Civilização: Ocidente X Oriente
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Medicina
Consideremos, primeiro, que estado de coisas é descrito pela palavra “civilização”. Sua verdadeira prova reside no fato de que as pessoas que vivem nela fazem do bem-estar físico seu objetivo de vida […] Os europeus, hoje, vivem em casas mais bem construídas do que viviam há 100 anos […] Antes, eles vestiam peles e usavam lanças como armas. Hoje, usam calças compridas, e [...] em vez de lanças carregam revólveres [...] Antes, na Europa, as pessoas aravam suas terras principalmente por meio do trabalho manual. Hoje, um homem pode arar um vasto pedaço de terra usando máquinas a vapor e, assim, acumular grandes riquezas [...] Antes, os homens viajavam em carruagens. Hoje, eles atravessam grandes distâncias em trens, avançando 600 quilômetros por dia ou mais [...] Antes, quando as pessoas queriam lutar umas contra as outras, elas mediam a força física; hoje, um único homem atrás de uma arma, situado em uma colina, é capaz de tirar milhares de vidas [...] Hoje há doenças com as quais as pessoas nunca sonharam, e um exército de médicos comprometido em encontrar a cura para elas, e também os hospitais aumentaram. Esta é uma prova de civilização [...] O que mais preciso dizer? [...]
A civilização é tal que só precisamos ser pacientes e ela se autodestruirá. De acordo com os ensinamentos de Maomé, esta seria considerada uma Civilização Satânica. O hinduísmo a chama de Era Negra [...] Deve ser evitada.
MAHATMA GANDHI
É um povo que, por meio de seus filhos (Robespierre, Descartes etc.), fez muito pela humanidade. Eu não tenho o direito de desejar-lhe mal.
ESTUDANTE SENEGALÊS
A profecia de Burke De meados do século XIX a meados do século XX, o Ocidente dominou o
restante do mundo. Essa foi a era não só dos impérios como do
imperialismo, uma teoria de expansão ultramarina que justificou a
dominação formal e informal dos povos não ocidentais apresentando razões
altruístas e egoístas. Império significava “espaço habitável” para o excesso
populacional. Significava mercados de exportação garantidos, que uma
potência rival não podia restringir com taxas alfandegárias. Significava
retornos mais altos sobre o investimento do que os que estavam disponíveis
em casa1. O império também podia ter uma função política, transformando
os conflitos sociais da era industrial em um espírito belicoso de orgulho
patriótico, ou gerando compensações para acalmar os ânimos de grupos de
interesse poderosos. Mas também significou a disseminação da civilização,
um termo usado cada vez com mais frequência para descrever todo o
sistema de instituições marcadamente ocidentais que encontramos nos
capítulos anteriores: a economia de mercado, a Revolução Científica, a
ligação entre propriedade privada e governo representativo. Também
significou a disseminação do cristianismo, pois, no processo de construção
do império, os missionários foram quase tão importantes quanto os
mercadores e os militares (ver Capítulo 6).
De todos os impérios ocidentais, o maior foi, de longe, o britânico. Da
Grant Land, a extremidade mais setentrional do Canadá, à costa abafada de
Georgetown, Guiana, e à Graham Land na Antártida; descendo o Nilo até
Nyanza, e pelo Zambeze até o Cabo; do golfo Pérsico a Bengala –
atravessando toda a Índia –, e daí à Birmânia e a Bornéu; de Singapura a
Sydney – faixas imensas do mapa-múndi, incluindo inúmeras ilhas
minúsculas, foram cobertas do tom rosado que a pele de um escocês adquire
sob o sol tropical. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Império
Britânico cobria cerca de um quarto da superfície da Terra e abarcava
praticamente a mesma proporção da população mundial. Também exercia
um controle sem igual sobre as rotas marítimas do mundo e sobre a rede
internacional de telégrafos. Mas os britânicos estavam longe de ser a única
potência imperialista. Apesar do custo apavorante da Revolução e das
Guerras Napoleônicas em termos de vidas humanas, os franceses retomaram a expansão imperial apenas 15 anos depois de terem sido
derrotados em Waterloo. Combinando antigas ilhas produtoras de açúcar,
como Réunion, Guadalupe e Martinica, e entrepostos comerciais, como
Saint-Louis e Gorée, com novas possessões no norte, no centro e no oeste
da África, bem como no oceano Índico, na Indochina e na Polinésia, o
Império Francês, em 1913, cobria pouco menos de 9% da superfície
mundial. Os belgas, os alemães e os italianos também adquiriram colônias
ultramarinas, ao passo que os portugueses e os espanhóis retiveram grande
parte de seus impérios anteriores. Enquanto isso, avançando por terra, e não
por mar, os russos expandiram seu império sobre o Cáucaso, a Sibéria e a
Ásia Central. Os austríacos também anexaram novos territórios; depois de
terem sido expulsos da Alemanha pela Prússia em 1866, os Habsburgo se
voltaram para o sul, em direção aos Bálcãs. Até mesmo ex-colônias se
tornaram colonizadoras, como os Estados Unidos, que conquistaram Porto
Rico e as Filipinas, além do Havaí e de uma porção de ilhas menores no
Pacífico.
Em 1913, os impérios ocidentais dominavam o mundo. Onze metrópoles
abrangendo apenas 10% da superfície da Terra governavam mais da metade
do planeta. Estima-se que 57% da população mundial vivia nesses impérios,
o que correspondia a quase quatro quintos da produção econômica global.
Mesmo naquela época, sua conduta foi alvo de críticas ferrenhas. De fato, a
palavra “imperialismo” é um termo pejorativo que se popularizou entre
nacionalistas, liberais e socialistas. Choveram críticos ridicularizando a
afirmação de que os impérios estavam exportando civilização. Segundo
consta, quando lhe perguntaram o que ele achava da civilização ocidental, o
líder nacionalista indiano Mahatma Gandhi teria respondido, com
perspicácia, que achava que seria uma boa ideia. Em Hind Swaraj
(Autogoverno da Índia), publicado em 1908, Gandhi chegou a ponto de
chamar a civilização ocidental de “uma doença” e “um veneno”2. Mark
Twain, um ferrenho anti-imperialista norte-americano, preferiu a ironia.
“Para aqueles que acreditam”, escreveu em 1897, “que o produto singular
chamado civilização francesa seria uma melhoria da civilização da Nova
Guiné e similares, a conquista de Madagascar e a instauração da civilização
francesa lá estarão completamente justificados”3. O líder bolchevique
Vladimir Ilich Lenin também estava sendo irônico quando chamou o
imperialismo de “a fase superior do capitalismo”, o resultado da disputa dos
bancos monopolistas “pelas fontes de matéria-prima, pela exportação de
capital, por esferas de influência, isto é, por esferas para negócios rentáveis,
concessões, lucros de monopólio e assim por diante”. Na verdade, ele
considerava o imperialismo um “capitalismo moribundo”, “decadente” e
“parasita”4. Essas são visões da era dos impérios que continuam sendo
compartilhadas ainda hoje por muitas pessoas. Além do mais, é uma
verdade aceita praticamente em todas as escolas e faculdades do mundo
ocidental que o imperialismo é a raiz de quase todos os problemas atuais,
dos conflitos no Oriente Médio à pobreza na África subsaariana – um álibi
conveniente para ditadores vorazes como Robert Mugabe, do Zimbábue.
Mas está se tornando cada vez mais difícil culpar o colonialismo do
passado pelo drama contemporâneo do “bilhão inferior” – as pessoas que
vivem nos países mais pobres do mundo5. Houve, e continua havendo,
grandes obstáculos ambientais e geográficos ao desenvolvimento
econômico da África. Seus governantes mais recentes, com raras exceções,
não tiveram melhor desempenho que os colonizadores antes ou depois da
independência; na verdade, a maioria se saiu até pior. E, hoje em dia, uma
missão civilizatória ocidental totalmente distinta – a missão das agências
humanitárias governamentais e não governamentais – alcançou muito
menos do que se poderia esperar, apesar da transferência de grandes somas
na forma de assistência6. Apesar de todos os esforços dos astros de rock
irlandeses e dos economistas da Ivy League, a África continua sendo o
continente mais pobre, dependente da caridade dos ocidentais ou da
extração de matérias-primas. É verdade que há sinais de melhora, sobretudo
os efeitos da telefonia móvel barata, que (por exemplo) está proporcionando
aos africanos, pela primeira vez, serviços bancários eficientes e de baixo
custo. Há também uma possibilidade real de que a água doce se torne mais
disponível do que é atualmente.7 No entanto, os obstáculos ao crescimento
continuam sendo assustadores, em particular o governo assombroso que
vitima tantos Estados africanos, simbolizado pela estátua grotesca que hoje
se ergue sobre Dacar, representando um casal senegalês gigante no pior
estilo do realismo-socialista. (Foi construída por um empreendimento
estatal da Coreia do Norte.) O advento da China como um importante
investidor na África está fazendo pouco para solucionar esse problema. Ao
contrário, os chineses estão felizes de trocar investimentos em infraestrutura
por acesso à riqueza mineral africana, sem se importar se estão fazendo
negócio com ditadores militares, cleptocratas corruptos ou autocratas senis
(ou com todos os três). Logo quando as agências governamentais e não
governamentais do Ocidente estão finalmente começando a condicionar a
ajuda que oferecem à implementação de melhorias nos governos africanos,
elas se encontram solapadas por um império chinês emergente.
Essa coincidência de altruísmo estrangeiro e exploração estrangeira não é
nada nova na história africana. No século XIX, conforme vimos, os europeus foram à África por motivos variados. Alguns estavam em busca
de dinheiro, outros, de glória. Alguns foram investir, outros, roubar. Alguns
foram salvar almas, outros, fincar raízes. Quase todos, no entanto, estavam
convencidos – assim como as agências humanitárias de hoje – de que os
benefícios da civilização ocidental poderiam e deveriam ser concedidos ao
“continente negro”.8 Antes que nos apressemos em condenar os impérios
ocidentais como malévolos e exploradores – capazes unicamente de
comportamentos que eram o próprio oposto do civilizado –, precisamos
entender que havia mais do que um pouco de verdade em sua afirmação de
que estavam em uma missão civilizatória.
Tomemos o caso do mais notável “aplicativo” do Ocidente – aquele que,
longe de ser “incrível”, teve a capacidade de duplicar a expectativa de vida
humana: a medicina moderna. Gandhi, o ascético homem santo, desdenhou
do “exército de médicos” da civilização ocidental. Em uma entrevista em
Londres, em 1931, ele citou a “conquista da doença” como um dos
parâmetros puramente “materiais” com base nos quais a civilização
ocidental media o progresso9. Para os incontáveis milhões de pessoas cuja
vida foi prolongada pela medicina ocidental, no entanto, a escolha entre
pureza espiritual e sobrevivência não era tão difícil de fazer. Por volta de
1800, a média mundial da expectativa de vida ao nascer era de apenas 28,5
anos. Dois séculos mais tarde, em 2001, havia mais que dobrado, passando
a 66,6 anos. As melhorias não se restringiram às metrópoles coloniais. Os
historiadores que normalmente confundem fome ou guerra civil com
genocídio e gulag, em uma tentativa deliberada de representar as
autoridades coloniais como moralmente equivalentes a nazistas ou
stalinistas, fariam muito bem em ponderar o impacto mensurável que a
medicina ocidental teve sobre a expectativa de vida no período colonial e
pós-colonial.
O momento da “transição da saúde” – quando começaram as melhorias
contínuas na expectativa de vida – é bem claro. Na Europa Ocidental,
ocorreu entre os anos 1770 e 1890, tendo início na Dinamarca, com a
Espanha na retaguarda. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o tifo e o
cólera haviam sido efetivamente eliminados da Europa, em consequência de
melhorias em saneamento e saúde pública, ao passo que a difteria e o tétano
foram controlados com vacinas. Nos 23 países asiáticos modernos para os
quais há informações disponíveis, com uma única exceção, a transição da
saúde se deu entre os anos 1890 e 1950. Na África, ocorreu entre os anos
1920 e 1950, com apenas duas exceções entre os 43 países. Em quase todos
os países asiáticos e africanos, portanto, a expectativa de vida começou a
melhorar antes do fim do governo colonial europeu. De fato, a taxa de
melhoria na África diminuiu desde a independência, sobretudo – mas não
unicamente – por causa da epidemia de HIV/aids. Também é digno de nota
que os países latino-americanos não se saem melhor, apesar de desfrutar de
independência política desde o início do século XIX10. É muito interessante notar que o momento de elevação na expectativa de vida quase sempre foi
anterior à introdução de antibióticos (sobretudo a estreptomicina, como uma
cura para a tuberculose), do inseticida DDT e de outras vacinas, além das
simples para varíola e febre amarela, inventadas na era imperial (ver a
seguir). Os indícios apontam para melhorias contínuas em saúde pública em
várias frentes, reduzindo a mortalidade por doenças causadas por
contaminação fecal, malária e até mesmo tuberculose. Essa foi, sem dúvida,
a experiência de uma colônia britânica, a Jamaica; e a história foi
provavelmente similar em outras, como Ceilão, Egito, Quênia, Rodésia,
Trinidad e Uganda, que passaram por melhorias mais ou menos
simultâneas11. Conforme veremos, esse mesmo quadro é válido para as
colônias da França. Acontece que o repertório peculiarmente ameaçador de
doenças tropicais na África despertou um esforço contínuo por parte dos
cientistas e funcionários da saúde no Ocidente que não teria existido na
ausência do imperialismo. Aqui, o dramaturgo e intelectual irlandês George
Bernard Shaw fornece a resposta perfeita a Gandhi:
Há um século, a civilização vem eliminando as condições que favorecem as febres bacterianas. O
tifo, um dia frequente, desapareceu; a peste e o cólera foram barrados em nossas fronteiras por um
bloqueio sanitário [...] Hoje se conhecem melhor os perigos das infecções e as formas de evitá-las
[...] Em nossos dias, os problemas de pacientes tuberculosos aumentam muitíssimo devido à
tendência cada vez maior a tratá-los como leprosos [...] mas o medo de infecção – embora leve até
mesmo os médicos a falarem como se a única coisa realmente científica a fazer com um paciente
febril fosse jogá-lo na vala mais próxima e atirar ácido carbólico sobre ele a uma distância segura,
até que ele esteja pronto para ser cremado ali mesmo – levou a muito mais cuidados e higiene. E o
resultado tem sido uma série de vitórias sobre a doença 12.
Essas vitórias não foram confinadas aos imperialistas; também
beneficiaram seus súditos coloniais.
O porém é que até mesmo a ciência médica de fins do século XIX e início
do século XX teve seu lado obscuro. A luta contra patógenos coincidiu com
uma luta pseudocientífica contra a ameaça ilusória da degeneração racial.
Finalmente, em 1914, uma guerra entre os impérios rivais do Ocidente, denominada “a grande guerra pela civilização”, revelaria que a África não
era, afinal, o continente mais negro do mundo.
A maioria dos impérios proclama sua intenção pacífica de levar a
civilização aos países atrasados. Mas poucos na história gostaram mais do
termo “missão civilizatória” do que os franceses. Para entender por quê, é
necessário primeiro analisar a profunda diferença entre a Revolução
Francesa e a Americana. O primeiro homem a entender essa diferença foi o
parlamentar whig Edmund Burke, o maior pensador político a surgir da
zona de colonização protestante no sul da Irlanda. Burke havia apoiado a
Revolução Americana, simpatizando muitíssimo com o argumento dos
colonos de que eles estavam sendo tributados sem representação, e
discernindo corretamente que a atuação do primeiro-ministro Lord North
era incapaz de lidar com a crise original sobre a tributação em
Massachusetts. A reação de Burke ao início da Revolução Francesa foi
diametralmente oposta. “Devo de fato parabenizar um louco”, escreveu em
suas Reflexões sobre a Revolução na França, “que escapou da contenção
protetora e da saudável escuridão de sua cela, quando este volta a desfrutar
da luz e da liberdade? Devo parabenizar um assaltante e assassino que fugiu
da prisão por recuperar seus direitos naturais?”13 Burke adivinhou o caráter
violento da Revolução Francesa em um estágio surpreendentemente inicial.
Essas palavras foram publicadas em 1o de novembro de 1790.
A reação política em cadeia que começou em 1789 foi resultado de uma
crise fiscal crônica que se tornou aguda com a intervenção francesa na
Revolução Americana. Desde a traumática crise financeira de 1719-20 – a
Bolha do Mississippi –, o sistema fiscal francês havia ficado muito para trás
do inglês. Não havia um banco central emitindo papel-moeda. Não havia
um mercado de obrigações com liquidez, onde a dívida do governo pudesse
ser comprada e vendida. Em grande medida, o sistema de impostos fora
privatizado. Em vez de vender obrigações, a Coroa Francesa vendia cargos,
criando uma folha de pagamento inflada por parasitas. Uma sucessão de
ministros capazes – Charles de Calonne, Loménie de Brienne e Jacques
Necker – tentou, sem sucesso, reformar o sistema. O caminho fácil para sair
do caos teria sido que Luís XVI declarasse moratória das dívidas da monarquia, que assumiram uma variedade impressionante de formas
diferentes e custaram quase duas vezes o que o governo britânico estava
pagando sobre suas obrigações padronizadas14. Em vez disso, o rei buscou o
consenso. Mas uma Assembleia de Notáveis não foi a parte alguma, e os
advogados dos parlements só criaram problemas. Por fim, em agosto de
1788, Luís foi persuadido a convocar os Estados Gerais, um grupo que não
se reunia desde 1614. Ele deveria ter previsto que uma instituição do século
XVII lhe daria uma crise do século XVII.
No início, a Revolução Francesa foi a Guerra Civil Inglesa, só deixando
de fora o puritanismo. A convocação dos Estados Gerais deu aos
descontentes na aristocracia uma oportunidade de dar vazão a seu
ressentimento, com o conde de Mirabeau e o marquês de Lafayette na frente
de batalha. Assim como na Inglaterra, a Câmara Baixa adquiriu vontade
própria. Em 17 de junho de 1789, o Terceiro Estado (os Comuns) se
proclamou uma “Assembleia Nacional”. Três dias depois, no famoso
Juramento do Jogo da Péla, seus membros juraram que esta não se
dissolveria até que a França tivesse uma nova Constituição. A esse ponto,
tratava-se da versão francesa do Longo Parlamento. Mas quando se tratou
de conceber as novas regras fundamentais da vida política francesa, os
revolucionários adotaram uma linguagem reconhecidamente norte-
americana. À primeira vista, a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, de 27 de agosto de 1789, teria encontrado pouca oposição na
Filadélfia:
2. Os direitos naturais e imprescindíveis do homem [...] são a liberdade, a propriedade, a
segurança e a resistência à opressão [...]
10. Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas [...]
17. Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado [...] 15
Então por que, começando com um discurso áspero no dia 1o de fevereiro
de 1790, Edmund Burke reagiu de maneira tão violenta contra a revolução?
Aqui ele está a todo vapor:
Os franceses se rebelaram contra um monarca moderado e justo com mais fúria, indignação e
insulto do que qualquer povo já se ergueu contra o usurpador mais ilegal ou o tirano mais
sanguinário. Sua resistência se opôs a concessões [...] seu golpe teve por alvo uma mão entregando
graças, favores e privilégios [...] Eles encontraram, em seu sucesso, sua punição: leis derrubadas;
tribunais subvertidos; indústria sem vigor; comércio expirando; os impostos de renda não pagos,
mas o povo empobrecido; uma igreja pilhada, e um Estado não desonerado; anarquia civil e
militar convertida em constituição do reino; todas as coisas humanas e divinas sacrificadas ao
ídolo do crédito público, e em consequência a bancarrota nacional; e, para coroar tudo, os títulos
mobiliários de uma potência nova, precária e cambaleante [...] entregues como moeda para o
sustento de um império16.
Se Burke tivesse escrito essas palavras em 1793, não haveria grande
mistério. Mas ter previsto o verdadeiro caráter da Revolução Francesa um
ano antes de seu início foi extraordinário. O que ele havia visto? A resposta
é Rousseau.
O contrato social (1762), de Jean-Jacques Rousseau, estava entre os
livros mais perigosos que a civilização ocidental já produziu. O homem,
segundo Rousseau, é um “bom selvagem” relutante em submeter-se à
autoridade. A única autoridade legítima à qual ele é capaz de se submeter é
a soberania do “povo” e da “vontade geral”. De acordo com Rousseau, essa
vontade geral deve ser suprema. Os magistrados e legisladores devem se
curvar diante dela. Não pode haver “associações setoriais”. Não pode haver
cristianismo, que, afinal, implicaria uma separação de poderes (o espiritual
do temporal). A liberdade é uma coisa boa, sem dúvida. Mas, para
Rousseau, a virtude é mais importante. A vontade geral deveria ser a
virtude em ação17. Retomando a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, o leitor atual pode começar a entender o que chamou a atenção de
Burke:
6. A lei é a expressão da vontade geral [...]
10. Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua
manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei [...]
17. Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado a não
ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir [...] [grifos nossos]
Foi dessas condições que Burke teve receio. A primazia que Rousseau
dava à “ordem pública” e à “necessidade pública” lhe pareceu
profundamente assustadora. A vontade geral era, no pensamento de Burke,
um critério menos confiável para selecionar um governante do que o
princípio hereditário, já que os governantes escolhidos dessa forma eram
mais propensos a respeitar “liberdades antigas”, que Burke preferia, em
detrimento da “nova liberdade”, singular e abstrata. O Terceiro Estado,
segundo afirmava, inevitavelmente seria corrompido pelo poder (e pelo
“interesse econômico”), ao contrário de uma aristocracia, que desfrutava da
independência que a riqueza privada confere. Burke também compreendeu
o significado da expropriação das terras da Igreja em novembro de 1789 –
um dos primeiros atos verdadeiramente revolucionários – e os perigos de
imprimir papel-moeda (os assignats) cujo lastro era nada mais que as terras
confiscadas da Igreja. O verdadeiro contrato social, para Burke, não era o
pacto de Rousseau entre os bons selvagens e a vontade geral, mas uma
“parceria” entre a geração presente e as gerações futuras. Com presciência
impressionante, Burke alertou contra a utopia “dos adeptos”: “No
horizonte”, escreveu na maior profecia da era, “vocês não verão nada além
de forcas”.18 O ataque a instituições tradicionais, conforme alertou,
terminaria em uma “oligarquia perversa e ignóbil” e, finalmente, em
ditadura militar19. Em tudo isso, os fatos mostrariam que Burke tinha razão.
A Constituição de setembro de 1791 determinava a inviolabilidade de
uma série de quesitos: dos direitos de propriedade, do “rei dos franceses”,
do direito de associação e da liberdade de culto. Em dois anos, todos os
quatro haviam sido violados, a começar pelos direitos de propriedade da
Igreja. O seguinte foi o direito de livre associação, com a abolição de
ordens monásticas, guildas e sindicatos (embora não de facções políticas,
que floresceram). E, em agosto de 1792, o status privilegiado do rei foi
violado quando ele foi preso após a tomada das Tulherias. Sem dúvida, Luís
XVI provocou isso com a fuga fatalmente desastrosa da família para
Varennes, uma vã tentativa de escapar de Paris (disfarçada de comitiva de
uma baronesa russa) à cidadela monarquista de Montmédy, perto da
fronteira nordeste. Com a eleição de uma nova Convenção Nacional democrática em setembro de 1792, a probabilidade de um regicídio
aumentou ainda mais. Mas a execução de Luís XVI em 21 de janeiro de
1793 teve consequências muito diferentes da execução de Carlos I. Na
Revolução Inglesa, matar o rei fora o desfecho de uma guerra civil. Na
Revolução Francesa, foi meramente a inauguração, já que o poder passou,
por meio da agrupação jacobina Sociedade dos Amigos da Constituição, à
Comuna Insurrecional e, então, aos Comitês de Vigilância e de Salvação
Pública da Convenção Nacional. Não pela última vez na história ocidental,
os revolucionários se armaram com uma nova religião para se prepararem
para revoltas maiores. Em 10 de novembro de 1793, a devoção a Deus foi
proibida e se instituiu o culto à Razão, a primeira religião política da era
moderna, completada com ícones, ritos – e mártires.
Na verdade, a Revolução Francesa havia sido violenta desde o início20. A
tomada da odiada prisão da Bastilha em 14 de julho de 1789 foi celebrada
com a decapitação do marquês de Launay (o governador da Bastilha) e de
Jacques de Flesselles (preboste dos comerciantes de Paris). Mais de uma
semana depois, Joseph-François Foullon de Doué, secretário de Estado do
rei, e seu enteado, Berthier de Sauvigny, também foram assassinados.
Quando a multidão revolucionária atacou a família real em Versalhes no
outubro seguinte, cerca de cem pessoas foram mortas. O ano de 1791 viu o
Dia dos Punhais e o massacre no Champs de Mars. Em setembro de 1792,
por volta de 1.400 prisioneiros monarquistas foram executados após
manifestações contrarrevolucionárias em Brittany, Vendée e Dauphiné. Mas
algo mais foi necessário para produzir a carnificina do Terror, a primeira
demonstração, na era moderna, da terrível verdade de que as revoluções
devoram seus próprios filhos.
Uma geração de historiadores presos às ideias de Karl Marx (ver Capítulo
5) procurou a resposta no conflito de classes, atribuindo a Revolução a
colheitas ruins, ao aumento no preço do pão e ao descontentamento dos
sans-culottes, que, no ancien régime, eram o que mais se aproximava de um
proletariado. Mas as interpretações marxistas ignoraram os indícios
abundantes de que a burguesia não travou uma guerra de classe contra a
aristocracia. Em vez disso, foi uma elite de “notáveis”, alguns burgueses, outros aristocratas, que, reunida, fez a Revolução. Uma interpretação muito
mais sutil já havia sido apresentada por um intelectual aristocrata chamado
Alexis de Tocqueville, cujas duas obras principais, Da democracia na
América (1835) e O antigo regime e a revolução (1856), oferecem uma
resposta sem igual à pergunta: por que a França não era a América? Havia,
segundo Tocqueville, cinco diferenças fundamentais entre as duas
sociedades, e, portanto, entre as duas revoluções que estas produziram.
Primeiro, a França era cada vez mais centralizada, ao passo que os Estados
Unidos eram um país naturalmente federal, com uma sociedade civil e uma
vida social provincial agitadas. Segundo, os franceses tenderam a colocar a
vontade geral acima da letra da lei, uma atitude que encontrou resistência na
influente profissão legal nos Estados Unidos. Terceiro, os revolucionários
franceses atacaram a religião e a Igreja que a sustentava, ao passo que o
sectarismo norte-americano forneceu um escudo contra as pretensões das
autoridades seculares. (Tocqueville foi um cético religioso, mas
compreendeu, mais cedo que a maioria, o valor social da religião.) Quarto,
os franceses concederam poder demais a intelectuais irresponsáveis, ao
passo que na América os homens práticos reinavam supremos. Por fim, e o
que era mais importante segundo Tocqueville, os franceses colocaram a
igualdade acima da liberdade. Em suma, eles escolheram Rousseau em vez
de Locke.
No capítulo XIII de Da democracia na América, Tocqueville vai direto ao
ponto:
O cidadão dos Estados Unidos é ensinado desde a tenra infância a confiar em seu próprio esforço
para superar os males e as dificuldades da vida; ele vê a autoridade social com desconfiança e
inquietude, e só pede sua assistência quando é incapaz de avançar sem ela [...] Na América, a
liberdade de associação para fins políticos é irrestrita [...] Os países em que as associações são
mais necessárias, para evitar o despotismo de uma facção ou o poder arbitrário de um príncipe, são
aqueles que são constituídos democraticamente 21.
A debilidade comparativa da sociedade civil francesa foi, portanto,
grande parte do motivo pelo qual as repúblicas francesas tenderam a violar liberdades individuais e a degenerar em autocracias. Mas Tocqueville
incluiu um sexto ponto, quase como uma reflexão tardia:
Na França, a paixão pela guerra é tão intensa que não existe nenhuma outra tarefa que seja tão
insana, ou tão ofensiva ao bem-estar da Nação, que um homem não se considere honrado em
defendê-la, arriscando a própria vida 22.
Aqui, certamente, residia a maior diferença entre as duas revoluções.
Ambas tiveram de guerrear para sobreviver. Mas a guerra que os
revolucionários franceses precisaram travar foi maior e mais longa. Isso fez
toda a diferença.
A partir do momento, em julho de 1791, em que o sacro imperador
romano Leopoldo II convocou seus colegas monarcas para vir em auxílio de
Luís XVI – um chamado atendido primeiro por Frederico Guilherme II,
herdeiro de Frederico, o Grande –, a Revolução Francesa foi obrigada a
lutar por sua vida. As declarações de guerra na Áustria (abril de 1792), e
também na Grã-Bretanha, na Holanda e na Espanha (fevereiro de 1793),
desencadearam uma conflagração que foi muito mais ampla e mais longa
que a Guerra de Independência dos Estados Unidos. De acordo com o
Departamento de Defesa dos Estados Unidos, 4.435 patriotas perderam a
vida defendendo o país até a Batalha de Yorktown; 6.188 foram feridos. Os
números para a Guerra de 1812 foram, respectivamente, 2.260 e 4.50523. A
quantidade de baixas britânicas foi um pouco menor. Mesmo que uma
grande proporção dos feridos tenha perecido e um número significativo de
soldados e civis tenha sucumbido a doenças ou adversidades causadas pela
guerra, este ainda foi um conflito pequeno. Algumas das batalhas mais
celebradas – a de Brandywine ou a própria Batalha de Yorktown – foram
meras brigas para os padrões europeus; na última, o total de norte-
americanos mortos em combate foi apenas 88. Já o número de mortos na
Revolução Francesa e nas Guerras Napoleônicas foi muito maior – segundo
uma estimativa, a mortalidade total em campo de batalha entre 1792 e 1815,
considerando ambos os lados, foi de 3,5 milhões. Segundo um cálculo
conservador, o número de franceses que perdeu a vida defendendo a revolução foi de 20 vezes o de norte-americanos defendendo a sua. E isso
não inclui as vítimas da repressão interna. Estima-se que 17 mil homens e
mulheres franceses tenham sido executados após o devido processo, entre
12 mil e 40 mil tenham ido para a guilhotina ou a forca sem julgamento, e
algo entre 80 mil e 300 mil tenham perecido na opressão da rebelião
monarquista no Vendée24. A Revolução Francesa também causou muito
mais estragos que a Americana em termos econômicos. Os norte-
americanos tiveram inflação seguida de estabilização; os franceses tiveram
hiperinflação, que culminou no colapso do papel-moeda assignat. Toda a
população masculina foi mobilizada para a guerra. Os preços e os salários
foram controlados. A economia de mercado quebrou.
É nesse contexto que a radicalização da Revolução Francesa – a
concretização da profecia de Burke – deve ser entendida. A partir de abril
de 1793, quando o poder ficou concentrado no Comitê de Salvação Pública,
Paris se tornou um caos. Primeiro, os membros da facção do Clube
Jacobino conhecida como girondina (seus rivais mais extremos eram os
montagnards, ou montanheses) foram presos e, em 31 de outubro,
executados. Os próximos candidatos à decapitação seriam os seguidores de
Georges-Jacques Danton (6 de abril de 1794). Enfim, foi a vez de
Maximilien Robespierre encarar a guilhotina – ele a figura dominante no
Comitê de Salvação Pública e o principal defensor do culto de Rousseau à
virtude republicana. No decurso de toda essa danse macabre, cujo
acompanhamento musical era a ainda assustadoramente sanguinária
Marselhesa,25 a acusação mais fatal a ser feita a um “inimigo do povo” era a
de traição. Contratempos militares fomentaram a paranoia. Conforme Burke
havia previsto, pois ele conhecia sua teoria política clássica, tal democracia
inevitavelmente deveria ser suplantada por uma oligarquia e, por fim, pela
tirania de um general. Ao longo de uma década, a Convenção foi
substituída pelo Diretório (outubro de 1795), o Diretório pelo Primeiro
Cônsul (novembro de 1799) e o título de primeiro cônsul pelo de imperador
(dezembro de 1804). O que havia se iniciado com Rousseau terminava com
uma nova versão da queda da república romana.