Galatéa
Laurindo.
Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra, Se hum riso, se hum sinal de amor me déra. Tudo, tudo por ella perderia:
Sem gado, sem choupana ficaria:
Sujeitar-me-hia pelos seus amores
A viver das esmolas dos Pastores:
Pois sem logralla, tudo me he penoso,
E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.
LAURINDO.
Se amas com tanto extremo a huma traidora, Que mais fizeras, se fiel te fôra?
POLYFEMO.
Esta alma, que me anima, se pudesse,
Creio, que em paga d'esse amor lha désse, Amando-te, era justo premialla;
Mas desprezando-te, he loucura amalla: Sim, que o homem não mostra ser discreto Amando a falsa, que tem outro objecto:
Pois daqui nasce a mancha da deshonra, E antes se perca a vida, do que a honra. Que se havia dizer na nossa Aldêa,
Se depois dessa ingrata Galatéa
Por outro te deixar, tu a buscasses,
Esquecido d'affronta inda a estimasses? E não tremias, não te envergonhavas
De dizerem, que a honra desprezavas?
Ah! Querias do amor ser arrastado,
Perdendo a fama, e credito de honrado? Dize, responde, a falla não escondas;
Mas ou me vence, ou nada me respondas.