Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 16 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Suspende, Polyfemo, eu não pertendo

A tua gratidão, antes me offendo,

De a meus pés te prostares abatido,

Acatamento só ao Ceo devido.

 

POLYFEMO.

Oh quanto és digno de louvor completo,

Por liberal, humilde, e por discreto!

Aprenda o avarento ambicioso

A ser mais liberal, mais caridoso:

O que da santa, e mísera pobreza

Foge, como quem foge da vileza,

Veja, que o rico, o paderoso, o nobre

Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre: Esse, que as minas abre, e colhe o ouro, Julgando a vida ter no seu thesouro,

Veja, que a vida, e ouro n'hum momento

He como o fumo, que consome o vento: Siga os teus passos o soberbo inchado,

Que julga, que a ventura tem ao lado:

Olhe, que a seca o grosso rio esgota,

E até com vento o cedro se derrota.

Longe, longe de nós, ó vicio forte,

Vicio mais feio, do que a feia morte.

 

LAURINDO.

Não terão parte em nós vicios danados,

Nem pizaráõ a flor dos nossos prados;

Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza Contra o vicio nos serve de defeza.

Vamos gozar a santa paz ditosa, Vamos colher a fruta saborosa