Civilização: Ocidente X Oriente
Terras de infiéis
Outro acadêmico, Zhuo Xinping, identificou que “a compreensão cristã
da transcendência” desempenhou “um papel decisivo na aceitação, por
parte do povo, do pluralismo na sociedade e na política do Ocidente
contemporâneo”:
Só aceitando como nosso critério essa compreensão da transcendência é que podemos entender o
verdadeiro significado de conceitos como liberdade, direitos humanos, tolerância, igualdade,
justiça, democracia, Estado de direito, universalidade e proteção ambiental 91.
Yuan Zhiming, um cineasta cristão, concorda: “A coisa mais importante,
o cerne da civilização ocidental [...] é o cristianismo”92. De acordo com o
professor Zhao Xiao, ele próprio um adepto, o cristianismo oferece à China
uma nova “base moral comum” capaz de reduzir a corrupção, diminuir a
distância entre ricos e pobres, promover a filantropia e até mesmo evitar a
poluição93. “A viabilidade econômica requer um ethos moral sério”, nas
palavras de outro estudioso, “mais do que o mero consumismo hedonista e a
estratégia desonesta”94. Afirma-se até mesmo que, logo antes de Jiang
Zemin renunciar à presidência da China e à liderança do Partido Comunista,
ele teria dito em uma reunião de altos oficiais do Partido que, se pudesse
emitir um decreto que ele sabia que seria obedecido em toda parte, seria
“tornar o cristianismo a religião oficial da China”95. Em 2007, seu sucessor
Hu Jintao presidiu, no Politburo, uma “sessão de estudos” sem precedentes
sobre religião, na qual contou aos 25 líderes mais poderosos da China que
“o conhecimento e a força dos religiosos devem ser reunidos para construir
uma sociedade próspera”. Um relatório apresentado ao 14o Comitê Central
do Partido Comunista Chinês especificava três requisitos para um
crescimento econômico contínuo: os direitos de propriedade como base, a
lei como proteção e a moralidade como apoio.
Terras de infiéis
Se isso soa familiar, não é por acaso. Conforme vimos, esses costumavam
ser os principais pilares da civilização ocidental. Mas, nos últimos anos, nós
no Ocidente parecemos ter perdido a fé neles. Não só as igrejas da Europa estão vazias, mas também parecemos duvidar do valor de grande parte do
que foi desenvolvido na Europa após a Reforma. A competição capitalista
caiu em descrédito devido à crise financeira recente e à ganância
desenfreada dos banqueiros. A ciência é estudada por pouquíssimos de
nossos filhos nas escolas e universidades. Os direitos de propriedade
privada são sistematicamente violados por governos que parecem ter um
apetite insaciável por tributar nossa renda e nossa riqueza e desperdiçar
grande parte dos rendimentos. Império se tornou uma palavra suja, apesar
dos benefícios conferidos ao restante do mundo pelos imperialistas
europeus. Todos corremos o risco de ser deixados com uma sociedade de
consumo vazia e uma cultura de relativismo – uma cultura que diz que toda
teoria ou opinião, por mais excêntrica que seja, é exatamente tão boa quanto
qualquer coisa em que costumávamos acreditar.
Ao contrário da crença popular, Chesterton não disse: “O problema com o
ateísmo é que, quando os homens param de acreditar em Deus, não é que
eles não acreditem em nada. Eles acreditam em qualquer coisa”. Mas ele
fez o padre Brown dizer algo muito similar em “The Miracle of Moon
Crescent”:
Vocês todos juraram que eram materialistas obstinados; e, de fato, estavam todos equilibrados no
fio da crença – da crença em quase qualquer coisa. Há milhares de pessoas equilibradas nele hoje
em dia; mas é um fio cortante e desconfortável no qual se sentar. Vocês não descansarão enquanto
não acreditarem em alguma coisa.96
Para entender a diferença entre crença e descrença, consideremos a
conversa entre Muktar Said Ibrahim, um dos islamitas cujo plano de
detonar bombas no sistema de transporte de Londres foi descoberto em
2005, e uma ex-vizinha sua em Stanmore, um bairro na zona norte da
periferia de Londres. Nascido na Eritreia, Ibrahim havia se mudado para a
Grã-Bretanha aos 14 anos de idade e acabara de receber a cidadania do
Reino Unido, apesar de ter passado um tempo na prisão por seu
envolvimento em roubo. “Ele me perguntou”, recordou Sarah Scott, “se eu
era católica, porque minha família é irlandesa. Eu respondi que não acreditava em nada, e ele disse que eu deveria. Ele me disse que teria várias
virgens quando chegasse ao Céu se honrasse Alá. Disse que se você rezasse
para Alá e tivesse sido leal a Alá, receberia 80 virgens, ou algo assim.” É a
coisa mais fácil do mundo ridicularizar a noção, aparentemente um lugar-
comum entre os jihadistas, de que essa é a recompensa por explodir infiéis.
Mas é muito mais estranho acreditar, como Sarah Scott, em absolutamente
nada? Sua conversa com Ibrahim, tal como ela a recorda, é fascinante
justamente porque ilustra o abismo existente hoje na Europa Ocidental entre
uma minoria de fanáticos e uma maioria de ateus. “Ele disse”, recordou
Sarah após a prisão do ex-vizinho, “que as pessoas têm medo da religião, e
que elas não deveriam ter medo.”97
O que Chesterton temia era que, se o cristianismo decaísse na Grã-
Bretanha, a “superstição” “sufocaria todo o seu velho racionalismo e
ceticismo”. Da aromaterapia ao Zen e a arte de manutenção de
motocicletas, o Ocidente hoje está de fato inundado de cultos pós-
modernos, nenhum dos quais contribui de maneira tão efetiva para o vigor
econômico ou a coesão social quanto a velha ética protestante. E, o que é
pior, esse vácuo espiritual deixa as sociedades da Europa Ocidental
vulneráveis às ambições sinistras de uma minoria de povos que têm fé
religiosa – bem como à ambição política de expandir o poder e a influência
dessa fé nos países que adotaram. Que a luta entre o islamismo radical e a
civilização ocidental possa ser caricaturada como “Jihad versus McWorld”
é algo significativo98. Na realidade, os principais valores da civilização
ocidental são diretamente ameaçados pelo tipo de islamismo mantido por
terroristas como Muktar Said Ibrahim, derivado, como é, dos ensinamentos
do wahhabista Sayyid Jamal al-Din, do século XIX, e dos líderes Hassan al-
Banna e Sayyid Qutb, da Irmandade Muçulmana99. A separação entre Igreja
e Estado, o método científico, o Estado de direito e a própria ideia de uma
sociedade livre – incluindo princípios relativamente recentes como a
igualdade dos sexos e a legalidade dos atos homossexuais –, todas essas
coisas são abertamente repudiadas pelos islamitas.
As estimativas da população muçulmana nos países da Europa Ocidental
variam muitíssimo. De acordo com uma delas, a população total subiu de
cerca de 10 milhões em 1990 para 17 milhões em 2010100. Com relação às
populações nacionais, as comunidades muçulmanas variam em tamanho de
um pico de 9,8% na França a apenas 0,2% em Portugal101. Tais números
parecem contradizer os alertas de alguns estudiosos sobre uma futura
“Eurábia” – um continente islamizado no fim do século XXI. No entanto, se
a população muçulmana do Reino Unido continuasse crescendo a uma taxa
anual de 6,7% (como fez entre 2004 e 2008), sua parcela da população total
do Reino Unido cresceria de menos de 4% em 2008 para 8% em 2020, 15%
em 2030 e 28% em 2040, finalmente passando dos 50% em 2050102.
A imigração em massa não é necessariamente o solvente de uma
civilização, se os migrantes abraçarem, e forem encorajados a abraçar, os
valores da civilização para a qual estão se mudando. Mas, nos casos em que
as comunidades de imigrantes não são bem assimiladas e então se tornam
presas de ideólogos radicais, as consequências podem ser profundamente
desestabilizadoras103. O ponto crucial não é tanto os números absolutos
quanto a intensidade com que algumas comunidades muçulmanas foram
permeadas por organizações islâmicas como a árabe Irmandade
Muçulmana, a paquistanesa Jama’at-i Islami, a financiada por sauditas Liga
Mundial Muçulmana e a Assembleia Mundial da Juventude Muçulmana.
Na Grã-Bretanha, para tomar o exemplo talvez mais problemático, há um
desdobramento ativo da Irmandade Muçulmana chamado Associação
Muçulmana da Grã-Bretanha, duas ramificações da Jama’at-i Islami, a
Sociedade Islâmica da Grã-Bretanha e sua ala jovem, os Jovens
Muçulmanos do Reino Unido, além de uma organização chamada Hizb ut-
Tahrir (“Partido da Libertação”). A Hizb ut-Tahrir proclama abertamente
suas intenções de tornar “a Grã-Bretanha [...] um Estado islâmico antes do
ano 2020!”104. Também conhecidos por serem ativos em recrutar terroristas
são a al-Qaeda e o igualmente perigoso Harakat ul-Mujahideen. Tal
infiltração não é, de forma nenhuma, exclusividade do Reino Unido.105
O caso de Shehzad Tanweer ilustra o quão insidioso é o processo de
radicalização. Tanweer foi um dos homens-bomba que causaram estragos
em Londres em 7 de julho de 2005, detonando uma bomba em uma estação
de metrô da Circle Line, entre a Aldgate e a Liverpool Street, matando a si mesmo e a outros seis passageiros. Nascido em Yorkshire em 1983,