Galatéa
Galatéa.
Ah! Já vejo: já estou desenganada,
Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada!
LAURINDO.
Galatéa, que tens? Tu, que algum dia
Semeavas os campos de alegria,
Hoje com pranto, e vozes, que enternecem, Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!
GALATÉA.
Feliz foi esse tempo; porém hoje
De mim (qual rez ferida) o prazer foge.
Mas dize-me, Laurindo, acaso viste
O meu Ácis, por quem suspiro triste?
LAURINDO.
Ha dias, que o não vi; mas que motivo
Banha o teu lindo rosto em pranto activo?
GALATÉA.
Eu te mostro a origem, que ao mostralla,
No triste peito o coração me estalla.
Ha tres dias... Oh dias de amargura,
Mais negros para mim, que a noite escura! Quando o Sol hia ver outro Orizonte,
Deixando triste o rio, o valle, o monte,
Metto o fuso na róca, o gado chamo Para o pobre curral, vem ao reclamo:
Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha,
Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha, Por brincadora, esperta, e tão malhada,
Que parecia com pincel pintada.
Tinha-me tanto amor, que se eu gemia
Ella então nem brincava, nem comia.
Mas se me via alegre, ou se eu cantava,
Ella ao meu lado de prazer saltava.
Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo;
Quando na margem o meu Ácis vejo.
Corre a ver-me, e no riso amor explica;
Porém vendo-me afflicta, afflicto fica.
Pergunta-me a razão: conto o successo,
E que procure a minha rez lhe pesso.
Elle me diz então com vozes ternas,
Vozes, que esta alma ha de guardar eternas: "Ah! Não chores, meu bem, minha alegria. "Em cujos olhos brilha a luz do dia!
"Se os encobres com pranto, e magoa enorme, "Queres, que o dia em noite se transforme? "Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro;
"E por teus lindos olhos eu te juro,
"Que se ella viva está, e eu souber della, "Inda que arrisque a vida, hei de trazella; "Mas se baldado for o meu empenho,
"Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho, E com tão terno amor me enchuga o rosto, Que me leva metade do desgosto.
Quiz partir, dava hum passo, então parava, Como que em mim seu coração deixava: Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!)
Voltava para mim, dava hum suspiro;
Que o coração presago lhe dizia,
Que era a ultima vez, em que me via.
E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!)
Que não me ha de ver mais, porque he já morto.