Galatéa
Polyfemo.
Ou com o iscado anzol, que mais o engana: Em fim, he campo ameno, he deleitavel,
Fructuosa a terra, o clima saudavel:
Lá vivirás, amigo, descançado,
Sem ver a causa do mortal cuidado:
Pois naquella distancia por extensa
Não vês o offensor, nem vês a offensa.
POLYFEMO.
Discreto amigo, amigo verdadeiro,
Tu fostes dos humanos o primeiro,
Que me soube vencer: eu que algum dia
Nem a razão, nem Deoses conhecia,
Hoje a razão abraço, os Deoses temo;
Tu me fizeste hum novo Polyfemo.
LAURINDO.
Convence-te a razão, porque és humano, Que a razão só não doma o bruto insano.
POLYFEMO.
Oh grande, oh raro exemplo d'amizade!
Oh coração, gerado de piedade!
Despido d'ambição, e d'avareza,
Só inclinado á mísera pobreza!
Deixa, que por mostrar-me agradecido,
A teus honrados pés chegue abatido;
E esta boca, por quem serás louvado,
Beije o chão duro, dos teus pés tocado.