Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 9 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 8

1

Nas semanas anteriores ao Halloween, o sr. George Amberson examinou quase todas as propriedades das zonas comerciais de Derry e das cidades vizinhas.

Sabia que não devia acreditar que seria aceito como morador da cidade a curto prazo, mas queria que os habitantes se acostumassem à imagem do meu conversível Sunliner vermelho esportivo, apenas parte do cenário. Lá vai aquele tal corretor de imóveis, está aqui há quase um mês. Se for bom nisso, alguém vai ganhar um bom pé-de-meia.

Quando me perguntavam o que procurava, eu dava uma piscadela e sorria. Quando me perguntavam quanto tempo ficaria, dizia que era difícil saber. Aprendi a geografia da cidade e comecei a aprender a geografia verbal de 1958. Agora sabia, por exemplo, que a guerra era a Segunda Guerra Mundial, o conflito era a Guerra da Coreia. Ambas tinham acabado, que descansassem em paz. Todos se preocupavam com a Rússia e a chamada “desvantagem dos mísseis”, mas não muito. Todos se preocupavam com a delinquência juvenil, mas não muito. Havia recessão, mas todos já tinham visto piores. Ao pechinchar com alguém, era totalmente aceito dizer que se tinha “judiado” do outro (ou que aquilo era ciganagem). As balas baratas eram jujubas, lábios de cera e negrinhos de chocolate. No Sul, a segregação racial reinava. Em Moscou, Nikita Kruschov berrava ameaças. Em Washington, o presidente Eisenhower lengalengava alegria.

Fiz questão de dar uma olhada na defunta Metalúrgica Kitchener pouco tempo depois de falar com Chaz Frati. Era uma grande extensão de vazio coberto de mato ao norte da cidade, e, sim, seria o lugar perfeito para um shopping center assim que a extensão da rodovia Milha por Minuto chegasse até lá. Mas no dia em que a visitei — saindo do carro e indo a pé quando a estrada se transformou em escombros destruidores de eixos —, poderia ser a ruína de uma antiga civilização: vede as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos. Montes de tijolos e pedaços enferrujados de máquinas velhas se projetavam do capim alto. No meio, havia uma chaminé de cerâmica há muito desmoronada, as laterais enegrecidas pela fuligem, o seu enorme interior cheio de escuridão. Se eu baixasse a cabeça e me curvasse um pouco, conseguiria entrar nela, e não sou baixinho.

Vi muito de Derry naquelas semanas antes do Halloween, e senti muito de Derry. Os moradores antigos eram bem-educados comigo, mas, com uma única exceção, nunca amistosos. Chaz Frati era essa exceção, e em retrospecto acho que as suas revelações não solicitadas deviam ter me parecido esquisitas, mas eu estava com coisas demais na cabeça e Frati não parecera tão importante assim. Pensei: às vezes a gente simplesmente encontra um camarada amistoso, é só, e deixei pra lá. Sem dúvida não fazia ideia que um homem chamado Bill Turcotte pusera Frati no rolo.

Bill Turcotte, também conhecido como Sem Suspensórios.

2

Bevvie-da-neve dissera achar que os maus tempos de Derry tinham acabado, mas quanto mais eu via (e quanto mais sentia — especialmente isso), mais acreditava que Derry não era como os outros lugares. Derry não estava certa. A princípio tentei me dizer que era eu, não a cidade. Eu era um homem desconjuntado, um beduíno temporal, e todo lugar me pareceria um pouco estranho, meio torto — como as cidades que se parecem tanto com pesadelos naqueles estranhos romances de Paul Bowles. A princípio foi convincente, mas conforme os dias se passavam e eu continuava a explorar o meu novo ambiente, foi deixando de ser. Cheguei a questionar a afirmativa de Beverly Marsh de que os maus tempos tinham acabado e imaginei (nas noites em que não consegui dormir, e houve várias) que ela mesma questionava. Eu não vislumbrara uma semente de dúvida nos seus olhos? O olhar de alguém que não acredita de verdade mas quer acreditar? Talvez até precise?

Algo errado, algo ruim.

Algumas casas vazias que pareciam fitar como o rosto de quem sofre de uma terrível doença mental. Um celeiro vazio nos arredores da cidade, a porta do depósito de feno no jirau a se abrir e fechar, balançando lentamente nas dobradiças enferrujadas, primeiro revelando a escuridão, depois a escondendo, depois a revelando outra vez. Uma cerca rachada na rua Kossuth, a apenas um quarteirão da casa onde a sra. Dunning morava com os filhos. Para mim aquela cerca fazia parecer que alguma coisa — ou alguém — tivesse sido atirada nela até os Barrens lá embaixo. Uma pracinha vazia com o gira-gira rodando devagar, embora não houvesse nenhuma criança para empurrar nem vento apreciável para fazê-lo rodar. Ele gritava nas engrenagens ocultas enquanto girava. Certo dia, vi um Jesus esculpido grosseiramente descer flutuando o canal e entrar no túnel que passava debaixo da rua do Canal. Tinha um metro de comprimento. Os dentes espiavam atrás de lábios abertos num sorriso raivoso. Uma coroa de espinhos, inclinada com elegância, contornava a testa; lágrimas de sangue tinham sido pintadas abaixo dos estranhos olhos brancos da coisa. Parecia um fetiche de religiões africanas. Na chamada Ponte do Beijo, no parque Bassey, em meio às declarações do espírito escolar e de amor imorredouro, alguém gravara as palavras LOGO VOU MATAR MINHA MÃE. NÃO DEMORA ELA FICA CHEIA DE DOENSA. Certa tarde, enquanto caminhava no lado leste dos Barrens, ouvi um guincho terrível, ergui os olhos e vi a silhueta de um homem magro em pé sobre o pontilhão da ferrovia, não muito longe dali. Uma vara subia e descia na sua mão. Ele surrava alguma coisa. Os guinchos pararam e pensei: Era um cão e o camarada acabou com ele. Ele o trouxe aqui preso numa corda e o surrou até que morresse. É claro que não havia como eu saber uma coisa dessas... e mesmo assim eu sabia. Tive certeza na época e tenho agora.

Algo errado.

Algo ruim.

Alguma dessas coisas têm a ver com a história que estou contando? A história do pai do zelador e de Lee Harvey Oswald (o do sorrisinho afetado de sei-um-segredo e olhos cinzentos que nunca encaravam os nossos?). Não sei com certeza, mas posso lhe contar mais uma coisa: havia algo dentro daquela chaminé caída na Metalúrgica Kitchener. Não sei o que e não quero saber, mas na boca da coisa vi um monte de ossos roídos e uma coleirinha com guizo mastigada. Coleira que, sem dúvida, pertencera ao amado gatinho de alguma criança. E de dentro do tubo — no fundo daquele interior grande demais — algo se mexia e se arrastava.

Entre para ver, aquele algo parecia sussurrar na minha cabeça. Não se incomode com o resto, Jake; entre para ver. Entre e converse. Aqui o tempo não importa; aqui o tempo simplesmente voa para longe. Você sabe que quer, você sabe que é curioso. Talvez seja até outra toca de coelho. Outro portal.

Talvez fosse, mas acho que não. Acho que Derry estava lá — tudo o que havia de errado, tudo o que era torto, a se esconder naquele tubo. Hibernando. Deixando que todos acreditassem que os maus tempos tinham acabado, esperando que relaxassem e esquecessem que já houvera maus tempos.

Saí correndo e nunca mais voltei àquela parte de Derry.

3

Certo dia, na segunda semana de outubro — nisso os carvalhos e olmos da rua Kossuth eram um festival de ouro e vermelho —, visitei mais uma vez o falecido Centro Recreativo da Zona Oeste. Nenhum caçador de imóveis de respeito deixaria de investigar por completo as possibilidades de um terreno tão bom, e perguntei a várias pessoas na rua como era por dentro (a porta estava trancada a cadeado, naturalmente) e quando fechara.

Uma das pessoas com quem conversei foi Doris Dunning. Bonita como capa de revista , dissera Chaz Frati. Um clichê geralmente sem sentido, mas verdadeiro neste caso. Os anos tinham posto rugas finas em torno dos olhos e outras mais profundas no canto da boca, mas tinha a pele fantástica e uma incrível silhueta de busto cheio (em 1958, ponto alto de Jayne Mansfield, seios grandes eram considerados atraentes e não embaraçosos). Conversamos nos degraus. Convidar-me para entrar na casa vazia, com as crianças na escola, seria impróprio e, sem dúvida, tema de fofocas na vizinhança, ainda mais com o marido “morando fora”. Ela segurava um pano de pó numa das mãos e um cigarro na outra. Havia uma garrafa de lustra-móveis aparecendo no bolso do avental. Como a maioria dos moradores de Derry, foi bem-educada, mas distante.

Sim, disse ela, quando ainda funcionava o Centro de Recreação era ótimo para as crianças. Era muito bom ter um lugar tão perto onde pudessem ir depois da escola e correr até não aguentar mais. Da janela da cozinha, ela conseguia ver a quadra de basquete e a pracinha, e era tristíssimo vê-las vazias. Ela achava que o Centro fora fechado numa época de cortes orçamentários, mas o jeito como os olhos se moveram e a boca se contraiu me indicou outra coisa: que fora fechado durante a rodada de assassinatos e desaparecimentos de crianças. As preocupações orçamentárias talvez fossem secundárias.

Agradeci e lhe entreguei um dos meus cartões recentemente impressos. Ela o pegou, me deu um sorriso distraído e fechou a porta. Foi uma fechada de porta gentil, não uma batida, mas ouvi um barulho detrás dela e soube que ela passara a corrente.

Achei que o Centro serviria aos meus propósitos quando o Halloween chegasse, embora não gostasse muito dele. Não previa problemas para entrar, e uma das janelas da frente me daria uma ótima visão da rua. Dunning poderia vir de carro em vez de a pé, mas eu sabia como era. Seria depois de escurecer, de acordo com a redação de Harry, mas havia postes de luz na rua.

É claro que o problema de visibilidade servia aos dois lados. A menos que estivesse totalmente fixado no que iria fazer, Dunning, quase com certeza, me veria correndo para ele. Eu estaria com a pistola, mas ela só tinha precisão absoluta até quinze metros. Precisava chegar bem mais perto antes de arriscar um tiro, porque, com certeza, na noite de Halloween a rua Kossuth estaria cheia de fantasminhas e duendes tamanho P. Mas não podia esperar que ele realmente entrasse na casa antes de sair do esconderijo, porque, de acordo com a redação, o marido separado de Doris Dunning se pusera a trabalhar imediatamente. Quando Harry saiu do banheiro, todos estavam caídos e, com exceção de Ellen, mortos. Se esperasse, era provável que eu visse o que Harry vira: o cérebro da mãe encharcando o sofá.

Eu não viajara mais de meio século para salvar apenas um deles. E daí se ele me visse? Eu era o homem com a arma de fogo, ele era o homem com o martelo — provavelmente afanado da gaveta de ferramentas da pensão. Se corresse para mim, isso seria bom. Eu seria o palhaço do rodeio que distrai o touro. Pularia e gritaria até ele chegar ao alcance e poria duas balas no seu peito.

Quer dizer, supondo que eu conseguisse puxar o gatilho.

E supondo que a arma funcionasse. Eu a testara numa pedreira nos arredores da cidade, e parecia boa... mas o passado é obstinado.

Ele não quer mudar.

4

Depois de pensar melhor, achei que poderia haver um local ainda mais favorável para a vigia na noite de Halloween. Eu precisaria de um pouco de sorte, mas não muita. Deus sabe que há muita coisa à venda por aqui, dissera o bartender Fred Toomey na minha primeira noite em Derry. As minhas explorações tinham confirmado isso. Depois dos assassinatos (e da grande enchente de 1957, não se esqueça disso), parecia que metade da cidade estava à venda. Num burgo menos reservado, um suposto comprador de imóveis como eu provavelmente receberia as chaves da cidade e um fim de semana de loucuras com a Miss Derry.

Uma rua que eu não verificara era a travessa Wyemore, um quarteirão ao sul da rua Kossuth. Isso significava que os quintais da Wyemore davam para os quintais da Kossuth. Dar uma olhada não faria mal.

Embora o número 206 da Wyemore, a casa diretamente atrás da dos Dunning, estivesse ocupada, a do lado esquerdo — a 202 — parecia a resposta a uma oração. A tinta cinzenta estava fresca e as telhas, novas, mas as janelas estavam bem trancadas. No gramado recém-aparado havia uma placa verde e amarela que eu vira pela cidade inteira: À VENDA PELA DERRY HOME, ESPECIALISTAS EM IMÓVEIS. Essa me convidava a ligar para o especialista Keith Haney e discutir um financiamento. Não tinha a mínima intenção de fazer isso, mas estacionei o meu Sunliner na entrada de garagem recentemente asfaltada (alguém estava fazendo de tudo para vender esta aqui) e andei até o quintal dos fundos, de cabeça erguida, ombros para trás, grande como o diabo. Descobrira muitas coisas enquanto explorava o meu novo ambiente, e uma delas era que, se a gente agisse como se o lugar fosse nosso, todos pensariam que era.

O quintal estava bem-aparado, as folhas varridas para exibir o verde aveludado. Um cortador de grama manual fora guardado debaixo do beiral da garagem com um retalho de lona verde bem enrolado nas lâminas rotativas. Ao lado da antepara do porão, havia uma casinha de cachorro com uma placa que revelava o melhor aspecto não-perca-a-piada de Keith Haney: FEITA PARA O SEU LULU. Lá dentro havia uma pilha de sacos para folhas não usados, com uma pá de jardinagem e tesouras de podar em cima para que não voassem. Em 2011, as ferramentas estariam trancadas; em 1958, alguém cuidara para que não pegassem chuva e achou que bastava. Eu tinha certeza de que a casa estava trancada, mas tudo bem. Não tinha o mínimo interesse em arrombar e entrar.

Nos fundos do quintal do número 202 da Wyemore havia uma sebe de mais ou menos um metro e oitenta de altura. Não tão alta quanto eu, em outras palavras, e, embora fosse luxuriante, um homem conseguiria passar por ela com bastante facilidade se não se incomodasse com alguns arranhões. O melhor de tudo foi que, quando andei até o canto direito, que ficava atrás da garagem, consegui olhar na diagonal o quintal da casa dos Dunning. Vi duas bicicletas. Uma era uma Schwinn de menino, equilibrada no seu apoio. A outra, deitada de lado como um pônei morto, era de Ellen Dunning. Não havia como não ver as rodinhas.

Também havia brinquedos espalhados. Um deles era a espingarda Daisy de ar comprimido de Harry Dunning.

5

Quem já fez teatro amador ou dirigiu peças de alunos, o que fiz várias vezes na LHS, sabe como foram para mim os dias até o Halloween. A princípio, os ensaios são preguiçosos. Há improvisação, piadas, brincadeiras brutas e muita paquera enquanto se estabelecem as polaridades sexuais. Se alguém erra uma fala ou esquece uma deixa nesses primeiros ensaios, é motivo de riso. Se um ator chega quinze minutos atrasado, pode levar uma repreensão leve, mas provavelmente nada além disso.

Então a estreia começa a parecer uma possibilidade real em vez de um sonho idiota. As improvisações somem. As brincadeiras brutas também e, embora as piadas permaneçam, o riso que provocam tem uma energia nervosa que não existia antes. As falas erradas e deixas esquecidas começam a parecer exasperantes em vez de divertidas. O ator que se atrasa para o ensaio depois que o cenário está montado e a noite de estreia a poucos dias de distância pode levar uma séria descompostura do diretor.

Chega a grande noite. Os atores vestem o figurino e se maquiam. Alguns estão simplesmente aterrorizados; nenhum se sente bem-preparado. Logo terão de enfrentar uma sala cheia de gente que foi vê-los desfilar o seu papel. O que parecia distante nos dias de marcações no palco nu chegou, afinal de contas. E antes que a cortina se abra, algum Hamlet, Willy Loman ou Blanche DuBois terá de sair correndo para o banheiro mais próximo e passar mal. Isso nunca falha.

Pode acreditar na parte sobre passar mal. Eu sei.

6

Na madrugada anterior à da manhã de Halloween, me encontrei não em Derry, mas no oceano. Um oceano tempestuoso. Eu me agarrava à amurada de uma embarcação grande — um iate, acho — que estava prestes a naufragar. A chuva impulsionada pela ventania uivante batia no meu rosto. Ondas imensas, negras na base e de um verde espumoso e coagulado no alto, corriam na minha direção. O iate subiu, se contorceu e depois despencou de novo com um movimento louco em parafuso.

Acordei desse sonho com o coração aos pulos e as mãos ainda fechadas de tentar segurar a amurada que o meu cérebro sonhara. Só que não era só o cérebro, porque a cama ainda subia e descia. O meu estômago parecia ter se desatracado dos músculos que deveriam segurá-lo no lugar.

Nesses momentos, quase sempre o corpo é mais sábio do que o cérebro. Joguei para trás as cobertas e saí correndo para o banheiro, chutando a odiosa cadeira amarela quando passei a toda pela cozinha. Depois os dedos do meu pé doeriam, mas na hora mal senti. Tentei travar a garganta, mas só consegui em parte. Escutei um som esquisito se esgueirando por ela até a minha boca. Ulc-ulc-urp-ulc era como soava. O meu estômago era o iate, primeiro se erguendo e depois dando aquelas horríveis quedas em parafuso. Caí de joelhos na frente do vaso sanitário e vomitei o jantar. Depois saíram o almoço e o café da manhã da véspera: meu Deus, presunto com ovos. Ao pensar em toda aquela gordura brilhante, vomitei de novo. Houve uma pausa e então pareceu que tudo o que eu comera na semana passada saiu do prédio.

Quando comecei a esperar que acabasse, o meu intestino fez uma terrível contorção líquida. Cambaleei para me levantar, baixei o assento do vaso e consegui me sentar antes que tudo saísse num jorro aguado.

Mas não. Não tudo, não ainda. O meu estômago deu outro salto vertiginoso bem quando o meu intestino voltou a trabalhar. Só havia uma coisa a fazer, e fiz: me inclinei para a frente e vomitei na pia.

Foi assim até o meio-dia do Halloween. Nisso, as minhas portas de ejeção só produziam gosma aguada. Toda vez que eu vomitava, toda vez que o intestino se contorcia, eu pensava a mesma coisa. O passado não quer ser mudado. O passado é obstinado.

Mas, quando Frank Dunning chegasse naquela noite, eu queria estar lá. Mesmo que ainda estivesse vomitando e cagando água cinzenta, eu queria estar lá. Mesmo que ele me matasse, eu queria estar lá.

7

O sr. Norbert Keene, proprietário da Drogaria da Rua Central, estava atrás do balcão quando entrei naquela tarde de sexta-feira. O ventilador de teto com pás de madeira acima da sua cabeça erguia numa dança ondulada o que lhe sobrava de cabelo: teias de aranha numa brisa de verão. Bastou olhar isso para o meu estômago agredido dar outra guinada de aviso. Ele era magro, quase emaciado, dentro do guarda-pó de algodão branco e, quando me viu entrar, os lábios pálidos se vincaram num sorriso.

— O senhor parece um pouco desgastado, meu amigo.

— Kaopectate — disse eu com voz rouca que não parecia minha. — Tem? — Tentando lembrar se já tinha sido inventado.

— Estamos sofrendo de uma infecçãozinha? — A luz do alto pegava nas lentes dos pequenos óculos sem aro e patinava em torno delas quando ele movia a cabeça. Como manteiga numa frigideira, pensei, e com isso o meu estômago deu outra investida. — Está pegando todo mundo na cidade. Temo que o senhor terá vinte e quatro horas horríveis. Provavelmente um micróbio, mas o senhor pode ter usado um banheiro público e se esquecido de lavar as mãos. Tanta gente é relaxada com iss...

— O senhor tem Kaopectate ou não?

— Claro. Segundo corredor.

— Calças para incontinência... tem?

O sorriso de lábios finos se espalhou. Calças para incontinência são engraçadas, é claro que são. A menos, claro, que sejamos nós a precisar.

— Quinto corredor. Mas se o senhor ficar perto de casa, não vai precisar. Com base na sua palidez, senhor... e pelo jeito que está suando... seria mais aconselhável fazer isso.

— Obrigado — respondi, e me imaginei socando-o bem na boca e enfiando-lhe a dentadura pela garganta. Chupe um pouco de Polident, amigo.

Fiz a compra devagar, sem querer cutucar mais do que o necessário as minhas entranhas liquefeitas. Peguei o Kaopectate (Tamanho Grande Econômico? isso), depois as calças para incontinência (Adulto Grande? isso). As calças estavam em Produtos para Ostomia, entre as bolsas para lavagem intestinal e sinistros rolos amarelos de tubo plástico cuja função não quero descobrir. Havia também fraldas para adultos, mas diante dessas recuei. Se necessário, eu encheria as calças para incontinência com panos de prato. Isso me soou engraçado e, apesar do sofrimento, tive de lutar para não rir. Rir no meu estado então delicado poderia provocar um desastre.

Como se sentisse a minha angústia, o farmacêutico esquelético cobrou os meus itens em câmera lenta. Paguei-lhe, estendendo uma nota de cinco dólares com uma mão que tremia de forma apreciável.

— Mais alguma coisa?

— Só mais uma. Estou passando mal, o senhor pode ver que estou passando mal, então por que diabos está rindo de mim?

O sr. Keene deu um passo atrás, o sorriso caindo dos lábios.

— Posso lhe garantir, eu não estava rindo. Sem dúvida espero que o senhor se sinta melhor.

O meu intestino se contorceu. Cambaleei um pouco, segurando o saco de papel com as coisas dentro e me apoiando no balcão com a mão livre.

— O senhor tem um banheiro?

O sorriso reapareceu.

— Temo que não para fregueses. Por que não experimenta um dos... estabelecimentos do outro lado da rua?

— O senhor é um canalha rematado, não é? O maldito cidadão perfeito de Derry.

Ele se enrijeceu, depois se virou e andou para as regiões subterrâneas onde ficavam guardados os seus comprimidos, pós e xaropes.

Passei devagar pela máquina de refrigerantes e saí pela porta. Eu me sentia como se fosse feito de vidro. Era um dia frio, não passava de 7 graus, mas o sol parecia muito quente na minha pele. E grudento. O meu intestino se contorceu de novo. Fiquei absolutamente imóvel um instante, a cabeça baixa, um pé na calçada, outro na sarjeta. A cólica passou. Atravessei a rua sem olhar o tráfego, e alguém buzinou para mim. Segurei-me para não mostrar uma banana ao buzinador, mas só porque já tinha problemas suficientes. Não podia me arriscar a me meter numa briga; eu já estava brigando.

A cólica veio de novo, uma faca dupla no baixo-ventre. Comecei a correr. O Sonolento Dólar de Prata ficava mais perto, e foi essa a porta que abri, empurrando o meu corpo infeliz para a semiescuridão e o cheiro fermentoso de cerveja. Na vitrola automática, Conway Twitty gemia que era só fingimento. Gostaria que estivesse certo.

O lugar estava vazio, com exceção de um freguês sentado a uma mesa vazia, me olhando com olhos espantados, e o bartender inclinado na ponta do banco alto, resolvendo as palavras cruzadas do jornal. Ele ergueu os olhos para mim.

— Banheiro — disse eu. — Rápido.

Ele apontou para os fundos, e corri na direção das portas marcadas com BUOYS e GULLS — boias e gaivotas em vez de boys e girls. Ataquei BUOYS de braço esticado como um jogador de futebol americano à procura de campo livre para sair correndo. O lugar fedia a merda, fumaça de cigarro e água sanitária de fazer chorar. O compartimento único do vaso sanitário não tinha porta, o que provavelmente era bom. Abri as calças como o Super-Homem atrasado para um assalto a banco, me virei e caí.

Bem na hora.

Quando os últimos espasmos passaram, tirei do saco de papel a garrafa gigantesca de Kaopectate e gorgolejei três grandes goles. O meu estômago empinou. Lutei com ele para que voltasse ao seu lugar. Quando tive certeza de que a primeira dose ficaria lá dentro, engoli mais uma, arrotei e, devagar, reatarraxei a tampa. Na parede à minha esquerda, alguém desenhara um pênis com testículos. Os testículos estavam cortados e deles jorrava sangue. Debaixo dessa imagem encantadora, o artista escrevera: HENRY CASTONGUAY PRÓXIMA VEZ QUE FODER COM A MINHA MULHER É ISSO QUE VAI TER.

Fechei os olhos e, quando o fiz, vi o freguês espantado que assistira à minha corrida para o banheiro. Mas seria um freguês? Não havia nada na mesa; ele só estava lá sentado. De olhos fechados, consegui ver o rosto com clareza. Era um dos que eu conhecia.

Quando voltei ao bar, Ferlin Husky substituíra Conway Twitty na vitrola e Sem Suspensórios sumira. Fui até o bartender e perguntei:

— Havia um camarada sentado lá quando entrei. Quem era?

Ele ergueu os olhos das palavras cruzadas.

— Não vi ninguém.

Puxei a carteira, tirei uma nota de cinco e a pus no balcão ao lado de um porta-copos de cerveja Narragansett.

— O nome.

Ele manteve um breve diálogo silencioso consigo mesmo, deu uma olhada no vidro de gorjetas ao lado do que continha ovos em conserva, não viu nada lá dentro a não ser uma solitária moedinha de cinco centavos e fez a nota de cinco sumir.

— Aquele era Bill Turcotte.

O nome não significava nada para mim. A mesa vazia podia não significar nada também, mas, por outro lado...

Pus um irmão gêmeo de Abraham Lincoln no balcão.

— Ele veio aqui me vigiar? — Se a resposta fosse sim, queria dizer que ele estava me seguindo. E talvez não só hoje também. Mas por quê?

O bartender empurrou os cinco de volta.

— Só sei que ele costuma vir aqui para tomar cerveja, e bastante.

— Então por que foi embora sem tomar nenhuma?

— Talvez tenha olhado a carteira e só encontrado lá dentro a carta de alforria. Eu lá tenho

cara de Bridey Murphy?4 Agora que o senhor deixou o meu banheiro fedido, por que não pede alguma coisa ou vai embora?

— Já estava fedendo muito bem antes de eu entrar lá, amigo.

Não foi lá grande coisa como última palavra, mas foi o melhor que consegui dadas as circunstâncias. Saí e fiquei na calçada, procurando Turcotte. Não havia sinal dele, mas Norbert Keene estava em pé na vitrine da farmácia, as mãos cruzadas nas costas, me observando. O seu sorriso sumira.

8

Às cinco e vinte da tarde, estacionei o meu Sunliner no terreno ao lado da Igreja Batista da rua Witcham. Ele tinha bastante companhia; de acordo com a tabuleta, às cinco da tarde havia uma reunião dos Alcoólicos Anônimos naquela igreja específica. Na mala do Ford estavam todas as posses que eu reunira durante as minhas sete semanas como morador da Cidadezinha Peculiar, como passei a pensar. Os únicos itens indispensáveis estavam na pasta Lord Buxton que Al me dera: as anotações dele, as minhas e o resto do dinheiro. Graças a Deus, mantive a maior parte em forma portátil.

Ao meu lado no banco estava um saco de papel contendo a minha garrafa de Kaopectate — agora três quartos vazia — e as calças para incontinência. Ainda bem que estas eu achei que não ia precisar. O estômago e o intestino pareciam ter se acalmado, e os tremores tinham sumido das minhas mãos. Havia meia dúzia de chocolates Payday no porta-luvas em cima do meu Police Special. Acrescentei esses itens ao saco de papel. Mais tarde, quando estivesse posicionado entre a garagem e a sebe do número 202 da travessa Wyemore, carregaria a arma e a enfiaria no cinto. Como um bandidinho barato no tipo de filme B que passava no Strand.

Havia outro item no porta-luvas: um exemplar de TV Guide com Fred Astaire e Barrie Chase na capa. Provavelmente pela undécima vez desde que comprara a revista na banca da parte alta da rua Principal, fui ver a programação de sexta-feira.

20 horas, canal 2: As novas aventuras de Ellery Queen, George Nader, Les Tremayne. “Tão rica, tão adorável, tão morta.” Um inescrupuloso corretor da Bolsa de Valores (Whit Bissell) persegue uma herdeira rica (Eva Gabor) enquanto Ellery e o pai investigam.

Pus no saco com o resto, mais para dar sorte, e então desci, tranquei o carro e fui para a travessa Wyemore. Passei por algumas mamães e papais acompanhando as travessuras ou gostosuras de crianças pequenas demais para ficar na rua sozinhas. Abóboras escavadas sorriam alegremente em muitas varandas, e um par de bonecos cheios de palha com chapéu na cabeça me fitavam com olhos vazios.

Desci a travessa Wyemore pelo meio da calçada, como se tivesse todo o direito de estar ali. Quando um pai se aproximou, segurando a mão de uma menininha usando brincos grandes de cigana, o batom vermelho da mamãe e grandes orelhas de plástico preto presas numa peruca de cachos, cumprimentei papai com o chapéu e me curvei para a criança, que levava um saco de papel só seu.

— Quem é você, querida?

— Annette Foonijello — respondeu ela. — Ela é a mais bonita do Clube do Mickey.

— E você é tão bonita quanto ela — disse eu — E como é que se diz?

A menina pareceu confusa, e o pai se inclinou e cochichou no ouvido dela, que se iluminou num sorriso.

— Gotosula ou tavessula!

— Isso — comentei. — Mas nada de travessuras hoje. — A não ser a que eu pretendia aprontar com o homem do martelo.

Tirei um Payday do meu saco (tive de me desviar do revólver para alcançá-lo) e o estendi. Ela abriu o saco e eu o deixei cair lá dentro. Eu era apenas um sujeito na rua, um perfeito desconhecido numa cidade que fora abalada por crimes terríveis não fazia muito tempo, mas vi a mesma confiança infantil no rosto de pai e filha. Os dias de doces temperados com LSD estavam longe no futuro — assim como o NÃO USE SE O SELO ESTIVER ROMPIDO.

O pai cochichou de novo.

— Obrigada, moço — disse Annette Foonijello.

— Não há de quê. — Pisquei para papai. — Que vocês dois tenham uma ótima noite.

— Ela provavelmente terá dor de barriga amanhã — disse papai, mas sorriu. — Vamos, Abóbora.

— Sou Annette! — afirmou ela.

— Desculpe, desculpe. Vamos, Annette. — Ele me deu um sorriso, cumprimentou com o chapéu e lá se foram eles de novo, em busca de pilhagem.

Continuei até o 202, sem correr. Poderia ter assoviado se os meus lábios não estivessem tão secos. Na entrada de garagem, arrisquei uma rápida olhada em volta. Vi alguns caçadores de gostosuras no outro lado da rua, mas ninguém que prestasse a mínima atenção em mim. Excelente. Subi rapidamente a entrada da garagem. Assim que cheguei atrás da casa, dei um suspiro de alívio tão fundo que parecia vir lá dos meus calcanhares. Ocupei a minha posição no canto direito do quintal, escondido com segurança entre a garagem e a sebe. Ou assim pensei.

Espiei o quintal dos Dunning. As bicicletas tinham sumido. A maioria dos brinquedos ainda estava lá — um arco de criança e algumas flechas com ponta de sucção, um bastão de beisebol com o cabo enrolado com fita adesiva, um bambolê verde — mas a espingardinha Daisy, não. Harry a levara para dentro. Pretendia ir com ela quando saísse atrás de gostosuras fantasiado de Buffalo Bob.

Tugga já lhe falara merda sobre isso? A mãe já dissera pode levar se quiser porque não é de verdade? Se não, diriam. As falas já tinham sido escritas. O meu estômago doeu, dessa vez não devido ao micróbio de 24 horas que andava pela cidade, mas porque a percepção total — do tipo que a gente sente nas entranhas — finalmente chegara de bunda de fora com toda a sua glória. Aquilo ia mesmo acontecer. Na verdade, já estava acontecendo. O espetáculo começara.

Dei uma olhada no relógio. A mim parecia que deixara o carro no estacionamento da igreja havia uma hora, mas eram só quinze para as seis. Na casa dos Dunning, a família estaria se preparando para jantar... mas, se eu conhecia bem as crianças, as menores estariam empolgadas demais para comer muito, e Ellen já estaria usando a fantasia de princesa Summerfall Winterspring. Provavelmente a vestira assim que chegara da escola e deixaria a mãe maluca com os pedidos para ajudá-la a fazer a pintura de guerra.

Sentei-me com as costas na parede de trás da garagem, remexi o saco de papel e tirei um Payday. Levantei-o e pensei no pobre J. Alfred Prufrock, o da canção de T. S. Elliot. Eu não era muito diferente, embora fosse um chocolate que eu não tinha certeza de que ousaria comer. Por outro lado, teria muito a fazer nas próximas três horas, mais ou menos, e o meu estômago era um oco roncante.

Foda-se, pensei, e desembrulhei o chocolate. Era maravilhoso — doce, salgado, consistente. Engoli quase tudo em duas mordidas. Estava me preparando para enfiar o resto na boca (e me perguntando por que, em nome de Deus, eu não embalara um sanduíche e uma garrafa de Coca) quando vi movimento com o canto o olho esquerdo. Comecei a me virar, enfiando a mão no saco para pegar a arma ao mesmo tempo, mas era tarde demais. Algo frio e aguçado espetou o oco da minha têmpora esquerda.

— Tire a mão desse saco.

Reconheci a voz na mesma hora. Que tal uma beijoca no porquinho?, dissera o dono quando lhe perguntei se ele ou algum amigo conheciam um camarada chamado Dunning. Ele dissera que Derry era cheia de Dunning, e isso eu verificara por conta própria não muito depois, mas ele tivera desde o princípio uma boa ideia de quem eu procurava, não é? E aquela era a prova.

A ponta da lâmina se enfiou um pouco mais, e senti uma gota de sangue escorrer pelo lado do meu rosto. Era quente contra a pele gelada. Quase fervente.

— Tire a mão agora, meu chapa. Acho que sei o que há aí e, se a sua mão não sair vazia, as suas gostosuras de Halloween vão ser meio metro de aço japa. Essa coisa é bem afiada. Vai sair direto pelo outro lado da sua cabeça.

Tirei a mão do saco — vazia — e me virei para olhar Sem Suspensórios. O cabelo dele tombava em cachos oleosos sobre as orelhas e a testa. Os olhos escuros nadavam no rosto pálido e mal barbeado. Senti um desalento tão grande que era quase desespero. Quase... mas sem ser. Mesmo que ele me mate, pensei de novo. Mesmo que.

— No saco só há chocolate — disse eu, com voz tranquila. — Se quiser um, sr. Turcotte, é só pedir. Eu lhe dou.

Ele puxou o saco antes que eu pusesse a mão lá dentro. Usou a mão que não segurava a arma, que por acaso era uma baioneta. Não sei se era japonesa ou não, mas pelo jeito que luzia à luz evanescente do crepúsculo, eu me dispunha a estipular que era bem afiada.

Ele remexeu no saco e tirou o meu Police Special.

— Só chocolate, é? Isso não se parece com chocolate, senhor Amberson.

— Preciso disso.

— É, e quem está no inferno precisa de água gelada, mas não ganha.

— Baixe a voz — disse eu.

Ele enfiou a minha arma no cinto — exatamente onde eu imaginara que a poria depois de passar pela sebe e chegar ao quintal dos Dunning — e chuçou a baioneta na direção dos meus olhos. Foi preciso força de vontade para não recuar.

— Não me diga o que... — Ele cambaleou. Esfregou primeiro o estômago, depois o peito, depois o pescoço malbarbeado, como se houvesse alguma coisa presa ali. Ouvi um clique na garganta dele quando engoliu.

— Sr. Turcotte? O senhor está bem?

— Como sabe o meu nome? — Então, sem esperar resposta: — Foi o Pete, não foi? O bartender do Sonolento. Ele lhe contou.

— Foi. Agora tenho uma pergunta a lhe fazer. Há quanto tempo está me seguindo? E por quê?

Ele sorriu sem humor, revelando um par de falhas nos dentes.

— Foram duas perguntas.

— Basta responder.

— Você age como... — ele fez cara de dor de novo, engoliu de novo e se apoiou na parede dos fundos da garagem — como se estivesse no comando.

Avaliei a palidez e a agonia de Turcotte. O sr. Keene podia ser um canalha com um quê de sadismo, mas achei que, como diagnosticista, não era tão ruim assim. Afinal de contas, quem tem mais condições do que o farmacêutico local de saber qual é a doença da vez? Eu tinha bastante certeza de que não precisaria do resto de Kaopectate, mas Bill Turcotte podia precisar. Sem falar das calças para incontinência, assim que aquele micróbio realmente começasse a trabalhar.

Isso pode ser muito bom ou muito ruim, pensei. Mas que bobagem. Não havia nada de bom naquilo.

Não importa. Faça ele falar. E assim que os vômitos começarem — supondo que comecem antes que ele me corte a garganta ou me mate com a minha arma — pule em cima dele.

— Basta me dizer — disse eu. — Acho que tenho o direito de saber, já que não lhe fiz nada.

— É a ele que você quer fazer alguma coisa, eis o que eu penso. Toda essa história de imóveis que você vem cuspindo pela cidade... tudo lixo. Você veio aqui atrás dele. — Com a cabeça, ele indicou a casa do outro lado da sebe. — Soube no instante que o nome dele pulou da sua boca.

— Como assim? Esta cidade é cheia de Dunning, você mesmo disse.

— É, mas só um me interessa. — Ele ergueu a mão que segurava a baioneta e limpou o suor da testa com a manga. Acho que eu teria conseguido pegá-lo nessa hora, mas tive medo de que o barulho da briga chamasse a atenção. E se a arma disparasse, provavelmente seria eu a receber a bala.

Também estava curioso.

— Ele deve ter lhe feito um bem danado pelo caminho para você se transformar no seu anjo da guarda — comentei.

Ele soltou um risinho latido e sem humor.

— Gajo, essa foi boa, mas de certa forma é verdade. Acho que sou um tipo de anjo da guarda. Pelo menos por enquanto.

— Como assim?

— Quero dizer que ele é meu, Amberson. Aquele filho da puta matou a minha irmã caçula, e se alguém vai enfiar nele uma bala... ou uma lâmina — ele brandiu a baioneta diante do rosto pálido e carrancudo — serei eu.

9

Fitei-o boquiaberto. Em algum lugar, a distância, veio um matraquear de estouros quando algum herege do Halloween soltou uma fieira de traques. Crianças gritavam ao subir e descer a rua Witcham. Mas ali éramos só nós dois. Christy e os seus colegas alcoólatras se autointitulavam Amigos de Bill; nós éramos os Inimigos de Frank. Uma equipe perfeita, talvez dissessem... só que Bill “Sem Suspensórios” Turcotte não parecia disposto a trabalhar em equipe.

— Você... — Parei e balancei a cabeça. — Me conte.

— Se você tivesse metade da inteligência que pensa que tem, seria capaz de juntar as peças sozinho. Ou Chazzy não lhe contou o suficiente?

No início, não tinha registro. Então, achei. O homenzinho com a sereia no antebraço e a cara alegre de esquilo. Só que aquele rosto não parecera tão alegre quando Frank Dunning lhe dera um tapa nas costas e lhe disse que mantivesse limpo o nariz, grande demais para se sujar. Antes disso, enquanto Frank ainda contava piadas na mesa do papo furado dos irmãos Tracker nos fundos do Acendedor de Lampiões, Chaz Frati me falara do mau humor de Dunning... o que, graças à redação do zelador, não era novidade para mim. Ele engravidou uma garota. Depois de um ou dois anos, ela pegou o bebê e deu no pé.

— Tem alguma coisa chegando pelas ondas de rádio, comandante Cody? Parece que sim.

— A primeira mulher de Frank Dunning era sua irmã.

— Está vendo? Quem disser a palavra secreta ganha cem dólares.

— O sr. Frati disse que ela pegou o bebê e fugiu dele. Porque não aguentava mais como ele ficava quando bebia.

— É, foi o que ele lhe contou e é o que a maioria da cidade acredita — o que Chazzy acredita, até onde sei — mas eu conheço a verdade. Clara e eu sempre fomos íntimos. Quando a gente era pequeno, era eu por ela, ela por mim. Provavelmente você nem sabe como é, com essa cara de ser frio à beça, mas era assim que era.

Pensei naquele ano bom que tive com Christy — seis meses antes do casamento e seis meses depois.

— Não tão frio assim. Sei do que você está falando.

Ele se esfregava de novo, embora eu ache que ele nem percebia: da barriga ao peito, do peito à garganta, de volta ao peito. O rosto estava mais pálido do que nunca. Pensei no que teria comido no almoço; mas não precisaria pensar muito tempo; logo poderia ver com os próprios olhos.

— É? Então talvez ache um pouco engraçado minha irmã nunca ter me escrito depois que ela e Mikey se instalaram sei lá onde. Nem mesmo um cartão-postal. Eu acho que é muito mais do que engraçado. Porque ela escreveria. Ela sabia como eu gostava dela. E sabia como eu amava aquele moleque. Ela estava com 20 anos e Mikey com 16 meses quando aquele sujeitinho de merda anunciou que tinham sumido. Foi no verão de 1938. Ela teria 40 anos agora e o meu sobrinho, 21. Com idade suficiente pra votar. E quer me dizer que ela nunca escreveu uma única linha para o irmão que impediu o Royce Metido de enfiar o filé velho e enrugado nas costas dela quando a gente era criança? Nem pedir um dinheirinho para ajudar a se instalar em Boston, Nova York ou sei lá onde? Amigo, eu teria...

Ele fez uma careta, soltou um sonzinho de urc-ulp que eu conhecia muito bem e cambaleou para trás, contra a parede da garagem.

— É melhor se sentar — disse eu. — Você está doente.

— Nunca fico doente. Não tive nem resfriado desde que saí do sexto ano.

Se assim fosse, aquele micróbio ia fazer nele uma verdadeira blitzkrieg, como os alemães entrando em Varsóvia.

— É gripe intestinal, Turcotte. Passei a noite toda assim. O sr. Keene da farmácia diz que está tomando conta da cidade.

— Aquela tia velha de bunda seca não sabe de nada. Estou bem. — Ele deu um puxão nos chumaços oleosos de cabelo para me mostrar que estava muito bem. O rosto estava mais pálido do que nunca. A mão que segurava a baioneta japonesa tremia como a minha tremera até o meio-dia. — Quer escutar ou não?

— Claro. — Dei uma olhada de esguelha no relógio. Eram seis e dez. O tempo que se arrastara tão devagar agora se acelerava. Onde estava Frank Dunning naquele momento? Ainda no mercado? Achei que não. Achei que saíra cedo, talvez dizendo que levaria os filhos para caçar gostosuras e ameaçar travessuras. Só que o plano não era esse. Ele estava em algum bar, e não no Acendedor de Lampiões. Lá ia tomar uma cerveja, duas, no máximo. O que conseguia aguentar, embora — se a minha mulher fosse um exemplo justo, e eu achava que era — sempre saísse de boca seca, com o cérebro enfurecido, querendo mais.

Não, quando sentia a necessidade de realmente se banhar com o troço, faria isso num dos pés-sujos de Derry: o Raio, o Sonolento, o Balde. Talvez até num dos buracos pavorosos que pendiam acima do poluído Kenduskeag — o Wally ou o escabroso Salão Paramount, onde antigas putas com cara de cera ainda ocupavam a maior parte dos bancos do balcão. E ele contava piadas que faziam o lugar inteiro rir? Será que alguém se aproximava dele quando se dedicava à tarefa de despejar álcool de cereais nas brasas da fúria nos fundos do cérebro? Não, a menos que quisessem tratamento dentário improvisado.

— Quando a minha irmã e o meu sobrinho sumiram, eles e Dunning tavam morando numa casinha alugada perto da fronteira de Cashman. Ele bebia muito, e quando bebe muito ele põe a merda dos punhos pra trabalhar. Vi os hematomas dela, e uma vez Mikey estava com o bracinho todo preto e azul, do pulso até o cotovelo. Eu perguntei: “Mana, ele tá batendo em você e no bebê? Porque se tiver, eu bato nele.” Ela disse que não, mas não me olhou na hora. Ela disse: “Fique longe dele, Billy. Ele é forte. Você também é, eu sei, mas é magro demais. Um vento forte levaria você embora. Ele machucaria você.” Menos de seis meses depois, ela sumiu. Foi embora, é o que ele disse. Mas tem muita floresta naquele lado da cidade. Merda, quando a gente entra em Cashman, só tem floresta. Floresta e pântano. Você sabe o que foi que aconteceu, não sabe?

Eu sabia. Os outros talvez não acreditassem porque agora Dunning era um cidadão respeitado que parecia ter controlado a bebedeira havia muito tempo. E também porque tinha charme para dar e vender. Mas eu tinha informações privilegiadas, não tinha?

— Acho que ele pirou. Acho que chegou em casa bêbado e ela disse a coisa errada, talvez algo completamente inócuo...

— Inó... o quê?

Espiei o quintal pela sebe. Além dele, uma mulher passou pela janela da cozinha e sumiu. Na casa dos Dunning, o jantar estava servido. Estariam comendo sobremesa? Gelatina Jell-O com creme Dream Whip? Torta de biscoitos Ritz? Achei que não. Quem precisa de sobremesa na noite de Halloween?

— Estou dizendo que ele matou os dois. Não é o que você acha?

— É... — Ele parecia surpreso e desconfiado ao mesmo tempo. Acho que os obsessivos sempre ficam assim quando escutam o que os deixou acordados durante longas noites ser mais do que articulado, ser corroborado. Será alguma travessura?, pensam. Só que não era travessura. E com certeza não era gostosura.

— Dunning tinha quantos anos, 22? — perguntei. — A vida toda pela frente. Ele deve ter pensado: “Bom, fiz uma coisa horrorosa aqui, mas consigo limpar tudo. Estamos na floresta, os vizinhos mais próximos a mais de um quilômetro de distância...” Eles estavam a mais de um quilômetro de distância, Turcotte?

— Pelo menos. — Ele disse isso bem ressentido. Uma das mãos massageava a base da garganta. A baioneta afrouxara. Agarrá-la com a mão direita seria simples e arrancar o revólver do cinto dele com a outra não estaria fora de questão, mas não quis. Achei que o micróbio cuidaria do sr. Bill Turcotte. Achei mesmo que seria simples assim. Viu como é fácil esquecer a obstinação do passado?

— Então ele levou os corpos para a floresta, os enterrou e disse que tinham fugido. Não poderia haver uma grande investigação.

Turcotte virou a cabeça e cuspiu.

— Ele era de uma boa família antiga de Derry. A minha veio do vale Saint John num caminhão velho e enferrujado quando eu tinha 10 anos e Clara, 8. Só lixo de francês. O que acha?

Achei que era outro caso de Derry sendo Derry — foi o que pensei. E embora entendesse o amor de Turcotte e me solidarizasse com a sua perda, ele falava de um crime antigo. Era o que estava marcado para acontecer dali a menos de duas horas que me preocupava.

— Você pôs Frati na minha cola, não foi? — Agora era óbvio, mas mesmo assim desapontador. Achara que o sujeito só estava sendo amistoso, contando um pouco das fofocas locais e dividindo cerveja e Sobras de Lagosta. Errado. — Amigo seu?

Turcotte sorriu, mas parecia mais uma careta.

— Eu, amigo de um judeu penhorista rico? Só rindo. Quer ouvir uma historinha?

Dei outra olhada no relógio e vi que ainda tinha algum tempo livre. Enquanto Turcotte falava, aquele velho vírus intestinal trabalharia com afinco. A primeira vez que ele se abaixasse para vomitar, eu pretendia atacar.

— Por que não?

— Eu, Dunning e Chaz Frati temos todos a mesma idade: 42. Acredita nisso?

— Claro. — Mas Turcotte, que levara uma vida dura (e agora estava doente, por menos que quisesse admitir), parecia dez anos mais velho que os outros dois.

— Quando estávamos no último ano do velho colégio Consolidated, eu era auxiliar administrativo do time de futebol americano. Tiger Bill, era como me chamavam... não é uma gracinha? Me candidatei quando calouro e depois no segundo ano, mas sempre me recusaram. Magro demais para a linha de ataque, lento demais para a defesa. A história da minha vida de merda, amigo. Mas eu adorava o jogo e não tinha nenhum trocado para as entradas... a minha família não tinha nada... e aí aceitei ser o auxiliar administrativo. O nome é bonito, mas sabe o que significa?

Claro que sabia. Na minha vida de Jake Epping, eu não era o sr. Imobiliária, mas o sr. Escola Secundária, e algumas coisas não mudam.

— Você é que levava água.

— É, eu levava água. E segurava o balde de vômito quando alguém enjoava depois de correr num dia quente ou levava um capacete no saco. E também ficava até tarde para recolher as sujeiras deles no campo e pescava do piso do vestiário os suportes atléticos manchados de merda.

Ele sorriu. Imaginei o estômago dele virando um iate no mar tempestuoso. Lá vai ele, amigos... depois o mergulho em parafuso.

— Aí, um dia, em setembro ou outubro de 1934, eu tava lá depois do treino sozinho, catando protetores caídos e ataduras elásticas e todo o resto que eles costumavam deixar pra trás, botando tudo no carrinho, e o que é que vejo? Chaz Frati disparando pelo campo de futebol, largando os livros para trás. Um monte de garotos estava indo atrás dele e... Cristo, o que foi isso?

Ele olhou em volta, os olhos arregalados no rosto pálido. Mais uma vez eu talvez conseguisse agarrar a pistola, a baioneta com certeza, mas não. A mão dele esfregava o peito de novo. Não o estômago, mas o peito. Isso provavelmente deveria ter me dito alguma coisa, mas eu tinha coisa demais na cabeça. A história dele não era a menor parte. Essa é a maldição da aula de leitura. Podemos ser seduzidos por uma boa história mesmo nos momentos menos oportunos.

— Relaxe, Turcotte. São só garotos disparando traques. Halloween, lembra?

— Não me sinto muito bem. Talvez você tenha razão sobre a tal gripe.

Se achava que estava ficando doente a ponto de se incapacitar, talvez ele fizesse algo precipitado.

— Não se importe com a gripe agora. Me fale de Frati.

Ele sorriu. Era uma expressão inquietante naquele rosto pálido, suado, com a barba por fazer.

— O velho Chazzy corria pra diabo, mas foi alcançado. Havia uma ravina uns vinte metros depois das balizas do gol, na ponta sul do campo, e o empurraram por ela. Você ficaria surpreso se eu lhe dissesse que Frankie Dunning era um deles?

Fiz que não.

— Eles o jogaram lá embaixo, baixaram as calças dele. Depois começaram a empurrar o coitado de um lado para o outro e a lhe dar tapas. Gritei para que parassem, e um deles ergueu os olhos para mim e berrou: “Desça aqui e faça a gente parar, seu cara de bosta. Vamos lhe dar o dobro do que estamos dando a ele.” Então, corri para o vestiário e disse a alguns jogadores de futebol que um grupo de bandidos estava batendo num garoto e talvez eles quisessem acabar com aquilo. Claro que eles não davam a mínima para quem estava apanhando e quem estava batendo, mas aqueles sujeitos adoravam uma briga. Saíram correndo, alguns ainda só com a roupa de baixo. E quer saber de uma coisa engraçada, Amberson?

— Claro. — Dei outra olhada rápida no relógio. Quase quinze para as sete, agora. Na casa dos Dunning, Doris estaria lavando a louça e talvez escutando Huntley-Brinkley na televisão.

— Está atrasado para alguma coisa? — perguntou Turcotte. — Vai pegar a merda do trem?

— Você ia me contar uma coisa engraçada.

— Ah. É. Estavam cantando o hino da escola! O que acha disso?

Com o olho da mente, vi oito ou dez garotos musculosos e seminus correndo pelo campo, ansiosos por uma sessão de socos pós-treino, e cantando Salve, Derry Tigers, hasteamos sua bandeira. Era meio engraçado.

Turcotte viu o meu sorriso e respondeu com um dos dele. Era tenso, mas genuíno.

— Os jogadores lançaram longe alguns daqueles sujeitos. Mas não Frankie Dunning; aquele patife viu que estava em desvantagem e correu para a floresta. Chazzy estava caído no chão, segurando o braço. Tinha quebrado. Mas poderia ter sido muito pior. Podia ter que ir para o hospital. Um dos jogadores o olhou caído ali no chão e o cutucou com o pé, do jeito que a gente faz com uma bosta de vaca que a gente quase pisou, e disse: “Corremos até aqui para salvar o lombo de um judeuzinho?” E vários riram, porque era meio uma piada, sabe: Judeuzinho? Lombo? — Ele me espiou por entre os chumaços de cabelo lustroso de Brylcreem.

— Entendi — disse eu.

— “Ah, e daí?”, disse outro. “Deu para chutar umas bundas e pra mim tá bom.” Eles voltaram e ajudei Chaz a subir a ravina. Cheguei a ir até a casa dele porque achei que ele podia desmaiar ou coisa assim. Estava com medo de que Frankie e os amigos dele voltassem — ele também — mas fiquei com ele. Eu nem sabia por que, foda-se. Você devia ter visto a casa onde ele morava: um puta palácio. Esse negócio de penhores deve mesmo dar lucro. Quando chegamos lá, ele me agradeceu. E foi sincero, também. Não estava só fazendo cena. Eu disse: “Não foi nada, só não gosto de ver seis contra um.” O que era verdade. Mas sabe o que dizem sobre os judeus: eles nunca esquecem dívidas nem favores.

— E você aproveitou para descobrir o que eu estava fazendo.

— Eu já tinha uma boa ideia do que você estava fazendo, meu chapa. Só queria ter certeza. Chaz me disse pra deixar pra lá — disse que achou que você era um bom sujeito —, mas quando se trata de Frankie Dunning, não deixo nada pra lá. Ninguém se mete com Frankie Dunning, só eu. Ele é meu.

Ele fez uma careta e voltou a esfregar o peito. E dessa vez a ficha caiu.

— Turcotte, é o seu estômago?

— Não, o peito. Parece todo apertado.

Isso não soou bem, e a ideia que passou pela minha cabeça foi agora ele também está dentro da meia de nylon.

— Sente-se antes que caia. Comecei a me mover na direção dele. Ele puxou a arma. A pele entre os meus mamilos, onde a bala entraria, começou a comichar loucamente. Eu poderia ter tirado a arma dele, pensei. Poderia mesmo. Mas não, tinha de ouvir a história. Tinha de saber.

— Você se sente aí, irmão. Relaxe, como se costuma dizer nos quadrinhos.

— Se você tiver um ataque do coração...

— Não estou tendo nenhuma merda de ataque de coração. Agora sente.

Sentei-me e ergui os olhos para ele, que se encostou na garagem. Os lábios dele estavam com um tom azulado que eu não associava à boa saúde.

— O que quer com ele? — perguntou Turcotte. — É isso que quero saber. É isso que tenho de saber antes de decidir o que faço com você.

Pensei cautelosamente no que responder. Como se a minha vida dependesse disso. Talvez dependesse. Não achava que Turcotte tivesse dentro de si o homicídio a sangue frio, não importava o que ele pensava, senão Frank Dunning estaria plantado ao lado dos pais há muito tempo. Mas estava com a minha arma e passando mal. Poderia puxar o gatilho por acidente. Fosse qual fosse, a força que queria que tudo continuasse como estava poderia até ajudá-lo.

Se eu lhe contasse do jeito certo — deixando de fora as maluquices, em outras palavras — talvez ele acreditasse. Por causa daquilo em que já acreditava. Do que sabia no fundo do coração.

— Ele vai fazer de novo.

Ele começou a perguntar o que eu queria dizer, depois não precisou. Os seus olhos se arregalaram.

— Quer dizer... ela? — Ele olhou na direção da sebe. Até então, eu nem tinha certeza de que ele sabia o que estava do outro lado.

— Não só ela.

— Uma das crianças, também?

— Uma, não, todas. Agora ele está bebendo, Turcotte. Entrando noutra das suas fúrias cegas. Você sabe tudo sobre elas, não sabe? Só que dessa vez não haverá como esconder depois. Ele também não se importa. Isso vem crescendo desde a última bebedeira, quando Doris finalmente se cansou de apanhar. Ela o pôs para fora, você sabia?

— Todo mundo sabe. Ele está morando num quarto de pensão na Caridade.

— Ele vem tentando reconquistar as boas graças da mulher, mas o encantamento não funciona mais. Ela quer se divorciar; e como ele finalmente entendeu que não vai convencer a esposa a desistir, vai lhe dar o divórcio com um martelo. Depois vai se divorciar dos filhos do mesmo jeito.

Ele franziu a testa para mim. Baioneta numa das mãos, arma de fogo na outra. Um vento forte levaria você embora, lhe dissera a irmã tantos e tantos anos atrás, mas eu achava que naquela noite não seria preciso nem uma brisa.

— Como é que sabe disso?

— Não tenho tempo de explicar, mas sei, mesmo assim. Estou aqui para impedir. Então me devolva a minha arma e me deixe agir. Pela sua irmã. Pelo seu sobrinho. E porque acho que, no fundo, você é um sujeito muito bom. — Isso era bobagem, mas, como dizia o meu pai, se vai se usar, é melhor usar bastante. — Por que outra razão você impediria que Dunning e os amigos surrassem Chaz Frati até quase a morte?

Ele estava pensando. Quase dava para ouvir as engrenagens girando e os pinos clicando. Então uma luz se acendeu nos seus olhos. Talvez fossem apenas os últimos restos do pôr do sol, mas para mim se parecia com as velas que agora tremeluziam dentro das cabeças de abóbora pela cidade inteira. Ele começou a sorrir. O que disse em seguida só poderia vir de um homem mentalmente enfermo... ou que morasse tempo demais em Derry... ou ambos.

— Ele vai acabar com todos, é? Tudo bem, deixe.

— O quê?

Ele me apontou o .38.

— Sente-se de novo, Amberson. Tire um peso das costas.

Com relutância, voltei a me sentar. Agora passava das sete da noite e ele se transformava num homem-sombra.

— Sr. Turcotte... Bill... sei que não se sente bem, então talvez não entenda direito a situação. Há uma mulher e quatro crianças lá dentro. A garotinha só tem sete anos, pelo amor de Deus.

— O meu sobrinho era muito mais novo do que isso. — Turcotte falava com gravidade, um homem que articulava a grande verdade que explica tudo. E justifica tudo, também. — Estou passando mal demais para acabar com ele e você não tem coragem. Dá para ver, basta olhar.

Achei que nisso ele estava errado. Podia estar certo quanto a Jake Epping, de Lisbon Falls, mas aquele camarada mudara.

— Por que não me deixa tentar? Que mal isso vai lhe fazer?

— Porque mesmo que você mate aquele canalha, isso não basta. Acabei de pensar nisso. A ideia me veio assim... — Ele estalou os dedos. — Como se viesse do nada.

— Isso não faz sentido.

— É porque você não passou vinte anos vendo homens como Tony e Phil Tracker tratando ele como se fosse o Rei da Merda. Vinte anos vendo mulheres piscar como se ele fosse Frank Sinatra. Ele tem um Pontiac, enquanto ralei o cu em umas seis fábricas diferentes para ganhar salário mínimo, respirando fibras de pano pela garganta até mal conseguir me levantar de manhã. — A mão no peito. Esfregando, esfregando. O rosto uma mancha pálida na penumbra do fundo do quintal do número 202 da Wyemore. — Matar é bom demais para aquele sujeitinho de merda. Ele precisa é de uns quarenta anos, mais ou menos, na penitenciária de Shank, onde, se deixar o sabão cair no chuveiro, não arriscaria o cu se curvando para pegar. Onde a única bebida que terá é refresco de ameixa. — Ele baixou a voz. — E sabe o que mais?

— O quê? — Eu estava gelado.

— Quando a bebedeira passar, ele vai sentir saudades. Vai se arrepender do que fez. Vai ficar com vontade de voltar atrás. — Agora quase um sussurro, um som rouco e encatarrado. É como os loucos irrecuperáveis devem falar entre si tarde da noite, em lugares como Juniper Hill, quando passa o efeito do remédio. — Talvez não se arrependa muito da mulher, mas das crianças, com certeza. — Ele riu e depois fez uma careta como se tivesse doído. — Você deve estar cheio de merda, mas quer saber? Espero que não. Vamos esperar para ver.

— Turcotte, aquelas crianças são inocentes.

— Clara também era. O pequeno Mikey também. — Os ombros de sombra subiram e desceram. — Fodam-se.

— Você não pode estar falando sé...

— Cale-se. Vamos esperar.

10

Havia ponteiros fluorescentes no relógio que Al me dera, e observei com horror e resignação o ponteiro maior descer para a parte de baixo do mostrador e voltar a subir. Vinte e cinco minutos até o início de As novas aventuras de Ellery Queen. Depois, vinte. Depois, quinze. Tentei falar e ele me mandou calar a boca. Não parava de esfregar o peito, a não ser para tirar os cigarros do bolso da camisa.

— Ah, ótima ideia — disse eu. — Isso vai ajudar muito o seu coração.

— Silêncio.

Ele enfiou a baioneta no cascalho atrás da garagem e acendeu o cigarro com um Zippo surrado. No brilho momentâneo da chama, vi o suor correr pelas bochechas dele, embora a noite estivesse bem fria. Os olhos pareciam afundados nas órbitas, deixando o rosto parecido com uma caveira. Ele sugou a fumaça, a expulsou tossindo. O corpo magro se sacudiu, mas a arma continuava firme. Apontada para o meu peito. Lá em cima, as estrelas apareceram. Agora eram dez para as oito. Havia quanto tempo Ellery Queen começara quando Dunning chegou? A redação de Harry não contava, mas eu apostava que não muito. Não haveria aula amanhã, mas nem assim Doris Dunning queria Ellen, de 7 anos, acordada muito depois das dez, mesmo que estivesse com Tugga e Harry.

Cinco para as oito.

De repente, uma ideia me ocorreu. Tinha a clareza da verdade inquestionável, e falei enquanto brilhava.

— Seu titica de galinha.

— O quê? — Ele se endireitou como se levasse um susto.

— Você me escutou. — Eu o imitei. — “Ninguém se mete com Frankie Dunning, só eu. Ele é meu.” Você diz isso a si mesmo há vinte anos, não é? E ainda não se meteu com ele.

— Já lhe disse para calar a boca.

— Inferno, vinte e dois anos! Você também não se meteu quando ele correu atrás de Chaz Frati, não foi? Você fugiu como uma menininha e foi buscar os jogadores de futebol.

— Eles eram seis!

— Claro, mas Dunning andou sozinho muitas vezes desde então, e você nem para pôr uma casca de banana na calçada e torcer para ele escorregar. Você é um titica, um covarde, Turcotte. Se escondendo por aí como um coelho na toca.

— Cale a boca!

— Dizendo a si mesmo bobagens, como se ver o sujeito na prisão fosse a melhor vingança, para você não ter de encarar o fato de...

— Cale a boca!

— ... de que você é um maluco que deixou o assassino da sua irmã andar por aí em liberdade durante mais de vinte anos...

— Estou lhe avisando! — Ele armou o cão do revólver.

Bati o polegar no meio do peito.

— Ande! Atire. Todo mundo vai ouvir, a polícia virá, Dunning verá a confusão e dará meia-volta e você é que vai parar em Shawshank. Aposto que têm fábrica lá também. Você pode trabalhar nela por cinco centavos a hora, em vez de um dólar e vinte. Só que você vai gostar, porque não terá de explicar a si mesmo por que só ficou parado olhando esses anos todos. Se a sua irmã estivesse viva, ela cuspiria em v...

Ele avançou a arma, querendo apertar o cano contra o meu peito, e tropeçou na maldita baioneta. Afastei a pistola de lado com as costas da mão e ela disparou. A bala deve ter atingido o chão a menos de três centímetros da minha perna, porque um borrifinho de pedras bateu na minha calça. Agarrei a arma e a apontei para ele, disposto a atirar se ele fizesse o menor movimento para pegar a baioneta caída.

O que ele fez foi cair contra a parede da garagem. Agora ambas as mãos estavam abertas em cima do lado esquerdo do peito, e ele fazia um som grave como se fosse vomitar.

Em algum lugar não muito longe — na Kossuth, não na Wyemore — um homem berrou:

— Diversão é diversão, seus moleques, só que uma bombinha mais e chamo a polícia! E não vou repetir!

Soltei a respiração. Turcotte soltava a dele também, mas ofegante, aos poucos. Os sons de vômito continuaram enquanto ele escorregava pela lateral da garagem e se espalhava no cascalho. Peguei a baioneta, pensei em pô-la no cinto e decidi que só rasgaria a perna quando passasse pela sebe: o passado trabalhando duro, tentando me deter. Em vez disso, joguei-a no quintal escuro e ouvi um barulho grave quando ela bateu em alguma coisa. Talvez a lateral da casinha de cachorro FEITA PARA O SEU LULU.

— Ambulância — grasnou Turcotte. Os olhos dele brilhavam com o que poderiam ser lágrimas. — Por favor, Amberson. Dói muito.

Ambulância. Boa ideia. E eis algo hilariante. Eu já estava em Derry — em 1958 — havia quase dois meses, mas ainda enfiei a mão no bolso direito da frente da calça, onde sempre levava o celular quando não usava paletó. Os meus dedos não encontraram nada lá, a não ser trocados e as chaves do Sunliner.

— Sinto muito, Turcotte. Você nasceu na época errada para ter assistência instantânea.

— O quê?

De acordo com o Bulova, As novas aventuras de Ellery Queen estavam agora sendo transmitidas para os Estados Unidos cheios de expectativa.

— Aguente aí — disse eu, e passei pela sebe, a mão que não segurava a arma erguida para proteger os olhos dos galhos rijos e inclinados.

11

Tropecei na caixa de areia no meio do quintal dos Dunning, caí de corpo inteiro e me vi cara a cara com uma boneca de olhos vazios que usava uma tiara e nada mais. O revólver voou da minha mão. Saí de gatinhas a procurá-lo, achando que nunca o encontraria; esse era o truque final do passado obstinado. Um truque pequeno, comparado à gripe intestinal devastadora e a Bill Turcotte, mas bom. Então, assim que o vi caído na beira de um pedaço de luz trapezoidal lançado pela janela da cozinha, escutei um carro vindo pela rua Kossuth. Vinha bem mais depressa do que um motorista sensato ousaria numa rua que, sem dúvida, estava cheia de crianças de máscara e sacolinha para recolher gostosuras. Soube quem era mesmo antes que parasse guinchando os pneus.

Dentro do 379, Doris Dunning estava no sofá com Troy enquanto Ellen dava pulinhos com a sua fantasia de princesa índia, louca para sair. Troy acabara de lhe dizer que ajudaria a comer os doces quando ela, Tugga e Harry voltassem. Ellen respondia: “Não, não vai, ponha a roupa e vá buscar as suas.” Todo mundo riria com isso, até Harry, que estava no banheiro para um servicinho de última hora. Porque Ellen era uma verdadeira Lucille Ball que conseguia fazer todo mundo rir.

Peguei a arma. Ela escorregou pelos meus dedos molhados de suor e caiu na grama de novo. A minha canela uivava onde eu a batera na lateral da caixa de areia. Do outro lado da casa, a porta de um carro bateu e passos rápidos soaram no concreto. Eu me lembro de pensar: Tranque a porta, mamãe, não é apenas o seu marido mal-humorado; é a própria Derry que vem subindo a calçada.

Agarrei a arma, me levantei, tropecei nos meus pés estúpidos, quase caí de novo, me reequilibrei e corri para a porta dos fundos. A antepara do porão estava no meu caminho. Contornei-a, convencido de que, se pusesse o meu peso em cima, ela cederia. O próprio ar parecia ter se tornado xaroposo, como se também tentasse me retardar.

Mesmo que ele me mate , pensei. Mesmo que ele me mate e Oswald consiga fazer o que quer e milhões morram. Mesmo assim. Porque aqui é agora. Aqui são eles.

A porta dos fundos estaria trancada. Tinha tanta certeza disso que quase tropecei na soleira quando a maçaneta girou e a porta se abriu. Entrei numa cozinha que ainda cheirava à carne de panela que a sra. Dunning preparara no seu fogão Hotpoint. A pia estava cheia de louça. Havia uma molheira na bancada; ao lado, um prato de macarrão frio. Da TV vinha uma trilha sonora trêmula com violinos — que Christy costumava chamar de “música de assassinato”. Muito adequado. Em cima da bancada estava a máscara de Frankenstein de borracha.

Tugga pretendia usá-la para buscar gostosuras ou travessuras. Ao lado, estava uma sacolinha de papel para brindes com DOCES DO TUGGA NÃO MEXA escrito na lateral com lápis de cera preto.

Na redação, Harry escrevera que a mãe dissera: “Saia daqui com essa coisa, não era para você vir aqui.” O que a escutei dizer quando corria pelo linóleo na direção do arco entre a cozinha e a sala de estar foi: “Frank? O que está fazendo aqui?” A voz dela começou a subir. “O que é isso? Por que você... saia daqui!”

Então ela gritou.

12

Quando atravessei o arco, uma criança disse:

— Quem é você? Por que a minha mãe está gritando? O papai está aqui?

Virei a cabeça e vi Harry Dunning aos 10 anos, em pé na porta de um banheirinho no canto mais distante da cozinha. Usava roupa de caubói e levava numa das mãos a espingarda de ar comprimido. Com a outra, puxava o zíper da calça. Então, Doris Dunning gritou de novo. Os outros dois meninos gritavam. Houve um barulho — um barulho pesado, enjoativo — e o grito se interrompeu.

— Não, papai, não, você está MACHUCANDO ela! — guinchou Ellen.

Corri pelo arco e parei ali, boquiaberto. Com base na redação de Harry, sempre supus que eu teria de deter um homem brandindo o tipo de martelo que todos guardam nas caixas de ferramentas. Não fora isso o que ele levara. O que ele levara era uma marreta com uma cabeça de dez quilos, e ele a manejava como se fosse um brinquedo. As mangas estavam arregaçadas e pude ver o volume dos músculos acumulados em vinte anos cortando carne e carregando carcaças. Doris estava no tapete da sala. Ele já lhe quebrara o braço — o osso saía por um rasgão na manga do vestido — e também deslocara o ombro, pelo jeito. O rosto dela estava pálido e tonto. Ela rastejava pelo tapete diante da TV com o cabelo caindo no rosto. Dunning jogava o martelo para trás. Dessa vez, golpearia a cabeça, esmagando o crânio e fazendo o cérebro voar sobre as almofadas do sofá.

Ellen era um pequeno dervixe, tentando empurrá-lo de volta pela porta.

— Pare, papai, pare!

Ele a agarrou pelo cabelo e a levantou. A menina saiu rodando, as penas voando do cocar. Bateu na cadeira de balanço e a derrubou.

— Dunning! — gritei. — Pare com isso!

Ele me olhou com olhos vermelhos e chorosos. Estava bêbado. Chorava. Corria catarro das narinas e o cuspe molhava o queixo. O rosto era uma cólica de fúria, angústia e perplexidade.

— Que diabos é você? — perguntou ele, e correu para mim sem esperar resposta.

Puxei o gatilho do revólver, pensando: Dessa vez não vai atirar, é uma arma de Derry e não vai atirar.

Mas atirou. A bala o pegou no ombro. Uma rosa vermelha se abriu na camisa branca. Ele se torceu de lado com o impacto e atacou de novo. Ergueu a marreta. A flor na camisa se espalhou, mas ele não parecia sentir.

Puxei o gatilho de novo, mas alguém me empurrou bem nessa hora, e a bala foi para o alto. Era Harry.

— Pare com isso, pai! — A voz dele era aguda. — Pare senão atiro!

Arthur “Tugga” Dunning rastejava na minha direção, na direção da cozinha. Assim que Harry atirou com a espingarda de chumbinho — ca-pôu! —, Dunning fez a marreta cair sobre a cabeça de Tugga. O rosto do menino foi obliterado por um lençol de sangue. Fragmentos de osso e chumaços de cabelo pularam alto no ar, gotículas de sangue respingaram no lustre do teto. Ellen e a sra. Dunning guinchavam, guinchavam.

Perdi o equilíbrio e atirei mais uma vez. Esse rasgou a bochecha direita de Dunning até a orelha, mas nem assim o deteve. Ele não é humano, foi o que pensei na hora e ainda penso agora. Tudo o que via nos olhos que jorravam e na boca escancarada — ele parecia mastigar o ar em vez de respirá-lo — era um tipo de vazio balbuciante.

— Que diabos é você? — repetiu ele, e depois: — Você invadiu propriedade particular.

Ele balançou a marreta para trás e a trouxe num arco horizontal sibilante. Dobrei os joelhos e me abaixei, e, embora parecesse que os dez quilos da marreta tinham errado completamente — não senti dor, não naquela hora —, uma onda de calor relampejou no alto da minha cabeça. A arma voou da minha mão, bateu na parede e ricocheteou para o canto. Algo quente corria pelo lado do meu rosto. Eu entendi que ele me pegara o suficiente para fazer um rasgo de quinze centímetros no meu couro cabeludo? Que deixara de me pôr inconsciente ou me matar na mesma hora talvez por apenas três milímetros? Não sei. Tudo aconteceu em menos de um minuto; talvez fossem apenas trinta segundos. A vida muda de repente, e quando muda, é bem depressa.

— Saia! — gritei para Troy. — Pegue a sua irmã e saia! Peça ajuda! Berre a plenos p...

Dunning girou a marreta. Pulei para trás e ela se enterrou na parede, esmagando ripas e soltando no ar uma nuvem de argamassa para se unir à fumaça do revólver. A TV ainda funcionava. Ainda violinos, ainda música de assassinato.

Enquanto Dunning lutava para puxar a marreta da parede, algo passou voando por mim. Era a espingarda Daisy de ar comprimindo. Harry a jogara. O cano bateu na bochecha rasgada de Frank Dunning e ele gritou de dor.

— Seu filho da puta! Vou te matar por causa disso!

Troy saía pela porta com Ellen no colo. Então deu certo, pensei, mudei as coisas, pelo menos até aí...

Mas, antes que ele conseguisse levá-la para fora, alguém primeiro encheu a porta e depois entrou aos tropeços, jogando no chão Troy Dunning e a menininha. Mal tive tempo de ver, porque Frank soltara a marreta e vinha atrás de mim. Recuei, empurrando Harry para a cozinha com uma das mãos.

— Pela porta dos fundos, filho. Depressa. Seguro ele até você...

Frank Dunning soltou um grito agudo e se enrijeceu. De repente, algo saía pelo seu peito. Foi como um truque de mágica. A coisa estava tão coberta de sangue que levei um segundo para perceber o que era: a ponta de uma baioneta.

— Isso é pela minha irmã, seu filho da puta — disse Bill Turcotte, a voz rascante. — Isso é por Clara.

13

Dunning caiu, os pés na sala, a cabeça no arco entre a sala e a cozinha. Mas não totalmente. A ponta da lâmina se enterrou no chão e o manteve erguido. Um dos pés chutou uma vez e depois ficou parado. Parecia que ele morrera tentando fazer uma flexão.

Todo mundo gritava. O ar fedia a fumaça de revólver, argamassa e sangue. Doris se movia toda torta na direção do filho morto, com o cabelo caído sobre o rosto. Eu não queria que ela visse aquilo — a cabeça de Tugga fora rachada até a mandíbula —, mas não havia como impedir.

— Farei melhor da próxima vez, sra. Dunning — grasnei. — É uma promessa.

Havia sangue sobre o meu rosto todo; tive de limpá-lo do olho esquerdo para ver daquele lado. Como ainda estava consciente, achei que o ferimento não era tão grave assim, e sabia que cortes no couro cabeludo sangram a mais não poder. Mas eu estava horrível, e, para haver próxima vez, desta eu teria de sair dali, depressa e sem ser visto.

Mas tinha de falar com Turcotte antes de sair. Ou pelo menos tentar. Ele desmoronara contra a parede junto aos pés abertos de Dunning. Segurava o peito e ofegava. O rosto estava branco como o de um cadáver, a não ser pelos lábios, agora tão roxos quanto os de um garoto que comesse amora demais. Estendi a mão. Ele a agarrou com a força do pânico, mas havia uma faisquinha de humor nos seus olhos.

— Quem é titica de galinha agora, Amberson?

— Você, não — disse eu. — Você é um herói.

— É. — Ele ofegou. — Jogue a merda da medalha no meu caixão.

Doris ninava o filho morto. Atrás dela, Troy andava em círculos, com a cabeça de Ellen pressionada com força contra o peito. Ele não olhou na nossa direção, parecia não perceber que estávamos lá. A garotinha choramingava.

— Tudo vai dar certo — disse eu. Como se soubesse. — Mas escute, porque é importante: esqueça o meu nome.

— Que nome? Você nunca disse.

— Isso. E... sabe o meu carro?

— Ford. — Ele estava perdendo a voz, mas os olhos ainda estavam fixos no meu. — Bom. Conversível. Motor com bloco em Y. 54 ou... 55.

— Você nunca o viu. Isso é o mais importante, Turcotte. Preciso dele para viajar para o sul hoje à noite e terei de pegar a estrada principal porque não conheço as outras. Se eu chegar ao centro do Maine, estará tudo bem. Entendeu o que eu disse?

— Nunca vi o seu carro — disse ele, e fez uma careta. — Ah, merda, como isso dói.

Pus os dedos na garganta malbarbeada e senti o pulso. Estava rápido e muito irregular. A distância, escutei sirenes.

— Você fez o que era certo.

Os olhos dele se ergueram.

— Quase não fiz. Não sei no que estava pensando. Devia estar maluco. Escute, amigo. Se o pegarem, não diga a eles que eu... você sabe, o que eu...

— Nunca diria. Você cuidou dele, Turcotte. Ele era um cachorro louco e você o pegou. A sua irmã se orgulharia.

Ele sorriu e fechou os olhos.

14

Fui ao banheiro, peguei uma toalha, encharquei-a na pia e limpei o rosto ensanguentado. Joguei a toalha na banheira, peguei mais duas e fui para a cozinha.

O menino que me levara até lá estava em pé no linóleo desbotado junto ao fogão, me observando. Embora provavelmente já fizesse seis anos que ele não chupava o dedo, estava chupando agora. Os olhos estavam arregalados e solenes, nadando em lágrimas. Sardas de sangue polvilhavam as bochechas e a testa. Ali estava um menino que acabara de vivenciar algo que, sem dúvida, o traumatizaria, mas também era um menino que nunca cresceria para se tornar o Sapo Harry. Nem para escrever uma redação que me faria chorar.

— Quem é o senhor? — perguntou.

— Ninguém. — Passei por ele e cheguei à porta. Mas ele merecia mais do que isso. As sirenes estavam mais perto agora, mas me virei. — O seu anjo da guarda — disse eu. Então, escapuli pela porta dos fundos e entrei na noite de Halloween de 1958.

15

Subi a Wyemore até a Witcham, vi as luzes azuis piscantes seguindo para a rua Kossuth e continuei andando. Dois quarteirões mais para dentro do bairro residencial, virei à direita na avenida Gerard. Havia gente em pé na calçada, virada para o som das sirenes.

— O senhor sabe o que aconteceu? — me perguntou um homem. Segurava a mão de uma Branca de Neve de tênis.

— Ouvi uns garotos soltando bombinhas — respondi. — Talvez começaram um incêndio. — Continuei andando e cuidei para manter fora da vista dele o lado esquerdo do meu rosto, porque havia um poste de luz ali perto e o meu couro cabeludo ainda vertia sangue.

Quatro quarteirões mais abaixo, entrei de novo na direção da Witcham. Tão ao sul da rua Kossuth, a Witcham estava escura e silenciosa. Provavelmente, agora todos os carros da polícia estavam na cena do crime. Ótimo. Eu quase chegara à esquina da Grove com a Witcham quando os meus joelhos viraram geleia. Olhei em volta, não vi ninguém atrás de travessuras nem gostosuras e me sentei no meio-fio. Não podia me dar a esse luxo, mas tive de parar. Vomitara tudo o que havia no estômago, não comera nada o dia inteiro, a não ser aquela droga de chocolate (e não conseguia lembrar sequer se conseguira pôr tudo para dentro antes que Turcotte me pegasse), e passara por um violento interlúdio no qual fora ferido — com que gravidade, ainda não sabia. Era parar agora e deixar o meu corpo se recompor ou desmaiar na calçada.

Pus a cabeça entre os joelhos e inspirei fundo e devagar várias vezes, como aprendera no curso da Cruz Vermelha que fizera para obter um diploma de salva-vidas na faculdade. A princípio, não parava de ver a cabeça de Tugga Dunning explodir sob a força descendente e esmagadora da marreta, e isso aumentava a vontade de desfalecer. Então pensei em Harry, respingado com o sangue do irmão, mas, fora isso, incólume. E Ellen, que não estava em coma profundo do qual nunca sairia. E Troy. E Doris. O braço gravemente fraturado poderia doer pelo resto da vida, mas pelo menos ela teria uma vida.

— Eu fiz, Al — sussurrei.

Mas o que fizera em 2011? O que fizera a 2011? Essas eram perguntas que ainda seriam respondidas. Se algo terrível acontecesse devido ao efeito borboleta, eu sempre poderia voltar atrás e apagar... a menos que, ao mudar o rumo da vida da família Dunning, eu também tivesse alterado o rumo da vida de Al Templeton. Suponhamos que a lanchonete não estivesse mais onde a deixei? Suponhamos que ele nunca a tivesse tirado de Auburn? Ou nunca aberto uma lanchonete? Não parecia provável... mas ali estava eu, sentado num meio-fio de 1958 com sangue correndo do meu cabelo cortado em 1958, e qual a probabilidade disso?

Fiquei em pé, cambaleei e me pus a andar. À minha direita, na rua Witcham, podia ver o acende-apaga das luzes azuis. Uma multidão se reunira na esquina da Kossuth, mas todos estavam de costas para mim. A igreja onde eu deixara o carro ficava do outro lado da rua. O Sunliner estava sozinho no estacionamento, mas parecia bem; nenhum peralta de Halloween esvaziara os meus pneus. Então vi um quadrado amarelo debaixo de um dos limpadores de para-brisa. Os meus pensamentos voaram até o Homem do Cartão Amarelo e o meu estômago se apertou. Agarrei-o e dei um suspiro de alívio quando li o que estava escrito. JUNTE-SE AOS AMIGOS E VIZINHOS PARA O CULTO DESTE DOMINGO ÀS 9 DA MANHÃ NOVATOS SEMPRE BEM-VINDOS! LEMBRE-SE: “A VIDA É A PERGUNTA, JESUS É A RESPOSTA.”

— Eu pensava que drogas pesadas eram a resposta, e acho que um pouco delas agora seria útil — murmurei e destranquei a porta do motorista. Pensei na sacola de papel que deixara na garagem da casa na travessa Wyemore. Os policiais que investigassem a área talvez a encontrassem. Lá dentro achariam alguns chocolates, uma garrafa de Kaopectate quase vazia... e uma pilha de fraldas geriátricas.

Fiquei pensando no que achariam daquilo.

Mas não demais.

16

Quando cheguei à autoestrada, a minha cabeça doía ferozmente, mas mesmo que não fosse antes das lojas de conveniência 24 horas, acho que não ousaria parar; a minha camisa estava dura de sangue no lado esquerdo. Pelo menos eu me lembrara de encher o tanque de gasolina.

Uma vez tentei examinar o corte da cabeça com a ponta dos dedos e fui recompensado com uma labareda de dor que me convenceu a não fazer a segunda tentativa.

Parei na área de descanso perto de Augusta. Nisso já passava das dez horas e o lugar estava deserto. Acendi a luz interna e conferi as pupilas no retrovisor. Pareciam do mesmo tamanho, o que foi um alívio. Havia uma máquina de vender lanches junto à porta do banheiro dos homens, onde dez centavos me compraram uma tortinha de chocolate com creme. Engoli-a enquanto dirigia, e a dor de cabeça se reduziu um pouco.

Passava da meia-noite quando cheguei a Lisbon Falls. A rua Principal estava escura, mas tanto a fábrica Worumbo quanto a U.S. Gypsum funcionavam a todo vapor, bufando e lufando, lançando os seus fedores no ar e derramando o esgoto ácido no rio. Os cachos de luzes brilhantes faziam com que parecessem espaçonaves. Estacionei o Sunliner na frente da Kennebec Fruit, onde ficaria até que alguém olhasse lá dentro e visse as manchas de sangue no banco, na porta do motorista e no volante. Então chamariam a polícia. Supus que procurariam impressões digitais no Ford. Era possível que elas combinassem com as encontradas num certo Police Special .38 numa cena de assassinato em Derry. O nome George Amberson poderia surgir em Derry e depois ali em Falls. Mas, se a toca de coelho ainda estivesse onde a deixara, não haveria rastros de George para seguir, e as impressões digitais pertenceriam a um homem que só nasceria dali a mais dezoito anos.

Abri a mala, tirei a pasta e decidi deixar o resto todo. Pelo que sabia, acabaria sendo tudo vendido no Alegre Elefante Branco, o brechó não muito longe do posto Chevron do Titus. Atravessei a rua rumo ao hálito de dragão da fábrica, um chont-HUUCH, chont-HUUCH que continuaria sem parar até que o livre comércio da era Reagan tornasse obsoletos os caros tecidos americanos.

O barracão de secagem estava iluminado pelo brilho branco e fluorescente das janelas sujas do prédio de tingimento. Avistei a corrente que isolava o barracão de secagem do resto do pátio. Estava escuro demais para ler a placa pendurada, e já fazia quase dois meses que eu a vira, mas me lembrava do que dizia: PASSAGEM PROIBIDA ALÉM DESTE PONTO ATÉ CONSERTO DO CANO DE ESGOTO . Não havia sinais do Homem do Cartão Amarelo — ou do Homem do Cartão Laranja, se era isso que ele era agora.

Holofotes inundaram o pátio, me iluminando como uma formiga num prato. A minha sombra pulou comprida e magra à minha frente. Fiquei paralisado quando um grande caminhão de transporte trovejou na minha direção. Achei que o motorista ia parar, se inclinar para fora e me perguntar que diabos eu fazia ali. Ele desacelerou mas não parou. Acenou para mim. Acenei de volta, e ele foi na direção das docas de carga com dúzias de barris vazios chocalhando atrás. Segui para a corrente, dei uma olhada rápida em volta e passei por baixo dela.

Andei pelo flanco do barracão de secagem, o coração batendo com força no peito. O corte na cabeça latejava em harmonia. Dessa vez, não havia pedaço de concreto para marcar o lugar. Devagar, disse a mim mesmo. Devagar. O degrau está bem... aqui.

Só que não estava. Não havia nada, só o pavimento debaixo do meu pé que testava e tateava.

Avancei um pouco mais, e ainda não havia nada. Fazia frio suficiente para eu ver o vapor fino quando exalava, mas um suor leve e gorduroso me surgira no pescoço e nos braços. Avancei mais um pouco, mas tinha quase certeza de que fora longe demais. Ou a toca de coelho sumira ou nunca existira, para começar, o que significava que toda a minha vida como Jake Epping — tudo, desde a minha horta premiada pelos Futuros Fazendeiros da América, na escola primária, até o romance abandonado na faculdade, o casamento e uma mulher basicamente doce que quase afogara em álcool o meu amor por ela — fora uma louca alucinação. Eu sempre fora George Amberson o tempo todo.

Avancei um pouco mais, depois parei, respirando com força. Em algum lugar — talvez na tinturaria, talvez numa das salas de tecelagem — alguém gritou “Nem fodendo!” Pulei e depois pulei de novo com a rodada de gargalhadas que se seguiu à exclamação.

Não está aqui.

Sumiu.

Ou nunca esteve,

Senti desapontamento? Terror? Pânico total? Nada disso, na verdade. O que senti foi uma sorrateira sensação de alívio. O que pensei foi: Eu poderia morar aqui. E com bastante facilidade. Felicidade, até.

Isso era verdade? Era. Era.

Fedia perto das fábricas e em estabelecimentos públicos onde todos fumavam a mais não poder, mas, na maioria dos lugares, o ar tinha um cheiro incrivelmente doce. Incrivelmente novo. A comida era gostosa; o leite era entregue diretamente à nossa porta. Depois de um período de síndrome de abstinência do computador, eu obtivera conhecimento suficiente para perceber como ficara viciado naquela merda, passando horas lendo anexos de e-mail estúpidos e visitando sites pela mesma razão que leva alpinistas a quererem escalar o Everest: porque estavam lá. O meu celular nunca tocava porque eu não tinha celular, e que alívio isso era. Fora das grandes cidades, a maioria ainda seguia a linha do partido, e será que trancavam a porta à noite? Nem fodendo. Tinham medo da guerra nuclear, mas eu estava tranquilo, sabendo que o povo de 1958 envelheceria e morreria sem sequer ouvir falar de uma bomba atômica que tivesse explodido sem ser em testes. Ninguém temia o aquecimento global nem terroristas suicidas jogando jatos sequestrados em arranha-céus.

E mesmo que a minha vida de 2011 não fosse uma alucinação (no fundo do coração eu sabia disso), eu poderia deter Oswald. Só que não saberia o resultado final. Achei que poderia conviver com isso.

Certo. A primeira coisa a fazer era voltar ao Sunliner e sair de Lisbon Falls. Iria até Lewiston, procuraria a rodoviária e compraria uma passagem para Nova York. Dali, pegaria um trem para Dallas... ora, diabos, por que não voar? Ainda tinha muito dinheiro e nenhum funcionário de empresa aérea exigiria identidade com foto. Eu só precisava desembolsar o preço da passagem e a Trans World Airlines me receberia a bordo.

O alívio dessa decisão foi tão grande que as minhas pernas viraram geleia de novo. A fraqueza não foi tão forte quanto em Derry, quando tive de me sentar, mas me inclinei na direção do barracão de secagem para me apoiar. O meu cotovelo o atingiu, fazendo um leve bong. E uma voz falou comigo do nada. Rouca. Quase um grunhido. Uma voz do futuro, aliás.

— Jake? É você? — Isso foi seguido por uma saraivada de tosse seca e rascante.

Quase fiquei calado. Eu poderia ter ficado calado. Então pensei em quanto da sua vida Al investira nesse projeto e como agora eu era a única coisa que lhe restava para ter esperanças.

Virei-me na direção do som daquela tosse e falei em voz baixa.

— Al? Fale comigo. Conte. — Eu poderia ter acrescentado: Ou só continue tossindo.

Ele começou a contar. Fui na direção do som dos números, tateando com os pés. Depois de dez passos — muito além do lugar onde desistira —, a ponta do sapato deu um passo à frente e, ao mesmo tempo, bateu em alguma coisa que o fez parar na hora. Dei mais uma olhada em volta. Inspirei mais uma vez o ar que fedia a produtos químicos. Depois, fechei os olhos e comecei a subir degraus que não podia ver. No quarto, o ar gelado da noite foi substituído por um calor abafado e o cheiro de café e temperos. Pelo menos esse era o caso da minha metade superior. Abaixo da cintura, ainda conseguia sentir a noite.

Fiquei talvez três segundos ali parado, metade no presente, metade no passado. Então abri os olhos, vi o rosto exausto, ansioso e magro demais de Al e pisei de volta em 2011.

 

4 Nome que a dona de casa Virginia Tighe, do estado americano do Colorado, declarou ter na sua vida passada. Hipnotizada pelo marido em 1952, ela afirmou já ter vivido como irlandesa no século XIX. O marido publicou o caso num livro que fez muito sucesso e acabou refutado por pesquisadores que descobriram que, em frente à casa onde Virginia passara a infância, morara uma senhora irlandesa com aquele nome, e atribuíram as “lembranças da vida passada” a simples lembranças da infância. (N. da T.)