Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 5 de 40

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Galatéa

Polyfemo.

Socega, amigo, queres dessa sorte

Dar a vida, por quem te causa a morte? Queres vingar-te della socegado?

Desprezou-te, despreza-a: estás vingado.

 

POLYFEMO.

Desprezar Galatéa, e offendella

Quando só morrer por ella!

Isso não, que depois de eu adoralla,

Valor não tenho para maltratalla:

Ella pratique embora a crueldade,

Que eu não devo imitar-lhe a impiedade.

 

LAURINDO.

Conheces, que te offende essa perjura,

E inda morres por ella? Oh que loucura!

 

POLYFEMO.

Sim, amigo, traidora a considero;

Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero. Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza,

Que he parto singular da natureza:

Tu, que a conheces, vê, se razão tenho

Para adoralla com tão grande empenho: O lindo rosto, aquelles olhos bellos,

Tão matadores, que em chegando a vêllos, Parece, que do rosto lhe saltavão,

E que para não vêllos me cegavão.

As loiras tranças, bem como doiradas,

Sobre seus alvos hombros espalhadas.

Se as costas me voltava por desprezo, Como que a ellas me levava prezo:

Nas lindas faces se me figuravão

Duas papoilas, que entre a neve estavão. A boca, que em conceitos sempre acerta, Parecia huma rosa meia aberta;

Mas quando grave, e graciosa ria,

Oh quanto então mais bella parecia!

Mostrando os claros dentes, que esmaltavão Seus beiços, que de nácar se formavão; E co'a força do riso as faces bellas

Duas covas fazião como estrellas.

As mãos por engraçadas, e pequenas

Parecião formosas açucenas.

Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella,

Que o damno prevenia na cautéla,

Escondendo-as, de mim mais se affastava, Que até nisto ser casta bem mostrava.

Estas bellezas, esta honestidade

Forão prizões da minha liberdade,

E quanto as lindas mãos mais me negava, Tanto as doces prizões mais me apertava; Mas n'huma sésta vi, que ella dormia

Junto do pote, que na fonte enchia:

Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas, Me arrependi, porque temi manchar-lhas. Nem só para pegar-lhes valor tinha,

Porque mão tão grosseira, como a minha, Não devia tocar aquella neve,

Que só com outra igual tocar-se deve;

Mas immovel fiquei, pois só gostava

De ver a bella acção, em que ella estava. O branco rosto sobre o curvo braço,

Outra mão tambem curva no regaço:

O corpo reclinado sobre a fonte,

E a curta sombra, que lhe dava o monte, Só metade do rosto lhe cubria,

Que muito mais formosa inda a fazia.

Eu, que só me detinha em admiralla,

Sem que tivesse intento de acordalla;

Como de gosto estava arrebatado,

Sem que eu sentisse, cahe me o cajado: Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada,

Vê-me, levanta-se, e com voz irada

Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias?

"Dize: acaso offender-me pertendias?

"Se por gigante intentas de vencer-me,

"Matar-me poderás, mas não render-me: "Que a minha honestidade he tão constante, "Que não cede á violencia de hum gigante. Não, (eu lhe respondi) não te offendia:

Nem de ti outra cousa pertendia,

Mais do que ao menos, pois te não lograva, Ver-te: e so com te ver me contentava.

Se nisto te offendi, ou me desculpa,

Ou me castiga, se me achares culpa:

Que se eu da tua mão for castigado,

Serei ditoso, se antes desgraçado.

Mas dize-me, cruel, se me estimaste,

Porque razão sem culpa me deixaste?

E se indigno me achavas para amante,

Porque juraste de me ser constante?

Que resposta daria a fementida?

"Vai-te louco, (me diz) que aborrecida

"Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te

"Outra razão maior de desprezar-te,

"Senão, que as Leis de Amor já não tolero: "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero. "Em fim, tu não és do meu agrado:

"Basta: vai-te, que estás desenganado.

E com este rigor aquella ímpia

Foge: chamo-a, mais ella me fugia:

Eu vendo a ir tão bella, quanto irada,

Corpo gentil, cintura delicada, Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra!