Civilização: Ocidente X Oriente
Revoluções americanas
Uma vez que os índios daquele lugar, que estarão envolvidos em nossa plantação, desconhecem
totalmente o cristianismo, que sua idolatria, ignorância ou erro não nos dá o direito de expulsá-los
ou maltratá-los; e, inevitavelmente, que aqueles que vêm de outras partes para plantar terão
opiniões diferentes com relação a questões religiosas, eles esperam ter liberdade quanto a isso, e,
portanto, não será razoável excluí-los; é possível manter a paz civil em meio à diversidade de
opiniões, e cumprir, de maneira fiel e obediente, nosso acordo e pacto com todos os homens; sua
violação, por qualquer que seja o motivo, não pode ocorrer sem que constitua uma grave ofensa ao
Deus Todo-Poderoso, e grande escândalo para a religião que professamos; e também, que judeus,
pagãos e outros que dissentem da pureza da religião cristã não sejam intimidados nem afastados
dela, mas, tendo uma oportunidade de se familiarizarem com a verdade e a razoabilidade de suas
doutrinas, e de ver que aqueles que as professam são pacíficos e inofensivos, sejam convencidos –
por bom uso e persuasão, e por todos os métodos convincentes de delicadeza e docilidade, de
acordo com os preceitos e os desígnios do evangelho – a abraçar e genuinamente receber a
verdade; portanto, quando sete pessoas ou mais se colocam de acordo sobre qualquer religião,
devem constituir uma igreja ou profissão, à qual devem dar um nome, para distingui-la das demais
[grifo nosso].
Foi necessária uma notável autoconfiança, após tantos anos de intenso
conflito religioso na Europa, para vislumbrar uma sociedade em que
bastava um grupo de sete pessoas para fundar legitimamente uma nova
igreja. Essas profundas diferenças entre as sociedades civis das colônias da
América do Norte e do Sul teriam consequências duradouras quando
chegou o momento de governarem a si mesmas de maneira independente.
Revoluções americanas
Em 1775, apesar de todas as profundas diferenças econômicas e sociais que
se desenvolveram entre elas, a América do Norte e a do Sul continuavam
compostas de colônias governadas por reis distantes. Isso, no entanto,
estava prestes a mudar.
Em 2 de julho de 1776, uma grande multidão se reuniu na entrada da
antiga bolsa de comércio de Charleston para escutar o governo da Carolina
do Sul declarar a independência da colônia com relação à Grã-Bretanha. Foi
a primeira a fazê-lo. Cerca de 40 anos mais tarde, o governo espanhol
chegou ao fim na América Latina. Mas enquanto uma revolução consolidou
os direitos democráticos dos proprietários de terras, e criou uma república federativa que em cem anos seria o país mais rico do mundo, as revoluções
sul-americanas destinaram toda a América ao sul do Rio Grande a dois
séculos de divisão, instabilidade e subdesenvolvimento. Por que isso
ocorreu?
Tanto o império espanhol quanto o britânico estavam em crise no fim do
século XVIII. A maior regulação do comércio transatlântico por parte das
autoridades imperiais e o alto custo da Guerra dos Sete Anos (1756-63)
pavimentaram o caminho para revoltas coloniais. Aquelas que irromperam
nas colônias britânicas na América durante os anos 1770 tiveram seu
equivalente nas colônias espanholas: a Rebelião Andina de Túpac Amaru II,
de 1780-83, e a Revolta dos Comuneros em Nova Granada (atual
Colômbia), em 1781. Mas quando a independência foi reivindicada por 13
das colônias britânicas na América do Norte, foi a reação de uma sociedade
conscientemente libertária de comerciantes e proprietários rurais contra
aquela que consideravam uma extensão exacerbada da autoridade imperial.
Não foi só a velha questão da tributação e da representação o que causou
essa que pode ser legitimamente entendida como uma consequência da
Guerra Civil Inglesa dos anos 164047. De maneira significativa, a terra
desempenhou um papel de vital importância na Revolução Americana. A
tentativa do governo britânico de limitar a ocupação de terras a oeste dos
montes Apalaches acertou em cheio a visão de futuro expansionista dos
colonos48 – uma visão de evidente rapinagem que agradava sobretudo a
especuladores como George Washington.49 Quando o governo em Londres
fez acordos com as tribos indígenas durante a Guerra dos Sete Anos,
Washington presumiu que esses fossem meros expedientes dos tempos de
guerra. Ele ficou chocado quando as terras dos indígenas foram
efetivamente asseguradas pela proclamação real de 1763:
Não posso entender aquela Proclamação (mas digo isso entre nós) senão como um expediente
momentâneo para acalmar os ânimos dos indígenas [ele escreveu para seu futuro sócio William
Crawford, em 1767]. Sem dúvida, será anulada em alguns anos, sobretudo quando os indígenas
concordarem com que ocupemos suas terras. Qualquer pessoa [...] que negligenciar a presente
oportunidade de sair em busca de boas terras, e de alguma forma delimitá-las e demarcá-las para si
próprio, a fim de evitar que outros as ocupem, jamais terá uma nova chance de adquiri-las. Se
você se der ao trabalho de procurar terras, eu me encarregarei de assegurá-las, assim que tiver uma
possibilidade de fazê-lo, e, além do mais, arcarei com todos os custos e obrigações de inspecioná-
las e patenteá-las [...] Agora talvez seja fácil para você perceber que meu plano é garantir uma boa
parte das terras. Consequentemente, você receberá uma quantidade generosa [...] [Mas] mantenha
todo este assunto em segredo, ou só o confie [...] àqueles que possam ajudá-lo a concretizá-lo
explorando novas terras50.
Em 1768, Washington adquiriu 45 mil acres dos atuais condados de
Mason, Putnam e Kanawha, no território que hoje corresponde à Virgínia
Ocidental; ele também foi beneficiário direto da subsequente expulsão das
tribos de Delaware, Shawnee e Mingo das terras ao sul do rio Ohio. Mas, a
seus olhos, a Lei do Quebec de 1774 tornou as coisas piores, não só por
expandir o então Canadá francês para os atuais territórios de Illinois,
Indiana, Michigan, Ohio, Wisconsin e partes de Minnesota, como também
por garantir a liberdade de culto aos católicos francófonos. Não é de
surpreender que os rebeldes da Nova Inglaterra tenham agrupado essa lei,
junto com as quatro medidas punitivas após a Festa do Chá de Boston,
como uma das “Leis Intoleráveis”.
A guerra poderia ter sido evitada se Londres tivesse feito concessões
oportunas às principais questões de tributação e representação. E poderia ter
tomado outro rumo se os generais ingleses Howe e Burgoyne tivessem sido
mais competentes em suas funções. Talvez uma diplomacia mais acertada
pudesse ter evitado o fatídico isolamento da Grã-Bretanha que culminou na
vitória francesa – pois isso foi o que ocorreu – em Yorktown em 1781. É até
mesmo possível imaginar as 13 colônias posteriormente se fragmentando
em vez de se unindo. Os problemas econômicos da guerra e do pós-guerra
foram graves: a inflação se aproximava de 400% ao ano, atingindo seu pico
em 1779; uma recessão reduziu pela metade a renda per capita entre 1774 e
1790, quando a dívida acumulada equivalia a 62% do Produto Interno
Bruto; os estados impunham tarifas uns sobre os outros, e – o que é pior –
proprietários rurais de Massachusetts como Daniel Shays foram impelidos
ao confronto direto quando suas propriedades foram confiscadas para pagar
impostos devidos e dívidas privadas. Se a revolução não tivesse ido além
dos Artigos da Confederação, talvez o destino da América do Norte tivesse sido mais parecido com o da América do Sul – uma história de
fragmentação em vez de unificação. Foi preciso a Constituição de 1787, a
mais impressionante obra de criação institucional política em toda a
história, para instaurar uma estrutura federal viável para a nova república,
criando não só um quarteto de poderes lockiano – Executivo, Legislatura
Bicameral e Suprema Corte – como também um único mercado, uma única
política comercial, uma única moeda, um único exército e (o que é notável)
uma única lei de bancarrota para pessoas cujas dívidas excediam suas
propriedades – sem esquecer uma emenda, a Quarta, protegendo o
indivíduo contra “buscas e apreensões abusivas”.
Na raiz de tudo estava a propriedade. E a esse respeito Washington foi um
daqueles homens obstinados que se saíram bem com a Guerra de
Independência. Seu testamento, executado em 1800, lista um total de
52.194 acres de terra na Virgínia, na Pensilvânia, em Maryland, em Nova
York, no Kentucky e no vale de Ohio, além de terrenos em várias cidades
da Virgínia: Alexandria, Winchester, Bath (atual Berkeley Springs, Virgínia
Ocidental) e a recém-fundada cidade que recebera seu nome. Nada poderia
ilustrar melhor a firmeza do nexo entre terra e liberdade nos primórdios da
história dos Estados Unidos. Na América do Sul, os índios trabalharam a
terra. Na América do Norte, eles a perderam.
O George Washington da América do Sul deveria ter sido Simón Bolívar.
Ele também derrubou um império – o da Espanha. Mas não conseguiu criar
os Estados Unidos da América do Sul. A Revolução Americana não só
conseguiu a unificação das ex-colônias britânicas (embora, é claro, as
colônias canadenses e caribenhas tenham permanecido fiéis ao império,
assim como muitos norte-americanos fiéis à Coroa que escolheram deixar a
nova república)51, mas também levou os Estados Unidos a um status até
hoje inigualado de prosperidade e poder. Já a independência da Espanha
deixou a América do Sul com um duradouro legado de conflito, pobreza e
desigualdade. Por que o capitalismo e a democracia não prosperaram na
América Latina? Por que, quando perguntei a um colega em Harvard se ele
achava que a América Latina pertencia ao Ocidente, ele ficou em dúvida?
Por que, em suma, Bolívar não foi o Washington latino?
Nascido em julho de 1783, filho de um próspero plantador de cacau
venezuelano, órfão antes dos 10 anos de idade e soldado antes dos 14,
Bolívar estudou na Espanha e na França, vivendo um tempo em Paris em
1804 depois que todos os estrangeiros – inclusive os criollos latino-
americanos – haviam sido expulsos de Madri em resposta a uma carência de
alimentos. Ele regressou à Venezuela em 1807, tão inspirado pela fase
napoleônica da Revolução Francesa (ver Capítulo 4) quanto decepcionado
com o governo espanhol. Bolívar já vinha sonhando com mudanças
análogas em sua terra natal. Mas quando a Revolução chegou à América do
Sul, não foi tanto um plano premeditado, mas mais uma resposta caótica ao
vácuo repentino de poder após o ataque de Napoleão à Espanha, em 1808.
Dois anos mais tarde, Bolívar foi enviado a Londres para obter apoio
britânico no caso de um ataque francês às colônias espanholas na América.
Ele não conseguiu, mas conheceu Francisco de Miranda e se tornou amigo
dele, o veterano que já havia lutado pela independência venezuelana. Ao
voltar para casa em julho de 1811, eles proclamaram a Primeira República
da Venezuela.
A república terminou em fracasso. A Constituição de 1811 confinava
explicitamente o direito de voto aos proprietários de terras, mas, conforme
veremos, isso excluía uma proporção muito maior da população do que as
regras equivalentes na América do Norte. O resultado foi que os que não
tinham propriedades, incluindo um grande número de escravos libertos (os
pardos), apoiaram a causa monarquista52. Depois que os monarquistas
asseguraram Puerto Cabello, Bolívar ficou desiludido com Miranda e o
entregou aos espanhóis. Fugindo para Nova Granada, Bolívar então
procurou reunir os criollos lá, visando uma segunda conclamação à
independência.
Tendo proclamado uma Segunda República na qual ocupou o papel de
ditador, Bolívar lançou a chamada campaña admirable, na qual expulsou os monarquistas de Mérida, Bogotá, Caracas e Trujillo, e que lhe conferiu o
epíteto de el Libertador. Seu Decreto de Guerra ou Morte, em 1813, ilustra
a crueldade cada vez maior do conflito: “Todo espanhol que, por todos os
meios ativos e efetivos, não atuar contra a tirania em nome desta causa justa
será considerado um inimigo e punido; como traidor da nação, será
inevitavelmente fuzilado por um pelotão”53. Prisioneiros eram mortos de
forma rotineira – em certa ocasião, 800 de uma vez. Bolívar só parou
quando um de seus confederados, apelidado el Diablo, enviou-lhe a cabeça
de um ancião espanhol. Mas, apesar desse ato de terrorismo, os não brancos
continuaram a defender os monarquistas. Um terremoto devastador que
assolou Caracas em março de 1812, matando cerca de 10 mil pessoas,
parecia confirmar a condenação da Igreja ao movimento de
independência.54 Bolívar foi tipicamente desafiador, declarando: “Se a
natureza está contra nós, nós lutaremos contra ela e a forçaremos a nos
obedecer”55. Seu maior problema, no entanto, não era a natureza, e sim José
Tomás Boves, um espanhol renegado cujo caótico exército de llaneros –
índios, escravos fugitivos e desertores mais interessados em pilhagem do
que em liberdade – se mostrou impossível de subjugar56. Uma sucessão de
infortúnios militares nas mãos deles forçou Bolívar a fugir de novo, desta
vez para a Jamaica. Uma breve permanência no Haiti só aumentou sua
convicção de que a libertação dos escravos da Venezuela agora deveria se
tornar parte de sua estratégia. Só tornando a causa da independência
atraente tanto para os negros quanto para os criollos brancos é que ele
poderia ter sucesso57. Bolívar, agora, dirigia seus apelos a todos os sul-
americanos, inclusive à gente de color58.
Funcionou – ao menos por um tempo. Seduzidos pela oferta de
representação política, muitos pardos se alistaram no exército de Bolívar. O
símbolo de suas aspirações se tornou Manuel Carlos Piar, filho de um
comerciante espanhol e de uma mulata metade holandesa, metade africana,
oriunda de Curaçao. O fato de um mulato como Piar obter o posto de
general comandante parecia provar que Bolívar era sincero em sua
pretensão de ser o libertador de todos os sul-americanos,
independentemente de sua cor. Enquanto isso, o apoio espanhol à reafirmação da autoridade real estava desvanecendo. Em 1820, houve uma
enorme rebelião em Cádiz entre os 14 mil homens prestes a atravessar o
Atlântico para “recolonizar a América”59. Esse foi um duro golpe para
Pablo Morillo, o comandante monarquista, cuja tarefa ingrata era sustentar
o império decadente da Espanha.
A maré estava virando a favor de Bolívar. Mas ainda havia muitas
batalhas pela frente. Para reforçar ainda mais as forças à sua disposição,
Bolívar agora procurava auxílio no exterior60. Curiosamente, ele o
encontrou na Grã-Bretanha.
É um tanto destoante encontrar nomes como Brown, MacGregor e até
mesmo Ferguson – para não mencionar O’Connor, O’Leary e Robertson –
gravados proeminentemente no grandioso monumento aos pais fundadores
da Venezuela, no centro de Caracas. Mas esses foram apenas alguns dos
soldados britânicos e irlandeses que lutaram e, em muitos casos, morreram
pela causa da liberdade latino-americana entre 1810 e 1825.
Ao todo, por volta de 7 mil voluntários britânicos e irlandeses se
apresentaram para ajudar a libertar a América do Sul do governo espanhol.
Alguns eram veteranos das guerras napoleônicas que não tinham nenhum
interesse na paz que se seguiu a Waterloo. Mas a maioria (dois terços do
total) era composta de militares principiantes. Alguns sem dúvida foram
inspirados pela causa nobre que Bolívar agora personificava: uma América
do Sul livre e unida. Após 1815, a libertação estava no ar, e outros
idealistas, dos quais o mais famoso é Byron, foram ajudar os gregos a
combater os otomanos para recuperar sua independência. Mas, assim como
os primeiros britânicos que migraram para a América do Norte, a maioria
dos que velejaram à Venezuela foi atraída sobretudo por promessas de terra
– os haberes militares prometidos como recompensa pelo serviço militar.
Entre eles estava um jovem capitão de Manchester chamado Thomas
Ferrier, que logo assumiu o comando da legião britânica de Bolívar.
A primeira visão que Ferrier teve da nova América Bolivariana foi uma
cidade chamada Angostura (o lar do aperitivo amargo)61 nas margens
inóspitas do rio Orinoco, onde Bolívar havia estabelecido sua base. Durante
quatro anos, ele e seus homens lutaram em uma sucessão de batalhas da costa do Atlântico à do Pacífico. Em agosto de 1819, após a Batalha de
Boyacá, ajudaram a tomar Tunja e Bogotá, onde Bolívar proclamou a
República da Colômbia62. Então, eles se voltaram para o norte, rumo à
Venezuela. Finalmente, em 24 de junho de 1821, chegaram a Carabobo, ao
sul de Puerto Cabello. Essa seria a batalha decisiva da campanha
venezuelana de Bolívar. Cerca de 6.500 republicanos enfrentaram 5 mil
monarquistas leais à Espanha. Se as tropas de Bolívar conseguissem ganhar,
a estrada rumo a Caracas, a leste, ficaria livre.
Bolívar ordenou que 600 homens sob o comando de Ferrier flanqueassem
os espanhóis, que se entrincheiraram em uma colina que controlava o
campo de batalha. Eles conseguiram se aproximar sem ser vistos ao longo
de valas bem escondidas. Mas, assim que foram avistados, os espanhóis
abriram fogo com pelo menos dois canhões e 3 mil mosquetes. No calor
abafado, Ferrier esperou, em vão, que Bolívar enviasse reforços.
Finalmente, receberam ordens de avançar. O ataque de baioneta que se
seguiu foi um dos maiores feitos militares já vistos nos campos de batalha
da América do Sul. Um relato o descreve como “uma tarefa que requeria
não só coragem heroica, mas resistência herculana e determinação feroz
para continuar enquanto restasse a última fagulha de vida e força”. Quando
a posição inimiga foi tomada, Ferrier sucumbiu, ferido mortalmente. Um
Bolívar extasiado proclamou os soldados britânicos: “Salvadores de mi
Patria!”.
Bolívar era agora o senhor daquela que chamou de “Grã-Colômbia”,
englobando Nova Granada, Venezuela e Quito (atual Equador). José de San
Martín, o libertador da Argentina e do Chile, lhe havia cedido liderança
política. Em abril de 1825, seus homens expulsaram as últimas forças
espanholas do Peru; o Alto Peru fora renomeado “Bolívia” em sua
homenagem. O passo seguinte foi criar uma Confederação Andina reunindo
a Grã-Colômbia, o Peru e a Bolívia.
Por que a Grã-Colômbia de Bolívar não foi capaz de se estabelecer como
o centro dos Estados Unidos da América Latina? A resposta superficial
reside em sua determinação de centralizar o poder e em sua resistência aos caudilhos regionais, que haviam ocupado o vácuo deixado pelo colapso
espanhol63. Mas essa resposta ignora três dificuldades mais profundas64.
A primeira é que os sul-americanos praticamente não tinham experiência
alguma em tomada de decisões democrática, do tipo que fora usual nas
assembleias das colônias norte-americanas desde o início. De fato, uma vez
que o poder estivera tão concentrado nas mãos dos peninsulares, nascidos
na Espanha, os criollos tinham pouca experiência em qualquer tipo de
responsabilidade administrativa. Conforme afirmou Bolívar em 1815:
Nós não somos [...] nem índios, nem europeus, mas uma espécie intermediária entre os
proprietários legítimos deste território e os usurpadores espanhóis [...] Nós fomos tolhidos e, de
certo modo, removidos do mundo com relação à ciência do governo e à administração do Estado.
Nunca fomos vice-reis nem governadores, com a exceção de raríssimos casos; poucas vezes
arcebispos e bispos; diplomatas, nunca; como militares, apenas subordinados; como nobres, sem
privilégios reais. Em síntese, não fomos nem magistrados nem financistas e raramente
comerciantes65.
Bolívar ficou consternado com as disputas faccionárias que presenciou
nas assembleias criollas de Nova Granada66. Em seu Manifesto de
Cartagena, de 1812, ele desdenhou “o [...] fatal [...] sistema tolerante [...],
um sistema há muito condenado como débil e ineficaz por todo homem
sensato” e a “clemência criminal” dos “visionários benevolentes que,
criando repúblicas fantásticas em sua imaginação, procuraram alcançar a
perfeição política, presumindo a perfectibilidade da raça humana”. Além
disso, denunciou a experiência federalista da Primeira República
Venezuelana, que “ao autorizar o autogoverno, rompe os pactos sociais e
reduz as nações à anarquia”67. Na época de seu segundo período de exílio na
Jamaica, Bolívar se convencera de que “as instituições que são totalmente
representativas não são adequadas para nosso caráter, costumes e
conhecimento atual”68. Dois anos antes da Batalha de Carabobo, ele se
dirigiu ao recém-formado Congresso de Angostura em um espírito similar:
Embora a nação tenha como berço a liberdade, tenha se criado na liberdade e se alimente de pura
liberdade; […] é surpreendente […] que um governo tão débil e complicado como o federal tenha
conseguido governá-la em circunstâncias tão difíceis e delicadas como as passadas […].
Para ele, a Constituição dos Estados Unidos demandaria uma “república
de santos” para funcionar69. Tal sistema não poderia funcionar na América
do Sul:
Independentemente de quão eficaz seja esta forma de governo na América do Norte, devo dizer
que nem remotamente passou pela minha cabeça comparar a situação e a natureza de dois Estados
tão distintos como a América inglesa e a espanhola.
Portanto, o sonho de Bolívar não era a democracia, e sim a ditadura; não
o federalismo, e sim a centralização da autoridade, porque, conforme ele
afirmara no Manifesto de Cartagena, “nossos concidadãos não são capazes
de exercer plenamente seus direitos por si mesmos, pois carecem das
virtudes políticas que caracterizam os verdadeiros republicanos”70. Sob a
Constituição que ele concebeu – que, entre outras peculiaridades,
contemplava uma legislatura tricameral –, Bolívar se tornaria ditador
perpétuo, com o direito de nomear seu sucessor. “Estou absolutamente
convencido”, declarou, “de que a América só pode ser governada por um
despotismo capaz [...] [Não podemos] colocar as leis acima dos líderes e os
princípios acima dos homens”71. Seu Decreto Orgânico da Ditadura, de
1828, tornou claro que não haveria democracia baseada na propriedade em
uma América do Sul bolivariana, e tampouco um Estado de direito.
O segundo problema tinha a ver com a distribuição desigual da
propriedade. Afinal, a própria família de Bolívar tinha cinco grandes
propriedades, abrangendo mais de 120 mil acres. Após a independência,
praticamente toda a terra na Venezuela estava nas mãos de uma elite criolla
de apenas 10 mil pessoas – 1,1% da população. O contraste com os Estados
Unidos é especialmente notável nesse aspecto. Após a Revolução
Americana, adquirir terras ficou ainda mais fácil para os novos
colonizadores, quer fosse em consequência de créditos governamentais (sob
várias leis promulgadas de 1787 a 1804), quer por meio de leis como a
General Preemption Act de 1841, que concedia título legal a colonizadores,
e o Homestead Act de 1861, que basicamente concedia pequenos lotes de
terra nas áreas fronteiriças. Nada desse tipo foi feito na América Latina, devido à oposição de grupos interessados em preservar grandes
propriedades nas zonas rurais e mão de obra barata nas populosas cidades
costeiras. No México, entre 1878 e 1908, por exemplo, mais de um décimo
de todo o território nacional foi transferido em grandes terrenos para
empresas de desenvolvimento territorial. Em 1910 – às vésperas da
Revolução Mexicana –, apenas 2,4% dos chefes de família nas áreas rurais
eram donos de alguma parcela de terra. Os índices de propriedade na
Argentina eram mais altos – indo de 10% na província de La Pampa a 35%
em Chubut –, mas em parte alguma se aproximava dos da América do
Norte. Em 1900, o índice de proprietários rurais nos Estados Unidos era de
quase 75%72.
Deve-se salientar que esse não foi um fenômeno exclusivamente norte-
americano. O índice de proprietários rurais era ainda mais alto no Canadá –
87% – e resultados similares foram alcançados na Austrália, na Nova
Zelândia e mesmo em partes da África britânica, uma demonstração de que
a ideia de proprietários (brancos) amplamente dispersos tinha um caráter
especificamente britânico, e não norte-americano. Hoje, essa continua
sendo uma das maiores diferenças entre a América do Norte e a do Sul. No
Peru, até bem recentemente – 1958 – 2% dos proprietários de terras
controlavam 69% de todas as terras aráveis; 83% detinham apenas 6%,
consistindo de terrenos de 12 acres ou menos. Assim, os voluntários
britânicos que vieram lutar por Bolívar na esperança de obter uma parte dos
haberes militares acabaram ficando decepcionados. Dos 7 mil que partiram
para a Venezuela, apenas 500 permaneceram lá. Três mil morreram em
batalha ou de doença e o restante regressou à Grã-Bretanha73.
A terceira dificuldade – intimamente relacionada – é que o grau de
divisão e heterogeneidade racial era muito maior na América do Sul. Os
criollos como Bolívar odiavam os peninsulares com rancor extraordinário,
muito pior que a inimizade entre os “patriotas” e os “casacas vermelhas” até
mesmo em Massachusetts. Mas os sentimentos dos pardos e escravos para
com os criollos não eram muito mais amistosos. Ao convocar o apoio dos
negros, Bolívar não se baseou em uma crença sincera na igualdade racial;
tratava-se de uma questão de conveniência política. Quando ele suspeitou que Piar planejava reunir seus companheiros mulatos contra os brancos,
prendeu-o e condenou-o por deserção, insubordinação e conspiração contra
o governo. Em 15 de outubro de 1817, Piar foi executado por um pelotão de
fuzilamento contra o muro da catedral de Angostura, e do gabinete de
Bolívar, próximo dali, se escutaram os tiros74. Bolívar também não tinha o
menor interesse em ampliar os direitos políticos à população indígena. Com
efeito, o requerimento constitucional de que todos os eleitores fossem
alfabetizados os excluía da nação política.
Para entender por que as divisões raciais eram mais complexas na
América do Sul que na América do Norte, é fundamental avaliar as
profundas diferenças que surgiram na época de Bolívar. Em 1650, os índios
americanos correspondiam a 80% da população, tanto na América do Norte
quanto na do Sul, inclusive no Brasil. Em 1825, no entanto, as proporções
eram radicalmente diferentes. Na América espanhola, os povos indígenas
ainda representavam 59% da população, mas, no Brasil, esse número havia
sido reduzido para 21%, ao passo que na América do Norte estava abaixo
de 4%. Nos Estados Unidos e no Canadá, a migração massiva da Europa já
estava a caminho, ao passo que a expropriação das terras indígenas e seu
deslocamento para “reservas” de terras marginais foi conseguido com
relativa facilidade por meio da força militar. Na América espanhola, os
índios eram não só mais numerosos como também, na ausência de uma
imigração comparativamente grande, a mão de obra indispensável para o
sistema de encomienda. Além disso, conforme veremos, a instituição da
escravidão africana teve impactos demográficos muito distintos nas várias
regiões de colonização europeia75.
No fim, então, a concepção de Bolívar acerca da unidade sul-americana
se mostrou impossível de concretizar. Após revoltas na Nova Granada, na
Venezuela e em Quito, a proposta Confederação Andina foi rejeitada e a
própria Grã-Colômbia se desintegrou quando a Venezuela e Quito
romperam relações. O vitorioso foi o antigo aliado de Bolívar, o caudilho
José Antonio Páez, que havia se projetado como o proponente de um
Estado-nação exclusivamente venezuelano76. Um mês antes de morrer de
tuberculose em dezembro de 1830, tendo renunciado a seus postos de presidente e capitão-geral, Bolívar escreveu uma última carta
desesperançada:
[...] governei por 20 anos, e destes obtive apenas algumas certezas: (1) a América [do Sul] é
ingovernável, para nós; (2) Aqueles que fazem uma revolução lavram o mar; (3) A única coisa que
se pode fazer na América é emigrar; (4) Este país inevitavelmente cairá nas mãos das massas
desordenadas, e então passará, de maneira quase imperceptível, às mãos de tiranos mesquinhos, de
todas as cores e raças; (5) Uma vez que tenhamos sido devorados por cada crime e extintos por
absoluta crueldade, os europeus nem sequer considerarão que somos dignos de ser conquistados;
(6) Se fosse possível que alguma parte do mundo retornasse ao caos primitivo, seria a América em
seu momento final 77.
Era uma previsão dolorosamente precisa dos 150 anos seguintes da
história latino-americana. Os Estados recém-independentes começaram sua
vida sem uma tradição de governo administrativo, com uma distribuição de
terra profundamente desigual e com segmentações raciais que se
aproximavam muitíssimo das desigualdades econômicas. O resultado foi
um ciclo de revoluções e contrarrevoluções, golpes e contragolpes, à
medida que os sem terra lutavam por alguns acres, enquanto as elites
criollas se agarravam a suas haciendas. Repetidas vezes, experiências
democráticos fracassaram porque, ao primeiro sinal de que poderiam ser
expropriadas, as prósperas elites recorriam a um caudilho de uniforme para
restabelecer o status quo por meio da violência. Essa não era uma receita
para o rápido crescimento econômico.
Não é por acaso que o atual presidente da Venezuela, “El Comandante”
Hugo Chávez, se intitula o Bolívar moderno – e, de fato, venera tanto o
Libertador que em 2010 abriu o túmulo de Bolívar para se comunicar com
seu espírito (sob os holofotes da televisão). Um ex-soldado com uma
predileção por teatro político, Chávez adora discorrer sobre sua “revolução
bolivariana”. Hoje, por toda a cidade de Caracas é possível ver pôsteres e
murais com o rosto alongado e elegantemente bigodudo de Bolívar, muitas
vezes lado a lado com o de Chávez, mais redondo e grosseiro. A realidade do regime de Chávez, no entanto, é que é uma falsa democracia, em que a
polícia e a mídia são usadas como armas contra os opositores políticos e as
receitas provenientes das inúmeras jazidas de petróleo do país são usadas
para comprar apoio da população na forma de subsídios à importação,
esmolas e subornos. Os direitos de propriedade privada, tão centrais à
ordem legal e política dos Estados Unidos, são rotineiramente violados.
Chávez nacionaliza empresas quase conforme sua vontade, de fabricantes
de cimento a bancos e emissoras de televisão. E, assim como tantos
ditadores baratos na história latino-americana, ele zomba do Estado de
direito alterando a Constituição para beneficiar a si mesmo – primeiro em
1999, logo após sua primeira vitória eleitoral; mais recentemente, em 2009,
quando aboliu os limites de reeleição, para garantir que ele próprio seja
reeleito um número indefinido de vezes.
Nada exemplifica melhor o contraste entre as duas revoluções americanas
do que isto: a Constituição dos Estados Unidos, modificável mas inviolável,
e as 26 Constituições da Venezuela, todas mais ou menos descartáveis. Só a
República Dominicana teve mais Constituições desde a sua independência
(32). O Haiti e o Equador ficam em terceiro e em quarto lugar, com,
respectivamente, 24 e 2078. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a
Constituição foi projetada para servir de base para “um governo de leis, e
não de homens”, as Constituições latino-americanas são usadas como
instrumentos para subverter o próprio Estado de direito.
Mas, antes de celebrar o longo sucesso do modelo de colonização
britânico na América do Norte, precisamos reconhecer que, em um aspecto
peculiar, esse não foi, de forma alguma, superior ao da América Latina.
Sobretudo após a Revolução Americana, a divisão racial entre brancos e
negros se acirrou. A Constituição dos Estados Unidos, com todas as suas
muitas virtudes, institucionalizou essa divisão ao aceitar a legitimidade da
escravidão – o pecado original da nova república. Nas escadas da antiga
Bolsa de Charleston, onde a Declaração de Independência foi lida, eles
continuaram a vender escravos até 1808, graças ao artigo 1o, seção 9 da
Constituição, que permitia que o comércio de escravos continuasse por mais
20 anos. E a representação da Carolina do Sul no Congresso foi determinada de acordo com a regra de que um escravo – “outros povos”, na