Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 4 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Em vão, em vão se cança, se o intenta;

Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta. Agora mais me vejo impaciente,

Que até me afflige a vista de hum vivente: Mas elle vem, não posso resistir-lhe,

Já não posso esconder-me, nem fugir-lhe; Se fujo desta parte, he ribanceira,

Se daquella, me affogo na ribeira;

Pois nella acabarei, morrer não temo;

De huma só morte acabe Polyfemo.

 

LAURINDO.

Detem-te, amigo, e espera, que fazias?

A ti mesmo matar-te pertendias?

Seres comtigo mesmo ímpio tyranno,

Para hum damno evitar com maior damno!

 

POLYFEMO.

Deixa, deixa, que eu morra por piedade,

Porque morrendo, evito a crueldade

Dos ímpios Deoses: ah! Viver não quero, Pois vida tão penosa não toléro:

Tu contarás á falsa Galatéa,

Que por ella me expuz á morte feia;

Porém no peito o coração me estalla,

Vendo, que Ácis tyranno ha de logralla:

Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento! Que eu só, por tal não ver, morrer intento.

 

LAURINDO.