Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 17 de 40

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Galatéa

Polyfemo.

Da minha bella Aldêa: vem, amigo,

Que eu não me ausento, sem que vás comigo.

 

POLYFEMO.

Vamos; mas ah Laurindo, quem diria,

Que por huma mulher, por'huma ímpia

Eu havia deixar a minha Aldêa,

E ir d'esmolas viver na terra alheia?

Oh triste Polyfemo! Oh desgraçado!

De ti deves queixar-te, e não do fado:

Em mil exemplos o perigo viste,

Devias fugir delle, não fugiste?

Pois agora o teu erro irás pagando,

E o damno sem remedio lamentando.

Tome exemplo de mim, o que ama cégo,

Julgando ter no amor todo o socego,

Veja a minha desgraça, e tema o dano,

Que sempre nasce deste amor profano: Não prenda a doce, amavel liberdade,

Já que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade: Fuja do amor, e guarde esta doutrina,

Se quizer viver longe da ruina.

Mas ah! Nem já do amor quero lembrar-me, Que he facil outra vez precipitar-me.

Adeus, ó campos meus, campos amados, Que me daveis o fruto, e pasto aos gados: Já não hei de ferir vossos ouvidos,

Nem já respondereis aos meus gemidos. Adeus, ó rio meu, que me obrigavas,

Quando ao meu gado tuas aguas davas; Mas pago ficas, que essa grossa enchente A augmenta de meus olhos a corrente.

Adeos, plácida fonte, onde algum dia

Se alegre rias, eu alegre ria;

No prazer te imitei; mas hoje afflicto

Só no pranto, que verto, he que te imito. Lembra-te, ó fonte, que a cruel Pastora,

Essa, que sem razão me foi traidora,

Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse,

Se ella de amor a pura se manchasse:

Agora deves, pois faltou perjura,

Por castigo negar-lhe essa agua pura:

Como ella contra si justiça pede,

Ou procure agua longe, ou morta á sede; Mas ah! Que digo! He muita crueldade:

Não, não lhe negues agua por piedade, Tem della compaixão, dá-lhe desculpa,

Basta só, que a castigue a propria culpa. Adeos, ó prado ameno, as flores bellas

Eu te roubei para tecer capellas:

Perdoa-me, e talvez que inda melhores,

Que á custa do meu mal terás mais flores: E apague a minha culpa, que te aggrava

Este pranto, que humilde os pés te lava. Adeos, Pastores, doces companhias

Dos meus passados, e felices dias;

Porém dias tão breves, quanto he breve

No Irverno a calma, no Verão a neve:

Se o meu canto aprendestes algum dia,

No tempo da ventura, e d'alegria

Hoje do meu desgosto, e do meu damno

Podeis lucrar mais util desengano,

Vendo, por breve ser minha ventura,

Quanto a glotia do mundo pouco dura:

Que apenas nos faz ver hum falso gosto, Logo atrás delle vem maior desgosto.

Adeos, ó Galatéa; mas que digo!

Cuidei, que tinhas inda o nome antigo;

Mas não deves ter já nome de humana,

Sendo Leão feroz, vibora insana:

Fica-te embora em paz, e só te peço De mim t'esqueças, que eu de ti m'esqueço: Sim, farei, que não tornes a lembrar-me

Para querer-te, nem para vingar-me:

E poderemos só ficar lembrados

Do exemplo, com que fomos doutrinados: Mas vê, quanto differem as doutrinas,

A que eu te dei, daquella, que me ensinas: Eu te ensinei a ser fiel, constante,

Tu me ensinaste a ser falso, inconstante; Mas nunca me seguiste a lealdade,

Nem eu soube seguir-te a falsidade;

Porém essa doutrina; inda que inutil,

Estimo-a, porque em parte me foi util:

Se até aqui das Pastoras não fugia,

Porque a sua traição não conhecia,

Já della fugirei desenganado,

Como quem foge do animal damnado.

Longe, longe de mim, ímpias tyrannas,

Ide viver com féras deshumanas:

Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora,

Adeos, ímpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora.