Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 8 de 40

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Galatéa

Polyfemo.

Nada responderei por defender-me,

Pois por sábio chegaste a convencer-me: Se a paixão me cubrio de escuridade,

Tu me mostraste as luzes da verdade:

Agora já conheço, que essa ímpia

Mais féra, que o dragão, que o monte cria, Nem amor, nem piedade já merece,

Pois por outro me deixa; e assim se esquece Da fé, que me jurou, e da lealdade,

Com que sempre a tratei; que a falsidade Não podia caber n'hum peito amante,

Que ainda offendido mostra ser constante. Eu, que até ás Pastoras, quando as via,

Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia: E se acaso de longe as avistava,

Por lhes fugir, a estrada rodeava.

Tudo isto por fineza áquella infame,

Que, só tão feio nome, he bem lhe chame; Porque a saber, que ás outras eu fallava, Não julgasse, que alguma me agradava; Porém que premio vim a tirar disto?

Sabes o que? Com todos ser malquisto: Desprezarem-me todos, ver-me agora

Aqui só, sem amigos, nem Pastora:

E a falsa, tanto extremo desprezando,

Amar outro, e ficar de mim zombando!

E soffro tal injúria sem vingar-me!

Poderei socegar sem despicar-me!

Não, não socegarei, que hum peito irado

Socega só depois de estar vingado.

Sim, vou já despicar-me... Mas que intento! Que faço! Aonde vou! Que pensamento He este, que me occorre! Oh quanto errado Gyra o discurso de paixão cercado!

Eu matar Galatéa! Oh que vileza!

Naquella rara imagem da belleza

Descarregar o golpe penetrante!

E havião ver meus olhos nesse istante

Aquelle brando peito traspassado!

O rosto, bem qual Sol quando eclipsado! E os olhos, que daquelle Sol são raios,

Perdendo a luz na sombra dos desmaios! Aquellas lindas faces tão córadas

Eu poderia vellas desmaiadas!

A boca rubicunda, e graciosa,

Bem qual entre jasmins a linda rosa,

Eu teria valor, teria vida,

Para vella sem graça amortecida!

E havião escutar-lhe os meus ouvidos

O pranto, os ais, e os ultimos gemidos:

Já com trémola voz, e a cada instante

Vella convulsa, afflicta, e delirante,

Sem alento, sem côr desfalecida,

Dando hum suspiro, e acabando a vida! Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo! Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo:

Que coração tão barbaro haveria,

Que obrasse tão enorme tyrannia?

Eu teria valor, se a offendesse,

Para vella morrer, sem que eu moresse? Não, não teria tanta impiedade,

Que vendo cahir morta hume Deidade,

Não me sahisse deste insano peito?

O duro coração de dor desfeito.

Nem mais contemplar quero tal desgraça, Que parece, que o Ceo já me ameaça,

Que a terra vejo abrir, que já comigo

Se abate, e me confunde por castigo.

Ah! Minha Galatéa, vive embora,

Bem que me sejas infiel, traidora:

Ainda te amo, se bem, que o não mereças; Eu padeça, mas sem que tu padeças: