Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 22 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Ácis morto! Que dizes, Galatéa?

Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?

 

GALATÉA.

Eu te exponho a razão, em que me fundo. Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo Ácis partio: passárão-se dois dias,

Dias de magoas, noites de agonias,

Em cada instante, que elle me tardava,

Mil desgraças a idéa me pintava.

Porém hoje no valle d'azinheira,

Junto á ponte da plácida ribeira,

Debaixo de hum cipreste levantado,

Cópia de mim, eu vigiava o gado;

Se bem que pouco vigiar podia,

Quem de chorar já quasi nada via.

Cançada de lutar com meu tormento,

Meu unico, amargoso mantimento,

A affligida cabeça ao tronco encosto,

E sobre a curva mão inclino o rosto.

O somno, que ha dois dias meu não era,

Veio piedoso, que antes não viera!

Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça! A causa desta dor, que me traspassa.

Eu vi... triste visão! Que além da serra,

Por hum dos regos da lavrada terra,

Hia o meu Ácis triste, suspirando

Com prompta vista a minha rez buscando; Outras vezes, olhando para a Aldêa,

Clama saudoso: "Ah minha Galatéa!

Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo.

Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito Com dardo agudo lhe traspassa o peito: Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo,