo

John Locke publicou seu Segundo tratado sobre o governo. Se houve algo

que diferenciou o Ocidente do Oriente foi o nível em que tais conhecimentos novos e profundos foram sistematicamente buscados e

aplicados em cada uma dessas civilizações.

A longa retirada otomana após 1683 não ocorreu por razões econômicas.

Istambul não era uma cidade mais pobre que seus vizinhos próximos na

Europa Central; tampouco o Império Otomano foi mais lento que muitas

áreas da Europa para abraçar o comércio global e, posteriormente, a

industrialização18. A explicação para o declínio da China imperial proposta

no capítulo anterior não se aplica aqui; nas terras otomanas, não havia

carência de competição econômica nem de entidades corporativas

autônomas como as guildas19. Havia também grande competição entre

otomanos, safávidas e mongóis. O declínio otomano também não deve ser

entendido simplesmente como uma consequência da crescente

superioridade militar ocidental20. Examinando mais de perto, notamos que

tal superioridade se baseou em um aprimoramento na aplicação da ciência à

guerra e na aplicação da racionalidade ao governo. No século XV, conforme

vimos, a competição política e econômica havia dado ao Ocidente uma

vantagem crucial sobre a China. No século XVIII, sua vantagem sobre o

Oriente era tanto uma questão de capacidade intelectual quanto de

capacidade militar.