Civilização: Ocidente X Oriente
Da lama à fama
Precisamos estabelecer um novo império ao estilo europeu no mar do Leste [...] Como podemos
colocar na cabeça de nossos 38 milhões de pessoas esse espírito ousado e essa atitude de
independência e autogoverno? Na minha opinião, a única forma é fazer com que eles se choquem
com os europeus, para que se sintam pessoalmente incomodados, percebam sua desvantagem e
passem a ser conscientes do vigor ocidental [...] Considero que a maneira de fazer isso é promover
um intercâmbio verdadeiramente livre entre os japoneses e os estrangeiros [...] Só assim nosso
império pode alcançar uma posição igual à dos países ocidentais com respeito aos tratados. Só
assim nosso império pode ser independente, próspero e poderoso.85
O primeiro choque com os ocidentais veio em 1904 com a Guerra Russo-
Japonesa pela Manchúria. A vitória decisiva do Japão no mar e em terra
enviou um sinal para o mundo: não havia nada determinado por uma ordem
divina na supremacia ocidental. Com as instituições e a tecnologia
adequadas – sem falar das roupas apropriadas – um império asiático seria
capaz de derrotar um europeu. Um prognosticador econômico em 1910 já
poderia ter previsto que o Japão superaria até mesmo a própria Grã-
Bretanha antes do fim do século, o que de fato aconteceu; em 1980, o PIB
per capita japonês excedeu pela primeira vez o britânico.
Lamentavelmente, o caminho de 1910 a 1980 esteve longe de ser uma linha
reta.
Da lama à fama
A Primeira Guerra Mundial, conforme vimos, foi uma luta entre impérios
cujos motivos e métodos haviam sido aprimorados no além-mar. Derrubou
quatro dinastias e fragmentou seus impérios. O presidente norte-americano
Woodrow Wilson – o primeiro dos quatro presidentes eleitos pelo Partido
Democrata a mergulhar o país em uma grande guerra ultramarina –
procurou reformular o conflito como uma guerra pela autodeterminação
nacional, uma visão que nunca foi endossada pelos impérios britânico e
francês, cujo debilitado esforço de guerra fora salvo pelo dinheiro e pelos
homens norte-americanos. Tchecos, estonianos, georgianos, húngaros,
lituanos, letões, poloneses, eslovacos e ucranianos não foram os únicos que
farejaram liberdade; também o fizeram os árabes e os bengaleses, sem falar dos irlandeses católicos. Com a exceção do irlandês e do finlandês, nenhum
dos Estados-nação que emergiram em consequência da guerra conservava
uma independência significativa ao fim de 1939 (exceto, talvez, a Hungria).
O mapa mazziniano da Europa apareceu e logo desapareceu como um fogo
de palha.
A visão alternativa do pós-guerra de Vladimir Ilitch Lenin era de uma
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, potencialmente se expandindo
pela Eurásia. Essa visão ganhou força graças às circunstâncias econômicas
excepcionais da guerra. Uma vez que todos os governos, em maior ou
menor medida, financiaram o combate emitindo títulos de crédito de curto
prazo e trocando-os por dinheiro em seus bancos centrais – em síntese,
emitindo papel-moeda –, a inflação disparou durante a guerra. Com tantos
homens no exército, a escassez de mão de obra possibilitou que os
trabalhadores civis lutassem por melhores salários. Em 1917, centenas de
milhares de trabalhadores participaram de greves na França, na Alemanha e
na Rússia. Primeiro a gripe espanhola, e depois o bolchevismo russo,
assolaram o mundo. Assim como em 1848, a ordem urbana foi perturbada,
só que dessa vez contagiou lugares tão distantes quanto Buenos Aires e
Bengala, Seattle e Xangai. Mas a revolução proletária fracassou em toda
parte, com exceção do Império Russo, que foi reorganizado pelos
bolcheviques após uma guerra civil brutal. Nenhum outro líder socialista foi
tão implacável quanto Lenin ao adotar o “centralismo democrático” (que
era o oposto de democrático), rejeitando o parlamentarismo e praticando
terrorismo contra seus oponentes. Parte do que os bolcheviques fizeram
(nacionalização dos bancos, confisco de terras) vinha diretamente do
Manifesto de Marx e Engels. Parte do que fizeram (“a repressão mais feroz
e selvagem [...] mares de sangue”)86 se devia mais a Robespierre. A
“ditadura do proletariado” – que, de fato, significava a ditadura da liderança
bolchevique – foi a contribuição original de Lenin. Isso foi ainda pior que a
ressurreição de Bazarov, o niilista de Pais e filhos (1856), de Ivan
Turgueniev. Foi a advertência que seu amigo distante Fiódor Dostoiévski
havia feito à Rússia no epílogo de Crime e castigo (1866) – o pesadelo do assassino Raskólnikov de uma “praga terrível, sem paralelo e sem
precedentes” proveniente da Ásia:
Os infectados eram isolados imediatamente e ficavam loucos. Mas os homens jamais se
consideraram tão inteligentes e convencidos de suas verdades quanto os infectados. Jamais
consideraram seus decretos, suas deduções científicas, suas convicções morais e suas crenças tão
fundamentadas. Povoados inteiros, cidades e nações inteiras foram infectados e enlouqueceram
[...] As pessoas se matavam com ódio sem sentido [...] os soldados se lançavam uns contra os
outros, golpeavam e apunhalavam, comiam e devoravam uns aos outros.
A leste, praticamente não havia como parar a epidemia bolchevique. A
oeste, esta não conseguiu ir além do Vístula, nem do sul do Cáucaso, graças
a um trio talentoso de empreendedores políticos que conceberam aquela
síntese de nacionalismo e socialismo que era a verdadeira manifestação do
Zeitgeist: Józef Piłsudski, na Polônia, Kemal Atatürk, na Turquia, e Benito
Mussolini, na Itália. A derrota do Exército Vermelho fora de Varsóvia (em
agosto de 1920), a expulsão dos gregos anatolianos (em setembro de 1922)
e a marcha fascista sobre Roma (em outubro de 1922) marcaram o advento
de uma nova era – e de um novo visual.
Com exceção de Mussolini, que usava um traje com gola quebrada e
perneiras, a maioria dos que participaram da proeza publicitária que foi a
marcha sobre Roma vestia uniformes improvisados compostos de camisas
negras, jodhpurs e botas de couro de montaria à altura dos joelhos. A ideia
era que as virtudes marciais e viris da Grande Guerra agora seriam mantidas
em tempos de paz, a começar por uma guerra menor travada nas ruas e nos
campos contra a esquerda. A uniformidade era a ordem do dia – mas uma
uniformidade de vestuário, sem a disciplina tediosa de um exército real. Até
mesmo a famosa marcha foi mais um passeio, como deixam claras muitas
fotografias na imprensa. Fora o nacionalista italiano Giuseppe Garibaldi
quem usara pela primeira vez camisas de cor vermelha como base para um
movimento político. Nos anos 1920, camisas coloridas eram obrigatórias
entre os direitistas; os fascistas italianos optaram por negro, enquanto,
conforme vimos, a Sturmabteilung nacional-socialista alemã adotou o
marrom.
Tais movimentos poderiam ter se dissolvido na obscuridade se não fosse
pela Grande Depressão. Após a inflação do início dos anos 1920, a deflação
do começo da década de 1930 desferiu um golpe mortal na visão wilsoniana
de uma Europa baseada na democracia e na identidade nacional. A crise do
capitalismo norte-americano viu a bolsa de valores desmoronar em 89%, a
produção cair em um terço, os preços ao consumidor serem reduzidos em
um quarto e a taxa de desemprego ultrapassar os 25%. Nem todos os países
europeus foram afetados com a mesma gravidade, mas nenhum saiu
incólume87. Enquanto os governos se esforçavam para proteger suas
próprias indústrias com impostos mais altos – nos Estados Unidos, a lei
tarifária Smoot-Hawley elevou a taxa efetiva ad valorem sobre as
manufaturas de algodão importado a 46% –, a globalização simplesmente
ruiu. Entre 1929 e 1930, o comércio mundial encolheu em dois terços. A
maioria dos países adotou alguma combinação de declaração de moratória,
depreciação de moeda, tarifas protecionistas, proibições e cotas de
importação, monopólios de importação e prêmios de exportação. Havia
chegado o dia, ao que tudo indicava, do Estado nacional-socialista.
Isso foi uma ilusão. Embora a economia norte-americana parecesse estar
implodindo, a principal causa era a desastrosa política monetária adotada
pelos diretores do Federal Reserve, que quase destruiu o sistema bancário88.
A inovação, a principal fonte de avanços industriais, não diminuiu nos anos
1930. Novos automóveis, rádios e outros bens duráveis proliferavam.
Novas empresas estavam desenvolvendo esses produtos, como a Dupont
(náilon), a Revlon (cosméticos), a Proctor & Gamble (sabão em pó Dreft), a
RCA (rádio e televisão) e a IBM (máquinas de contabilidade); elas também
estavam evoluindo e disseminando todo um novo estilo de gestão de
negócio. Em nenhum lugar foi tão maravilhoso contemplar a criatividade
quanto em Hollywood, lar da indústria cinematográfica. Em 1931 – quando
a economia norte-americana estava à beira do pânico –, os grandes estúdios
lançaram Luzes da cidade, de Charlie Chaplin, A primeira página, de
Howard Hughes, e Os quatro batutas, dos irmãos Marx. O experimento da
década anterior com a proibição do álcool havia sido um tremendo fracasso,
gerando toda uma nova economia de crime organizado. Mas isso foi só mais insumo para as fábricas de filmes. Também em 1931, o público
chegava em bandos para ver James Cagney e Edward G. Robinson nos dois
maiores filmes de gângster de todos os tempos: Inimigo público e Alma no
lodo. Não menos criativo era o negócio da música – ao vivo, gravada e
transmitida –, quando os norte-americanos brancos descobriram que os
negros tinham praticamente todos os melhores ritmos. O jazz alcançou seu
auge com o som ritmado da big band de Duke Ellington, que emplacou um
hit atrás de outro mesmo quando as linhas de produção de automóveis
pararam: “Mood Indigo” (1930), “Creole Rhapsody” (1931), “It Don’t
Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing)” (1932), “Sophisticated Lady”
(1933) e “Solitude” (1934). Neto de um escravo, Ellington levou os
instrumentos de sopro a um patamar jamais visto, mimetizando tudo, de
cantos religiosos aos metrôs de Nova York. A longa permanência de sua
banda no Cotton Club esteve no próprio cerne do Renascimento do Harlem.
E, é claro: como exigia seu nome aristocrático, Ellington estava sempre
impecavelmente vestido – cortesia da Anderson & Sheppard, da Savile
Row.
Em suma, o capitalismo não estava fatalmente comprometido, muito
menos morto. Era apenas vítima de má gestão, e da incerteza que isso
gerou. O mais inteligente economista da época, John Maynard Keynes,
desdenhou da bolsa de valores, considerando-a um “cassino”, e comparando
as decisões dos investidores a um concurso de beleza nos jornais. O
presidente Franklin D. Roosevelt – eleito logo quando a Depressão estava
terminando – atacou os “inescrupulosos cobradores de dinheiro”. Os
verdadeiros culpados eram os banqueiros centrais, que primeiro haviam
inflado uma bolha especulativa com políticas monetárias demasiado
frouxas, e então trataram de torná-las mais rígidas (ou foram incapazes de
flexibilizá-las da maneira adequada) depois que a bolha havia estourado.
Entre 1929 e 1933, por volta de 15 mil bancos norte-americanos – dois
quintos do total – faliram. Em consequência, a oferta de dinheiro sofreu
uma drástica redução. Com os preços desmoronando em um terço – indo do
valor máximo ao valor mínimo –, as taxas de juros reais subiram para mais de 10%, onerando toda instituição ou família endividada. Keynes resumiu
assim os efeitos negativos da deflação:
Os negócios atuais, feitos em grande medida com dinheiro emprestado, serão necessariamente
levados a uma paralisação por tal processo. Será do interesse de todos os negócios suspenderem
suas atividades no momento; e de todos os que estão pensando em efetuar gastos, adiarem sua
execução o máximo que puderem. O homem sábio será aquele que converter seus ativos em
dinheiro, afastar-se dos riscos e de toda atividade produtiva e esperar pacientemente a valorização
gradativa de seu dinheiro conforme lhe foi prometido. A provável expectativa de deflação já é
ruim o bastante.89
Como escapar da armadilha da deflação? Com o comércio inativo e as
importações de capital congeladas, a recomendação de Keynes – gasto
governamental em obras públicas, financiadas por empréstimos – fazia
sentido. Também ajudou a abandonar o padrão-ouro, segundo o qual as
moedas tinham taxas de câmbio fixas, para deixar que a depreciação
impulsionasse as exportações (embora, cada vez mais, o comércio
continuasse no interior de blocos regionais) e possibilitar que as taxas de
juros diminuíssem. Mas os governos parlamentares que adotaram apenas
essas medidas alcançaram, quando muito, recuperações anêmicas. O
desemprego diminuiu mais depressa quando os regimes autoritários
adotaram planos para a expansão industrial e o rearmamento. Era aí que o
“socialismo em um país” (na Rússia) e o “nacional-socialismo” (na
Alemanha) pareciam oferecer soluções superiores a qualquer coisa
disponível nas duas grandes economias anglófonas. De maneira única no
mundo, a União Soviética alcançou um aumento na produção industrial
entre 1929 e 1932; poucos perguntaram quantas pessoas morreram para
cada tonelada de aço produzida sob o regime de Stalin (a resposta é 19).
Não tardou muito para que Hitler perdesse a paciência com as realidades
apresentadas por seu ministro de Economia, Hjalmar Schacht; em vez de
diminuir o ritmo de desarmamento para levar em consideração as
dificuldades na balança de pagamentos (em síntese, a escassez de ouro do
Reichsbank para pagar pelas importações que excediam as exportações),
Hitler esboçou um Plano de Quatro Anos, em imitação ao Plano Quinquenal de Stalin. Os dois regimes estavam agora em competição
flagrante, intervindo em lados opostos na Guerra Civil Espanhola, erigindo
pavilhões rivais na Exposição Mundial de Paris de 1937. Um exame atento
dos gigantes no topo dessas duas torres totalitárias revelou só duas
diferenças significativas: os super-humanos do comunismo eram um casal,
e vestiam macacões e aventais modestos; os super-homens arianos eram
dois homens nus. A única coisa mais estranha do que o puritanismo do
realismo socialista era a falta de sexualidade do nu ariano. O corpo nu fora
parte integrante da arte ocidental desde os gregos antigos, um lembrete de
que o que não vestimos é muitas vezes tão importante quanto o que
vestimos. Desde o Renascimento, os artistas ocidentais retrataram
apaixonadamente mulheres em vários graus de nudez, produzindo obras de
arte eróticas como “Déjeuner sur l’herbe” e “Olympia”, de Edouard Manet
(ambos de 1863), tributos, respectivamente, a “A tempestade” (c. 1506), de
Giorgione, e “A Vênus de Urbino” (1538), de Tiziano. Mas os nus nazistas
eram totalmente desprovidos de erotismo, com suas mulheres de peito chato
e sem quadril e seus homens que, de tão musculosos, chegavam a ser
implausíveis.
Tanto Stalin quanto Hitler prometeram crescimento e emprego mediante
uma combinação de nacionalismo e socialismo, e cumpriram com ambas as
promessas. Em 1938, a produção da economia norte-americana continuava
mais de 6% abaixo do pico anterior à crise de 1929; já a produção alemã era
23% mais alta, e a produção soviética ainda mais, se podemos acreditar nas
estatísticas oficiais de “produto material líquido”. Já em abril de 1937 o
desemprego na Alemanha caiu abaixo da marca de 1 milhão, em
comparação com 6 milhões pouco mais de quatro anos antes. Em abril de
1939, menos de 100 mil alemães estavam sem emprego; praticamente pleno
emprego. Os Estados Unidos ficaram muito atrás, mesmo ajustando os
números oficiais de desemprego para contar como empregados aqueles que
viviam da ajuda emergencial do governo. Segundo os critérios atuais, a taxa
de desemprego continuava sendo de 12,5% em 1938. O problema foi que o
crescimento totalitário não se traduziu em padrões de vida
significativamente mais elevados. O modelo econômico não era de fato keynesiano; não usava o aumento dos gastos públicos para impulsionar a
demanda agregada por meio de um efeito multiplicador sobre os gastos do
consumidor. Em vez disso, a economia planificada mobilizava a mão de
obra para trabalhar na indústria pesada, de infraestrutura e de armamentos;
e financiava o processo com fundos de poupança compulsória. Em
consequência, o consumo estagnou. As pessoas trabalhavam e eram pagas,
mas, uma vez que havia cada vez menos coisas para comprar nas lojas, elas
tinham pouca opção além de colocar o dinheiro em poupanças, onde este
era reciclado para financiar o governo. A propaganda nazista estava cheia
de imagens de famílias prósperas, bem alimentadas, bem-vestidas e
dirigindo pelas autopistas nos novíssimos Beetles da Volkswagen, mas as
estatísticas mostram outra história. À medida que o rearmamento se
intensificou a partir de 1934, a produção têxtil estagnou e as importações
diminuíram. Pouquíssimos civis tinham carros90. E, a cada ano que passava
no Terceiro Reich, ficava mais difícil obter alimentos básicos importados,
como o café. Em 1938, se os homens alemães quisessem se vestir com
elegância, tinham de usar uniforme. Ao contrário do que ocorreu na União
Soviética, na Alemanha se deu considerável atenção ao requinte dos trajes
militares, dos quais o mais sinistramente elegante era o uniforme negro da
Schutzstaffel (SS), desenhado por Karl Diebitsch e Walter Heck e produzido
pela Hugo Boss.91 Esse foi o auge da moda fascista.
A razão de ser da SS, e do nacional-socialismo como um todo, era a
destruição, e não o consumo. O modelo econômico de Hitler, como ele
tornou claro no documento que conhecemos como o Memorando Hossbach,
necessariamente implicava a aquisição de “espaço vital” – a anexação de
territórios adjacentes – como uma forma de adquirir as matérias-primas que
a Alemanha não tinha mais condições de importar. A marcha forçada para o
pleno emprego por meio do rearmamento, portanto, tornou a guerra cada
vez mais provável. E a guerra, em sua variante do fim dos anos 1930,
considerando o nível de tecnologia militar, foi um espetáculo de destruição.
Já em 1937, revelou-se a devastação que o bombardeio aéreo era capaz de
provocar, não só em Guernica, onde os aviões alemães e italianos
bombardearam posições republicanas espanholas, como também em Xangai, seriamente devastada pelos ataques aéreos japoneses. A força
militar de combate aéreo era uma arma de terror, concebida para semear o
pânico entre soldados e civis. Em terra, os tanques e outras formas de
artilharia mecanizada resolveram o problema da imobilidade que havia
decidido a Primeira Guerra Mundial no Ocidente, revelando, assim, as
vantagens da guerra de trincheira. Pois a “guerra relâmpago” era muito
mais custosa no que se refere a vidas humanas, não só para os combatentes
expostos como ainda mais para os civis, que claramente foram a maioria
das baixas da Segunda Guerra Mundial.
À primeira vista, a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra entre quatro
versões distintas da civilização ocidental: o nacional-socialismo, o
comunismo soviético, o imperialismo europeu (que os japoneses haviam
adotado) e o capitalismo norte-americano. No início, o primeiro e o
segundo uniram forças contra o terceiro, ao passo que o quarto se manteve
neutro. Após o ano decisivo de 1941, quando os nazistas atacaram os
soviéticos e os japoneses atacaram os norte-americanos, a guerra passou a
ser entre as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) – mais seus
impérios conquistados às pressas e alguns poucos seguidores – e os Aliados
(a União Soviética, o Império Britânico e os Estados Unidos), mais todos os
demais (daí as “Nações Unidas”, como os Aliados gostavam de chamar a si
mesmos). Na realidade, porém, uma convergência notável ocorreu quando a
industrialização da destruição atingiu seu terrível ápice. Todos os principais
combatentes se tornaram aparatos estatais extremamente centralizados,
planejados para alocar recursos – mão de obra e equipamentos militares –
por mecanismos não mercantis, de acordo com planos preconcebidos e
extremamente complexos. Todos eles subordinavam a liberdade individual
ao objetivo da vitória militar total e à capitulação incondicional do inimigo.
Todos recrutaram para o exército uma proporção sem precedentes de seus
homens fisicamente aptos. Todos trataram as concentrações de população
civil como alvos militares legítimos. Todos discriminaram certos grupos
civis no território que controlavam, mas nem os britânicos nem os norte-
americanos – nem os italianos – chegaram perto da selvageria dos alemães
e dos russos em relação às minorias étnicas suspeitas. Até mesmo os crimes dos japoneses contra os civis chineses e prisioneiros de guerra aliados se
tornam insignificantes em comparação com a “Solução Final para a questão
judaica” de Hitler e a “liquidação dos kulaks como classe” de Stalin, ambos
eufemismos para genocídio92.
Todos, ao que parecia, vestiam uniforme. Em 1944, os seis maiores
combatentes tinham mais de 43 milhões de pessoas, quase todos homens,
sob o exército. Considerando todos os combatentes, o total certamente
excedeu os 100 milhões. Isso era, no máximo, entre um quinto e um quarto
da população, mas ainda era uma proporção muito maior do que em
qualquer momento da história moderna, antes ou depois93. Serviram o
exército mais de 34 milhões de cidadãos soviéticos, 17 milhões de alemães,
13 milhões de norte-americanos, quase 9 milhões de súditos leais de todo o
Império Britânico e 7,5 milhões de japoneses. Os jovens desses países que
não acabaram usando fardas enviadas pelo governo foram uma minoria. Em
consequência, uma enorme proporção da indústria têxtil do mundo se
dedicou à manufatura de uniformes militares. O que as pessoas faziam
nesses uniformes variava bastante. A maioria dos alemães, japoneses e
russos esteve envolvida em alguma forma ou outra de violência organizada
letal. A maioria dos norte-americanos e britânicos não esteve na linha de
frente, deixando o combate a uma minoria sem sorte. A guerra contra a
Alemanha foi vencida por uma combinação de inteligência britânica, braços
soviéticos e capital norte-americano; os britânicos decifraram os códigos
alemães, os russos assassinaram os soldados alemães e os norte-americanos
destruíram as cidades alemãs. A vitória sobre o Japão foi
preponderantemente, embora não exclusivamente, uma conquista dos
Estados Unidos, cujo Projeto Manhattan (que recebeu esse nome devido ao
Distrito de Engenharia de Manhattan onde começou, em 1942) produziu as
três bombas atômicas testadas no Novo México e lançadas sobre Hiroshima
e Nagasaki em 1945, colocando fim à guerra e transformando o mundo.
Inspirada pelo alerta de Albert Einstein a Roosevelt de que os alemães
poderiam ser os primeiros a fabricar tal arma, e impulsionada pela
descoberta britânica das propriedades divisíveis do isótopo urânio-235 –
cuja importância os norte-americanos demoraram em compreender –, a bomba atômica foi um feito autenticamente ocidental. Os cientistas que a
conceberam eram de várias nacionalidades: australianos, britânicos,
canadenses, dinamarqueses, alemães, húngaros, italianos e suíços, além de
norte-americanos. Muitos deles (notadamente Otto Frisch e Edward Teller)
eram judeus refugiados da Europa, o que ilustra não só o papel
desproporcional exercido por judeus em cada área da vida intelectual desde
a emancipação que se seguiu à Revolução Francesa,94 como também o custo
do antissemitismo de Hitler para o esforço de guerra alemão. Dois eram
espiões soviéticos. Pode parecer estranho identificar a bomba atômica como
uma das maiores criações da civilização ocidental. Embora tenha
aumentado tremendamente a capacidade humana de causar morte, o efeito
decisivo da bomba foi reduzir a escala e o caráter destruidor da guerra,
começando por evitar a necessidade de uma sanguinária invasão anfíbia no
Japão. É certo que não aboliu a guerra convencional; a década de 1940 mal
havia acabado e outra grande guerra de aviões e tanques estava a caminho
na Coreia. Mas a bomba atômica e, mais ainda, a bomba de hidrogênio
testada em 1952 (e um ano depois pelos soviéticos), muito mais destrutiva,
circunscreveram aquela guerra e todos os conflitos subsequentes, ao
dissuadir os Estados Unidos e a União Soviética de colidir de frente. Todas
as guerras travadas pelas duas superpotências, como vieram a ser
conhecidas, se limitaram a guerras travadas por procuração. Embora o risco
de uma guerra nuclear nunca fosse zero, em retrospecto podemos ver que a
era da guerra total chegou ao fim com a capitulação do Japão.
Se a Guerra Fria tivesse esquentado, a União Soviética provavelmente teria
ganhado. Com um sistema político muito mais capaz de absorver grandes
perdas de guerra (sua taxa de mortalidade na Segunda Guerra Mundial,
como um percentual da população pré-guerra, fora 50 vezes mais alta que a
dos Estados Unidos), a União Soviética também tinha um sistema
econômico idealmente adequado à produção em massa de artilharia
sofisticada. De fato, em 1974 os soviéticos tinham um arsenal
consideravelmente maior de mísseis balísticos e bombardeiros estratégicos.
Em termos científicos, eles saíram só um pouco atrás. Também estavam
armados com uma ideologia que era, em grande medida, mais atraente que a alternativa norte-americana nas sociedades pós-coloniais em todo aquele
que passou a ser conhecido como o Terceiro Mundo, cujos camponeses
pobres se submetiam a uma vida de trabalho penoso sob as elites corruptas
que eram donas de todas as terras e controlavam as Forças Armadas95. De
fato, seria possível argumentar que os soviéticos na verdade ganharam a
“Guerra do Terceiro Mundo”. Onde havia guerra de classes significativa, o
comunismo conseguiu prevalecer96.
Mas a Guerra Fria acabou girando mais em torno de manteiga que de
armas, mais de jogos esportivos que de bombas. As sociedades, ainda que
vivessem o tempo todo com medo do Armagedom, precisavam seguir em
frente com sua vida civil, já que até mesmo os grandes exércitos dos anos
1950 e 1960 continuavam sendo muito menores que os dos anos 1940. De
um pico de 8,6% da população em 1945, as Forças Armadas dos Estados
Unidos caíram para menos de 1% em 1948, e daí em diante nunca
ultrapassaram 2,2%, mesmo no auge das intervenções norte-americanas na
Coreia e no Vietnã. A URSS se manteve mais militarizada, mas ainda assim
a proporção militar da população diminuiu de um pico de 7,4% em 1945 e
permaneceu abaixo dos 2% após 195797. O problema para a União Soviética
era simples: os Estados Unidos ofereciam uma versão muito mais atraente
da vida civil do que os soviéticos. E isso não só devido a uma vantagem
inerente no que concerne à disponibilidade de recursos. Também porque o
planejamento econômico centralizado, embora indispensável para o sucesso
da corrida armamentista nuclear, era totalmente inadequado para satisfazer
os desejos do consumidor. O planejador é mais capaz de conceber e
entregar a arma decisiva para um único cliente, o Estado. Mas jamais pode
esperar satisfazer os desejos de milhões de consumidores individuais, cujos
gostos estão, de todo modo, em fluxo constante. Compreender isso foi uma
das muitas contribuições do arquirrival de Keynes, o economia austríaco
Friedrich von Hayek, cuja obra O caminho da servidão (1945) havia
alertado a Europa Ocidental a resistir à quimera do planejamento em
tempos de paz. Foi satisfazendo (e criando) demandas que o modelo de
mercado norte-americano, revitalizado durante a guerra pelo maior estímulo fiscal e monetário de todos os tempos, e protegido, graças à geografia, das
depredações da guerra total, se mostrou invencível.
Um exemplo simples ilustra esse ponto. Antes da guerra, a maioria das
roupas era feita sob medida por alfaiates. Mas a necessidade de manufaturar
dezenas de milhões de uniformes militares encorajou o desenvolvimento de
tamanhos padrão. Na verdade, a gama de proporções humanas não é tão
variada; a altura e o peso humanos costumam ser distribuídos, o que
significa que a maioria de nós se encontra em uma faixa mediana. Durante
1939 e 1940, cerca de 15 mil mulheres norte-americanas participaram de
uma pesquisa nacional feita pela Agência Nacional de Economia Doméstica
do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Era o primeiro estudo
científico sobre proporções femininas já realizado em grande escala. Um
total de 59 medidas foram tomadas de cada voluntária. Os resultados foram
publicados em 1941 como USDA Miscellaneous Publication 454, Women’s
Measurements for Garment and Pattern Construction [Medidas femininas
para a confecção de moldes e peças de indumentária]. Os tamanhos
padronizados permitiram que não só uniformes, como também roupas civis,
fossem produzidos em massa e vendidos “acabados” ou “prontos para
vestir”. Em questão de algumas décadas, só as roupas da elite econômica
continuavam sendo feitas sob medida: ternos masculinos da Savile Row e
alta costura feminina de Paris e de Milão.
Nos Estados Unidos do pós-guerra, a sociedade de consumo se tornou um
fenômeno de massas, diminuindo significativamente as diferenças de
vestuário entre as classes sociais. Isso foi parte de um aumento generalizado
do nível de vida após a guerra. Em 1928, o 1% mais rico da população
detinha aproximadamente 20% da receita. Entre 1952 e 1982, essa
proporção se manteve abaixo dos 9%, menos que a parcela equivalente
destinada ao 1% mais rico na França98. As melhores oportunidades de
educação para os soldados que voltavam da guerra, associadas com uma
onda de construção de casas nos subúrbios, se traduziram em uma
significativa melhoria na qualidade de vida. Os pais dos baby boomers
foram a primeira geração a ter acesso significativo ao crédito ao
consumidor. Eles compraram sua casa a prazo, seu carro a prazo e seus eletrodomésticos – geladeiras, aparelhos de TV e máquinas de lavar roupa –
a prazo99. Em 1930, quando veio a Depressão, mais de metade dos lares
norte-americanos tinha eletricidade, um automóvel e uma geladeira. Em
1960, cerca de 80% dos norte-americanos tinha não só essas conveniências,
como também telefone. E a velocidade com que os novos bens de consumo
duráveis se difundiam continuou aumentando. A máquina de lavar roupa foi
inventada antes da Depressão, em 1926. Em 1965, 39 anos mais tarde,
metade dos lares tinha uma. O ar condicionado foi inventado em 1945.
Passou da marca dos 50% em 1974, 29 anos depois. A secadora de roupas
apareceu em 1949, e 23 anos depois estava em mais da metade dos lares. (A
máquina de lavar louça, também inventada em 1949, tardou mais para
deslanchar; foi só em 1997 que passou a estar presente em uma em cada
duas casas.) A televisão em cores quebrou todos os recordes; inventada em
1959, estava em metade dos lares em 1973, apenas 14 anos mais tarde. Em
1989, quando a Guerra Fria efetivamente chegou ao fim, dois terços ou
mais dos norte-americanos tinham todas essas coisas, com a exceção da
máquina de lavar louça. Eles também haviam adquirido o forno micro-
ondas (inventado em 1972) e o aparelho de videocassete (1977). Quinze por
cento já tinham um computador pessoal (1978). Dois por cento pioneiros
tinham telefones celulares. No fim do milênio, estes últimos também
estavam presentes em metade das casas, assim como a internet100.
Para as sociedades onde essa trajetória parecia factível, o comunismo
soviético logo deixou de ser atraente. A Europa Ocidental, cuja recuperação
no pós-guerra foi financiada com ajuda norte-americana, rapidamente
recobrou o caminho de crescimento dos anos anteriores à Depressão
(embora, na verdade, os maiores destinatários do programa que recebeu o
nome de George Marshall não tenham crescido mais depressa). Os anos
fascistas haviam debilitado os sindicatos de trabalhadores em grande parte
da Europa; em consequência, as relações de trabalho eram menos
ingovernáveis do que antes da guerra. As greves eram mais curtas (embora
tivessem maior adesão). Só na Grã-Bretanha, na França e na Itália a ação
industrial se tornou mais frequente. A negociação coletiva corporativista, o
planejamento econômico, a gestão de demanda keynesiana e os Estados de bem-estar social: os europeus ocidentais tomaram várias vacinas contra a
ameaça comunista, incluindo a integração econômica inter-regional com a
assinatura do Tratado de Roma, em 1957. De fato, naquela época a ameaça
de Moscou já havia diminuído. As extorsões soviéticas, a ênfase constante
na indústria pesada, a coletivização da agricultura e o surgimento do que
Milovan Djilas chamou “nova classe” de privilegiados do Partido – todas
essas coisas já haviam incitado revoltas em Berlim (1953) e Budapeste
(1956). Os verdadeiros milagres econômicos aconteceram na Ásia, onde
não só o Japão, como também Hong Kong, Indonésia, Malásia, Singapura,
Coreia do Sul, Taiwan e Tailândia, alcançaram crescimento sustentado e, na
maioria dos casos, acelerado no período pós-guerra. A participação da Ásia
no PIB mundial subiu de 14% para 34% entre 1950 e 1990 e, o que é
essencial, a Ásia continuou crescendo nos anos 1970 e 1980, quando outras
regiões do mundo desaceleraram ou, no caso da África e da América
Latina, sofreram retração econômica. O desempenho da Coreia do Sul foi
especialmente notável. Um país que, quanto à renda per capita, estivera
atrás de Gana em 1960 havia avançado o suficiente em 1996 para entrar
para a Organização de Desenvolvimento e Cooperação Econômica, o clube
dos países ricos. Entre 1973 e 1990, foi a economia que mais rapidamente
cresceu no mundo.
O milagre econômico do Leste da Ásia foi decisivo para a Guerra Fria. Se
o Vietnã, e não a Coreia, tivesse sido a regra – em outras palavras, se a
maioria das intervenções militares dos Estados Unidos tivesse fracassado –,
o resultado poderia ter sido menos feliz. O que causou a diferença?
Primeiro, os Estados Unidos e seus aliados (notadamente a Grã-Bretanha na
Malásia) foram capazes de fornecer garantias de segurança aos governos
após as intervenções militares. Em segundo lugar, as reformas pós-conflito
criaram bases institucionais seguras para o crescimento, das quais um
exemplo perfeito é a reforma agrária japonesa em 1946, que eliminou os
remanescentes do feudalismo e tornou a propriedade de terras muito mais
igualitária (algo que os reformadores da era Meiji se abstiveram de fazer).
Em terceiro lugar, a ordem econômica global cada vez mais aberta
sustentada pelos Estados Unidos beneficiou muito esses países asiáticos. Por fim, eles usaram várias formas de direção estatal para assegurar que as
economias fossem canalizadas para as indústrias de exportação, cujo setor
essencial era, sem dúvida, a indústria têxtil. A sociedade de consumo
forneceu ao Leste Asiático não só um modelo a ser seguido, como também
um mercado para suas roupas baratas.
Deve-se notar que quase nenhum dos “Tigres Asiáticos” que seguiram o
exemplo do Japão, industrializando-se por meio da exportação de
commodities como produtos de algodão, o fizeram com a ajuda de
instituições democráticas. A Coreia do Sul foi conduzida por sua revolução
industrial pelos generais Park Chung-hee (1960-79) e Chun Doo-hwan
(1980-87), enquanto Lee Kuan Yew, em Singapura, e Suharto, na Indonésia,
foram essencialmente absolutistas (o primeiro, um iluminista), e partidos
monopolistas predominaram em Taiwan e no Japão. Hong Kong continuou
sendo uma colônia britânica até 1997. No entanto, em cada um desses
casos, o sucesso econômico foi seguido, após certo atraso, pela
democratização. O Leste da Ásia, em síntese, saiu do campo gravitacional
soviético porque se tornou um acionista na sociedade de consumo norte-
americana. Foi uma história muito diferente naqueles países – Irã,
Guatemala, Congo, Brasil, República Dominicana e Chile – em que as
intervenções norte-americanas tiveram duração mais curta, e ainda pior
naqueles – Cuba, Vietnã, Angola e Etiópia – em que a intervenção ou
assistência soviética foi mais efetiva.
Que o consumo em massa, com toda a padronização que isso implicava,
pudesse de alguma forma ser conciliado com o individualismo extremo foi
um dos truques mais inteligentes já realizados pela civilização ocidental.
Mas o segredo para entender como isso foi feito reside exatamente nesta
palavra: western. A União Soviética talvez possa ser perdoada por não ter
sido capaz de inventar e disseminar a TV em cores ou o forno de micro-
ondas. Mas nem todos os produtos que definem a sociedade de consumo
eram tecnologicamente complexos. O mais simples de todos era, de fato,
um tipo de calça de operário inventado na costa ocidental dos Estados
Unidos. Talvez o maior mistério de toda a Guerra Fria seja por que o Paraíso dos Trabalhadores não foi capaz de produzir um par decente de