Civilização: Ocidente X Oriente

Niall Ferguson · Capítulo 28 de 33

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Civilização: Ocidente X Oriente

A Jerusalém chinesa

ocidentalização: o crescimento do cristianismo, sobretudo na China.

 

A Jerusalém chinesa

 

A ascensão do espírito do capitalismo na China é uma história que todos

conhecem. Mas e quanto à ascensão da ética protestante? De acordo com

pesquisas distintas feitas pela China Partner e pela East China Normal

University em Xangai, há hoje cerca de 40 milhões de cristãos protestantes

na China, em comparação com apenas meio milhão em 1949. Algumas

estimativas são ainda maiores: 75 ou 110 milhões57. Incluindo 20 milhões

de católicos, o número de cristãos na China pode chegar a 130 milhões.

Hoje, de fato, pode ser que haja mais cristãos praticantes na China do que

na Europa58. Igrejas estão sendo construídas a um ritmo mais rápido na

China que em qualquer outra parte do mundo. E mais Bíblias estão sendo

impressas ali do que em qualquer outro país. A Amity Printing Company,

em Nanquim, é a maior editora de Bíblias do mundo. Sua enorme gráfica

produziu mais de 70 milhões de Bíblias desde que a empresa foi fundada

em 1986, incluindo 50 milhões de cópias em mandarim e outras línguas

chinesas59. É possível que, em três décadas, os cristãos sejam entre 20% e

30% da população chinesa60. Isso deve nos impressionar ainda mais se

considerarmos a resistência à difusão do cristianismo que marcou toda a

história da China.

O fracasso do protestantismo em suas tentativas anteriores de criar raízes

na China é um enigma. Houve missionários cristãos nestorianos na China

da dinastia Tang, já no século XVII. A primeira igreja católica romana foi

construída em 1299 por Giovanni da Montecorvino, nomeado bispo de

Khanbaliq em 1307. No fim do século XIV, no entanto, a maioria desses

postos avançados cristãos havia desaparecido em consequência da

hostilidade Ming. Uma segunda onda de missionários chegou no início do

século XVII, quando o jesuíta Matteo Ricci recebeu permissão para se

estabelecer em Pequim. É possível que, em 1700, o número de cristãos na China chegasse a 300 mil. Mas 1724 trouxe outra repressão com o Édito de

Expulsão e Confisco do imperador Yongzheng.61

A terceira onda cristã foram as missões protestantes do século XIX.

Organizações como as Sociedades Missionárias Britânicas enviaram

literalmente centenas de evangelistas para levar os ensinamentos de Jesus

ao país mais populoso da Terra. O primeiro a chegar foi um inglês de 25

anos chamado Robert Morrison, da Sociedade Missionária de Londres, que

chegou a Cantão (Guangzhou) em 1807. Seu primeiro passo, mesmo antes

de chegar, foi começar a aprender mandarim e a transcrever a Bíblia em

caracteres chineses. Uma vez em Cantão, ele começou a trabalhar em um

dicionário latim-chinês. Em 1814, então como empregado da Companhia

das Índias Orientais, Morrison concluíra as traduções dos Atos dos

Apóstolos (1810), o Evangelho segundo Lucas (1811), o Novo Testamento

(1812) e o Livro do Gênesis (1814), além das obras Summary of the

Doctrine of Divine Redemption (1811) e An Annotated Catechism in the

Teaching of Christ (1812). Isso foi suficiente para persuadir a Companhia

das Índias Orientais a permitir a importação de uma prensa tipográfica e de

um técnico para operá-la62. Quando, mais tarde, a Companhia o dispensou,

receosa de provocar a ira das autoridades chinesas, Morrison não se deixou

intimidar e continuou imprimindo. Ele se mudou para Málaca, onde fundou

uma Escola Anglo-Chinesa para “o cultivo da literatura e da ciência

europeia e chinesa, mas principalmente para a difusão do cristianismo em

todo o arquipélago oriental”, concluindo sua tradução da Bíblia – um

esforço conjunto com William Milne (publicada em 1823) –, e organizando

uma gramática inglesa para estudantes chineses, além de um dicionário

completo inglês-chinês. Antes de se reunir a sua primeira esposa e seu filho

no túmulo, no ano de 1834, em Cantão, Morrison havia concluído também

um Vocabulary of the Canton Dialect (1828). Ele realmente foi a ética da

educação protestante em carne e osso.

Mas os esforços dos primeiros missionários britânicos tiveram

consequências imprevistas. O governo imperial havia procurado proibir –

sob pena de morte – a conversão ao cristianismo afirmando que ela

encorajava atitudes populares “muito próximas de provocar uma rebelião”:

Dita religião não venera os espíritos, nem reverencia seus ancestrais; claramente, isso significa

percorrer o caminho contrário ao da doutrina legítima; e as pessoas comuns, que seguem e se

acostumam com tais ilusões, em que aspecto diferem de uma multidão rebelde?63

 

Isso foi um presságio. Um homem em particular reagiu à conversão ao

cristianismo da forma mais extrema que se poderia imaginar. Hong Xiuquan

esperava tomar o caminho tradicional para uma carreira no serviço civil

imperial, submetendo-se a uma sucessão de exames exaustivos que

determinavam a aptidão de um homem para o ofício de mandarim. Mas ele

foi reprovado, e, como acontece com tanta frequência com os candidatos, o

fracasso foi imediatamente seguido de um colapso total. Em 1833, Hong

conheceu William Milne, o coautor com Robert Morrison da primeira

Bíblia chinesa, cuja influência sobre ele coincidiu com sua recuperação da

depressão pós-exame. Sem dúvida, para alarme de Milne, Hong agora

anunciou que era o irmão mais novo de Jesus Cristo. Deus, ele declarou, o

havia enviado para livrar a China do confucionismo – a filosofia

introspectiva que considerava a competição, o comércio e a diligência tão

perniciosos quanto as importações. Hong criou a Society of God

Worshippers [Sociedade dos Adoradores de Deus], supostamente cristã, que

atraiu o apoio de dezenas de milhões de chineses, sobretudo das classes

mais pobres, e se proclamou líder do Reino da Paz Celestial. Em chinês, ele

era conhecido como Taiping Tianguo, daí o nome do motim que liderou – a

Rebelião Taiping. De Guangxi, os rebeldes correram para Nanquim, que o

autoproclamado Rei Celestial converteu em sua capital. Em 1853, seus

seguidores – identificados por jaquetas vermelhas, cabelos compridos e sua

insistência na estrita segregação dos sexos – controlaram todo o vale

Yangzi. Na sala do trono havia um estandarte com as palavras: “A ordem

veio de Deus para matar o inimigo e unir todas as montanhas e rios em um

só reino”.

Por um tempo, pareceu que os taiping realmente derrubariam todo o

império Qing. Mas os rebeldes não conseguiram tomar Pequim nem

Xangai. Aos poucos, a maré se voltou contra eles. Em 1864, o exército Qing cercou Nanquim. Na época em que a cidade caiu, Hong já havia sido

morto com comida envenenada. Só para ter certeza, os Qing exumaram seus

restos queimados e os atiraram de um canhão. Mesmo depois disso, foi só

em 1871 que o último exército taiping foi derrotado. O custo em vidas

humanas foi espantoso: mais que o dobro do da Primeira Guerra Mundial

para todos os estados combatentes. Estima-se que, entre 1850 e 1864, 20

milhões de pessoas no centro e no sul da China tenham perdido a vida

durante a rebelião, que deixou um rastro de fome e pestilência. No fim do

século XIX, muitos chineses haviam concluído que os missionários

ocidentais não passavam de mais uma influência estrangeira perturbadora

sobre o país, como os comerciantes de ópio. Em consequência, quando os

missionários britânicos voltaram à China após a Rebelião Taiping,

depararam com mais hostilidade para com os estrangeiros64.

Mas isso não os deteve. James Hudson Taylor tinha 22 anos quando fez

sua primeira viagem à China em nome da Sociedade da Evangelização

Chinesa. Incapaz, conforme afirmou, “de suportar a visão de uma

congregação de mil cristãos ou mais se regozijando em sua nova segurança

[em Brighton] enquanto milhões pereciam por falta de conhecimento” no

além-mar, Taylor fundou a Missão ao Interior da China em 1865. Sua

estratégia preferida era que os missionários usassem roupas chinesas e

adotassem o rabo de cavalo da era Qing. Assim como David Livingstone na

África, Taylor distribuía a doutrina cristã e a medicina moderna a partir de

sua sede em Hangzhou (Hangchow)65. Outro intrépido pescador de homens

da Missão foi George Stott. Nascido em Aberdeen, ele, que não tinha uma

das pernas, chegou à China aos 31 anos de idade. Uma de suas primeiras

ações foi abrir uma livraria com uma capela ao lado, onde ele fez um longo

discurso para uma multidão ruidosa, atraída mais por curiosidade que por

sede de redenção. Sua esposa fundou um internato para garotas66. Eles e

outros procuraram conquistar adeptos usando um novo aparato evangélico

engenhoso: o Wordless Book [Livro sem palavras], concebido por Charles

Haddon Spurgeon para incorporar as principais cores da tradicional

cosmologia de cores chinesa. Em uma versão amplamente usada, concebida

pelo norte-americano Dwight Lyman Moody em 1875, a página negra representava pecado, a vermelha, o sangue de Jesus, a branca, santidade, e a

dourada ou amarela, o céu67.

Uma direção totalmente diferente foi tomada por Timothy Richard, um

membro da Sociedade Missionária Batista, que afirmava que “a China

precisava do evangelho do amor e do perdão, mas também tinha

necessidade do evangelho do progresso material e do conhecimento

científico”68. Tendo como alvo as elites chinesas em lugar das massas

empobrecidas, Richard se tornou secretário da Sociedade para a Difusão do

Conhecimento Geral e Cristão entre os Chineses em 1891, e exerceu uma

importante influência sobre o Movimento de Autofortalecimento de Kang

Yu Wei, além de ter sido conselheiro do próprio imperador. Foi Richard que

assegurou a criação da primeira universidade chinesa em estilo ocidental,

em Shanxi (Shansi), fundada em 1902.

Em 1877, havia 18 missões cristãs diferentes em atividade na China, além

de três sociedades bíblicas. Taylor tinha especial talento para recrutar novos

missionários, incluindo um número atipicamente grande de mulheres

solteiras, não só da Grã-Bretanha como também dos Estados Unidos e da

Austrália69. Na melhor tradição protestante, as missões rivais competiam

furiosamente umas com a outras, e a Missão ao Interior da China e a

Sociedade Missionária Batista travaram uma guerra acirrada sobretudo em

Shanxi. Em 1900, no entanto, a xenofobia irrompeu mais uma vez no

Levante dos Boxers, quando outro culto estranho, a sociedade secreta dos

Punhos Harmoniosos e Justiceiros (yihe quan), procurou expulsar do país

todos os “demônios estrangeiros” – desta vez com a aprovação explícita da

imperatriz Dowager. Antes da intervenção de uma força multinacional e da

supressão dos boxers, 58 membros da Missão ao Interior da China

pereceram, junto com 21 de seus filhos.

Os missionários haviam plantado muitas sementes, mas, nas condições

cada vez mais caóticas que se seguiram à deposição da dinastia Qing, elas

germinaram para logo apodrecer. O fundador da Primeira República

Chinesa, Sun Yat-sen, foi um cristão de Guandong, mas morreu em 1924,

com a China à beira da guerra civil. Então, o líder nacionalista Chiang Kai-

shek e sua esposa – ambos cristãos70 – perderam para os comunistas na

longa guerra civil da China e acabaram tendo de fugir para Taiwan. Logo

após a Revolução de 1949, Chu En-lai e Y. T. Wu esboçaram um

“Manifesto Cristão” concebido para enfraquecer a posição dos missionários

com base na ideologia e no patriotismo71. Entre 1950 e 1952, a Missão ao

Interior da China optou por evacuar seu pessoal da República Popular72.

Depois que os missionários se foram, a maioria das igrejas foi fechada ou

transformada em fábricas. E permaneceram fechadas durante os 30 anos

seguintes. Cristãos como Wang Mingdao, Allen Yuan e Moses Xie, que se

recusaram a entrar para o Movimento Patriótico das Três Autonomias,

ligado à Igreja Protestante e controlado pelo Partido, foram presos (em cada

caso, por 20 anos ou mais)73. Os anos calamitosos do indevidamente

chamado Grande Salto para a Frente (1958-62) – na realidade uma época de

privação provocada pelo homem que cobrou cerca de 45 milhões de vidas74 – presenciaram uma nova onda de fechamento de igrejas. Houve uma

completa iconoclastia durante a Revolução Cultural (1966-76), que também

levou à destruição de muitos templos budistas antigos. O próprio Mao, “o

Messias do Povo Trabalhador”, tornou-se objeto de um culto à

personalidade ainda mais insano que o de Hitler e o de Stalin75. Sua esposa

esquerdista Jiang Qing declarou que o cristianismo na China fora

consignado aos museus76.

Para Max Weber e muitos especialistas ocidentais do século XX,

portanto, não é surpreendente que a probabilidade de uma protestantização

da China e, portanto, de sua industrialização parecesse ínfima – quase tão

ínfima quanto a descristianização da Europa. A escolha para a China

parecia ser uma escolha simples entre a estagnação confuciana e o caos.

Isso torna ainda mais surpreendentes as imensas transformações de nossa

época.

A cidade de Wenzhou, na província de Zhejiang, ao sul de Xangai, é a

típica cidade manufatureira. Com uma população de 8 milhões e em

crescimento, tem a reputação de ser a cidade mais empreendedora da China

– um lugar onde o livre-mercado governa e o papel do Estado é mínimo. A

paisagem de tecelagens e pilhas de carvão teria sido reconhecida de

imediato por um vitoriano; é uma Manchester asiática. A ética do trabalho

anima a todos, do mais próspero empreendedor ao mais reles operário. O

povo de Wenzhou não só trabalha mais horas que os norte-americanos,

como também poupa uma proporção muito maior de sua renda. Entre 2001

e 2007, em uma época em que as economias norte-americanas

despencaram, as chinesas subiram para mais de 40% do Produto Interno

Bruto. Em média, os lares chineses economizam mais de um quinto do

dinheiro que ganham; as corporações economizam ainda mais na forma de

lucros retidos.

O que mais fascina, no entanto, é o fato de as pessoas em Wenzhou terem

importado do Ocidente mais do que a ética do trabalho. Também

importaram o protestantismo. Pois as sementes que os missionários

britânicos plantaram ali há 150 anos também brotaram tardiamente da

maneira mais extraordinária. Antes da Revolução Cultural havia 480 igrejas na cidade, e hoje há 1.339 – e estas são apenas as aprovadas pelo governo.

A igreja George Stott construída há cem anos hoje lota todos os domingos.

Outra, fundada pela Missão ao Interior da China em 1877, mas fechada

durante a Revolução Cultural e só reaberta em 1982, atualmente tem uma

congregação de 1.200 pessoas. Há também novas igrejas, muitas vezes com

cruzes de neon vermelho brilhante no telhado. Não é de admirar que eles

chamem Wenzhou de Jerusalém chinesa. Já em 2002, cerca de 14% da

população de Wenzhou era cristã; a proporção atual é certamente maior. E

essa é a cidade que Mao proclamou “livre de religião” em 1958. Há não

muito tempo, em 1997, as autoridades locais lançaram uma campanha para

“remover as cruzes”. Hoje, elas parecem ter desistido. Na zona rural nas

proximidades de Wenzhou, os povoados competem descaradamente para

ver qual deles tem a igreja com a torre mais alta.

O cristianismo na China hoje está longe de ser o ópio das massas77. Entre

os crentes mais devotos de Wenzhou estão os chamados Boss Christians,

empreendedores como Hanping Zhang, presidente da Aihao (cujo caractere

chinês pode significar “amor”, “bondade” ou “passatempo”), uma das três

maiores fabricantes de canetas do mundo. Um cristão devoto, Zhang é a

personificação viva do vínculo entre o espírito do capitalismo e a ética

protestante, precisamente como Max Weber o entendeu. Ex-agricultor, ele

começou um negócio de plásticos em 1979 e, oito anos depois, abriu sua

primeira fábrica de canetas. Hoje, emprega cerca de 5 mil pessoas, que

produzem até 500 milhões de canetas por ano. Ele acredita que o

cristianismo esteja prosperando na China porque oferece um modelo ético

para um povo que está se esforçando para lidar com uma transição social

incrivelmente rápida do comunismo ao capitalismo. A confiança é escassa

na China de hoje, segundo ele me disse. Com frequência, as autoridades do

governo são corruptas. Suas contrapartes nos negócios trapaceiam. Os

trabalhadores roubam dos patrões. Jovens mulheres se casam e então

desaparecem com o dote obtido com esforço. Os alimentos para bebês são

produzidos com ingredientes tóxicos, os edifícios escolares são construídos

com materiais defeituosos. Mas Zhang sente que pode confiar em seus

companheiros cristãos, porque sabe que eles são trabalhadores e

honestos78. Assim como na Europa e na América protestantes nos

primeiros dias da Revolução Industrial, as comunidades religiosas

funcionam como redes creditícias e, ao mesmo tempo, como cadeias de

fornecimento, formadas por crentes dignos de crédito e de confiança.

No passado, as autoridades chinesas olhavam o cristianismo com grande

suspeita, e não só porque se lembravam do caos provocado pela Rebelião

Taiping. Seminaristas desempenharam um importante papel no movimento

pró-democracia na praça Tiananmen; de fato, dois dos líderes estudantis

mais procurados no verão de 1989 posteriormente se tornaram clérigos

cristãos. Em consequência daquela crise, houve ainda outra repressão contra

as igrejas não oficiais79. Ironicamente, o caráter utópico do maoismo criou

um apetite que hoje, com uma liderança partidária mais tecnocrática que

messiânica, só o cristianismo parece capaz de satisfazer80. E, assim como na

época da Rebelião Taiping, alguns chineses de hoje são inspirados pelo

cristianismo a abraçar cultos decididamente estranhos. Membros do

movimento Iluminação Oriental, ativo nas províncias de Henan e de

Heilongjiang, acreditam que Jesus voltou como mulher. Eles se envolvem

em batalhas sanguinárias com seus arquirrivais, os Three Grades of

Servants81. Outro movimento radical supostamente cristão é o movimento

Nascidos Novamente, de Peter Xu, também conhecido como Total Scope

Church ou Shouters (“gritalhões”) devido a seu estilo ruidoso de devoção,

em que o choro é um imperativo. Tais seitas são vistas pelas autoridades

como xie jiao, ou cultos diabólicos, como o Falun Gong, o movimento

proibido de prática respiratória82. Não é difícil perceber por que o Partido

prefere revivificar o confucionismo, com sua ênfase no respeito pela

geração mais velha e pelo equilíbrio tradicional de uma “sociedade

harmoniosa”83. Nem tampouco é surpreendente que a perseguição de

cristãos tenha aumentado durante as Olimpíadas de 2008, uma época de

exposição máxima da capital da nação às influências estrangeiras84.

Mesmo sob o regime de Mao, no entanto, um protestantismo oficial foi

tolerado na forma do Movimento Patriótico das Três Autonomias, baseado

nos princípios de autogoverno, autofinanciamento e autodifusão – em

outras palavras, sem influências estrangeiras85. Hoje, a St. Paul’s em Nanquim é uma típica igreja oficial das Três Autonomias; aqui, a

congregação do reverendo Kan Renping cresceu de algumas centenas,

quando ele assumiu em 1994, para cerca de 5 mil fiéis regulares. É tão

popular que os recém-chegados têm de assistir aos procedimentos na

televisão de circuito fechado em quatro capelas próximas equipadas com

satélite. Desde a edição número 19 do Documento do Partido em 1982, há

também tolerância oficial intermitente ao movimento das “igrejas

domésticas”, congregações que se encontram de maneira mais ou menos

secreta na casa das pessoas e muitas vezes abraçam as formas norte-

americanas de culto86. Na própria Pequim, os fiéis se aglomeram na Igreja

Zion do reverendo Jin Mingri, uma igreja não oficial com 350 membros,

quase todos oriundos da classe empreendedora ou profissional e com menos

de 40 anos de idade. O cristianismo se tornou elegante na China. O ex-

goleiro de futebol Gao Hong é cristão, assim como a atriz de televisão Lu

Liping e o cantor pop Zheng Jun87. Acadêmicos chineses como Tang Yi

especulam abertamente que “a fé cristã pode chegar a conquistar a China e

cristianizar a cultura chinesa” – embora ele pense que é mais provável que

“o cristianismo seja absorvido pela cultura chinesa, seguindo o exemplo do

budismo [...] e se torne uma religião sem pecado do gênero chinês” ou que

“o cristianismo mantenha suas características básicas ocidentais e passe a

ser a religião de uma subcultura minoritária”88.

Após muita hesitação, pelo menos alguns dos líderes comunistas da

China parecem reconhecer hoje o cristianismo como uma das grandes

fontes de influência do Ocidente89. De acordo com um estudioso da

Academia Chinesa de Ciências Sociais:

 

Pediram que investigássemos as razões para a [...] supremacia do Ocidente em todo o mundo [...]

Primeiro, pensamos que era porque vocês tinham armas mais poderosas do que nós. Então

pensamos que era porque vocês tinham o melhor sistema político. Depois focamos em seu sistema

econômico. Mas, nos últimos 20 anos, percebemos que o cerne de sua cultura é sua religião: o

cristianismo. É por isso que Ocidente é tão poderoso. A base moral cristã da vida social e cultural

foi o que tornou possível o surgimento do capitalismo e então a transição bem-sucedida para a

política democrática. Não temos dúvida alguma quanto a isso 90.