Galatéa
Laurindo.
Suspende, Polyfemo, eu não pertendo
A tua gratidão, antes me offendo,
De a meus pés te prostares abatido,
Acatamento só ao Ceo devido.
POLYFEMO.
Oh quanto és digno de louvor completo,
Por liberal, humilde, e por discreto!
Aprenda o avarento ambicioso
A ser mais liberal, mais caridoso:
O que da santa, e mísera pobreza
Foge, como quem foge da vileza,
Veja, que o rico, o paderoso, o nobre
Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre: Esse, que as minas abre, e colhe o ouro, Julgando a vida ter no seu thesouro,
Veja, que a vida, e ouro n'hum momento
He como o fumo, que consome o vento: Siga os teus passos o soberbo inchado,
Que julga, que a ventura tem ao lado:
Olhe, que a seca o grosso rio esgota,
E até com vento o cedro se derrota.
Longe, longe de nós, ó vicio forte,
Vicio mais feio, do que a feia morte.
LAURINDO.
Não terão parte em nós vicios danados,
Nem pizaráõ a flor dos nossos prados;
Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza Contra o vicio nos serve de defeza.
Vamos gozar a santa paz ditosa, Vamos colher a fruta saborosa