Galatéa
Laurindo.
Tremo de confusão, e de mim tremo;
Os castigos do Ceo Respeito, e temo;
Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa Não me deixão acção, em que eu me vença: Vejo a justa razão, quero seguilla;
Mas a paixão vem logo a destruilla:
Que este meu coração nunca descança
De chamar-me ao caminho da vingança.
LAURINDO.
Qualquer paixão, qualquer impaciencia
Se vence com discurso, e com prudencia.
POLYFEMO.
Tão desgraçado sou, que neste empenho Nem já discurso, nem prudencia tenho:
Quem vio tão enredado labyrintho
Como este, que na idéa, e n'alma sinto! Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, Ou me livrai de confusão tão forte;
Eu se vingar-me vou, me precipito;
Porque aos Deoses offende o meu delicto: Se assento em perdoar, não persevero,
Porque em vendo o offensor, logo me altero; Porém hum novo meio já me occorre:
Melhor acerta, quem melhor discorre.
Eu não quero incitar ao Ceo clemente,
Mas para não vingar-me do insolente,
Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo
A cinza quente exhalaria fogo.
Deixarei estes monte, estes prados,
Que a verdura me davão para os gados: Irei viver nas mais occultas brenhas, Onde gente não veja, mas só penhas: