Galatéa
Polyfemo.
Da minha bella Aldêa: vem, amigo,
Que eu não me ausento, sem que vás comigo.
POLYFEMO.
Vamos; mas ah Laurindo, quem diria,
Que por huma mulher, por'huma ímpia
Eu havia deixar a minha Aldêa,
E ir d'esmolas viver na terra alheia?
Oh triste Polyfemo! Oh desgraçado!
De ti deves queixar-te, e não do fado:
Em mil exemplos o perigo viste,
Devias fugir delle, não fugiste?
Pois agora o teu erro irás pagando,
E o damno sem remedio lamentando.
Tome exemplo de mim, o que ama cégo,
Julgando ter no amor todo o socego,
Veja a minha desgraça, e tema o dano,
Que sempre nasce deste amor profano: Não prenda a doce, amavel liberdade,
Já que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade: Fuja do amor, e guarde esta doutrina,
Se quizer viver longe da ruina.
Mas ah! Nem já do amor quero lembrar-me, Que he facil outra vez precipitar-me.
Adeus, ó campos meus, campos amados, Que me daveis o fruto, e pasto aos gados: Já não hei de ferir vossos ouvidos,
Nem já respondereis aos meus gemidos. Adeus, ó rio meu, que me obrigavas,
Quando ao meu gado tuas aguas davas; Mas pago ficas, que essa grossa enchente A augmenta de meus olhos a corrente.
Adeos, plácida fonte, onde algum dia
Se alegre rias, eu alegre ria;
No prazer te imitei; mas hoje afflicto
Só no pranto, que verto, he que te imito. Lembra-te, ó fonte, que a cruel Pastora,
Essa, que sem razão me foi traidora,
Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse,
Se ella de amor a pura se manchasse:
Agora deves, pois faltou perjura,
Por castigo negar-lhe essa agua pura:
Como ella contra si justiça pede,
Ou procure agua longe, ou morta á sede; Mas ah! Que digo! He muita crueldade:
Não, não lhe negues agua por piedade, Tem della compaixão, dá-lhe desculpa,
Basta só, que a castigue a propria culpa. Adeos, ó prado ameno, as flores bellas
Eu te roubei para tecer capellas:
Perdoa-me, e talvez que inda melhores,
Que á custa do meu mal terás mais flores: E apague a minha culpa, que te aggrava
Este pranto, que humilde os pés te lava. Adeos, Pastores, doces companhias
Dos meus passados, e felices dias;
Porém dias tão breves, quanto he breve
No Irverno a calma, no Verão a neve:
Se o meu canto aprendestes algum dia,
No tempo da ventura, e d'alegria
Hoje do meu desgosto, e do meu damno
Podeis lucrar mais util desengano,
Vendo, por breve ser minha ventura,
Quanto a glotia do mundo pouco dura:
Que apenas nos faz ver hum falso gosto, Logo atrás delle vem maior desgosto.
Adeos, ó Galatéa; mas que digo!
Cuidei, que tinhas inda o nome antigo;
Mas não deves ter já nome de humana,
Sendo Leão feroz, vibora insana:
Fica-te embora em paz, e só te peço De mim t'esqueças, que eu de ti m'esqueço: Sim, farei, que não tornes a lembrar-me
Para querer-te, nem para vingar-me:
E poderemos só ficar lembrados
Do exemplo, com que fomos doutrinados: Mas vê, quanto differem as doutrinas,
A que eu te dei, daquella, que me ensinas: Eu te ensinei a ser fiel, constante,
Tu me ensinaste a ser falso, inconstante; Mas nunca me seguiste a lealdade,
Nem eu soube seguir-te a falsidade;
Porém essa doutrina; inda que inutil,
Estimo-a, porque em parte me foi util:
Se até aqui das Pastoras não fugia,
Porque a sua traição não conhecia,
Já della fugirei desenganado,
Como quem foge do animal damnado.
Longe, longe de mim, ímpias tyrannas,
Ide viver com féras deshumanas:
Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora,
Adeos, ímpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora.