Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 16 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

4 Medicina

4

 

Medicina

 

Consideremos, primeiro, que estado de coisas é descrito pela palavra “civilização”. Sua verdadeira prova reside no fato de que as pessoas que vivem nela fazem do bem-estar físico seu objetivo de vida […] Os europeus, hoje, vivem em casas mais bem construídas do que viviam há 100 anos […] Antes, eles vestiam peles e usavam lanças como armas. Hoje, usam calças compridas, e [...] em vez de lanças carregam revólveres [...] Antes, na Europa, as pessoas aravam suas terras principalmente por meio do trabalho manual. Hoje, um homem pode arar um vasto pedaço de terra usando máquinas a vapor e, assim, acumular grandes riquezas [...] Antes, os homens viajavam em carruagens. Hoje, eles atravessam grandes distâncias em trens, avançando 600 quilômetros por dia ou mais [...] Antes, quando as pessoas queriam lutar umas contra as outras, elas mediam a força física; hoje, um único homem atrás de uma arma, situado em uma colina, é capaz de tirar milhares de vidas [...] Hoje há doenças com as quais as pessoas nunca sonharam, e um exército de médicos comprometido em encontrar a cura para elas, e também os hospitais aumentaram. Esta é uma prova de civilização [...] O que mais preciso dizer? [...]

A civilização é tal que só precisamos ser pacientes e ela se autodestruirá. De acordo com os ensinamentos de Maomé, esta seria considerada uma Civilização Satânica. O hinduísmo a chama de Era Negra [...] Deve ser evitada.

MAHATMA GANDHI

 

É um povo que, por meio de seus filhos (Robespierre, Descartes etc.), fez muito pela humanidade. Eu não tenho o direito de desejar-lhe mal.

ESTUDANTE SENEGALÊS

 

A profecia de Burke De meados do século XIX a meados do século XX, o Ocidente dominou o

restante do mundo. Essa foi a era não só dos impérios como do

imperialismo, uma teoria de expansão ultramarina que justificou a

dominação formal e informal dos povos não ocidentais apresentando razões

altruístas e egoístas. Império significava “espaço habitável” para o excesso

populacional. Significava mercados de exportação garantidos, que uma

potência rival não podia restringir com taxas alfandegárias. Significava

retornos mais altos sobre o investimento do que os que estavam disponíveis

em casa1. O império também podia ter uma função política, transformando

os conflitos sociais da era industrial em um espírito belicoso de orgulho

patriótico, ou gerando compensações para acalmar os ânimos de grupos de

interesse poderosos. Mas também significou a disseminação da civilização,

um termo usado cada vez com mais frequência para descrever todo o

sistema de instituições marcadamente ocidentais que encontramos nos

capítulos anteriores: a economia de mercado, a Revolução Científica, a

ligação entre propriedade privada e governo representativo. Também

significou a disseminação do cristianismo, pois, no processo de construção

do império, os missionários foram quase tão importantes quanto os

mercadores e os militares (ver Capítulo 6).

De todos os impérios ocidentais, o maior foi, de longe, o britânico. Da

Grant Land, a extremidade mais setentrional do Canadá, à costa abafada de

Georgetown, Guiana, e à Graham Land na Antártida; descendo o Nilo até

Nyanza, e pelo Zambeze até o Cabo; do golfo Pérsico a Bengala –

atravessando toda a Índia –, e daí à Birmânia e a Bornéu; de Singapura a

Sydney – faixas imensas do mapa-múndi, incluindo inúmeras ilhas

minúsculas, foram cobertas do tom rosado que a pele de um escocês adquire

sob o sol tropical. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Império

Britânico cobria cerca de um quarto da superfície da Terra e abarcava

praticamente a mesma proporção da população mundial. Também exercia

um controle sem igual sobre as rotas marítimas do mundo e sobre a rede

internacional de telégrafos. Mas os britânicos estavam longe de ser a única

potência imperialista. Apesar do custo apavorante da Revolução e das

Guerras Napoleônicas em termos de vidas humanas, os franceses retomaram a expansão imperial apenas 15 anos depois de terem sido

derrotados em Waterloo. Combinando antigas ilhas produtoras de açúcar,

como Réunion, Guadalupe e Martinica, e entrepostos comerciais, como

Saint-Louis e Gorée, com novas possessões no norte, no centro e no oeste

da África, bem como no oceano Índico, na Indochina e na Polinésia, o

Império Francês, em 1913, cobria pouco menos de 9% da superfície

mundial. Os belgas, os alemães e os italianos também adquiriram colônias

ultramarinas, ao passo que os portugueses e os espanhóis retiveram grande

parte de seus impérios anteriores. Enquanto isso, avançando por terra, e não

por mar, os russos expandiram seu império sobre o Cáucaso, a Sibéria e a

Ásia Central. Os austríacos também anexaram novos territórios; depois de

terem sido expulsos da Alemanha pela Prússia em 1866, os Habsburgo se

voltaram para o sul, em direção aos Bálcãs. Até mesmo ex-colônias se

tornaram colonizadoras, como os Estados Unidos, que conquistaram Porto

Rico e as Filipinas, além do Havaí e de uma porção de ilhas menores no

Pacífico.

Em 1913, os impérios ocidentais dominavam o mundo. Onze metrópoles

abrangendo apenas 10% da superfície da Terra governavam mais da metade

do planeta. Estima-se que 57% da população mundial vivia nesses impérios,

o que correspondia a quase quatro quintos da produção econômica global.

Mesmo naquela época, sua conduta foi alvo de críticas ferrenhas. De fato, a

palavra “imperialismo” é um termo pejorativo que se popularizou entre

nacionalistas, liberais e socialistas. Choveram críticos ridicularizando a

afirmação de que os impérios estavam exportando civilização. Segundo

consta, quando lhe perguntaram o que ele achava da civilização ocidental, o

líder nacionalista indiano Mahatma Gandhi teria respondido, com

perspicácia, que achava que seria uma boa ideia. Em Hind Swaraj

(Autogoverno da Índia), publicado em 1908, Gandhi chegou a ponto de

chamar a civilização ocidental de “uma doença” e “um veneno”2. Mark

Twain, um ferrenho anti-imperialista norte-americano, preferiu a ironia.

“Para aqueles que acreditam”, escreveu em 1897, “que o produto singular

chamado civilização francesa seria uma melhoria da civilização da Nova

Guiné e similares, a conquista de Madagascar e a instauração da civilização

francesa lá estarão completamente justificados”3. O líder bolchevique

Vladimir Ilich Lenin também estava sendo irônico quando chamou o

imperialismo de “a fase superior do capitalismo”, o resultado da disputa dos

bancos monopolistas “pelas fontes de matéria-prima, pela exportação de

capital, por esferas de influência, isto é, por esferas para negócios rentáveis,

concessões, lucros de monopólio e assim por diante”. Na verdade, ele

considerava o imperialismo um “capitalismo moribundo”, “decadente” e

“parasita”4. Essas são visões da era dos impérios que continuam sendo

compartilhadas ainda hoje por muitas pessoas. Além do mais, é uma

verdade aceita praticamente em todas as escolas e faculdades do mundo

ocidental que o imperialismo é a raiz de quase todos os problemas atuais,

dos conflitos no Oriente Médio à pobreza na África subsaariana – um álibi

conveniente para ditadores vorazes como Robert Mugabe, do Zimbábue.

Mas está se tornando cada vez mais difícil culpar o colonialismo do

passado pelo drama contemporâneo do “bilhão inferior” – as pessoas que

vivem nos países mais pobres do mundo5. Houve, e continua havendo,

grandes obstáculos ambientais e geográficos ao desenvolvimento

econômico da África. Seus governantes mais recentes, com raras exceções,

não tiveram melhor desempenho que os colonizadores antes ou depois da

independência; na verdade, a maioria se saiu até pior. E, hoje em dia, uma

missão civilizatória ocidental totalmente distinta – a missão das agências

humanitárias governamentais e não governamentais – alcançou muito

menos do que se poderia esperar, apesar da transferência de grandes somas

na forma de assistência6. Apesar de todos os esforços dos astros de rock

irlandeses e dos economistas da Ivy League, a África continua sendo o

continente mais pobre, dependente da caridade dos ocidentais ou da

extração de matérias-primas. É verdade que há sinais de melhora, sobretudo

os efeitos da telefonia móvel barata, que (por exemplo) está proporcionando

aos africanos, pela primeira vez, serviços bancários eficientes e de baixo

custo. Há também uma possibilidade real de que a água doce se torne mais

disponível do que é atualmente.7 No entanto, os obstáculos ao crescimento

continuam sendo assustadores, em particular o governo assombroso que

vitima tantos Estados africanos, simbolizado pela estátua grotesca que hoje

se ergue sobre Dacar, representando um casal senegalês gigante no pior

estilo do realismo-socialista. (Foi construída por um empreendimento

estatal da Coreia do Norte.) O advento da China como um importante

investidor na África está fazendo pouco para solucionar esse problema. Ao

contrário, os chineses estão felizes de trocar investimentos em infraestrutura

por acesso à riqueza mineral africana, sem se importar se estão fazendo

negócio com ditadores militares, cleptocratas corruptos ou autocratas senis

(ou com todos os três). Logo quando as agências governamentais e não

governamentais do Ocidente estão finalmente começando a condicionar a

ajuda que oferecem à implementação de melhorias nos governos africanos,

elas se encontram solapadas por um império chinês emergente.

Essa coincidência de altruísmo estrangeiro e exploração estrangeira não é

nada nova na história africana. No século XIX, conforme vimos, os europeus foram à África por motivos variados. Alguns estavam em busca

de dinheiro, outros, de glória. Alguns foram investir, outros, roubar. Alguns

foram salvar almas, outros, fincar raízes. Quase todos, no entanto, estavam

convencidos – assim como as agências humanitárias de hoje – de que os

benefícios da civilização ocidental poderiam e deveriam ser concedidos ao

“continente negro”.8 Antes que nos apressemos em condenar os impérios

ocidentais como malévolos e exploradores – capazes unicamente de

comportamentos que eram o próprio oposto do civilizado –, precisamos

entender que havia mais do que um pouco de verdade em sua afirmação de

que estavam em uma missão civilizatória.

Tomemos o caso do mais notável “aplicativo” do Ocidente – aquele que,

longe de ser “incrível”, teve a capacidade de duplicar a expectativa de vida

humana: a medicina moderna. Gandhi, o ascético homem santo, desdenhou

do “exército de médicos” da civilização ocidental. Em uma entrevista em

Londres, em 1931, ele citou a “conquista da doença” como um dos

parâmetros puramente “materiais” com base nos quais a civilização

ocidental media o progresso9. Para os incontáveis milhões de pessoas cuja

vida foi prolongada pela medicina ocidental, no entanto, a escolha entre

pureza espiritual e sobrevivência não era tão difícil de fazer. Por volta de

1800, a média mundial da expectativa de vida ao nascer era de apenas 28,5

anos. Dois séculos mais tarde, em 2001, havia mais que dobrado, passando

a 66,6 anos. As melhorias não se restringiram às metrópoles coloniais. Os

historiadores que normalmente confundem fome ou guerra civil com

genocídio e gulag, em uma tentativa deliberada de representar as

autoridades coloniais como moralmente equivalentes a nazistas ou

stalinistas, fariam muito bem em ponderar o impacto mensurável que a

medicina ocidental teve sobre a expectativa de vida no período colonial e

pós-colonial.

O momento da “transição da saúde” – quando começaram as melhorias

contínuas na expectativa de vida – é bem claro. Na Europa Ocidental,

ocorreu entre os anos 1770 e 1890, tendo início na Dinamarca, com a

Espanha na retaguarda. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o tifo e o

cólera haviam sido efetivamente eliminados da Europa, em consequência de

melhorias em saneamento e saúde pública, ao passo que a difteria e o tétano

foram controlados com vacinas. Nos 23 países asiáticos modernos para os

quais há informações disponíveis, com uma única exceção, a transição da

saúde se deu entre os anos 1890 e 1950. Na África, ocorreu entre os anos

1920 e 1950, com apenas duas exceções entre os 43 países. Em quase todos

os países asiáticos e africanos, portanto, a expectativa de vida começou a

melhorar antes do fim do governo colonial europeu. De fato, a taxa de

melhoria na África diminuiu desde a independência, sobretudo – mas não

unicamente – por causa da epidemia de HIV/aids. Também é digno de nota

que os países latino-americanos não se saem melhor, apesar de desfrutar de

independência política desde o início do século XIX10. É muito interessante notar que o momento de elevação na expectativa de vida quase sempre foi

anterior à introdução de antibióticos (sobretudo a estreptomicina, como uma

cura para a tuberculose), do inseticida DDT e de outras vacinas, além das

simples para varíola e febre amarela, inventadas na era imperial (ver a

seguir). Os indícios apontam para melhorias contínuas em saúde pública em

várias frentes, reduzindo a mortalidade por doenças causadas por

contaminação fecal, malária e até mesmo tuberculose. Essa foi, sem dúvida,

a experiência de uma colônia britânica, a Jamaica; e a história foi

provavelmente similar em outras, como Ceilão, Egito, Quênia, Rodésia,

Trinidad e Uganda, que passaram por melhorias mais ou menos

simultâneas11. Conforme veremos, esse mesmo quadro é válido para as

colônias da França. Acontece que o repertório peculiarmente ameaçador de

doenças tropicais na África despertou um esforço contínuo por parte dos

cientistas e funcionários da saúde no Ocidente que não teria existido na

ausência do imperialismo. Aqui, o dramaturgo e intelectual irlandês George

Bernard Shaw fornece a resposta perfeita a Gandhi:

 

Há um século, a civilização vem eliminando as condições que favorecem as febres bacterianas. O

tifo, um dia frequente, desapareceu; a peste e o cólera foram barrados em nossas fronteiras por um

bloqueio sanitário [...] Hoje se conhecem melhor os perigos das infecções e as formas de evitá-las

[...] Em nossos dias, os problemas de pacientes tuberculosos aumentam muitíssimo devido à

tendência cada vez maior a tratá-los como leprosos [...] mas o medo de infecção – embora leve até

mesmo os médicos a falarem como se a única coisa realmente científica a fazer com um paciente

febril fosse jogá-lo na vala mais próxima e atirar ácido carbólico sobre ele a uma distância segura,

até que ele esteja pronto para ser cremado ali mesmo – levou a muito mais cuidados e higiene. E o

resultado tem sido uma série de vitórias sobre a doença 12.

 

Essas vitórias não foram confinadas aos imperialistas; também

beneficiaram seus súditos coloniais.

O porém é que até mesmo a ciência médica de fins do século XIX e início

do século XX teve seu lado obscuro. A luta contra patógenos coincidiu com

uma luta pseudocientífica contra a ameaça ilusória da degeneração racial.

Finalmente, em 1914, uma guerra entre os impérios rivais do Ocidente, denominada “a grande guerra pela civilização”, revelaria que a África não

era, afinal, o continente mais negro do mundo.

A maioria dos impérios proclama sua intenção pacífica de levar a

civilização aos países atrasados. Mas poucos na história gostaram mais do

termo “missão civilizatória” do que os franceses. Para entender por quê, é

necessário primeiro analisar a profunda diferença entre a Revolução

Francesa e a Americana. O primeiro homem a entender essa diferença foi o

parlamentar whig Edmund Burke, o maior pensador político a surgir da

zona de colonização protestante no sul da Irlanda. Burke havia apoiado a

Revolução Americana, simpatizando muitíssimo com o argumento dos

colonos de que eles estavam sendo tributados sem representação, e

discernindo corretamente que a atuação do primeiro-ministro Lord North

era incapaz de lidar com a crise original sobre a tributação em

Massachusetts. A reação de Burke ao início da Revolução Francesa foi

diametralmente oposta. “Devo de fato parabenizar um louco”, escreveu em

suas Reflexões sobre a Revolução na França, “que escapou da contenção

protetora e da saudável escuridão de sua cela, quando este volta a desfrutar

da luz e da liberdade? Devo parabenizar um assaltante e assassino que fugiu

da prisão por recuperar seus direitos naturais?”13 Burke adivinhou o caráter

violento da Revolução Francesa em um estágio surpreendentemente inicial.

Essas palavras foram publicadas em 1o de novembro de 1790.

A reação política em cadeia que começou em 1789 foi resultado de uma

crise fiscal crônica que se tornou aguda com a intervenção francesa na

Revolução Americana. Desde a traumática crise financeira de 1719-20 – a

Bolha do Mississippi –, o sistema fiscal francês havia ficado muito para trás

do inglês. Não havia um banco central emitindo papel-moeda. Não havia

um mercado de obrigações com liquidez, onde a dívida do governo pudesse

ser comprada e vendida. Em grande medida, o sistema de impostos fora

privatizado. Em vez de vender obrigações, a Coroa Francesa vendia cargos,

criando uma folha de pagamento inflada por parasitas. Uma sucessão de

ministros capazes – Charles de Calonne, Loménie de Brienne e Jacques

Necker – tentou, sem sucesso, reformar o sistema. O caminho fácil para sair

do caos teria sido que Luís XVI declarasse moratória das dívidas da monarquia, que assumiram uma variedade impressionante de formas

diferentes e custaram quase duas vezes o que o governo britânico estava

pagando sobre suas obrigações padronizadas14. Em vez disso, o rei buscou o

consenso. Mas uma Assembleia de Notáveis não foi a parte alguma, e os

advogados dos parlements só criaram problemas. Por fim, em agosto de

1788, Luís foi persuadido a convocar os Estados Gerais, um grupo que não

se reunia desde 1614. Ele deveria ter previsto que uma instituição do século

XVII lhe daria uma crise do século XVII.

No início, a Revolução Francesa foi a Guerra Civil Inglesa, só deixando

de fora o puritanismo. A convocação dos Estados Gerais deu aos

descontentes na aristocracia uma oportunidade de dar vazão a seu

ressentimento, com o conde de Mirabeau e o marquês de Lafayette na frente

de batalha. Assim como na Inglaterra, a Câmara Baixa adquiriu vontade

própria. Em 17 de junho de 1789, o Terceiro Estado (os Comuns) se

proclamou uma “Assembleia Nacional”. Três dias depois, no famoso

Juramento do Jogo da Péla, seus membros juraram que esta não se

dissolveria até que a França tivesse uma nova Constituição. A esse ponto,

tratava-se da versão francesa do Longo Parlamento. Mas quando se tratou

de conceber as novas regras fundamentais da vida política francesa, os

revolucionários adotaram uma linguagem reconhecidamente norte-

americana. À primeira vista, a Declaração dos Direitos do Homem e do

Cidadão, de 27 de agosto de 1789, teria encontrado pouca oposição na

Filadélfia:

 

2. Os direitos naturais e imprescindíveis do homem [...] são a liberdade, a propriedade, a

segurança e a resistência à opressão [...]

10. Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas [...]

17. Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado [...] 15

 

Então por que, começando com um discurso áspero no dia 1o de fevereiro

de 1790, Edmund Burke reagiu de maneira tão violenta contra a revolução?

Aqui ele está a todo vapor:

Os franceses se rebelaram contra um monarca moderado e justo com mais fúria, indignação e

insulto do que qualquer povo já se ergueu contra o usurpador mais ilegal ou o tirano mais

sanguinário. Sua resistência se opôs a concessões [...] seu golpe teve por alvo uma mão entregando

graças, favores e privilégios [...] Eles encontraram, em seu sucesso, sua punição: leis derrubadas;

tribunais subvertidos; indústria sem vigor; comércio expirando; os impostos de renda não pagos,

mas o povo empobrecido; uma igreja pilhada, e um Estado não desonerado; anarquia civil e

militar convertida em constituição do reino; todas as coisas humanas e divinas sacrificadas ao

ídolo do crédito público, e em consequência a bancarrota nacional; e, para coroar tudo, os títulos

mobiliários de uma potência nova, precária e cambaleante [...] entregues como moeda para o

sustento de um império16.

 

Se Burke tivesse escrito essas palavras em 1793, não haveria grande

mistério. Mas ter previsto o verdadeiro caráter da Revolução Francesa um

ano antes de seu início foi extraordinário. O que ele havia visto? A resposta

é Rousseau.

O contrato social (1762), de Jean-Jacques Rousseau, estava entre os

livros mais perigosos que a civilização ocidental já produziu. O homem,

segundo Rousseau, é um “bom selvagem” relutante em submeter-se à

autoridade. A única autoridade legítima à qual ele é capaz de se submeter é

a soberania do “povo” e da “vontade geral”. De acordo com Rousseau, essa

vontade geral deve ser suprema. Os magistrados e legisladores devem se

curvar diante dela. Não pode haver “associações setoriais”. Não pode haver

cristianismo, que, afinal, implicaria uma separação de poderes (o espiritual

do temporal). A liberdade é uma coisa boa, sem dúvida. Mas, para

Rousseau, a virtude é mais importante. A vontade geral deveria ser a

virtude em ação17. Retomando a Declaração dos Direitos do Homem e do

Cidadão, o leitor atual pode começar a entender o que chamou a atenção de

Burke:

 

6. A lei é a expressão da vontade geral [...]

10. Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua

manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei [...]

17. Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado a não

ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir [...] [grifos nossos]

Foi dessas condições que Burke teve receio. A primazia que Rousseau

dava à “ordem pública” e à “necessidade pública” lhe pareceu

profundamente assustadora. A vontade geral era, no pensamento de Burke,

um critério menos confiável para selecionar um governante do que o

princípio hereditário, já que os governantes escolhidos dessa forma eram

mais propensos a respeitar “liberdades antigas”, que Burke preferia, em

detrimento da “nova liberdade”, singular e abstrata. O Terceiro Estado,

segundo afirmava, inevitavelmente seria corrompido pelo poder (e pelo

“interesse econômico”), ao contrário de uma aristocracia, que desfrutava da

independência que a riqueza privada confere. Burke também compreendeu

o significado da expropriação das terras da Igreja em novembro de 1789 –

um dos primeiros atos verdadeiramente revolucionários – e os perigos de

imprimir papel-moeda (os assignats) cujo lastro era nada mais que as terras

confiscadas da Igreja. O verdadeiro contrato social, para Burke, não era o

pacto de Rousseau entre os bons selvagens e a vontade geral, mas uma

“parceria” entre a geração presente e as gerações futuras. Com presciência

impressionante, Burke alertou contra a utopia “dos adeptos”: “No

horizonte”, escreveu na maior profecia da era, “vocês não verão nada além

de forcas”.18 O ataque a instituições tradicionais, conforme alertou,

terminaria em uma “oligarquia perversa e ignóbil” e, finalmente, em

ditadura militar19. Em tudo isso, os fatos mostrariam que Burke tinha razão.

A Constituição de setembro de 1791 determinava a inviolabilidade de

uma série de quesitos: dos direitos de propriedade, do “rei dos franceses”,

do direito de associação e da liberdade de culto. Em dois anos, todos os

quatro haviam sido violados, a começar pelos direitos de propriedade da

Igreja. O seguinte foi o direito de livre associação, com a abolição de

ordens monásticas, guildas e sindicatos (embora não de facções políticas,

que floresceram). E, em agosto de 1792, o status privilegiado do rei foi

violado quando ele foi preso após a tomada das Tulherias. Sem dúvida, Luís

XVI provocou isso com a fuga fatalmente desastrosa da família para

Varennes, uma vã tentativa de escapar de Paris (disfarçada de comitiva de

uma baronesa russa) à cidadela monarquista de Montmédy, perto da

fronteira nordeste. Com a eleição de uma nova Convenção Nacional democrática em setembro de 1792, a probabilidade de um regicídio

aumentou ainda mais. Mas a execução de Luís XVI em 21 de janeiro de

1793 teve consequências muito diferentes da execução de Carlos I. Na

Revolução Inglesa, matar o rei fora o desfecho de uma guerra civil. Na

Revolução Francesa, foi meramente a inauguração, já que o poder passou,

por meio da agrupação jacobina Sociedade dos Amigos da Constituição, à

Comuna Insurrecional e, então, aos Comitês de Vigilância e de Salvação

Pública da Convenção Nacional. Não pela última vez na história ocidental,

os revolucionários se armaram com uma nova religião para se prepararem

para revoltas maiores. Em 10 de novembro de 1793, a devoção a Deus foi

proibida e se instituiu o culto à Razão, a primeira religião política da era

moderna, completada com ícones, ritos – e mártires.

Na verdade, a Revolução Francesa havia sido violenta desde o início20. A

tomada da odiada prisão da Bastilha em 14 de julho de 1789 foi celebrada

com a decapitação do marquês de Launay (o governador da Bastilha) e de

Jacques de Flesselles (preboste dos comerciantes de Paris). Mais de uma

semana depois, Joseph-François Foullon de Doué, secretário de Estado do

rei, e seu enteado, Berthier de Sauvigny, também foram assassinados.

Quando a multidão revolucionária atacou a família real em Versalhes no

outubro seguinte, cerca de cem pessoas foram mortas. O ano de 1791 viu o

Dia dos Punhais e o massacre no Champs de Mars. Em setembro de 1792,

por volta de 1.400 prisioneiros monarquistas foram executados após

manifestações contrarrevolucionárias em Brittany, Vendée e Dauphiné. Mas

algo mais foi necessário para produzir a carnificina do Terror, a primeira

demonstração, na era moderna, da terrível verdade de que as revoluções

devoram seus próprios filhos.

Uma geração de historiadores presos às ideias de Karl Marx (ver Capítulo

5) procurou a resposta no conflito de classes, atribuindo a Revolução a

colheitas ruins, ao aumento no preço do pão e ao descontentamento dos

sans-culottes, que, no ancien régime, eram o que mais se aproximava de um

proletariado. Mas as interpretações marxistas ignoraram os indícios

abundantes de que a burguesia não travou uma guerra de classe contra a

aristocracia. Em vez disso, foi uma elite de “notáveis”, alguns burgueses, outros aristocratas, que, reunida, fez a Revolução. Uma interpretação muito

mais sutil já havia sido apresentada por um intelectual aristocrata chamado

Alexis de Tocqueville, cujas duas obras principais, Da democracia na

América (1835) e O antigo regime e a revolução (1856), oferecem uma

resposta sem igual à pergunta: por que a França não era a América? Havia,

segundo Tocqueville, cinco diferenças fundamentais entre as duas

sociedades, e, portanto, entre as duas revoluções que estas produziram.

Primeiro, a França era cada vez mais centralizada, ao passo que os Estados

Unidos eram um país naturalmente federal, com uma sociedade civil e uma

vida social provincial agitadas. Segundo, os franceses tenderam a colocar a

vontade geral acima da letra da lei, uma atitude que encontrou resistência na

influente profissão legal nos Estados Unidos. Terceiro, os revolucionários

franceses atacaram a religião e a Igreja que a sustentava, ao passo que o

sectarismo norte-americano forneceu um escudo contra as pretensões das

autoridades seculares. (Tocqueville foi um cético religioso, mas

compreendeu, mais cedo que a maioria, o valor social da religião.) Quarto,

os franceses concederam poder demais a intelectuais irresponsáveis, ao

passo que na América os homens práticos reinavam supremos. Por fim, e o

que era mais importante segundo Tocqueville, os franceses colocaram a

igualdade acima da liberdade. Em suma, eles escolheram Rousseau em vez

de Locke.

No capítulo XIII de Da democracia na América, Tocqueville vai direto ao

ponto:

 

O cidadão dos Estados Unidos é ensinado desde a tenra infância a confiar em seu próprio esforço

para superar os males e as dificuldades da vida; ele vê a autoridade social com desconfiança e

inquietude, e só pede sua assistência quando é incapaz de avançar sem ela [...] Na América, a

liberdade de associação para fins políticos é irrestrita [...] Os países em que as associações são

mais necessárias, para evitar o despotismo de uma facção ou o poder arbitrário de um príncipe, são

aqueles que são constituídos democraticamente 21.

 

A debilidade comparativa da sociedade civil francesa foi, portanto,

grande parte do motivo pelo qual as repúblicas francesas tenderam a violar liberdades individuais e a degenerar em autocracias. Mas Tocqueville

incluiu um sexto ponto, quase como uma reflexão tardia:

 

Na França, a paixão pela guerra é tão intensa que não existe nenhuma outra tarefa que seja tão

insana, ou tão ofensiva ao bem-estar da Nação, que um homem não se considere honrado em

defendê-la, arriscando a própria vida 22.

 

Aqui, certamente, residia a maior diferença entre as duas revoluções.

Ambas tiveram de guerrear para sobreviver. Mas a guerra que os

revolucionários franceses precisaram travar foi maior e mais longa. Isso fez

toda a diferença.

A partir do momento, em julho de 1791, em que o sacro imperador

romano Leopoldo II convocou seus colegas monarcas para vir em auxílio de

Luís XVI – um chamado atendido primeiro por Frederico Guilherme II,

herdeiro de Frederico, o Grande –, a Revolução Francesa foi obrigada a

lutar por sua vida. As declarações de guerra na Áustria (abril de 1792), e

também na Grã-Bretanha, na Holanda e na Espanha (fevereiro de 1793),

desencadearam uma conflagração que foi muito mais ampla e mais longa

que a Guerra de Independência dos Estados Unidos. De acordo com o

Departamento de Defesa dos Estados Unidos, 4.435 patriotas perderam a

vida defendendo o país até a Batalha de Yorktown; 6.188 foram feridos. Os

números para a Guerra de 1812 foram, respectivamente, 2.260 e 4.50523. A

quantidade de baixas britânicas foi um pouco menor. Mesmo que uma

grande proporção dos feridos tenha perecido e um número significativo de

soldados e civis tenha sucumbido a doenças ou adversidades causadas pela

guerra, este ainda foi um conflito pequeno. Algumas das batalhas mais

celebradas – a de Brandywine ou a própria Batalha de Yorktown – foram

meras brigas para os padrões europeus; na última, o total de norte-

americanos mortos em combate foi apenas 88. Já o número de mortos na

Revolução Francesa e nas Guerras Napoleônicas foi muito maior – segundo

uma estimativa, a mortalidade total em campo de batalha entre 1792 e 1815,

considerando ambos os lados, foi de 3,5 milhões. Segundo um cálculo

conservador, o número de franceses que perdeu a vida defendendo a revolução foi de 20 vezes o de norte-americanos defendendo a sua. E isso

não inclui as vítimas da repressão interna. Estima-se que 17 mil homens e

mulheres franceses tenham sido executados após o devido processo, entre

12 mil e 40 mil tenham ido para a guilhotina ou a forca sem julgamento, e

algo entre 80 mil e 300 mil tenham perecido na opressão da rebelião

monarquista no Vendée24. A Revolução Francesa também causou muito

mais estragos que a Americana em termos econômicos. Os norte-

americanos tiveram inflação seguida de estabilização; os franceses tiveram

hiperinflação, que culminou no colapso do papel-moeda assignat. Toda a

população masculina foi mobilizada para a guerra. Os preços e os salários

foram controlados. A economia de mercado quebrou.

É nesse contexto que a radicalização da Revolução Francesa – a

concretização da profecia de Burke – deve ser entendida. A partir de abril

de 1793, quando o poder ficou concentrado no Comitê de Salvação Pública,

Paris se tornou um caos. Primeiro, os membros da facção do Clube

Jacobino conhecida como girondina (seus rivais mais extremos eram os

montagnards, ou montanheses) foram presos e, em 31 de outubro,

executados. Os próximos candidatos à decapitação seriam os seguidores de

Georges-Jacques Danton (6 de abril de 1794). Enfim, foi a vez de

Maximilien Robespierre encarar a guilhotina – ele a figura dominante no

Comitê de Salvação Pública e o principal defensor do culto de Rousseau à

virtude republicana. No decurso de toda essa danse macabre, cujo

acompanhamento musical era a ainda assustadoramente sanguinária

Marselhesa,25 a acusação mais fatal a ser feita a um “inimigo do povo” era a

de traição. Contratempos militares fomentaram a paranoia. Conforme Burke

havia previsto, pois ele conhecia sua teoria política clássica, tal democracia

inevitavelmente deveria ser suplantada por uma oligarquia e, por fim, pela

tirania de um general. Ao longo de uma década, a Convenção foi

substituída pelo Diretório (outubro de 1795), o Diretório pelo Primeiro

Cônsul (novembro de 1799) e o título de primeiro cônsul pelo de imperador

(dezembro de 1804). O que havia se iniciado com Rousseau terminava com

uma nova versão da queda da república romana.