Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 27 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Get your kicks

Vimos como o poder dos imames e mulás eliminou qualquer chance de uma

revolução científica no mundo islâmico. E vimos como a Igreja Católica

Romana atuou como um dos freios ao desenvolvimento econômico na

América do Sul. Mas talvez a maior contribuição da religião à história da

civilização ocidental tenha sido esta. O protestantismo fez o Ocidente não

só trabalhar, como também ler e economizar. A Revolução Industrial foi, de

fato, produto da inovação tecnológica e do consumo. Mas também

demandou um aumento na intensidade e na duração do trabalho, combinado

com a acumulação de capital por meio de economia e investimento.

Dependeu, sobretudo, da acumulação de capital humano. A alfabetização

que o protestantismo promoveu foi vital para tudo isso. Pensando melhor,

mais que de uma ética do trabalho, seria mais adequado falar de uma ética

da educação protestante.

A pergunta é: o Ocidente hoje – ou pelo menos parte significativa dele –

perdeu sua religião e a ética que a acompanhava?

 

Get your kicks

 

Os europeus, hoje, são os ociosos do mundo. Em média, eles trabalham

menos que os norte-americanos, e muito menos que os asiáticos. Graças à

educação prolongada e à aposentadoria precoce, uma parcela cada vez

menor dos europeus está disponível para o trabalho. Por exemplo, 54% dos

belgas e gregos com mais de 15 anos de idade participam da força de

trabalho, em comparação com 65% dos norte-americanos e 74% dos

chineses21. Dessa força de trabalho, a proporção de desempregados na

Europa no período de 1980 a 2010 foi superior à de outras partes do mundo

desenvolvido. Os europeus também são mais propensos a entrar em greve.22

Acima de tudo, graças às jornadas de trabalho mais curtas e aos feriados

mais longos, os europeus trabalham menos horas23. Entre 2000 e 2009, um

empregado norte-americano trabalhou, em média, pouco menos de 1.711

horas por ano (um número empurrado para baixo devido ao impacto da

crise financeira, que colocou muitos trabalhadores em jornada reduzida). Os alemães trabalharam, em média, apenas 1.437 horas – 16% menos. Isso é

resultado de um período prolongado de divergência. Em 1979, as diferenças

entre as horas de trabalho de europeus e norte-americanos eram mínimas;

de fato, naquela época os espanhóis trabalhavam, em média, mais horas por

ano que os norte-americanos. Mas, daí em diante, as horas de trabalho na

Europa foram reduzidas em um quinto. As horas de trabalho na Ásia

também caíram, mas o trabalhador japonês continua trabalhando, em média,

tanto quanto o norte-americano, ao passo que o sul-coreano trabalha 39%

mais. Os trabalhadores de Hong Kong e de Singapura também trabalham

aproximadamente um terço de horas a mais do que os norte-americanos24.

 

O impressionante é que a divergência transatlântica nos padrões de

trabalho coincide quase exatamente com uma divergência comparável na

religiosidade. Os europeus não só trabalham menos; eles também rezam

menos – e creem menos. Houve uma época em que a Europa podia se

referir a si mesma como “mundo cristão”. Os europeus construíram as mais belas edificações do continente para acomodar seus atos de devoção.

Discutiram acirradamente sobre a diferença entre transubstanciação e

consubstanciação. Como peregrinos, missionários e conquistadores,

velejaram aos quatro cantos da Terra, com a intenção de converter o pagão à

fé verdadeira. Agora, são os europeus que são os pagãos. De acordo com a

mais recente World Values Survey (2005-8), 4% dos noruegueses e suecos e

8% dos franceses e alemães vão à missa pelo menos uma vez por semana,

em comparação com 36% dos norte-americanos, 44% dos indianos, 48%

dos brasileiros e 78% dos africanos subsaarianos. Os números são

significativamente maiores em uma série de países de predominância

católica, como a Itália (32%) e a Espanha (16%). Os únicos países em que a

observância religiosa é mais baixa que na Europa protestante são a Rússia e

o Japão. Deus é “muito importante” para apenas um em cada dez alemães e

holandeses; a proporção francesa é só um pouco superior. Em comparação,

58% dos norte-americanos afirmam que Deus é muito importante em sua

vida. A importância de Deus é mais elevada até mesmo na América Latina

e na África subsaariana, e é a mais alta de todas nos países muçulmanos do

Oriente Médio. Só na China Deus é importante para menos pessoas (menos

de 5%) do que na Europa. Menos de um terço dos norte-americanos

consideram os políticos que não acreditam em Deus inadequados para um

cargo público, em comparação com 4% dos noruegueses e suecos, 9% dos

finlandeses, 11% dos alemães e espanhóis e 12% dos italianos. Metade dos

indianos e dos brasileiros não tolerariam um político ateu25. Só no Japão a

fé religiosa importa menos para a política do que na Europa Ocidental.

O caso da Grã-Bretanha é especialmente interessante, tendo em vista a

determinação com que os britânicos procuraram difundir sua própria fé

religiosa no século XIX. Hoje, de acordo com o World Values Survey, 17%

dos britânicos afirmam que vão à missa pelo menos uma vez por semana –

uma proporção maior que a da Europa continental, mas ainda menos da

metade da norte-americana. Menos de um quarto dos britânicos dizem que

Deus é muito importante em sua vida, mais uma vez menos da metade do

percentual norte-americano. É verdade que os números do Reino Unido são

um pouco superiores desde 1981 (quando apenas 14% disseram que vão à

missa uma vez por semana, e menos de um quinto disseram que Deus era

importante para eles). Mas as pesquisas não distinguem entre as religiões, e

portanto é quase certo que subestimam a queda do cristianismo na Grã-

Bretanha. Um estudo de 2004 indicou que, em uma semana típica, mais

muçulmanos vão a uma mesquita do que anglicanos vão à igreja. E quase

todos os aumentos recentes na frequência à igreja são explicados pelo

crescimento de congregações não brancas, sobretudo em igrejas evangélicas e pentecostais. Quando o instituto Christian Research realizou um censo de

18.720 igrejas em 8 de maio de 2005, um domingo, o índice real de

frequência foi de apenas 6,3% da população, 15% menos que em 1998.

Numa análise mais cuidadosa, a Grã-Bretanha parece exemplificar o

colapso tanto da observância quanto da fé religiosa na Europa Ocidental.

A descristianização da Grã-Bretanha é um fenômeno relativamente

recente. Em Short History of England [Breve história da Inglaterra] (1917),

de G. K. Chesterton, o cristianismo como sinônimo de civilização é tido

como algo quase óbvio:

 

Se alguém deseja saber o que queremos dizer quando falamos que o mundo cristão era e continua

sendo uma única cultura, ou uma única civilização, há uma forma crua e simples de explicar isso.

É perguntando qual é o mais comum [...] de todos os usos da palavra “cristão” [...] Há muito

tempo, [essa palavra] tem um significado no discurso informal entre as pessoas comuns, e

significa uma cultura ou uma civilização. Com efeito, Ben Gunn, em A ilha do tesouro, não disse a

Jim Hawkins “Sinto que não tive contato com um certo tipo de civilização”; na verdade, ele disse

“Ando doente por comida cristã”26.

 

Na verdade, os protestantes britânicos nunca foram realmente praticantes

(em comparação, por exemplo, com os católicos irlandeses), mas até o fim

dos anos 1950 a filiação à Igreja, embora não a frequência, era

relativamente alta e constante. Mesmo em 1960, só menos de um quinto da

população do Reino Unido era filiada à Igreja. Mas, em 2000, essa fração

era menos de um décimo27. Antes de 1960, a maioria dos casamentos na

Inglaterra e no País de Gales eram celebrados em uma igreja; então, esse

número começou a diminuir, chegando a cerca de 40% no fim dos anos

1990. Durante a maior parte da primeira metade do século XX, os

comungados do Dia de Páscoa anglicano representavam em torno de 5% ou

6% da população da Inglaterra; foi só após 1960 que a proporção despencou

para 2%. Os números para a Igreja da Escócia mostram uma tendência

similar: constantes até 1960, e então reduzidos à metade. Chama especial

atenção a queda no número de crismas. Houve 227.135 crismas na

Inglaterra em 1910; em 2007, só 27.900 – 16% menos que apenas cinco

anos antes. Entre 1960 e 1979, o índice de crismas entre jovens de 12 e 21 anos caiu em mais da metade, e continuou a despencar depois disso. Hoje,

menos de um quinto dos batizados são crismados28. Para a Igreja da

Escócia, a redução foi ainda mais drástica29. Hoje em dia, ninguém em

Londres ou Edimburgo usa a palavra “cristão” na acepção de Ben Gunn.

Parece certo que essas tendências vão se manter. Os cristãos praticantes

estão envelhecendo: por exemplo, em 1999, a proporção de metodistas e

membros da United Reformed Church [Igreja Reformada Unida] com 65

anos ou mais era 38%, em comparação com 16% da população como um

todo30. Os britânicos mais jovens são muito menos propensos a acreditar em

Deus ou no céu31. Segundo alguns levantamentos, a Grã-Bretanha já é uma

das sociedades mais agnósticas do mundo, em que 56% das pessoas nunca

vão à igreja – o índice mais alto da Europa Ocidental32. A pesquisa “Soul of

Britain” de 2000, feita pela série de televisão de Michael Buerk, revelou um

grau impressionante de atrofia religiosa. Só 9% dos entrevistados

consideraram que a fé cristã é o melhor caminho para Deus; 32%

consideraram todas as religiões igualmente válidas. Embora apenas 8%

tenham se identificado como ateus, 12% confessaram que não sabiam em

que acreditar. Mais de dois terços dos entrevistados disseram que não

reconheciam nenhum princípio moral claramente definido, e 85% desses

tinham menos de 24 anos de idade. (Estranhamente, 45% dos entrevistados

disseram que a diminuição da religiosidade tornou o país um lugar pior.)

Alguns dos mais brilhantes escritores britânicos do século XX previram a

crise de fé da Grã-Bretanha. O professor da Universidade de Oxford C. S.

Lewis (mais conhecido hoje em dia por suas histórias infantis alegóricas)

escreveu Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942) na esperança de que

zombar do Diabo pudesse mantê-lo a distância. Evelyn Waugh sabia,

quando escreveu sua trilogia de guerra, Sword of Honour [A espada de

honra] (1952-61), que estava escrevendo o epitáfio de uma antiga forma de

catolicismo romano inglês. Ambos perceberam que a Segunda Guerra

Mundial apresentava uma grave ameaça à fé cristã. Mas foi só nos anos

1960 que suas premonições de secularização se tornaram realidade. Por

que, então, os britânicos perderam sua fé histórica? Como tantas perguntas

difíceis, esta parece, à primeira vista, ter uma resposta fácil. Mas antes que possamos simplesmente colocar a culpa, como fez o poeta Philip Larkin,

nos “anos sessenta” – os Beatles, a pílula anticoncepcional e a minissaia –,

precisamos lembrar que os Estados Unidos também desfrutaram de todos

esses prazeres mundanos, sem deixar de ser um país cristão. Pergunte a

muitos europeus hoje, e eles dirão que a fé religiosa é simplesmente um

anacronismo, um vestígio da superstição medieval. Eles virarão os olhos

diante do fervor religioso do Cinturão Bíblico norte-americano – sem

perceber que é sua própria falta de fé que é a verdadeira anomalia.

Quem matou o cristianismo na Europa foi John Lennon?33 Será que, como o

próprio Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a

destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo

corrompeu o ascetismo original dos devotos (a “hipótese da

secularização”)?34 Essa noção esteve muito próxima da visão do romancista

(e, depois de idoso, religioso) Lev Tolstói, que viu uma contradição

fundamental entre os ensinamentos de Cristo e “aquelas condições habituais

da vida que chamamos civilização, cultura, arte e ciência”35. Se for assim,

que parte do desenvolvimento econômico foi especificamente hostil à fé

religiosa? Foi a transformação do papel da mulher e a degradação do núcleo

familiar – que também parece explicar a diminuição do tamanho da família

e o declínio demográfico do Ocidente? Ou foi o conhecimento científico – o

que Weber chamou “desmistificação do mundo”, em particular a Teoria da

Evolução de Darwin, que derrubou a história bíblica da criação divina? Foi

a melhoria na expectativa de vida, que tornou a vida após a morte um

destino muito menos alarmante? Foi o Estado de bem-estar social, um

pastor secular cuidando de nós do berço ao túmulo? Ou será que o

cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura

moderna? O assassino da ética do trabalho da Europa protestante teria sido

ninguém menos que Sigmund Freud?

Em O futuro de uma ilusão (1928), Freud, o pai fundador da psicanálise,

começou a refutar Weber. Para Freud, um judeu não praticante nascido na

Morávia, a religião não poderia ser a força por trás das conquistas da

civilização ocidental porque era essencialmente uma “ilusão”, uma

“neurose universal”, concebida para evitar que as pessoas dessem vazão a seus instintos básicos – em particular, seus desejos sexuais e impulsos

violentos e destrutivos. Sem religião, haveria o caos:

 

Se imaginássemos essas proibições eliminadas, poderíamos escolher qualquer mulher que fosse do

nosso agrado e tomá-la como objeto sexual; poderíamos, sem hesitar, matar nosso rival ou quem

quer que, de uma forma ou de outra, interferisse em nosso caminho; e poderíamos tomar o que

quiséssemos de outro homem sem pedir sua permissão.36

 

A religião não só proibia a promiscuidade sexual e a violência

desenfreada. Também conciliava os homens com a “crueldade do destino,

em particular tal como revelado na morte” e os “sofrimentos e privações”

da vida cotidiana37. Quando as religiões monoteístas uniram os deuses em

uma só pessoa, “a relação do homem com ele [Deus] conseguiu recuperar a

intimidade e a intensidade da relação de um filho com seu pai. E alguém

que havia feito tanto pelo pai certamente seria recompensado – pelo menos

seria o único filho amado, o povo escolhido”.38

Freud tinha pouca esperança de que a humanidade pudesse se emancipar

totalmente da religião, menos ainda na Europa. Conforme afirmou:

 

Se quisermos expulsar a religião de nossa civilização europeia, só poderemos fazê-lo por meio de

outro sistema de doutrinas; e tal sistema, desde o começo, se apoderaria de todas as características

psicológicas da religião – a mesma santidade, rigidez e intolerância, a mesma proibição de

pensamento – para sua própria defesa. 39

 

Isso certamente parecia plausível nos anos 1930, quando Stalin e Hitler

propagavam seus próprios cultos monstruosos. Mas em ambos os casos as

religiões políticas totalitárias foram incapazes de controlar os instintos

primitivos descritos na teoria da religião de Freud. Em 1945, a Europa

estava exausta após uma orgia de violência – incluindo violência sexual

chocante na forma de estupro em massa – diferente de qualquer coisa vista

desde a época de Timur. A reação inicial em muitos países, em particular

aqueles (como a União Soviética) mais traumatizados pelo assassinato em

massa, foi restaurar a religião real, e usar seus confortos tradicionais para

lamentar os mortos.

Nos anos 1960, entretanto, uma geração jovem demais para se lembrar

dos anos de genocídio e guerra total procurou uma nova saída pós-cristã

para seus desejos reprimidos. As próprias teorias de Freud, com sua visão

negativa da repressão e sua simpatia explícita pelo impulso erótico, sem

dúvida foram parcialmente responsáveis por incitar os europeus a saírem

das igrejas e entrarem nos sex shops. Em O mal-estar na civilização (1929-

30, mas publicado pela primeira vez nos Estados Unidos só em 1961),

Freud argumentava que havia uma “antítese” fundamental entre a

civilização tal como existia e os desejos mais primitivos do homem:

 

Essa tendência à agressão, que podemos detectar em nós mesmos e presumir justamente que está

presente em outros, é o fator que perturba nossas relações com nosso vizinho e que força a

civilização a um gasto tão grande [de energia]. Em consequência dessa hostilidade primitiva entre

os seres humanos, a sociedade civilizada está sob constante ameaça de desintegração. O interesse

do trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os

interesses razoáveis. A civilização precisa usar seus maiores esforços para impor limites aos

instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por meio da formação de

reações psíquicas. Daí [...] a restrição sobre a vida sexual, e daí também [...] o mandamento de

amar nosso vizinho como a nós mesmos – um mandamento que é realmente justificado pelo fato

de que nada é tão contrário à natureza original do homem [...] A civilização é um processo a

serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos, e então famílias, raças, pessoas e

nações, em uma grande unidade, a unidade da humanidade. Por que isso tem de acontecer, nós não

sabemos; o trabalho de Eros é precisamente este [...] Os homens hão de ser libidinosamente atados

uns aos outros [...] Mas o instinto agressivo natural do homem, a hostilidade de todos contra todos,

se opõe a esse programa de civilização. Esse instinto agressivo é derivado, e é o principal

representante, do instinto de morte que encontramos ao lado de Eros e que compartilha com ele o

domínio do mundo. E agora, creio eu, o significado de evolução da civilização já não é obscuro

para nós. Deve apresentar a luta entre Eros e Morte, entre o instinto de vida e o instinto de

destruição, tal como se revela na espécie humana. É dessa luta que, em essência, toda vida

consiste. 40

 

Lendo isso, podemos entender o que o satirista vienense Karl Kraus quis

dizer quando afirmou que a psicanálise era “a doença da qual fingia ser a

cura”41. Mas essa foi a mensagem interpretada pelos hippies como um novo

mandamento: colocar tudo para fora. E eles colocaram. “Let It All Hang

Out” [Coloque tudo para fora] (1967), de The Hombres, foi um dos hinos menores dos anos 1960, mas suas palavras iniciais – “A preachment, dear

friends, you are about to receive/ On John Barleycorn, nicotine, and the

temptations of Eve”42 – resumiam muito bem o que então estava

disponível.43 Para os críticos ao Ocidente mais influentes de nossos dias

(sobretudo os islâmicos radicais), os anos 1960 abriram caminho para uma

anticivilização pós-freudiana, caracterizada por uma celebração hedonista

dos prazeres do eu, uma rejeição da teologia em favor da pornografia e uma

renúncia ao Príncipe da Paz em favor de filmes e videogames

grotescamente violentos, mais bem definidos como warnography44

(banalização da guerra).

O problema com todas as teorias sobre a morte do protestantismo na Europa

é que, por mais que possam explicar a descristianização da Europa, não

explicam nada sobre a continuidade da fé cristã nos Estados Unidos. Os

norte-americanos vivenciaram mais ou menos as mesmas mudanças sociais

e culturais que os europeus. Eles se tornaram mais ricos. Seu conhecimento

da ciência aumentou. E eles são até mesmo mais expostos à psicanálise e à

pornografia que os europeus. Mas o protestantismo nos Estados Unidos não

sofreu nada parecido com o declínio que vivenciou na Europa. Ao

contrário, Deus é, em alguns aspectos, tão importante nos Estados Unidos

hoje quanto era há 40 anos45. Os melhores indícios são as dezenas de

milhões de devotos que se dirigem às igrejas norte-americanas todos os

domingos.

De maneira paradoxal, o advento da nova trindade dos anos 1960 – sexo,

drogas e rock and roll – coincidiu, nos Estados Unidos, com um boom no

protestantismo evangélico. O reverendo Billy Graham competiu com os

Beatles para ver quem conseguia colocar mais jovens em um estádio. Essa

não foi tanto uma reação; foi mais uma espécie de imitação. Ao se

pronunciar no Miami Rock Festival em 1969, Graham instou o público a

“sintonizar com Deus [...] Abrir-se ao Seu poder”46. Em 1972, o grupo

cristão universitário Campus Crusade organizou uma conferência

evangélica em Dallas chamada Explo’72, que terminou com um show que

pretendia ser o Woodstock (o festival de rock de 1969 que veio a condensar

a contracultura hippie) cristão.47 Quando Cynthia “Plaster Caster”, uma adolescente católica de Chicago, fez moldes de gesso dos pênis eretos de

Jimi Hendrix, Robert Plant e Keith Richards (embora, definitivamente, não

de Cliff Richard), ela estava apenas materializando a visão de Freud do

triunfo de Eros sobre Tanatos. Afinal, Deus era amor, como diziam os

adesivos nos para-choques. A América, a um só tempo, renascia em fé e

ressurgia pornô.

Como podemos explicar o fato de que a civilização ocidental parece ter se

dividido em duas: a leste, uma Europa sem deus; a oeste, uma América

temente a Deus? Como explicar a persistência do cristianismo nos Estados

Unidos em uma época em que este diminui tão drasticamente na Europa? A

melhor resposta pode ser encontrada em Springfield, Missouri, a cidade que

eles chamaram “Queen of the Ozarks” e local de nascimento da autopista

entre Chicago e a Califórnia, imortalizada na canção de 1946 de Bobby

Troup, “(Get Your Kicks on) Route 66” [Divirta-se na Estrada 66]. Se Max

Weber ficara impressionado com a diversidade de seitas protestantes ao

passar pelos Estados Unidos há um século, hoje ele ficaria perplexo.

Springfield tem aproximadamente uma igreja para cada mil habitantes. Há

122 igrejas batistas, 36 capelas metodistas, 25 Igrejas de Cristo e 15 Igrejas

de Deus – ao todo, cerca de 400 lugares de culto cristãos. Agora, você não

pega a Estrada 66 para se divertir, e sim para rezar.

O significativo é que todas essas igrejas estão envolvidas em uma

competição acirrada por almas. Conforme Weber percebeu, os batistas, os

metodistas e outros cristãos norte-americanos competiam em sua

comunidade religiosa local para mostrar uns aos outros quem era

verdadeiramente devoto. Mas em Springfield, hoje, a competição é entre

igrejas, e é tão ferrenha quanto a competição entre concessionárias de

automóveis ou redes de fast-food. As igrejas aqui precisam ter uma

mentalidade comercial para atrair e manter fiéis e, com base nisso, a clara

vencedora é a James River Assembly. Aos olhos dos europeus, pode parecer

mais um shopping center ou um centro empresarial, mas, na realidade, é a

maior igreja de Springfield – de fato, uma das maiores dos Estados Unidos.

Seu pastor, John Lindell, é um pregador talentoso e carismático que

combina os ensinamentos bíblicos tradicionais com o tipo de presença de palco em geral associado com o rock and roll. Com efeito, às vezes ele

parece o herdeiro natural da Revolução de Jesus identificada pela revista

Time em 1971, um movimento jovem cristão inspirado no rock, no espírito

da ópera rock britânica Jesus Christ Superstar (1970). Mas também há algo

de insaciável em Lindell; ao fazer seu discurso glorificando a Deus (“Deus,

o Senhor é tão maravilhoso”) ele parece menos com Ian Gillan (o cantor

descabelado do Deep Purple que cantou a parte de Jesus no álbum original

de Superstar) e mais com Steve Jobs, divulgando o mais novo dispositivo

móvel da Apple: iGod, talvez. Para Lindell, a ética protestante está viva e

passa bem, e mora em Springfield. Ele não tem dúvida de que a fé torna os

membros de sua congregação mais dedicados ao trabalho do que seriam

sem ela. Ele próprio é um trabalhador diligente: três missas cheias de

atividade a cada domingo não é pouca coisa. E o Espírito Santo parece se

misturar ao espírito do capitalismo quando passam as caixas de coleta –

embora, por sorte, não à maneira descarada preferida por Mac Hammond do

Centro Cristão Palavra Viva em Minneapolis, que promete que “os

princípios da Bíblia vão aprimorar seu crescimento espiritual e ajudá-lo a

ter sucesso no trabalho, nos relacionamentos e nas finanças”.48

Uma visita a James River torna clara a principal diferença entre o

protestantismo europeu e o norte-americano. Enquanto a Reforma foi

nacionalizada na Europa, com a criação de igrejas estatais como a Igreja da

Inglaterra ou a Kirk da Escócia, nos Estados Unidos sempre houve uma

separação estrita entre a religião e o Estado, permitindo uma competição

aberta entre várias seitas protestantes. E essa talvez seja a melhor

explicação para a estranha morte da religião na Europa e seu vigor

permanente nos Estados Unidos. Na religião, assim como nos negócios, os

monopólios estatais são ineficientes – mesmo que, em alguns casos, a

existência de uma religião estatal aumente a participação religiosa (onde há

um subsídio generoso do governo e mínimo controle das nomeações

eclesiásticas)49. Em geral, a competição entre seitas em um mercado

religioso livre encoraja as inovações concebidas para tornar mais

gratificante a experiência do culto e da filiação à igreja. É isso o que

mantém viva a religião nos Estados Unidos50. (Essa ideia não é totalmente nova. Adam Smith apresentou um argumento similar em A riqueza das

nações, contrastando países com igrejas oficiais com aqueles que permitiam

a competição.)51

Mas há alguma coisa nos evangélicos norte-americanos de hoje que teria

causado desconfiança a Weber, se não a Smith. Pois, em certo sentido,

muitas das seitas mais prósperas de hoje florescem justamente porque

desenvolveram uma espécie de cristianismo de consumo que beira a “fé de

supermercado”52. Não só é fácil de chegar e divertido – nada diferente de

uma viagem ao cinema multiplex, com refrigerantes ou Starbucks servidos

no local –, como também faz pouquíssimas exigências aos crentes. Ao

contrário, são eles que fazem reivindicações a Deus53, de modo que a oração

em James River muitas vezes consiste de uma longa série de demandas para

que a divindade resolva problemas pessoais. Deus, o Pai, o Filho e o

Espírito Santo foram substituídos por Deus, o Analista, o Conselheiro

Sentimental e o Personal Trainer. Com mais de dois quintos dos brancos

norte-americanos mudando de religião em algum momento da vida, a fé se

tornou paradoxalmente volúvel54.

O único problema na hora de transformar a religião em mais uma busca

por lazer é que isso significa que os norte-americanos se afastaram

muitíssimo da versão weberiana de ética protestante, em que a gratificação

adiada era o corolário da acumulação de capital. Em suas palavras:

 

O ascetismo protestante atua com toda força contra a fruição desinibida das possessões;

desencoraja o consumo [...] E quando essa restrição ao consumo é combinada com a liberdade

para aspirar o lucro, o resultado produzido inevitavelmente será a criação de capital por meio da

compulsão ascética por economizar. 55

 

Nós acabamos de passar por uma experiência oposta: o capitalismo sem

poupança. Nos Estados Unidos, a taxa de economias domésticas caiu para

menos de zero no pico da bolha imobiliária, já que as famílias não só

consumiam toda a renda disponível como também exauriram o patrimônio

líquido em sua casa. A redução da poupança se revelou uma receita para a

crise financeira. Quando os preços das casas começaram a cair em 2006, teve início uma reação em cadeia: aqueles que haviam feito empréstimos

em um valor superior ao de sua casa pararam de pagar os juros do

financiamento imobiliário; aqueles que haviam investido em seguros

garantidos por hipotecas sofreram grandes perdas; os bancos que haviam

tomado emprestado grandes somas para investir em tais seguros sofreram

primeiro iliquidez e depois insolvência; para evitar falências de bancos em

massa, os governos intervieram em seu socorro; e uma crise de dívida

privada se transformou em uma crise de dívida pública. Hoje, o ônus total

da dívida privada e da dívida pública nos Estados Unidos é mais de três

vezes e meia seu Produto Interno Bruto56.

Mas esse não foi um fenômeno exclusivamente norte-americano.

Variações sobre o mesmo tema foram vistas em outros países anglófonos:

na Irlanda, no Reino Unido e, em um grau menor, na Austrália e no Canadá

– essa foi a geometria fractal da era da alavancagem financeira, com o

mesmo problema se repetindo em diferentes escalas. Houve bolhas

imobiliárias maiores na maioria dos países europeus – no sentido de que o

preço das casas subiu ainda mais com relação à renda do que nos Estados

Unidos – e crises muito mais graves de dívida pública em Portugal, na

Irlanda e na Grécia, que cometeram o erro de ter déficits muito grandes

estando em união monetária com a Alemanha. Mas a crise financeira de

2007-9, embora global em seus efeitos, não foi global em sua origem. Foi

uma crise provocada no mundo ocidental, em consequência do excesso de

consumo e do excesso de alavancagem financeira. Em outras partes –

especialmente na Ásia –, a situação foi bem diferente.

Todos sabem que no Oriente se poupa muito mais que no Ocidente. Os

ônus da dívida privada são muito mais baixos; as casas costumam ser

compradas à vista ou com financiamentos imobiliários relativamente

pequenos. Outras formas de crédito ao consumidor desempenham um papel

muito menor. Também se sabe, conforme vimos, que os asiáticos trabalham

muito mais horas por ano que seus pares ocidentais – a média anual de

horas trabalhadas varia de 2.120 em Taiwan a 2.243 na Coreia do Sul. O

que é menos observável é que o aumento da poupança e dos negócios na Ásia veio de mãos dadas com o efeito colateral mais surpreendente da