Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 35 de 40

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Galatéa

Ácis.

Essa benção do Ceo, que em nós desejas, Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas.

Ácis, vamos aqui pelo serrado,

Que he mais perto, he mais doce, e he povoado.

 

ÁCIS.

Vamos cortando por entre estas faias:

Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias. Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira!

 

GALATÉA.

Se eu quiser não me apanhas na carreira. Que farão hoje ao ver-me de contentes

As amigas, visinhos, e os parentes,

Que ao vêrem-me vagar só sem conforto Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto?

 

ÁCIS.

Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto:

Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto. Tu verás nas Pastoras desgrenhadas

Olhos feridos, faces desmaiadas.

E ao ver-te, o riso, e pranto misturando,

Humas ás outras com prazer chamando: Todas para te verem correm, voão:

Vivas, applausos pelos ares sôão.

Huma te beija a face alva, e rosada,

Que a faz com pranto seu rosa orvalhada. Outra te enfeita as tranças graciosas

De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas.

Verás, que ao som das lyras vem cantar-te A magoa de perder-te, o bem de achar-te. Verás, como os chorosos innocentes,