Galatéa
Laurindo.
Ácis morto! Que dizes, Galatéa?
Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?
GALATÉA.
Eu te exponho a razão, em que me fundo. Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo Ácis partio: passárão-se dois dias,
Dias de magoas, noites de agonias,
Em cada instante, que elle me tardava,
Mil desgraças a idéa me pintava.
Porém hoje no valle d'azinheira,
Junto á ponte da plácida ribeira,
Debaixo de hum cipreste levantado,
Cópia de mim, eu vigiava o gado;
Se bem que pouco vigiar podia,
Quem de chorar já quasi nada via.
Cançada de lutar com meu tormento,
Meu unico, amargoso mantimento,
A affligida cabeça ao tronco encosto,
E sobre a curva mão inclino o rosto.
O somno, que ha dois dias meu não era,
Veio piedoso, que antes não viera!
Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça! A causa desta dor, que me traspassa.
Eu vi... triste visão! Que além da serra,
Por hum dos regos da lavrada terra,
Hia o meu Ácis triste, suspirando
Com prompta vista a minha rez buscando; Outras vezes, olhando para a Aldêa,
Clama saudoso: "Ah minha Galatéa!
Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo.
Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito Com dardo agudo lhe traspassa o peito: Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo,