Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 13 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Tremo de confusão, e de mim tremo;

Os castigos do Ceo Respeito, e temo;

Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa Não me deixão acção, em que eu me vença: Vejo a justa razão, quero seguilla;

Mas a paixão vem logo a destruilla:

Que este meu coração nunca descança

De chamar-me ao caminho da vingança.

 

LAURINDO.

Qualquer paixão, qualquer impaciencia

Se vence com discurso, e com prudencia.

 

POLYFEMO.

Tão desgraçado sou, que neste empenho Nem já discurso, nem prudencia tenho:

Quem vio tão enredado labyrintho

Como este, que na idéa, e n'alma sinto! Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, Ou me livrai de confusão tão forte;

Eu se vingar-me vou, me precipito;

Porque aos Deoses offende o meu delicto: Se assento em perdoar, não persevero,

Porque em vendo o offensor, logo me altero; Porém hum novo meio já me occorre:

Melhor acerta, quem melhor discorre.

Eu não quero incitar ao Ceo clemente,

Mas para não vingar-me do insolente,

Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo

A cinza quente exhalaria fogo.

Deixarei estes monte, estes prados,

Que a verdura me davão para os gados: Irei viver nas mais occultas brenhas, Onde gente não veja, mas só penhas: