Civilização: Ocidente X Oriente
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Consumo
O que devemos fazer é transformar nosso império e nosso povo, tornar o império como os países da Europa e nosso povo como os povos da Europa.
INOUE KAORU
O Ocidente, que leva sua grande invenção, a democracia, mais a sério que a palavra de Deus, se levantará contra este golpe que colocou fim à democracia em Kars? [...] Ou devemos concluir que a democracia, a liberdade e os direitos humanos não importam, que tudo que o Ocidente quer é que o restante do mundo os imite como macacos? O Ocidente será capaz de aturar uma democracia alcançada por inimigos que não se parecem com eles em nenhum aspecto? ORHAN PAMUK
O nascimento da sociedade de consumo
Em 1909, inspirado por uma visita ao Japão, o banqueiro e filantropo
franco-judeu Albert Kahn1 resolveu criar um álbum de fotografias coloridas
de pessoas de todas as partes do mundo. O objetivo, segundo Kahn, era
“fazer uma espécie de inventário fotográfico da superfície do globo
habitada e desenvolvida pelo homem no início do século XX”. Criadas com
o recém-inventado processo de autocromo, as 72 mil fotografias e 100
horas de filmagem nos “arquivos do planeta” de Kahn mostram uma
variedade impressionante de trajes e costumes de mais de 50 países
diferentes: camponeses miseráveis no Gaeltacht, recrutas desgrenhados na
Bulgária, líderes hostis na Arábia, guerreiros completamente nus em
Daomé, marajás cheios de adornos na Índia, sacerdotisas sedutoras na
Indochina e caubóis de aparência estranhamente impassível no Velho Oeste
americano2. Naquele tempo, o que parece espantoso atualmente, éramos o
que vestíamos.
Hoje, um século mais tarde, o projeto de Kahn teria pouco sentido,
porque a maioria das pessoas em todo o mundo se veste de maneira muito
parecida: as mesmas calças jeans, os mesmos tênis, as mesmas camisetas.
Há apenas alguns poucos lugares onde as pessoas resistem contra o
liquidificador gigantesco da indumentária. Uma delas é a zona rural do
Peru. Nas montanhas dos Andes, as mulheres quéchuas ainda usam seus
vestidos e xales de cores vivas e seus pequenos chapéus de feltro,
elegantemente atados e decorados com suas insígnias tribais. No entanto,
essas não são roupas quéchuas tradicionais. Os vestidos, xales e chapéus
são, na verdade, de origem andaluz, e foram impostos pelo vice-rei
espanhol Francisco de Toledo em 1572, após a derrota de Túpac Amaru. Os
trajes autenticamente tradicionais das mulheres andinas consistiam de uma
túnica (a anacu) presa à cintura por uma faixa (a chumpi), sobre a qual se
vestia um manto (o lliclla), que era atado com um alfinete tupu. O que as
mulheres quéchuas vestem hoje em dia é uma combinação desses trajes
originais com as roupas que seus senhores espanhóis as obrigaram a vestir.
Os chapéus-cocos, populares entre as mulheres bolivianas, vieram mais
tarde, quando os trabalhadores ingleses chegaram para construir as
primeiras ferrovias daquele país3. A moda atual entre os homens andinos
para vestuário informal americano é, portanto, apenas o último capítulo em
uma longa história de ocidentalização da indumentária.
O que há em nossas roupas que parece ser irresistível aos outros povos?
Vestir-se como nós significa querer ser como nós? Claramente, não se trata
só de roupas. Trata-se de abraçar toda uma cultura popular que passa pela
música e pelo cinema, sem falar dos refrigerantes e da fast food. Essa
cultura popular contém uma mensagem sutil. Diz respeito à liberdade – o
direito de se vestir ou beber ou comer como você quiser (mesmo que isso
signifique ser como todos os demais). Diz respeito à democracia – porque
só os produtos de consumo que realmente agradam as pessoas são
produzidos. E, é claro, diz respeito ao capitalismo – porque as corporações
têm de lucrar vendendo coisas. Mas o vestuário está no cerne do processo de ocidentalização por uma razão muito simples. Aquela grande
transformação econômica que os historiadores há muito chamaram
Revolução Industrial – o salto quantitativo no padrão material de vida para
uma parcela cada vez maior da humanidade – teve suas origens na
manufatura têxtil. Foi, em parte, um milagre da produção em massa
ocasionado por uma onda de inovação tecnológica, que teve sua origem na
Revolução Científica (ver Capítulo 2). Mas a Revolução Industrial não teria
começado na Grã-Bretanha e se espalhado para o restante do mundo sem o
desenvolvimento simultâneo de uma sociedade de consumo dinâmica,
caracterizada por uma demanda quase infinitamente elástica por roupas
baratas. A mágica da industrialização, embora os críticos da época
geralmente ignorassem esse aspecto, foi que o trabalhador era, ao mesmo
tempo, consumidor. O “escravo assalariado” também fazia compras; o mais
pobre dos proletários tinha mais de uma camisa, e aspirava ter mais de duas.
Hoje, a sociedade de consumo é tão onipresente que é fácil presumir que
sempre existiu. Mas, na realidade, é uma das inovações mais recentes que
fez que o Ocidente saísse à frente do Resto. Sua característica mais
marcante é sua atração aparentemente irresistível. Ao contrário da medicina
moderna, que (conforme vimos no capítulo anterior) foi muitas vezes
imposta à força nas colônias ocidentais, a sociedade de consumo é um
incrível aplicativo que o restante do mundo geralmente ansiou por instalar.
Mesmo as ordens sociais concebidas explicitamente como anticapitalistas –
de maneira mais evidente nas várias experiências derivadas da doutrina de
Karl Marx – foram incapazes de excluí-la. O resultado é um dos maiores
paradoxos da história moderna: que um sistema econômico projetado para
oferecer escolha infinita ao indivíduo tenha terminado homogeneizando a
humanidade.
A Revolução Industrial é muitas vezes deturpada, como se uma ampla gama
de inovações tecnológicas tivesse transformado várias atividades
econômicas ao mesmo tempo. Não foi isso o que ocorreu. A primeira fase
de industrialização esteve firmemente concentrada nos produtos têxteis. A
fábrica arquetípica era uma tecelagem de algodão, como a Anchor Mill, em
Paisley, que ainda hoje é um monumento ao apogeu industrial da Escócia.4
O que aconteceu de fato? Uma resposta simples é que, em algum
momento do século XIX, a produção econômica britânica por pessoa, que já
havia começado a se acelerar no século XVII, deslanchou como um
foguete. Devido à extrema dificuldade de calcular em retrospecto medições
anacrônicas como Produto Interno Bruto ou renda nacional, os estudiosos
diferem quanto ao momento preciso. Uma estimativa confiável é que a taxa
média anual de crescimento do PIB per capita subiu de menos de 0,2%
entre 1760 e 1800 para 0,52% entre 1800 e 1830 e para 1,98% entre 1830 e
18705.Todos esses números são baixíssimos para os padrões do século XXI.
No entanto, seu efeito foi revolucionário. Tal aceleração contínua no
crescimento econômico jamais havia ocorrido; e não parou aí. Ao contrário,
o crescimento ainda mais rápido significou que, em 1960, um britânico era,
em média, seis vezes mais rico que seu bisavô havia sido em 18606.
Especialmente notável foi a velocidade com que a mão de obra britânica
deixou a agricultura para trabalhar em outros setores (não só na manufatura,
mas também em serviços). Já em 1850, pouco mais de um quinto da
população economicamente ativa da Grã-Bretanha se dedicava à
agricultura, em uma época em que o número estava mais próximo de 45%,
até mesmo nos Países Baixos. Em 1880, menos de um em cada sete
britânicos trabalhava na terra; em 1910, era um em cada 117. Os números do
crescimento agregado mascaram o caráter drástico dessa mudança. Embora
tenha durado décadas, a Revolução Industrial foi extremamente localizada.
Em Gloucestershire, por exemplo, foi quase invisível. Em Lancashire era
impossível deixar de notá-la – ainda que imersa em neblina. As Terras Altas
da Escócia permaneceram intocadas; foi por isso que os vitorianos
aprenderam a amar aquilo que havia impressionado a geração do Dr.
Johnson como apenas uma terra desolada e sombria. Glasgow, ao contrário,
foi transformada pelo comércio e pela indústria na “segunda cidade” do
Império Britânico, com suas chaminés exalando mais fumaça que as de
Edimburgo, sua rival famosa pelo mal cheiro.
A Revolução Industrial já foi caracterizada como uma “onda de
invenções”8. Certamente, foi a inovação tecnológica o que explicou grande
parte do aumento decisivo na produtividade da terra, da mão de obra e do capital (os chamados fatores de produção). O segundo e o terceiro desses
fatores aumentaram em quantidade no século XIX,9 mas foram as melhorias
qualitativas que realmente importaram – o fato de que a produção total
excedia os aumentos combinados de trabalhadores e tecelagens. Quanto à
oferta, a Revolução Industrial foi uma busca por eficiência. Máquinas de
fiar hidráulicas como a spinning jenny, de James Hargreaves (1766), a
water frame, de Richard Arkwright (1769), a mule, de Samuel Crompton
(1779), e a self-acting mule, de Richard Roberts (1830), bem como o tear
mecânico de Edmund Cartwright (1787), foram maneiras de produzir mais
fios ou tecidos por homem-hora. A spinning jenny, por exemplo, permitia
que um único trabalhador fiasse algodão com oito carretéis ao mesmo
tempo. Graças a essas inovações, o preço unitário das manufaturas
britânicas de algodão caiu em aproximadamente 90% entre meados dos
anos 1790 e 183010. E isso também se aplicou a outros avanços essenciais
na produção de ferro e na geração de energia a vapor. O alto-forno de James
Neilson, patenteado em 1828, melhorou muitíssimo o processo de fundição
inventado por Abraham Darby em 1709, alimentado por coque em vez de
por carvão. A produção de ferro no forno de Darby em Coalbrookdale
saltou de 81 toneladas por ano em 1709 para 4.632 em 1850. Igualmente, a
máquina a vapor de Thomas Newcomen, de 1705, teve pouca utilidade
prática; mas a inclusão de um condensador separado por James Watt foi
uma melhoria significativa, e a versão de Richard Trevithick, de alta
pressão, foi ainda melhor. A máquina de Newcomen queimava 22 quilos de
carvão para produzir um único cavalo-vapor por hora. Uma máquina a
vapor do fim do século XIX era capaz de produzir o mesmo com menos de
500 gramas de carvão11. Em 1870, as máquinas a vapor da Grã-Bretanha
geravam, juntas, 4 milhões de cavalos-vapor, o equivalente ao trabalho de
40 milhões de homens. Alimentar uma mão de obra humana tão numerosa
teria requerido três vezes toda a produção de trigo do país12. Em termos
intelectuais, nada disso foi tão profundo quanto os grandes avanços
científicos do século XVII, embora o fato de Boulton e Watt serem
membros da Sociedade Lunar de Birmingham, que também contava com o
químico pioneiro Joseph Priestley entre seus notáveis, demonstre que as
duas revoluções estiveram intimamente relacionadas13. Este foi, antes, um
processo evolutivo de aperfeiçoamento, caracterizado pela acumulação de
pequenas melhorias, às vezes implementadas por homens com educação
científica mínima. O espírito da época havia descido de seu cavalo de
batalha e agora era encontrado trabalhando na casa de fundição Soho, de
Boulton & Watt. A inovação, personificada pelo austero Watt, e o
empreendedorismo, personificado pelo entusiasmado Boulton: essa foi a
parceria perfeita que esteve no cerne da Revolução Industrial.
“Aqui eu vendo, Sir”, Boulton disse a James Boswell em 1776, “o que o
mundo inteiro deseja ter: ENERGIA.”14 Mas para quê? A Revolução
Industrial teria sido sem sentido se tivesse consistido unicamente de um
grande aumento na quantidade de tecido, ferro e energia mecânica que
podia ser produzida em um ano. Igualmente importante foi o rápido
desenvolvimento e a propagação de uma sociedade de consumo que de fato
queria mais dessas coisas15. Se a inovação tecnológica incentivou o lado da
oferta, o lado da demanda da Revolução Industrial foi impulsionado pelo
apetite aparentemente insaciável dos seres humanos por ter roupas. Nada
contribuiu mais para estimular esse apetite que a importação em grande
escala de tecido indiano pela Companhia das Índias Orientais, começando
no século XVII. (As importações de porcelana chinesa tiveram um efeito
similar sobre a demanda por utensílios de cerâmica.)16 As donas de casa
queriam essas coisas e adaptaram seu comportamento e seu orçamento de
acordo com esse desejo17. Os empreendedores procuraram usar novas
tecnologias para imitar os produtos importados e, assim, substituí-los18.
O algodão foi, de fato, o rei do milagre econômico britânico. O setor
têxtil representava cerca de um décimo da renda nacional, e a manufatura
de algodão foi a que fez os progressos mais rápidos em eficiência. As
fábricas de Manchester e as oficinas de Oldham se tornaram o ponto focal
da transformação. O impressionante é que uma parte muito grande da
produção de algodão britânica não era destinada ao consumo doméstico.
Em meados dos anos 1780, as exportações de algodão correspondiam a
apenas 6% do total das exportações britânicas. Em meados dos anos 1830, a
proporção havia subido para 48%, em sua maior parte para a Europa
continental19. Os historiadores costumavam discutir sobre o que surgiu
primeiro na Grã-Bretanha: a onda tecnológica ou a sociedade de consumo.
No continente, não há dúvida. Os europeus adquiriram um gosto por roupas
baratas industrializadas muito antes de aprender a produzi-las por conta
própria.
Por que a Grã-Bretanha se industrializou primeiro? A sociedade de
consumo não era significativamente mais avançada do que em outros
Estados do noroeste europeu. O nível e a disseminação de conhecimento
científico não eram notadamente superiores. Houvera avanços
impressionantes em outros setores da economia britânica durante o século
XVIII – por exemplo, agricultura, serviços bancários e comércio –, mas não
é óbvio por que isso desencadearia um surto de investimento no aumento da
produtividade do algodão, do ferro e da produção de energia a vapor.
Insinuou-se que a explicação para a industrialização precoce da Grã-
Bretanha deve residir no reino da política ou do direito. Afirma-se que o
common law, por exemplo, encorajou a formação de corporações e ofereceu
aos credores melhor proteção do que os sistemas continentais como aqueles
que derivaram do código de direito civil de Napoleão20. As vantagens
institucionais sem dúvida ajudaram a Grã-Bretanha a sair à frente de outros
futuros impérios no século XVII e sobretudo no século XVIII, conforme
vimos. Mas não está nem um pouco claro por que a doutrina da soberania
do Parlamento ou a evolução do common law teria dado a Boulton e Watt
incentivos mais contundentes do que tiveram seus pares desconhecidos no
continente.
É possível que os impostos do século XVIII que incidiam sobre os calicos
(tecidos grosseiros de algodão) indianos tenham dado alguma vantagem aos
manufatureiros britânicos, assim como políticas protecionistas similares
mais tarde nutririam as indústrias incipientes dos Estados Unidos,
protegendo-as da competição britânica21. A doutrina da vantagem
comparativa,22 de David Ricardo, não foi o único motivo pelo qual as
exportações de algodão na Grã-Bretanha dispararam na primeira metade do
século XIX. À exceção desse aspecto, parece pouco convincente que as
instituições políticas ou legais da Grã-Bretanha (ou, aliás, dos Estados Unidos) fossem mais favoráveis ao desenvolvimento industrial do que as
holandesas, as francesas ou as alemãs23. Aos olhos dos homens da época, a
situação dos sistemas políticos e legais da Grã-Bretanha nas principais
décadas de florescimento industrial eram tudo menos favoráveis a uma
indústria desenvolvida. O polemista radical William Cobbett caracterizava
como “a velha corrupção” o modo como o Parlamento, a Coroa e a Cidade
interagiam. Em Bleak House (1852-3), Charles Dickens retratou o Tribunal
da Equidade como um obstáculo, grotescamente ineficaz para solucionar
disputas de propriedade, ao passo que em Little Dorrit (1855- -7) o alvo de
sua sátira foi o “Departamento do Circunlóquio”, uma repartição de
governo dedicada a obstruir o progresso econômico. As sociedades
anônimas continuaram ilegais até que a Lei da Bolha, de 1720, foi revogada
em 1824, ao passo que as prisões para devedores, como a de Marshalsea –
retratadas com riqueza de detalhes em Little Dorrit –, continuaram a
funcionar até a aprovação da Lei da Bancarrota de 1869. Também vale
lembrar que grande parte das leis aprovadas pelos parlamentos vitorianos
com relação à indústria têxtil foi concebida para limitar a liberdade
econômica dos proprietários de fábricas, notadamente no que concerne ao
trabalho infantil.
A Grã-Bretanha diferia significativamente de outros países do noroeste da
Europa em dois aspectos que tornam a Revolução Industrial compreensível.
O primeiro era que o trabalho era claramente mais caro que no continente –
ou, na verdade, que em qualquer lugar do qual temos registro. Na segunda
metade do século XVIII, o salário real de um trabalhador parisiense (em
prata, atualizado pela inflação) era pouco mais da metade do de um
londrinense. O salário real em Milão era 26% do de Londres24. Os salários
na China e no sul da Índia eram ainda mais baixos, e não só devido à
produtividade superior do cultivo de arroz asiático em comparação com a
produção de trigo europeia25. A segunda razão era que o carvão na Grã-
Bretanha era abundante, acessível e, portanto, muito mais barato que do
outro lado do canal da Mancha. Entre a década de 1820 e a de 1860, a
produção anual das minas de carvão britânicas quadruplicou; o preço por
tonelada caiu em 25%. Juntas, essas diferenças explicam por que os empreendedores britânicos estavam muito mais motivados para buscar a
inovação tecnológica do que seus pares continentais. Fazia mais sentido na
Grã-Bretanha do que em qualquer outra parte substituir homens caros por
máquinas alimentadas por carvão barato.
Assim como a Revolução Francesa, a Revolução Industrial britânica se
espalhou pela Europa. Mas essa foi uma conquista pacífica26. Os grandes
inovadores foram incapazes de proteger o que hoje seria chamado direito de
propriedade intelectual. Com notável rapidez, portanto, a nova tecnologia
foi copiada e reproduzida no continente e do outro lado do Atlântico. A
primeira verdadeira tecelagem de algodão, a de Richard Arkwright em
Cromford, Derbyshire, foi construída em 1771. Em sete anos, uma cópia
apareceu na França. Levou apenas três anos para que os franceses
copiassem a máquina a vapor de Watt, de 1775. Em 1784, havia versões
alemãs de ambas, em grande medida graças à espionagem industrial. Os
norte-americanos, que tinham a vantagem de ser capazes de cultivar seu
próprio algodão, assim como extrair seu próprio carvão, foram um pouco
mais lentos: a primeira tecelagem de algodão apareceu no rio Bass,
Massachusetts, em 1788; a primeira máquina a vapor, em 180327. Os belgas,
os holandeses e os suíços não ficaram muito atrás. O padrão foi similar
depois que as primeiras locomotivas a vapor começaram a transportar
vagões nas ferrovias de Stockton e Darlington em 1825, embora essa
inovação tenha levado apenas cinco anos para atravessar o Atlântico, em
comparação com 12 anos para chegar à Alemanha e 22 para chegar à
Suíça28. À medida que a tecnologia foi se tornando mais eficiente, passou a
ser atraente em termos econômicos, mesmo onde a mão de obra era mais
barata e o carvão, mais escasso. Entre 1820 e 1913, o número de carretéis
no mundo cresceu quatro vezes mais rápido que a população mundial, mas
a taxa de crescimento foi duas vezes mais rápida no Reino Unido. Os
ganhos em produtividade – e o crescimento da demanda – foram tão
grandes que a produção bruta da indústria mundial de algodão cresceu três
vezes mais rápido que a quantidade total de carretéis29. Em consequência,
entre 1820 e 1870 vários países do noroeste da Europa e da América do Norte alcançaram as taxas de crescimento britânicas; de fato, a Bélgica e os
Estados Unidos cresceram ainda mais rapidamente.
No fim do século XIX, portanto, a industrialização estava em plena
atividade em duas faixas amplas: uma que se estendia pelo nordeste dos
Estados Unidos, tendo como centro cidades como Lowell, no coração de
Massachusetts, e outra que se estendia de Glasgow a Varsóvia e chegava até
mesmo a Moscou. Em 1800, sete das dez maiores cidades do mundo
continuavam sendo asiáticas, e Pequim ainda excedia Londres em tamanho.
Em 1900, em grande parte como consequência da Revolução Industrial, só
uma das dez maiores cidades era asiática; as demais eram europeias ou
norte-americanas.
A propagação da cidade industrial em estilo britânico pelo mundo
inspirou alguns observadores, mas consternou outros. Entre os inspirados
estava Charles Darwin, que, conforme reconheceu em A origem das
espécies (1859), estava “bem preparado para avaliar a luta pela existência”
graças à experiência de ter vivido durante a Revolução Industrial. Grande
parte da explicação de Darwin sobre a seleção natural poderia ter sido
aplicada ao mundo econômico do negócio têxtil de meados do século XIX:
Todos os seres orgânicos estão expostos à competição severa [...] Como são gerados mais
indivíduos do que são capazes de sobreviver, deve haver, em todo caso, uma luta pela existência,
seja uma luta individual com outro da mesma espécie, ou com os indivíduos de uma espécie
distinta, ou com as condições físicas da vida. Cada ser orgânico [...] precisa lutar para sobreviver
[...] Como a seleção natural atua unicamente acumulando variações mínimas, sucessivas e
favoráveis, ela não pode produzir uma modificação grande ou repentina [...] 30
Assim, talvez fizesse mais sentido para os historiadores falar de uma
Evolução Industrial, na acepção darwiniana da palavra. Conforme os
economistas Thorstein Veblen e Joseph Schumpeter observariam mais
tarde, o capitalismo do século XIX foi um autêntico sistema darwiniano,
caracterizado por uma mutação aparentemente aleatória, especiação
ocasional e sobrevivência diferencial ou, para usar o termo memorável de
Schumpeter, “destruição criativa”.31
Mas foi exatamente a volatilidade dos mercados mais ou menos
desregulados criada pela Revolução Industrial que causou consternação
entre muitos homens da época. Até os principais avanços em saúde pública
descritos no capítulo anterior, as taxas de mortalidade nas cidades
industriais eram notadamente piores que as do interior. Além disso, o
advento de uma nova forma de “ciclo de negócio”, que estava longe de ser
regular, marcada por crises periódicas de superprodução industrial e pânico
financeiro, quase sempre causou uma impressão mais forte nas pessoas do
que a aceleração gradativa da taxa média de crescimento da economia.
Embora, evidentemente, a Revolução Industrial tenha melhorado as
condições de vida a longo prazo, a curto prazo parecia tornar as coisas
piores. Uma das ilustrações de William Blake para seu prefácio a Milton
continha, entre outras imagens sombrias, uma figura de pele negra
segurando um pedaço de fio de algodão empapado de sangue.32 Para o
compositor Richard Wagner, Londres era “o sonho de Alberich tornado
realidade – Nibelheim, domínio mundial, atividade, trabalho, em toda parte
a sensação opressiva do vapor e da neblina”. Imagens infernais da fábrica
britânica inspiraram sua representação do reino subterrâneo do anão em
Das Rheingold [O ouro do Reno], bem como um dos leitmotivs de todo o
ciclo O anel dos Nibelungos, o ritmo insistente e estacado de vários
martelos:
Apoiado na literatura e na filosofia alemã, o escritor escocês Thomas
Carlyle foi o primeiro a identificar aquele que parecia o defeito fatal da
economia industrial: que ela reduzia todas as relações sociais ao que ele
chamou, em seu ensaio Passado e presente, de “o nexo do dinheiro”:
O mundo vem se alvoroçando, com espírito tão febril, para conseguir que cada vez mais trabalho
seja feito que acaba não tendo tempo de pensar em dividir os salários; e simplesmente deixa que
eles sejam disputados segundo a lei do mais forte, a lei da oferta e demanda, a lei do laissez-faire,
e outras leis e des-leis sem propósito. Nós chamamos isso sociedade; e tratamos de professar
abertamente a total separação, o total isolamento. Nossa vida não é ajuda mútua; em vez disso,
mascarada sob leis de guerra, denominada “competição justa” e assim por diante, é hostilidade
mútua. Em toda parte, esquecemos completamente que o pagamento em dinheiro não é a única
forma de relação entre os seres humanos [...] Não é o único nexo de homem com homem – longe
disso! Muito mais profundas que a da oferta e demanda são as leis e obrigações sagradas da
própria vida humana 33.
Essa expressão – “o nexo do dinheiro” – agradou tanto o filho de um
advogado judeu apóstata da Renânia que ele e seu coautor, o herdeiro de um
proprietário de tecelagem de algodão em Wuppertal, se apropriaram dele
para o insultante “manifesto” que publicaram às vésperas das revoluções de
1848.
Os fundadores do comunismo, Karl Marx e Friedrich Engels, foram
apenas dois dos muitos críticos radicais da sociedade industrial, mas foram
eles que conseguiram conceber o primeiro plano internamente coerente para
uma ordem social alternativa. Como esse foi o começo de um cisma na
civilização ocidental que duraria quase um século e meio, vale a pena fazer
uma pausa para considerar as origens de sua teoria. Uma mistura da
filosofia de Hegel, que representava o processo histórico como dialético, e
da economia política de David Ricardo, que propôs retornos menores para o
capital e uma lei “de ferro” de salários baixos, o marxismo tomou a
revulsão de Carlyle contra a economia industrial e substituiu a nostalgia por
uma utopia.
Marx era um indivíduo detestável, um desleixado que sempre viveu à
custa dos outros e um polemista cruel. Ele gostava de se gabar de que sua
esposa era a “née baronesa Von Westphalen”, mas mesmo assim teve um
filho ilegítimo com a criada. Na única ocasião em que se candidatou a um
emprego (como caixa ferroviário), não foi aceito porque sua caligrafia era
péssima. Tentou investir no mercado de ações, mas não tinha talento para
isso. Durante a maior parte da vida, portanto, Marx dependeu da ajuda financeira de Engels, para quem o socialismo era um passatempo, assim
como a caça de raposas e as mulheres; seu trabalho diurno era administrar
uma das fábricas de algodão do pai em Manchester (cujo produto
patenteado era conhecido como o “fio diamante”). Nenhum homem na
história cuspiu no prato que comeu com tanto gosto quanto Marx.
A essência do marxismo era a crença de que a economia industrial estava
fadada a produzir uma sociedade intoleravelmente desigual, dividida entre a
burguesia, ou os proprietários do capital, e o proletariado, destituído de
propriedades. De maneira inexorável, o capitalismo demandava a
concentração de capital em cada vez menos pessoas e a redução de todos os
demais à escravidão assalariada, o que significava receber apenas “a
quantidade dos meios de subsistência que é absolutamente necessária para
manter o trabalhador apenas existindo como trabalhador”. No capítulo 32
do primeiro tomo de O capital (1867), sua obra de difícil leitura, Marx
profetizou o desfecho inevitável:
Junto com a diminuição constante do número de magnatas capitalistas, que usurpam e
monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, cresce a massa de miséria,
opressão, escravidão, degradação e exploração; mas com esta também cresce a revolta da classe
trabalhadora [...]
A centralização dos meios de produção e a socialização da mão de obra chegam a um ponto em
que eles se tornam incompatíveis com seu invólucro capitalista, que se rompe. Soa o sino da
propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados.
Não é por acaso que essa passagem tem um caráter wagneriano, parte O
crepúsculo dos deuses, parte Parsifal. Mas, na época em que o livro foi
publicado, o grande compositor havia deixado o espírito de 1848 muito para
trás. Em vez disso, foi a canção de Eugène Pottier, “A internacional”, que se
tornou o hino do marxismo. Musicada por Pierre De Geyter, incitava as
“massas servis” a deixar de lado suas “superstições” religiosas e fidelidades
nacionais e guerrear contra os “ladrões” e seus cúmplices, os tiranos, os
generais, os príncipes e similares.
Antes de entender por que eles estavam errados, precisamos identificar
em que aspectos Marx e seus discípulos tinham razão. A desigualdade de fato cresceu em consequência da Revolução Industrial. Entre 1780 e 1830, a
produção por trabalhador no Reino Unido aumentou mais de 25%, mas os
salários cresceram meros 5%. A proporção da receita nacional que ia para a
camada superior da população cresceu de 25% em 1801 para 35% em 1848.
Em Paris, em 1820, por volta de 9% da população foi classificada como
“proprietários e rentiers” (que vivem de renda) e tinha 41% da riqueza
registrada. Em 1911, sua parcela havia subido para 52%. Na Prússia, a
proporção da renda que se concentrava nas mãos dos 5% mais ricos subiu
de 21% em 1854 para 27% em 1896, e 43% em 191334. Parece estar claro
que as sociedades industriais ficaram mais desiguais no decurso do século
XIX. Isso teve consequências previsíveis. Na epidemia de cólera que
irrompeu em Hamburgo em 1892, por exemplo, a taxa de mortalidade para
indivíduos com renda inferior a 800 marcos por ano era 13 vezes mais alta
que a de indivíduos que ganhavam mais de 50 mil marcos por ano35. Não
era necessário ser um marxista para ficar horrorizado com a desigualdade
da sociedade industrial. O dono de fábrica galês Robert Owen, que cunhou
o termo “socialismo” em 1817, vislumbrou um modelo econômico
alternativo baseado na produção coletiva e em vilarejos utópicos como
aqueles que fundou em Orbiston, na Escócia, e em Nova Harmonia,
Indiana36. Até mesmo o esteta e intelectual irlandês Oscar Wilde reconheceu
a base da miséria social sobre a qual se erguia o mundo refinado das belas-
artes:
Estes são os pobres; e entre eles não há modos graciosos, ou discursos fascinantes, ou civilização
[...] De sua força coletiva, a humanidade ganha muito em prosperidade material. Mas é só o
resultado material que ela obtém, e o homem que é pobre não tem importância alguma. Ele é
meramente o átomo infinitesimal de uma força que, longe de respeitá-lo, o oprime: de fato, prefere
que ele esteja oprimido, pois assim ele é muito mais obediente [...] Agitadores são pessoas que
interferem, que se intrometem, que se opõem a uma classe perfeitamente satisfeita da comunidade,
e espalham as sementes dos descontentes entre ela. Esta é a razão pela qual os agitadores são tão
absolutamente necessários. Sem eles, em nosso estado incompleto, não haveria avanços rumo à
civilização [...] [Mas] o fato é que essa civilização requer escravos. Nisso, os gregos estavam
certos. A não ser que existam escravos para fazer o trabalho feio, horrível, desinteressante, a
cultura e a contemplação se tornam quase impossíveis. A escravidão humana é errada, insegura e
desmoralizante. Da escravidão mecânica, da escravidão da máquina, depende o futuro do
mundo 37.
Mas a revolução temida por Wilde e ansiosamente prevista por Marx
nunca se materializou – pelo menos, não onde se esperava. Os tumultos de
1830 e 1848 foram consequência de aumentos súbitos no preço dos
alimentos e crises financeiras, mais que de polarização social38. Com a
melhoria da produtividade agrícola, o crescimento do emprego no setor
industrial e a redução da amplitude do ciclo de negócio, o risco de
revolução na Europa diminuiu. Em vez de se unir em uma massa
empobrecida, o proletariado se subdividiu em “aristocracias trabalhistas”
com habilidades e em um lumpemproletariado com vícios. Os primeiros
favoreceram greves e negociação coletiva em vez de revolução e, desse
modo, asseguraram salários reais mais altos. Os últimos preferiram o gim.
A classe trabalhadora respeitável tinha seus sindicatos e clubes de
trabalhadores39. Os briguentos – “keelies” em Glasgow – tinham o café-
concerto e as brigas de rua.
De todo modo, estranhamente, as propostas do Manifesto comunista não
atraíram os trabalhadores industriais a quem se dirigiam. Marx e Engels
reivindicavam a abolição da propriedade privada; a abolição da herança; a
centralização do crédito e das comunicações; a propriedade estatal de todas
as fábricas e meios de produção; a criação de “exércitos industriais para a
agricultura”; a abolição da distinção entre cidade e campo; a abolição da
família; uma “comunidade de mulheres” (troca de esposas) e a abolição de
todas as nacionalidades. Já os liberais de meados do século XIX queriam
um governo constitucional, a liberdade de expressão, de imprensa e de
associação, uma representação política mais ampla por meio da reforma
eleitoral, o livre comércio e, onde não existia, a autodeterminação nacional
(“autogoverno”). Meio século após as revoltas de 1848, eles conseguiram
uma boa parte dessas coisas – o suficiente, de todo modo, para fazer com
que as soluções desesperadas de Marx e Engels parecessem dispensáveis.
Em 1850, só a França, a Grécia e a Suíça tinham colônias em que mais de
um quinto da população votava. Em 1900, essa era a realidade em dez países europeus, e a Grã-Bretanha e a Suécia não ficavam muito atrás. A
representação mais ampla levou a uma legislação que beneficiava os grupos
de baixa renda; o livre comércio na Grã-Bretanha significou pão barato, e
isso, combinado com o aumento nos salários reais graças às pressões dos
sindicatos, se traduziu em um ganho real significativo para os
trabalhadores. Em Londres, o salário diário dos trabalhadores da construção
dobrou em termos reais entre 1848 e 1813. A representação mais ampla
também levou a uma tributação progressiva. A Grã-Bretanha saiu na frente
em 1842, quando Sir Robert Peel introduziu um imposto de renda em
tempos de guerra; em 1913, o índice padrão era de 14 centavos de libra
(6%). Antes de 1842, praticamente toda a receita britânica vinha da
tributação indireta do consumo, por meio de taxas alfandegárias e impostos
especiais, e os impostos regressivos significavam que, quanto mais rico
fosse um indivíduo, menor o percentual de imposto sobre a renda que ele
era obrigado a pagar. Em 1913, um terço da renda vinha de impostos diretos
sobre os relativamente mais ricos. Em 1842, o governo central gastou
praticamente zero em educação e em artes e ciências. Em 1913, esses itens
respondiam por 10% dos gastos. Na época, a Grã-Bretanha havia seguido o
exemplo da Alemanha ao implementar uma pensão estatal para os idosos.
Marx e Engels, portanto, estavam equivocados em dois pontos. Primeiro,
sua lei de ferro dos salários não fazia sentido. A riqueza, de fato, tornou-se
extremamente concentrada no sistema capitalista e essa tendência se
manteve até meados do século XX. Mas as diferenças de renda começaram
a diminuir à medida que os salários reais subiam e a tributação se tornava
menos regressiva. Os capitalistas entenderam o que Marx havia ignorado:
que os trabalhadores também eram consumidores. Portanto, não fazia
sentido tentar reduzir seus salários aos níveis de subsistência. Ao contrário,
como o caso dos Estados Unidos tornava cada vez mais claro, não havia
maior potencial de mercado para a maioria das empresas capitalistas do que
seus próprios funcionários. Longe de condenar as massas à “miséria”, a
mecanização da produção têxtil criou cada vez mais oportunidades de
emprego para os trabalhadores ocidentais – embora à custa de fiadeiros e
tecelões indianos –, e a queda no preço do algodão e de outros produtos significou que os trabalhadores ocidentais podiam comprar mais com seus
salários semanais. O impacto se faz mais notório na diferença gritante entre
os salários e os padrões de vida ocidentais e não ocidentais durante o
período. Mesmo no Ocidente, a distância entre a vanguarda industrializada
e os retardatários rurais aumentou drasticamente. Em Londres, no início do
século XVII, o salário real de um trabalhador não qualificado (isto é, com
relação ao custo de vida) não era tão diferente do que seu par ganhava em
Milão. Da década de 1750 até a de 1850, no entanto, os londrinenses
estavam muito à frente dos demais. No pico da grande divergência na
Europa, os salários reais de Londres eram seis vezes os de Milão. Com a
industrialização do norte da Itália na segunda metade do século XIX, essa
distância começou a diminuir, e às vésperas da Primeira Guerra Mundial
estava mais próxima de uma proporção de 3 para 1. Os trabalhadores
alemães e holandeses também se beneficiaram da industrialização, embora
mesmo em 1913 eles continuassem atrás dos ingleses40. Os trabalhadores
chineses, ao contrário, não conseguiram acompanhá-los. Onde os salários
eram mais altos, em grandes cidades como Pequim e Cantão, os
trabalhadores da construção recebiam o equivalente a mais ou menos três
gramas de prata por dia, sem nenhum movimento ascendente no século
XVIII e apenas uma pequena melhora no século XIX e início do século XX
(para cerca de cinco-seis gramas). Houve alguma melhora para os
trabalhadores em Cantão após 1900, mas foi mínima; os trabalhadores em
Sichuan continuaram miseráveis. Já em Londres os trabalhadores viram seu
salário equivalente em prata subir de 18 gramas entre 1800 e 1870 para 70
gramas entre 1900 e 1913. Cobrindo o custo de manter uma família, o
padrão de vida médio de um trabalhador chinês caiu durante o século XIX,
de maneira mais acentuada durante a Rebelião Taiping (ver Capítulo 6). É
verdade que a subsistência era mais barata na China que no noroeste da
Europa. Também devemos lembrar que, na época, os londrinos e os
berlinenses desfrutavam de uma dieta muito mais variada de pão, produtos
lácteos e carne, acompanhados de muito álcool, ao passo que a maioria dos
habitantes do Leste Asiático subsistia à base de arroz branqueado e
pequenos grãos. Entretanto, parece claro que, na segunda década do século XX, a diferença no padrão de vida dos habitantes de Londres e de Pequim
ficava em torno de 6 para 1, em comparação com 2 para 1 no século
XVIII41.
O segundo erro que Marx e Engels cometeram foi subestimar o caráter
adaptativo do Estado novecentista – em particular quando este foi capaz de
se legitimar como um Estado-nação.
Em sua Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx, como
se sabe, chamou a religião de “o ópio do povo”. Sendo assim, o
nacionalismo era a cocaína das classes médias. Em 17 de março de 1846, o
teatro La Fenice, de Veneza, foi o palco para a estreia de uma nova ópera do
já celebrado compositor italiano Giuseppe Verdi. Tecnicamente, Verdi era
de nacionalidade francesa: ele fora formalmente registrado como “Joseph
Fortunin François Verdi” porque o povoado onde nasceu estava então sob
domínio napoleônico, havendo sido anexado à França com o restante do
ducado de Parma e Piacenza. Veneza também havia sido conquistada pelos
franceses, mas foi entregue à Áustria em 1814. A impopularidade do
exército e da burocracia dos Habsburgo explica o áspero entusiasmo com
que o público predominantemente italiano reagiu a estas palavras:
Tardo per gli anni, e tremulo,
È il regnator d’Oriente;
Siede un imbelle giovine
Sul trono d’Occidente;
Tutto sarà disperso
Quand’io mi unisca a te . . .
Avrai tu l’universo,
Resti l’Italia a me.
(Idoso e débil/ É o governador do Oriente;/ Um jovem imbecil ocupa o trono do Ocidente;/ Tudo
estará disperso/ Se eu me unir a ti [...]/ Leva teu universo/ Mas deixa a Itália para mim.)
Declamadas a Átila pelo enviado romano Ezio após a pilhagem de Roma,
essas palavras são um apelo parcamente velado ao sentimento nacionalista.
Elas ilustram perfeitamente o que o nacionalismo tinha que o socialismo
não tinha: estilo.
O nacionalismo, é claro, também tinha seus manifestos. Outro Giuseppe –
Mazzini – foi talvez a coisa mais parecida com um teórico que o
nacionalismo já produziu. Conforme ele observou em 1852, de maneira
muito sagaz, a Revolução havia “assumido duas formas; a questão que
todos concordaram em denominar social, e a questão das nacionalidades”.
Os nacionalistas italianos do Risorgimento:
Lutavam [...], assim como a Polônia, a Alemanha e a Hungria, por território e liberdade; por um
mundo inscrito em um estandarte, proclamando ao mundo que eles também vivem, pensam, amam
e trabalham para o benefício de todos. Eles falam a mesma língua, carregam a marca da
consanguinidade, ajoelham-se ao lado dos mesmos túmulos, enaltecem as mesmas tradições; e
demandam se associar livremente, sem obstáculos, sem dominação estrangeira [...] 42
Para Mazzini, era simples: “O mapa da Europa deve ser redesenhado”.
No futuro, segundo argumentou, seria reorganizado em 11 Estados-nação.
Isso, no entanto, era muito mais fácil na teoria do que na prática, motivo
pelo qual ele preferia que os modos de nacionalismo fossem artísticos ou
atléticos em vez de programáticos. O nacionalismo funcionava melhor na
poesia demótica de escritores como o grego Rigas Feraios (
– “É melhor ter uma hora
como um homem livre do que 40 anos de escravidão e prisão”), ou nas
canções comoventes das fraternidades estudantis (“Fest steht und treu die
Wacht am Rhein” – “A guarda no Reno permanece firme e leal”), ou até
mesmo nos campos esportivos, onde a Escócia enfrentou a Inglaterra no dia
de St. Andrew, em 1872, na primeira partida de futebol internacional do
mundo (resultado: zero a zero). Era mais problemático quando as fronteiras
políticas, linguísticas e religiosas não coincidiam – o caso mais evidente foi
o fatídico triângulo de território entre o Báltico, os Bálcãs e o mar Negro.
Entre 1830 e 1905, oito novos Estados conquistaram a independência ou a
unidade: a Grécia (1830), a Bélgica (1830-9), a Romênia (1856), a Itália
(1859-71), a Alemanha (1864-71), a Bulgária (1878), a Sérvia (1867-78) e a
Noruega (1905). Mas os sul-americanos fracassaram em sua tentativa de
formar um Estado, assim como os armênios, os croatas, os tchecos, os
irlandeses, os poloneses, os eslovacos, os eslovenos e os ucranianos. Os húngaros se contentaram com o papel de parceiros menores nos impérios
que ajudaram a administrar, e o mesmo vale para os escoceses. Quanto a
povos tão distintos em termos étnicos e linguísticos quanto os romanis, os
sindis, os cassubianos, os sorábios, os wendos, os valacos, os székelys, os
cárpato-rutenos e os ladinos, ninguém os via muito seriamente como
capazes de autonomia política.
O sucesso ou o fracasso do jogo de construção nacional esteve associado,
em última instância, com a Realpolitik. Convinha a Camillo Benso, conte di
Cavour, transformar o restante da Itália em um apêndice colonial da
Sardenha-Piemonte, e também convinha a Otto Eduard Leopold von
Bismarck, conde de Bismarck-Schönhausen, preservar os privilégios da
monarquia prussiana convertendo-a na instituição mais poderosa em um
Reich alemão federal. “Eu nunca duvidei”, escreveu Bismarck em suas
Reminiscências,
que a essência da política alemã era estar baseada em príncipes e dinastias, e não em publicistas,
quer fosse no Parlamento e na imprensa, quer fosse nas barricadas [...] O nó górdio da situação
alemã [...] só poderia ser desfeito pela espada: sendo assim, o rei da Prússia, consciente ou não, e
com ele o exército prussiano devem ser conquistados para a causa nacional, quer se considere
como principal objetivo a hegemonia da Prússia, do ponto de vista “borusso”, ou a unificação da
Alemanha, do ponto de vista nacional: ambas as metas coexistem [...] As dinastias sempre foram
mais fortes do que a imprensa e o Parlamento [...] para que o patriotismo alemão seja ativo e
eficaz, precisa de um governo que se apoie em uma dinastia [...] É como prussiano, hanoveriano,
württembergeriano, bavariano ou hessiano, e não como alemão, que [o alemão] está disposto a dar
prova inequívoca de patriotismo43.
A transformação do Bund alemão de 39 estados, dominados pela Áustria,
em um Reich de 25 estados, dominados pela Prússia, foi uma manobra
inteligente de Bismarck. O que aconteceu quando a Prússia derrotou a
Áustria e os outros membros da Confederação Germânica em 1866 deve ser
entendido não como uma guerra de unificação, e sim como uma vitória do
Norte sobre o Sul na guerra civil alemã, pelo simples motivo de que muitos
falantes de alemão ficaram excluídos da nova Alemanha. Mas a vitória de
Bismarck só se completou quando ele conseguiu se esquivar de seus
oponentes liberais em casa, primeiro implementando o sufrágio universal, o que lhes custou assentos na nova dieta imperial (o Reichstag), e então
dividindo-os com relação ao livre-comércio em 1878. O preço foi dar aos
alemães do sul duas importantes posições de bloqueio: o papel fundamental
do Partido do Centro Católico no Reichstag e o veto combinado dos estados
do Sul da Alemanha na câmara alta (Bundesrat).
Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi – “se
queremos que tudo permaneça como está, tudo deve mudar”. A famosa
frase do romance histórico de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O leopardo
(1958), é muitas vezes citada para resumir o caráter veladamente
conservador da unificação italiana. Mas os novos Estados-nação não se
resumiam a apenas preservar os privilégios das preocupadas elites
proprietárias de terra da Europa. Entidades como a Itália ou a Alemanha,
compostas de vários pequenos estados, ofereciam a todos os seus cidadãos
uma série de benefícios: economia de escala, externalidade de rede, custos
de transação reduzidos e a provisão mais eficiente de bens públicos
essenciais, como lei e segurança, infraestrutura e saúde. Os novos Estados
podiam tornar as grandes cidades industriais da Europa, os criadouros de
cólera e revolução, finalmente seguros. Erradicação de favelas, bulevares
largos demais para entrincheirar, igrejas maiores, parques frondosos,
estádios esportivos e, acima de tudo, mais policiais – todas essas coisas
transformaram as capitais da Europa, sobretudo Paris, que o barão Georges
Haussmann remodelou completamente para Napoleão III. Todos os novos
Estados tinham aparência imponente; nem mesmo a Áustria, derrotada,
tardou muito em se reinventar como uma Áustria-Hungria “imperial-real”,
com sua identidade arquitetônica edificada em torno do Ringstrasse (anel
viário) de Viena44. Mas por trás das aparências havia conteúdo real. Escolas
foram construídas para martelar línguas nacionais padronizadas na cabeça
dos jovens. Quartéis foram erguidos, a fim de treinar os estudantes que
concluíram o ensino médio para defenderem a pátria. E ferrovias foram
construídas em lugares onde sua lucratividade parecia duvidosa, para
transportar as tropas até a fronteira, caso houvesse necessidade. Os
camponeses se tornaram cidadãos franceses – ou alemães, ou italianos, ou
sérvios, dependendo de onde nasceram.
O paradoxo é que essa época de nacionalismo coincidiu com uma
padronização constante dos modos de vestir. Os uniformes militares, é
claro, continuaram sendo distintos de um país para outro, de modo que, no
calor da batalha, um poilu pudesse ser distinguido de um boche ou de um
rosbif, mesmo quanto à silhueta. Mas as inovações militares do século XIX
– que melhoraram muitíssimo a precisão e o poder da artilharia, além de
introduzir a pólvora química, que quase não produzia fumaça –
necessitavam se afastar dos casacos de cores vivas dos séculos XVIII e XIX
e adotar uniformes totalmente apagados. Os britânicos adotaram o cáqui
após a Guerra Anglo-Zulu de 1879, um exemplo mais tarde seguido pelos
norte-americanos e pelos japoneses. Os russos também escolheram cáqui,
mas de um tom mais acinzentado, em 1908. Os italianos optaram por um
verde acinzentado; os alemães e os austríacos, por cinza-esverdeado e
cinza-azulado, respectivamente. Além disso, à medida que os exércitos
aumentaram de tamanho, a economia ditou a simplificação. O visual da
batalha se tornou mais monótono.
Os homens civis também renunciaram ao dandismo de gerações
anteriores. O próprio terno, tal como havia sido concebido por Beau
Brummell na era da Regência, era uma simplificação com relação à moda
do século XVIII. A tendência, a partir daí, apontava inexoravelmente para a
sobriedade burguesa. O fraque com um único botão, que lembrava um
pinguim, hoje em dia visto só em casamentos pretensiosos, substituiu a
casaca de Brummell e o casaco de gola alta e com duas fileiras de botões, o
preferido do príncipe Albert. Os coletes foram da seda colorida chinesa à lã
negra ou cinza. As calças curtas deram lugar às calças compridas, e as
meias longas desapareceram de vista, para ser substituídas por monótonas
meias negras. As camisas eram uniformemente brancas. Os colarinhos
pareceram encolher até que tudo o que restou foi um par de abas celuloide,
envolto em uma gravata que era invariavelmente preta. Os chapéus também
diminuíram, até que só restou o chapéu-coco. Era como se uma sociedade
inteira estivesse indo a um velório.
É claro que os trajes femininos do período vitoriano eram muito mais
variados e complexos. E havia um tipo diferente de uniformidade entre o proletariado de macacão e os pobres de calças esfarrapadas. No entanto, a
padronização do vestido no período vitoriano – que se espalhou por toda a
Europa e muito além da costa oriental dos Estados Unidos – continua sendo
uma realidade e um enigma, numa época em que o nacionalismo estava em
ascensão. “A internacional” existia, ao que parece, só no nível do código de
vestimentas burguês. A explicação, como se pode esperar da época
industrial, era mecânica.
A máquina de costura Singer surgiu em 1850, quando Isaac Merritt Singer
se mudou para Boston, Massachusetts, e percebeu o que havia de errado
com a máquina que eles estavam fazendo na oficina de Orson C. Phelps. A
agulha tinha de ser reta, e não curva. A lançadeira precisava ser transversal.
E a coisa toda precisava ser operada por um pedal, e não manualmente.
Assim como Marx, Singer não foi um homem bom. Ele teve, ao todo, um
total de 24 filhos e cinco mulheres diferentes, uma das quais entrou com
uma ação contra ele por bigamia, obrigando-o a fugir dos Estados Unidos.
Assim como Marx – e como um número desproporcional de
empreendedores dos séculos XIX e XX, sobretudo no negócio de vestuário
e cosméticos45 –, Singer era de origem judaica. E, assim como Marx, ele
mudou o mundo – mas, ao contrário de Marx, para melhor.
A I. M. Singer & Company, posteriormente Singer Manufacturing
Company, concluiu o processo de produção mecanizada de roupas que
James Hargreaves havia iniciado menos de um século antes. Agora, até
mesmo a junção de partes podia ser feita à máquina. O caráter
revolucionário desse avanço passa facilmente despercebido por uma
geração que nunca costurou nada além de um par de botões. Singer,
evidentemente, foi um homem que amava as mulheres; algum homem fez
mais por elas do que ele? Graças a Singer, as horas de esforço meticuloso
que antes eram necessárias para coser a bainha de uma saia se tornavam
meros minutos – e então segundos. A história da máquina de costura Singer
ilustra o caráter evolutivo da Revolução Industrial, já que um ganho em
eficiência abria caminho para outro. Após o avanço inicial, houve uma
mutação incessante: o modelo Turtleback (1856) foi seguido pelo
Grasshopper (1858), pelo New Family (1865) e pelo elétrico 99K (1880). Em 1900, havia 40 modelos diferentes em produção. Em 1929, esse número
havia aumentado para 3 mil.
Poucas invenções novecentistas viajaram mais rápido que esta. De sua
sede em Nova York no número 458 (mais tarde 149) da Broadway, a Singer
se espalhou com velocidade impressionante, tornando-se uma das primeiras
marcas verdadeiramente mundiais, com fábricas no Brasil, no Canadá, na
Alemanha, na Rússia e na Escócia; em seu auge, a fábrica Kilbowie, em
Clydebank, cobria quase cem mil metros quadrados e empregava 12 mil
pessoas. Em 1904, as vendas globais já superavam 1,3 milhão de máquinas
por ano. Em 1914, esse número havia mais que dobrado. O logo da marca –
o “S” envolto em uma costureira – era onipresente, para ser visto inclusive
(segundo os redatores de publicidade da empresa) no cume do Everest. Em
uma rara concessão à modernidade, Mahatma Gandhi reconheceu que era
“uma das poucas coisas úteis já inventadas” – um elogio vindo do homem
que desdenhava até mesmo a medicina moderna46.
A Singer exemplificava a vantagem norte-americana. Não só os Estados
Unidos continuavam atraindo empreendedores natos de todo o mundo,
como agora havia quantidade suficiente deles para constituir um mercado
interno verdadeiramente sem precedentes. Entre 1870 e 1913, os Estados
Unidos superaram o Reino Unido. Em 1820, o Reino Unido tinha duas
vezes mais habitantes que os Estados Unidos. Em 1913, era o contrário.
Entre 1870 e 1913, a taxa de crescimento da população norte-americana foi
80% maior47. Já em 1900, os Estados Unidos eram responsáveis por uma
parcela maior da produção manufatureira mundial: 24%, contra 18% na
Grã-Bretanha48. Em 1913, até mesmo em termos per capita os Estados
Unidos eram a maior economia industrial do mundo49. Talvez o fator mais
importante tenha sido o fato de a produtividade norte-americana estar
pronta para superar a britânica (embora não o tenha feito até os anos
1920)50. E, assim como no caso da industrialização britânica, o algodão e os
produtos têxteis eram os pivôs da “época de ouro” dos Estados Unidos. Nos
anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, o algodão cru do sul
ainda representava 25% das exportações do país51. A maioria das roupas
norte-americanas, no entanto, era produzida para consumo doméstico. Na Grã-Bretanha, as exportações líquidas de produtos de algodão em 1910