Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 29 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

Terras de infiéis

Outro acadêmico, Zhuo Xinping, identificou que “a compreensão cristã

da transcendência” desempenhou “um papel decisivo na aceitação, por

parte do povo, do pluralismo na sociedade e na política do Ocidente

contemporâneo”:

 

Só aceitando como nosso critério essa compreensão da transcendência é que podemos entender o

verdadeiro significado de conceitos como liberdade, direitos humanos, tolerância, igualdade,

justiça, democracia, Estado de direito, universalidade e proteção ambiental 91.

 

Yuan Zhiming, um cineasta cristão, concorda: “A coisa mais importante,

o cerne da civilização ocidental [...] é o cristianismo”92. De acordo com o

professor Zhao Xiao, ele próprio um adepto, o cristianismo oferece à China

uma nova “base moral comum” capaz de reduzir a corrupção, diminuir a

distância entre ricos e pobres, promover a filantropia e até mesmo evitar a

poluição93. “A viabilidade econômica requer um ethos moral sério”, nas

palavras de outro estudioso, “mais do que o mero consumismo hedonista e a

estratégia desonesta”94. Afirma-se até mesmo que, logo antes de Jiang

Zemin renunciar à presidência da China e à liderança do Partido Comunista,

ele teria dito em uma reunião de altos oficiais do Partido que, se pudesse

emitir um decreto que ele sabia que seria obedecido em toda parte, seria

“tornar o cristianismo a religião oficial da China”95. Em 2007, seu sucessor

Hu Jintao presidiu, no Politburo, uma “sessão de estudos” sem precedentes

sobre religião, na qual contou aos 25 líderes mais poderosos da China que

“o conhecimento e a força dos religiosos devem ser reunidos para construir

uma sociedade próspera”. Um relatório apresentado ao 14o Comitê Central

do Partido Comunista Chinês especificava três requisitos para um

crescimento econômico contínuo: os direitos de propriedade como base, a

lei como proteção e a moralidade como apoio.

 

Terras de infiéis

 

Se isso soa familiar, não é por acaso. Conforme vimos, esses costumavam

ser os principais pilares da civilização ocidental. Mas, nos últimos anos, nós

no Ocidente parecemos ter perdido a fé neles. Não só as igrejas da Europa estão vazias, mas também parecemos duvidar do valor de grande parte do

que foi desenvolvido na Europa após a Reforma. A competição capitalista

caiu em descrédito devido à crise financeira recente e à ganância

desenfreada dos banqueiros. A ciência é estudada por pouquíssimos de

nossos filhos nas escolas e universidades. Os direitos de propriedade

privada são sistematicamente violados por governos que parecem ter um

apetite insaciável por tributar nossa renda e nossa riqueza e desperdiçar

grande parte dos rendimentos. Império se tornou uma palavra suja, apesar

dos benefícios conferidos ao restante do mundo pelos imperialistas

europeus. Todos corremos o risco de ser deixados com uma sociedade de

consumo vazia e uma cultura de relativismo – uma cultura que diz que toda

teoria ou opinião, por mais excêntrica que seja, é exatamente tão boa quanto

qualquer coisa em que costumávamos acreditar.

Ao contrário da crença popular, Chesterton não disse: “O problema com o

ateísmo é que, quando os homens param de acreditar em Deus, não é que

eles não acreditem em nada. Eles acreditam em qualquer coisa”. Mas ele

fez o padre Brown dizer algo muito similar em “The Miracle of Moon

Crescent”:

 

Vocês todos juraram que eram materialistas obstinados; e, de fato, estavam todos equilibrados no

fio da crença – da crença em quase qualquer coisa. Há milhares de pessoas equilibradas nele hoje

em dia; mas é um fio cortante e desconfortável no qual se sentar. Vocês não descansarão enquanto

não acreditarem em alguma coisa.96

 

Para entender a diferença entre crença e descrença, consideremos a

conversa entre Muktar Said Ibrahim, um dos islamitas cujo plano de

detonar bombas no sistema de transporte de Londres foi descoberto em

2005, e uma ex-vizinha sua em Stanmore, um bairro na zona norte da

periferia de Londres. Nascido na Eritreia, Ibrahim havia se mudado para a

Grã-Bretanha aos 14 anos de idade e acabara de receber a cidadania do

Reino Unido, apesar de ter passado um tempo na prisão por seu

envolvimento em roubo. “Ele me perguntou”, recordou Sarah Scott, “se eu

era católica, porque minha família é irlandesa. Eu respondi que não acreditava em nada, e ele disse que eu deveria. Ele me disse que teria várias

virgens quando chegasse ao Céu se honrasse Alá. Disse que se você rezasse

para Alá e tivesse sido leal a Alá, receberia 80 virgens, ou algo assim.” É a

coisa mais fácil do mundo ridicularizar a noção, aparentemente um lugar-

comum entre os jihadistas, de que essa é a recompensa por explodir infiéis.

Mas é muito mais estranho acreditar, como Sarah Scott, em absolutamente

nada? Sua conversa com Ibrahim, tal como ela a recorda, é fascinante

justamente porque ilustra o abismo existente hoje na Europa Ocidental entre

uma minoria de fanáticos e uma maioria de ateus. “Ele disse”, recordou

Sarah após a prisão do ex-vizinho, “que as pessoas têm medo da religião, e

que elas não deveriam ter medo.”97

O que Chesterton temia era que, se o cristianismo decaísse na Grã-

Bretanha, a “superstição” “sufocaria todo o seu velho racionalismo e

ceticismo”. Da aromaterapia ao Zen e a arte de manutenção de

motocicletas, o Ocidente hoje está de fato inundado de cultos pós-

modernos, nenhum dos quais contribui de maneira tão efetiva para o vigor

econômico ou a coesão social quanto a velha ética protestante. E, o que é

pior, esse vácuo espiritual deixa as sociedades da Europa Ocidental

vulneráveis às ambições sinistras de uma minoria de povos que têm fé

religiosa – bem como à ambição política de expandir o poder e a influência

dessa fé nos países que adotaram. Que a luta entre o islamismo radical e a

civilização ocidental possa ser caricaturada como “Jihad versus McWorld”

é algo significativo98. Na realidade, os principais valores da civilização

ocidental são diretamente ameaçados pelo tipo de islamismo mantido por

terroristas como Muktar Said Ibrahim, derivado, como é, dos ensinamentos

do wahhabista Sayyid Jamal al-Din, do século XIX, e dos líderes Hassan al-

Banna e Sayyid Qutb, da Irmandade Muçulmana99. A separação entre Igreja

e Estado, o método científico, o Estado de direito e a própria ideia de uma

sociedade livre – incluindo princípios relativamente recentes como a

igualdade dos sexos e a legalidade dos atos homossexuais –, todas essas

coisas são abertamente repudiadas pelos islamitas.

As estimativas da população muçulmana nos países da Europa Ocidental

variam muitíssimo. De acordo com uma delas, a população total subiu de

cerca de 10 milhões em 1990 para 17 milhões em 2010100. Com relação às

populações nacionais, as comunidades muçulmanas variam em tamanho de

um pico de 9,8% na França a apenas 0,2% em Portugal101. Tais números

parecem contradizer os alertas de alguns estudiosos sobre uma futura

“Eurábia” – um continente islamizado no fim do século XXI. No entanto, se

a população muçulmana do Reino Unido continuasse crescendo a uma taxa

anual de 6,7% (como fez entre 2004 e 2008), sua parcela da população total

do Reino Unido cresceria de menos de 4% em 2008 para 8% em 2020, 15%

em 2030 e 28% em 2040, finalmente passando dos 50% em 2050102.

A imigração em massa não é necessariamente o solvente de uma

civilização, se os migrantes abraçarem, e forem encorajados a abraçar, os

valores da civilização para a qual estão se mudando. Mas, nos casos em que

as comunidades de imigrantes não são bem assimiladas e então se tornam

presas de ideólogos radicais, as consequências podem ser profundamente

desestabilizadoras103. O ponto crucial não é tanto os números absolutos

quanto a intensidade com que algumas comunidades muçulmanas foram

permeadas por organizações islâmicas como a árabe Irmandade

Muçulmana, a paquistanesa Jama’at-i Islami, a financiada por sauditas Liga

Mundial Muçulmana e a Assembleia Mundial da Juventude Muçulmana.

Na Grã-Bretanha, para tomar o exemplo talvez mais problemático, há um

desdobramento ativo da Irmandade Muçulmana chamado Associação

Muçulmana da Grã-Bretanha, duas ramificações da Jama’at-i Islami, a

Sociedade Islâmica da Grã-Bretanha e sua ala jovem, os Jovens

Muçulmanos do Reino Unido, além de uma organização chamada Hizb ut-

Tahrir (“Partido da Libertação”). A Hizb ut-Tahrir proclama abertamente

suas intenções de tornar “a Grã-Bretanha [...] um Estado islâmico antes do

ano 2020!”104. Também conhecidos por serem ativos em recrutar terroristas

são a al-Qaeda e o igualmente perigoso Harakat ul-Mujahideen. Tal

infiltração não é, de forma nenhuma, exclusividade do Reino Unido.105

O caso de Shehzad Tanweer ilustra o quão insidioso é o processo de

radicalização. Tanweer foi um dos homens-bomba que causaram estragos

em Londres em 7 de julho de 2005, detonando uma bomba em uma estação

de metrô da Circle Line, entre a Aldgate e a Liverpool Street, matando a si mesmo e a outros seis passageiros. Nascido em Yorkshire em 1983,