Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 21 de 40

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Galatéa

Galatéa.

Ah! Já vejo: já estou desenganada,

Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada!

 

LAURINDO.

Galatéa, que tens? Tu, que algum dia

Semeavas os campos de alegria,

Hoje com pranto, e vozes, que enternecem, Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!

 

GALATÉA.

Feliz foi esse tempo; porém hoje

De mim (qual rez ferida) o prazer foge.

Mas dize-me, Laurindo, acaso viste

O meu Ácis, por quem suspiro triste?

 

LAURINDO.

Ha dias, que o não vi; mas que motivo

Banha o teu lindo rosto em pranto activo?

 

GALATÉA.

Eu te mostro a origem, que ao mostralla,

No triste peito o coração me estalla.

Ha tres dias... Oh dias de amargura,

Mais negros para mim, que a noite escura! Quando o Sol hia ver outro Orizonte,

Deixando triste o rio, o valle, o monte,

Metto o fuso na róca, o gado chamo Para o pobre curral, vem ao reclamo:

Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha,

Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha, Por brincadora, esperta, e tão malhada,

Que parecia com pincel pintada.

Tinha-me tanto amor, que se eu gemia

Ella então nem brincava, nem comia.

Mas se me via alegre, ou se eu cantava,

Ella ao meu lado de prazer saltava.

Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo;

Quando na margem o meu Ácis vejo.

Corre a ver-me, e no riso amor explica;

Porém vendo-me afflicta, afflicto fica.

Pergunta-me a razão: conto o successo,

E que procure a minha rez lhe pesso.

Elle me diz então com vozes ternas,

Vozes, que esta alma ha de guardar eternas: "Ah! Não chores, meu bem, minha alegria. "Em cujos olhos brilha a luz do dia!

"Se os encobres com pranto, e magoa enorme, "Queres, que o dia em noite se transforme? "Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro;

"E por teus lindos olhos eu te juro,

"Que se ella viva está, e eu souber della, "Inda que arrisque a vida, hei de trazella; "Mas se baldado for o meu empenho,

"Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho, E com tão terno amor me enchuga o rosto, Que me leva metade do desgosto.

Quiz partir, dava hum passo, então parava, Como que em mim seu coração deixava: Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!)

Voltava para mim, dava hum suspiro;

Que o coração presago lhe dizia,

Que era a ultima vez, em que me via.

E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!)

Que não me ha de ver mais, porque he já morto.