Lady Susan
XXIV - Da mesma à mesma
Então partiu correndo escada acim a.
Não tentei detê-lo,porque sabia o que devia sentir. A natureza do que senti enquanto o escutava não faz falta que a descreva. Perm aneci im óvel no lugar durante um par de m inutos, presa do assom bro, um assom bro dos m ais agradáveis, naturalm ente. Necessitei refletir um pouco para poder m e sentir feliz e tranquila.
Dez m inutos apos ter voltado ao salão, entrou lady Susan.
Tinha deduzido, obviam ente, que ela e Reginald tinham discutido e escrutinei com um a curiosidade ansiosa seu rosto para obter um a confirm ação de m inhas suspeitas. A professora do engano, entretanto, parecia perfeitam ente despreocupada e, depois de falar de tem as superficiais durante um m om ento, m e disse: “Inteirei-m e pelo Wilson de que vam os perder ao senhor De Courcy. É certo que deixa Churchill esta m anhã?”.
Respondi-lhe que efetivam ente era certo. « Não nos disse nada disso ontem à noite — respondeu rindo —, nem sequer esta m anhã durante o café da m anhã. Talvez nem ele m esm o soubesse. Frequentem ente, os j ovens são im petuosos em suas decisões e igualm ente abruptos para tom á-las e inconstantes para levá-las a cabo até o fim . Não m e surpreenderia que voltasse a trocar de parecer e não partisse. Então, ela saiu do salão. Confio, m inha querida m ãe, em que não haj a m otivos para tem er m ais m udanças em seus planos atuais.
As coisas foram m uito longe. Devem ter discutido. Sem dúvida, sobre Frederica.
Sua calm a m e assom bra. Que prazer supõe o poder voltar a vê-la com o é e poder considerá-la ainda m erecedora da m ais alta estim a; é ainda capaz de proporcionar felicidade.
Quando voltar a escreve-te, espero poder lhe dizer que sir Jam es j á partiu,que lady Susan desapareceu e que Frederica está tranquila. Tem os m uito que fazer, m as se fará. Estou im paciente por saber com o se produziu esta m udança assom brosa. Term ino com o com ecei, com m inhas m ais cordiais felicitações.
Sem pre sua cordialm ente.
Catherine Vernon
* * *
XXIV - Da mesma à mesma
Churchill
Minha querida m ãe, pouco podia im aginar, quando m andei m inha últim a carta, que a deliciosa exaltação de ânim o que m e em bargava então se voltaria tristeza com tanta celeridade! Nunca lam entarei o suficiente lhe haver escrito nesse instante. Mas, quem podia predizer o que ocorreu? Querida m ãe, tudo o que m e enchia de esperança faz duas horas se esfum ou. A discussão que tinha enfrentado a lady Susan e ao Reginald não serviu para nada e se reconciliaram . Estam os com o antes. Tão som ente ganham os em um a coisa: sir Jam es Martin j á não está aqui.
O que devem os esperar agora?
Naturalm ente, estou m uito decepcionada. Reginald estava a ponto de partir, seu cavalo estava preparado e só faltava que o aproxim assem da porta!
Quem não se teria podido sentir a salvo?
Estive esperando o m om ento de sua partida durante m eia hora. Quando enviei a carta, fui ver o Sr. Vernon e m e sentei com ele para discutir e com entar todo este assunto. Logo, decidi-m e a procurar a Frederica, à que não tinha visto do café da m anhã. Encontrei-a nas escadas, vi que estava chorando e m antivem os o seguinte diálogo:
— Querida m inha tia — disse —, vai, o Sr. De Courcy parte e tudo é por m inha culpa. Você estará m uito zangada, m as eu não sabia que ia term inar assim .
— Meu am or — repliquei —, não é necessário que te desculpe com igo.
Sentir-m e-ei em dívida com qualquer pessoa que sej a a causa de que m eu irm ão se vá a casa, porque sei — acrescentei, com precaução — que m eu pai desej a m uito vê-lo. Mas, o que é o que você tem feito para ser o m otivo de tudo isto?
Ruborizou-se e respondeu:
— Era tão infeliz pelo assunto de sir Jam es, que não pude evitá-lo. Fiz algo m au, sei, m as não sabe o desassossego em que vivia. Minha m ãe m e tinha proibido que falasse com você ou com m eu tio disso e...
—... e daí que te tenha dirigido a m eu irm ão, para conseguir sua intervenção — interrom pi eu, para lhe econom izar as explicações.
— Não, m as lhe tenho escrito. Sim , tenho-o feito. Esta m anhã, levantei-m eantes do am anhecer, quando ainda faltavam um as duas horas e, quando term inei a carta, pensei que nunca teria a coragem de entregar-lhe depois de tom ar o café da m anhã, entretanto, quando dirigia a m eus aposentos, cruzei-m e com ele e então, com o se soubesse que tudo dependia desse m om ento, m e obriguei a entregar-lheNão m e atrevi a lhe olhar e saí correndo. Estava tão assustada que m al podia respirar. Querida tia, não sabe o desassossego em que vivia.
— Frederica — disse —, deveria m e haver contado todas suas penas.
Teria encontrado em m im a um a am iga disposta sem pre a te aj udar. Acredite que seu tio e eu não teríam os abraçado sua causa com tanta convicção com o m eu irm ão?
— É obvio que sim , não duvido de sua bondade — repôs, ruborizando-se de novo, m as eu acreditava que o Senhor De Courcy tinha poder para qualquer coisa com m inha m ãe. Equivocava-m e.
Tiveram um a discussão espantosa sobre isso e ele se vai. Mam ãe nunca m e perdoará e sofrerei m ais que antes.
— Não, não sofrerá — respondi —. Em um caso com o este, a proibição de vossa m ãe não deveria te haver im pedido de falar com igo do assunto.
Não tem nenhum direito a te fazer desgraçada e não o fará. Que tenha recorrido ao Reginald, entretanto, será proveitoso e bom para todos. As coisas estão bem com o estão.
Pode contar que não voltará a te sentir desventurada.
Nesse m om ento, m eu assom bro foi enorm e, ao ver o Reginald sair dos aposentos de lady Susan. Meu coração receou im ediatam ente. Sua confusão era evidente. Frederica desapareceu im ediatam ente.
— Parte-te j á? — perguntei —. Encontrará ao Sr. Vernon em seu salão.
— Não, Catherine — respondeu —, não vou. Tem um m om ento para falar com igo?
— Dei-m e conta —disse um a vez em m inha habitação —, que atuei com m eu insensato ím peto habitual. Interpretei m al a lady Susan por com pleto e estive a ponto de ir desta casa com um a im pressão falsa de sua conduta. Houve um grande engano. Lam ento que todos com etem osum engano. Frederica não conhece sua m ãe. Lady Susan não quer outra coisa que o bem de sua filha, m as Frederica não quer ser sua am iga. Lady Susan, portanto, não sem pre sabe o que é o que pode fazer feliz a sua filha. Além disso, eu não tinha nenhum direito a m e introm eter. A senhorita Vernon se equivocou ao acudir a m im .
Em resum o, Catherine, tudo foi por m au cam inho, m as felizm ente tudo se esclareceu. Acredito que lady Susan quer falar contigo disso, se te parecer bem .
— Sem dúvida — respondi, suspirando profundam ente ao escutar um a história tão patética. Abstive-m e de fazer com entários, posto que as palavras teriam sido em vão.
Reginald se alegrou de poder retirar-se e fui ver lady Susan, curiosa, naturalm ente, por escutar sua versão dos fatos.
— Não te havia dito — perguntou, esboçando um sorriso — que seu irm ão não nos deixaria depois de tudo?
— Em efeito, sim — repus eu, com gravidade —, m as quis acreditar que não seria assim .
— Eu não teria aventurado um a opinião tal — replicou —, se não m e tivesse dado conta, nesse m om ento, de que sua decisão de partir estava certam ente m otivada por um a conversação que tínham os m antido esta m anhã e que tinha term inado pouco satisfatoriam ente, e tudo por causa de não ter com preendido um o sentido das palavras do outro. Dei-m e conta disso nesse instante e, im ediatam ente, decidi que um a discussão anedótica, da que certam ente eu sou tão culpada com o ele, não devia privá-la da com panhia de seu irm ão. Se te lem brar, saí que salão ato seguido. Não queria perder tem po e tinha que esclarecer esses m al-entendidosaté onde m e fora possível. A questão era esta: Frederica se tinha negado violentam ente a casar-se com sir Jam es...
— E te surpreende por isso? — perguntei, com certa veem ência —.
Frederica dem onstrou ter um certo j ulgam ento e sir Jam es carece dele.
— Estou longe de lam entá-lo, m inha querida irm ã — replicou ela —. Ao contrário, alegra-m e um a am ostra tão favorável da sensatez de m inha filha. Sir Jam es é sem dúvida inferior (suas m aneiras de criatura fazem que ainda pareça pior), m as se Frederica tivesse a perspicácia e os dotes que teria gostado que m inha filha tivesse, ou se tivesse sabido que possui tantas com o em efeito tem , não teria desej ado tanto esse m atrim ônio.
— Resulta estranho que sej a quão única ignora a sensatez de sua filha.
— Frederica não se faz nunca j ustiça a si m esm a. Sua personalidade é tím ida e infantil. Além disso, tem -m e m edo.
Apenas m e quer. Quando seu pobre pai vivia, foi um a garota m alcriada. A severidade que, após, m e vi obrigada a lhe aplicar alienou seu afeto. Não tem tam pouco esse brilhantism o intelectual, esse talento e essa força m ental que a fará progredir.
— Dava m elhor que teve um a educação desafortunada!
— O céu sabe querida irm ã, quão consciente sou disso, m as preferiria esquecer um as circunstâncias que m anchariam a lem brança de alguém cuj o nom e é sagrado para m im .
Neste ponto, fingiu m e fazer acreditar que chorava. Tinha esgotado m inha paciência.
— Mas o que é o que foste dizer-m e, sobre o desacordo com m eu irm ão? — inquiri.
— Originou-se por um a ação de m inha filha que igualm ente dem onstra sua falta de j ulgam ento e o desventurado tem or por m im que m encionei. Escreveu ao senhor De Courcy.
— Já sei que o tem feito. Tinha-lhe proibido que falasse com o Sr. Vernon ou com igo sobre a causa de seu desassossego. O que podia fazer, a não ser recorrer a m eu irm ão?
— Santo céu! — exclam ou —. Que opinião deve ter de m im ! De verdade supõe que eu conhecia sua desdita? Que era m eu obj etivo fazer que m inha própria filha fora desgraçada e que eu lhe tinha proibido falar contigo sobre tal particular por m edo de que perturbasse um plano diabólico? Acredita-m e despossuída de todo sentim ento natural de bondade? Sou eu capaz de condená-la a ela à infelicidade eterna, quando conseguir seu bem -estar é m eu prim eiro dever terrestre? A idéia é espantosa.
— Qual era, então, sua intenção, quando lhe insistiu para que guardasse silêncio?
— Do que ia servir querida irm ã, recorrer a ti, estivesse com o estivesse esse assunto? Por que devia deixar que subm etesse a rogos que eu m esm a rechaçava atender? Nem por seu bem , nem pelo seu, nem pelo m eu, podia um a coisa assim ser desej ável. Quando adotei m inha decisão, não podia perm itir a interferência, por m uito am istosa que fora, de outra pessoa. Equivoquei-m e, é certo, m as acreditava que obrava corretam ente.
— Mas, no que consiste esse engano, ao que tão frequentem ente alude? De onde surgiu um m al-entendido tão assom broso, em relação aos sentim entos de sua filha? Sabia que sir Jam es não lhe agradava?
— Sabia que ele não era o hom em que ela teria eleito, m as m e convenci de que suas obj eções para ele não provinham da percepção de seus defeitos. Não deve m e questionar, entretanto, m inha querida irm ã, m uito m inuciosam ente respeito a esse particular — adicionou, agarrando-m e a m ão afetuosam ente —. Adm ito, com franqueza, que tenho algo que esconder. Frederica m e faz m uito infeliz! Que recorresse ao Senhor De Courcy m e há afetado m uito.
— O que pretende dar a entender com este m istério? — perguntei —. Se acreditar que sua filha sente um afeto especial pelo Reginald, o fato de que se opor a sir Jam es m ereceria ser tão atendido com o se a causa de sua oposição fora a consciência de sua inépcia. E, por que ia produzir se um a discussão entre você e m eu irm ão, por um a interferência que, você j á deveria saber, não está em sua natureza rechaçar, quando lhe solicita desse m odo?
— Seu caráter é veem ente, j á sabe, e veio para m im para m e fazer recrim inações, cheio de com paixão por esta m enina m au acostum ada. Esta heroína em apuros! produziu-se um m alentendido entre nós: acreditava que eu tinha m ais culpa da que na verdade m e corresponde e eu considerei sua interferência m enos desculpável do que a considero agora.
Aprecio-lhe verdadeiram ente e m ortificou-m e m uitíssim o com provar com o tinha m alversado essa avaliação. Nos acaloram osam bos e, naturalm ente, os dois som os culpados. Sua decisão de abandonar Churchill se corresponde com seu caráter habitual. Quando soube suas intenções, entretanto, ao m esm o tem po em que com eçava a pensar que tínham os com etido um engano parecido, decidi-m e a lhe pedir um a explicação, antes que fora m uito tarde.
Por qualquer m em bro de sua fam ília, sentirei sem pre um bom grau de afeto e adm ito que m e teria doído m uito que m inha relação com o Sr. De Courcy tivesse term inado de m odo tão triste.
Só quero acrescentar que, j á que m e convenci que Frederica tem m otivos razoáveis para rechaçar a sir Jam es, inform arei a ele, im ediatam ente, de que deve abandonar toda esperança de unir-se a ela. Penitencio-m e por haver lhe causado desdita, em bora inocentem ente, por esse particular. Recom pensá-la-ei com tudo o que estej a em m inhas m ãos fazê-lo. Se ela valorar sua felicidade igual a m im , se j ulgar com equanim idade e se com porta com o débito, pode ficar tranquila.