Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 4 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

O eunuco e o unicórnio

sua imaginação para retratar uma cena de destruição e morte de revirar o

estômago. Em uma terra governada por um exército de esqueletos, um rei

jaz moribundo, seu tesouro perdido, ao passo que um cachorro mordisca um

cadáver. No fundo, vemos dois homens pendurados em forcas, quatro

homens atados a rodas com os ossos esmagados, e um quinto prestes a ser

decapitado. Exércitos em conflito, casas queimadas, barcos afundados. Em

primeiro plano, homens e mulheres, jovens e velhos, soldados e civis, todos

são conduzidos tumultuosamente por um túnel estreito. Ninguém é

poupado. Até mesmo o trovador cantando para sua amante está certamente

condenado. O próprio artista morreu com pouco mais de 40 anos, um

homem mais jovem que este autor.

Um século mais tarde, o artista italiano Salvator Rosa pintou talvez o

mais tocante de todos os memento mori, intitulado simplesmente “L’umana

fragilità” (“A fragilidade humana”). Foi inspirado na praga que varreu sua

Nápoles natal em 1655, cobrando a vida de seu filho recém-nascido,

Rosalvo, e levando também o irmão, a irmã, o cunhado e cinco de seus

sobrinhos. Arreganhando horrivelmente os dentes, o anjo da morte paira na

escuridão atrás da esposa de Rosa para reivindicar seu filho, enquanto ele

faz sua primeira tentativa de escrever. O ânimo do artista de coração partido

é imortalizado em apenas oito palavras latinas gravadas na tela:

 

Conceptio culpa

Nasci pena

Labor vita

Necesse mori

 

“A concepção é um pecado, o nascimento é dor, a vida é trabalho, a morte

é inevitável.” Poderia haver descrição mais sucinta para a vida na Europa

daquela época?

 

O eunuco e o unicórnio Como podemos entender essa preeminência do Oriente? Para começar, a

agricultura asiática era consideravelmente mais produtiva que a europeia.

Na Ásia Oriental, um acre de terra era suficiente para sustentar uma família,

tamanha era a eficiência do cultivo do arroz, ao passo que, na Inglaterra, o

número médio estava mais próximo de 20 acres. Isso ajuda a explicar por

que a Ásia Oriental já era mais populosa que a Europa Ocidental. O sistema

oriental de cultivo de arroz, mais sofisticado, tinha capacidade para

alimentar muito mais bocas. Sem dúvida, o poeta Zhou Shixiu, da dinastia

Ming, via a vida no campo através de lentes cor-de-rosa; de qualquer modo,

a imagem aqui é de uma população rural satisfeita:

 

No caminho escuro, avistam-se portas humildes; um beco sinuoso conduz ao interior. Aqui, dez

famílias [...] vivem lado a lado há gerações. De onde quer que se observe, a fumaça da lareira

delas se mistura; da mesma maneira, em sua rotina, as pessoas cooperam umas com as outras. O

filho de um homem dirige a casa a oeste, ao passo que a filha de outro é a esposa do vizinho

ocidental. Um vento frio de outono sopra no santuário do deus do solo; leitões e saquê são

oferecidos ao Ancestral dos Campos, a quem o velho xamã queima papel-moeda, enquanto

garotos batucam em um tambor de bronze. A névoa envolve em silêncio o jardim de cana-de-

açúcar, e a garoa fina cai sobre os campos de inhame-branco, enquanto as pessoas voltam para

casa após as cerimônias, esparramam esteiras e conversam, meio ébrias […]10.

 

Mas tais cenas de êxtase bucólico só contam uma parte da história. As

gerações posteriores de ocidentais costumavam pensar na China imperial

como uma sociedade estática, alérgica à inovação. Em Confucionismo e

taoismo (1915), o sociólogo alemão Max Weber definiu o racionalismo

confuciano como um “ajuste racional ao mundo”, em oposição ao conceito

ocidental de “domínio racional do mundo”. Essa era uma visão amplamente

endossada pelo filósofo chinês Feng Youlan em seu História da filosofia

chinesa (1934), bem como por Joseph Needham, pesquisador de

Cambridge, em sua história em vários volumes da Ciência e civilização na

China. Tais explicações culturais – sempre atraentes para aqueles, como

Feng e Needham, que simpatizaram com o regime maoista após 1949 – são

difíceis de conciliar com os indícios de que, muito antes da era Ming, a civilização chinesa tentara sistematicamente dominar o mundo por meio da

inovação tecnológica.

Não sabemos ao certo quem criou o primeiro relógio d’água. Podem ter

sido os egípcios, os babilônios ou os chineses. Mas em 1086 Su Song

incluiu um escape – dispositivo que controla a rotação das engrenagens –

para criar o primeiro relógio mecânico do mundo, um complicado aparelho

de 12 metros de altura que não só marcava a hora como também mapeava

os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Marco Polo viu um

campanário operado por um desses relógios quando visitou Dadu, no norte

da China, não muito depois da construção da torre em 1272. Não havia nada

tão preciso na Inglaterra até um século mais tarde, quando foram

construídos os primeiros relógios astronômicos para as catedrais de

Norwich, St. Albans e Salisbury.

A imprensa de tipos móveis é tradicionalmente creditada à Alemanha

quatrocentista. Na verdade, foi inventada na China, no século XI. O papel

também se originou na China, muito antes de ter sido introduzido no

Ocidente. E também o papel-moeda, o papel de parede e o papel higiênico11.

Muitas vezes se afirma que Jethro Tull, o pioneiro agrícola inglês,

descobriu a semeadeira em 1701. Na verdade, esta foi inventada na China 2

mil anos antes. O arado de Rotherham, que, com sua aiveca curva de ferro,

foi uma ferramenta essencial na Revolução Agrícola inglesa do século

XVIII, foi mais uma inovação antecipada pelos chineses12. O Tratado sobre

agricultura, escrito por Wang Zhen em 1313, estava cheio de implementos

então desconhecidos no Ocidente13. A Revolução Industrial também foi

prefigurada na China. O primeiro alto-forno para fundição de minério de

ferro não foi construído em Coalbrookdale em 1709 e sim na China antes de

200 a.C. A mais antiga ponte suspensa de ferro em todo o mundo não é

britânica, e sim chinesa; datando de 65 d.C., seus restos ainda podem ser

vistos perto de Ching-tung, na província de Yunnan14. Mesmo em 1788, os

níveis de produção de ferro na Grã-Bretanha ainda eram mais baixos que os

da China em 1078. Foram os chineses que revolucionaram pela primeira

vez a produção têxtil, com inovações como a roda de fiar e a bobina para

enrolar fios de seda, exportadas para a Itália no século XIII15. E está longe de ser verdade que os chineses usaram sua invenção mais famosa, a

pólvora, unicamente para os fogos de artifício. O livro Huolongjing, de Jiao

Yu e Liu Ji, publicado no fim do século XIV, descreve minas terrestres e

marítimas, foguetes e balas de canhão, todos ocos e cheios de explosivos.

Outras inovações chinesas incluem o inseticida químico, o carretel de

pesca, fósforos, a bússola magnética, cartas de baralho, a escova de dentes e

o carrinho de mão. Todos sabem que o golfe foi inventado na Escócia. Mas

os registros do mercado de Dong Xuan, da dinastia Song (960-1279),

descrevem um jogo chamado chuiwan. Era jogado com dez tacos, incluindo

um cuanbang, um pubang e um shaobang, que são mais ou menos análogos

a nosso madeira 1, madeira 2 e madeira 3. Os tacos eram incrustados com

jade e ouro, indicando que o golfe, assim como hoje, era um jogo para as

elites.

E isso não é tudo. Quando um novo século se iniciou, em 1400, a China

estava determinada a fazer outro avanço tecnológico, um que tinha o

potencial de tornar o imperador Yongle o mestre não só do Reino do Meio,

mas do mundo inteiro – literalmente, “de tudo sob o céu”.

Em Nanquim, hoje, podemos ver uma réplica em tamanho real do navio do

tesouro do almirante Zheng He, o navegador mais famoso da história

chinesa. Tem 120 metros de altura – quase cinco vezes o tamanho do Santa

María, a bordo do qual Cristóvão Colombo atravessou o Atlântico em 1492.

E esta era só parte de uma frota de mais de 300 enormes veleiros

transoceânicos. Com vários mastros e câmaras de flutuação separadas para

evitar que eles afundassem no caso de um buraco abaixo da linha d’água,

esses navios eram muito maiores que qualquer coisa em construção na

Europa quatrocentista. Com uma tripulação total de 28 mil homens, a

marinha de Zheng He era mais numerosa que tudo que existiu no Ocidente

até a Primeira Guerra Mundial.

Esse capitão e comandante era um homem extraordinário. Aos 11 anos de

idade, havia sido capturado no campo de batalha pelo fundador da dinastia

Ming, Zhu Yuanzhang. Como era costume, o cativo foi castrado. Então, foi

designado como servo de Zhu Di – o quarto filho do imperador –, o homem

que se apoderaria do trono imperial sob o nome de Yongle. Em troca do serviço leal de Zheng He, Yongle lhe confiou uma tarefa que incluía

explorar os oceanos do mundo.

Em uma série de seis viagens épicas entre 1405 e 1424, a frota de Zheng

He esteve em toda parte.16 O almirante velejou à Tailândia, a Sumatra, a

Java e ao porto de Calicute (atual porto de Kozhikode, em Kerala), que um

dia fora importante; a Temasek (mais tarde Singapura), Malaca e Ceilão; a

Cuttack, em Orissa; a Ormuz, Áden e, subindo o mar Vermelho, até Jedá17.

Em teoria, essas viagens eram uma busca pelo predecessor de Yongle, que

havia sumido misteriosamente, e pelo selo imperial que desaparecera com

ele. (Yongle estava tentando se redimir por haver matado para chegar ao

trono, ou encobrir o fato de que havia feito isso?) Mas encontrar o

imperador desaparecido não era o verdadeiro motivo.

Antes de sua última viagem, Zheng He recebeu “ordens imperiais de ir a

Ormuz e a outros países, com 61 navios de diferentes tamanhos [...] e

[transportar] sedas coloridas [...] [e] comprar tecidos de cânhamo”. Seus

oficiais também receberam instruções de “comprar porcelana, caldeirões de

ferro, presentes e munição, papel, petróleo, cera etc.”18. Isso pode parecer

indicar uma lógica comercial, e certamente os chineses tinham produtos

cobiçados pelos mercadores do oceano Índico (porcelana, seda e almíscar),

bem como matérias-primas que queriam trazer para a China (pimentas,

pérolas, pedras preciosas, marfim e chifres de rinocerontes, estes últimos

supostamente medicinais)19. Na verdade, entretanto, o imperador não estava

primordialmente preocupado com o comércio, conforme Adam Smith mais

tarde compreendeu. Nas palavras de uma inscrição da época, a frota deveria

“ir até os países [bárbaros] e lhes oferecer presentes a fim de convertê-los

por meio da demonstração de nosso poder […]”. O que Yongle queria em

troca desses “presentes” era que os governantes estrangeiros lhe rendessem

homenagem tal como faziam os vizinhos asiáticos da China, reconhecendo,

assim, sua supremacia. E quem poderia se recusar a reverenciar um

imperador de posse de uma frota tão poderosa?20

Em três das viagens, navios da frota de Zheng He chegaram à costa leste

da África. Eles não permaneceram por muito tempo. Enviados de cerca de

30 líderes africanos foram convidados a subir a bordo para reconhecer a

“supremacia cósmica” do imperador Ming. O sultão de Malindi (no atual

Quênia) enviou uma delegação com presentes exóticos, entre os quais uma

girafa. Yongle recebeu pessoalmente o animal na entrada do palácio

imperial, em Nanquim. A girafa foi recebida como o qilin (unicórnio)

mítico: “um símbolo de virtude perfeita, governo perfeito e harmonia

perfeita no império e no universo”21.

Mas então, em 1424, essa harmonia foi quebrada. Yongle morreu, e as

ambições ultramarinas da China foram enterradas com ele. As viagens de

Zheng He foram suspensas imediatamente e revividas por um breve período

com uma expedição final pelo oceano Índico em 1432-33. O decreto haijin baniu de uma vez por todas as viagens oceânicas. A partir de 1500,