Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 3 de 33

Páginas do PDF

Civilização: Ocidente X Oriente

1 Competição

1

 

Competição

 

A China parece estar há muito tempo estacionada, tendo adquirido, provavelmente há muito tempo, todas as riquezas compatíveis com a natureza de suas leis e instituições. Mas essas riquezas talvez sejam muito inferiores ao que seu solo, clima e localização poderiam permitir se a região contasse com outras leis e instituições. Um país que negligencia ou menospreza o comércio exterior, e que permite os navios de nações estrangeiras apenas em um ou dois de seus portos, não tem como fazer o mesmo volume de negócios que poderia se tivesse leis e instituições diferentes [...] Um comércio exterior mais abrangente [...] certamente promoveria um grande aumento das manufaturas da China e melhoraria muitíssimo as capacidades produtivas de sua indústria manufatureira. Com uma navegação mais abrangente, os chineses naturalmente aprenderiam a arte de usar e construir, eles próprios, todos os tipos de máquinas usadas em outros países, bem como as outras melhorias técnicas e industriais que são promovidas em todas as partes do mundo.

ADAM SMITH

 

Por que eles são pequenos e, ao mesmo tempo, fortes? Por que nós somos grandes e, ao mesmo tempo, fracos? [...] Com os bárbaros, só precisamos aprender sobre [...] navios resistentes e armas eficazes.

FENG GUIFEN

 

Dois rios

 

A Cidade Proibida (Gugong) foi construída no coração de Pequim por mais

de 1 milhão de trabalhadores, usando materiais provenientes de todo o

império chinês. Com aproximadamente mil edificações dispostas,

construídas e decoradas para simbolizar o poder da dinastia Ming, a Cidade

Proibida não é apenas uma relíquia daquela que foi um dia a maior civilização do mundo; é também um lembrete de que nenhuma civilização

dura para sempre. Em 1776, Adam Smith ainda podia se referir à China

como “um dos países mais ricos, isto é, um dos mais férteis, mais bem

cultivados, mais industriosos e mais populosos do mundo [...], um país

muito mais rico que qualquer parte da Europa”. Mas Smith também

identificou a China como “há muito tempo estacionada” ou “estagnada”1.

Nesse aspecto, ele certamente tinha razão. Pode-se afirmar que, em menos

de um século após a construção da Cidade Proibida entre 1406 e 1420, teve

início o declínio do Oriente. Já os pequenos Estados da Europa Ocidental,

empobrecidos e divididos por conflitos, embarcaram em meio milênio de

expansão quase ininterrupta. Enquanto isso, os grandes impérios do Oriente

estagnaram e, por fim, sucumbiram à dominação ocidental.

Por que a China afundou enquanto a Europa progrediu? A principal

resposta de Smith é que os chineses foram incapazes de “encorajar o

comércio exterior” e, portanto, não colheram os benefícios da vantagem

comparativa e da divisão internacional do trabalho. Mas outras explicações

eram possíveis. Escrevendo na década de 1740, Charles de Secondat, barão

de Montesquieu, culpou o “plano de tirania estabelecido”, que ele atribuía à

população excepcionalmente grande da China, que, por sua vez, se devia ao

clima do Leste Asiático:

 

Eu penso o seguinte: a Ásia não tem uma zona temperada, já que os lugares situados em um clima

muito frio estão lado a lado com aqueles que são excessivamente quentes, isto é, Turquia, Pérsia,

Índia, China, Coreia e Japão. Na Europa, ao contrário, a zona temperada é muito extensa [...] e por

isso cada [país] se assemelha ao país adjacente; não há grandes diferenças entre eles [...] Daí

decorre que, na Ásia, as nações fortes se opõem às fracas; os povos valentes, ativos e belicosos

estão lado a lado com aqueles que são indolentes, efeminados e medrosos; um deve, portanto,

conquistar, e o outro, ser conquistado. Na Europa, ao contrário, nações fortes se opõem a nações

fortes; e aquelas que são vizinhas têm praticamente a mesma coragem. Este é o grande motivo da

fraqueza da Ásia, e da força da Europa; da liberdade da Europa, e da escravidão da Ásia: um

motivo que eu não me recordo de haver sido salientado alguma vez2.

 

Escritores europeus posteriores acreditavam que foi a tecnologia do

Ocidente que superou a do Oriente – em particular, a tecnologia que

culminou na Revolução Industrial. Esta foi, sem dúvida, a impressão que teve o conde Macartney em sua missão notadamente frustrante à corte

imperial chinesa em 1793 (ver a seguir). Outro argumento, popular no

século XX, era que a filosofia confuciana inibia a inovação. Mas essas

explicações da época para o mau desempenho oriental estavam

equivocadas. O primeiro dos seis atributos que o Ocidente tinha, e que

faltava ao Oriente, não era comercial, nem climático, nem tecnológico, nem

filosófico. Era, acima de tudo, conforme identificou Adam Smith,

institucional.

Se, em 1420, você fizesse duas viagens por dois rios diferentes – o Tâmisa

e o Yangtze –, ficaria impressionado com o contraste.

O Yangtze era parte de um vasto complexo de canais que ligava Nanquim

a Pequim, mais de 800 quilômetros para o norte, e a Hancheu, ao sul. No

centro desse sistema, estava o Grande Canal, que, em sua máxima extensão,

tinha mais de 1000 quilômetros. Datando do século VII a.C., com

comportas introduzidas no século X d.C. e belíssimas pontes como a

Baodai, cheia de arcos, o Canal foi significativamente restaurado e

aprimorado durante o reinado do imperador Yongle (1402-24), da dinastia

Ming. Quando o engenheiro responsável, Bai Ying, terminou de represar e

desviar o fluxo do rio Amarelo, foi possível transportar cerca de 12 mil

carregamentos de grãos pelo Canal a cada ano3. Aproximadamente 50 mil

homens foram empregados em sua manutenção. No Ocidente, é claro, o

maior de todos os grandes canais sempre será o de Veneza. Mas até mesmo

Marco Polo, o intrépido viajante veneziano, quando visitou a China na

década de 1270, ficou impressionado com o volume de tráfego no Yangtze:

 

A quantidade de embarcações que cobrem este imenso rio é tão grande que ninguém acreditaria. O

volume de mercadorias transportadas para cima e para baixo ultrapassa todo entendimento. De

fato, é tão grande que parece ser um mar em vez de um rio.

 

O Grande Canal da China não só serviu como a principal artéria de

comércio interno, como também permitiu que o governo imperial

estabilizasse o preço dos grãos por meio dos cinco celeiros estatais, que

compravam quando o grão estava barato e vendiam quando estava caro4.

Nanquim era provavelmente a maior cidade do mundo em 1420, com

uma população de meio a 1 milhão. Durante séculos, foi um próspero

centro de manufatura de algodão e seda. Sob o imperador Yongle, também

se tornou um centro de estudos. O nome Yongle significa “felicidade

perpétua”; ação perpétua talvez fosse uma descrição melhor. O mais

importante de todos os imperadores da dinastia Ming não fazia nada pela

metade. O compêndio de estudos chineses que ele encomendou demandou o

trabalho de mais de 2 mil estudiosos e encheu mais de 11 mil volumes. Foi

a maior enciclopédia do mundo até 2007, quando, após um domínio de

quase 600 anos, foi superada pela Wikipedia.

Mas Yongle não estava satisfeito com Nanquim. Logo após assumir o

trono, ele resolveu construir uma nova capital ao norte, mais espetacular:

Pequim. Em 1420, quando a Cidade Proibida estava terminada, a China da

dinastia Ming proclamava, não sem razão, ser a civilização mais avançada

do mundo.

Em comparação com o Yangtze, o Tâmisa, no início do século XV, era um

verdadeiro fim de mundo. Londres era um porto movimentado, é verdade; o

principal centro de comércio inglês com o continente. O mais famoso

prefeito da cidade, Richard Whittington, era um importante comerciante de

seda que fizera fortuna com a exportação de lã, em notável crescimento na

Inglaterra. E a indústria de construção naval da capital inglesa era

impulsionada pela necessidade de transportar homens e suprimentos para as

recorrentes campanhas da Inglaterra contra a França. Em Shadwell e

Ratcliffe, os navios podiam ser rebocados em ancoradouros para ser

reabastecidos. E havia, é claro, a Torre de Londres, mais sinistra que

proibida.

Mas um visitante que viesse da China dificilmente ficaria impressionado

com tudo isso. A própria Torre era uma construção rudimentar em

comparação com os vários salões da Cidade Proibida. A Ponte de Londres

era uma feira canhestra sobre palafitas se comparada à ponte Baodai. E as

técnicas de navegação primitivas confinavam os navegantes ingleses a

faixas estreitas de água – o Tâmisa e o Canal – de onde podiam avistar

bancos e litorais conhecidos. Nada poderia ter sido mais inimaginável, tanto para os ingleses quanto para os chineses, do que a ideia de navios londrinos

velejando pelo Yangtze.

Em comparação com Nanquim, a Londres à qual Henrique V retornou em

1421, após sua vitória sobre a França – a mais famosa de todas em

Agincourt –, mal podia ser chamada de cidade. Seus muros velhos e

remendados se estendiam por cerca de cinco quilômetros – mais uma vez,

uma fração do tamanho dos de Nanquim. O fundador da dinastia Ming

levou mais de 20 anos para construir o muro em torno da capital, e este se

estendia por mais de 30 quilômetros, com portões tão grandes que um único

portão era capaz de abrigar 3 mil soldados. E foi construído para durar.

Grande parte dele ainda está de pé, ao passo que pouca coisa resta do muro

medieval de Londres.

Para os padrões do século XV, a China era um lugar relativamente

agradável de se viver. A rígida ordem feudal estabelecida no início da

dinastia Ming estava sendo afrouxada com o florescimento do comércio

interno5. Quem visita Suzhou hoje em dia ainda pode ver os frutos

arquitetônicos daquela prosperidade nos canais arborizados e nas calçadas

elegantes do velho centro da cidade. A peste negra – a praga bubônica

causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida pela mosca, que atingiu a

Inglaterra em 1349 – havia reduzido a população de Londres a cerca de 40

mil, menos de um décimo do tamanho da de Nanquim. Além da praga, o

tifo, a disenteria e a varíola também eram abundantes. E, mesmo na

ausência de epidemias, a falta de saneamento fazia de Londres uma

armadilha fatal. Sem qualquer espécie de sistema de esgoto, as ruas fediam

a céu aberto, enquanto nas cidades chinesas os excrementos humanos eram

sistematicamente coletados e usados como fertilizantes em arrozais

afastados. Quando Dick Whittington foi prefeito da cidade – quatro vezes

entre 1397 e sua morte em 1423 –, as ruas de Londres eram pavimentadas

com algo muito menos fascinante que ouro.

Nas escolas, as crianças normalmente são levadas a pensar que Henrique

V é uma das grandes figuras heroicas da história inglesa, a antítese de seus

predecessores com a exceção de um, o decadente Ricardo II. Sinto dizer,

mas o reino deles estava muito longe da “ilha coroada” do Ricardo II de Shakespeare – parecia mais uma ilha séptica. O dramaturgo chamou-a de

“esse outro Éden, quase um paraíso,/ Essa Fortaleza construída pela própria

Natureza/ Contra a infecção […]”. Mas, entre 1540 e 1800, a expectativa de

vida ao nascimento na Inglaterra era, em média, de míseros 37 anos; no

caso de Londres, esse número ficava na casa dos 20. Aproximadamente

uma em cada cinco crianças inglesas morria no primeiro ano de vida; em

Londres, quase uma em cada três. O próprio Henrique V tornou-se rei aos

26 e morreu de disenteria aos 35 – um lembrete de que a maior parte da

história, até pouco tempo atrás, foi feita por pessoas muito jovens e de vida

curta.

A violência era endêmica. A guerra contra a França era quase uma

situação permanente. Quando não estavam guerreando contra os franceses,

os ingleses lutavam contra os galeses, os escoceses e os irlandeses. Quando

não era contra os celtas, lutavam entre si, em uma sucessão de guerras pelo

controle da coroa. O pai de Henrique V chegara ao trono por meio da

violência; seu filho, Henrique VI, o perdeu por meios similares, com a

irrupção da Guerra das Rosas, que viu quatro reis perderem o trono e 40

nobres adultos morrerem em batalha ou decapitados. Entre 1330 e 1479, um

quarto das mortes na aristocracia inglesa foi violento. E, nas camadas

populares, os homicídios eram lugar-comum. Segundo dados do século

XIV, a taxa de homicídio anual em Oxford era de mais de 100 a cada 100

mil habitantes. Londres era um pouco mais segura, com uma taxa de cerca

de 50 a cada 100 mil habitantes. Hoje, as piores taxas de assassinato em

todo o mundo são na África do Sul (69 a cada 100 mil), na Colômbia (53) e

na Jamaica (34). Até mesmo Detroit, em sua pior fase (durante os anos

1980), tinha uma taxa de apenas 45 a cada 100 mil6.

De fato, a vida inglesa nesse período era, conforme o pensador político

Thomas Hobbes mais tarde observou (a respeito daquilo que ele chamou de

“estado de natureza”), “solitária, pobre, cruel, brutal e breve”. Até mesmo

para uma próspera família de Norfolk, como os Paston, havia pouca

segurança. A mulher de John Paston, Margaret, foi expulsa de casa quando

tentou defender o direito legítimo da família à mansão de Gresham,

ocupada pelo herdeiro do dono anterior. O castelo de Caister fora deixado aos Paston pelo Sir John Fastolf, mas foi tomado pelo duque de Norfolk

logo após a morte de John Paston e permaneceu em seu poder por longos 17

anos7. E a Inglaterra estava entre os países mais prósperos e menos

violentos da Europa. A vida era ainda mais curta, brutal e cruel na França, e

ficava cada vez pior quanto mais se adentrava a Europa. Mesmo no começo

do século XVIII os franceses tinham, em média, um consumo diário de

1660 calorias, pouco acima do mínimo requerido para sobreviver, e metade

da média atual no Ocidente. Antes da Revolução, a estatura média dos

homens franceses era de apenas 1,64 metro8. E em todos os países

continentais dos quais temos dados disponíveis com relação ao período

medieval, os índices de homicídio eram mais altos que na Inglaterra, sendo

os piores registrados na Itália, uma terra tão famosa por seus assassinos

quanto por seus artistas.

Às vezes argumenta-se que a própria crueldade da Europa Ocidental era

uma espécie de vantagem velada. Considerando que as altas taxas de

mortalidade eram comuns especialmente entre os pobres, talvez estas, de

alguma forma, ajudassem os ricos a ficarem mais ricos. Certamente, uma

consequência da peste negra foi aumentar a renda per capita europeia; os

que sobreviveram recebiam salários mais altos, tamanha era a escassez da

mão de obra. Também é verdade que os filhos dos ricos na Inglaterra

tinham muito mais probabilidade de chegar à vida adulta do que os dos

pobres9. Mas parece improvável que essas peculiaridades da demografia

europeia expliquem a grande divergência entre o Ocidente e o Oriente. Há

países no mundo atualmente em que a vida é quase tão miserável quanto foi

na Inglaterra medieval, onde a pestilência, a fome, a guerra e o assassinato

garantem que a expectativa de vida se mantenha deploravelmente baixa,

onde só os ricos vivem muito. O Afeganistão, o Haiti e a Somália mostram

poucos sinais de se beneficiar dessas condições. Conforme veremos, a

Europa deu um salto em direção à prosperidade e ao poder apesar da morte,

e não por causa dela.

É importante que os estudiosos e leitores atuais se lembrem de como

costumava ser a morte. “O triunfo da morte”, a obra-prima visionária do

artista flamengo Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525-69), obviamente não é uma obra realista, mas com certeza Bruegel não precisou confiar apenas em