Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 10 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Pois quem duvida fosse requestada

D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse Com vãs promessas, para que o amasse?

 

LAURINDO.

Pensas bem que a mulher de honesto estado, Se dá seu coração, sempre he rogado;

Se bem que o rogo algumas não convence; Mas a feia ambição a muitas vence.

 

POLYFEMO.

Sim? Pois hoje verás, que a minha ira

Só contra aquelle infame se conspira:

Elle, por me arrancar de amor a palma,

Me roubou a doce alma da minha alma, Vista dos olhos meus, bem como estrella, Que luz me dava, para poder vêlla.

Clara luz, doce vida, alma preciosa,

Tudo perdi. Oh scena lastimosa!

Tudo o vil me roubou; porém protesto

Fazer o seu castigo manifesto

Ao Ceo, á terra, a todos os viventes:

Elle me offende, as culpas são patentes; Pois o proprio delicto he, que o condemna, A que segundo a culpa, sinta a pena.

 

LAURINDO.

Queres que a morte de Ácis justifique

Huma céga paixão, hum vil despique?