Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 5 de 33

Páginas do PDF

Civilização: Ocidente X Oriente

A corrida por especiarias

qualquer pessoa na China que fosse encontrada construindo um navio com

mais de dois mastros podia ser punida com a pena de morte; em 1551,

passou a ser crime até mesmo ir para o mar em um desses navios22. Os

registros das jornadas de Zheng He foram destruídos. É quase certeza que o

próprio Zheng He tenha sido enterrado no mar ao morrer.

O que estava por trás dessa importante decisão? Foi consequência de

problemas fiscais e discórdias políticas na corte imperial? Foi porque os

custos da guerra em Annam (atual Vietnã) se mostraram excessivamente

altos?23 Ou foi simplesmente porque os estudiosos confucianos suspeitavam

das “coisas estranhas” que Zheng He havia trazido de volta consigo, em

particular a girafa? Talvez nunca saibamos ao certo. Mas as consequências

da reclusão da China parecem claras.

Assim como as missões do projeto Apolo à Lua, as viagens de Zheng He

foram uma formidável demonstração de riqueza e sofisticação tecnológica.

A chegada de um eunuco chinês à costa leste africana em 1416 foi, em

muitos aspectos, um feito comparável à chegada de um astronauta norte-

americano à Lua em 1969. Mas, ao suspender abruptamente a exploração

oceânica, os sucessores de Yongle afirmaram que as vantagens econômicas

dessa conquista eram irrisórias.

Mas o mesmo não podia ser dito das viagens que estavam prestes a ser

feitas por um velejador muito diferente, partindo de um diminuto reino

europeu do outro lado do continente eurasiático.

 

A corrida por especiarias

 

Foi no castelo de São Jorge, no alto das colinas sobre o porto ventoso de

Lisboa, que o recém-coroado rei português, Manuel, colocou Vasco da

Gama no comando de quatro pequenos navios com uma grande missão.

Juntas, as quatro embarcações caberiam facilmente dentro do navio de

Zheng He. A tripulação era, ao todo, de apenas 170 homens. Mas sua

missão – “fazer descobertas e sair em busca de especiarias” – tinha o

potencial de fazer o mundo inteiro pender para oeste.

As especiarias em questão eram canela, cravo, macis e noz-moscada, que

os europeus não conseguiam cultivar por conta própria, mas desejavam

obter para melhorar o sabor de seus alimentos. Durante séculos, a rota das

especiarias correra do oceano Índico ao mar Vermelho, ou também por

terra, atravessando a Arábia e a Anatólia. Em meados do século XV, seu

lucrativo trecho final, ao chegar à Europa, estava estritamente controlado

pelos turcos e pelos venezianos. Os portugueses perceberam que, se

conseguissem encontrar uma rota alternativa, descendo pela costa oeste da

África e contornando o cabo da Boa Esperança até o oceano Índico, esse

negócio poderia ficar em suas mãos. Outro marinheiro português,

Bartolomeu Dias, havia contornado o Cabo em 1488, mas sua tripulação o

forçara a voltar. Nove anos depois, cabia a Vasco da Gama fazer o caminho

completo.

As ordens do rei Manuel nos dizem algo de extrema importância sobre o

modo como a civilização ocidental se expandiu para além-mar. Conforme

veremos, o Ocidente tinha mais de uma vantagem sobre o Oriente. Mas o

pontapé inicial foi, sem dúvida, a competição acirrada que impulsionou a

era das Grandes Navegações. Para os europeus, navegar em torno da África

não era só uma questão de exigir homenagem simbólica para algum

monarca poderoso em sua terra natal. Era questão de sair à frente dos

concorrentes, tanto em termos econômicos quanto políticos. Se Vasco da

Gama conseguisse, Lisboa superaria Veneza. A exploração marítima, em

suma, foi a corrida espacial da Europa quatrocentista. Ou, melhor dizendo,

sua corrida por especiarias.

Vasco da Gama partiu em 8 de julho de 1497. Quando, quatro meses

depois, ele e seus companheiros portugueses circundaram o cabo da Boa

Esperança na extremidade mais meridional da África, não se perguntaram

que animais exóticos poderiam trazer de volta para seu rei. O que lhes

interessava era saber se finalmente haviam logrado o que outros não

conseguiram: encontrar uma nova rota para as especiarias. Eles queriam

comércio, e não homenagens.

Em abril de 1498, 82 anos após a chegada de Zheng He, Vasco da Gama

chegou a Malindi. Os chineses haviam deixado pouca coisa para trás, além de alguma porcelana e DNA – de 20 marinheiros chineses que, segundo

consta, naufragaram perto da ilha Pate, nadaram até a costa e ali ficaram,

casando-se com mulheres africanas e ensinando aos nativos os estilos

chineses de trançado de cestos e produção de seda24. Os portugueses, por

sua vez, perceberam imediatamente o potencial de Malindi como entreposto

comercial. Vasco da Gama ficou particularmente entusiasmado por ter

encontrado mercadores indianos por lá, e é quase certo que foi com a ajuda

de um deles que conseguiu usar os ventos de monções para chegar a

Calicute.

Essa avidez por comércio estava longe de ser a única diferença entre os

portugueses e os chineses. Havia um traço de crueldade – de fato, de pura

brutalidade – nos homens de Lisboa, que Zheng He raras vezes manifestou.

Quando o rei de Calicute olhou com desconfiança para os produtos que os

portugueses trouxeram de Lisboa, Vasco da Gama capturou 16 pescadores

como reféns. Em sua segunda viagem à Índia, liderando 15 navios, ele

bombardeou Calicute e mutilou terrivelmente a tripulação dos navios

capturados. Conta-se que, em outra ocasião, ele trancou os passageiros a

bordo de um navio com destino a Meca e o incendiou.

Os portugueses se dedicaram a demonstrações de violência porque

sabiam que encontrariam resistência ao tentar abrir uma nova rota de

especiarias. Certamente acreditavam que a melhor defesa é o ataque.

Conforme Afonso de Albuquerque, o segundo governador da Índia

portuguesa, informou orgulhosamente ao rei em 1513: “diante do rumor de

nossa chegada, os navios [nativos] desapareceram e até os pássaros pararam

de deslizar sobre a água”. Contra alguns inimigos, os canhões e as espadas

eram, sem dúvida, ineficazes. A primeira expedição de metade dos homens

de Vasco da Gama não sobreviveu à viagem, sobretudo porque seu capitão

tentou voltar para a África contra o vento de monções. Apenas dois dos

quatro navios originais conseguiram chegar a Lisboa. O próprio Vasco da

Gama morreu de malária durante uma terceira viagem à Índia em 1524;

seus restos foram levados de volta à Europa e atualmente estão em um belo

túmulo no mosteiro de São Jerônimo (hoje igreja de Santa Maria de Belém),

em Lisboa. Mas outros exploradores portugueses prosseguiram viagem até a China. Antes, os chineses conseguiam tratar com indiferença, se não com

desprezo, os bárbaros distantes da Europa. Mas agora a corrida por

especiarias havia posto os bárbaros nos portões do próprio Reino do Meio.

E devemos lembrar que, embora os portugueses tivessem poucos produtos

valiosos que interessassem aos chineses, eles levaram prata, para a qual

havia uma enorme demanda na China da dinastia Ming, já que as moedas

haviam substituído o papel-moeda e a mão de obra como principal forma de

pagamento.

Em 1557, os portugueses chegaram a Macau, uma península no delta do

rio Pérola. Uma das primeiras coisas que eles fizeram foi erguer um portão

– a Porta do Cerco – com a inscrição: “Temam nossa grandeza e respeitem

nossa virtude”. Em 1586, Macau era um entreposto comercial

suficientemente importante para ser reconhecido como uma cidade: a

Cidade do Nome de Deus na China. Foi o primeiro de muitos de tais

enclaves comerciais europeus na China. Luís de Camões, autor de Os

lusíadas, o poema épico da expansão marítima portuguesa, viveu em Macau

por certo tempo, depois de ter sido exilado de Lisboa por agressão. Como

um reino tão pequeno como Portugal – admirava-se o poeta –, com uma

população que é menos de 1% da chinesa, pode aspirar a dominar o

comércio dos impérios da Ásia, muitíssimo mais populosos? E ainda assim

seus compatriotas velejaram, estabelecendo uma rede incrível de

entrepostos comerciais que se estendiam como um colar global, que partia

de Lisboa, contornava a costa da África, a Arábia e a Índia, atravessava o

estreito de Málaca, chegava às próprias ilhas das especiarias, e de lá ia

ainda mais longe, depois até mesmo de Macau. “Havia outros mundos por

ser descobertos”, escreveu Camões acerca de seus conterrâneos, “eles

também os encontrariam!”25.

As vantagens da expansão ultramarina não passaram despercebidas para os

rivais europeus de Portugal. Assim como Portugal, a Espanha havia saído

na frente, tomando a iniciativa no Novo Mundo (ver Capítulo 3) e

estabelecendo também um entreposto asiático nas Filipinas, de onde os

espanhóis foram capazes de transportar uma enorme quantidade de prata

mexicana à China26. Durante décadas depois que o Tratado de Tordesilhas (1494) dividiu o mundo entre elas, as duas potências ibéricas puderam olhar

para suas conquistas imperiais com incrível autoconfiança. Mas os

holandeses, rebeldes e ótimos comerciantes – e que na época estavam sob

domínio espanhol –, passaram a avaliar o potencial de uma nova rota de

especiarias; de fato, em meados do século XVII eles haviam superado os

portugueses quanto à tonelagem e ao número de navios contornando o

Cabo. Os franceses também entraram na lista.

E quanto aos ingleses, cujas ambições territoriais um dia não foram além

da França e cuja única ideia econômica inovadora na Idade Média fora

vender lã aos flamengos? Como poderiam ficar de fora enquanto chegavam

notícias de que seus arqui-inimigos, os espanhóis e os franceses, estavam

fazendo fortuna no além-mar? É claro que não tardou para que os ingleses

se somassem à corrida pelo comércio ultramarino. Em 1496, John Cabot fez

sua primeira tentativa de atravessar o Atlântico partindo de Bristol. Em

1553, Hugh Willoughby e Richard Chancellor partiram de Deptford à

procura de uma “passagem nordeste” para a Índia. Willoughby morreu

congelado na tentativa, mas Chancellor conseguiu chegar a Arcangel, e

então, por via terrestre, chegou à corte de Ivan, o Terrível, em Moscou. Em

seu retorno a Londres, Chancellor não tardou em empreender a Companhia

de Moscóvia para estabelecer relações comerciais com a Rússia (seu nome

completo era “The Mystery and Company of Merchant Adventurers for the

Discovery of Regions, Dominions, Islands, and Places unknown” [O ofício

e companhia de mercadores aventureiros para a descoberta de regiões,

domínios, ilhas e lugares desconhecidos]). Projetos similares proliferaram

com entusiástico apoio real, não só no Atlântico como também ao longo da

rota das especiarias. Em meados do século XVII, o comércio da Inglaterra

estava florescendo de Belfast a Boston, de Bengala às Bahamas.

O mundo estava sendo dilacerado em um frenesi de competição acirrada.

Mas a questão permanece: por que os europeus parecem ter muito mais

fervor comercial do que os chineses? Por que Vasco da Gama tinha tanta

fome de dinheiro – fome suficiente a ponto de matar por causa disso?

Podemos encontrar a resposta observando os mapas da Europa medieval,

que mostram literalmente centenas de Estados concorrentes, dos reinos da costa ocidental às muitas cidades-estados situadas entre o Báltico e o

Adriático, de Lübeck a Veneza. Havia aproximadamente mil cidades na

Europa do século XIV; e ainda cerca de 500 unidades mais ou menos

independentes 200 anos mais tarde. Por quê? A resposta mais simples é a

geografia. A China tinha três grandes rios, o Amarelo, o Yangtze e o Pérola,

todos fluindo de oeste para leste27. A Europa tinha muitos rios fluindo em

várias direções e uma série de cadeias montanhosas como os Alpes e os

Pirineus, sem falar das densas florestas e regiões pantanosas da Alemanha e

da Polônia. Talvez a China simplesmente estivesse mais exposta às

investidas dos mongóis; a Europa não podia ser facilmente invadida por um

bando de homens a cavalo – e, portanto, tinha menos necessidade de se

unir. Não temos como saber ao certo por que a ameaça da Ásia Central se

retirou da Europa após Timur. Talvez as defesas russas tenham melhorado.

Talvez os cavalos mongóis preferissem a grama das estepes.

É verdade que, conforme vimos, os conflitos podiam ser devastadores na

Europa – basta pensar no caos gerado pela Guerra dos Trinta Anos na

Alemanha, em meados do século XVII. Pobres daqueles que viviam na

fronteira entre os mais de dez Estados europeus que estiveram em guerra

durante, em média, mais de dois terços do tempo entre 1550 e 1650. Em

todos os anos de 1500 a 1799, a Espanha esteve em guerra contra inimigos

estrangeiros durante 81% do tempo; a Inglaterra, 53%; e a França, 52%.

Mas essas lutas constantes tiveram três vantagens não intencionais.

Primeiro, encorajaram a inovação em tecnologia militar. Em terra, as

fortificações tinham de ser mais fortes à medida que os canhões se

tornavam mais poderosos e fáceis de manobrar. O destino do castelo de

Tannenberg, acima de Seeheim, no sul da Alemanha, serviu como um

alerta: em 1399, esta se tornou a primeira fortificação europeia a ser

destruída com explosivos.

No mar, enquanto isso, os navios continuavam pequenos por boas razões.

Em comparação com a galera mediterrânea, cujo desenho pouco havia

mudado desde os tempos romanos, a caravela portuguesa do fim do século

XV, com suas velas redondas e seus dois mastros, encontrou um equilíbrio

ideal entre velocidade e potência. Era muito mais fácil de manobrar e muito mais difícil de acertar que um dos juncos gigantes de Zheng He. Em 1501, a

técnica francesa de colocar filas de canhão em alas especiais em ambos os

lados de um navio transformou os “homens de guerra” europeus em

fortalezas flutuantes28. Se houvesse ocorrido um encontro naval entre Zheng

He e Vasco da Gama, os portugueses possivelmente teriam afundado os

cascos dos navios chineses, feitos de tábuas de madeira, assim como, no

oceano Índico, deram cabo dos dhows árabes, menores, porém mais ágeis –

ainda que em Tamao, em 1521, uma frota de Ming tenha de fato afundado

uma caravela portuguesa.

A segunda vantagem da situação de guerra quase incessante da Europa é

que os Estados rivais se tornavam cada vez melhores no que dizia respeito a

levantar a verba necessária para financiar as campanhas. Medindo os

impostos em gramas ou prata por cabeça, os governantes da Inglaterra e da

França foram capazes de coletar muito mais que seus pares chineses durante

todo o período de 1520 a 163029. A começar pela Itália no século XIII, os

europeus também passaram a experimentar métodos sem precedentes de

empréstimo público, plantando as sementes dos atuais mercados de

obrigações. A dívida pública era uma instituição totalmente desconhecida

na China da dinastia Ming, e só foi introduzida no fim do século XIX, sob

influência europeia.

Outra inovação fiscal que transformou o mundo foi a ideia holandesa de

conceder direitos de monopólio comercial a empresas de capital aberto em

troca de uma participação em seus lucros, e uma compreensão de que as

empresas atuariam como fornecedoras de serviços navais contra as

potências inimigas. A Companhia Holandesa das Índias Orientais, fundada

em 1602, e sua imitação britânica epônima foram as primeiras verdadeiras

corporações capitalistas, com seu patrimônio líquido dividido em ações

negociáveis e pagando dividendos em moeda corrente a critério de seus

diretores. Mas no Oriente não surgiu nada que lembrasse essas instituições

incrivelmente dinâmicas. E, embora elas tenham aumentado a receita do

reino, também diminuíram as prerrogativas reais ao criar, nos primórdios do

Estado moderno, novos grupos de interesse que perdurariam até nossos

dias: banqueiros, debenturistas e diretores de empresas.

Acima de tudo, décadas de conflito interno garantiram que nenhum

monarca europeu jamais se tornasse forte o suficiente para ser capaz de

proibir a exploração ultramarina. Mesmo quando os turcos avançaram rumo

à Europa Oriental, tal como fizeram repetidas vezes nos séculos XVI e

XVII, não houve nenhum imperador pan-europeu para ordenar que os

portugueses suspendessem suas explorações marítimas e focassem no

inimigo a leste30. Ao contrário, todos os monarcas europeus estimulavam o

comércio, a conquista e a colonização como parte de sua competição uns

com os outros.

A guerra religiosa foi a ruína da vida europeia por mais de um século

depois que a reforma luterana varreu a Alemanha (ver Capítulo 2). Mas as

batalhas sangrentas entre protestantes e católicos, bem como as

perseguições periódicas e localizadas contra os judeus, também tiveram

efeitos colaterais benéficos. Em 1492, os judeus foram expulsos de Castela

e Aragão, sendo considerados hereges. Inicialmente, muitos deles

procuraram refúgio no Império Otomano, mas uma comunidade judaica se

estabeleceu em Veneza após 1509. Em 1566, com a revolta dos holandeses

contra o governo espanhol e o estabelecimento das Províncias Unidas como

uma república protestante, Amsterdã se tornou mais um porto de tolerância.

Quando os huguenotes protestantes foram expulsos da França em 1685, eles

conseguiram se restabelecer na Inglaterra, na Holanda e na Suíça31. E, é

claro, o fervor religioso forneceu outro incentivo para a expansão

ultramarina. O príncipe português Henrique, o Navegador, encorajou seus

marinheiros a explorar a costa africana, em parte na esperança de que

conseguissem encontrar o reino mítico perdido de Preste João, o santo

cristão, e que este pudesse ajudar a Europa a enfrentar os turcos. Além de

insistir na isenção das taxas alfandegárias indianas, Vasco da Gama teve a

audácia de exigir que Calicute expulsasse todos os muçulmanos de seu

reino, e travou uma campanha de pirataria contra navios muçulmanos com

destino a Meca.

Em suma, a fragmentação política que caracterizou a Europa

impossibilitou a criação de qualquer coisa que lembrasse remotamente o

império chinês. Também incentivou os europeus a procurar oportunidades – econômicas, geopolíticas e religiosas – em terras distantes. Você poderia

dizer que se tratou de dividir e governar – exceto que, paradoxalmente, foi

dividindo a si mesmos que os europeus conseguiram governar o mundo. Na

Europa, o pequeno era belo porque significava competição – e competição

não só entre Estados, mas também no interior destes.

Oficialmente, Henrique V era rei da Inglaterra, de Gales e até da França,

a qual reivindicava. Mas, na prática, na Inglaterra rural, o verdadeiro poder

estava nas mãos da grande nobreza, os descendentes dos homens que

haviam imposto a Carta Magna sobre o rei João, bem como milhares de

nobres proprietários de terras e inumeráveis corporações, eclesiásticas e

laicas. A Igreja só ficou sob controle real depois do reinado de Henrique

VIII. As cidades eram, com frequência, autogovernadas. E, o que é crucial,

o mais importante centro comercial do país era quase completamente

autônomo. A Europa não era só feita de Estados, como também de estratos:

aristocratas, clérigos e citadinos.

As origens e a estrutura da City of London Corporation [Corporação da

cidade de Londres] remontam ao século XII. Notadamente, em outras

palavras, o Lord Mayor, os sheriffs, os aldermen, o Common Council, os

liverymen e os freemen, todos estão lá há mais de 800 anos.32 A Corporação

de Londres é um dos mais antigos exemplos de instituição comercial

autônoma – em alguns aspectos, a precursora das corporações que

conhecemos hoje; em outros, a precursora da própria democracia.

Já nos anos 1130, Henrique I concedera aos cidadãos de Londres o direito

de escolher seu próprio xerife e juiz e de administrar seus assuntos jurídicos

e financeiros sem interferência da Coroa ou de outras autoridades33. Em

1191, enquanto Ricardo I empreendia uma cruzada na Terra Santa, o direito

de eleger um prefeito também foi concedido, um direito confirmado pelo rei

João em 121534. Em consequência, a cidade nunca reverenciou a Coroa.

Com o apoio dos homens livres de Londres, o prefeito Thomas fitz Thomas

apoiou a revolta de Montfort contra Henrique III em 1263-65. Em 1319, foi

a vez de Eduardo II de confrontar a cidade, quando os comerciantes de seda

procuraram reduzir os privilégios dos mercadores estrangeiros. Quando a

Coroa resistiu, a “plebe de Londres” apoiou Roger Mortimer na deposição do rei. No reinado de Eduardo III, a maré se voltou contra a cidade;

mercadores italianos e hanseáticos se estabeleceram em Londres e

ofereceram à Coroa empréstimos em condições generosas, uma prática que

continuou durante a minoridade de Ricardo II35. Mas os londrinos

continuaram a desafiar a autoridade real, mostrando pouco entusiasmo pela

causa da Coroa durante a Revolta dos Camponeses (1381) ou quando um

grupo de nobres – os chamados lords appelant – desafiou Ricardo. Em

1392, o rei revogou os privilégios e liberdades de Londres, mas cinco anos

depois uma generosa “doação” de 10 mil libras – negociada pelo prefeito

Whittington – assegurou sua restauração. Os empréstimos e doações à

Coroa se tornaram a chave da autonomia urbana. Quanto mais rica a cidade

se tornava, maior sua capacidade de alavancagem financeira. Whittington

emprestou a Henrique IV no mínimo 24 mil libras, e a seu filho Henrique V

em torno de 7.500 libras36.

Não só a cidade competia com a Coroa por poder. Havia competição até

mesmo no interior de Londres. As origens de todas as corporações de ofício

remontam ao período medieval: a dos tecelões, a 1130; a dos padeiros, a

1155; a dos vendedores de peixe, a 1272; a dos ourives, a dos alfaiates

mercantes e a dos comerciantes de peles, a 1327; a dos comerciantes de

seda, a 1364; a dos comerciantes de panos, a 1384; e a dos merceeiros, a

1428. Essas guildas exerciam considerável poder sobre seus setores

específicos da economia, mas também tinham poder político. Eduardo III

reconheceu isso quando declarou ser “um irmão” da Guilda dos Alfaiates –

mais tarde, Alfaiates Mercantes. Em 1607 os Alfaiates Mercantes

contavam, entre seus membros honorários passados e presentes, com sete

reis e uma rainha, 17 príncipes e duques, nove condessas, duquesas e

baronesas, mais de 200 condes, lordes e outros nobres e um arcebispo. As

“12 grandes” corporações – em ordem de prioridade: comerciantes de seda,

merceeiros, comerciantes de tecido, vendedores de peixe, ourives,

comerciantes de peles, alfaiates mercantes, comerciantes de aviamentos,

vendedores de sal, ferreiros, comerciantes de vinhos e tecelões – são um

lembrete da influência que os artesãos e os mercadores de Londres um dia

foram capazes de exercer, mesmo que seu papel hoje seja em grande medida cerimonial. Em seu apogeu competitivo, eles eram tão propensos a

disputar entre si quanto a jantar uns com os outros37.

Entre outras coisas, essa competição em vários níveis, entre Estados e

também no interior destes – e até mesmo no interior das cidades –, ajuda a

explicar a rápida disseminação e os avanços tecnológicos do relógio

mecânico na Europa. Já na década de 1330, Ricardo de Wallingford

instalara um relógio mecânico incrivelmente sofisticado na parede do

transepto sul da abadia de St. Albans, que mostrava o movimento da Lua,

das marés e de certos corpos celestes. Com seus característicos sinos que

soam de hora em hora – daí o nome: clock, clokke, Glocke, cloche (dos

vocábulos célticos clagan e clocca, que significam “sino”) –, o relógio

mecânico e o relógio de corda que o substituiu no século XV não só eram

mais precisos que os relógios d’água chineses, como também foram

concebidos para ser disseminados, em vez de monopolizados pelos

astrônomos do imperador. Assim, se a catedral de uma cidade instalava um

novo mostrador em sua torre, a cidade rival mais próxima logo se sentia na

obrigação de fazer a mesma coisa. Se os relojoeiros protestantes não eram

bem-vindos na França após 1685, os suíços os acolheram alegremente. E,

assim como com a tecnologia militar, a competição levou ao progresso, à

medida que os artesãos tratavam de introduzir melhorias pequenas mas

cumulativas à precisão e à elegância do produto. Na época em que o

missionário jesuíta Matteo Ricci levou os relógios europeus à China, no fim

do século XVI, estes eram tão superiores aos orientais que foram recebidos

com espanto38. Em 1602, por solicitação do imperador Wanli, Ricci

produziu em papel-arroz um belo mapa-múndi que retratava a China no

centro da Terra. Ele devia saber, no entanto, que em matéria de tecnologia o

país estava agora se deslocando para a periferia do globo.

Por possibilitar medições mais precisas e maior pontualidade nas ações

coordenadas, o relógio mecânico e, mais tarde, o relógio de pulso

avançaram de mãos dadas com a Europa e a propagação da civilização

ocidental. A cada novo relógio, menos tempo restava à era da supremacia

oriental.

Em comparação com a colcha de retalhos da Europa, a Ásia Oriental era –

pelo menos em termos políticos – um vasto cobertor monocromático. Os

principais concorrentes do Reino do Meio eram os saqueadores mongóis ao

norte e os piratas japoneses a leste. Desde a época de Qin Shihuangdi –

muitas vezes chamado de “primeiro imperador” da China (221-210 a.C.) –,

a maior ameaça viera do norte, demandando o espetacular investimento em

defesa imperial que conhecemos como a Grande Muralha. Nada

remotamente parecido foi construído na Europa da época de Adriano à de

Erich Honecker. Comparável em escala foi a rede de canais e trincheiras

que irrigavam as terras aráveis da China, que, segundo o sinólogo marxista

Karl Wittfogel, foi o produto mais importante de um despotismo oriental

“hidráulico-burocrático”.

A Cidade Proibida, em Pequim, é outro monumento a um poder chinês

monolítico. Para ter uma ideia de seu tamanho imenso e seu espírito

característico, os visitantes devem atravessar o Portão da Suprema

Harmonia e ir até o salão homônimo, que contém o próprio Trono do

Dragão, e então se dirigir ao Salão da Harmonia Central, a sala particular do

imperador, e daí ao Salão da Harmonia Preservada, o lugar onde era feita a

etapa final dos exames imperiais para selecionar servidores públicos (ver a

seguir). A harmonia ( ), parece estar claro, estava intimamente associada à

ideia de uma autoridade imperial não dividida39.

Assim como a Grande Muralha, a Cidade Proibida simplesmente não

encontrava um equivalente no Ocidente seiscentista, menos ainda em

Londres, onde o poder estava subdividido entre a Coroa, os Lordes

Temporais e Espirituais e os Comuns, bem como a Corporação da Cidade

de Londres e as corporações de ofício. Cada um destes tinha seus palácios e

salões, mas todos muito pequenos para os padrões orientais. Da mesma

maneira, enquanto os reinos europeus medievais eram governados por uma

combinação de clérigos e donos de terra hereditários, selecionados (e,

muitas vezes, impiedosamente descartados) com base no privilégio real, a

China era governada de cima para baixo por uma burocracia confuciana,

recrutada com base no sistema de exames que talvez seja o mais exigente de

toda a história. Aqueles que aspiravam a uma carreira no serviço imperial tinham de se submeter a três etapas de exaustivas provas realizadas em

centros de exame construídos especialmente para essa finalidade, como

aquele que ainda hoje pode ser visto em Nanquim: um enorme complexo

murado contendo milhares de minúsculas celas um pouco maiores que o

lavatório de um trem.

 

Esses minúsculos compartimentos de tijolo [escreveu um viajante europeu] tinham cerca de 1,1

metro de profundidade, 1 metro de largura e 1,7 metro de altura. Tinham duas bases de pedra, uma

servindo como mesa, a outra como assento. Durante os dois dias de duração do exame, soldados

situados na torre de vigilância observavam os candidatos [...] O único movimento permitido era a

entrada e saída de funcionários para repor comida e água, ou recolher dejetos humanos. Quando

um candidato ficava cansado, ele podia fazer sua cama e descansar todo encolhido. Mas uma luz

brilhante na cela vizinha provavelmente o levaria a se colocar de pé outra vez [...] Alguns

candidatos ficavam completamente loucos sob a pressão40.

 

Sem dúvida, após três dias e duas noites em uma caixa de sapato, eram os

candidatos mais hábeis – e, certamente, mais motivados – que passavam no

exame. Mas com essa forte ênfase nos Quatro Livros e Cinco Clássicos do

Confucionismo, com seus desconcertantes 431.286 caracteres a serem

memorizados, e o ensaio de oito partes, com estilo rígido, introduzidos em

1487, este era um exame que premiava a conformidade e a cautela41. Era

extremamente competitivo, sem dúvida, mas não era do tipo de competição

que promove a inovação, muito menos o apetite por mudança. A língua

escrita que estava no cerne da civilização chinesa foi concebida para a

produção de uma elite conservadora e a exclusão das massas. O contraste

dificilmente poderia ser maior com os vernáculos concorrentes da Europa –

italiano, francês, castelhano, além de português e inglês –, usados na

literatura da elite, mas que, com uma educação relativamente simples e fácil

de ser ampliada, estavam prontamente acessíveis a um público mais

amplo42.

Conforme o próprio Confúcio afirmou: “Um homem comum fica

maravilhado com coisas incomuns. Um homem sábio fica maravilhado com

o lugar-comum”. Mas havia coisas demais que eram lugar-comum no modo

como a China Ming funcionava, e muito poucas novidades.