Galatéa

António Joaquim de Carvalho · Capítulo 7 de 40

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Galatéa

Laurindo.

Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra, Se hum riso, se hum sinal de amor me déra. Tudo, tudo por ella perderia:

Sem gado, sem choupana ficaria:

Sujeitar-me-hia pelos seus amores

A viver das esmolas dos Pastores:

Pois sem logralla, tudo me he penoso,

E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.

 

LAURINDO.

Se amas com tanto extremo a huma traidora, Que mais fizeras, se fiel te fôra?

 

POLYFEMO.

Esta alma, que me anima, se pudesse,

Creio, que em paga d'esse amor lha désse, Amando-te, era justo premialla;

Mas desprezando-te, he loucura amalla: Sim, que o homem não mostra ser discreto Amando a falsa, que tem outro objecto:

Pois daqui nasce a mancha da deshonra, E antes se perca a vida, do que a honra. Que se havia dizer na nossa Aldêa,

Se depois dessa ingrata Galatéa

Por outro te deixar, tu a buscasses,

Esquecido d'affronta inda a estimasses? E não tremias, não te envergonhavas

De dizerem, que a honra desprezavas?

Ah! Querias do amor ser arrastado,

Perdendo a fama, e credito de honrado? Dize, responde, a falla não escondas;

Mas ou me vence, ou nada me respondas.