Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 26 de 40

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Galatéa

Laurindo.

"Tu desprezas soberba, a quem te adora? "És toda do teu Ácis? Pois discorre,

"Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre. "Dize, resolve já, ou vou matallo;

"E o coração aos olhos teus mostrallo.

Eu ante o monstro vil de crueldade,

Que não cede á razão, nem á piedade,

Rogo-lhe compaixão: não se enternece:

Choro humilde a seus pés: mais se embravece. Eu delirava neste lance forte

De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte. Ácis morrer por mim, sendo innocente!

Não, por livrallo fiz-me delinquente.

Com o tyranno usei de idéas novas

Para dar-lhe de amor fingidas provas;

Mas o meu firme peito era impossivel,

Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel. Se nisto te aggravei, Ácis desculpa;

Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.

 

LAURINDO.

Nao chores, virtuosa Galatéa:

De ti fazia mui diversa idéa;

Bem que eu não sigo as linguas venenosas, Que as mulheres só tratão de aleivosas: Sei, que muitas o são, sim, não duvido,

Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido;

Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles, Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles. Tu, exemplar Pastora, mostrar queres,

Que és a gloria, o modelo das mulheres: Que os falsos homens pódes doutrinallos; E com teu mesmo exemplo envergonhallos. Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado: