Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 23 de 40

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Galatéa

Laurindo.

"Que inda mereces mais cruel castigo.

"Chama agora o teu bem, chama a fingida, "Grita por ella, que te torne a vida.

Á violencia do golpe, o desgraçado

Solta do peito afflicto hum ai magoado

Trémulo, curvo, com a mão convulsa

O peito aperta, donde o sangue pulsa:

Quer suster-se, não póde, a força falta:

A mão solta do peito, o sangue salta:

Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra;

E sobre hum mar de sangue da ferida

Cahe exhalando a preciosa vida.

Com vista incerta, os olhos vidracentos,

Trémula a voz, sem côr, já sem alentos, Exclama, em fim, nas mãos da morte feia: "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa.

E soltando hum suspiro, os olhos serra:

Ferindo as plantas, magoando a terra.

Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça;

He qual farpão, que o peito me traspassa; E se he certa, mandai, que a dura morte

Sobre mim venha, e descarregue o corte: Morreo Ácis por mim, por elle eu morra:

Qual do seu, do meu peito o sangue corra:

 

LAURINDO.

Misera Galatéa enchuga o pranto,

Que hum sonho falso não provoca a tanto.

 

GALATÉA.