Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 19 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Os crânios da ilha de Shark

exemplo), com a justificativa de que os africanos eram portadores de

doenças infecciosas. A educação também estava restrita a uma diminuta

elite de “intermediários”80. Um dia os franceses haviam aspirado à

assimilação racial81. Agora, a ciência médica recomendava a separação. Isso

coincidia com a visão predominante de que a “associação” era um objetivo

mais realista do que a assimilação devido à “oposição entre os princípios de

1789 e o conservadorismo das populações não europeias”, conforme

afirmou o teórico colonial Louis Vignon82.

A batalha contra as doenças tropicais não foi travada apenas nas placas de

Petri dos laboratórios; também o foi nas cidades e aldeias africanas. Quando

a peste bubônica acometeu o Senegal, as autoridades francesas reagiram de

maneira implacável. A casa dos infectados foi incendiada; os residentes

foram removidos à força e colocados em quarentena sob guarda armada; os

mortos foram enterrados em creosoto ou cal sem cerimônia, violando as

tradições muçulmanas. Essa foi uma batalha na qual os africanos se

sentiram mais vítimas que beneficiários. Em Dacar, houve protestos e

rebeliões em massa, e a primeira greve geral na história senegalesa83.

Os imperativos da ciência médica requeriam medidas drásticas para

conter a epidemia. Mas a ciência da época também forneceu uma

justificativa espúria para tratar os africanos com brutalidade. Eles não eram

meros ignorantes da ciência médica. De acordo com a teoria eugênica, eram

uma espécie inferior. Em nenhum lugar a pseudociência da eugenia, a meia-

irmã mutante da bacteriologia, teve uma influência mais perniciosa do que

no emergente Império Germânico.

 

Os crânios da ilha de Shark

 

No início do século XX, a Alemanha estava na vanguarda da civilização

ocidental. Foram professores alemães que ganharam a maior parte dos

Prêmios Nobel de ciência: 33% do total concedido entre 1901 e 1910 e 29%

na década seguinte. Foram universidades alemãs que lideraram o mundo em

química e bioquímica. Graduados ambiciosos provenientes de toda a Europa afluíram a Göttingen, Heidelberg e Tübingen para estremecer diante

dos titãs da Wissenschaft alemã. Depois de Pasteur, Robert Koch havia

emergido como a força dominante em bacteriologia. Outro alemão, Emil

von Behring, foi um dos desenvolvedores das antioxinas do tétano e da

difteria, pelas quais recebeu o Prêmio Nobel e a Cruz de Ferro. Dois outros

cientistas alemães, Fritz Schaudinn e Erich Hoffmann, identificaram a

Spirocheta pallida como causa da sífilis, e um terceiro, Paul Ehrlich, foi um

dos inventores do Salvarsan, o primeiro tratamento eficaz para a doença.

Mas esse extraordinário sucesso científico teve um lado sombrio.

Ocultando-se na ciência real havia uma pseudociência, que afirmava que a

humanidade não era uma única espécie mais ou menos homogênea, e sim

subdividida em uma hierarquia que vai de uma “raça superior” ariana até

uma raça negra indigna da designação Homo sapiens. E que lugar melhor

para testar essas teorias do que nas colônias africanas recém-adquiridas pela

Alemanha? A África estava prestes a se tornar outro tipo de laboratório –

desta vez, da biologia racial.

Cada potência europeia tentou dominar a África à sua própria maneira.

Os franceses, conforme vimos, promoveram as ferrovias e os centros de

saúde. Os britânicos fizeram mais do que simplesmente escavar em busca

de ouro e caçar pelos vales; eles também construíram escolas missionárias.

Os belgas transformaram o Congo em um vasto Estado escravo. Os

portugueses fizeram o mínimo possível. Os alemães foram os últimos a

chegar à festa. Para eles, colonizar a África era um experimento gigantesco

para testar, entre outras coisas, uma teoria racial. As primeiras potências

colonizadoras, é claro, haviam sido motivadas por um senso de

superioridade inata. De acordo com a teoria do “darwinismo social”, os

africanos eram biologicamente inferiores, um obstáculo inconveniente ao

desenvolvimento da África por parte dos “arianos” brancos, mais

avançados. Mas nenhuma transformou essa teoria em prática social de

maneira mais cruel que os alemães no Sudoeste Africano, na atual Namíbia.

Primeiro, os alemães reivindicaram a costa árida do Sudoeste Africano

em 1884. Um ano mais tarde, Heinrich Ernst Göring – pai de Hermann,

mais famoso – foi nomeado comissário do Reich. Na época em que Theodor Leutwein foi nomeado primeiro governador da colônia em 1893,

as intenções alemãs estavam se tornando claras: expropriar os povos nativos

hereros e namas e ocupar suas terras com agricultores alemães. Essa

política seria abertamente defendida por Paul von Rohrbach em seu

influente livro Economia colonial alemã (1907)84. Foi um projeto que, na

época, parecia tão cientificamente legítimo quanto a campanha europeia

contra as doenças tropicais.

Em 1851, Francis Galton, primo de Charles Darwin, havia chegado a esse

país árido, porém adorável, sob a égide da Sociedade Geográfica Real. Ao

voltar a Londres, Galton relatou que havia visto “tantas raças selvagens que

tinha material suficiente para estudar pelo resto da vida”. As observações de

Galton sobre os hereros e os namas mais tarde formariam seu pensamento

sobre a evolução humana. Foi o estudo antropométrico de Galton sobre a

hereditariedade humana que assentou as bases para a disciplina que ele

batizou de “eugenia” – o uso da procriação seletiva para melhorar o

conjunto de genes humanos.85 Aqui estava uma solução definitiva para o

problema de saúde pública: uma raça superior de super-humanos, produzida

para resistir aos ataques de patógenos. O ponto crucial a observar é que, há

cem anos, obras como a de Galton estavam na vanguarda da ciência. O

racismo não era uma ideologia reacionária e retrógrada; aqueles que não

tinham formação científica a abraçavam com tanto entusiasmo quanto as

pessoas hoje em dia aceitam a teoria do aquecimento global causado pelo

homem. Foi só na segunda metade do século XX que a eugenia e o conceito

associado de “higiene racial” finalmente caíram em descrédito, com a

percepção de que as diferenças genéticas entre as etnias são relativamente

pequenas, e as variações no interior delas, muito grandes.

Há um século, quase ninguém no Ocidente duvidaria que os homens

brancos eram superiores aos negros. Isto é, quase nenhum branco. A teoria

racial justificava a desigualdade flagrante que mais tarde seria

institucionalizada no sul dos Estados Unidos como segregação e na África

do Sul como “apartheid” – separação. Nas colônias alemãs do Sudoeste

Africano, os negros eram proibidos de cavalgar, eram obrigados a bater

continência para os brancos, não podiam caminhar nas trilhas de pedestres, não tinham o direito de ter bicicletas ou frequentar bibliotecas. Nos

tribunais de direito rudimentares da colônia, a palavra de um alemão valia o

mesmo que a palavra de sete africanos. Os colonizadores eram multados

por crimes como assassinato e estupro, para os quais os africanos eram

sumariamente enforcados. Conforme comentou um missionário, “o alemão

médio olha com superioridade para os nativos, como se estes últimos

estivessem no mesmo nível que os primatas mais evoluídos (babuínos é seu

termo favorito para nativos), e os trata como animais”.86 Os britânicos e os

franceses fizeram um avanço ao abolir a escravidão em suas colônias

durante o século XIX. Os alemães não87.

Houve apenas um pequeno problema. Os hereros e os namas não eram

como se fossem as crianças da teoria racial. Os hereros eram vaqueiros

fortes, habilidosos em manter o gado nos pastos esparsos que se encontram

entre os desertos da Namíbia e do Kalahari. Os namas eram incursionistas,

tão talentosos como cavaleiros e atiradores quanto os bôeres a leste88. Tendo

presenciado os holandeses e britânicos em ação na África do Sul, eles

sabiam muito bem o que os alemães estavam tramando. A situação

econômica dos hereros fora gravemente debilitada na virada do século por

um surto devastador de peste bovina. Em consequência, o processo de

venda de terras aos colonizadores alemães já estava a caminho. Também

havia tensão cada vez maior entre os hereros e os mercadores alemães,

cujos métodos de cobrança de dívidas estavam longe de ser sutis89. Mas os

hereros estavam fadados a resistir à usurpação, sobretudo após uma

sucessão de atos notórios de violência, incluindo o assassinato (e tentativa

de estupro) da nora de um de seus chefes por parte de um colonizador

alemão90.

Foi um jovem tenente chamado Zürn que acendeu o barril de pólvora, ao

falsificar a assinatura de anciãos hereros em documentos determinando as

fronteiras das novas reservas nativas91. Em 12 de janeiro de 1904, sob a

liderança de Samuel Maharero, os hereros se ergueram em rebelião,

matando todo alemão fisicamente apto que puderam encontrar nas

proximidades de Okahandja, poupando, entretanto, mulheres e crianças.

Mais de uma centena de colonizadores foi morta92. Em resposta, o kaiser alemão, Guilherme II, enviou o general Adrian Dietrich Lothar von Trotha

com instruções de “restaurar a ordem [...] por todos os meios necessários”.

Ele escolheu os meios mais repulsivos que estavam a seu alcance.

Os teóricos alemães da colonização já foram mais longe que seus pares

franceses e britânicos quando falaram da necessidade de “erradicação

efetiva” das “tribos [nativas] ruins, culturalmente ineptas e predatórias”. E

agora Trotha decidira colocar essa teoria em prática. Ele prometeu usar o

“terrorismo absoluto” para “destruir as tribos rebeldes derramando rios de

sangue”93. Em um decreto arrepiante dirigido aos hereros, ele soletrou em

otjiherero rudimentar o que a teoria racial alemã significava na prática:

 

Eu sou o grande general dos alemães. Envio um comunicado a vocês, hereros, vocês que são

hereros que já não estão sob os alemães [isto é, que já não estão subordinados aos alemães] [...]

Vocês, hereros, devem deixar esta terra; ela pertence aos alemães. Se não fizerem isso, eu os

expulsarei com o Groot Rohr [grande canhão]. Uma pessoa em terra alemã deve ser morta pela

arma. Eu não capturarei mulheres ou doentes, mas os perseguirei em busca de seus chefes, ou os

matarei com a arma.

Estas são minhas palavras para o povo herero.

O grande general do poderoso kaiser alemão.

Trotha94.

 

A Batalha de Hamakari perto do planalto de Waterberg em 11 de agosto

de 1904 não foi uma batalha. Foi um massacre. Os hereros estavam

concentrados em um grande acampamento, onde, após terem expulsado um

exército alemão, esperavam por negociações de paz. Em vez disso, Trotha

os circundou, iniciou um bombardeio letal e prosseguiu exterminando

homens, mulheres e crianças com metralhadoras automáticas. Como parece

ter sido a intenção do general, os sobreviventes fugiram para o árido deserto

de Omaheke e, em suas palavras, rumo à “perdição”. Os olhos-d’água na

beira do deserto eram estritamente controlados. Nas palavras de um

relatório oficial do comando-geral do Sudoeste Africano: “O Omaheke seco

deve terminar o que as armas alemãs haviam começado: o extermínio do

povo herero”. Trotha foi igualmente explícito: “Acredito que a nação, como

tal, deve ser aniquilada”95.

Os alemães não contaram apenas com o deserto. Os hereros que não

haviam participado do levante foram capturados por “patrulhas de limpeza”

das Schutztruppen (“tropas de proteção”) colonizadoras, cujo lema era

“eliminar, deter, abater” até que todos tenham desaparecido”96. Os que não

foram mortos imediatamente, sobretudo mulheres e crianças, foram

colocados em cinco campos de concentração. Mais tarde, uniram-se a eles

os clãs namas, que cometeram o erro de participar da revolta contra os

alemães e o erro ainda maior de entregar as armas em troca de garantias de

que a vida deles seria poupada. Esses campos de concentração diferiam

daqueles estabelecidos pelos britânicos na África do Sul durante a Guerra

dos Bôeres. Lá, uma guerrilha ainda estava se alastrando, e a intenção era

atrapalhar as linhas de abastecimento dos bôeres; os índices de mortalidade

alarmantes eram consequência não intencional das péssimas condições

sanitárias. Nas colônias alemãs do Sudoeste Africano, a guerra havia

terminado, e o propósito dos campos de concentração era funcionar como

campos de morte. O mais notório ficava na ilha de Shark, perto de Lüderitz.

O campo estava situado na extremidade mais distante da ilha, para

maximizar sua exposição ao vento. Desprovidos de abrigo, vestuário e

alimentação adequados, os prisioneiros eram forçados a construir molhes,

submersos até a cintura na água gelada. Aqueles que faltavam com suas

obrigações eram impiedosamente açoitados pelos guardas, que manejavam

com destreza seus sjamboks. Um missionário chamado August Kuhlman

visitou a ilha em setembro de 1905. Ele ficou horrorizado ao ver uma

mulher exausta receber tiros fatais na coxa e no braço simplesmente por

rastejar em busca de água. Entre setembro de 1906 e março de 1907, um

total de 1.032 de 1.795 prisioneiros na ilha de Shark morreu. O índice final

de mortalidade esteve próximo de 80%. Antes do levante, os hereros

totalizavam 80 mil; depois, restavam apenas 15 mil. Os namas eram 20 mil;

havia menos de 10 mil quando um censo foi feito em 1911. Só um em cada

dez prisioneiros namas sobreviveu aos campos. Com todas as terras hereros

e namas agora confiscadas por um decreto imperial de dezembro de 1905, o

número de colonizadores alemães triplicou, chegando a aproximadamente

15 mil em 1913. Os hereros e namas sobreviventes estavam pouco melhores que os trabalhadores escravos, submetidos a punições físicas brutais diante

da insubordinação mais trivial97.

O sofrimento dos povos nativos do Sudoeste Africano tampouco acabou

ali. Como se não fosse suficiente obliterar a maior parte deles, os alemães

submeteram os povos hereros e namas a outros experimentos em nome da

“higiene racial”. Pelo menos um médico fez experimentos letais em

prisioneiros de campos de concentração no Sudoeste Africano. Em 1906,

778 deles foram submetidos a autópsias em nome das chamadas pesquisas

em biologia racial. Depois disso, amostras de crânios foram enviadas à

Alemanha para investigações complementares. Por incrível que pareça,

prisioneiras foram forçadas a limpar os crânios raspando-os com cacos de

vidro98.

O Dr. Eugen Fischer foi um dos muitos cientistas alemães extremamente

interessados na nova área de pesquisa então em moda – a raça. Intrigado

com o que havia escutado sobre um povo de raça mista no Sudoeste

Africano, os rehoboth basters, Fischer passou dois meses em campo

medindo-os da cabeça aos pés e examinando sua fisionomia. Em 1913, ele

publicou suas descobertas, proclamando-as como a primeira tentativa de

aplicar aos humanos os princípios da hereditariedade genética

desenvolvidos pelo austríaco Gregor Mendel. “Os bastardos”, como ele os

chamava, eram racialmente superiores aos negros puros, mas inferiores aos

brancos puros. Uma pessoa de raça mista, portanto, poderia ser útil na

colônia, na função de policial ou oficial de baixo escalão. Mas toda mistura

racial posterior deveria ser evitada:

 

Sabemos disto com toda a certeza: sem exceção, todo povo europeu [...] que tenha absorvido o

sangue de raças de menos valor – e somente um fanático pode negar que os negros, hotentotes e

muitos outros têm menos valor [do que os brancos] – pagou, por essa absorção, com sua

decadência espiritual [e] cultural 99.

 

A essa altura, já havia um sistema de leis contra a miscigenação nas

colônias alemãs do Sudoeste Africano.

Nem todos na Alemanha compartilhavam de tal visão. Os socialistas e

católicos alemães ergueram a voz para protestar contra o que estava sendo

feito na África por seu país supostamente civilizado100. Até mesmo o teórico

da economia colonial, Paul Rohrbach, condenou a política genocida de

Trotha, salientando que o Sudoeste Africano simplesmente não poderia

funcionar sem a mão de obra africana101. Mas a questão perturbadora ainda

persiste. O Sudoeste Africano teria sido um local de teste para genocídios

futuros, muito maiores?102 Foi, como insinuou Joseph Conrad em seu livro

O coração das trevas, um caso de africanos transformando europeus em

selvagens, em vez de europeus civilizando a África? Onde estava o

verdadeiro coração das trevas? Na África? Ou nos europeus, que a trataram

como um laboratório para uma pseudociência racial que, ao lado da

ideologia do comunismo, está entre as mais letais de todas as exportações

da civilização ocidental?92

Mas as crueldades infligidas aos africanos seriam vingadas de maneira

terrível. Pois a teoria racial era uma ideia demasiado virulenta para ser

confinada à periferia colonial. Com o amanhecer de um novo século, ela

chegou à Europa. A civilização ocidental estava prestes a encontrar seu

adversário mais perigoso: ela mesma.

A guerra que começou em 1914 não foi uma guerra entre alguns poucos

Estados europeus. Foi uma guerra entre impérios mundiais. Foi uma guerra

no interior da civilização ocidental. E foi o primeiro sinal de que o Ocidente

carregava as sementes de sua própria destruição. Nessa guerra, mais do que

em qualquer conflito anterior, o Ocidente lançou seus incríveis aplicativos

contra si próprio. A economia industrial forneceu os meios de destruição

mecanizada. E a medicina moderna também desempenhou seu papel no

negócio sanguinário da guerra total.

Em nenhum outro lugar os problemas de comunicação eram tão graves

quanto na África, e, na ausência de extensas ferrovias e burros de carga

confiáveis, havia uma única solução: homens. Mais de 2 milhões de

africanos serviram na Primeira Guerra Mundial, quase todos como

carregadores de suprimentos, armas e feridos, e, embora estivessem

distantes dos campos de Flandres, esses auxiliares esquecidos tiveram dias tão infernais quanto as tropas que compunham as linhas de frente mais

expostas da Europa. Não só eram subalimentados e trabalhavam em

excesso; uma vez removidos de seu lugar habitual, eles eram tão suscetíveis

a doenças quanto seus senhores brancos. Cerca de um quinto de todos os

africanos empregados como transportadores morreu, muitos deles vítimas

da disenteria que devastou todos os exércitos coloniais nos campos de

batalha. Na África Oriental, 3.156 brancos a serviço dos britânicos

morreram em serviço; destes, menos de um terço foi vítima de ação

inimiga. Mas, se as tropas e os carregadores negros forem incluídos, o total

de mortes foi de mais de 100 mil103.

Conforme vimos, a justificativa comum do domínio branco na África é

que este conferia ao continente os benefícios da civilização. Mas a guerra –

travada em todas as colônias africanas da Alemanha (Togolândia, Camarões

e África Oriental, além do Sudoeste Africano) – zombou de tal pretensão.

“Deixamos um rastro de campos destruídos, armazéns saqueados e, para o

futuro imediato, fome”, escreveu Ludwig Deppe, um médico no exército

alemão da África Oriental. “Já não somos agentes de cultura; nosso

caminho é marcado por morte, pilhagem e vilarejos evacuados, assim como

o percurso de nosso próprio exército e do exército inimigo na Guerra dos

Trinta Anos.”104

Durante a maior parte da Primeira Guerra Mundial, houve um impasse. Os

alemães, na posição de defensores – a quem os franceses e os britânicos

precisavam, de alguma forma, fazer com que abandonassem suas posições

entrincheiradas no fronte ocidental –, levaram vantagem naquele que

acabou sendo o maior cerco da história. Houve um impasse similar nos

frontes de Trentino e Isonzo, onde os italianos não conseguiram desalojar os

austro-húngaros. A guerra no Oriente foi muito mais móvel, mas lá também

os alemães detiveram o controle, apesar dos erros crassos de seus aliados

habsburgos. Tentativas de sair do impasse abrindo novos frontes – Gallipoli,

Tessalônica, Mesopotâmia – tiveram resultados desprezíveis. E tampouco

surgiu alguma superarma, como mais tarde surgiu a bomba atômica; o gás

venenoso foi amplamente usado, com efeitos horríveis, mas não decisivos;

submarinos foram capazes de perturbar as importações comerciais da Grã-Bretanha, mas não de impedi-las. Na primavera de 1917, com a persistência

da guerra de exaustão, as perspectivas para a França foram se tornando

sombrias. Os motins e a revolução na Rússia em fevereiro haviam dado à

Alemanha a esperança de vitória no fronte oriental. Os Estados Unidos,

embora oficialmente em guerra contra a Alemanha desde 6 de abril, não

seriam capazes de desempenhar um papel militar significativo no fronte

ocidental durante pelo menos seis meses. E, após as terríveis perdas sofridas

na Batalha de Verdun (1916), o governo francês estava extremamente

preocupado com a carência de homens. A limitação do tamanho da família

havia começado mais cedo na França do que em outros lugares – talvez

porque as mulheres francesas tivessem mais educação sexual e contassem

com métodos contraceptivos à sua disposição – e, portanto, o número de

jovens franceses era significativamente menor que o de alemães. Antes do

fim de março de 1917, cerca de 1,3 milhão de franceses havia sido morto ou

capturado. Ao todo, as perdas francesas durante a guerra foram quase o

dobro das britânicas. Em torno de um em cada oito franceses entre 15 e 49

anos perderam a vida. O “imposto de sangue” – l’impôt du sang – foi

mesmo oneroso.

É fácil esquecer que a França perdeu duas das três guerras contra a

Alemanha entre 1870 e 1940. Em 1917, o país parecia estar prestes a

perder, também, a Primeira Guerra Mundial. Onde buscariam ajuda? A

resposta é: na África. Embora, conforme vimos, a maioria dos africanos nas

colônias não tivesse direito à plena cidadania francesa, eles ainda eram

considerados elegíveis para portar armas em defesa de la patrie. Mas em

toda parte – no Senegal, no Congo francês, no Sudão francês, em Daomé e

na Costa do Marfim – os africanos se recusaram a atender ao chamado da

metrópole. O ânimo coletivo foi captado pelo lamento de uma mãe a um

oficial francês: “Vocês já levaram tudo que eu tenho, e agora estão levando

meu único filho”. A maioria percebeu que o alistamento no exército

equivalia a uma sentença de “morte certa”. O único homem que parecia

capaz de resolver essa situação era Blaise Diagne, o primeiro africano a ser

eleito à Assembleia Nacional Francesa. Agora, estaria ele disposto a voltar

ao Senegal como uma espécie de sargento recrutador glorificado?

Diagne viu nisso a oportunidade de chegar a um acordo com o primeiro-

ministro Georges Clemenceau. Ele insistiu que todo africano que viesse

lutar deveria receber a cidadania francesa. Mais hospitais e escolas

deveriam ser construídos na África Ocidental. Tirailleurs veteranos

deveriam ser isentos de tributação e receber pensões decentes. Diagne

enviou um telegrama a seus colegas em Dacar para desencorajar o

alistamento se as concessões que ele demandava não fossem feitas105.

Em seu discurso inaugural na Assembleia Nacional Francesa, Diagne

havia declarado: “Se podemos vir até aqui para legislar, somos cidadãos

franceses e, se somos, exigimos o direito de servir [no exército] como

fazem todos os cidadãos franceses”. Foi um apelo engenhoso à tradição da

Revolução Francesa, com seu ideal de nação armada – todos são cidadãos

com direito à liberdade, à igualdade e à fraternidade, mas também com o

solene dever de pegar em armas em defesa da nação. Clemenceau foi

vencido: “Aqueles que sucumbem sob fogo não são nem brancos, nem

negros”, declarou. “Eles sucumbem como franceses, e pela mesma

bandeira.”106

Como um incentivo para entrar para o exército, a promessa de cidadania

francesa se mostrou surpreendentemente bem-sucedida. Pelo menos 63 mil

africanos ocidentais atenderam ao chamado de Diagne, mais que o dobro do

número que os franceses haviam solicitado. Ao todo, 164 mil homens da

África Ocidental e da África Equatorial Francesas foram combatentes na

Europa durante a guerra, uma parte significativa de uma força militar

colonial de meio milhão, oriunda de todo o Império Francês. Como lembrou

um recruta, Ndematy Mbaye: “Ele [Diagne] nos disse que a França havia

entrado em guerra contra os alemães. E disse: ‘Vocês são amigos dos

franceses. E, quando são amigos de alguém – quando alguém está em

dificuldade –, vocês precisam ajudar. Por isso, os franceses pediram [a

vocês] para que venham ajudá-los na guerra’”.107 A maioria dos voluntários

estava entusiasmada, assegurando quanto estavam “contentes” por servir,

“felizes” por lutar, “orgulhosos” por fazer parte do exército. Demba Mboup

estava entre aqueles que ansiavam por lutar pela França: