Civilização: Ocidente X Oriente
O eunuco e o unicórnio
sua imaginação para retratar uma cena de destruição e morte de revirar o
estômago. Em uma terra governada por um exército de esqueletos, um rei
jaz moribundo, seu tesouro perdido, ao passo que um cachorro mordisca um
cadáver. No fundo, vemos dois homens pendurados em forcas, quatro
homens atados a rodas com os ossos esmagados, e um quinto prestes a ser
decapitado. Exércitos em conflito, casas queimadas, barcos afundados. Em
primeiro plano, homens e mulheres, jovens e velhos, soldados e civis, todos
são conduzidos tumultuosamente por um túnel estreito. Ninguém é
poupado. Até mesmo o trovador cantando para sua amante está certamente
condenado. O próprio artista morreu com pouco mais de 40 anos, um
homem mais jovem que este autor.
Um século mais tarde, o artista italiano Salvator Rosa pintou talvez o
mais tocante de todos os memento mori, intitulado simplesmente “L’umana
fragilità” (“A fragilidade humana”). Foi inspirado na praga que varreu sua
Nápoles natal em 1655, cobrando a vida de seu filho recém-nascido,
Rosalvo, e levando também o irmão, a irmã, o cunhado e cinco de seus
sobrinhos. Arreganhando horrivelmente os dentes, o anjo da morte paira na
escuridão atrás da esposa de Rosa para reivindicar seu filho, enquanto ele
faz sua primeira tentativa de escrever. O ânimo do artista de coração partido
é imortalizado em apenas oito palavras latinas gravadas na tela:
Conceptio culpa
Nasci pena
Labor vita
Necesse mori
“A concepção é um pecado, o nascimento é dor, a vida é trabalho, a morte
é inevitável.” Poderia haver descrição mais sucinta para a vida na Europa
daquela época?
O eunuco e o unicórnio Como podemos entender essa preeminência do Oriente? Para começar, a
agricultura asiática era consideravelmente mais produtiva que a europeia.
Na Ásia Oriental, um acre de terra era suficiente para sustentar uma família,
tamanha era a eficiência do cultivo do arroz, ao passo que, na Inglaterra, o
número médio estava mais próximo de 20 acres. Isso ajuda a explicar por
que a Ásia Oriental já era mais populosa que a Europa Ocidental. O sistema
oriental de cultivo de arroz, mais sofisticado, tinha capacidade para
alimentar muito mais bocas. Sem dúvida, o poeta Zhou Shixiu, da dinastia
Ming, via a vida no campo através de lentes cor-de-rosa; de qualquer modo,
a imagem aqui é de uma população rural satisfeita:
No caminho escuro, avistam-se portas humildes; um beco sinuoso conduz ao interior. Aqui, dez
famílias [...] vivem lado a lado há gerações. De onde quer que se observe, a fumaça da lareira
delas se mistura; da mesma maneira, em sua rotina, as pessoas cooperam umas com as outras. O
filho de um homem dirige a casa a oeste, ao passo que a filha de outro é a esposa do vizinho
ocidental. Um vento frio de outono sopra no santuário do deus do solo; leitões e saquê são
oferecidos ao Ancestral dos Campos, a quem o velho xamã queima papel-moeda, enquanto
garotos batucam em um tambor de bronze. A névoa envolve em silêncio o jardim de cana-de-
açúcar, e a garoa fina cai sobre os campos de inhame-branco, enquanto as pessoas voltam para
casa após as cerimônias, esparramam esteiras e conversam, meio ébrias […]10.
Mas tais cenas de êxtase bucólico só contam uma parte da história. As
gerações posteriores de ocidentais costumavam pensar na China imperial
como uma sociedade estática, alérgica à inovação. Em Confucionismo e
taoismo (1915), o sociólogo alemão Max Weber definiu o racionalismo
confuciano como um “ajuste racional ao mundo”, em oposição ao conceito
ocidental de “domínio racional do mundo”. Essa era uma visão amplamente
endossada pelo filósofo chinês Feng Youlan em seu História da filosofia
chinesa (1934), bem como por Joseph Needham, pesquisador de
Cambridge, em sua história em vários volumes da Ciência e civilização na
China. Tais explicações culturais – sempre atraentes para aqueles, como
Feng e Needham, que simpatizaram com o regime maoista após 1949 – são
difíceis de conciliar com os indícios de que, muito antes da era Ming, a civilização chinesa tentara sistematicamente dominar o mundo por meio da
inovação tecnológica.
Não sabemos ao certo quem criou o primeiro relógio d’água. Podem ter
sido os egípcios, os babilônios ou os chineses. Mas em 1086 Su Song
incluiu um escape – dispositivo que controla a rotação das engrenagens –
para criar o primeiro relógio mecânico do mundo, um complicado aparelho
de 12 metros de altura que não só marcava a hora como também mapeava
os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Marco Polo viu um
campanário operado por um desses relógios quando visitou Dadu, no norte
da China, não muito depois da construção da torre em 1272. Não havia nada
tão preciso na Inglaterra até um século mais tarde, quando foram
construídos os primeiros relógios astronômicos para as catedrais de
Norwich, St. Albans e Salisbury.
A imprensa de tipos móveis é tradicionalmente creditada à Alemanha
quatrocentista. Na verdade, foi inventada na China, no século XI. O papel
também se originou na China, muito antes de ter sido introduzido no
Ocidente. E também o papel-moeda, o papel de parede e o papel higiênico11.
Muitas vezes se afirma que Jethro Tull, o pioneiro agrícola inglês,
descobriu a semeadeira em 1701. Na verdade, esta foi inventada na China 2
mil anos antes. O arado de Rotherham, que, com sua aiveca curva de ferro,
foi uma ferramenta essencial na Revolução Agrícola inglesa do século
XVIII, foi mais uma inovação antecipada pelos chineses12. O Tratado sobre
agricultura, escrito por Wang Zhen em 1313, estava cheio de implementos
então desconhecidos no Ocidente13. A Revolução Industrial também foi
prefigurada na China. O primeiro alto-forno para fundição de minério de
ferro não foi construído em Coalbrookdale em 1709 e sim na China antes de
200 a.C. A mais antiga ponte suspensa de ferro em todo o mundo não é
britânica, e sim chinesa; datando de 65 d.C., seus restos ainda podem ser
vistos perto de Ching-tung, na província de Yunnan14. Mesmo em 1788, os
níveis de produção de ferro na Grã-Bretanha ainda eram mais baixos que os
da China em 1078. Foram os chineses que revolucionaram pela primeira
vez a produção têxtil, com inovações como a roda de fiar e a bobina para
enrolar fios de seda, exportadas para a Itália no século XIII15. E está longe de ser verdade que os chineses usaram sua invenção mais famosa, a
pólvora, unicamente para os fogos de artifício. O livro Huolongjing, de Jiao
Yu e Liu Ji, publicado no fim do século XIV, descreve minas terrestres e
marítimas, foguetes e balas de canhão, todos ocos e cheios de explosivos.
Outras inovações chinesas incluem o inseticida químico, o carretel de
pesca, fósforos, a bússola magnética, cartas de baralho, a escova de dentes e
o carrinho de mão. Todos sabem que o golfe foi inventado na Escócia. Mas
os registros do mercado de Dong Xuan, da dinastia Song (960-1279),
descrevem um jogo chamado chuiwan. Era jogado com dez tacos, incluindo
um cuanbang, um pubang e um shaobang, que são mais ou menos análogos
a nosso madeira 1, madeira 2 e madeira 3. Os tacos eram incrustados com
jade e ouro, indicando que o golfe, assim como hoje, era um jogo para as
elites.
E isso não é tudo. Quando um novo século se iniciou, em 1400, a China
estava determinada a fazer outro avanço tecnológico, um que tinha o
potencial de tornar o imperador Yongle o mestre não só do Reino do Meio,
mas do mundo inteiro – literalmente, “de tudo sob o céu”.
Em Nanquim, hoje, podemos ver uma réplica em tamanho real do navio do
tesouro do almirante Zheng He, o navegador mais famoso da história
chinesa. Tem 120 metros de altura – quase cinco vezes o tamanho do Santa
María, a bordo do qual Cristóvão Colombo atravessou o Atlântico em 1492.
E esta era só parte de uma frota de mais de 300 enormes veleiros
transoceânicos. Com vários mastros e câmaras de flutuação separadas para
evitar que eles afundassem no caso de um buraco abaixo da linha d’água,
esses navios eram muito maiores que qualquer coisa em construção na
Europa quatrocentista. Com uma tripulação total de 28 mil homens, a
marinha de Zheng He era mais numerosa que tudo que existiu no Ocidente
até a Primeira Guerra Mundial.
Esse capitão e comandante era um homem extraordinário. Aos 11 anos de
idade, havia sido capturado no campo de batalha pelo fundador da dinastia
Ming, Zhu Yuanzhang. Como era costume, o cativo foi castrado. Então, foi
designado como servo de Zhu Di – o quarto filho do imperador –, o homem
que se apoderaria do trono imperial sob o nome de Yongle. Em troca do serviço leal de Zheng He, Yongle lhe confiou uma tarefa que incluía
explorar os oceanos do mundo.
Em uma série de seis viagens épicas entre 1405 e 1424, a frota de Zheng
He esteve em toda parte.16 O almirante velejou à Tailândia, a Sumatra, a
Java e ao porto de Calicute (atual porto de Kozhikode, em Kerala), que um
dia fora importante; a Temasek (mais tarde Singapura), Malaca e Ceilão; a
Cuttack, em Orissa; a Ormuz, Áden e, subindo o mar Vermelho, até Jedá17.
Em teoria, essas viagens eram uma busca pelo predecessor de Yongle, que
havia sumido misteriosamente, e pelo selo imperial que desaparecera com
ele. (Yongle estava tentando se redimir por haver matado para chegar ao
trono, ou encobrir o fato de que havia feito isso?) Mas encontrar o
imperador desaparecido não era o verdadeiro motivo.
Antes de sua última viagem, Zheng He recebeu “ordens imperiais de ir a
Ormuz e a outros países, com 61 navios de diferentes tamanhos [...] e
[transportar] sedas coloridas [...] [e] comprar tecidos de cânhamo”. Seus
oficiais também receberam instruções de “comprar porcelana, caldeirões de
ferro, presentes e munição, papel, petróleo, cera etc.”18. Isso pode parecer
indicar uma lógica comercial, e certamente os chineses tinham produtos
cobiçados pelos mercadores do oceano Índico (porcelana, seda e almíscar),
bem como matérias-primas que queriam trazer para a China (pimentas,
pérolas, pedras preciosas, marfim e chifres de rinocerontes, estes últimos
supostamente medicinais)19. Na verdade, entretanto, o imperador não estava
primordialmente preocupado com o comércio, conforme Adam Smith mais
tarde compreendeu. Nas palavras de uma inscrição da época, a frota deveria
“ir até os países [bárbaros] e lhes oferecer presentes a fim de convertê-los
por meio da demonstração de nosso poder […]”. O que Yongle queria em
troca desses “presentes” era que os governantes estrangeiros lhe rendessem
homenagem tal como faziam os vizinhos asiáticos da China, reconhecendo,
assim, sua supremacia. E quem poderia se recusar a reverenciar um
imperador de posse de uma frota tão poderosa?20
Em três das viagens, navios da frota de Zheng He chegaram à costa leste
da África. Eles não permaneceram por muito tempo. Enviados de cerca de
30 líderes africanos foram convidados a subir a bordo para reconhecer a
“supremacia cósmica” do imperador Ming. O sultão de Malindi (no atual
Quênia) enviou uma delegação com presentes exóticos, entre os quais uma
girafa. Yongle recebeu pessoalmente o animal na entrada do palácio
imperial, em Nanquim. A girafa foi recebida como o qilin (unicórnio)
mítico: “um símbolo de virtude perfeita, governo perfeito e harmonia
perfeita no império e no universo”21.
Mas então, em 1424, essa harmonia foi quebrada. Yongle morreu, e as
ambições ultramarinas da China foram enterradas com ele. As viagens de
Zheng He foram suspensas imediatamente e revividas por um breve período
com uma expedição final pelo oceano Índico em 1432-33. O decreto haijin baniu de uma vez por todas as viagens oceânicas. A partir de 1500,