Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 24 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Este sonho, a demora, e Polyfemo,

Tudo me assusta, e a desgraça temo.

 

LAURINDO.

O sonho intimidar-me não devia

Por ser falsa illusão da fantasia.

Do Pastor a demora, que te assusta,

Tambem póde nascer de causa justa.

Se temes Polyfemo, o susto affasta:

Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. E desde que o domei por teu respeito,

Tudo que eu mando, que elle faça, he feito. Piza, piza, a teus pés essa agonia:

Faze, que a fonte com teu riso ria.

 

GALATÉA.

Tu destróes em parte o meu desgosto;

Mas não consegues ver-me enchuto o rosto: Não: fazer que esta setta não me fira,

Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra! Só pódem os seus olhos engraçados

Dar vista aos meus já cégos, e cançados. Mas temendo o rancor de Polyfemo,

As proprias sombras dessas plantas temo.

 

LAURINDO.

Do triste Polyfemo o rancor deixa:

Tu foste a causa, e só de ti te queixa.

 

GALATÉA.