Galatéa
Laurindo.
Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra.
LAURINDO.
Ainda louvas a ingrata por formosa,
Quando enorme se fez, sendo aleivosa? Polyfemo, se queres ser discreto,
Não recordes a offensa, nem o affecto:
Que o affecto tambem o tempo o gasta,
E a offensa he parto de huma louca, basta Que á razão nunca os olhos tem abertos, E sem luz que fará? Mil desacertos:
Por isso áquelle, que extremoso a trata,
A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata.
Bem como o bravo lobo carniceiro,
Que vê, que a innocencia de hum cordeiro Não péde entranhas ter para aggravallo,
Por isso mesmo quer despedaçallo;
Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue, Tambem ella achará quem bem te vingue: E no entanto o melhor he esquecella,
E se possivel for, nunca mais vella.
POLYFEMO.
Tambem deixar de a ver he impossivel,
Porque sem vella, a dor mais insoffrivel
Creio, que dentro n'alma padecesse,
Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce. Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse,
Talvez que a meus gemidos se abrandasse: E póde ser, que a achasse arrependida
De perder, quem por ella perde a vida.
Oh quão feliz seria a minha sorte, Se ella abrandasse aquelle genio forte!