Galatéa
Laurindo.
Este sonho, a demora, e Polyfemo,
Tudo me assusta, e a desgraça temo.
LAURINDO.
O sonho intimidar-me não devia
Por ser falsa illusão da fantasia.
Do Pastor a demora, que te assusta,
Tambem póde nascer de causa justa.
Se temes Polyfemo, o susto affasta:
Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. E desde que o domei por teu respeito,
Tudo que eu mando, que elle faça, he feito. Piza, piza, a teus pés essa agonia:
Faze, que a fonte com teu riso ria.
GALATÉA.
Tu destróes em parte o meu desgosto;
Mas não consegues ver-me enchuto o rosto: Não: fazer que esta setta não me fira,
Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra! Só pódem os seus olhos engraçados
Dar vista aos meus já cégos, e cançados. Mas temendo o rancor de Polyfemo,
As proprias sombras dessas plantas temo.
LAURINDO.
Do triste Polyfemo o rancor deixa:
Tu foste a causa, e só de ti te queixa.
GALATÉA.