Civilização: Ocidente X Oriente
Get your kicks
Vimos como o poder dos imames e mulás eliminou qualquer chance de uma
revolução científica no mundo islâmico. E vimos como a Igreja Católica
Romana atuou como um dos freios ao desenvolvimento econômico na
América do Sul. Mas talvez a maior contribuição da religião à história da
civilização ocidental tenha sido esta. O protestantismo fez o Ocidente não
só trabalhar, como também ler e economizar. A Revolução Industrial foi, de
fato, produto da inovação tecnológica e do consumo. Mas também
demandou um aumento na intensidade e na duração do trabalho, combinado
com a acumulação de capital por meio de economia e investimento.
Dependeu, sobretudo, da acumulação de capital humano. A alfabetização
que o protestantismo promoveu foi vital para tudo isso. Pensando melhor,
mais que de uma ética do trabalho, seria mais adequado falar de uma ética
da educação protestante.
A pergunta é: o Ocidente hoje – ou pelo menos parte significativa dele –
perdeu sua religião e a ética que a acompanhava?
Get your kicks
Os europeus, hoje, são os ociosos do mundo. Em média, eles trabalham
menos que os norte-americanos, e muito menos que os asiáticos. Graças à
educação prolongada e à aposentadoria precoce, uma parcela cada vez
menor dos europeus está disponível para o trabalho. Por exemplo, 54% dos
belgas e gregos com mais de 15 anos de idade participam da força de
trabalho, em comparação com 65% dos norte-americanos e 74% dos
chineses21. Dessa força de trabalho, a proporção de desempregados na
Europa no período de 1980 a 2010 foi superior à de outras partes do mundo
desenvolvido. Os europeus também são mais propensos a entrar em greve.22
Acima de tudo, graças às jornadas de trabalho mais curtas e aos feriados
mais longos, os europeus trabalham menos horas23. Entre 2000 e 2009, um
empregado norte-americano trabalhou, em média, pouco menos de 1.711
horas por ano (um número empurrado para baixo devido ao impacto da
crise financeira, que colocou muitos trabalhadores em jornada reduzida). Os alemães trabalharam, em média, apenas 1.437 horas – 16% menos. Isso é
resultado de um período prolongado de divergência. Em 1979, as diferenças
entre as horas de trabalho de europeus e norte-americanos eram mínimas;
de fato, naquela época os espanhóis trabalhavam, em média, mais horas por
ano que os norte-americanos. Mas, daí em diante, as horas de trabalho na
Europa foram reduzidas em um quinto. As horas de trabalho na Ásia
também caíram, mas o trabalhador japonês continua trabalhando, em média,
tanto quanto o norte-americano, ao passo que o sul-coreano trabalha 39%
mais. Os trabalhadores de Hong Kong e de Singapura também trabalham
aproximadamente um terço de horas a mais do que os norte-americanos24.
O impressionante é que a divergência transatlântica nos padrões de
trabalho coincide quase exatamente com uma divergência comparável na
religiosidade. Os europeus não só trabalham menos; eles também rezam
menos – e creem menos. Houve uma época em que a Europa podia se
referir a si mesma como “mundo cristão”. Os europeus construíram as mais belas edificações do continente para acomodar seus atos de devoção.
Discutiram acirradamente sobre a diferença entre transubstanciação e
consubstanciação. Como peregrinos, missionários e conquistadores,
velejaram aos quatro cantos da Terra, com a intenção de converter o pagão à
fé verdadeira. Agora, são os europeus que são os pagãos. De acordo com a
mais recente World Values Survey (2005-8), 4% dos noruegueses e suecos e
8% dos franceses e alemães vão à missa pelo menos uma vez por semana,
em comparação com 36% dos norte-americanos, 44% dos indianos, 48%
dos brasileiros e 78% dos africanos subsaarianos. Os números são
significativamente maiores em uma série de países de predominância
católica, como a Itália (32%) e a Espanha (16%). Os únicos países em que a
observância religiosa é mais baixa que na Europa protestante são a Rússia e
o Japão. Deus é “muito importante” para apenas um em cada dez alemães e
holandeses; a proporção francesa é só um pouco superior. Em comparação,
58% dos norte-americanos afirmam que Deus é muito importante em sua
vida. A importância de Deus é mais elevada até mesmo na América Latina
e na África subsaariana, e é a mais alta de todas nos países muçulmanos do
Oriente Médio. Só na China Deus é importante para menos pessoas (menos
de 5%) do que na Europa. Menos de um terço dos norte-americanos
consideram os políticos que não acreditam em Deus inadequados para um
cargo público, em comparação com 4% dos noruegueses e suecos, 9% dos
finlandeses, 11% dos alemães e espanhóis e 12% dos italianos. Metade dos
indianos e dos brasileiros não tolerariam um político ateu25. Só no Japão a
fé religiosa importa menos para a política do que na Europa Ocidental.
O caso da Grã-Bretanha é especialmente interessante, tendo em vista a
determinação com que os britânicos procuraram difundir sua própria fé
religiosa no século XIX. Hoje, de acordo com o World Values Survey, 17%
dos britânicos afirmam que vão à missa pelo menos uma vez por semana –
uma proporção maior que a da Europa continental, mas ainda menos da
metade da norte-americana. Menos de um quarto dos britânicos dizem que
Deus é muito importante em sua vida, mais uma vez menos da metade do
percentual norte-americano. É verdade que os números do Reino Unido são
um pouco superiores desde 1981 (quando apenas 14% disseram que vão à
missa uma vez por semana, e menos de um quinto disseram que Deus era
importante para eles). Mas as pesquisas não distinguem entre as religiões, e
portanto é quase certo que subestimam a queda do cristianismo na Grã-
Bretanha. Um estudo de 2004 indicou que, em uma semana típica, mais
muçulmanos vão a uma mesquita do que anglicanos vão à igreja. E quase
todos os aumentos recentes na frequência à igreja são explicados pelo
crescimento de congregações não brancas, sobretudo em igrejas evangélicas e pentecostais. Quando o instituto Christian Research realizou um censo de
18.720 igrejas em 8 de maio de 2005, um domingo, o índice real de
frequência foi de apenas 6,3% da população, 15% menos que em 1998.
Numa análise mais cuidadosa, a Grã-Bretanha parece exemplificar o
colapso tanto da observância quanto da fé religiosa na Europa Ocidental.
A descristianização da Grã-Bretanha é um fenômeno relativamente
recente. Em Short History of England [Breve história da Inglaterra] (1917),
de G. K. Chesterton, o cristianismo como sinônimo de civilização é tido
como algo quase óbvio:
Se alguém deseja saber o que queremos dizer quando falamos que o mundo cristão era e continua
sendo uma única cultura, ou uma única civilização, há uma forma crua e simples de explicar isso.
É perguntando qual é o mais comum [...] de todos os usos da palavra “cristão” [...] Há muito
tempo, [essa palavra] tem um significado no discurso informal entre as pessoas comuns, e
significa uma cultura ou uma civilização. Com efeito, Ben Gunn, em A ilha do tesouro, não disse a
Jim Hawkins “Sinto que não tive contato com um certo tipo de civilização”; na verdade, ele disse
“Ando doente por comida cristã”26.
Na verdade, os protestantes britânicos nunca foram realmente praticantes
(em comparação, por exemplo, com os católicos irlandeses), mas até o fim
dos anos 1950 a filiação à Igreja, embora não a frequência, era
relativamente alta e constante. Mesmo em 1960, só menos de um quinto da
população do Reino Unido era filiada à Igreja. Mas, em 2000, essa fração
era menos de um décimo27. Antes de 1960, a maioria dos casamentos na
Inglaterra e no País de Gales eram celebrados em uma igreja; então, esse
número começou a diminuir, chegando a cerca de 40% no fim dos anos
1990. Durante a maior parte da primeira metade do século XX, os
comungados do Dia de Páscoa anglicano representavam em torno de 5% ou
6% da população da Inglaterra; foi só após 1960 que a proporção despencou
para 2%. Os números para a Igreja da Escócia mostram uma tendência
similar: constantes até 1960, e então reduzidos à metade. Chama especial
atenção a queda no número de crismas. Houve 227.135 crismas na
Inglaterra em 1910; em 2007, só 27.900 – 16% menos que apenas cinco
anos antes. Entre 1960 e 1979, o índice de crismas entre jovens de 12 e 21 anos caiu em mais da metade, e continuou a despencar depois disso. Hoje,
menos de um quinto dos batizados são crismados28. Para a Igreja da
Escócia, a redução foi ainda mais drástica29. Hoje em dia, ninguém em
Londres ou Edimburgo usa a palavra “cristão” na acepção de Ben Gunn.
Parece certo que essas tendências vão se manter. Os cristãos praticantes
estão envelhecendo: por exemplo, em 1999, a proporção de metodistas e
membros da United Reformed Church [Igreja Reformada Unida] com 65
anos ou mais era 38%, em comparação com 16% da população como um
todo30. Os britânicos mais jovens são muito menos propensos a acreditar em
Deus ou no céu31. Segundo alguns levantamentos, a Grã-Bretanha já é uma
das sociedades mais agnósticas do mundo, em que 56% das pessoas nunca
vão à igreja – o índice mais alto da Europa Ocidental32. A pesquisa “Soul of
Britain” de 2000, feita pela série de televisão de Michael Buerk, revelou um
grau impressionante de atrofia religiosa. Só 9% dos entrevistados
consideraram que a fé cristã é o melhor caminho para Deus; 32%
consideraram todas as religiões igualmente válidas. Embora apenas 8%
tenham se identificado como ateus, 12% confessaram que não sabiam em
que acreditar. Mais de dois terços dos entrevistados disseram que não
reconheciam nenhum princípio moral claramente definido, e 85% desses
tinham menos de 24 anos de idade. (Estranhamente, 45% dos entrevistados
disseram que a diminuição da religiosidade tornou o país um lugar pior.)
Alguns dos mais brilhantes escritores britânicos do século XX previram a
crise de fé da Grã-Bretanha. O professor da Universidade de Oxford C. S.
Lewis (mais conhecido hoje em dia por suas histórias infantis alegóricas)
escreveu Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942) na esperança de que
zombar do Diabo pudesse mantê-lo a distância. Evelyn Waugh sabia,
quando escreveu sua trilogia de guerra, Sword of Honour [A espada de
honra] (1952-61), que estava escrevendo o epitáfio de uma antiga forma de
catolicismo romano inglês. Ambos perceberam que a Segunda Guerra
Mundial apresentava uma grave ameaça à fé cristã. Mas foi só nos anos
1960 que suas premonições de secularização se tornaram realidade. Por
que, então, os britânicos perderam sua fé histórica? Como tantas perguntas
difíceis, esta parece, à primeira vista, ter uma resposta fácil. Mas antes que possamos simplesmente colocar a culpa, como fez o poeta Philip Larkin,
nos “anos sessenta” – os Beatles, a pílula anticoncepcional e a minissaia –,
precisamos lembrar que os Estados Unidos também desfrutaram de todos
esses prazeres mundanos, sem deixar de ser um país cristão. Pergunte a
muitos europeus hoje, e eles dirão que a fé religiosa é simplesmente um
anacronismo, um vestígio da superstição medieval. Eles virarão os olhos
diante do fervor religioso do Cinturão Bíblico norte-americano – sem
perceber que é sua própria falta de fé que é a verdadeira anomalia.
Quem matou o cristianismo na Europa foi John Lennon?33 Será que, como o
próprio Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a
destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo
corrompeu o ascetismo original dos devotos (a “hipótese da
secularização”)?34 Essa noção esteve muito próxima da visão do romancista
(e, depois de idoso, religioso) Lev Tolstói, que viu uma contradição
fundamental entre os ensinamentos de Cristo e “aquelas condições habituais
da vida que chamamos civilização, cultura, arte e ciência”35. Se for assim,
que parte do desenvolvimento econômico foi especificamente hostil à fé
religiosa? Foi a transformação do papel da mulher e a degradação do núcleo
familiar – que também parece explicar a diminuição do tamanho da família
e o declínio demográfico do Ocidente? Ou foi o conhecimento científico – o
que Weber chamou “desmistificação do mundo”, em particular a Teoria da
Evolução de Darwin, que derrubou a história bíblica da criação divina? Foi
a melhoria na expectativa de vida, que tornou a vida após a morte um
destino muito menos alarmante? Foi o Estado de bem-estar social, um
pastor secular cuidando de nós do berço ao túmulo? Ou será que o
cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura
moderna? O assassino da ética do trabalho da Europa protestante teria sido
ninguém menos que Sigmund Freud?
Em O futuro de uma ilusão (1928), Freud, o pai fundador da psicanálise,
começou a refutar Weber. Para Freud, um judeu não praticante nascido na
Morávia, a religião não poderia ser a força por trás das conquistas da
civilização ocidental porque era essencialmente uma “ilusão”, uma
“neurose universal”, concebida para evitar que as pessoas dessem vazão a seus instintos básicos – em particular, seus desejos sexuais e impulsos
violentos e destrutivos. Sem religião, haveria o caos:
Se imaginássemos essas proibições eliminadas, poderíamos escolher qualquer mulher que fosse do
nosso agrado e tomá-la como objeto sexual; poderíamos, sem hesitar, matar nosso rival ou quem
quer que, de uma forma ou de outra, interferisse em nosso caminho; e poderíamos tomar o que
quiséssemos de outro homem sem pedir sua permissão.36
A religião não só proibia a promiscuidade sexual e a violência
desenfreada. Também conciliava os homens com a “crueldade do destino,
em particular tal como revelado na morte” e os “sofrimentos e privações”
da vida cotidiana37. Quando as religiões monoteístas uniram os deuses em
uma só pessoa, “a relação do homem com ele [Deus] conseguiu recuperar a
intimidade e a intensidade da relação de um filho com seu pai. E alguém
que havia feito tanto pelo pai certamente seria recompensado – pelo menos
seria o único filho amado, o povo escolhido”.38
Freud tinha pouca esperança de que a humanidade pudesse se emancipar
totalmente da religião, menos ainda na Europa. Conforme afirmou:
Se quisermos expulsar a religião de nossa civilização europeia, só poderemos fazê-lo por meio de
outro sistema de doutrinas; e tal sistema, desde o começo, se apoderaria de todas as características
psicológicas da religião – a mesma santidade, rigidez e intolerância, a mesma proibição de
pensamento – para sua própria defesa. 39
Isso certamente parecia plausível nos anos 1930, quando Stalin e Hitler
propagavam seus próprios cultos monstruosos. Mas em ambos os casos as
religiões políticas totalitárias foram incapazes de controlar os instintos
primitivos descritos na teoria da religião de Freud. Em 1945, a Europa
estava exausta após uma orgia de violência – incluindo violência sexual
chocante na forma de estupro em massa – diferente de qualquer coisa vista
desde a época de Timur. A reação inicial em muitos países, em particular
aqueles (como a União Soviética) mais traumatizados pelo assassinato em
massa, foi restaurar a religião real, e usar seus confortos tradicionais para
lamentar os mortos.
Nos anos 1960, entretanto, uma geração jovem demais para se lembrar
dos anos de genocídio e guerra total procurou uma nova saída pós-cristã
para seus desejos reprimidos. As próprias teorias de Freud, com sua visão
negativa da repressão e sua simpatia explícita pelo impulso erótico, sem
dúvida foram parcialmente responsáveis por incitar os europeus a saírem
das igrejas e entrarem nos sex shops. Em O mal-estar na civilização (1929-
30, mas publicado pela primeira vez nos Estados Unidos só em 1961),
Freud argumentava que havia uma “antítese” fundamental entre a
civilização tal como existia e os desejos mais primitivos do homem:
Essa tendência à agressão, que podemos detectar em nós mesmos e presumir justamente que está
presente em outros, é o fator que perturba nossas relações com nosso vizinho e que força a
civilização a um gasto tão grande [de energia]. Em consequência dessa hostilidade primitiva entre
os seres humanos, a sociedade civilizada está sob constante ameaça de desintegração. O interesse
do trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os
interesses razoáveis. A civilização precisa usar seus maiores esforços para impor limites aos
instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por meio da formação de
reações psíquicas. Daí [...] a restrição sobre a vida sexual, e daí também [...] o mandamento de
amar nosso vizinho como a nós mesmos – um mandamento que é realmente justificado pelo fato
de que nada é tão contrário à natureza original do homem [...] A civilização é um processo a
serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos, e então famílias, raças, pessoas e
nações, em uma grande unidade, a unidade da humanidade. Por que isso tem de acontecer, nós não
sabemos; o trabalho de Eros é precisamente este [...] Os homens hão de ser libidinosamente atados
uns aos outros [...] Mas o instinto agressivo natural do homem, a hostilidade de todos contra todos,
se opõe a esse programa de civilização. Esse instinto agressivo é derivado, e é o principal
representante, do instinto de morte que encontramos ao lado de Eros e que compartilha com ele o
domínio do mundo. E agora, creio eu, o significado de evolução da civilização já não é obscuro
para nós. Deve apresentar a luta entre Eros e Morte, entre o instinto de vida e o instinto de
destruição, tal como se revela na espécie humana. É dessa luta que, em essência, toda vida
consiste. 40
Lendo isso, podemos entender o que o satirista vienense Karl Kraus quis
dizer quando afirmou que a psicanálise era “a doença da qual fingia ser a
cura”41. Mas essa foi a mensagem interpretada pelos hippies como um novo
mandamento: colocar tudo para fora. E eles colocaram. “Let It All Hang
Out” [Coloque tudo para fora] (1967), de The Hombres, foi um dos hinos menores dos anos 1960, mas suas palavras iniciais – “A preachment, dear
friends, you are about to receive/ On John Barleycorn, nicotine, and the
temptations of Eve”42 – resumiam muito bem o que então estava
disponível.43 Para os críticos ao Ocidente mais influentes de nossos dias
(sobretudo os islâmicos radicais), os anos 1960 abriram caminho para uma
anticivilização pós-freudiana, caracterizada por uma celebração hedonista
dos prazeres do eu, uma rejeição da teologia em favor da pornografia e uma
renúncia ao Príncipe da Paz em favor de filmes e videogames
grotescamente violentos, mais bem definidos como warnography44
(banalização da guerra).
O problema com todas as teorias sobre a morte do protestantismo na Europa
é que, por mais que possam explicar a descristianização da Europa, não
explicam nada sobre a continuidade da fé cristã nos Estados Unidos. Os
norte-americanos vivenciaram mais ou menos as mesmas mudanças sociais
e culturais que os europeus. Eles se tornaram mais ricos. Seu conhecimento
da ciência aumentou. E eles são até mesmo mais expostos à psicanálise e à
pornografia que os europeus. Mas o protestantismo nos Estados Unidos não
sofreu nada parecido com o declínio que vivenciou na Europa. Ao
contrário, Deus é, em alguns aspectos, tão importante nos Estados Unidos
hoje quanto era há 40 anos45. Os melhores indícios são as dezenas de
milhões de devotos que se dirigem às igrejas norte-americanas todos os
domingos.
De maneira paradoxal, o advento da nova trindade dos anos 1960 – sexo,
drogas e rock and roll – coincidiu, nos Estados Unidos, com um boom no
protestantismo evangélico. O reverendo Billy Graham competiu com os
Beatles para ver quem conseguia colocar mais jovens em um estádio. Essa
não foi tanto uma reação; foi mais uma espécie de imitação. Ao se
pronunciar no Miami Rock Festival em 1969, Graham instou o público a
“sintonizar com Deus [...] Abrir-se ao Seu poder”46. Em 1972, o grupo
cristão universitário Campus Crusade organizou uma conferência
evangélica em Dallas chamada Explo’72, que terminou com um show que
pretendia ser o Woodstock (o festival de rock de 1969 que veio a condensar
a contracultura hippie) cristão.47 Quando Cynthia “Plaster Caster”, uma adolescente católica de Chicago, fez moldes de gesso dos pênis eretos de
Jimi Hendrix, Robert Plant e Keith Richards (embora, definitivamente, não
de Cliff Richard), ela estava apenas materializando a visão de Freud do
triunfo de Eros sobre Tanatos. Afinal, Deus era amor, como diziam os
adesivos nos para-choques. A América, a um só tempo, renascia em fé e
ressurgia pornô.
Como podemos explicar o fato de que a civilização ocidental parece ter se
dividido em duas: a leste, uma Europa sem deus; a oeste, uma América
temente a Deus? Como explicar a persistência do cristianismo nos Estados
Unidos em uma época em que este diminui tão drasticamente na Europa? A
melhor resposta pode ser encontrada em Springfield, Missouri, a cidade que
eles chamaram “Queen of the Ozarks” e local de nascimento da autopista
entre Chicago e a Califórnia, imortalizada na canção de 1946 de Bobby
Troup, “(Get Your Kicks on) Route 66” [Divirta-se na Estrada 66]. Se Max
Weber ficara impressionado com a diversidade de seitas protestantes ao
passar pelos Estados Unidos há um século, hoje ele ficaria perplexo.
Springfield tem aproximadamente uma igreja para cada mil habitantes. Há
122 igrejas batistas, 36 capelas metodistas, 25 Igrejas de Cristo e 15 Igrejas
de Deus – ao todo, cerca de 400 lugares de culto cristãos. Agora, você não
pega a Estrada 66 para se divertir, e sim para rezar.
O significativo é que todas essas igrejas estão envolvidas em uma
competição acirrada por almas. Conforme Weber percebeu, os batistas, os
metodistas e outros cristãos norte-americanos competiam em sua
comunidade religiosa local para mostrar uns aos outros quem era
verdadeiramente devoto. Mas em Springfield, hoje, a competição é entre
igrejas, e é tão ferrenha quanto a competição entre concessionárias de
automóveis ou redes de fast-food. As igrejas aqui precisam ter uma
mentalidade comercial para atrair e manter fiéis e, com base nisso, a clara
vencedora é a James River Assembly. Aos olhos dos europeus, pode parecer
mais um shopping center ou um centro empresarial, mas, na realidade, é a
maior igreja de Springfield – de fato, uma das maiores dos Estados Unidos.
Seu pastor, John Lindell, é um pregador talentoso e carismático que
combina os ensinamentos bíblicos tradicionais com o tipo de presença de palco em geral associado com o rock and roll. Com efeito, às vezes ele
parece o herdeiro natural da Revolução de Jesus identificada pela revista
Time em 1971, um movimento jovem cristão inspirado no rock, no espírito
da ópera rock britânica Jesus Christ Superstar (1970). Mas também há algo
de insaciável em Lindell; ao fazer seu discurso glorificando a Deus (“Deus,
o Senhor é tão maravilhoso”) ele parece menos com Ian Gillan (o cantor
descabelado do Deep Purple que cantou a parte de Jesus no álbum original
de Superstar) e mais com Steve Jobs, divulgando o mais novo dispositivo
móvel da Apple: iGod, talvez. Para Lindell, a ética protestante está viva e
passa bem, e mora em Springfield. Ele não tem dúvida de que a fé torna os
membros de sua congregação mais dedicados ao trabalho do que seriam
sem ela. Ele próprio é um trabalhador diligente: três missas cheias de
atividade a cada domingo não é pouca coisa. E o Espírito Santo parece se
misturar ao espírito do capitalismo quando passam as caixas de coleta –
embora, por sorte, não à maneira descarada preferida por Mac Hammond do
Centro Cristão Palavra Viva em Minneapolis, que promete que “os
princípios da Bíblia vão aprimorar seu crescimento espiritual e ajudá-lo a
ter sucesso no trabalho, nos relacionamentos e nas finanças”.48
Uma visita a James River torna clara a principal diferença entre o
protestantismo europeu e o norte-americano. Enquanto a Reforma foi
nacionalizada na Europa, com a criação de igrejas estatais como a Igreja da
Inglaterra ou a Kirk da Escócia, nos Estados Unidos sempre houve uma
separação estrita entre a religião e o Estado, permitindo uma competição
aberta entre várias seitas protestantes. E essa talvez seja a melhor
explicação para a estranha morte da religião na Europa e seu vigor
permanente nos Estados Unidos. Na religião, assim como nos negócios, os
monopólios estatais são ineficientes – mesmo que, em alguns casos, a
existência de uma religião estatal aumente a participação religiosa (onde há
um subsídio generoso do governo e mínimo controle das nomeações
eclesiásticas)49. Em geral, a competição entre seitas em um mercado
religioso livre encoraja as inovações concebidas para tornar mais
gratificante a experiência do culto e da filiação à igreja. É isso o que
mantém viva a religião nos Estados Unidos50. (Essa ideia não é totalmente nova. Adam Smith apresentou um argumento similar em A riqueza das
nações, contrastando países com igrejas oficiais com aqueles que permitiam
a competição.)51
Mas há alguma coisa nos evangélicos norte-americanos de hoje que teria
causado desconfiança a Weber, se não a Smith. Pois, em certo sentido,
muitas das seitas mais prósperas de hoje florescem justamente porque
desenvolveram uma espécie de cristianismo de consumo que beira a “fé de
supermercado”52. Não só é fácil de chegar e divertido – nada diferente de
uma viagem ao cinema multiplex, com refrigerantes ou Starbucks servidos
no local –, como também faz pouquíssimas exigências aos crentes. Ao
contrário, são eles que fazem reivindicações a Deus53, de modo que a oração
em James River muitas vezes consiste de uma longa série de demandas para
que a divindade resolva problemas pessoais. Deus, o Pai, o Filho e o
Espírito Santo foram substituídos por Deus, o Analista, o Conselheiro
Sentimental e o Personal Trainer. Com mais de dois quintos dos brancos
norte-americanos mudando de religião em algum momento da vida, a fé se
tornou paradoxalmente volúvel54.
O único problema na hora de transformar a religião em mais uma busca
por lazer é que isso significa que os norte-americanos se afastaram
muitíssimo da versão weberiana de ética protestante, em que a gratificação
adiada era o corolário da acumulação de capital. Em suas palavras:
O ascetismo protestante atua com toda força contra a fruição desinibida das possessões;
desencoraja o consumo [...] E quando essa restrição ao consumo é combinada com a liberdade
para aspirar o lucro, o resultado produzido inevitavelmente será a criação de capital por meio da
compulsão ascética por economizar. 55
Nós acabamos de passar por uma experiência oposta: o capitalismo sem
poupança. Nos Estados Unidos, a taxa de economias domésticas caiu para
menos de zero no pico da bolha imobiliária, já que as famílias não só
consumiam toda a renda disponível como também exauriram o patrimônio
líquido em sua casa. A redução da poupança se revelou uma receita para a
crise financeira. Quando os preços das casas começaram a cair em 2006, teve início uma reação em cadeia: aqueles que haviam feito empréstimos
em um valor superior ao de sua casa pararam de pagar os juros do
financiamento imobiliário; aqueles que haviam investido em seguros
garantidos por hipotecas sofreram grandes perdas; os bancos que haviam
tomado emprestado grandes somas para investir em tais seguros sofreram
primeiro iliquidez e depois insolvência; para evitar falências de bancos em
massa, os governos intervieram em seu socorro; e uma crise de dívida
privada se transformou em uma crise de dívida pública. Hoje, o ônus total
da dívida privada e da dívida pública nos Estados Unidos é mais de três
vezes e meia seu Produto Interno Bruto56.
Mas esse não foi um fenômeno exclusivamente norte-americano.
Variações sobre o mesmo tema foram vistas em outros países anglófonos:
na Irlanda, no Reino Unido e, em um grau menor, na Austrália e no Canadá
– essa foi a geometria fractal da era da alavancagem financeira, com o
mesmo problema se repetindo em diferentes escalas. Houve bolhas
imobiliárias maiores na maioria dos países europeus – no sentido de que o
preço das casas subiu ainda mais com relação à renda do que nos Estados
Unidos – e crises muito mais graves de dívida pública em Portugal, na
Irlanda e na Grécia, que cometeram o erro de ter déficits muito grandes
estando em união monetária com a Alemanha. Mas a crise financeira de
2007-9, embora global em seus efeitos, não foi global em sua origem. Foi
uma crise provocada no mundo ocidental, em consequência do excesso de
consumo e do excesso de alavancagem financeira. Em outras partes –
especialmente na Ásia –, a situação foi bem diferente.
Todos sabem que no Oriente se poupa muito mais que no Ocidente. Os
ônus da dívida privada são muito mais baixos; as casas costumam ser
compradas à vista ou com financiamentos imobiliários relativamente
pequenos. Outras formas de crédito ao consumidor desempenham um papel
muito menor. Também se sabe, conforme vimos, que os asiáticos trabalham
muito mais horas por ano que seus pares ocidentais – a média anual de
horas trabalhadas varia de 2.120 em Taiwan a 2.243 na Coreia do Sul. O
que é menos observável é que o aumento da poupança e dos negócios na Ásia veio de mãos dadas com o efeito colateral mais surpreendente da