Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 31 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Conclusão: Os rivais

 

Bem, Sir Anthony, já que o senhor deseja, não anteciparemos o passado! – Portanto, prestem atenção, jovens – nossas retrospectivas serão todas para o futuro. SHERIDAN

 

Ele percebeu que no departamento de chama elétrica das regiões infernais deveria haver uma grelha especial, reservada exclusivamente para o homem que inventou essas performances [dramatizações amadoras], tão opostas ao verdadeiro espírito da civilização. P. G. WODEHOUSE

 

Não há melhor ilustração do ciclo de vida de uma civilização do que “O

curso do império”, uma série de cinco pinturas de Thomas Cole que podem

ser vistas na galeria da Sociedade Histórica de Nova York. Fundador da

Hudson River School e um dos pioneiros da pintura paisagística

novecentista nos Estados Unidos, Cole capturou lindamente uma teoria da

qual a maioria das pessoas continua cativa em nossos dias: a teoria dos

ciclos de civilização.

Cada uma das cinco cenas imaginadas retrata a foz de um grande rio sob

um afloramento rochoso. Na primeira, “O estado selvagem”, uma selva

exuberante é povoada por um punhado de caçadores-coletores tratando de

garantir uma subsistência primitiva em um amanhecer tempestuoso. A

segunda, “O estado pastoral ou arcadiano”, é de um idílio agrário; os

habitantes derrubaram as árvores, cultivaram campos e construíram um

elegante templo grego. A terceira e maior de todas as pinturas é “A consumação do império”. Agora a paisagem é ocupada por um magnífico

entreposto de mármore, ao passo que os agricultores-filósofos contentes do

quadro anterior foram substituídos por uma multidão de mercadores,

procônsules e cidadãos-consumidores vestidos com opulência. É meio-dia

no ciclo da vida. Então vem a “Destruição”. A cidade está em chamas, seus

cidadãos fogem de uma horda invasora que estupra e rouba sob um sinistro

céu noturno. Por fim, a lua se ergue sobre a “Desolação”. Não resta uma

alma viva, só umas poucas colunas em ruínas e colunatas cobertas de

arbustos e heras.

Concebido em meados dos anos 1830, o pentaptoto de Cole tem uma

mensagem clara: todas as civilizações, não importa quão magníficas sejam,

estão condenadas a decair e ruir. A insinuação implícita era de que era

melhor que a jovem república norte-americana da época de Cole se

apegasse a seus princípios iniciais bucólicos e resistisse às tentações do

comércio, da conquista e da colonização.

Durante séculos, historiadores, teóricos políticos, antropólogos e o

público em geral tenderam a pensar na ascensão e na queda das civilizações

em tais termos cíclicos e gradativos. No Livro VI das Histórias de Políbio,

que relatam a ascensão de Roma, o processo de anaciclose política é o

seguinte:

 

1. Monarquia

2. Reinado

3. Tirania

4. Aristocracia

5. Oligarquia

6. Democracia

7. Oclocracia (governo da multidão)

 

Essa ideia foi revivida no Renascimento, quando Políbio foi redescoberto,

e daí em diante foi repetida por vários autores, de Maquiavel a

Montesquieu1. Mas uma visão cíclica também surgiu isoladamente nos

escritos do historiador árabe quatrocentista Ibn Khaldun e no

neoconfucionismo da era Ming2. Em seu livro Ciência nova (1725), o

filósofo italiano Giambattista Vico descreve que todas as civilizações

passam por um ricorso com três fases: a divina, a heroica e a humana ou

racional, que retorna à divina por meio do que Vico chamou “barbarismo da

reflexão”. “Os governos mais sólidos, assim como os corpos animais mais

saudáveis”, escreveu o filósofo político britânico Henry St. John, visconde

de Bolingbroke, em 1738, “carregam as sementes de sua destruição: e,

embora cresçam e melhorem por um tempo, logo tenderão visivelmente à

dissolução. Cada hora que vivem é uma hora a menos que têm para viver.3”

Em A riqueza das nações, Adam Smith afirmou que o crescimento

econômico – “opulência”, como ele diz – finalmente abriria caminho para o

“estado estacionário”.

Os idealistas e os materialistas concordaram em uma coisa. Tanto para

Hegel quanto para Marx, foi a dialética que deu à história seu golpe

inequívoco. A história era sazonal para Oswald Spengler, o historiador

alemão, que escreveu em O declínio do Ocidente (1918-22) que o século

XIX havia sido “o inverno do Ocidente, a vitória do materialismo e do

ceticismo, do socialismo, do parlamentarismo e do dinheiro”. O Estudo de

história (1936-54) em 12 volumes do historiador britânico Arnold Toynbee

apresentou um ciclo de oposição, reação por parte de “minorias criativas”, e

então declínio – o suicídio da civilização –, quando os líderes param de

responder com suficiente criatividade aos desafios que enfrentam. Outra

grande teoria foi a do sociólogo russo emigrante Pitrim Sorokin, que

afirmou que todas as principais civilizações passaram por três fases:

“ideacional” (em que a realidade é espiritual), “sensata” (em que a realidade

é material) e “idealista” (uma síntese das duas)4. O historiador norte-

americano Carroll Quigley ensinou a seus alunos na Georgetown School of

Foreign Service (entre eles o futuro presidente Bill Clinton) que a

civilização tinha, como os homens, sete idades: mistura, gestação,

expansão, conflito, império universal, decadência e invasão. Era, conforme

Quigley explicou em uma afirmação clássica sobre a teoria do ciclo de vida,

um processo de evolução [...] cada civilização nasce [...] e entra em um período de expansão

vigorosa, aumentando seu tamanho e poder [...] até que pouco a pouco surge uma crise de

organização. Quando essa crise é superada e a civilização se reorganiza [...] seu vigor e sua moral

estão enfraquecidos. Ela se torna estabilizada e, finalmente, estagnada. Após uma Época de Ouro

de paz e prosperidade, as crises internas surgem de novo. Então surge, pela primeira vez, uma

debilidade moral e física, que levanta [...] dúvidas sobre a capacidade da civilização de se defender

contra inimigos externos [...] A civilização se torna cada vez mais fraca até que é submergida por

inimigos externos, e, por fim, desaparece. 5

 

Cada um desses modelos é diferente, mas todos têm em comum o

pressuposto de que a história tem ritmo.

Embora hoje em dia dificilmente alguém leia Spengler, Toynbee ou

Sorokin – Quigley ainda é apreciado por teóricos da conspiração6 –, linhas

de pensamento similares são encontradas em obras de autores mais

modernos. Ascensão e queda das grandes potências (1987), de Paul

Kennedy, é mais uma obra de história cíclica, em que as grandes potências

surgem e desaparecem de acordo com os índices de crescimento de suas

bases industriais e o custo de seus compromissos imperiais com relação a

suas economias. Assim como em O curso do império, de Cole, a expansão

imperial carrega as sementes da decadência futura. Conforme escreve

Kennedy: “se um Estado se expande estrategicamente [...], corre o risco de

que os possíveis benefícios da expansão externa sejam superados por seu

enorme custo”7. Esse fenômeno de “expansão imperial excessiva”, segundo

argumenta, é comum a todas as grandes potências. Quando o livro de

Kennedy foi publicado, muitas pessoas nos Estados Unidos temeram que

seu próprio país estivesse sucumbindo a essa doença.

Mais recentemente, foi o antropólogo Jared Diamond quem capturou a

imaginação pública com uma grande teoria de ascensão e queda. Seu livro,

Colapso – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso (2005), é a

história cíclica para a Era Verde: narrativas de sociedades, da ilha de Páscoa

do século XVII à China do século XXI, que correram ou correm o risco de

se autodestruir por abusar de seu ambiente natural. Diamond cita John

Lloyd Stevens, o explorador e arqueólogo amador norte-americano que

descobriu as cidades maias do México, misteriosamente mortas: “Aqui estavam os restos de um povo refinado, educado e peculiar, que havia

passado por todos os estágios inerentes à ascensão e queda das nações,

chegou a sua época de ouro, e pereceu”8. De acordo com Diamond, os

maias caíram em uma clássica armadilha malthusiana, uma vez que sua

população cresceu a um ritmo que seu sistema agrícola frágil e ineficiente

não foi capaz de suportar. Mais pessoas significava mais cultivo, mas mais

cultivo significava desmatamento, erosão, seca e exaustão do solo. A

consequência foi a guerra civil por recursos minguantes e, finalmente, a

ruína.

A inferência de Diamond é, obviamente, que o mundo de hoje poderia

seguir o caminho dos maias9. O ponto crucial é que o suicídio ambiental é

um processo lento e demorado. Infelizmente, os líderes políticos em quase

todas as sociedades – primitivas ou sofisticadas – têm pouco incentivo para

lidar com problemas que não têm probabilidade de se manifestar nos

próximos cem anos ou mais. Conforme deixou claro a Conferência das

Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas que ocorreu em Copenhagen,

em dezembro de 2009, as reivindicações retóricas de “salvar o planeta” para

as gerações futuras são insuficientes para superar os conflitos pela

distribuição econômica entre países ricos e pobres que existem aqui e agora.

Amamos nossos netos. Mas é mais difícil enxergar uma relação com nossos

tataranetos.

Porém, é possível que todo esse sistema conceitual seja, na verdade,

falho. Talvez a representação artística de Cole de um superciclo

civilizacional de nascimento, crescimento e morte seja uma representação

equivocada do processo histórico. E se a história não for cíclica e lenta, mas

sim arrítmica – às vezes quase estacionária, mas também capaz de

aceleração violenta? E se o tempo histórico for menos como a mudança

lenta e previsível das estações e mais como o tempo elástico de nossos

sonhos? Acima de tudo, e se o colapso não demorar séculos para acontecer,

mas acometer uma civilização de súbito, como um ladrão na calada da

noite?

As civilizações, conforme tratei de demostrar neste livro, são sistemas

extremamente complexos, compostos de um número muito grande de componentes que interagem e estão organizados de forma assimétrica, de

modo que sua construção lembra mais um montículo de cupins da Namíbia

que uma pirâmide egípcia. Elas funcionam em algum lugar entre a ordem e

a desordem – à “beira do caos”, na frase do cientista de computação

Christopher Langton. Tais sistemas podem parecer funcionar de maneira um

tanto estável por certo tempo, aparentemente em equilíbrio, mas na

realidade estão em constante adaptação. Chega um momento em que eles se

tornam “críticos”. Uma pequena perturbação pode desencadear uma “fase

de transição” de um equilíbrio benigno a uma crise – um único grão de

areia faz com que um castelo aparentemente estável caia por si só.

Para entender a complexidade, é útil examinar como os cientistas naturais

usam o conceito10. Pensemos na auto-organização espontânea de meio

milhão de cupins, a qual lhes permite construir montículos complexos, ou

na geometria fractal dos flocos de neve formados por moléculas de água,

com suas muitas variantes de simetria sêxtupla. A própria inteligência

humana é um sistema complexo, um produto da interação de bilhões de

neurônios no sistema nervoso central – o que o neurocientista Charles

Sherrington chamou “tear encantado”. Nosso sistema imunológico é um

sistema complexo em que os anticorpos se mobilizam para travar uma

guerra defensiva contra os antígenos estranhos. Todos os sistemas

complexos no mundo natural têm certas características em comum. Uma

pequena alteração em tais sistemas pode produzir mudanças enormes,

muitas vezes imprevistas – o que os cientistas chamam “efeito

amplificador”11. As relações causais costumam ser não lineares, o que

significa que os métodos tradicionais de generalizar com base em

observações (tais como a amostragem e a análise de tendências) são de

pouca utilidade. De fato, alguns teóricos chegam a ponto de afirmar que

certos sistemas complexos são totalmente não deterministas, o que significa

que é quase impossível fazer previsões sobre seu comportamento futuro

com base em dados passados. Não podemos falar de algo como uma

queimada florestal típica ou média, por exemplo. Para usar o jargão da

física moderna, uma floresta antes de uma queimada está em um estado de

“criticalidade auto-organizada”; está à beira de um colapso, mas o tamanho do colapso é desconhecido, porque a distribuição das queimadas florestais

por magnitude não segue a clássica curva de distribuição normal, com a

maioria das queimadas reunidas em torno de um valor médio, do modo

como a altura da maioria dos adultos fica em torno de 1,75 metro. Em vez

disso, se marcarmos num gráfico o tamanho das queimadas com relação à

frequência de sua ocorrência, obtemos uma linha reta. A próxima queimada

será minúscula ou enorme, uma fogueira ou um incêndio? O máximo que

podemos dizer é que há uma probabilidade quatro vezes menor (ou seis, ou

oito, dependendo da floresta) de que este ano ocorra uma queimada florestal

com o dobro do tamanho da do ano anterior. Esse tipo de padrão –

conhecido como “distribuição de lei de potência” – é muito comum no

mundo natural. Pode ser observado não só em queimadas florestais como

também em terremotos e epidemias. Só varia o grau de inclinação da

linha12.

As estruturas políticas e econômicas criadas por seres humanos

apresentam muitas das características de sistemas complexos. De fato,

economistas heterodoxos como W. Brian Arthur vêm argumentando nesses

termos há décadas, indo muito além da noção de uma “mão invisível” de

Adam Smith, que parece guiar vários indivíduos à maximização dos lucros,

ou da crítica posterior de Friedrich von Hayek ao planejamento econômico

e à gestão da demanda13. Para Arthur, uma economia complexa é

caracterizada por interações de agentes dispersos, uma ausência de qualquer

controle central, vários níveis de organização, adaptação contínua, criação

incessante de novos nichos de mercado e nenhum equilíbrio geral. Em

contradição com a predição central à economia clássica de que a

competição leva a rendimentos decrescentes, em uma economia complexa o

aumento dos rendimentos é perfeitamente possível. Visto nessa perspectiva,

o vale do Silício é a complexidade econômica em ação; e também a própria

internet. E a crise financeira que começou em 2007 também pode ser

explicada em termos similares. Conforme argumentou Nassim Taleb, na

primavera de 2007 a economia global lembrava uma rede elétrica

extremamente otimizada. A descarga elétrica relativamente pequena

representada pela crise do subprime nos Estados Unidos foi suficiente para provocar em toda a economia mundial o equivalente a um blecaute, que por

certo tempo ameaçou provocar um colapso completo no comércio

internacional14. Atualmente, pesquisadores no Santa Fe Institute estão

explorando como tais ideias podem ser aplicadas a outros aspectos de

atividade humana coletiva, entre os quais a “meta-história”15.

Isso é menos complexo do que parece, já que as guerras apresentam uma

curva de distribuição ainda menos normal do que as crises financeiras. O

físico e meteorologista Lewis Fry Richardson16 agrupou “brigas fatais” – de

homicídios a guerras mundiais – de acordo com sua magnitude, usando o

logaritmo de base 10 do número total de mortes. Assim, um ato terrorista

que mata cem pessoas tem uma magnitude 2, ao passo que uma guerra com

1 milhão de vítimas é um conflito de magnitude 6. (Observe que uma

guerra de magnitude 6 ± 0,5 poderia causar um número qualquer de mortes

entre 316.228 e 3.162.278.) Considerando apenas o período de 1815 a 1945,

Richardson encontrou mais de 300 conflitos de magnitude 2,5 ou superior

(em outras palavras, responsáveis por mais de 300 mortes). Destes, duas

guerras de magnitude 7 (as guerras mundiais) mataram pelo menos 36

milhões de pessoas (60% do total), excluindo vítimas de fome ou doenças

relacionadas com a guerra, e milhões de homicídios de magnitude zero

(com uma, duas ou três vítimas) cobraram 9,7 milhões de vidas (16%).

Esses dados, à primeira vista, parecem ser completamente aleatórios. Mas

eles também obedecem a uma lei de potência17.

Se a incidência da guerra é tão imprevisível quanto a incidência de

queimadas florestais, as implicações para qualquer teoria de ascensão e

queda de civilizações são imensas, tendo em vista o nítido papel causal

exercido pelas guerras tanto no surgimento quanto na extinção de

organizações sociais complexas. Uma civilização é, por definição, um

sistema extremamente complexo. Por mais que haja uma autoridade central

simbólica, na prática é uma rede adaptativa de relações econômicas, sociais

e políticas. Não é de surpreender, portanto, que civilizações de todas as

formas e tamanhos apresentem muitas das características de sistemas

complexos no mundo natural – inclusive a tendência de passar da

estabilidade à instabilidade de forma um tanto repentina.

Conforme vimos no capítulo anterior, a civilização ocidental em sua

primeira encarnação – o Império Romano – não desapareceu de maneira

tranquila. Entrou em colapso no decorrer de uma geração, lançada à beira

do caos pelos invasores bárbaros no início do século V. Colapsos

comparativamente rápidos foram um tema recorrente deste livro. Em 1530,

os incas eram os senhores de tudo o que conseguiam olhar a partir de suas

elevadas cidades andinas. Em menos de uma década, invasores estrangeiros

com cavalos, pólvora e doenças letais dilaceraram o império. O governo da

dinastia Ming na China também sucumbiu com extraordinária velocidade

em meados do século XVII. Mais uma vez, a transição do equilíbrio à

anarquia levou pouco mais de uma década. De maneira muito similar, a

monarquia Bourbon na França passou do triunfo ao terror com

impressionante rapidez. A intervenção francesa ao lado dos rebeldes

coloniais contra o governo britânico na América do Norte parecia uma boa

ideia nos anos 1770, mas serviu para colocar as finanças francesas em uma

situação crítica. A convocação dos Estados Gerais em maio de 1789

desencadeou uma reação política em cadeia e um colapso tão rápido da

legitimidade real que em quatro anos o rei havia sido decapitado com a

guilhotina, um aparato só inventado em 1791. Na época do movimento dos

Jovens Turcos, que chegou ao poder em 1908, ainda parecia possível

reformar o Império Otomano. Em 1922, quando seu último sultão partiu de

Istambul a bordo de um navio de guerra britânico, este havia se acabado. O

Império do Japão atingiu sua máxima extensão territorial em 1942, depois

de Pearl Harbor. Em 1945, também já não existia.

O sol se pôs no Império Britânico de maneira igualmente súbita. Em

fevereiro de 1945, o primeiro-ministro Winston Churchill dominou o

cenário mundial como um dos Aliados, decidindo em Yalta o destino das

nações ao lado do presidente norte-americano Franklin Roosevelt e do líder

soviético Joseph Stalin. Mal a guerra havia terminado, ele foi destituído do

posto. Em 12 anos, o Reino Unido havia concedido independência à

Birmânia, ao Egito, a Gana, à Índia, a Israel, à Jordânia, à península Malaia,

ao Paquistão, ao Ceilão e ao Sudão. A crise de Suez em 1956 provou que o

Reino Unido não podia desafiar os Estados Unidos no Oriente Médio, selando o fim do império. Embora tenha demorado até os anos 1960 para

que o “vento de mudança” de Harold Macmillan soprasse na África

subsaariana e nos remanescentes do governo colonial a leste de Suez, a era

de hegemonia do Reino Unido havia efetivamente chegado ao fim menos de

12 anos após sua vitória sobre a Alemanha e sobre o Japão.

O exemplo mais recente e familiar de queda repentina é, sem dúvida, o

colapso da União Soviética. Com o benefício do conhecimento adquirido a

posteriori, os historiadores atribuíram todos os tipos de podridão do sistema

soviético à era Brejnev e anterior. De acordo com um relato recente, foram

só os preços altos do petróleo nos anos 1970 que “evitaram o

Armagedom”18. Mas isso não estava evidente na época. Em março de 1985,

quando Mikhail Gorbachev se tornou secretário-geral do Partido Comunista

soviético, a CIA (erroneamente) estimou que a economia soviética tinha

cerca de 60% do tamanho da norte-americana. O arsenal nuclear soviético

era genuinamente maior que o estoque dos Estados Unidos. E os governos

no então chamado Terceiro Mundo, do Vietnã à Nicarágua, haviam contado

com os favores dos soviéticos durante a maior parte dos 20 anos anteriores.

Mas menos de cinco anos depois que Gorbachev assumiu o poder, o

império soviético na Europa Central e Oriental havia desmoronado,

seguido, em 1991, da própria União Soviética. Se algum império já

despencou de um penhasco – em vez de descer suavemente –, esse império

foi o fundado por Lenin.

Se as civilizações são sistemas complexos que mais cedo ou mais tarde

sucumbem a disfunções repentinas e catastróficas, em vez de passar

serenamente da Arcádia ao Apogeu e então ao Armagedom, quais são as

implicações para a civilização ocidental de hoje? Primeiro, precisamos

lembrar como o Ocidente veio a dominar o restante do mundo por volta de

1500.

As pesquisas recentes derrubaram a visão em voga de que a economia

chinesa estava em pé de igualdade com a ocidental até 1800. O PIB per

capita basicamente estagnou na era Ming, e era muito mais baixo que o da

Grã-Bretanha pré-industrial. O principal motivo para isso é que a China

continuava sendo uma economia predominantemente agrícola, com 90% do PIB composto de cultivos de baixa produtividade, uma proporção muito

mais alta que a da Grã-Bretanha no início da era moderna. Além do mais,

durante um século após 1520, a taxa de poupança da China foi negativa.

Não havia acumulação de capital durante a dinastia Ming; muito pelo

contrário19. A história daquela que Kenneth Pomeranz chamou “a grande

divergência” entre o Oriente e o Ocidente, portanto, começou muito antes

do que Pomeranz afirmava. Mesmo o falecido Angus Maddison talvez

tenha sido demasiado otimista ao afirmar que em 1700 a situação

econômica do habitante médio da China era um pouco superior à do

habitante dos futuros Estados Unidos. Maddison estava mais certo quando

estimou que em 1600 o PIB per capita da Grã-Bretanha já era 60% mais

alto que o da China20.

O que aconteceu depois disso foi que a produção e a população da China

cresceram de mãos dadas, levando a renda individual a estagnar, enquanto o

mundo anglófono, seguido de perto pelo noroeste da Europa, saiu na frente.

Em 1820, o PIB per capita dos Estados Unidos era o dobro do da China;

em 1870, era quase cinco vezes maior; em 1913, a proporção era quase de

10 para 1. Apesar da dolorosa interrupção da Grande Depressão, os Estados

Unidos não sofreram nada tão devastador quanto o terrível martírio de

revolução, guerra civil, invasão japonesa, mais revolução, fome provocada

pelo homem e ainda mais revolução (“cultural”), vivenciados pela China no

século XX. Em 1968, o norte-americano era, em média, 33 vezes mais rico

que o chinês, de acordo com números calculados com base na paridade do

poder de compra (considerando os diferentes custos de vida nos dois

países). Calculado em dólares atuais, a diferença, em seu pico, era de mais

de 70 para 1.

A Grande Divergência se manifestou de várias formas. Em 1500, as dez

maiores cidades do mundo eram quase todas orientais, sendo Pequim de

longe a maior (mais de dez vezes o tamanho da pequena e pobre Londres).

Em 1900, as maiores cidades eram quase todas ocidentais: Londres era mais

de quatro vezes o tamanho de Tóquio, a maior conurbação da Ásia. A

divergência também teve uma dimensão geopolítica. Em 1500, conforme

vimos, os dez reinos europeus que se tornariam os impérios globais do mundo moderno correspondiam a um vigésimo do território do mundo,

16% de sua população e pouco mais de um quinto de sua produção. Em

1913, esses mesmos Estados, mais os Estados Unidos, controlavam 58% da

superfície terrestre do globo, concentravam 57% de sua população e 74%

do PIB global – do qual apenas 18% iam para suas possessões coloniais. O

mundo, nessa época, era caracterizado por uma distância imensa entre o

Ocidente e o Resto, o que encorajou pressupostos de superioridade racial

branca e numerosos impedimentos formais e informais ao avanço dos não

brancos. Esse foi o desequilíbrio global decisivo.

Comecei este livro com a pergunta de Rasselas: “Por que meios [...],

então, os europeus são poderosos? Por que, já que eles podem visitar a Ásia

e a África com tanta facilidade para o comércio ou para a conquista, os

asiáticos e os africanos não conseguem invadir sua costa, implementar

colônias em seus portos e impor leis a seus príncipes naturais?”. A resposta

de Imlac foi que conhecimento era poder, mas por que o conhecimento

europeu era superior ao de todos os demais ele não fazia ideia. Agora, é

possível dar a Rasselas uma resposta melhor. Por que o Ocidente dominou o

Resto e não o contrário? Argumentei que foi porque o Ocidente

desenvolveu seis incríveis aplicativos que o restante do mundo não tinha.

Estes foram:

 

1

. A competição, já que a própria Europa estava politicamente fragmentada e em cada monarquia ou república havia várias entidades corporativas competindo entre si.

2

. A Revolução Científica, já que todos os principais avanços do século XVII em matemática, astronomia, física, química e biologia ocorreram na Europa Ocidental.

3

. O Estado de direito e o governo representativo, já que no mundo anglófono surgiu um sistema melhorado de ordem social e política, com base nos direitos de propriedade privada e na representação dos donos de propriedades em legislaturas eleitas.

4

. A medicina moderna, já que praticamente todos os avanços em saúde dos séculos XIX e XX, incluindo o controle de doenças tropicais, foram feitos por europeus ocidentais e norte-americanos. 5

. A sociedade de consumo, já que a Revolução Industrial aconteceu onde havia um fornecimento de tecnologias que aumentam a produtividade e uma demanda por produtos melhores, mais baratos e em maior quantidade, a começar por roupas de algodão.

6

. A ética do trabalho, já que os ocidentais foram o primeiro povo no mundo a combinar trabalho mais extensivo e intensivo com taxas de poupança mais elevadas, possibilitando a acumulação continuada de capital.

 

Esses seis incríveis aplicativos foram o segredo da supremacia ocidental.

A história de nosso tempo, cujas origens, de fato, podem ser situadas no

reino do imperador Meiji no Japão (1867-1912), é que o Resto finalmente

começou a instalá-los. Esteve longe de ser um processo suave. Os japoneses

não faziam ideia de quais elementos da cultura e da civilização ocidental

eram cruciais, e acabaram copiando tudo, de roupas e cortes de cabelo à

prática europeia de colonizar povos estrangeiros. Infelizmente, eles

iniciaram a construção de um império no exato momento em que os custos

do imperialismo começavam a exceder seus benefícios. Outras potências

asiáticas – notadamente a Índia – desperdiçaram décadas com a premissa

errônea de que as instituições socialistas criadas na União Soviética eram

superiores às instituições norte-americanas, baseadas no mercado. No

entanto, começando nos anos 1950, um número cada vez maior de países do

Leste Asiático seguiu o Japão e passou a imitar o modelo industrial do

Ocidente, começando com produtos têxteis e aço e escalando a cadeia de

valor a partir dali. A instalação de aplicativos ocidentais era agora mais

seletiva. A competição interna e o governo representativo foram

características menos importantes do modelo de desenvolvimento asiático; a ciência, a medicina, a sociedade de consumo e a ética do trabalho (menos

protestante do que Max Weber havia pensado) foram mais importantes.

Hoje, Singapura ocupa o 3o lugar no mais recente ranking de

competitividade (com outros países) do Fórum Econômico Mundial. Hong

Kong ocupa o 11o, seguido de Taiwan (13o), Coreia do Sul (22o) e China

(27o)21. Essa é, aproximadamente, a ordem em que esses países

ocidentalizaram suas economias.

 

Hoje, o PIB per capita da China é 19% o dos Estados Unidos, comparado

com 4% quando a reforma econômica começou há pouco mais de 30 anos.

Hong Kong, Japão e Singapura já haviam chegado lá nos anos 1950,

Taiwan nos anos 1970 e a Coreia do Sul em 1975. De acordo com a

Conference Board, o PIB per capita de Singapura é, atualmente, 21% mais

alto que o dos Estados Unidos; o de Hong Kong é quase igual; o do Japão e

o de Taiwan são cerca de 25% mais baixos; e o da Coreia do Sul, 36% mais

baixo22. Seria um homem de bravura aquele que derrotasse a China seguindo a mesma trajetória nas futuras décadas. A China teve a maior e a

mais rápida de todas as revoluções industriais. No espaço de 26 anos, seu

PIB decuplicou. Levou 70 anos após 1830 para que o PIB do Reino Unido

quadruplicasse. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a

participação da China no PIB global (medido em preços atuais) ultrapassará

a marca dos 10% em 2013. Antes da crise financeira, os economistas do

Goldman Sachs previram que o PIB da China superaria o dos Estados

Unidos em 202723. Mas a crise financeira afetou mais o crescimento norte-

americano que o chinês. Se a taxa atual persistir, a economia chinesa

poderia ultrapassar a norte-americana em 2014 no que se refere ao poder de

compra e em 2020 em dólares correntes24. De fato, em alguns aspectos o

século asiático já chegou. A China está prestes a ultrapassar a participação

dos Estados Unidos na manufatura global, tendo superado a Alemanha e o

Japão desde o início do novo século. A maior cidade chinesa, Xangai, já é

muito maior que qualquer cidade norte-americana, e está no topo do

ranking de megacidades não ocidentais. Em números absolutos, é claro, a

Ásia há muito é a região mais populosa do mundo. Mas o rápido

crescimento da população da África torna o declínio do Ocidente quase uma

certeza. Em 1950, o Ocidente tal como definido por Samuel Huntington –

Europa Ocidental, América do Norte e Australásia – correspondia a 20% da

população mundial. Em 2050, de acordo com as Nações Unidas, a cifra será

de 10%25. Os próprios dados de Huntington apontam para o declínio do

Ocidente em vários aspectos diferentes: o idioma (a parcela ocidental caiu 3

pontos percentuais entre 1958 e 1992); a religião (caiu pouco menos de 1

ponto percentual entre 1970 e 2000); território controlado (caiu

ligeiramente entre 1971 e 1993); população (caiu 3 pontos percentuais

desde 1971); Produto Interno Bruto (caiu mais de 4 pontos percentuais entre

1970 e 1992);26 e força militar (caiu cerca de 6 pontos percentuais entre

1970 e 1991). Na maioria dos casos, o declínio relativo é muito mais

marcado se medido a partir de 1913 ou 193827.

A crise financeira que começou no verão de 2007 deve, portanto, ser

entendida como aceleradora de uma tendência já consolidada de relativo

declínio ocidental. Isso foi quase uma Grande Depressão. Mas são três as razões pelas quais não passou de uma Leve Depressão. Primeiro, a grande

expansão dos empréstimos bancários da China, o que mitigou o efeito da

queda nas exportações para o Ocidente. Segundo, o grande aumento da base

monetária dos Estados Unidos, implementado pelo presidente do Federal

Reserve, Ben Bernanke. Terceiro, os imensos déficits fiscais de

praticamente todos os países desenvolvidos, sendo o maior o dos Estados

Unidos, com empréstimos que excederam 9% do PIB em dois anos

consecutivos. Essas políticas – o extremo oposto do que foi feito no início

dos anos 1930 – evitaram que a economia mundial despencasse de junho de

2009 em diante. Mas agora o mundo desenvolvido vive a ressaca que se

segue a todas as formas de estímulo excessivo. Por várias razões, as

políticas fiscais de três países da zona do Euro – Grécia, Irlanda e Portugal

– perderam credibilidade diante dos investidores, levando a um aumento no

custo de seus empréstimos e piorando suas dificuldades fiscais. Observando

a tendência da dívida pública desses países a longo prazo, como fez o

Banco de Compensações Internacionais (BIS) no início de 2010, podemos

entender por quê28. A crise financeira se somou a um problema estrutural já

grave de acumulação de dívida. Mas poderíamos dizer a mesma coisa do

Reino Unido e dos Estados Unidos. E, no momento em que escrevo este

livro, só o primeiro tomou medidas para lidar com o problema.

É importante lembrar que a maioria dos casos de colapso civilizacional

estão associados a crises financeiras e guerras. Todos os exemplos de

colapso discutidos anteriormente foram precedidos por graves

desequilíbrios entre receitas e despesas, além de dificuldades com o

financiamento da dívida pública. Consideremos a Espanha no século XVI:

já em 1543, cerca de dois terços das receitas ordinárias iam para o

pagamento de juros, cujos empréstimos a própria monarquia dos Habsburgo

financiou. Já em 1559, o pagamento total dos juros excedia a receita

ordinária da Espanha; e a situação pouco melhorou em 1584, quando 84%

da receita ordinária foi destinada ao pagamento de juros. Em 1598, a

proporção voltou a 100%. Ou pensemos na França no século XVIII: entre

1751 e 1788, às vésperas da Revolução, os pagamentos de juros e

amortização cresceram de pouco mais de um quarto para 62% da arrecadação de impostos. Também temos o caso da Turquia otomana no

século XIX: o serviço da dívida cresceu de 17% da receita em 1868 para

32% em 1871 e 50% em 1877, dois anos após a enorme falência que

conduziu à desintegração do Império Otomano nos Bálcãs. Por fim,

consideremos o caso da Grã-Bretanha no século XX. Em meados da década

de 1920, os encargos das dívidas absorviam 44% das despesas totais do

governo, excedendo os gastos em defesa todos os anos até 1937, quando o

rearmamento finalmente começou. Mas devemos observar que os

verdadeiros problemas da Grã-Bretanha surgiram após 1945, quando uma

proporção significativa do ônus da dívida, hoje imenso, estava em mãos

estrangeiras. Da dívida nacional de 21 bilhões de libras ao fim da guerra,

por volta de 3,4 bilhões eram devidos a credores estrangeiros – o

equivalente a cerca de um terço do PIB29.

A partir de 2001, no intervalo de apenas dez anos, a dívida federal norte-

americana nas mãos do governo dobrou em termos percentuais, passando de

32% do PIB a uma projeção de 66% em 2011. De acordo com as projeções

de 2010 do Departamento de Orçamento do Congresso (CBO) norte-

americano – usando o “Cenário Fiscal Alternativo”, que o CBO considera

politicamente mais provável que seu “Cenário de Referência Prolongado”

–, a dívida poderia subir para mais de 90% do PIB em 2021 e chegar a

150% em 2031 e a 300% em 204730. Observe-se que esses números não

levam em consideração a estimativa de 100 trilhões de dólares de passivos a

descoberto dos sistemas de saúde e seguridade social. Nem tampouco

incluem os déficits dos estados, em rápido crescimento, e os passivos cada

vez maiores dos planos de pensão dos funcionários públicos. Com base

nisso, a posição fiscal dos Estados Unidos em 2009 era pior que a da

Grécia. Com uma relação entre dívida e receita de 312%, a Grécia estava

nitidamente em maus lençóis. De acordo com cálculos do Morgan Stanley,

no entanto, a relação entre a dívida e a receita dos Estados Unidos era de

358%31.

Esses números são ruins, mas na esfera da estabilidade financeira o papel

da percepção é, em muitos aspectos, mais importante. Por enquanto, o

mundo ainda espera que os Estados Unidos consigam dar a volta por cima, finalmente fazendo a coisa certa quando, em uma frase que costuma ser

atribuída a Churchill, todas as outras possibilidades tiverem se esgotado. Os

alarmes anteriores sobre o déficit nos anos 1980 foram exagerados; no fim

dos anos 1990, o governo federal tinha superávits. Então, por que se

preocupar? Tal complacência pode persistir por um período

surpreendentemente longo – até muito depois de os indicadores estatísticos

terem começado a piscar no vermelho. Mas, um dia, uma má notícia

aparentemente aleatória – talvez um relatório negativo de uma agência de

classificação de risco de crédito – será manchete durante um noticiário que,

se não fosse por isso, seria tranquilo. De imediato, não serão apenas alguns

poucos especialistas que se preocuparão com a sustentabilidade da política

fiscal dos Estados Unidos, e sim o público como um todo, isso sem falar

dos investidores no exterior. É essa mudança que é crucial, pois um sistema

adaptativo complexo tem um grande problema quando a massa crítica de

indivíduos que o constitui perde a fé em sua viabilidade. Começando no

verão de 2007, o complexo sistema de economia global passou do boom à

queda porque repentinamente mudaram as expectativas dos investidores

quanto à probabilidade de falência do subprime, criando rombos enormes

no modelo de negócio de milhares de instituições financeiras extremamente

alavancadas. A fase seguinte da crise atual pode começar quando os

mesmos investidores reavaliarem se o próprio governo norte-americano é

digno de crédito. Nem as taxas de juros zero nem o estímulo fiscal são

capazes de garantir uma recuperação permanente se as pessoas nos Estados

Unidos e no exterior decidirem coletivamente que tais medidas levarão a

índices de inflação muito mais altos ou à falência direta. Conforme

demonstrou o economista Thomas Sargent há duas décadas, tais decisões se

autoconcretizam, porque não é a oferta de dinheiro que determina a

inflação, e sim a velocidade de sua circulação, que, por sua vez, varia de

acordo com as expectativas32. Da mesma forma, não é a relação entre dívida

e PIB que determina a solvência do governo, e sim a taxa de juros que os

investidores demandam. A emissão de obrigações pode disparar se

mudarem as expectativas quanto à estabilidade da moeda ou à solvência do

governo no futuro, intensificando uma crise fiscal já ruim ao elevar o custo do pagamento de juros sobre novas dívidas. O resultado é uma espécie de

espiral fatal de queda de confiança, aumento de emissões e aumento de

déficits. Foi exatamente isso que aconteceu com a Grécia, a Irlanda e

Portugal em 2010.

É verdade, claro, que o Japão foi capaz de elevar sua dívida pública a

níveis ainda mais altos com relação ao PIB sem desencadear uma crise de

confiança. No entanto, quase toda a dívida japonesa está nas mãos de

instituições e investidores japoneses, ao passo que metade dos títulos da

dívida pública federal norte-americana está nas mãos de credores

estrangeiros, e destes pouco mais de um quinto é controlado pelas

autoridades monetárias da República Popular da China. Só o “exorbitante

privilégio” dos Estados Unidos de serem capazes de imprimir a principal

reserva em moeda do mundo permite ao país respirar33. Mas esse mesmo

privilégio está sob ataque crescente do governo chinês. “Uma vez que a

emissão de dólares nos Estados Unidos está fora de controle e os preços das

commodities internacionais continuam a subir”, declarou Chen Deming,

ministro de Comércio da China, em outubro de 2010, “a China está sendo

agredida por uma inflação importada”34. Os Estados Unidos estão

envolvidos em impressão “descontrolada” e “irresponsável” de dinheiro,

segundo Xia Bin, um conselheiro econômico do Banco Popular da China:

“Enquanto o mundo não exercer nenhum controle sobre a emissão de

moedas globais tais como o dólar [...] a ocorrência de outra crise é

inevitável”35. A flexibilização quantitativa (a compra de títulos do Tesouro

pelo Federal Reserve) era uma forma de “protecionismo financeiro”,

declarou Su Jingxiang, um pesquisador do Instituto de Relações

Internacionais Contemporâneas da China36. Em novembro de 2010, a

agência de classificação de risco de crédito Dagong rebaixou os Estados

Unidos de AA para A+, com uma perspectiva negativa.

As inquietações chinesas são compreensíveis. Os preços de praticamente

todas as commodities, com exceção de algumas poucas, dispararam desde o

pior momento da crise.37 Tampouco é surpreendente que os investimentos

oficiais da China nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos tenham sido

aparentemente reduzidos em cerca de 10% entre julho de 2009 e junho de

201038. Mesmo com o preço de uma onça de ouro a 1.400 dólares, um valor

sem precedentes, os chineses começaram a comprá-lo em 2010 como uma

proteção consagrada contra a inflação. Mas os Estados Unidos não temem a

inflação, e sim a deflação. Os preços estão subindo à taxa mais baixa desde

os anos 1950, quando o índice de preços ao consumidor foi criado. Apesar

de todos os esforços do Federal Reserve, o dinheiro disponível está

diminuindo e o crédito se recusa teimosamente a crescer. Mesmo que a

emissão nominal de obrigações para dez anos permaneça baixa, isso quer

dizer que as taxas de juros reais a longo prazo têm probabilidade de

continuar positivas no futuro próximo, o que significa que não há uma saída

inflacionária fácil para o colossal ônus da dívida que assola os lares, os

bancos e os governos, do tipo que foi adotado por muitos países nos anos

1920 e 1970. O crescimento deve esmorecer, o que também significa que o

governo federal continuará a ter déficits, embora menores. E também se

traduz em um gasto cada vez maior com juros. De acordo com o cenário

fiscal alternativo do Departamento de Orçamento do Congresso dos Estados

Unidos (CBO), o pagamento de juros sobre a dívida federal subirá de 9%

das arrecadações federais para 20% em 2020, 36% em 2030 e 58% em

204039.

Cifras como essas implicam, entre outras coisas, uma rápida redução nos

compromissos militares ultramarinos dos Estados Unidos. O CBO já está

projetando as economias que seriam feitas se o número de tropas

mobilizadas no exterior fosse reduzido para 30 mil até 201340. Isso é

exatamente o que esperaríamos ver quando o percentual da receita federal

destinado ao pagamento de juros ultrapassar o destinado a gastos militares,

o que está prestes a acontecer.

A mudança do centro de gravidade do mundo do Ocidente para o Oriente

implica um conflito futuro? Em um importante ensaio, Samuel Huntington

previu que o século XX seria marcado por um “choque de civilizações”, em

que o Ocidente seria confrontado por um Oriente “sínico” e um Grande

Oriente Médio muçulmano, e talvez também pela civilização ortodoxa do

antigo Império Russo41. “Os principais conflitos da política global”,

conforme escreveu, “ocorrerão entre nações e grupos de civilizações diferentes. O choque de civilizações dominará a política global. As linhas

de falha entre as civilizações serão as linhas de batalha do futuro.”42 Depois

de publicada, essa previsão foi alvo de uma série de objeções43. No entanto,

ela ainda parece uma explicação melhor do mundo pós-Guerra Fria do que

as teorias concorrentes que Huntington descartou: que haveria um “único

mundo” pós-histórico (ou neoconservador) sob a liderança dos Estados

Unidos, ou uma disputa realista de todos contra todos entre os cerca de 200

Estados-nação, ou apenas “apolaridade” absoluta, ou, em outras palavras, o

caos.

Mas há um defeito significativo no modelo de Huntington. Como

profecia, falhou – até agora – em se concretizar. Huntington afirmou que os

“conflitos entre grupos nas diferentes civilizações serão mais frequentes,

mais prolongados e mais violentos que os conflitos entre grupos na mesma

civilização”. Esse não tem sido o caso. Não houve nenhum aumento nas

guerras entre civilizações desde o fim da Guerra Fria. E as guerras entre

membros de civilizações diferentes tampouco parecem durar mais que

outros conflitos44. A maioria das guerras das duas últimas décadas foi

guerra civil, mas só uma minoria delas correspondeu ao modelo de

Huntington. Quase sempre, as guerras da Nova Desordem Mundial foram

travadas entre grupos étnicos no interior de uma das civilizações de

Huntington. Para ser preciso: dos 30 principais conflitos armados em

andamento ou que haviam terminado há pouco tempo em 2005 – 12 anos

após a publicação do ensaio original de Huntington –, só nove podiam ser

considerados, em algum aspecto, um conflito entre civilizações, no sentido

de que um lado era predominantemente muçulmano e o outro não.

Dezenove deles foram, em essência, conflitos étnicos, os piores sendo as

guerras que continuam a atormentar a África Central, seguidos de perto

pelas guerras no Grande Oriente Médio, onde a maioria das vítimas foi de

muçulmanos mortos por outros muçulmanos45. Além do mais, muitos dos

conflitos que têm uma dimensão religiosa são também conflitos étnicos; a

afiliação religiosa muitas vezes está mais associada com o sucesso

localizado de missionários no passado relativamente recente que com a

filiação de longa data a uma civilização cristã ou muçulmana. O futuro, portanto, parece muito mais propenso a trazer várias guerras locais – a

maioria delas conflitos étnicos na África, no Sul da Ásia e no Oriente

Médio – que uma colisão global de civilizações. De fato, essas tendências

centrífugas podem terminar destruindo as próprias civilizações identificadas

por Huntington. Em síntese, em vez do “choque de civilizações” teremos o

“desmoronamento de civilizações”.46

No famoso jogo de computador Civilization, criado por Sid Meier em

1991 e hoje em sua quinta versão, os jogadores podem escolher entre 16

civilizações rivais, indo da norte-americana à zulu. O desafio é, então,

“construir um império que resista à prova do tempo” em uma competição

entre dois a seis dos outros. O jogo pode ser vencido de uma destas três

maneiras: chegando ao fim da era moderna com a maior pontuação

acumulada, vencendo a corrida espacial ao chegar ao sistema estelar de

Alfa de Centauro, ou destruindo todas as outras civilizações. Mas é

realmente assim que o processo histórico funciona? Conforme vimos, a

civilização do Ocidente – os reinos e as repúblicas da Europa Ocidental –

de fato destruiu ou subjugou a maioria das civilizações do restante do

mundo após 1500. Mas grande parte disso foi alcançado com um mínimo de

conflito direto, pelo menos em comparação ao número e à escala das

guerras que as potências ocidentais travaram entre si47. A estagnação

econômica e a marginalização política da China foram consequências não

das Guerras do Ópio, mas de uma esclerose interna prolongada que era

inerente ao sistema de cultivo e ao sistema de governo imperial do Extremo

Oriente. O fato de o Império Otomano ter se retirado do continente europeu,

e decaído de uma grande potência a um “homem doente”, deveu-se apenas

superficialmente a derrotas militares; tais derrotas foram, elas próprias,

consequências de uma incapacidade crônica de participar da Revolução

Científica. Não houve nenhum grande choque entre as civilizações da

América do Norte e do Sul; a primeira era simplesmente superior à segunda

no que diz respeito a suas instituições, e logo adquiriu os meios para

intervir à vontade nos assuntos do Sul. Do mesmo modo, as guerras

travadas pelos impérios europeus na África foram insignificantes em

comparação com as guerras que eles travaram uns com os outros na Europa. A subjugação da África foi tanto uma conquista das escolas missionárias,

do telégrafo e do laboratório quanto da metralhadora automática. A

Revolução Industrial e a sociedade de consumo não precisaram ser

impostas aos países não ocidentais; os que tinham o mínimo de bom-senso

a adotaram por conta própria, como fizeram os japoneses. Quanto à ética do

trabalho, essa se espalhou para o Oriente não pela espada, e sim pela

palavra – acima de tudo, pelas grandes melhorias em saúde pública e

educação alcançadas a partir de meados do século XX.

É nessa perspectiva que devemos entender a ascensão da China em

nossos dias. Apesar da tantas vezes afirmada preferência dos chineses por

uma “ascensão silenciosa”, alguns observadores já detectaram os primeiros

sinais do choque de civilizações de Huntington. No fim de 2010, a

retomada da flexibilização quantitativa pelo Federal Reserve pareceu

desencadear uma guerra monetária entre os Estados Unidos e a China. Se

“os chineses não tomarem medidas” para pôr fim à manipulação de sua

moeda, declarou o presidente Obama em Nova York em setembro daquele

ano, “temos outros meios para proteger os interesses dos Estados Unidos”48.

O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao não tardou em responder: “Não nos

pressionem quanto à taxa do renminbi [...] Muitas de nossas empresas

exportadoras teriam de fechar, trabalhadores migrantes teriam de voltar a

suas cidades. Se a China passasse por uma turbulência social e econômica,

seria um desastre para o mundo”49. Tais trocas, no entanto, não confirmam

as previsões de Huntington, não mais que os incidentes navais fortuitos

entre a China e os Estados Unidos ou os ataques diplomáticos a Taiwan ou à

Coreia do Norte. Eram, na verdade, uma forma de pi ying xi, o tradicional

teatro de sombras chinês. A verdadeira guerra monetária é entre a

Chimérica – as economias unidas da China e da América – e o restante do

mundo. Se os Estados Unidos imprimem papel-moeda com a moeda

chinesa ainda atrelada ao dólar, ambas as partes são beneficiadas. Os

perdedores são países como a Indonésia e o Brasil, cujas taxas de câmbio

efetivas reais foram avaliadas entre janeiro de 2008 e novembro de 2010

em, respectivamente, 18% e 17%.

Sem dúvida, a Chimérica já passou de sua juventude. Como um

casamento econômico entre um esbanjador e um poupador, já mostra todos

os sinais de estar por um fio50. Com a produção da China, em meados de

2010, por volta de 20% acima de seu nível anterior à crise, e a dos Estados

Unidos ainda 2% abaixo, parece claro que a simbiose se tornou mais

benéfica para o credor que para o devedor. As autoridades norte-americanas

entoam o mantra “Eles precisam de nós tanto quanto nós precisamos deles”,

e se referem à famosa frase de Lawrence Summers sobre “destruição

financeira mutuamente garantida”. Sem que eles saibam, os líderes da

China já têm um plano para acabar com a Chimérica e reduzir sua

dependência da acumulação de reserva em dólares e de exportações

subsidiadas. É não tanto um plano para a dominação mundial com base no

modelo do imperialismo ocidental quanto uma estratégia para restabelecer a

China como o Reino do Meio – o estado tributário dominante na região da

Ásia-Pacífico51. Se tivéssemos de resumir a nova grande estratégia da

China, a melhor maneira de fazê-lo possivelmente seria, à moda de Mao,

com “os quatro mais”:

 

1. Consumir mais.

2. Importar mais.

3. Investir mais no exterior.

4. Inovar mais.

 

Em cada caso, uma mudança de estratégia econômica promete

proporcionar vantagens políticas consideráveis.

Ao consumir mais, a China pode e vai reduzir seu superávit comercial e,

no processo, tornar-se benquista por seus principais parceiros comerciais,

sobretudo os outros mercados emergentes. A China acabou de superar os

Estados Unidos como o maior mercado de automóveis do mundo (14

milhões de vendas por ano, contra 11 milhões) e estima-se que sua demanda

será dez vezes maior nos próximos anos. Em 2035, de acordo com a

Agência Internacional de Energia, a China estará usando um quinto de toda

a energia global, um aumento de 75% desde 200852. Foi responsável por cerca de 46% do consumo global de carvão em 2009, segundo estimativa do

Instituto Mundial do Carvão, e consome uma proporção similar da

produção de alumínio, cobre, níquel e zinco do mundo. Tais números se

traduzem em ganhos importantes para os exportadores dessas e de outras

commodities. A China já é o maior mercado de exportação da Austrália,

representando 22% das exportações australianas em 2009. Compra 12% das

exportações do Brasil e 10% das da África do Sul. Também se tornou uma

grande compradora de produtos manufaturados de alto valor agregado

provenientes do Japão e da Alemanha. Um dia a China foi principalmente

exportadora de produtos manufaturados baratos. Agora que responde por

um quinto do crescimento global, tornou-se o novo mercado mais dinâmico

para os produtos de outros países. E isso conquista aliados.

No entanto, os chineses estão nervosos, e com razão, com as

excentricidades dos preços do mercado mundial para as commodities – e

como não estariam, após as enormes oscilações de preços do período 2004-

10? Portanto, faz sentido para eles investir no exterior para adquirir ativos

na produção de commodities, de campos petrolíferos em Angola a minas de

cobre na Zâmbia. Em um único mês (janeiro de 2010), os investidores

chineses fizeram investimentos diretos no valor total de 2,4 bilhões de

dólares, em 420 empreendimentos ultramarinos em 75 países e regiões. A

esmagadora maioria dos investimentos foi na Ásia (45%) e na África

(42%). Os maiores setores foram mineração, indústria petroquímica e

infraestrutura em comunicações53. O modo de operação dos chineses hoje

está consolidado em toda a África. Negociações típicas trocam autopistas e

outros investimentos em infraestrutura por longas concessões de minas ou

terras agrícolas, sem indagar muito sobre abusos de direitos humanos ou

corrupção política54. Quando questionado sobre as relações econômicas da

China com o Sudão, no auge do genocídio em Darfur, o vice-ministro de

Relações Exteriores da China disse simplesmente: “Negócios são

negócios”55. Em julho de 2008, o enviado especial chinês Liu Guijin

reafirmou a política da China em auxílio à África: “Não nos apegamos às

situações políticas. Temos de reconhecer que as situações econômicas e políticas [na África] não são ideais. Mas não precisamos esperar que tudo

seja satisfatório ou que os direitos humanos sejam perfeitos”56.

O crescente investimento em recursos naturais além-mar faz sentido não

só como estratégia de diversificação para reduzir a exposição da China ao

risco de depreciação do dólar. Também permite que a China aumente seu

poder financeiro, sobretudo por meio de seu vasto e influente fundo

soberano, o China Investment Corporation, que tem por volta de 200

bilhões de dólares de ativos. E o investimento no exterior justifica os planos

ambiciosos da China de promover a expansão naval. Nas palavras do

contra-almirante Zhang Huachen, segundo comandante da Esquadra Naval

do Oriente: “Com a expansão dos interesses econômicos do país, a Marinha

quer proteger melhor nossas rotas de transporte e garantir a segurança de

nossas principais linhas marítimas”57. O mar do sul da China é cada vez

mais considerado de “grande interesse nacional”, e portos em águas

profundas são projetados no Paquistão – no antigo enclave omaniano de

Gwadar – e também na Birmânia e no Sri Lanka. Esse é um modelo

marítimo muito diferente do adotado pelo almirante Zheng He (ver Capítulo

1). Vem direto do manual de estratégia da Marinha Real vitoriana.

Por fim, e contrariando a visão de que a China está condenada a continuar

sendo uma linha de montagem para produtos “projetados na Califórnia”, a

China está inovando mais, visando se tornar (por exemplo) a principal

fabricante de geradores eólicos e painéis fotovoltaicos do mundo. Em 2007,

a China superou a Alemanha quanto ao número de novas solicitações de

patentes. Logo fará a mesma coisa em número de patentes concedidas,

tendo ultrapassado a Grã-Bretanha em 2004, a Rússia em 2005 e a França

em 2006. Desde 1995, o número de novas patentes concedidas a inovadores

chineses aumentou 29 vezes58. Isso é parte de uma história mais ampla de

supremacia oriental. Na última década, a China sextuplicou os gastos em

pesquisa e desenvolvimento, mais que dobrou o número de seus cientistas e

hoje só perde para os Estados Unidos em produção anual de artigos

científicos e capacidade de supercomputação. Continua havendo uma

diferença significativa quanto ao número de citações internacionais de

pesquisas científicas, mas há boas razões para esperar que esta diminua59. Talvez o indício mais contundente de que a mudança do Ocidente ao

Oriente é real venha da educação. Em um estudo de 2005 sobre o

desempenho acadêmico de pessoas entre 25 e 34 anos, a Organização para a

Cooperação e Desenvolvimento Econômico encontrou uma diferença

notável entre os primeiros países, a Coreia do Sul e o Japão, e os

retardatários, a Grã-Bretanha e a Itália60. Semelhante abismo é visível em

testes padronizados de aptidão entre estudantes de 14 anos de idade, em que

os de Singapura têm desempenho muito superior aos da Escócia. Os

primeiros estão 19% acima da média internacional; os últimos, 3% abaixo61.

O que poderia dar errado para o dragão chinês em ascensão? Há pelo

menos quatro hipóteses diferentes propostas por aqueles que esperam que

ele caia. A primeira é que projeções similares de ascensão inexorável

costumavam ser feitas para o Japão. Também se supôs que o Japão

superaria os Estados Unidos e se tornaria a superpotência econômica global

número um. Portanto, prossegue o argumento, a China também poderia

sofrer um dia o destino do Japão após 1989. Precisamente porque os

sistemas políticos e econômicos não são competitivos de fato, uma bolha

imobiliária ou especulativa poderia sobrecarregar o país com bancos

zumbis, crescimento estagnado e deflação – o drama do Japão durante a

maior parte das duas últimas décadas. O argumento contrário é que um

arquipélago na costa leste da Eurásia provavelmente jamais se equipararia a

uma potência continental como os Estados Unidos. Era aceitável prever,

mesmo há um século, que o Japão alcançaria o Reino Unido, seu análogo

ocidental – como de fato fez –, mas não os Estados Unidos. Além disso, a

derrota do Japão em 1945 significou que durante todo o período de sua ascensão econômica o país dependeu dos Estados Unidos para sua

segurança, e, portanto, teve de se submeter a uma valorização de moeda

mais ou menos compulsória, por exemplo, sob o Acordo do Plaza de 1985.

Uma segunda possibilidade é que a China poderia sucumbir à agitação

social, como aconteceu com tanta frequência no passado. Afinal, a China

continua sendo um país pobre, ocupando o 86o lugar em renda per capita,

com 150 milhões de seus cidadãos – praticamente um em cada dez –

vivendo com o equivalente a 1,50 dólar por dia ou menos. A desigualdade

aumentou de maneira vertiginosa desde a introdução das reformas

econômicas, de modo que a distribuição de renda é hoje essencialmente

americana (embora não exatamente brasileira). Estima-se que 0,4% dos

lares chineses têm cerca de 70% da riqueza do país. Somem-se a essas

disparidades econômicas os problemas crônicos de poluição do ar, da água

e do solo, e não é de surpreender que as partes mais pobres do interior rural

chinês estejam propensas a surtos de protesto. Mas só uma imaginação

febril poderia construir um cenário revolucionário sobre essas bases frágeis.

O crescimento econômico pode ter tornado a China uma sociedade menos

igualitária, mas o regime capitalista-comunista hoje desfruta de níveis

atipicamente altos de legitimidade aos olhos de seu próprio povo62. De fato,

dados de pesquisas sugerem que hoje os chineses estão mais

comprometidos com a ideia do livre mercado que os americanos. A

verdadeira ameaça social à estabilidade da China é demográfica. Em

consequência da política do filho único introduzida em 1979, a China em

2030 terá uma população significativamente mais idosa que seu vizinho

bem maior, a Índia. A parcela da população com 65 anos ou mais será de

16%, em comparação com 5% em 1980. E o desequilíbrio entre gêneros em

províncias como Anhui, Hainan, Guangdong e Jiangxi praticamente já não

tem paralelos em uma sociedade moderna, com entre 30% e 38% mais

homens que mulheres63. A próxima revolução chinesa, se é que vai haver

uma, será liderada por solteirões frustrados. Mas a história indica que

jovens homens sem mulheres têm tanta probabilidade de abraçar o

nacionalismo radical quanto a revolução.

Um terceiro cenário plausível é que uma classe média crescente poderia,

como tantas vezes ocorreu na história ocidental, demandar maior

participação política do que têm atualmente. Em 1990, três em cada quatro

chineses viviam no campo. Hoje, 45% das pessoas são habitantes de

cidades, e em 2030 podem chegar a 70%. Além de haver uma classe média

em rápido crescimento na China urbana, a difusão da telefonia móvel e da

internet significa que eles podem formar suas próprias redes horizontais

espontâneas como em nenhum momento anterior. O desafio que isso

representa é personificado não pelo dissidente preso Liu Xiaobo, premiado

com o Nobel da Paz em 2010, que pertence a uma geração anterior de

ativistas, mas pelo artista Ai Weiwei, barbado e corpulento, que usou sua

proeminência pública para protestar em nome das vítimas do terremoto de

2008 em Sichuan. O contra-argumento, aqui, vem de uma jovem produtora

de televisão de Pequim que conheci enquanto fazia a pesquisa para este

livro. “Minha geração sente que é afortunada”, ela me disse certa noite.

“Nossos avós tiveram o Grande Salto para a Frente, nossos pais tiveram a

Revolução Cultural. Mas nós podemos trabalhar, viajar, ganhar dinheiro.

Então eu acho que não pensamos muito nessa coisa de praça.” No começo,

eu não entendi o que ela queria dizer com isso. E então percebi: ela se

referia à praça Tiananmen [Praça da Paz Celestial] – o protesto pró-

democracia reprimido pelas forças militares em 1989.

A quarta e última armadilha é que a China se oponha tanto a seus

vizinhos a ponto de eles acabarem gravitando rumo a uma coalizão

equilibrada liderada por um Estados Unidos cada vez mais realista.

Certamente, não falta ressentimento no restante da Ásia com relação ao

modo como a China tenta se impor nos dias de hoje. Os planos chineses de

desviar os recursos hídricos do planalto tibetano de Qinghai tem graves

implicações para Bangladesh, a Índia e o Cazaquistão. Em Hanoi, a

paciência com o hábito chinês de empregar seu próprio povo nas minas

vietnamitas de bauxita está se esgotando. E as relações com o Japão

mudaram de tal forma para pior em uma disputa pelas minúsculas ilhas de

Senkaku/Diaoyu que a China impôs um embargo sobre as exportações de

metais de terras raras, em retaliação pela prisão de um pescador chinês

errante64. Mas esses atritos estão muito longe de ser justificativas suficientes

para aquela que seria a maior mudança na política externa norte-americana

desde que Richard Nixon e Henry Kissinger retomaram as comunicações

diplomáticas com a China em 1972. E o 440 ocupante da Casa Branca

parece muito distante da tradição realista na política externa norte-

americana, apesar da impressão deixada por suas visitas à Índia e à

Indonésia no fim de 2010.

 

O dilema imposto pela potência “que se vai” e a potência “que vem” é

sempre angustiante. O custo de resistir à ascensão da Alemanha foi

realmente oneroso para a Grã-Bretanha; era muito mais fácil passar

silenciosamente ao papel de parceiro menor dos Estados Unidos. Os norte-

americanos deveriam tentar conter a China? Ou apaziguá-la? As pesquisas

de opinião indicam que os norte-americanos comuns não estão mais seguros

do que o presidente sobre como responder a essas perguntas. Em uma

pesquisa recente do Pew Research Center, 49% dos entrevistados afirmaram que não esperavam que a China “superasse os Estados Unidos como a

principal superpotência do mundo”, mas 46% tinham opinião contrária65.

Lidar com uma nova ordem global já foi difícil o bastante após o colapso da

União Soviética, que subiu à cabeça de muitos analistas. Mas a Guerra Fria

durou pouco mais de quatro décadas, e a União Soviética nunca chegou

nem perto de superar a economia dos Estados Unidos. O que estamos

vivendo agora é o fim de 500 anos de supremacia ocidental. Desta vez, o

desafio do Oriente é real, tanto em termos econômicos quanto geopolíticos.

É cedo demais para os chineses proclamarem “agora nós somos os

mestres”. Mas está claro que eles já não são os aprendizes. No entanto, o

choque de civilizações tal como concebeu Huntington ainda parece uma

possibilidade remota. Estamos mais propensos a testemunhar o tipo de

mudança que nos últimos 500 anos quase sempre foi a favor do Ocidente.

Uma civilização se debilita, outra se fortalece. A pergunta crucial não é se

as duas vão se chocar, mas se a mais fraca passará da fraqueza ao colapso

total.

A desocupação das montanhas do Hindu Kush ou das planícies da

Mesopotâmia é, há tempos, prenúncio de declínio e queda. É significativo

que a União Soviética tenha se retirado do Afeganistão no ano miraculoso

de 1989 e deixado de existir em 1991. O que aconteceu depois, assim como

os eventos do distante século V, é um lembrete de que as civilizações na

verdade não nascem, crescem, reinam, decaem e morrem de acordo com

algum ciclo de vida recorrente e previsível. São os historiadores que, em

retrospectiva, retratam o processo de dissolução como se tivesse ocorrido

em câmera lenta, com várias causas determinantes. Em vez disso, as

civilizações se comportam como sistemas adaptativos complexos. Elas

funcionam em aparente equilíbrio por um período incognoscível. E então,

de maneira um tanto abrupta, entram em colapso. Para retomar a

terminologia de Thomas Cole, o pintor de O curso do império, a passagem

da consumação à destruição e então à desolação não é cíclica. É repentina.

Uma representação visual mais apropriada da maneira como os sistemas

complexos entram em colapso pode ser o velho pôster, um dia tão popular

em milhares de dormitórios universitários, de um trem a vapor descontrolado que atravessou o muro de uma estação ferroviária vitoriana e

deu de cara com a rua logo abaixo. Um freio defeituoso ou um motorista

sonolento podem ser tudo o que é preciso para submergir no caos.

Algo pode ser feito para salvar a civilização ocidental de tal calamidade?

Primeiro, não devemos ser demasiado fatalistas. É verdade, as coisas que

um dia separaram o Ocidente do Resto já não são monopolizadas por nós.

Os chineses têm o capitalismo. Os iranianos têm a ciência. Os russos têm a

democracia. Os africanos estão obtendo (lentamente) a medicina moderna.

E os turcos têm a sociedade de consumo. Mas o que isso significa é que os

modos de operação do Ocidente não estão em decadência, e sim

florescendo em praticamente toda parte, com apenas alguns poucos focos de

resistência. Um número cada vez maior de não ocidentais dorme, se banha,

se veste, trabalha, se diverte, come, bebe e viaja como ocidentais66. Além do

mais, conforme vimos, a civilização ocidental é mais que uma única coisa;

é um pacote. É tanto pluralismo político (vários Estados e várias

autoridades) quanto capitalismo; tanto a liberdade de pensamento quanto o

método científico; tanto o Estado de direito e os direitos de propriedade

quanto a democracia. Mesmo hoje, o Ocidente ainda tem mais dessas

vantagens institucionais do que o Resto. Os chineses não têm competição

política. Os iranianos não têm liberdade de consciência. Os russos podem

votar, mas seu Estado de direito é uma farsa. Em nenhum desses países há

liberdade de imprensa. Essas diferenças podem explicar por que, por

exemplo, todos os três países ficam para trás dos países ocidentais em

índices qualitativos que medem “o desenvolvimento inovador nacional” e a

“capacidade inovadora nacional”67.

É claro que a civilização ocidental está longe de ser isenta de falhas.

Perpetuou sua cota de delitos históricos, das brutalidades do imperialismo à

banalidade da sociedade de consumo. Seu materialismo intenso teve todos

os tipos de consequências dúbias, sobretudo o mal-estar que Freud nos

encorajou a cultivar. E certamente perdeu aquele ascetismo próspero que

Weber considerou tão admirável na ética protestante.

Mas esse pacote ocidental ainda parece oferecer às sociedades humanas o

melhor conjunto de instituições econômicas, sociais e políticas – as que têm mais probabilidade de liberar a criatividade humana capaz de resolver os

problemas que o mundo enfrenta no século XXI. Nos últimos 500 anos,

nenhuma civilização se saiu melhor em encontrar e educar gênios com

talentos à espera de ser descobertos em toda a sociedade humana. A grande

pergunta é se ainda somos ou não capazes de reconhecer a superioridade

desse pacote. No fim das contas, não são apenas os esplêndidos edifícios no

centro nem mesmo o funcionamento estável das instituições que abrigam

que tornam uma civilização real para seus habitantes. Em essência, uma

civilização são os textos ensinados nas escolas, aprendidos pelos estudantes

e rememorados em momentos de adversidade. A civilização da China um

dia se baseou nos ensinamentos de Confúcio. A civilização do Islã – do

culto da submissão – ainda se baseia no Corão. Mas quais são os textos

fundacionais da civilização ocidental capazes de reforçar nossa crença no

poder quase sem limites do ser humano livre?68 E até que ponto somos bons

em ensiná-los, considerando a aversão de nossos educadores ao

conhecimento formal e ao aprendizado por memorização? Talvez a

verdadeira ameaça seja imposta não pela ascensão da China, do Islã ou das

emissões de carbono, e sim por nossa própria perda de fé na civilização que

herdamos de nossos ancestrais.

Nossa civilização é mais do que simplesmente (conforme gracejou P. G.

Wodehouse) o oposto de dramatizações amadoras (ver epígrafe no início do

capítulo). Churchill compreendeu um aspecto crucial quando definiu o

“princípio central da civilização [ocidental]” como “a subordinação da

classe dominante aos costumes estabelecidos do povo e sua vontade tal

como expressa na Constituição”:

 

Por que [perguntou Churchill] as nações não deveriam se unir em um sistema maior e estabelecer

um governo de direito para o benefício de todos? Esta é, certamente, a esperança suprema que

deve nos inspirar [...]

Mas é vão imaginar que a mera [...] declaração dos princípios corretos [...] será de algum valor se

não for corroborada por qualidades de virtude cívica e coragem viril – sim, e pelos instrumentos e

exercícios de força e ciência [–] que em último recurso devem ser a defesa do direito e da razão.

A civilização não perdurará, a liberdade não sobreviverá, a paz não será mantida, a não ser que

uma grande maioria da humanidade se una para defendê-las e se mostre detentora de um poder

policial diante do qual as forças bárbaras e atávicas ficarão aterrorizadas69.

 

Em 1938, aquelas forças bárbaras e atávicas estavam no exterior,

sobretudo na Alemanha. Mas, conforme vimos, o que Churchill valorizava

era tanto os produtos da civilização ocidental quanto os valores de liberdade

e governo legítimo. Hoje, como na época, a maior ameaça à civilização

ocidental vem não de outras civilizações, e sim de nossa própria

pusilanimidade – e da ignorância histórica que a alimenta.

 

Hexter, “Seyssel, Machiavelli, and Polybius”.

Goldstone, “Cultural Orthodoxy, Risk and Innovation”, p. 129 ss.; Goldstone, Revolution and

Rebellion in the Early Modern World, p. 354.

Bolingbroke, “The Idea of a Patriot King”, p. 273.

Sorokin, Social and Cultural Dynamics.

Quigley, Tragedy and Hope, p. 3 ss. Ver também Quigley, Evolution of Civilizations.

Em seu livro de 1966, Tragedy and Hope [Tragédia e esperança], Quigley atribuiu grande poder a uma

misteriosa “sociedade secreta” anglo-americana supostamente fundada por Cecil Rhodes, Alfred Milner e pelo jornalista William T. Stead, dedicada a “expandir o Império Britânico” e convertê-lo em uma federação. O “grupo Rhodes-Milner” e seus afiliados da Távola Redonda, segundo Quigley, foram responsáveis pela Guerra dos Bôeres, pelo enfraquecimento do Tratado de Versalhes e pelo apaziguamento da Alemanha nazista. Após a morte de Milner em 1925, esse grupo continuou a exercer uma influência maligna por meio da Rhodes Trust, da Royal Institute for International Affairs (Chatham House) e do Council on Foreign Relations em Nova York. Quigley exagerou tanto o caráter secreto quanto o sucesso das atividades de Milner.

Kennedy, The Rise and Fall of the Great Powers, p. xvi.

Diamond, Collapse, p. 158.

Para uma crítica interessante, ver a análise de Joseph A. Tainter em Current Anthropology, 46

(dezembro de 2005).

0 Para uma introdução, ver Mitchell, Complexity.

1 Ibid., p. 5. Ver também Holland, Emergence.

2 Buchanan, Ubiquity.

3 Waldrop, Complexity.

4 Taleb, “The Fourth Quadrant”.

5 Krakauer et al. (Orgs.), History, Big History and Metahistory. Cf. Holland, Hidden Order.

6 Nascido em Yorkshire em 1881, Richardson foi um quaker que se recusou a lutar durante a Primeira

Guerra Mundial (embora tenha dirigido ambulâncias no fronte ocidental) e um proponente do Esperanto. Ele ficou deprimido por não ter encontrado nenhum indício de uma tendência em direção a menos guerra, nem tampouco algum indicador estatístico de quando e onde a guerra ocorreria, além de dois vínculos relativamente fracos: as guerras eram mais comuns entre Estados vizinhos e mais prováveis entre Estados com religiões diferentes.

7 Richardson, Statistics of Deadly Quarrels. Para uma análise atual, ver Hayes, “Statistics of Deadly

Quarrels”, e a discussão em Pinker, Better Angels.

8 Kotkin, Armageddon Averted.

9 Guan e Li, “The GDP and Economic Structure of the Ming Dinasty”.

0 Maddison, The World Economy.

1 http://gcr.weforum.org/gcr2010/.

2 http://www.conference-board.org/data/economydatabase/.

3 Sou grato a Jim O’Neill, da Goldman Sachs, por me fornecer dados relevantes.

4 Martin Wolf, “Will China’s Rise Be Peaceful?”, Financial Times, 16 de novembro de 2010.

5 Divisão Populacional do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas,

World Population Prospects: The 2008 Revision, http://esa.un.org/unpp, 27 de novembro de 2010.

6 De fato, o PIB total em dólar corrente para todos os países definidos por Huntington como ocidentais

permaneceu notadamente constante entre 61% e 69% do total mundial desde 1960.

7 Huntington, The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order, tabelas 3.1, 3.2, 3.3, 4.3,

4.5, 4.6.

8 Cecchetti et al., “The Future of Public Debt”.

9 Todos os detalhes em Ferguson, The Cash Nexus.

0 Congressional Budget Office [Escritório de Orçamento do Congresso], “Supplemental Data for the

Congressional Budget Office’s Long-Term Budget Outlook” (junho de 2010).

1 Marès, “Sovereign Subjects”, Exhibit 2.

2 Sargent, “The Ends of Four Big Inflations”.

3 Eichengreen, Exorbitant Privilege.

4 http://english.peopledaily.com.cn/90001/90776/90883/7179010.html.

5 http://www.reuters.com/article/idUSTOE6A301Q20101104.

6 http://www.businessweek.com/news/2010-11-09/china-researcher-says-u-s-s-qe2-is-financial-

protectionism.html.

7 As únicas commodities no abrangente banco de dados do Fundo Monetário Internacional cujos

preços não subiram desde fevereiro de 2009 são gás natural, madeira, azeite de oliva, camarão e frango.

8 http://www.ustreas.gov/tic/mfh.txt.

9 Cálculos do autor com base em dados do Congressional Budget Office [Escritório de Orçamento do

Congresso] dos Estados Unidos.

0 Congressional Budget Office [Escritório de Orçamento do Congresso], “The Budget and Economic

Outlook: An Update” (agosto de 2010), tabela 1.7.

1 Huntington, The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order.

2 Huntington, “The Clash of Civilizations”, p. 22.

3 Sen, Identity and Violence; Berman, Terror and Liberalism. Ver também Edward Said, “The Clash of

Ignorance”, Nation, 22 de outubro de 2001.

4 Tusicisny, “Civilizational Conflicts”.

5 Marshall e Gurr, Peace and Conflict, apêndice, tabela 11.1.

6 O autor faz um trocadilho entre clash of civilizations e crash of civilizations. (N.T.)

7 Ver, por exemplo, Luard, War in International Society.

8 David E. Sanger, “With Warning, Obama Presses China on Currency”, New York Times, 23 setembro

de 2010.

9 Alan Beattie, Joshua Chaffin e Kevin Brown, “Wen Warns against Renminbi Pressure”, Financial

Times, 6 de outubro de 2010.

0 Ferguson e Schularick, “The End of Chimerica”.

1 Jacques, When China Rules the World.

2 Agência Internacional de Energia, World Energy Outlook 2010 (Londres, 2010).

3 http://en.china.cn/content/d732706,cd7c6d,1912_6577.html.

4 Collier, The Plundered Planet.

5 Raine, China’s African Challenges, p. 97.

6 Ibid., p. 164.

7 Economy, “Game Changer”, p. 149.

8 Organização Mundial da Propriedade Intelectual, World Intellectual Property Indicators 2010

(Geneva, 2010): http://www.wipo.int/ipstats/en/statistics/patents/.

9 Mu Rongping, “China”. In: UNESCO Science Report 2010, p. 379-98.

0 Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico, Economic Survey of the UK (outubro

de 2005).

1 Institution of Education Sciences, Trends in International Mathematics and Science Study (2007).

2 Pew Global Attitudes Project, “The Chinese Celebrate their Roaring Economy, as They Struggle with

its Costs”, 22 de julho de 2008: http://pewglobal.org/2008/07/22/.

3 Nicholas Eberstadt, “China’s Family Planning Policy Goes Awry”, American Enterprise Institute for

Public Policy Research, 23 de novembro de 2010: http://www.aei.org /article/101389.

4 Economy, “The Game Changer”.

5 Pew Research Center for People and the Press, “Public Sees a Future Full of Promise and Peril”, 22

de junho de 2010: http://people-press.org/report/?pageid=1740.

6 Zakaria, The Post-American World.

7 Rongping, “China”, p. 395.

8 Eu recomendaria a Bíblia do rei Jaime, os Princípios, de Isaac Newton, os Dois tratados sobre o

governo, de John Locke, Teoria dos sentimentos morais e A riqueza das nações, de Adam Smith, Reflexões sobre a revolução na França, de Edmund Burke, e A origem das espécies, de Charles Darwin – aos quais deveriam ser agregadas as obras de William Shakespeare e discursos selecionados de Abraham Lincoln e Winston Churchill. Se tivesse de selecionar um único volume como meu Corão, selecionaria as obras completas de Shakespeare.

9 Churchill, “Civilization”, p. 45 ss.

 

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