Galatéa
Laurindo.
"Que inda mereces mais cruel castigo.
"Chama agora o teu bem, chama a fingida, "Grita por ella, que te torne a vida.
Á violencia do golpe, o desgraçado
Solta do peito afflicto hum ai magoado
Trémulo, curvo, com a mão convulsa
O peito aperta, donde o sangue pulsa:
Quer suster-se, não póde, a força falta:
A mão solta do peito, o sangue salta:
Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra;
E sobre hum mar de sangue da ferida
Cahe exhalando a preciosa vida.
Com vista incerta, os olhos vidracentos,
Trémula a voz, sem côr, já sem alentos, Exclama, em fim, nas mãos da morte feia: "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa.
E soltando hum suspiro, os olhos serra:
Ferindo as plantas, magoando a terra.
Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça;
He qual farpão, que o peito me traspassa; E se he certa, mandai, que a dura morte
Sobre mim venha, e descarregue o corte: Morreo Ácis por mim, por elle eu morra:
Qual do seu, do meu peito o sangue corra:
LAURINDO.
Misera Galatéa enchuga o pranto,
Que hum sonho falso não provoca a tanto.
GALATÉA.