Galatéa
Ácis.
Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo, Do furto alegre, de alegria rindo.
Trepando huma deserta ribanceira,
Ouço hum grito, ólho a traz, vejo á carreira Seguindo-me a gritar o vil roupeiro:
"Ó ladrão! Larga a Ovelha! Ó ratoneiro!
Eu, que vejo o meu credito infamado,
Páro, e com ira mostro-lhe o cajado.
Prudente parto: segue-me as pizadas:
Torço a vareda, corre-me ás pedradas.
Dellas me affasto; e por final prejecto.
Na leve funda grossa pedra metto.
Agito a funda: corro então mais perto:
Desparo a pedra, no vil peiro acérto.
Fica o ladrão sem tino: quer suster-se:
Não póde: cahe: forceja para erguer-se: Outra vez cahe de costas: vai rolando:
Péga-se ás pedras, mas em vão pegando, Que as mesmas pedras, em que busca abrigo Rólão sobre elle por maior castigo;
E despenhado assim pela barreira
Vai té parar na margem da ribeira.
GALATÉA.
Ah! Que dizes! Mataste o desgraçado?
ÁCIS.
Não ficou morto, não, mas maltratado,
Eu vi... com quanta dor o estive vendo!
Cahio mortal; depois se ergueo gemendo. Olhou-me então com iras, e ameaços;
E trémulo partio com lentos passos.
É