Galatéa
Polyfemo.
Socega, amigo, queres dessa sorte
Dar a vida, por quem te causa a morte? Queres vingar-te della socegado?
Desprezou-te, despreza-a: estás vingado.
POLYFEMO.
Desprezar Galatéa, e offendella
Quando só morrer por ella!
Isso não, que depois de eu adoralla,
Valor não tenho para maltratalla:
Ella pratique embora a crueldade,
Que eu não devo imitar-lhe a impiedade.
LAURINDO.
Conheces, que te offende essa perjura,
E inda morres por ella? Oh que loucura!
POLYFEMO.
Sim, amigo, traidora a considero;
Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero. Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza,
Que he parto singular da natureza:
Tu, que a conheces, vê, se razão tenho
Para adoralla com tão grande empenho: O lindo rosto, aquelles olhos bellos,
Tão matadores, que em chegando a vêllos, Parece, que do rosto lhe saltavão,
E que para não vêllos me cegavão.
As loiras tranças, bem como doiradas,
Sobre seus alvos hombros espalhadas.
Se as costas me voltava por desprezo, Como que a ellas me levava prezo:
Nas lindas faces se me figuravão
Duas papoilas, que entre a neve estavão. A boca, que em conceitos sempre acerta, Parecia huma rosa meia aberta;
Mas quando grave, e graciosa ria,
Oh quanto então mais bella parecia!
Mostrando os claros dentes, que esmaltavão Seus beiços, que de nácar se formavão; E co'a força do riso as faces bellas
Duas covas fazião como estrellas.
As mãos por engraçadas, e pequenas
Parecião formosas açucenas.
Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella,
Que o damno prevenia na cautéla,
Escondendo-as, de mim mais se affastava, Que até nisto ser casta bem mostrava.
Estas bellezas, esta honestidade
Forão prizões da minha liberdade,
E quanto as lindas mãos mais me negava, Tanto as doces prizões mais me apertava; Mas n'huma sésta vi, que ella dormia
Junto do pote, que na fonte enchia:
Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas, Me arrependi, porque temi manchar-lhas. Nem só para pegar-lhes valor tinha,
Porque mão tão grosseira, como a minha, Não devia tocar aquella neve,
Que só com outra igual tocar-se deve;
Mas immovel fiquei, pois só gostava
De ver a bella acção, em que ella estava. O branco rosto sobre o curvo braço,
Outra mão tambem curva no regaço:
O corpo reclinado sobre a fonte,
E a curta sombra, que lhe dava o monte, Só metade do rosto lhe cubria,
Que muito mais formosa inda a fazia.
Eu, que só me detinha em admiralla,
Sem que tivesse intento de acordalla;
Como de gosto estava arrebatado,
Sem que eu sentisse, cahe me o cajado: Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada,
Vê-me, levanta-se, e com voz irada
Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias?
"Dize: acaso offender-me pertendias?
"Se por gigante intentas de vencer-me,
"Matar-me poderás, mas não render-me: "Que a minha honestidade he tão constante, "Que não cede á violencia de hum gigante. Não, (eu lhe respondi) não te offendia:
Nem de ti outra cousa pertendia,
Mais do que ao menos, pois te não lograva, Ver-te: e so com te ver me contentava.
Se nisto te offendi, ou me desculpa,
Ou me castiga, se me achares culpa:
Que se eu da tua mão for castigado,
Serei ditoso, se antes desgraçado.
Mas dize-me, cruel, se me estimaste,
Porque razão sem culpa me deixaste?
E se indigno me achavas para amante,
Porque juraste de me ser constante?
Que resposta daria a fementida?
"Vai-te louco, (me diz) que aborrecida
"Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te
"Outra razão maior de desprezar-te,
"Senão, que as Leis de Amor já não tolero: "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero. "Em fim, tu não és do meu agrado:
"Basta: vai-te, que estás desenganado.
E com este rigor aquella ímpia
Foge: chamo-a, mais ella me fugia:
Eu vendo a ir tão bella, quanto irada,
Corpo gentil, cintura delicada, Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra!