Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 15 de 40

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Galatéa

Polyfemo.

Ou com o iscado anzol, que mais o engana: Em fim, he campo ameno, he deleitavel,

Fructuosa a terra, o clima saudavel:

Lá vivirás, amigo, descançado,

Sem ver a causa do mortal cuidado:

Pois naquella distancia por extensa

Não vês o offensor, nem vês a offensa.

 

POLYFEMO.

Discreto amigo, amigo verdadeiro,

Tu fostes dos humanos o primeiro,

Que me soube vencer: eu que algum dia

Nem a razão, nem Deoses conhecia,

Hoje a razão abraço, os Deoses temo;

Tu me fizeste hum novo Polyfemo.

 

LAURINDO.

Convence-te a razão, porque és humano, Que a razão só não doma o bruto insano.

 

POLYFEMO.

Oh grande, oh raro exemplo d'amizade!

Oh coração, gerado de piedade!

Despido d'ambição, e d'avareza,

Só inclinado á mísera pobreza!

Deixa, que por mostrar-me agradecido,

A teus honrados pés chegue abatido;

E esta boca, por quem serás louvado,

Beije o chão duro, dos teus pés tocado.