Civilização: Ocidente X Oriente
Micrografia
O caminho da Europa para a Revolução Científica e o Iluminismo esteve
muito longe de ser curto e direto; ao contrário, foi longo e tortuoso. Suas
origens remontam ao dogma cristão fundamental de que a Igreja e o Estado
deviam ser separados. “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”
(Mateus 22:21) é uma injunção radicalmente diferente daquela do Corão,
que insiste na indivisibilidade da lei de Deus conforme revelada ao Profeta e na unidade de toda estrutura de poder baseada no Islã. Foi justamente a
distinção de Cristo entre o temporal e o espiritual, esboçada no século V por
Santo Agostinho em A cidade de Deus (em oposição à “cidade dos homens”
do Império Romano), que possibilitou que sucessivos governantes europeus
resistissem às pretensões políticas do papado em Roma. De fato, até
Gregório VII (1073-85) reafirmar o poder papal sobre a investidura
(nomeação) do clero, foram as autoridades seculares que ameaçaram
transformar o papa em uma marionete.
Antes de 1500, a Europa era um vale de lágrimas, mas não de ignorância.
Grande parte do aprendizado clássico foi redescoberta durante a
Renascença, muitas vezes graças ao contato com o mundo muçulmano.
Houve importantes inovações também. O século XII viu o nascimento da
polifonia, um marco revolucionário na história da música ocidental. A
importância do método experimental foi proposta por Robert Grosseteste e
corroborada por Roger Bacon no século XIII. Por volta de 1413, Filippo
Brunelleschi inventou a perspectiva linear na pintura. O primeiro
verdadeiro romance foi o anônimo A vida de Lazarillo de Tormes (1500).
Mas um marco mais decisivo que a Renascença foi o advento da Reforma e
a decorrente fragmentação do cristianismo ocidental após 1517. Isso se
deveu, em grande medida, ao papel revolucionário da imprensa, certamente
a inovação tecnológica mais importante do período anterior à Revolução
Industrial. Conforme vimos, os chineses podem afirmar ter inventado a
impressão com uma prensa (ver Capítulo 1). Mas o sistema de Gutenberg,
que usava tipos móveis de metal, era mais flexível e escalável que qualquer
coisa desenvolvida na China. Conforme ele afirmou, “a maravilhosa
composição, proporção e harmonia de punções e tipos” permitiu a rápida
produção de panfletos e livros. Era uma tecnologia poderosa demais para
ser monopolizada (como Gutenberg desejou que fosse). Em apenas alguns
anos após sua primeira aparição em Mainz, outras imprensas foram criadas
por imitadores – notadamente o inglês William Caxton – em Colônia
(1464), Basileia (1466), Roma (1467), Veneza (1469), Nuremberg, Utrecht,
Paris (1470), Florença, Milão, Nápoles (1471), Augsburgo (1472),
Budapeste, Lion, Valência (1473), Cracóvia, Bruges (1474), Lübeck, Breslau (1475), Westminster, Rostock (1476), Gênova, Palermo, Messina
(1478), Londres (1480), Antuérpia, Leipzig (1481), Odense (1482) e
Estocolmo (1483)21. Antes de 1500 já havia mais de 200 tipógrafos só na
Alemanha. Em 1518, um total de 150 obras impressas foram publicadas na
Alemanha, subindo para 260 em 1519, 570 em 1520 e 990 em 1524.
Nenhum autor se beneficiou mais dessa explosão de publicações que
Martinho Lutero, sobretudo porque percebeu o potencial de escrever na
língua vernácula em vez de em latim. Começando modestamente com a
introdução a uma edição da Theologia Deutsch e os Sete Salmos
Penitenciais, ele e Johann Grunenberg, tipógrafo de Wittenberg, logo
inundaram o mercado alemão com tratados religiosos que criticavam as
práticas da Igreja Católica romana. O mais famoso ataque de Lutero, As 95
Teses contra a venda de indulgências da Igreja (como uma forma de
penitência por pecado), inicialmente não foi publicado, e sim pregado à
porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Mas não tardou muito para que
surgissem várias cópias impressas22. A mensagem de Lutero era que “a fé
sozinha, sem obras, justifica, liberta, e salva” e que todos os homens eram
“para sempre padres [...] dignos de aparecer diante de Deus, de rezar pelos
outros, e para os outros, e de ensinar mutuamente uns aos outros sobre as
coisas que são de Deus”23. Essa noção de um “sacerdócio [autodidata] de
todos os crentes” era radical em si mesma. Mas foi a imprensa que a tornou
viável, ao contrário da manifestação anterior de Jan Hus contra o poder
papal, que fora impiedosamente esmagada como todas as heresias
medievais. Em apenas alguns anos, os panfletos de Lutero estavam
disponíveis em toda a Alemanha, apesar do Édito de Worms de 1521,
ordenando que fossem queimados. Dos 30 sermões e outros escritos que
Lutero publicou entre março de 1517 e o verão de 1520, cerca de 370
edições foram impressas. Se a tiragem média de uma edição era de mil
exemplares, então cerca de 300 mil exemplares de suas obras estiveram em
circulação no fim desse período. Entre 1521 e 1545, Lutero sozinho foi
responsável por metade de todas as publicações a favor da Reforma24.
Por sua ênfase na leitura individual das escrituras e no “ensino mútuo”, o
novo meio foi verdadeiramente a mensagem da Reforma. No entanto, assim como com tantos outros aspectos da supremacia ocidental, a competição
comercial desempenhou seu papel. O próprio Lutero reclamou que seus
editores eram “sórdidos mercenários” que se importavam mais com os
lucros que com o público25. De fato, os benefícios econômicos da imprensa
se espalharam por toda a sociedade. No decurso do século XVI, as cidades
com tipógrafos cresceram muito mais rapidamente que as cidades sem
tipógrafos26.
De maneira crucial, a imprensa difundiu outros ensinamentos além dos de
Lutero. O próprio Novo Testamento foi publicado em inglês pela primeira
vez em 1526, na tradução de Matthew Tyndale, o que possibilitou que
leigos alfabetizados lessem as escrituras por conta própria. Os
conservadores religiosos podiam denunciar aquela “máquina vilã”, a
imprensa, e olhar com nostalgia para “uma época feliz em que todos os
Ensinamentos estavam nos Manuscritos, e alguma Autoridade [...] detinha
as Chaves da Biblioteca”27. Mas aquele tempo se fora para sempre.
Conforme logo compreendeu Thomas Morus, ministro de Henrique VIII,
nem mesmo aqueles que se opunham à Reforma tinham outra opção além
de se unir à batalha na imprensa. A única forma de limitar a difusão da
Bíblia de Gênova (1560) dos calvinistas por toda a Escócia e Inglaterra era
que o rei Jaime VI e I encomendasse uma versão “autorizada” alternativa, a
terceira e mais bem-sucedida tentativa de produzir uma tradução inglesa
oficial.28 Também reveladas e difundidas pela imprensa foram as obras dos
filósofos da Antiguidade, notadamente as de Aristóteles (cujo De anima foi
publicado em tradução moderna em 1509), bem como as de humanistas
anteriores à Reforma, como Nicolaus Marschalk e George Sibutus. Antes de
1500, mais de mil obras científicas e matemáticas haviam sido impressas,
entre as quais Da natureza, de Lucrécio, que fora redescoberta em 1417, De
re medica, de Celso, uma compilação romana da ciência médica grega, e
versões latinas das obras de Arquimedes29. Os tipógrafos italianos
desempenharam um papel especialmente importante ao disseminar técnicas
de aritmética e contabilidade úteis para o comércio, em obras como Treviso
Arithmetic (1478) e Summa de arithmetica, geometria, proportioni et
proportionalita (1494), esta última de autoria de Luca Pacioli.
Possivelmente ainda mais notável é o fato de que, na época em que os
panfletos contra os turcos eram quase tão populares quanto os tratados
contra o Papado na Alemanha30, o Corão foi traduzido para o latim e
publicado em Basileia pelo tipógrafo Johannes Oporinus. Quando, em
1542, a câmara municipal de Basileia baniu a tradução e recolheu os
exemplares disponíveis, o próprio Lutero escreveu em defesa de Oporinus:
Eu me dei conta de que não se pode fazer nada mais grave para Maomé ou para os turcos, nem
lhes causar mais danos (mais que com todas as armas), que trazer seu Corão aos cristãos à luz do
dia, para que eles possam ver o quão absolutamente maldito, abominável e perigoso é esse livro,
cheio de mentiras, fábulas e abominações que os turcos ocultam e encobrem [...] Para honrar a
Cristo, para fazer bem aos cristãos, para prejudicar os turcos, para irritar o demônio, não censurem
nem detenham esse livro [...] É preciso abrir as chagas e feridas para curá-las31.
Três edições foram publicadas em 1543, seguidas por uma quarta edição
sete anos depois. Nada poderia ilustrar melhor a abertura do pensamento
europeu que se seguiu à Reforma.
É claro que nem tudo que é publicado contribui para a construção do
conhecimento humano. Grande parte do que foi impresso durante os séculos
XVI e XVII era sem dúvida destrutivo, como as 29 edições do Malleus
maleficarum que apareceram entre 1487 e 1669, legitimando a perseguição
às bruxas, uma mania pan-europeia que matou entre 12 mil e 45 mil
pessoas, em sua maioria mulheres32. Para as plateias que assistiram a
Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, encenado pela primeira vez em
1592, a ideia de que um estudioso alemão pudesse vender sua alma ao
Diabo em troca de 24 anos de poder e prazer sem limites era perfeitamente
crível:
Graças a ele serei o grande imperador do mundo,
E construirei uma ponte no ar,
Para atravessar o oceano com um bando de homens;
Unirei as colinas que orlam a costa africana,
E tornarei contíguo à Espanha aquele território,
E ambos contribuirão para minha coroa:
O Imperador não viverá sem minha permissão [...]
Mas, apenas 70 anos depois, Robert Hooke pôde publicar sua Micrografia
(1665), uma celebração triunfante do empirismo científico:
Graças aos telescópios, não há nada tão distante que não possa ser representado a nossos olhos; e,
com a ajuda dos microscópios, não há nada tão pequeno que escape à nossa investigação; portanto,
há um novo mundo visível revelado ao conhecimento. Dessa forma os céus se revelam, e um
grande número de novas estrelas, e novos movimentos, e novas produções aparecem neles, os
quais eram completamente desconhecidos por todos os astrônomos antigos. Com isso, a própria
Terra, que está tão perto de nós, sob nossos pés, nos mostra algo novo [...] Talvez sejamos
incapazes de discernir todas as obras secretas da Natureza. Portanto, o que não poderíamos esperar
dela se buscássemos a fundo? Expressar e discutir argumentos logo darão lugar a executar; todos
os grandes sonhos das opiniões, e das naturezas metafísicas universais, concebidos pela luxúria
dos pensamentos sutis, rapidamente desapareceriam e dariam lugar a histórias, experiências e
obras sólidas. E, assim como no começo a humanidade caiu por provar da árvore proibida do
conhecimento, nós também, sua posteridade, podemos, em parte, ser restabelecidos da mesma
maneira, não só observando e contemplando, mas provando também aqueles frutos do
conhecimento natural, que jamais foram proibidos. Daí que o mundo pode se beneficiar de uma
variedade de invenções, podem-se reunir novos assuntos para as ciências, aprimorar os antigos, e
eliminar sua ferrugem [...]
O uso que Hooke faz do termo “célula” para uma unidade microscópica
de matéria orgânica foi um de uma série de marcos conceituais, agrupados
de maneira impressionante no espaço e no tempo, que redefiniram
fundamentalmente nossa compreensão do mundo natural.
Pode-se dizer que a Revolução Científica começou com avanços quase
simultâneos no estudo do movimento dos planetas e da circulação
sanguínea. Mas o microscópio de Hooke levou a ciência a um novo patamar
ao revelar o que, até então, era invisível ao olho humano. A Micrografia foi
um manifesto a favor do novo empirismo, um mundo distante da feitiçaria
de Fausto. No entanto, a nova ciência era mais que mera observação
precisa. Começando com Galileu, consistiu na experimentação sistemática e
na identificação de relações matemáticas. As possibilidades da matemática
foram ampliadas, por sua vez, quando Isaac Newton e Gottfried Leibniz
introduziram, respectivamente, o cálculo infinitesimal e o diferencial. Por
fim, a Revolução Científica foi também uma revolução filosófica, visto que René Descartes e Baruch de Espinosa derrubaram teorias tradicionais sobre
a percepção e a razão. Sem exagero, pode-se afirmar que essa sucessão de
inovação intelectual deu origem à anatomia, à biologia, à química, à
geologia, à geometria, à matemática, à mecânica e à física modernas. Seu
caráter é mais bem ilustrado por uma lista dos 29 avanços mais importantes
do período que vai de 1530 a 1789.33
1530 Paracelso é pioneiro na aplicação da química à fisiologia e à
patologia.
1543 De revolutionibus orbium coelestium [Das revoluções das esferas
celestes], de Nicolau Copérnico, propõe a teoria heliocêntrica do sistema
solar.
De humani corporis fabrica [Da organização do corpo humano], de
Andreas Vesalius, substitui o compêndio anatômico de Galeno.
1546 De natura fossilium [Da natureza fóssil], de Agricola, classifica os
minerais e introduz o termo “fóssil”.
1572 Tycho Brahe registra a primeira observação europeia de uma
supernova.
1589 Os experimentos dos corpos em queda, de Galileu (publicados em
De motu), revolucionam o método experimental.
1600 De magnete, magnetisque corporibus [Sobre os ímãs, os corpos
magnéticos e o grande ímã terrestre], de William Gilbert, descreve as
propriedades magnéticas da terra e a eletricidade.
1604 Galileu descobre que a distância percorrida por um corpo em queda
livre varia em função do quadrado do tempo.
1608 Hans Lippershey e Zacharias Jansen, trabalhando
independentemente, inventam o telescópio.
1609 Galileu faz as primeiras observações telescópicas do céu noturno.
1610 Galileu descobre quatro luas de Júpiter e infere que a Terra não está
no centro do universo.
1614 Mirifici logarithmorum canonis descriptio [A descrição da
maravilhosa tábua de logaritmos], de John Napier, introduz os
logaritmos.
1628 William Harvey escreve Exercitatio anatomica de motu cordis et
sanguinis in animalibus [Um exercício anatômico do movimento do
coração e do sangue nos animais], descrevendo com precisão a circulação
sanguínea.
1637 “La Géométrie”, de René Descartes, um apêndice de seu Discurso
do método, inaugura a geometria analítica.
1638 Discursos e demonstrações matemáticas referentes a duas ciências
novas, de Galileu, inaugura a mecânica moderna.
1640 Pierre de Fermat funda a teoria dos números.
1654 Fermat e Blaise Pascal fundam a teoria da probabilidade.
1661 Skeptical Chymist [O químico cético], de Robert Boyle, define os
elementos e a análise química.
1662 Boyle propõe a Lei de Boyle, de que o volume ocupado por uma
massa estável de gás em um recipiente é inversamente proporcional à
pressão que exerce.
1669 De analysi per aequationes numero terminorum infinitas [Sobre a
análise de equações com um número limitado de termos], de Isaac
Newton, apresenta a primeira explicação sistemática do cálculo,
desenvolvida de maneira independente por Gottfried Leibniz.
1676 Antoni van Leeuwenhoek descobre microrganismos.
1687 Philosophiae naturalis principia mathematica [Princípios
matemáticos da filosofia natural], de Newton, propõe a lei da gravitação
universal e as leis de movimento.
1735 Systema naturae [Sistema natural], de Carlos Lineu, introduz a
classificação sistemática de gêneros e espécies de organismos.
1738 Hydrodynamica, de Daniel Bernoulli, propõe o Princípio de
Bernoulli e funda o estudo matemático dos fluidos e a teoria cinética dos
gases.
1746 Jean-Etienne Guettard prepara os primeiros verdadeiros mapas
geológicos.
1755 Joseph Black identifica o dióxido de carbono.
1775 Antoine Lavoisier descreve corretamente a combustão.
1785 “Concerning the System of the Earth”, de James Hutton, apresenta
a teoria uniformitarista do desenvolvimento da Terra.
1789 Traité élémentaire de chimie, de Lavoisier, propõe a lei da
conservação da matéria.
Em meados do século XVII, esse tipo de conhecimento científico estava
se disseminando tão rapidamente quanto a doutrina da Reforma Protestante
um século antes. Juntos, a imprensa e os serviços postais cada vez mais
confiáveis criaram uma rede de comunicação extraordinária, pequena para
os padrões atuais, mas mais poderosa que qualquer coisa alcançada até
então por uma comunidade de estudiosos. Houve, é claro, grande resistência
intelectual, como sempre ocorre quando o paradigma – o próprio marco
conceitual – muda34. De fato, parte dessa resistência veio de dentro. O
próprio Newton se envolveu com alquimia. Hooke quase se matou com
remédios fraudulentos para indigestão. Para esses homens, não era nada
fácil conciliar a nova ciência com a doutrina cristã, à qual poucos estavam
prontos a renunciar35. Mas continua sendo inegável que esta foi uma
revolução intelectual ainda mais transformadora que a revolução religiosa
que a precedeu e, sem querer, a provocou. Estabeleceram-se as regras
fundamentais da pesquisa científica, inclusive no que diz respeito à difusão
de descobertas e à atribuição de crédito ao primeiro a publicá-las. “Sua
primeira carta me batizou na religião newtoniana”, escreveu o jovem e
sagaz filósofo francês François-Marie Arouet (mais conhecido por seu
pseudônimo Voltaire) a Pierre-Louis Moreau de Maupertuis depois que este
último publicou seu Discurso sobre as diferentes figuras dos planetas em
1732, “e sua segunda me deu a confirmação. Eu lhe agradeço por seus
sacramentos.36” Isso era uma ironia; mas também reconhecia a natureza
reveladora da nova ciência.
Aqueles que condenam o “eurocentrismo” como se este fosse um
preconceito detestável têm um problema: a Revolução Científica foi, de
acordo com toda e qualquer medida científica, totalmente eurocêntrica.
Uma parcela incrivelmente alta de suas principais figuras – em torno de
80% – provinha de um hexágono formado por Glasgow, Copenhagen, Cracóvia, Nápoles, Marselha e Plymouth, e praticamente todo o restante
nasceu em um raio de 160 quilômetros dessa área37. Em nítido contraste,
inexistiu nesse período um progresso científico otomano. A melhor
explicação para essa divergência era a soberania irrestrita da religião no
mundo muçulmano. No fim do século XI, clérigos islâmicos influentes
começaram a afirmar que o estudo da filosofia grega era incompatível com
os ensinamentos do Corão38. De fato, era uma blasfêmia insinuar que o
homem poderia ser capaz de discernir o modo de operação divino, o qual,
em todo caso, podia variar segundo a vontade de Deus. Nas palavras de
Abu Hamid al-Ghazali, autor de A incoerência dos filósofos, “É raro que
alguém passe a se ocupar desta ciência [estrangeira] sem renunciar à
religião e, com ela, ao domínio da crença”39. Sob influência do clero, o
estudo da filosofia antiga foi tolhido, livros foram queimados, e os
chamados livres-pensadores foram perseguidos; cada vez mais, as
madraçais – escolas islâmicas – concentravam-se exclusivamente na
teologia, em uma época em que as universidades europeias estavam
ampliando o escopo de seus estudos40. Também houve resistência à
imprensa no mundo muçulmano. Para os otomanos, a escrita era sagrada:
havia uma reverência religiosa pela pena, uma preferência pela arte da
caligrafia em detrimento da tipografia. Afirmava-se que “a tinta dos
estudiosos é mais sagrada que o sangue dos mártires”41. Em 1515, um
decreto do sultão Selim I ameaçou com a morte todo aquele que usasse a
prensa tipográfica42. Esse fracasso em conciliar o Islã com o progresso
científico se mostraria desastroso. Os cientistas muçulmanos, que um dia
foram fonte de ideias e inspiração para os estudiosos europeus, agora
estavam de fora das investigações mais recentes. Se a Revolução Científica
foi gerada por uma rede de comunicação, o Império Otomano estava
praticamente desconectado. Até o fim do século XVIII, o único livro
ocidental traduzido para um idioma do Oriente Médio foi um livro médico
sobre o tratamento da sífilis43.
Nada ilustra melhor essa divergência que o destino do observatório
construído em Istambul na década de 1570 pelo renomado polímata
Takiyüddīn al-Rāsid (Taqi al-Din). Nascido na Síria em 1521 e educado em Damasco e no Cairo, Takiyüddīn foi um cientista talentoso, autor de
inúmeros tratados sobre astronomia, matemática e ótica. Ele projetou seus
próprios relógios astronômicos – extremamente precisos – e chegou a fazer
experiências com a energia a vapor. Em meados dos anos 1570, como
astrônomo do sultão, conseguiu interceder a favor da construção de um
observatório. Segundo consta, a Darü’r-Rasadü’l-Cedid (Casa das Novas
Observações) era uma instalação sofisticada, comparável ao Uranienborg, o
observatório mais famoso do dinamarquês Tycho Brahe. Mas, em 11 de
setembro de 1577, um cometa foi avistado sobre Istambul, o que levou a
demandas por uma interpretação astrológica. Imprudentemente, de acordo
com algumas versões, Takiyüddīn o interpretou como o prenúncio de uma
vitória militar otomana. Mas o xeque ul-Islam Kadizade, o clérigo mais
ancião da época, persuadiu o sultão de que a intromissão de Takiyüddīn nos
segredos dos céus era uma blasfêmia tão grande quanto as tábuas
planetárias do astrônomo Ulugh Beg, de Samarcanda, que supostamente
fora decapitado por audácia similar. Em janeiro de 1580, apenas cinco anos
após ter sido construído, o sultão ordenou a demolição do observatório de
Takiyüddīn44. Não haveria outro observatório em Istambul até 1868. Por tais
métodos, o clero muçulmano eliminou as chances de progresso científico –
no exato momento em que as igrejas cristãs da Europa estavam afrouxando
seu controle sobre a liberdade de pesquisa. Os avanços europeus em
Istambul foram descartados, vistos como meras “bobagens”45. O legado da
um dia celebrada Casa da Sabedoria do Islã desapareceu em uma nuvem de
religiosidade. No início do século XIX, ainda se podia escutar Hüseyin
Rıfkı Tamani, o diretor da Mühendishane-i Cedide (Nova Escola de
Engenharia), explicando aos alunos: “O universo tem a aparência de uma
esfera, e seu centro é a Terra [...] O Sol e a Lua giram em torno do globo e
movimentam os signos do zodíaco”46.
Na segunda metade do século XVII, enquanto os herdeiros de Osman
descansavam, governantes de toda a Europa promoviam ativamente a
ciência, sem se preocupar muito com os receios do clero. Em julho de 1662,
dois anos após sua fundação no Gresham College, a Sociedade Real de
Londres para o Progresso do Conhecimento da Natureza recebeu um alvará do rei Carlos II. O objetivo era fundar uma instituição “para a promoção do
aprendizado experimental físico-matemático”. De maneira significativa, nas
palavras do primeiro historiador da Sociedade, os fundadores:
admitiam livremente homens de diferentes religiões, países e profissões. Isso eles eram obrigados
a fazer, ou não estariam à altura da grandeza de suas próprias declarações. Pois eles professam
abertamente não assentar as bases de uma filosofia inglesa, escocesa, irlandesa, papal ou
protestante; mas de uma filosofia da humanidade [...] Ao admitir homens de todos os países,
abrem caminho para grandes benefícios no futuro. Pois, por esses meios, serão capazes de
instaurar uma inteligência constante, em todas as nações civis; e de fazer da Sociedade Real o
banco geral e porto livre do mundo47.
Quatro anos mais tarde, a Académie Royale des Sciences foi formada em
Paris, inicialmente como um centro pioneiro para a cartografia48. Esses se
tornaram os modelos para instituições similares em toda a Europa. Entre os
fundadores da Sociedade Real estava Christopher Wren – arquiteto,
matemático, cientista e astrônomo. Quando, em 1675, Carlos II incumbiu
Wren de projetar o Observatório Real em Greenwich, certamente não
esperava que ele previsse os resultados das batalhas. A ciência real, como
bem entendeu o rei, era de interesse nacional.
O que tornou a Sociedade Real tão importante não foi tanto um mecenato
real, mas sobretudo o fato de que esta era parte de um novo tipo de
comunidade científica, que tornava possível compartilhar ideias e abordar
problemas de maneira coletiva, por um processo de competição direta. O
exemplo clássico é a Lei da Gravidade, que Newton não poderia ter
formulado sem os esforços anteriores de Hooke. De fato, a Sociedade – da
qual Newton se tornou presidente em 1703 – foi um centro na nova rede de
comunicação científica. Isso não significa que a ciência moderna foi ou é
totalmente colaborativa. Na época, assim como agora, os cientistas eram
movidos tanto pela ambição quanto pelo altruísmo. Mas, devido à
necessidade de publicar as novas descobertas, o conhecimento científico
pôde crescer e se acumular – embora, às vezes, com ressentimentos. Houve
uma disputa exasperada entre Newton e Hooke para estabelecer qual dos
dois havia sido o primeiro a identificar a lei quadrática inversa da