Galatéa
Laurindo.
He máo quebrar a Lei; mas que te espanta, Se ella te jurou fé, e a fé quebranta?
Polyfemo, discorre mais prudente;
Vence-te a ti, se queres ser valente:
Eu teu amigo sou, eu sou mais velho,
Tu, que és mais moço, toma o meu conselho No falso Amor não faças confiança:
Desterra a ira, foge da vingança,
Que esta inquieta, aquella te amofina:
De qualquer dellas sempre vem ruina.
Males, que tu não queres supportallos,
Não deves para os outros desejallos,
Que ás vezes são, qual pedra despedida, Que no mesmo que a deita, abre a ferida: Queres a morte de Ácis? Não ponderas,
Que póde em ti cahir, se nelle a esperas? Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira:
O Ceo, que a vida dá, só elle a tira:
Só elle sobre as vidas tem dominio,
E não deves oppôr-te ao seu designio;
Nem ao menos vingar-te levemente
Poderás, sem que fiques delinquente.
Olha, que para Jupiter Supremo
He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo. Á voz só do seu raio penetrante
Treme de susto a rocha mais constante. Foge, foge de o veres irritado,
E não faças, que a mão levante irado.
Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas? Pois a ti mesmo, espero, te convenças.
POLYFEMO.