Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 12 de 40

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Galatéa

Laurindo.

He máo quebrar a Lei; mas que te espanta, Se ella te jurou fé, e a fé quebranta?

Polyfemo, discorre mais prudente;

Vence-te a ti, se queres ser valente:

Eu teu amigo sou, eu sou mais velho,

Tu, que és mais moço, toma o meu conselho No falso Amor não faças confiança:

Desterra a ira, foge da vingança,

Que esta inquieta, aquella te amofina:

De qualquer dellas sempre vem ruina.

Males, que tu não queres supportallos,

Não deves para os outros desejallos,

Que ás vezes são, qual pedra despedida, Que no mesmo que a deita, abre a ferida: Queres a morte de Ácis? Não ponderas,

Que póde em ti cahir, se nelle a esperas? Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira:

O Ceo, que a vida dá, só elle a tira:

Só elle sobre as vidas tem dominio,

E não deves oppôr-te ao seu designio;

Nem ao menos vingar-te levemente

Poderás, sem que fiques delinquente.

Olha, que para Jupiter Supremo

He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo. Á voz só do seu raio penetrante

Treme de susto a rocha mais constante. Foge, foge de o veres irritado,

E não faças, que a mão levante irado.

Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas? Pois a ti mesmo, espero, te convenças.

 

POLYFEMO.