Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 6 de 40

Páginas do PDF

Galatéa

Laurindo.

Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra.

 

LAURINDO.

Ainda louvas a ingrata por formosa,

Quando enorme se fez, sendo aleivosa? Polyfemo, se queres ser discreto,

Não recordes a offensa, nem o affecto:

Que o affecto tambem o tempo o gasta,

E a offensa he parto de huma louca, basta Que á razão nunca os olhos tem abertos, E sem luz que fará? Mil desacertos:

Por isso áquelle, que extremoso a trata,

A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata.

Bem como o bravo lobo carniceiro,

Que vê, que a innocencia de hum cordeiro Não péde entranhas ter para aggravallo,

Por isso mesmo quer despedaçallo;

Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue, Tambem ella achará quem bem te vingue: E no entanto o melhor he esquecella,

E se possivel for, nunca mais vella.

 

POLYFEMO.

Tambem deixar de a ver he impossivel,

Porque sem vella, a dor mais insoffrivel

Creio, que dentro n'alma padecesse,

Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce. Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse,

Talvez que a meus gemidos se abrandasse: E póde ser, que a achasse arrependida

De perder, quem por ella perde a vida.

Oh quão feliz seria a minha sorte, Se ella abrandasse aquelle genio forte!