Civilização: Ocidente X Oriente
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Propriedade
Ser livre é [...] ter liberdade para ordenar e controlar, conforme lhe convém, sua pessoa, suas ações, suas posses e todas as suas propriedades, dentro do permitido por lei; e nisto não estar sujeito à vontade arbitrária de outrem [...] O grande e principal propósito, portanto, de que os homens se unam em comunidades [...] é a preservação de sua propriedade. JOHN LOCKE
Somos os descendentes vis dos espanhóis predatórios que vieram à América para embranquecê-la e procriar com suas vítimas. Mais tarde, os filhos ilegítimos dessas uniões se uniram aos filhos dos escravos transportados da África. Com tal mistura racial e tal registro moral, podemos colocar as leis acima dos líderes e os princípios acima dos homens? SIMÓN BOLÍVAR
Novos mundos
Aquele era um novo mundo. Mas seria o mundo do Ocidente. Foram os
europeus que atravessaram o oceano Atlântico para tomar posse de um
vasto território que, antes da Universalis cosmographia de Martin
Waldseemüller, de 1507, simplesmente não aparecia nos mapas: a América
– que recebeu esse nome em homenagem ao explorador Américo Vespúcio.1
Foram as monarquias da Europa – sobretudo a Espanha e a Inglaterra – que,
competindo por almas, ouro e terras, estiveram dispostas a atravessar
oceanos e conquistar continentes inteiros. Para muitos historiadores, a
descoberta das Américas (em uma definição ampla que inclui as ilhas
caribenhas) é a principal razão para a supremacia do Ocidente. Sem o Novo
Mundo, conforme se afirmou, “a Europa Ocidental continuaria sendo uma região pequena e retrógrada da Eurásia, dependente do Oriente para
transferência de tecnologia, transmissões de cultura e transferências de
riqueza”.2 Sem os “acres fantasmas” americanos e os escravos africanos que
trabalharam neles, não poderia ter havido um “milagre europeu”, nem
Revolução Industrial3. Diante dos avanços já alcançados na Europa
Ocidental tanto em termos econômicos quanto científicos antes do
desenvolvimento em grande escala do Novo Mundo, essas afirmações
parecem exageradas. O verdadeiro significado da conquista e da
colonização das Américas é que este foi um dos maiores experimentos
naturais da história: pegue duas culturas ocidentais, exporte-as – os
britânicos no Norte, os espanhóis e os portugueses no Sul –, imponha-as
sobre uma ampla gama de povos e terras diferentes, e depois veja qual delas
se sai melhor.
Mas não era uma competição. Observando o mundo hoje, quatro séculos
depois, ninguém duvida que a força dominante da civilização ocidental são
os Estados Unidos da América. Até bem recentemente, a América Latina
esteve muito atrás da anglicana. Como e por que isso aconteceu? Talvez
você pense que foi porque o solo setentrional era mais fértil ou continha
mais ouro e petróleo, ou porque o clima era melhor, ou porque a localização
dos rios era mais apropriada – ou apenas porque a Europa estava
geograficamente mais próxima. Mas esses não foram os segredos para o
sucesso norte-americano. Tampouco se pode afirmar que o império
espanhol – ou o português – era afligido pelos defeitos dos grandes
impérios orientais. Ao contrário dos chineses, os espanhóis estiveram entre
os primeiros participantes da explosão de comércio global após 1500. Ao
contrário dos otomanos, eles participaram da Revolução Científica desde o
começo4. Em vez disso, foi uma ideia o que levou à diferença crucial entre a
América britânica e a ibérica – uma ideia sobre o modo como as pessoas
deveriam ser governadas. Algumas pessoas cometem o erro de chamar essa
ideia de “democracia” e imaginar que todo país pode adotá-la simplesmente
convocando eleições. Na realidade, a democracia foi o cimo de um edifício
cuja base era o Estado de direito – para ser preciso, a santidade da liberdade individual e a segurança dos direitos de propriedade privada, garantidos por
um governo constitucional e representativo.
“Há poucas palavras usadas de maneira tão vaga quanto a palavra
‘Civilização’”, declarou o maior de todos os anglo-americanos, em uma
época em que a civilização, tal como ele a entendia, corria um sério perigo.
“O que significa?” Sua resposta é a definição mais perfeita já formulada da
diferença política entre o Ocidente e o Oriente:
Significa uma sociedade baseada na opinião dos civis. Significa que a violência, o governo de
guerreiros e líderes despóticos, as situações de campos de concentração e guerra, de baderna e
tirania, dão lugar a parlamentos, onde são criadas as leis, e a cortes de justiça independentes, onde
essas leis são mantidas durante longos períodos. Isso é Civilização – e em seu solo crescem
continuamente a liberdade, o conforto e a cultura. Quando a Civilização reina em um país, uma
vida mais ampla e menos penosa é concedida às massas. As tradições do passado são valorizadas e
a herança deixada a nós por homens sábios ou valentes se torna um estado rico a ser desfrutado e
usado por todos. O princípio central de Civilização é a subordinação da classe dominante aos
costumes do povo e à sua vontade, tal como expressos na Constituição [...]5.
Assim declarou, em 1938, Winston Churchill, filho de um aristocrata
inglês e de uma herdeira americana. Mas de onde veio essa definição
peculiarmente anglo-americana de civilização – de liberdade e paz baseadas
no Estado de direito e no governo constitucional? E por que ela não
conseguiu criar raízes na América ao sul do Rio Grande?
Nossa história começa com dois navios. Em um, que chegou ao norte do
Equador em 1532, havia menos de 200 espanhóis acompanhando o homem
que já reivindicava o título de “governador do Peru”. Sua ambição era
conquistar o Império Inca para o rei da Espanha e assegurar para si próprio
uma grande fatia da suposta abundância de metais preciosos na região. O
outro navio, o Carolina, chegou ao Novo Mundo 138 anos mais tarde, em
1670, em uma ilha na costa da atual Carolina do Sul. Entre os tripulantes
estavam servos cuja modesta ambição era encontrar uma vida melhor que a
pobreza esmagadora que haviam deixado para trás na Inglaterra.
Os dois navios simbolizaram essa narrativa das duas Américas. Em um,
conquistadores; no outro, servos por contrato. Um grupo sonhava com a pilhagem imediata – das montanhas de ouro maia à sua disposição. Os
outros sabiam que teriam anos de trabalho duro pela frente, mas também
que seriam recompensados com um dos bens mais atraentes do mundo –
terras norte-americanas de qualidade –, além de participação no processo de
criação das leis. Propriedade mais representação: este era o sonho norte-
americano.
Mas no início eram os conquistadores no Sul – e não os pobres imigrantes
ingleses no Norte – que pareciam estar mais bem situados. Os espanhóis,
afinal, haviam chegado primeiro. Durante o século XVI, o trabalho de
colonizar as Américas foi deixado quase totalmente nas mãos da península
Ibérica. Enquanto os ingleses ainda ansiavam por conquistar Calais,
poderosos impérios ameríndios estavam sendo subjugados por aventureiros
espanhóis. No México, os astecas sanguinários foram dominados por
Hernán Cortés entre 1519 e 1521. E no Peru, apenas uma década mais
tarde, o imponente império andino dos incas foi conquistado por Francisco
Pizarro.
Pizarro não tinha ilusões sobre a relação entre os riscos e as recompensas
da conquista. Foram necessárias duas expedições, em 1524 e 1526, só para
localizar o Império Inca. Durante a segunda, quando alguns de seus irmãos
menos obstinados estavam hesitando, Pizarro explicitou essa relação
desenhando uma linha na areia:
Companheiros e amigos, daquele lado estão a morte, as penúrias, a fome, a nudez, as chuvas e o
abandono; o lado de cá representa o conforto. Aqui vocês retornam ao Panamá para ser pobres; lá
vocês podem avançar para o Peru para ser ricos. Escolham o que mais lhes convém, como bons
espanhóis 6.
A terceira expedição, que partiu do Panamá em 1530, consistiu de 180
homens, entre os quais um núcleo de irmãos e amigos íntimos provenientes
de Trujillo. Na época em que eles chegaram aos altiplanos peruanos,
Pizarro tinha apenas 60 cavaleiros e 90 soldados rasos sob seu comando. A
audácia do que eles fizeram continua surpreendente mesmo depois de meio milênio. A população do império que eles pretendiam subjugar ficava entre
5 e 10 milhões.
Do lado dos conquistadores, no entanto, estava um aliado invisível: as
doenças europeias contra as quais os sul-americanos não tinham resistência
alguma – varíola, gripe, sarampo e tifo. Ao mesmo tempo, os cavalos, os
revólveres e os arcos e as flechas dos espanhóis eram armas muito
superiores a qualquer coisa no arsenal inca, dotando os invasores de um
aspecto extraterrestre assustador. E os próprios incas estavam divididos.
Desde a morte de Huayna Capac, seus filhos Atahualpa e Huascar vinham
lutando pela sucessão, enquanto as tribos sujeitadas percebiam uma chance
de se livrar de ambos. A batalha de Cajamarca (14 de novembro de 1532),
portanto, mal foi uma batalha. Conforme descreveu Hernando, irmão de
Pizarro, Atahualpa caiu em uma armadilha quando aceitou o convite dos
espanhóis para jantar:
Quando Atahualpa chegou ao centro de um espaço aberto, ele parou, e um frei dominicano, que
estava com o governador [Pizarro], deu um passo à frente para lhe dizer, da parte do governador,
que este o estava esperando em seu alojamento, e que ele havia sido enviado para falar com ele. O
frei, então, contou a Atahualpa que era padre, e que fora enviado para ensinar as coisas da fé caso
eles desejassem ser cristãos. Ele mostrou a Atahualpa um livro que carregava em suas mãos [a
Bíblia], e lhe contou que aquele livro continha as coisas de Deus. Atahualpa pediu o livro, e o
jogou no chão, dizendo: “Eu não deixarei este lugar até que vocês tenham devolvido tudo o que
tiraram de minha terra. Eu sei muito bem quem vocês são e para que vieram”. Então ele se ergueu
em sua liteira e se dirigiu a seus homens, e houve murmúrios entre eles e chamados àqueles que
estavam armados. O frei foi até o governador e relatou o que estava sendo feito, e que não havia
tempo a perder. O governador mandou me chamar; e eu havia combinado com o capitão da
artilharia que, quando um sinal fosse dado, ele deveria descarregar suas armas, e que, quando
escutassem os ruídos, todas as tropas deveriam sair do esconderijo imediatamente. Isso foi feito, e,
como os índios estavam desarmados, eles foram derrotados sem que cristão algum corresse
perigo7.
Nas palavras de Waman Poma, cronista andino do século XVI, os
espanhóis mataram os índios apavorados “como se fossem formigas”8.
O Peru não foi conquistado em uma única batalha. Houve revoltas incas
lideradas por Manco Cápac em 1535 e novamente, em uma escala muito maior, entre 1536 e 1539. E tampouco os índios foram lentos em adotar as
táticas de guerra europeias. Eles se mostraram guerrilheiros obstinados. Ao
mesmo tempo, os espanhóis brigavam tanto entre si que isso comprometia
sua dominação – a tal ponto que uma rixa fraterna custou a vida do próprio
Pizarro em 1541. Foi só com a execução de Túpac Amaru, mais de 30 anos
depois, em setembro de 1572, que a resistência inca foi irremediavelmente
destruída.
Entre os espanhóis, havia um jovem capitão de Segóvia chamado
Jerónimo de Aliaga. Para Aliaga, o Peru era ao mesmo tempo estranho e
maravilhoso. Ele se admirava com a magnitude e a sofisticação da
arquitetura inca, sobretudo o enorme muro setentrional da fortaleza de
Sacsayhuamán em sua capital, Cuzco, com suas pedras de 200 toneladas
intercaladas com perfeição. Grande parte do que mais tarde foi construído
pelos espanhóis em Cuzco foi erguido sobre muros e bases incas, num
reconhecimento à sua extraordinária capacidade de resistir a terremotos9.
Atualmente, podemos ter uma ideia melhor da grandeza das conquistas
incas anteriores à Conquista em Machu Picchu – por exemplo, a lendária
“cidade perdida dos incas”, que parece flutuar em meio às nuvens dos
Andes, uma cidade que os espanhóis jamais encontraram e, por isso, nunca
saquearam e reconstruíram. Muito acima do rio Urubamba, Machu Picchu
provavelmente foi construída em meados do século XV. Apesar de sua
localização aparentemente pouco prática, agarrando-se a encostas íngremes
mais de 2,4 quilômetros acima do nível do mar, foi sem dúvida um
assentamento autossuficiente, com nascentes de água corrente e terraços
para o cultivo de plantas e o pastoreio de gado. Completamente
desconhecida pelo mundo ocidental até 1911, quando foi encontrada pelo
acadêmico e explorador norte-americano Hiram Bingham10, serve como um
alerta de que nenhuma civilização, não importa quão poderosa pareça ser, é
indestrutível. Ainda não sabemos a que propósito servia a cidade.
Tampouco sabemos exatamente quando e por que os incas a abandonaram.
Uma grande possibilidade é que as epidemias chegaram até lá partindo de
Hispaniola (a ilha que hoje é dividida entre a República Dominicana e o Haiti) antes dos conquistadores, matando a população e convertendo Machu
Picchu em uma cidade fantasma.
O pretexto para o ataque inicial espanhol em Cajamarca foi que os incas
se recusaram a se converter ao cristianismo. Mas não era Deus, e sim ouro,
o que realmente interessava a Pizarro. A vã tentativa de Atahualpa de ser
libertado, enchendo sua cela uma vez com ouro e duas vezes com prata, só
aumentou o apetite dos conquistadores por metais preciosos. As seis
toneladas de ouro 22 quilates e as 12 toneladas de pura prata acumuladas
fizeram com que cada homem na expedição se tornasse rico de uma hora
para outra. Mas havia mais – muito mais11. Os espanhóis também haviam
encontrado ouro em Hispaniola e vastos depósitos de prata em Zacatecas,
no centro do México. Agora, haviam encontrado o cerro rico (“serra
bonita”) em Potosí, uma mina de prata sem equivalente no mundo. Ao que
parecia, para onde quer que os espanhóis olhassem no Peru havia dinheiro.
Sendo o contador de Pizarro, Jerónimo de Aliaga estava bem situado para
compreender toda a dimensão dessa riqueza recém-descoberta. Antes de
1550, foram levadas do Peru quantidades de ouro equivalentes a cerca de 10
milhões de pesos – metade disso obtido por pilhagem, o restante extraído
das minas12. Com o tempo, a produção das minas de prata aumentou
gradativamente, de cerca de 50 toneladas por ano no início dos anos 1500 a
mais de 900 toneladas em 178013. Ao todo, entre 1500 e 1800, metais
preciosos no valor aproximado de 175 bilhões de libras ao preço de hoje
foram transportados do Novo Mundo à Europa ou via Pacífico até a Ásia, e
grande parte destes veio das minas do Peru. Homens como Aliaga se
tornaram muito ricos. Ele conseguiu construir para si próprio uma
magnífica residência em Lima, a nova capital peruana, com um pátio
interno que ocupava o lugar de um templo inca. A casa vem sendo ocupada
por seus descendentes desde então; o ocupante atual, Gonzalo de Aliaga, é
descaradamente orgulhoso de seu ancestral conquistador.
Os espanhóis pareciam estar assentando as bases para uma civilização
completamente nova e espetacular, a ser governada por uma minúscula elite
próspera de homens nascidos na Espanha e situados em algumas poucas
cidades ilustres. E essas cidades cresceram rapidamente. A Cidade do México tinha 100 mil habitantes em 1692, uma época em que Boston tinha