Civilização: Ocidente X Oriente
Os crânios da ilha de Shark
exemplo), com a justificativa de que os africanos eram portadores de
doenças infecciosas. A educação também estava restrita a uma diminuta
elite de “intermediários”80. Um dia os franceses haviam aspirado à
assimilação racial81. Agora, a ciência médica recomendava a separação. Isso
coincidia com a visão predominante de que a “associação” era um objetivo
mais realista do que a assimilação devido à “oposição entre os princípios de
1789 e o conservadorismo das populações não europeias”, conforme
afirmou o teórico colonial Louis Vignon82.
A batalha contra as doenças tropicais não foi travada apenas nas placas de
Petri dos laboratórios; também o foi nas cidades e aldeias africanas. Quando
a peste bubônica acometeu o Senegal, as autoridades francesas reagiram de
maneira implacável. A casa dos infectados foi incendiada; os residentes
foram removidos à força e colocados em quarentena sob guarda armada; os
mortos foram enterrados em creosoto ou cal sem cerimônia, violando as
tradições muçulmanas. Essa foi uma batalha na qual os africanos se
sentiram mais vítimas que beneficiários. Em Dacar, houve protestos e
rebeliões em massa, e a primeira greve geral na história senegalesa83.
Os imperativos da ciência médica requeriam medidas drásticas para
conter a epidemia. Mas a ciência da época também forneceu uma
justificativa espúria para tratar os africanos com brutalidade. Eles não eram
meros ignorantes da ciência médica. De acordo com a teoria eugênica, eram
uma espécie inferior. Em nenhum lugar a pseudociência da eugenia, a meia-
irmã mutante da bacteriologia, teve uma influência mais perniciosa do que
no emergente Império Germânico.
Os crânios da ilha de Shark
No início do século XX, a Alemanha estava na vanguarda da civilização
ocidental. Foram professores alemães que ganharam a maior parte dos
Prêmios Nobel de ciência: 33% do total concedido entre 1901 e 1910 e 29%
na década seguinte. Foram universidades alemãs que lideraram o mundo em
química e bioquímica. Graduados ambiciosos provenientes de toda a Europa afluíram a Göttingen, Heidelberg e Tübingen para estremecer diante
dos titãs da Wissenschaft alemã. Depois de Pasteur, Robert Koch havia
emergido como a força dominante em bacteriologia. Outro alemão, Emil
von Behring, foi um dos desenvolvedores das antioxinas do tétano e da
difteria, pelas quais recebeu o Prêmio Nobel e a Cruz de Ferro. Dois outros
cientistas alemães, Fritz Schaudinn e Erich Hoffmann, identificaram a
Spirocheta pallida como causa da sífilis, e um terceiro, Paul Ehrlich, foi um
dos inventores do Salvarsan, o primeiro tratamento eficaz para a doença.
Mas esse extraordinário sucesso científico teve um lado sombrio.
Ocultando-se na ciência real havia uma pseudociência, que afirmava que a
humanidade não era uma única espécie mais ou menos homogênea, e sim
subdividida em uma hierarquia que vai de uma “raça superior” ariana até
uma raça negra indigna da designação Homo sapiens. E que lugar melhor
para testar essas teorias do que nas colônias africanas recém-adquiridas pela
Alemanha? A África estava prestes a se tornar outro tipo de laboratório –
desta vez, da biologia racial.
Cada potência europeia tentou dominar a África à sua própria maneira.
Os franceses, conforme vimos, promoveram as ferrovias e os centros de
saúde. Os britânicos fizeram mais do que simplesmente escavar em busca
de ouro e caçar pelos vales; eles também construíram escolas missionárias.
Os belgas transformaram o Congo em um vasto Estado escravo. Os
portugueses fizeram o mínimo possível. Os alemães foram os últimos a
chegar à festa. Para eles, colonizar a África era um experimento gigantesco
para testar, entre outras coisas, uma teoria racial. As primeiras potências
colonizadoras, é claro, haviam sido motivadas por um senso de
superioridade inata. De acordo com a teoria do “darwinismo social”, os
africanos eram biologicamente inferiores, um obstáculo inconveniente ao
desenvolvimento da África por parte dos “arianos” brancos, mais
avançados. Mas nenhuma transformou essa teoria em prática social de
maneira mais cruel que os alemães no Sudoeste Africano, na atual Namíbia.
Primeiro, os alemães reivindicaram a costa árida do Sudoeste Africano
em 1884. Um ano mais tarde, Heinrich Ernst Göring – pai de Hermann,
mais famoso – foi nomeado comissário do Reich. Na época em que Theodor Leutwein foi nomeado primeiro governador da colônia em 1893,
as intenções alemãs estavam se tornando claras: expropriar os povos nativos
hereros e namas e ocupar suas terras com agricultores alemães. Essa
política seria abertamente defendida por Paul von Rohrbach em seu
influente livro Economia colonial alemã (1907)84. Foi um projeto que, na
época, parecia tão cientificamente legítimo quanto a campanha europeia
contra as doenças tropicais.
Em 1851, Francis Galton, primo de Charles Darwin, havia chegado a esse
país árido, porém adorável, sob a égide da Sociedade Geográfica Real. Ao
voltar a Londres, Galton relatou que havia visto “tantas raças selvagens que
tinha material suficiente para estudar pelo resto da vida”. As observações de
Galton sobre os hereros e os namas mais tarde formariam seu pensamento
sobre a evolução humana. Foi o estudo antropométrico de Galton sobre a
hereditariedade humana que assentou as bases para a disciplina que ele
batizou de “eugenia” – o uso da procriação seletiva para melhorar o
conjunto de genes humanos.85 Aqui estava uma solução definitiva para o
problema de saúde pública: uma raça superior de super-humanos, produzida
para resistir aos ataques de patógenos. O ponto crucial a observar é que, há
cem anos, obras como a de Galton estavam na vanguarda da ciência. O
racismo não era uma ideologia reacionária e retrógrada; aqueles que não
tinham formação científica a abraçavam com tanto entusiasmo quanto as
pessoas hoje em dia aceitam a teoria do aquecimento global causado pelo
homem. Foi só na segunda metade do século XX que a eugenia e o conceito
associado de “higiene racial” finalmente caíram em descrédito, com a
percepção de que as diferenças genéticas entre as etnias são relativamente
pequenas, e as variações no interior delas, muito grandes.
Há um século, quase ninguém no Ocidente duvidaria que os homens
brancos eram superiores aos negros. Isto é, quase nenhum branco. A teoria
racial justificava a desigualdade flagrante que mais tarde seria
institucionalizada no sul dos Estados Unidos como segregação e na África
do Sul como “apartheid” – separação. Nas colônias alemãs do Sudoeste
Africano, os negros eram proibidos de cavalgar, eram obrigados a bater
continência para os brancos, não podiam caminhar nas trilhas de pedestres, não tinham o direito de ter bicicletas ou frequentar bibliotecas. Nos
tribunais de direito rudimentares da colônia, a palavra de um alemão valia o
mesmo que a palavra de sete africanos. Os colonizadores eram multados
por crimes como assassinato e estupro, para os quais os africanos eram
sumariamente enforcados. Conforme comentou um missionário, “o alemão
médio olha com superioridade para os nativos, como se estes últimos
estivessem no mesmo nível que os primatas mais evoluídos (babuínos é seu
termo favorito para nativos), e os trata como animais”.86 Os britânicos e os
franceses fizeram um avanço ao abolir a escravidão em suas colônias
durante o século XIX. Os alemães não87.
Houve apenas um pequeno problema. Os hereros e os namas não eram
como se fossem as crianças da teoria racial. Os hereros eram vaqueiros
fortes, habilidosos em manter o gado nos pastos esparsos que se encontram
entre os desertos da Namíbia e do Kalahari. Os namas eram incursionistas,
tão talentosos como cavaleiros e atiradores quanto os bôeres a leste88. Tendo
presenciado os holandeses e britânicos em ação na África do Sul, eles
sabiam muito bem o que os alemães estavam tramando. A situação
econômica dos hereros fora gravemente debilitada na virada do século por
um surto devastador de peste bovina. Em consequência, o processo de
venda de terras aos colonizadores alemães já estava a caminho. Também
havia tensão cada vez maior entre os hereros e os mercadores alemães,
cujos métodos de cobrança de dívidas estavam longe de ser sutis89. Mas os
hereros estavam fadados a resistir à usurpação, sobretudo após uma
sucessão de atos notórios de violência, incluindo o assassinato (e tentativa
de estupro) da nora de um de seus chefes por parte de um colonizador
alemão90.
Foi um jovem tenente chamado Zürn que acendeu o barril de pólvora, ao
falsificar a assinatura de anciãos hereros em documentos determinando as
fronteiras das novas reservas nativas91. Em 12 de janeiro de 1904, sob a
liderança de Samuel Maharero, os hereros se ergueram em rebelião,
matando todo alemão fisicamente apto que puderam encontrar nas
proximidades de Okahandja, poupando, entretanto, mulheres e crianças.
Mais de uma centena de colonizadores foi morta92. Em resposta, o kaiser alemão, Guilherme II, enviou o general Adrian Dietrich Lothar von Trotha
com instruções de “restaurar a ordem [...] por todos os meios necessários”.
Ele escolheu os meios mais repulsivos que estavam a seu alcance.
Os teóricos alemães da colonização já foram mais longe que seus pares
franceses e britânicos quando falaram da necessidade de “erradicação
efetiva” das “tribos [nativas] ruins, culturalmente ineptas e predatórias”. E
agora Trotha decidira colocar essa teoria em prática. Ele prometeu usar o
“terrorismo absoluto” para “destruir as tribos rebeldes derramando rios de
sangue”93. Em um decreto arrepiante dirigido aos hereros, ele soletrou em
otjiherero rudimentar o que a teoria racial alemã significava na prática:
Eu sou o grande general dos alemães. Envio um comunicado a vocês, hereros, vocês que são
hereros que já não estão sob os alemães [isto é, que já não estão subordinados aos alemães] [...]
Vocês, hereros, devem deixar esta terra; ela pertence aos alemães. Se não fizerem isso, eu os
expulsarei com o Groot Rohr [grande canhão]. Uma pessoa em terra alemã deve ser morta pela
arma. Eu não capturarei mulheres ou doentes, mas os perseguirei em busca de seus chefes, ou os
matarei com a arma.
Estas são minhas palavras para o povo herero.
O grande general do poderoso kaiser alemão.
Trotha94.
A Batalha de Hamakari perto do planalto de Waterberg em 11 de agosto
de 1904 não foi uma batalha. Foi um massacre. Os hereros estavam
concentrados em um grande acampamento, onde, após terem expulsado um
exército alemão, esperavam por negociações de paz. Em vez disso, Trotha
os circundou, iniciou um bombardeio letal e prosseguiu exterminando
homens, mulheres e crianças com metralhadoras automáticas. Como parece
ter sido a intenção do general, os sobreviventes fugiram para o árido deserto
de Omaheke e, em suas palavras, rumo à “perdição”. Os olhos-d’água na
beira do deserto eram estritamente controlados. Nas palavras de um
relatório oficial do comando-geral do Sudoeste Africano: “O Omaheke seco
deve terminar o que as armas alemãs haviam começado: o extermínio do
povo herero”. Trotha foi igualmente explícito: “Acredito que a nação, como
tal, deve ser aniquilada”95.
Os alemães não contaram apenas com o deserto. Os hereros que não
haviam participado do levante foram capturados por “patrulhas de limpeza”
das Schutztruppen (“tropas de proteção”) colonizadoras, cujo lema era
“eliminar, deter, abater” até que todos tenham desaparecido”96. Os que não
foram mortos imediatamente, sobretudo mulheres e crianças, foram
colocados em cinco campos de concentração. Mais tarde, uniram-se a eles
os clãs namas, que cometeram o erro de participar da revolta contra os
alemães e o erro ainda maior de entregar as armas em troca de garantias de
que a vida deles seria poupada. Esses campos de concentração diferiam
daqueles estabelecidos pelos britânicos na África do Sul durante a Guerra
dos Bôeres. Lá, uma guerrilha ainda estava se alastrando, e a intenção era
atrapalhar as linhas de abastecimento dos bôeres; os índices de mortalidade
alarmantes eram consequência não intencional das péssimas condições
sanitárias. Nas colônias alemãs do Sudoeste Africano, a guerra havia
terminado, e o propósito dos campos de concentração era funcionar como
campos de morte. O mais notório ficava na ilha de Shark, perto de Lüderitz.
O campo estava situado na extremidade mais distante da ilha, para
maximizar sua exposição ao vento. Desprovidos de abrigo, vestuário e
alimentação adequados, os prisioneiros eram forçados a construir molhes,
submersos até a cintura na água gelada. Aqueles que faltavam com suas
obrigações eram impiedosamente açoitados pelos guardas, que manejavam
com destreza seus sjamboks. Um missionário chamado August Kuhlman
visitou a ilha em setembro de 1905. Ele ficou horrorizado ao ver uma
mulher exausta receber tiros fatais na coxa e no braço simplesmente por
rastejar em busca de água. Entre setembro de 1906 e março de 1907, um
total de 1.032 de 1.795 prisioneiros na ilha de Shark morreu. O índice final
de mortalidade esteve próximo de 80%. Antes do levante, os hereros
totalizavam 80 mil; depois, restavam apenas 15 mil. Os namas eram 20 mil;
havia menos de 10 mil quando um censo foi feito em 1911. Só um em cada
dez prisioneiros namas sobreviveu aos campos. Com todas as terras hereros
e namas agora confiscadas por um decreto imperial de dezembro de 1905, o
número de colonizadores alemães triplicou, chegando a aproximadamente
15 mil em 1913. Os hereros e namas sobreviventes estavam pouco melhores que os trabalhadores escravos, submetidos a punições físicas brutais diante
da insubordinação mais trivial97.
O sofrimento dos povos nativos do Sudoeste Africano tampouco acabou
ali. Como se não fosse suficiente obliterar a maior parte deles, os alemães
submeteram os povos hereros e namas a outros experimentos em nome da
“higiene racial”. Pelo menos um médico fez experimentos letais em
prisioneiros de campos de concentração no Sudoeste Africano. Em 1906,
778 deles foram submetidos a autópsias em nome das chamadas pesquisas
em biologia racial. Depois disso, amostras de crânios foram enviadas à
Alemanha para investigações complementares. Por incrível que pareça,
prisioneiras foram forçadas a limpar os crânios raspando-os com cacos de
vidro98.
O Dr. Eugen Fischer foi um dos muitos cientistas alemães extremamente
interessados na nova área de pesquisa então em moda – a raça. Intrigado
com o que havia escutado sobre um povo de raça mista no Sudoeste
Africano, os rehoboth basters, Fischer passou dois meses em campo
medindo-os da cabeça aos pés e examinando sua fisionomia. Em 1913, ele
publicou suas descobertas, proclamando-as como a primeira tentativa de
aplicar aos humanos os princípios da hereditariedade genética
desenvolvidos pelo austríaco Gregor Mendel. “Os bastardos”, como ele os
chamava, eram racialmente superiores aos negros puros, mas inferiores aos
brancos puros. Uma pessoa de raça mista, portanto, poderia ser útil na
colônia, na função de policial ou oficial de baixo escalão. Mas toda mistura
racial posterior deveria ser evitada:
Sabemos disto com toda a certeza: sem exceção, todo povo europeu [...] que tenha absorvido o
sangue de raças de menos valor – e somente um fanático pode negar que os negros, hotentotes e
muitos outros têm menos valor [do que os brancos] – pagou, por essa absorção, com sua
decadência espiritual [e] cultural 99.
A essa altura, já havia um sistema de leis contra a miscigenação nas
colônias alemãs do Sudoeste Africano.
Nem todos na Alemanha compartilhavam de tal visão. Os socialistas e
católicos alemães ergueram a voz para protestar contra o que estava sendo
feito na África por seu país supostamente civilizado100. Até mesmo o teórico
da economia colonial, Paul Rohrbach, condenou a política genocida de
Trotha, salientando que o Sudoeste Africano simplesmente não poderia
funcionar sem a mão de obra africana101. Mas a questão perturbadora ainda
persiste. O Sudoeste Africano teria sido um local de teste para genocídios
futuros, muito maiores?102 Foi, como insinuou Joseph Conrad em seu livro
O coração das trevas, um caso de africanos transformando europeus em
selvagens, em vez de europeus civilizando a África? Onde estava o
verdadeiro coração das trevas? Na África? Ou nos europeus, que a trataram
como um laboratório para uma pseudociência racial que, ao lado da
ideologia do comunismo, está entre as mais letais de todas as exportações
da civilização ocidental?92
Mas as crueldades infligidas aos africanos seriam vingadas de maneira
terrível. Pois a teoria racial era uma ideia demasiado virulenta para ser
confinada à periferia colonial. Com o amanhecer de um novo século, ela
chegou à Europa. A civilização ocidental estava prestes a encontrar seu
adversário mais perigoso: ela mesma.
A guerra que começou em 1914 não foi uma guerra entre alguns poucos
Estados europeus. Foi uma guerra entre impérios mundiais. Foi uma guerra
no interior da civilização ocidental. E foi o primeiro sinal de que o Ocidente
carregava as sementes de sua própria destruição. Nessa guerra, mais do que
em qualquer conflito anterior, o Ocidente lançou seus incríveis aplicativos
contra si próprio. A economia industrial forneceu os meios de destruição
mecanizada. E a medicina moderna também desempenhou seu papel no
negócio sanguinário da guerra total.
Em nenhum outro lugar os problemas de comunicação eram tão graves
quanto na África, e, na ausência de extensas ferrovias e burros de carga
confiáveis, havia uma única solução: homens. Mais de 2 milhões de
africanos serviram na Primeira Guerra Mundial, quase todos como
carregadores de suprimentos, armas e feridos, e, embora estivessem
distantes dos campos de Flandres, esses auxiliares esquecidos tiveram dias tão infernais quanto as tropas que compunham as linhas de frente mais
expostas da Europa. Não só eram subalimentados e trabalhavam em
excesso; uma vez removidos de seu lugar habitual, eles eram tão suscetíveis
a doenças quanto seus senhores brancos. Cerca de um quinto de todos os
africanos empregados como transportadores morreu, muitos deles vítimas
da disenteria que devastou todos os exércitos coloniais nos campos de
batalha. Na África Oriental, 3.156 brancos a serviço dos britânicos
morreram em serviço; destes, menos de um terço foi vítima de ação
inimiga. Mas, se as tropas e os carregadores negros forem incluídos, o total
de mortes foi de mais de 100 mil103.
Conforme vimos, a justificativa comum do domínio branco na África é
que este conferia ao continente os benefícios da civilização. Mas a guerra –
travada em todas as colônias africanas da Alemanha (Togolândia, Camarões
e África Oriental, além do Sudoeste Africano) – zombou de tal pretensão.
“Deixamos um rastro de campos destruídos, armazéns saqueados e, para o
futuro imediato, fome”, escreveu Ludwig Deppe, um médico no exército
alemão da África Oriental. “Já não somos agentes de cultura; nosso
caminho é marcado por morte, pilhagem e vilarejos evacuados, assim como
o percurso de nosso próprio exército e do exército inimigo na Guerra dos
Trinta Anos.”104
Durante a maior parte da Primeira Guerra Mundial, houve um impasse. Os
alemães, na posição de defensores – a quem os franceses e os britânicos
precisavam, de alguma forma, fazer com que abandonassem suas posições
entrincheiradas no fronte ocidental –, levaram vantagem naquele que
acabou sendo o maior cerco da história. Houve um impasse similar nos
frontes de Trentino e Isonzo, onde os italianos não conseguiram desalojar os
austro-húngaros. A guerra no Oriente foi muito mais móvel, mas lá também
os alemães detiveram o controle, apesar dos erros crassos de seus aliados
habsburgos. Tentativas de sair do impasse abrindo novos frontes – Gallipoli,
Tessalônica, Mesopotâmia – tiveram resultados desprezíveis. E tampouco
surgiu alguma superarma, como mais tarde surgiu a bomba atômica; o gás
venenoso foi amplamente usado, com efeitos horríveis, mas não decisivos;
submarinos foram capazes de perturbar as importações comerciais da Grã-Bretanha, mas não de impedi-las. Na primavera de 1917, com a persistência
da guerra de exaustão, as perspectivas para a França foram se tornando
sombrias. Os motins e a revolução na Rússia em fevereiro haviam dado à
Alemanha a esperança de vitória no fronte oriental. Os Estados Unidos,
embora oficialmente em guerra contra a Alemanha desde 6 de abril, não
seriam capazes de desempenhar um papel militar significativo no fronte
ocidental durante pelo menos seis meses. E, após as terríveis perdas sofridas
na Batalha de Verdun (1916), o governo francês estava extremamente
preocupado com a carência de homens. A limitação do tamanho da família
havia começado mais cedo na França do que em outros lugares – talvez
porque as mulheres francesas tivessem mais educação sexual e contassem
com métodos contraceptivos à sua disposição – e, portanto, o número de
jovens franceses era significativamente menor que o de alemães. Antes do
fim de março de 1917, cerca de 1,3 milhão de franceses havia sido morto ou
capturado. Ao todo, as perdas francesas durante a guerra foram quase o
dobro das britânicas. Em torno de um em cada oito franceses entre 15 e 49
anos perderam a vida. O “imposto de sangue” – l’impôt du sang – foi
mesmo oneroso.
É fácil esquecer que a França perdeu duas das três guerras contra a
Alemanha entre 1870 e 1940. Em 1917, o país parecia estar prestes a
perder, também, a Primeira Guerra Mundial. Onde buscariam ajuda? A
resposta é: na África. Embora, conforme vimos, a maioria dos africanos nas
colônias não tivesse direito à plena cidadania francesa, eles ainda eram
considerados elegíveis para portar armas em defesa de la patrie. Mas em
toda parte – no Senegal, no Congo francês, no Sudão francês, em Daomé e
na Costa do Marfim – os africanos se recusaram a atender ao chamado da
metrópole. O ânimo coletivo foi captado pelo lamento de uma mãe a um
oficial francês: “Vocês já levaram tudo que eu tenho, e agora estão levando
meu único filho”. A maioria percebeu que o alistamento no exército
equivalia a uma sentença de “morte certa”. O único homem que parecia
capaz de resolver essa situação era Blaise Diagne, o primeiro africano a ser
eleito à Assembleia Nacional Francesa. Agora, estaria ele disposto a voltar
ao Senegal como uma espécie de sargento recrutador glorificado?
Diagne viu nisso a oportunidade de chegar a um acordo com o primeiro-
ministro Georges Clemenceau. Ele insistiu que todo africano que viesse
lutar deveria receber a cidadania francesa. Mais hospitais e escolas
deveriam ser construídos na África Ocidental. Tirailleurs veteranos
deveriam ser isentos de tributação e receber pensões decentes. Diagne
enviou um telegrama a seus colegas em Dacar para desencorajar o
alistamento se as concessões que ele demandava não fossem feitas105.
Em seu discurso inaugural na Assembleia Nacional Francesa, Diagne
havia declarado: “Se podemos vir até aqui para legislar, somos cidadãos
franceses e, se somos, exigimos o direito de servir [no exército] como
fazem todos os cidadãos franceses”. Foi um apelo engenhoso à tradição da
Revolução Francesa, com seu ideal de nação armada – todos são cidadãos
com direito à liberdade, à igualdade e à fraternidade, mas também com o
solene dever de pegar em armas em defesa da nação. Clemenceau foi
vencido: “Aqueles que sucumbem sob fogo não são nem brancos, nem
negros”, declarou. “Eles sucumbem como franceses, e pela mesma
bandeira.”106
Como um incentivo para entrar para o exército, a promessa de cidadania
francesa se mostrou surpreendentemente bem-sucedida. Pelo menos 63 mil
africanos ocidentais atenderam ao chamado de Diagne, mais que o dobro do
número que os franceses haviam solicitado. Ao todo, 164 mil homens da
África Ocidental e da África Equatorial Francesas foram combatentes na
Europa durante a guerra, uma parte significativa de uma força militar
colonial de meio milhão, oriunda de todo o Império Francês. Como lembrou
um recruta, Ndematy Mbaye: “Ele [Diagne] nos disse que a França havia
entrado em guerra contra os alemães. E disse: ‘Vocês são amigos dos
franceses. E, quando são amigos de alguém – quando alguém está em
dificuldade –, vocês precisam ajudar. Por isso, os franceses pediram [a
vocês] para que venham ajudá-los na guerra’”.107 A maioria dos voluntários
estava entusiasmada, assegurando quanto estavam “contentes” por servir,
“felizes” por lutar, “orgulhosos” por fazer parte do exército. Demba Mboup
estava entre aqueles que ansiavam por lutar pela França: