Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 26 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 25

1

Na manhã de 5 de agosto, fiquei com Sadie até a colocarem numa maca e a levarem para a sala de cirurgia. Lá, o dr. Ellerton a esperava, juntamente com médicos suficientes para formar um time de basquete. Os olhos dela brilhavam com os anestésicos pré-operatórios.

— Me deseje boa sorte.

Eu me curvei e a beijei.

— Toda a sorte do mundo.

Passaram-se três horas antes de a levarem de volta para o quarto — o mesmo quarto, o mesmo quadro na parede, o mesmo vaso sanitário agachado e horrível — dormindo profundamente e roncando, o lado esquerdo do rosto coberto com uma atadura nova. Rhonda McGinley, a enfermeira de ombros de jogador de futebol americano, me deixou ficar com ela até que acordasse um pouco, o que era uma grande infração às regras. O horário de visita é mais rigoroso na Terra de Antigamente. Quer dizer, a não ser que a enfermeira-chefe vá com a sua cara.

— Como está? — perguntei, pegando a mão de Sadie.

— Doendo. E com sono.

— Então volte a dormir, querida.

— Talvez da próxima vez... — As palavras acabaram com um zzzzz peludo. Os olhos se fecharam, mas ela fez esforço para reabrir. — ... seja melhor. Na sua casa.

Então ela apagou, e fiquei com algo para pensar.

Quando voltei ao balcão das enfermeiras, Rhonda me disse que o dr. Ellerton esperava por mim na lanchonete lá embaixo.

— Vamos ficar com ela aqui hoje à noite e talvez amanhã também — disse ele. — A última coisa que queremos é o aparecimento de algum tipo de infecção. (Pensei nisso depois, é claro; uma daquelas coisas que são engraçadas, mas não muito.)

— Como foi?

— Como esperado, mas o dano causado por Clayton foi gravíssimo. Dependendo da recuperação dela, vou marcar a segunda rodada em novembro ou dezembro. — Ele acendeu um cigarro, soltou a fumaça e disse: — Essa equipe cirúrgica é fantástica e faremos todo o possível... mas há limites.

— É, eu sei. — Eu tinha bastante certeza de que também sabia de outra coisa: não haveria mais cirurgias. Pelo menos, não aqui. Da próxima vez que Sadie entrasse na faca, não seria uma faca. Seria um laser.

Na minha casa.

2

As pequenas economias sempre voltam para nos morder a bunda. Eu mandara tirar o telefone do meu apartamento na rua Neely para economizar oito ou dez dólares por mês e agora precisava dele. Mas a quatro quarteirões havia uma loja U-Tote-M com uma cabine telefônica ao lado do freezer de Coca-Cola. Eu tinha o número de Mohrenschildt num pedaço de papel. Enfiei uma moedinha e disquei.

— Residência Mohrenschildt, em que posso ajudar? — Não era a voz de Jeanne. A empregada, provavelmente — de onde vinha a grana dos Mohrenschildt?

— Gostaria de falar com George.

— Ele está no escritório, senhor.

Tirei uma caneta do bolso do peito.

— Pode me dar o número?

— Claro, senhor. CHapel 5-6323.

— Obrigado. — Escrevi nas costas da mão.

— O senhor não quer deixar recado caso não consiga falar com ele?

Desliguei. Aquele arrepio me envolvia de novo. Dei-lhe as boas-vindas. Era de clareza fria que eu mais precisava agora.

Pus outra moedinha e, dessa vez, uma secretária me disse que ligara para a Centrex Corporation. Disse a ela que queria falar com o sr. Mohrenschildt. É claro que ela quis saber por quê.

— Diga-lhe que é sobre Jean-Claude Duvalier e Lee Oswald. Diga-lhe que é para o bem dele.

— O seu nome, senhor?

Aqui Puddentane não serviria.

— John Lennon.

— Um momentinho, sr. Lennon, verei se ele pode atender.

Não havia música enlatada, o que, em geral, parecia um aprimoramento. Encostei-me na parede da cabine e fitei a placa que dizia SE FUMA, FAVOR LIGAR O VENTILADOR. Eu não fumava, mas liguei o ventilador mesmo assim. Não adiantou muito.

Houve um clique no meu ouvido, tão alto que me provocou uma careta, e a secretária disse:

— Já está na linha, sr. D.

— Alô! — Aquela voz de ator, estrondosa e jovial. — Alô? Sr. Lennon?

— Alô. Essa ligação é segura?

— O que quer diz... ?? Claro que é. Só um minutinho. Vou fechar a porta.

Houve uma pausa e ele voltou.

— Qual é o assunto?

— Haiti, amigo. E concessões de petróleo.

— Qual é o assunto sobre monsieur Duvalier e aquele tal Oswald? — Não havia preocupação na voz, apenas alegre curiosidade.

— Ah, o senhor os conhece bem mais do que isso — provoquei. — Vá em frente e chame-os de Baby Doc e Lee, por que não?

— Estou ocupadíssimo hoje, sr. Lennon. Se não me disser qual é o assunto, acho que terei de...

— Baby Doc pode aprovar as concessões de petróleo no Haiti que você deseja há uns cinco anos. Você sabe disso; ele é o braço direito do pai, ele manda nos tonton macoute e é o próximo na linha de sucessão. Ele gosta de você e nós gostamos de você...

Mohrenschildt começou a soar menos como ator e mais como gente de verdade.

— Quando diz nós, o senhor quer dizer...

— Nós todos o amamos, Mohrenschildt, mas estamos preocupados com a sua ligação com Oswald.

— Jesus, eu mal conheço o sujeito! Não o vejo faz uns seis ou oito meses!

— Você o visitou no domingo de Páscoa. Levou um coelho de pelúcia para a filhinha dele.

Uma pausa muito comprida. E depois:

— Tudo bem, acho que levei. Tinha esquecido.

— Esqueceu também alguém atirando em Edwin Walker?

— O que isso tem a ver comigo? Ou com a minha empresa? — Era quase impossível não acreditar no seu ultraje perplexo. Palavra-chave: quase.

— Ora, vamos — disse eu. — Você acusou Oswald de ter atirado.

— Eu estava brincando, droga!

Dei-lhe duas pausas e disse:

— Sabe para qual empresa eu trabalho, Mohrenschildt? Vou lhe dar uma pista: não é a Standard Oil.

Houve silêncio na linha enquanto Mohrenschildt repassava as bobagens que eu cuspira até então. Só que não era bobagem, não totalmente. Eu sabia do coelho de pelúcia e da piada sobre como-é-que-você-errou depois que a esposa avistara o fuzil. A conclusão era claríssima. A minha empresa era A Companhia, e a única pergunta na cabeça de Mohrenschildt naquele momento — eu esperava — era quanto mais tínhamos espionado da sua vida sem dúvida interessante.

— Há um mal-entendido, sr. Lennon.

— Para o seu bem, espero que sim, porque nos parece que você o preparou para dar o tiro. Falando sem parar que Walker é racista e que será o próximo Hitler americano.

— Isso é uma inverdade!

Ignorei.

— Mas essa não é a nossa principal preocupação. A nossa principal preocupação é que o senhor pode ter acompanhado o sr. Oswald na sua missão em 10 de abril passado.

— Ach, mein Gott! Isso é loucura!

— Se puder provar isso e se prometer ficar longe do instável sr. Oswald no futuro...

— Ele está em Nova Orleans, pelo amor de Deus!

— Cale a boca — disse eu. — Sabemos onde ele está e o que está fazendo. Distribuindo folhetos de Justiça para Cuba. Se não parar logo, acabará na cadeia. — Acabaria mesmo, em menos de uma semana. O tio Dutz, o tal ligado a Carlos Marcello, pagaria a fiança. — Ele logo voltará a Dallas, mas você não o verá. O seu joguinho acabou.

— Estou lhe dizendo que nunca...

— Aquelas concessões podem ser suas, mas só se conseguir provar que não estava com Oswald em 10 de abril. Você consegue?

— Eu... me deixe pensar. — Houve uma longa pausa. — Consigo. Consigo, acho que consigo.

— Então vamos nos encontrar.

— Quando?

— Hoje à noite. Nove horas. Tenho a quem prestar contas, e ficarão muito chateados comigo se eu lhe der tempo de montar um álibi.

— Venha à minha casa. Mando Jeanne ao cinema com as amigas.

— Tenho outra ideia. E você não vai precisar de instruções para achar. — Eu lhe disse o que pensava.

— Por que lá? — Ele parecia francamente perplexo.

— Basta vir. E se não quiser os Duvalier père e fils zangadíssimos com você, meu amigo, venha sozinho.

Desliguei.

3

Cheguei de volta ao hospital às seis em ponto e fiquei meia hora com Sadie. A cabeça dela estava limpa de novo e ela afirmou que a dor não era muito forte. Às seis e meia beijei a bochecha boa e lhe disse que tinha de ir.

— O seu negócio? — perguntou ela. — O seu negócio real?

— É.

— Ninguém se machuca a menos que seja absolutamente necessário. Certo?

Fiz que sim.

— E nunca por engano.

— Tome cuidado.

— Como pisar em ovos.

Ela tentou sorrir. O sorriso virou careta quando o lado esquerdo e recém-castigado do rosto puxou para o lado contrário. Os olhos dela espiaram por sobre o meu ombro. Virei-me e vi Deke e Ellie à porta. Tinham vestido as melhores roupas, Deke num terno de verão, gravata estreita e chapéu de caubói urbano, Ellie num vestido de seda rosa-choque.

— Podemos esperar, se quiserem — disse Ellie.

— Não, entrem. Eu estava de saída. Mas não demorem muito, ela está cansada.

Beijei Sadie duas vezes — lábios secos e testa úmida. Depois, voltei à rua West Neely, onde espalhei os itens que comprara na loja de fantasias e novidades. Trabalhei devagar e atentamente diante do espelho do banheiro, consultando várias vezes as instruções e desejando que Sadie estivesse ali para me ajudar.

Não temia que Mohrenschildt me olhasse e dissesse já nos vimos antes; o que eu queria assegurar era que mais tarde ele não reconhecesse “John Lennon”. Dependendo da minha verossimilhança, talvez tivesse de voltar a ele. Nesse caso, gostaria de pegá-lo de surpresa.

Colei primeiro o bigode. Era bem farto e me deixou com cara de fora da lei num bangue-bangue de John Ford. Depois veio a maquiagem, que usei no rosto e nas mãos para me dar o bronzeado de um rancheiro. Havia óculos de armação de chifre com lentes sem grau. Pensei rapidamente em tingir o cabelo, mas isso criaria um paralelo com John Clayton que não conseguiria aguentar. Em vez disso, enfiei um boné de beisebol dos San Antonio Bullets. Quando terminei, mal me reconheci no espelho.

— Ninguém se machuca, a menos que tenha absolutamente de acontecer — disse ao estranho no espelho. — E nunca por engano. Está claro?

O estranho fez que sim, mas os olhos atrás dos óculos falsos estavam frios.

A última coisa que fiz antes de sair foi tirar o revólver da prateleira do armário e enfiá-lo no bolso.

4

Cheguei ao estacionamento deserto na ponta da rua Mercedes vinte minutos antes da hora marcada, mas Mohrenschildt já estava lá, o seu vistoso Cadillac enfiado contra os fundos de tijolo do depósito da Montgomery Ward. Isso significava que estava ansioso. Excelente.

Olhei em volta, quase esperando ver as puladoras de corda, mas é claro que já tinham entrado — possivelmente dormindo e sonhando com Carlitos viajando pela França só pra ver a contradança.

Estacionei ao lado do iate de Mohrenschildt, abri a janela, pus a mão esquerda para fora e movi o indicador num gesto de chamamento. Por um instante, Mohrenschildt ficou onde estava, como se inseguro. Depois, saiu. O passo grandioso não estava em evidência. Ele parecia furtivo e assustado. Isso também era excelente. Numa das mãos, tinha uma pasta. Pelo jeito achatado, não havia muita coisa dentro. Torci para não ser apenas um adereço. Se fosse, dançaríamos, e não seria o Lindy Hop.

Ele abriu a porta, inclinou-se e disse:

— Olhe só, você não vai atirar em mim, não é?

— Não — disse eu, torcendo para soar entediado. — Se eu fosse do FBI, talvez você devesse se preocupar com isso, mas não sou e você sabe que não sou. Você já fez negócios conosco.

Rezei a Deus para as anotações de Al estarem certas a esse respeito.

— Esse carro está grampeado? E você?

— Se tomar cuidado com o que disser, não terá com que se preocupar, não é? Agora, entre.

Ele entrou e fechou a porta.

— Quanto àquelas concessões...

— Isso você vai discutir outra hora com outras pessoas. Petróleo não é a minha especialidade. A minha especialidade é cuidar de indiscretos, e a sua relação com Oswald tem sido muito indiscreta.

— Eu só estava curioso. Eis um homem que consegue desertar para a Rússia e depois redesertar para os Estados Unidos. É um caipira semianalfabeto, mas de uma astúcia surpreendente. Além disso... — Ele limpou a garganta. — Um amigo meu quer comer a mulher dele.

— Sabemos disso — disse eu, pensando em Bouhe; simplesmente outro George num desfile aparentemente interminável deles. Como eu ficaria contente de fugir da câmara de eco do passado. — O meu único interesse é assegurar que você não teve nada a ver com aquele atentado fracassado contra Walker.

— Veja isso. Tirei do livro de recordações da minha mulher.

Ele abriu a pasta, removeu a única página de jornal que continha e a passou para mim. Acendi a luz interna do Chevy, torcendo para o meu bronzeado não parecer a maquiagem que era. Por outro lado, quem se importava? A Mohrenschildt, pareceria apenas mais um pouquinho de mistério de capa e espada.

A folha era do Morning News de 12 de abril. Eu conhecia a coluna; PELA CIDADE talvez fosse muito mais lida pelos dallasenses do que as notícias nacionais e internacionais. Havia muitos nomes em negrito e muitas fotos mostrando homens e mulheres em roupa de gala. Mohrenschildt usara tinta vermelha para marcar uma legenda na metade inferior. Na foto que a acompanhava, George e Jeanne eram inconfundíveis. Ele estava de fraque e exibia um sorriso que parecia mostrar tantos dentes quanto as teclas de um piano. Jeanne ostentava um profundo sulco entre os seios que a terceira pessoa à mesa parecia inspecionar atentamente. Os três seguravam taças de champanhe.

— Esse é o jornal de sexta-feira — disse eu. — O atentado contra Walker foi na quarta.

— Essas notícias do Pela Cidade têm sempre dois dias. Porque são sobre vida noturna, né? Além disso, não olhe só a foto, leia, homem. Está bem aí, preto no branco!

Verifiquei, mas soube que ele dizia a verdade assim que vi o nome do outro homem no negrito animadinho do jornal. O eco harmônico foi tão alto quanto um amplificador de guitarra em reverb.

George de Mohrenschildt , rajá local do petróleo, e a esposa Jeanne erguem uma taça

(ou será que foram doze?) no Carousel Club na noite de quarta-feira para comemorar o aniversário da elegantérrima dama. Qual a idade? Os passarinhos não revelam, mas para nós ela parece ter um dia além dos 23 (uau!). Foram recebidos por Jack Ruby, o jovial mandachuva do Carousel, que mandou buscar uma garrafa da borbulhante e se uniu a eles num brinde. Feliz aniversário, Jeanne, e muitos anos de vida!

— O champanhe era um lixo e fiquei de ressaca até as três horas da tarde seguinte, mas valeu a pena se deixar você satisfeito.

Deixou. Também fiquei fascinado.

— Você conhece esse tal de Ruby?

Mohrenschildt fungou — todo o seu esnobismo de barão expresso numa fungada única e rápida com narinas dilatadas.

— Não muito, nem quero. É um judeuzinho maluco que dá bebida de graça à polícia para que olhe para o outro lado quando ele usa os punhos. Coisa que gosta de fazer. Qualquer dia desses o seu mau humor vai lhe causar encrencas. Jeanne gosta das moças que fazem striptease. Elas a deixam excitada. — Ele deu de ombros, como se perguntasse quem consegue entender as mulheres. — Agora você está... — Ele olhou para baixo, viu a arma na minha mão e parou de falar. Os olhos se arregalaram. A língua saiu e lambeu os lábios. Fez um som molhado esquisito quando entrou de volta na boca.

— Se estou satisfeito? É o que ia perguntar? — Cutuquei-o com o cano da arma e tive prazer considerável com o seu susto. Matar muda o homem, isso posso lhe dizer, o deixa mais rude, mas, em minha defesa, se algum homem já mereceu um susto salutar foi esse aí. Em parte, Marguerite era responsável por aquilo em que o filho caçula se transformara, e o próprio Lee tinha bastante responsabilidade (todos aqueles sonhos de glória malformados), mas Mohrenschildt fizera a sua parte. E será que era alguma trama complicada chocada no fundo das entranhas da CIA? Não. Simplesmente, ir à favela o divertia. A raiva e o desapontamento que assavam no forno aceso da personalidade perturbada de Lee também.

— Por favor — sussurrou Mohrenschildt.

— Estou satisfeito. Mas escute bem, seu saco de vento: você nunca mais vai se encontrar com Lee Oswald. Nunca mais vai falar com ele pelo telefone. E nunca mencionará nem uma palavra desta conversa à sua mulher, à mãe dele, a George Bouhe, a nenhum dos outros emigrados. Entendeu bem?

— Claro. Completamente. Estava mesmo ficando entediado com ele.

— Nem metade do que estou entediado. Se descobrir que falou com Lee, mato você. Capisce?

— Claro. E as concessões...?

— Alguém entrará em contato. Agora saia da merda do meu carro.

Foi o que ele fez, a toda. Quando estava atrás do volante do Caddy, estendi de novo a mão esquerda para fora. Em vez de chamar, desta vez usei o indicador para apontar a rua Mercedes. Ele foi.

Fiquei ali sentado mais algum tempo, olhando o recorte de jornal que, na pressa, ele se esquecera de pegar. Os Mohrenschildt e Jack Ruby, erguendo as taças. Seria uma placa indicando uma conspiração, afinal de contas? O pessoal meio maluco que acreditava em coisas como atiradores saindo do esgoto e duplos de Oswald provavelmente achariam que sim, mas eu sabia que não. Era apenas mais uma harmonia. Essa era a Terra de Antigamente, onde tudo ecoava.

Achei que tinha fechado a janela de incerteza de Al Templeton e só deixara uma fresta mínima. Oswald voltaria a Dallas em 3 de outubro. De acordo com as anotações de Al, em meados de outubro seria contratado como trabalhador braçal comum no Texas School Book Depository. Só que isso não aconteceria, porque em algum momento entre o dia 3 e o 16 eu daria fim à sua vida miserável e perigosa.

5

Permitiram que eu tirasse Sadie do hospital na manhã de 7 de agosto. Ela ficou calada na viagem de volta a Jodie. Dava para ver que ainda sentia dor considerável, mas ela descansou a mão companheira na minha coxa durante a maior parte da viagem. Quando entramos na rodovia 77, no grande outdoor dos Denholm Lions, ela disse:

— Volto à escola em setembro.

— Tem certeza?

— Tenho. Se aguentei ficar na frente da cidade inteira no Grange, acho que aguento ficar diante de um monte de garotos na biblioteca da escola. Além disso, acho que vamos precisar do dinheiro. A menos que você tenha alguma fonte de renda que não conheço, deve estar quase falido. Graças a mim.

— Devo ter algum dinheiro entrando no final do mês.

— A luta?

Fiz que sim.

— Bom. E só tenho de escutar os cochichos e risadinhas por pouco tempo, de qualquer maneira. Porque, quando você for, vou com você. — Ela fez uma pausa. — Se ainda for o que quer.

— Sadie, é tudo o que quero.

Entramos na rua Principal. Jem Needham acabava a ronda com o caminhão de leite. Bill Gavery punha pães frescos debaixo de um pano branco diante da padaria. De um carro que passava, Jan e Dean cantavam que em Surf City havia duas garotas para cada rapaz.

— Eu vou gostar, Jake? Da sua terra?

— Assim espero, querida.

— É muito diferente?

Sorri.

— Paga-se mais pela gasolina e há mais botões para apertar. Fora isso, é mais ou menos a mesma coisa.

6

Aquele agosto quente foi a coisa mais próxima de lua de mel que já tivemos, e foi uma delícia. Todo fingimento de que eu morava com Deke Simmons voou pela janela, embora eu ainda mantivesse o meu carro na garagem dele durante a noite.

Sadie se recuperou depressa do último insulto à sua carne e, embora o olho caísse e a bochecha ainda tivesse cicatrizes e um profundo afundamento onde Clayton cortara até o interior da boca, a melhora era visível. Ellerton e equipe tinham feito um bom serviço com o que dispunham.

Líamos livros sentados lado a lado no sofá, com o ventilador soprando o cabelo dela — O grupo para ela, Judas, o obscuro para mim. Fizemos piqueniques no quintal à sombra do seu valorizado pé de pistache chinês e tomamos litros de café gelado. Sadie voltou a reduzir o cigarro. Assistimos a Rawhide, Ben Casey e Rota 66. Certo noite, ela sintonizou As novas aventuras de Ellery Queen, mas lhe pedi que trocasse de canal. Disse que não gostava de mistérios.

Antes de dormir, eu passava pomada com todo o cuidado no rosto ferido e depois que íamos para a cama... era bom. Fiquemos assim.

Certo dia, na frente da mercearia, dei com Jessica Caltrop, aquela honrada integrante do conselho escolar. Ela disse que gostaria de conversar comigo um instante sobre o que chamou de “assunto delicado”.

— O que poderia ser, srta. Caltrop? — perguntei. — Porque tenho sorvete aqui, e gostaria de chegar em casa antes que derretesse.

Ela me deu um sorriso gelado que manteria o meu sorvete de baunilha firme durante horas.

— A casa seria na travessa Bee Tree, sr. Amberson? Com a pobre srta. Dunhill?

— E por acaso isso é da sua conta?

O sorriso se congelou um pouco mais profundamente.

— Como integrante do conselho escolar, tenho de assegurar que a moralidade do nosso corpo docente seja impecável. Se o senhor e a srta. Dunhill estão morando juntos, para mim isso é motivo de grave preocupação. Os adolescentes são impressionáveis. Imitam o que veem nos adultos.

— A senhorita acha? Depois de uns quinze anos em sala de aula, eu diria que eles observam o comportamento adulto e depois correm o mais depressa possível no sentido contrário.

— Tenho certeza de que teríamos uma discussão esclarecedora sobre as suas opiniões a respeito da psicologia adolescente, sr. Amberson, mas não foi por isso que pedi para conversar com o senhor, por mais pouco à vontade que eu fique. — Ela parecia muito à vontade. — Se está vivendo em pecado com a srta. Dunhill...

— Pecado — comentei. — Ora, que palavra interessante. Jesus disse que aquele que não o tivesse estava livre para atirar a primeira pedra. Ou aquela, acho. A srta. Caltrop não tem pecado?

— Esta discussão não é sobre mim.

— Mas poderia passar a ser. Eu poderia fazer com que fosse. Eu poderia, por exemplo, começar perguntando por aí sobre alguns filhotes que a senhorita andou largando faz tempo.

Ela se encolheu como se levasse um tapa e deu dois passos atrás na direção da parede de tijolos da mercearia. Dei dois passos à frente, os sacos de compras envoltos nos braços.

— Acho isso nojento e ofensivo. Se o senhor ainda estivesse ensinando, eu...

— Tenho certeza que sim, mas não estou, logo a senhorita precisa me escutar com muita atenção. Pelo que sei, a senhorita teve um filho aos 16 anos, quando morava no rancho Sweetwater. Não sei se o pai era um dos seus colegas de escola, um vagabundo ou até o seu próprio pai...

— Você é nojento!

Verdade. E às vezes isso é um prazer imenso.

— Não me importa quem foi, mas me importo com Sadie, que tem passado por mais dor e sofrimento do que a senhorita sentiu em toda a sua vida. — Agora ela estava presa contra a parede de tijolos. Erguia para mim os olhos brilhantes de terror. Em outro tempo e lugar, talvez eu sentisse pena dela. Não agora. — Se a senhorita disser uma só palavra sobre Sadie, uma só palavra a quem quer que seja, passará a ser da minha conta descobrir onde aquele seu filho está agora, e espalharei a notícia de uma ponta a outra da cidade. Está me entendendo?

— Saia da minha frente! Me deixe passar!

— Está me entendendo?

— Estou! Estou!

— Ótimo. — Dei um passo atrás. — Viva a sua vida, srta. Caltrop. Desconfio que tem sido bem cinzenta desde os seus 16 anos (movimentada, talvez, inspecionar a roupa suja dos outros mantém a pessoa ocupada), mas é sua. E nos deixe viver a nossa.

Ela deslizou para a esquerda pela parede de tijolos, na direção do estacionamento atrás do mercado. Os olhos estavam arregalados. Não saíam de cima de mim.

Dei um sorriso agradável.

— Antes que essa discussão se transforme em algo que nunca aconteceu, quero lhe dar um conselho, mocinha. Vem diretamente do meu coração. Eu a amo e não é bom mexer com um homem apaixonado. Caso se meta na minha vida ou na de Sadie, tentarei ao máximo transformar a senhorita na piranha puritana mais sofrida do Texas. Essa é uma promessa sincera que lhe faço.

Ela correu para o estacionamento. Correu meio sem jeito, como quem há muito tempo não dá passos mais rápidos do que um andar majestoso. Com a saia marrom até a canela, as meias opacas cor de carne e os sensatos sapatos marrons, ela era o espírito do seu tempo. O cabelo se soltava do coque. Não tive dúvidas de que antigamente ela o usava solto, do jeito que os homens gostam de ver o cabelo da mulher, mas fora há muito tempo.

— E tenha um bom-dia! — gritei para ela.

7

Sadie entrou na cozinha enquanto eu guardava tudo na geladeira.

— Você demorou. Estava começando a me preocupar.

— Fiquei de prosa. Sabe como é Jodie. Sempre tem alguém para a gente matar o tempo.

Ela sorriu. O sorriso agora era um pouco mais fácil.

— Você é um doce.

Agradeci a Sadie e lhe disse que ela era um doce. Fiquei me perguntando se Caltrop falaria com Fred Miller, o outro integrante do conselho escolar que se considerava guardião da moral da cidade. Achei que não. Não era só que eu sabia da indiscrição juvenil dela; eu conseguira apavorá-la. Funcionara com Mohrenschildt e funcionara com ela. Assustar os outros é um serviço sujo que alguém tem de fazer.

Sadie atravessou a cozinha e me abraçou.

— O que você diria de um fim de semana nos Bangalôs Candlewood antes do início das aulas? Como nos velhos tempos? Será que é muita saliência de Sadie?

— Bom, aí depende. — Abracei-a. — Estamos falando de um fim de semana sujo?

Ela corou, a não ser em torno da cicatriz. A carne ali continuava branca e brilhante.

— Absolutamente imundo, señor.

— Então, quanto mais cedo, melhor.

8

Na verdade não foi um fim de semana sujo, a menos para quem acredita — como as Jessicas Caltrop do mundo parecem acreditar — que fazer amor é sujo. É verdade que passamos muito tempo na cama. Mas também passamos bastante tempo ao ar livre. Sadie era uma caminhante incansável e havia um vasto campo aberto no flanco de um morro atrás do Candlewood. Era uma revolta de flores selvagens de fim de verão. Passamos quase toda a tarde de sábado lá. Sadie sabia o nome de algumas flores — círio-de-nossa-senhora, cardo-santo, algo chamado sempre-verde —, mas para outras ela apenas balançava a cabeça e se abaixava para sentir os aromas que houvesse para cheirar. Andamos de mãos dadas, com o capim alto se esfregando nos nossos jeans e nuvens grandes e fofas em cima navegando pelo céu alto do Texas. Longas persianas de luz e sombra deslizavam pelo campo. Naquele dia havia uma brisa fresca e nenhum cheiro de refinaria no ar. No alto do morro, nos viramos e olhamos para trás. Os bangalôs eram pequenos e insignificantes na amplidão polvilhada de árvores da pradaria. A estrada era uma fita.

Sadie se sentou, puxou os joelhos até o peito e cruzou os braços em torno das canelas. Sentei-me ao lado dela.

— Quero lhe perguntar uma coisa — disse ela.

— Tudo bem.

— Não é sobre o... sabe, de onde você veio... Isso é mais do que quero pensar por enquanto. É sobre o homem que você veio deter. O que você diz que vai matar o presidente.

Pensei no caso.

— Assunto delicado, querida. Lembra que eu lhe disse que estou perto de uma grande máquina cheia de dentes afiados?

— Lembro...

— Eu disse que não deixaria você ficar perto de mim enquanto eu mexesse com ela. Já disse mais do que queria e, provavelmente, mais do que deveria. Porque o passado não quer ser mudado. Ele luta contra quando a gente tenta. E quanto maior o potencial de mudança, mais ele briga. Não quero que você se machuque.

— Já me machuquei — disse ela, baixinho.

— Está perguntando se a culpa foi minha?

— Não, querido. — Ela pôs a mão no meu rosto. — Não.

— Bom, pode ter sido, pelo menos em parte. Existe uma coisa chamada efeito borboleta... — Havia centenas delas esvoaçando na encosta diante de nós, como para ilustrar aquele mesmo fato.

— Sei o que é — disse ela. — Há um conto de Ray Bradbury sobre isso.

— É mesmo?

— Chama-se Um som de trovão. É muito bonito e muito perturbador. Mas, Jake... Johnny era maluco muito antes de você entrar em cena. Eu larguei ele muito antes de você entrar em cena. E se você não tivesse aparecido, poderia ser outro homem. Tenho certeza de que não seria tão bom quanto você, mas eu não saberia disso, não é? O tempo é uma árvore com muitos ramos.

— O que quer saber sobre o sujeito, Sadie?

— Principalmente por que você simplesmente não chama a polícia — anonimamente, é claro — e o denuncia.

Puxei uma folha de capim para mastigar enquanto pensava nisso. A primeira coisa a me passar pela cabeça foi algo que Mohrenschildt dissera no estacionamento do Montgomery Ward: Ele é um caipira semianalfabeto, mas de uma astúcia surpreendente.

Era uma boa avaliação. Lee escapara da Rússia quando se cansou de lá; teria astúcia suficiente para escapar do Book Depository depois de atirar no presidente, apesar da reação quase imediata da polícia e do Serviço Secreto. É claro que a reação foi rápida; muita gente veria exatamente de onde vinham os tiros.

Lee seria interrogado sob a mira das armas na sala de descanso do segundo andar antes mesmo que a carreata levasse a toda o presidente moribundo para o Hospital Parkland. O policial que fez o interrogatório se lembraria depois que o rapaz fora sensato e convincente. Depois que o capataz Roy Truly se responsabilizou por ele como funcionário, o policial deixaria Ozzie Coelho ir embora e depois correria escada acima para procurar a fonte dos tiros. Era possível acreditar que, não fosse o encontro com o patrulheiro Tippit, Lee passaria dias ou semanas sem ser capturado.

— Sadie, os policiais de Dallas vão chocar o mundo com a sua incompetência. Eu seria maluco se confiasse neles. Podem até nem agir com uma denúncia anônima.

— Mas por quê? Por que não agiriam?

— Agora porque o sujeito nem está no Texas e não pretende voltar. Ele planeja desertar para Cuba.

— Cuba? Por que Cuba?

Balancei a cabeça.

— Não importa, porque não vai dar certo. Ele voltará a Dallas, mas não com o plano de matar o presidente. Ele nem sequer sabe que Kennedy vem a Dallas. O próprio Kennedy não sabe, porque a viagem ainda não foi marcada.

— Mas você sabe.

— Sei.

— Porque na época de onde você veio, tudo isso está nos livros de História.

— Os traços gerais, sim. Consegui os detalhes específicos com o amigo que me mandou aqui. Contarei a história toda a você algum dia, depois que acabar, mas não agora. Não enquanto a máquina com todos aqueles dentes ainda estiver funcionando a todo vapor. O importante é o seguinte: se a polícia interrogar o sujeito em algum momento antes de meados de novembro, ele vai soar completamente inocente, porque é inocente. — Outra daquelas vastas sombras de nuvem rolou sobre nós, fazendo a temperatura cair temporariamente uns cinco graus. — Pelo que sei, ele pode só ter se decidido de vez no momento em que puxou o gatilho.

— Você fala como se já tivesse acontecido — disse ela, com espanto.

— No meu mundo, já aconteceu.

— O que há de importante em meados de novembro?

— No dia 16, o Morning News vai contar a Dallas a passeata de Kennedy pela rua Principal. L... o sujeito lerá a notícia e perceberá que os carros passarão bem na frente do lugar onde trabalha. Provavelmente pensará que é uma mensagem de Deus. Ou talvez do fantasma de Karl Marx.

— Onde ele vai trabalhar?

Balancei a cabeça de novo. Não era seguro que ela soubesse. É claro que nada disso era seguro. Mas (já disse isso antes, mas vale a pena repetir) que alívio contar pelo menos parte daquilo a alguém.

— Se a polícia falasse com ele, talvez pelo menos ele ficasse com medo de tentar.

Ela tinha razão, mas que risco pavoroso. Eu já correra um risco menor falando com Mohrenschildt, mas ele queria aquelas concessões de petróleo. Além disso, fiz mais do que assustá-lo: eu o deixei se cagando de medo. Achei que ficaria calado. Lee, por outro lado...

Peguei a mão de Sadie.

— Agora posso prever aonde esse homem vai do mesmo modo que posso prever aonde vai o trem, porque não pode sair dos trilhos. Basta eu aparecer, basta eu me meter e tudo sai da rota.

— E se você mesmo falasse com ele?

Uma imagem que era um verdadeiro pesadelo me passou pela cabeça. Vi Lee dizendo à polícia: Quem me deu a ideia foi um homem chamado George Amberson. Se não fosse por ele, eu nunca teria pensado nisso.

— Acho que isso também não daria certo.

Com vozinha miúda, ela perguntou:

— Você terá de matá-lo?

Não respondi. O que em si já era uma resposta, claro.

— E você sabe mesmo que isso vai acontecer.

— Sei.

— Assim como sabe que Tom Case vai vencer aquela luta no dia 29.

— Isso.

— Muito embora todo mundo que conhece boxe diga que Tiger vai acabar com ele.

Sorri.

— Você andou lendo a seção de esportes.

— É. Li, sim. — Ela tirou o pedaço de capim da minha boca e pôs na dela. — Nunca fui a uma luta dessas. Você me leva?

— Não é exatamente ao vivo, sabe. É numa tela de TV grande.

— Eu sei. Você me leva?

9

Havia muitas mulheres de boa aparência no Dallas Auditorium na noite da luta, mas Sadie recebeu o seu justo quinhão de olhares admiradores. Ela se arrumara cuidadosamente para a ocasião, mas a maquiagem mais habilidosa conseguiria apenas minimizar os danos ao rosto, nunca escondê-los completamente. O vestido ajudou bastante. Agarrava-se suavemente à linha do corpo e tinha um profundo decote redondo.

O golpe brilhante foi um fedora de feltro que Ellen Dockerty lhe dera quando Sadie lhe contou que eu a convidara a ir à luta comigo. O chapéu era quase igual ao que Ingrid Bergman usa na cena final de Casablanca. Com a inclinação despreocupada, dava destaque perfeito ao rosto... e, naturalmente, ficava inclinado para a esquerda, lançando um profundo triângulo de sombra sobre a bochecha ruim. Era melhor do que qualquer maquiagem. Quando ela saiu do quarto para a inspeção, disse-lhe que estava absolutamente fantástica. O ar de alívio no rosto e a faísca empolgada nos olhos indicou que ela sabia que eu fazia mais do que tentar deixá-la se sentindo bem.

Havia muito trânsito no caminho de Dallas e, na hora em que chegamos aos nossos lugares, a terceira das cinco lutas preliminares estava em andamento — um negro grande e um branco maior ainda socando-se devagar enquanto a multidão dava vivas. No piso de madeira polida onde os Dallas Spurs jogavam (mal) durante a temporada de basquete não havia ninguém, a não ser quatro telas enormes. A imagem era fornecida por vários sistemas de projeção atrás das telas e, embora as cores fossem lamacentas, quase rudimentares, a imagem propriamente dita era nítida. Sadie ficou impressionada. Na verdade, eu também.

— Está nervoso? — perguntou ela.

— Estou.

— Muito embora...

— Muito embora. Quando apostei que os Pirates venceriam a Série Mundial em 1960, eu sabia. Aqui dependo inteiramente do meu amigo, que pegou isso na internet.

— Que coisa é essa?

— Ficção científica. Como Ray Bradbury.

— Ah... tá bom. — Então ela pôs os dedos entre os lábios e assoviou. — Ei, ô da cerveja!

O homem da cerveja, vestido de colete, chapéu de caubói e cinturão com enfeites de prata, nos vendeu duas garrafas de Lone Star (de vidro, não de plástico) com copos de papel enfiados no gargalo. Eu lhe dei um dólar e lhe disse para ficar com o troco.

Sadie pegou a dela, bateu-a na minha e disse:

— Sorte, Jake.

— Se eu precisar, estarei encalacrado.

Ela acendeu um cigarro, acrescentando a sua fumaça ao véu azul que pendia em torno das lâmpadas. Eu estava à direita dela e, de onde me sentava, ela estava perfeita.

Cutuquei o seu ombro e, quando ela se virou, beijei de leve os lábios abertos.

— Garota — disse eu —, sempre teremos Paris.

Ela sorriu.

— A que fica no Texas, talvez.

Um gemido subiu da multidão. O lutador negro acabara de fazer o branco cair de bunda.

10

A luta principal começou às nove e meia. Closes dos lutadores encheram as telas e, quando a câmera se concentrou em Tom Case, o meu coração se apertou. Havia fios brancos no cabelo preto e crespo. As bochechas despencavam. A barriga estava flácida sobre os calções. Mas o pior de tudo eram os olhos um tanto embasbacados, que espiavam dentro de sacos fofos de tecido cicatrizado. Não parecia ter muita certeza de onde estava. A maior parte da plateia de 1.500 pessoas mais ou menos deu vivas — Tom Case era filho da terra, afinal de contas —, mas também ouvi um saudável coro de vaias. Ali sentado, acachapado no banquinho, segurando as cordas com as mãos enluvadas, parecia já ter perdido. Dick Tiger, por outro lado, estava de pé, dando socos no ar e saltitando agilmente nas suas sapatilhas pretas de cano alto.

Sadie se inclinou para mais perto de mim e cochichou:

— Isso não parece muito bom, querido.

Esse foi o eufemismo do século. Parecia terrível.

Lá na frente (onde a tela deveria parecer um penhasco a se erguer com figuras móveis e borradas projetadas nele), vi Akiva Roth conduzir uma boneca vestida de mink com tons de Greta Garbo até um lugar que seria junto ao ringue, caso a luta não fosse numa tela. Diante de mim e Sadie, um gorducho que fumava charuto se virou e disse:

— Pra quem torce, belezura?

— Case! — respondeu Sadie com bravura.

O gorducho fumante de charuto riu.

— Bom, pelo menos você tem coragem. Apostaria dez pratas nele?

— Paga quatro por um? Se Case nocautear o outro?

— Se Case nocautear Tiger? Madame, trato feito. — Ele estendeu a mão.

Sadie a apertou. Depois, se virou para mim com um sorrisinho desafiador brincando no canto da boca que ainda funcionava.

— Bem ousado — disse eu.

— De jeito nenhum. Tiger vai cair no quinto assalto. Eu consigo prever o futuro.

11

O apresentador, de smoking e meio quilo de tônico capilar, trotou até o centro do ringue, puxou um microfone pendurado num cabo prateado e citou os números dos lutadores numa voz retumbante de dono de circo. O Hino Nacional tocou. Os homens tiraram o chapéu e puseram a mão sobre o coração. Consegui sentir o meu batendo depressa, pelo menos cento e vinte batidas por minuto, talvez mais. O auditório tinha ar-condicionado, mas o suor escorria pela minha nuca e umedecia as minhas axilas.

Uma moça de maiô passou pelo ringue de salto alto, erguendo uma placa com um grande número 1.

Soou o gongo. Tom Case arrastou os pés no ringue com uma expressão resignada no rosto. Dick Tiger pulou alegremente para encontrá-lo, fez uma finta com a mão direita e largou um compacto gancho de esquerda que atingiu Case exatamente aos doze segundos da luta. As plateias — a dali e a outra do Garden, a mais de três mil quilômetros — soltaram um gemido de desagrado. A mão que Sadie descansara na minha coxa pareceu criar garras ao se tensionar e se enterrar.

— Diga àqueles dez para se despedir dos amigos, belezura — disse alegre o gorducho fumante de charuto.

Al, que merda você estava pensando?

Dick Tiger recuou para o seu canto e lá ficou, saltitando despreocupado na ponta dos pés enquanto o juiz começava a contagem, balançando dramaticamente o braço direito para cima e para baixo. No três, Case se mexeu. No cinco, se sentou. No sete, se apoiou no joelho. E no nove, se levantou e ergueu as luvas. O juiz pegou nas mãos o rosto do lutador e lhe fez uma pergunta. Case respondeu. O juiz concordou, acenou para Tiger e recuou.

O tigre, talvez ansioso para chegar ao filé do jantar que o esperava no Sardi’s, correu para o massacre. Case não tentou fugir dele — a sua velocidade o deixara para trás havia muito tempo, talvez nalguma luta de cidade pequena, em Moline, Illinois, ou New Haven, Connecticut — mas conseguiu se defender... e entrar em clinch. Isso ele fez muito, descansando a cabeça no ombro de Tiger como um dançarino de tango cansado e batendo as luvas sem força nas costas do outro. A plateia começou a vaiar. Quando soou o gongo e Case se arrastou de volta ao banquinho de cabeça baixa e com os punhos enluvados balançando, vaiaram mais alto.

— Ele é um lixo, belezura — observou o gorducho.

Sadie me olhou ansiosa.

— O que acha?

— Acho que ele conseguiu passar pelo primeiro assalto. — O que eu realmente achava era que alguém devia enfiar um garfo na bunda mole de Tom Case, porque para mim ele parecia quase acabado.

A guria de maiô passou de novo, dessa vez segurando um 2. Soou o gongo. Novamente Tiger pulou e Case se arrastou. O meu sujeito continuava a se aproximar para entrar em clinch sempre que possível, mas notei que agora conseguia fugir do gancho de esquerda que o arrasara no primeiro assalto. Tiger trabalhou o estômago do lutador mais velho com golpes de direita que mais pareciam pistões, mas ainda devia haver muito músculo debaixo daquela banha, porque não afetaram muito Case. Em certo momento, Tiger empurrou Case para trás e, com ambas as luvas, fez um gesto de venha, venha. A multidão vibrou. Case só o fitou, então Tiger avançou. Case imediatamente entrou em clinch. O público gemeu. O gongo soou.

— A minha avó daria mais trabalho a Tiger — grunhiu o fumante de charutos.

— Talvez — disse Sadie, acendendo o terceiro cigarro da luta —, mas ele ainda está em pé, não está?

— Não por muito tempo, doçura. Na próxima vez em que aqueles ganchos de esquerda passarem, será Case encerrado. — Ele deu uma risadinha.

O terceiro assalto teve mais clinches e arrastar de pés, mas no quarto Case baixou a guarda de leve e Tiger o atingiu com uma barragem de esquerdos e direitos que pôs o público de pé, aos gritos. A namorada de Akiva Roth estava com eles. O sr. Roth manteve o lugar, mas se preocupou o suficiente para segurar a bunda da amiga com a mão direita cheia de anéis.

Case caiu contra as cordas, disparando direitos em Tiger, e um deles passou. Parecia bem fraco, mas vi o suor voar do cabelo do tigre quando ele balançou a cabeça. Havia no seu rosto uma expressão perplexa de de-onde-é-que-veio-isso. Então ele avançou de novo e voltou ao trabalho. O sangue começou a escorrer de um corte junto ao olho esquerdo de Case. Antes que Tiger conseguisse aumentar para um jorro o pinga-pinga da lesão, o gongo soou.

— Se me entregar aqueles dez agora, belezura — disse o fumante atarracado de charutos —, você e o seu namorado conseguirão vencer o trânsito.

— Quer saber? — perguntou Sadie. — Lhe dou a chance de desistir e poupar quarenta dólares.

O fumante atarracado de charuto riu.

— Bonita e com senso de humor. Se esse helicóptero comprido tratar você mal, doçura, venha para casa comigo.

No canto de Case, o treinador trabalhava freneticamente no olho machucado, espremendo alguma coisa de um tubo e esfregando com a ponta dos dedos. Para mim parecia Super Bonder, só que acho que ainda não tinha sido inventada. Depois, bateu nas costelas de Case com uma toalha molhada. O gongo soou.

Dick Tiger continuou atacando com jabs de direita e ganchos de esquerda. Case se esquivou de um gancho de esquerda e, pela primeira vez na luta, Tiger lançou um uppercut de direita na cabeça do mais velho. Case conseguiu recuar o suficiente para que não pegasse diretamente no queixo, mas atingiu a bochecha. A força do golpe distorceu o rosto inteiro numa careta de trem-fantasma. Ele cambaleou para trás. Tiger foi para cima dele. O público estava em pé de novo, berrando por sangue. Nós nos levantamos com o resto. As mãos de Sadie estavam sobre a boca.

Tiger estava com Case preso num dos cantos neutros e o martelava com direitos e esquerdos. Dava para ver Case afrouxar; dava para ver a luz dos seus olhos se reduzir. Mais um gancho de esquerda — ou aquele direto de direita — e ela se apagaria.

— DERRUBA ELE! — gritava o gorducho fumante de charuto. — DERRUBA ELE, DICKY! BOTA ELE NO CHÃO!

Tiger deu um golpe baixo, sob a linha da cintura. Provavelmente não de propósito, mas o juiz se intrometeu. Enquanto repreendia Tiger pelo golpe baixo, observei Case para ver como usaria esse descanso temporário. Vi surgir no seu rosto algo que reconheci. Vira Lee com a mesma expressão no dia em que dera o maior esporro em Marina por causa do zíper da saia. Surgira quando Marina se voltara contra ele, acusando-o de levar ela e a filha para uma pocilga e depois girando o dedo em torno da orelha num gesto de tá-maluco.

Na mesma hora, aquela luta deixou de ser apenas um caça-níqueis para Tom Case.

O juiz recuou. Tiger avançou, mas desta vez Case se preparou para recebê-lo. O que aconteceu nos próximos vinte segundos foi a coisa mais eletrizante e apavorante que já vi como parte do público. Os dois simplesmente ficaram grudados, batendo um no outro na cara, no peito, nos ombros, no estômago. Não houve ginga, acenos, trabalho de pés. Eram touros no pasto. O nariz de Case quebrou e jorrou sangue. O lábio inferior de Tiger se esmagou contra os dentes e rachou; o sangue escorreu pelos dois lados do queixo, deixando-o parecido com um vampiro depois de uma bela refeição.

Todos no auditório estavam em pé e gritavam. Sadie pulava. O fedora caiu, expondo a bochecha cortada. Ela nem notou. Ninguém mais notou. Nas telas imensas, a Terceira Guerra Mundial estava a todo vapor.

Case baixou a cabeça para dar uma daquelas bazucas de direita e vi Tiger fazer uma careta quando o punho atingiu o osso. Deu um passo atrás e Case disparou um uppercut monstruoso. Tiger virou a cabeça para evitar o pior, mas o protetor bucal voou e rolou na lona.

Case avançou, lançando cruzados de direita e esquerda. Não havia arte neles, só poder nu e zangado. Tiger recuou, tropeçou nos próprios pés e caiu. Case ficou de pé acima dele, aparentemente sem saber o que fazer ou, talvez, nem mesmo onde estava. Os sinais frenéticos do treinador lhe chamaram a atenção e ele se arrastou de volta ao seu canto. O juiz começou a contagem.

No quatro, Tiger se apoiou no joelho. No seis, estava em pé. Depois da contagem obrigatória até oito, a luta recomeçou. Olhei o grande relógio no canto da tela e vi que restavam quinze segundos daquele assalto.

Não basta, não é suficiente.

Case avançou devagar. Tiger deu aquele gancho de esquerda devastador. Case jogou a cabeça para o lado e, quando a luva passou voando pelo seu rosto, arremessou a direita. Dessa vez foi o rosto de Dick Tiger que se distorceu, e quando caiu ele não se levantou.

O gorducho olhou os restos esfarrapados do charuto e o jogou no chão.

— Jesus chorou!

— É! — chilreou Sadie, rearrumando o fedora na despreocupada inclinação correta. — Diante de uma pilha de panquecas de amora, e os discípulos disseram que eram as mais gostosas. Agora, pague!

12

Quando chegamos de volta a Jodie, 29 de agosto virara 30 de agosto, mas ambos estávamos excitados demais para dormir. Fizemos amor e depois fomos à cozinha em roupas de baixo e comemos torta.

— Que tal? — perguntei. — O que acha?

— Que nunca mais quero ir a uma luta dessas. Aquilo foi pura sede de sangue. E lá estava eu em pé, gritando com o resto. Por alguns segundos, talvez até um minuto inteiro, quis que Case matasse aquele almofadinha dançarino e cheio de si. Depois mal podia esperar para voltar para cá e pular na cama com você. Agora não teve nada a ver com amor, Jake. Agora foi só ardor.

Eu não disse nada. Às vezes não há nada a dizer.

Ela estendeu a mão sobre a mesa, catou uma migalha do meu queixo e a pôs na minha boca.

— Me diga que não é ódio.

— O quê?

— A razão para você achar que tem de deter esse homem sozinho. — Ela me viu começar a abrir a boca e ergueu a mão para me deter. — Ouvi tudo o que você disse, todas as suas razões, mas você tem de me dizer que são razões e não só o que vi nos olhos daquele tal de Case quando Tiger o atingiu no calção. Posso amar você se for um homem e posso amar você se for um herói — acho, embora por alguma razão pareça que seria muito mais difícil —, mas acho que não posso amar alguém que faz justiça com as próprias mãos.

Pensei no modo como Lee olhava a esposa quando não estava danado com ela. Pensei na conversa que ouvira quando ele e a filhinha brincavam com a água do banho. Pensei nas lágrimas dele na rodoviária, quando segurara Junie e enfiara o nariz debaixo do seu queixo antes de ir para Nova Orleans.

— Não é ódio — disse eu. — O que sinto por ele é...

Parei. Ela me observava.

— Tristeza por uma vida estragada. Mas a gente também sente pena de um bom cachorro que pega raiva. Isso não impede que a gente o sacrifique.

Ela me olhou nos olhos.

— Quero você de novo. Mas dessa vez tem de ser por amor, sabe? Não porque acabamos de ver dois homens se surrarem e o nosso ganhou.

— Tudo bem — disse eu. — Tudo bem. Isso é bom.

E foi.

13

— Ora, veja só — disse a filha de Frank Frati quando entrei na loja de penhores por volta do meio-dia daquela sexta-feira. — É o swami do boxe com sotaque da Nova Inglaterra. — Ela me deu um sorriso purpurinado, depois virou a cabeça e berrou: — Pa-ai! É o homem do Tom Case!

Frati veio arrastando os pés.

— Olá, sr. Amberson — disse ele. — Grande como a vida e bonito como Satã numa noite de sábado. Aposto que está sentindo os olhos brilhantes e o rabo felpudo neste lindo dia, não está?

— Claro — respondi. — Por que não? Tive um golpe de sorte.

— E fui eu quem levou o golpe. — Ele puxou um envelope pardo, um pouco maior que o tamanho padrão, do bolso de trás da calça larga de gabardine. — Dois mil. Fique à vontade para contar.

— Está tudo certo — disse eu. — Confio em você.

Ele começou a me passar o envelope e depois puxou-o de volta e batucou com ele o queixo. Os olhos azuis, desbotados mas astutos, me mediram.

— Tem interesse em rolar a aposta? A temporada de futebol americano está chegando, assim como a série de beisebol.

— Não sei bulhufas de futebol, e uma série de Dodgers e Yankees não me interessa muito. Passe para cá.

Ele passou.

— Foi um prazer fazer negócios com você — disse eu, e saí andando. Deu para sentir os olhos dele me seguindo e tive aquela sensação, agora já muito desagradável, de déjà-vu. Não consegui identificar a causa. Entrei no carro, torcendo para nunca mais ter de voltar àquela parte de Fort Worth. Nem à avenida Greenville, em Dallas. Nem fazer outra aposta com outro corretor chamado Frati.

Esses foram os meus três desejos, e todos se realizaram.

14

A minha próxima parada foi o número 214 da rua West Neely. Telefonei ao proprietário e lhe disse que agosto seria o meu último mês. Ele tentou me convencer a ficar, dizendo que bons inquilinos como eu eram difíceis de encontrar. Provavelmente era verdade — a polícia não aparecera nenhuma vez por minha causa, e olha que frequentava bastante o bairro, principalmente nos fins de semana —, mas desconfiei que tinha mais a ver com apartamentos demais e inquilinos de menos. Dallas vivia uma das suas depressões periódicas.

Parei no First Corn no caminho e engordei a minha conta bancária com os dois mil de Frati. Isso foi uma sorte. Mais tarde — muito mais tarde — percebi que, se estivesse com o dinheiro ao chegar à rua Neely, sem dúvida o perderia.

O meu plano era dar uma olhada nos quatro cômodos atrás de algum pertence que eu poderia ter esquecido, dando atenção específica àqueles pontos místicos de atração de lixo debaixo das almofadas do sofá, debaixo da cama e atrás das gavetas da cômoda. E é claro que levaria o meu Police Special. Precisaria dele para cuidar de Lee. Agora eu tinha toda a intenção de matá-lo e o mais cedo possível, assim que voltasse a Dallas. Enquanto isso, não queria deixar para trás nenhum vestígio de George Amberson.

Quando me aproximei da rua Neely, aquela sensação de estar preso na câmara de eco do tempo ficou fortíssima. Não parava de pensar nos dois Frati, um com uma esposa chamada Marjorie, o outro com uma filha chamada Wanda.

Marjorie: Isso é aposta em língua de gente?

Wanda: Quando está em casa com os pés pra cima isso se chama aposta?

Marjorie: Sou J. Edgar Hoover, meu filho.

Wanda: Sou o chefe Curry, da Polícia de Dallas.

E daí? Era a harmonia, só isso. A harmonia. Efeito colateral da viagem no tempo.

Ainda assim, um sinal de alarme começou a tocar no fundo da minha cabeça e, quando entrei na rua Neely, ele passou para a frente do cérebro. A história se repete, o passado se harmoniza, e a sensação tinha a ver com isso... mas não só com isso. Quando imbiquei na entrada da casa onde Lee fizera o seu plano meia-boca de assassinar Edwin Walker, realmente escutei aquele sinal de alarme. Porque agora estava perto. Agora ele apitava.

Akiva Roth na luta, mas não sozinho. Com ele estava uma bonequinha de óculos de Greta Garbo e estola de mink. Agosto em Dallas dificilmente seria clima para mink, mas o auditório tinha ar-condicionado e, como dizem no meu tempo, às vezes a gente precisa se produzir.

Tire os óculos escuros. Tire a estola. O que resta?

Por um instante, sentado ali no meu carro, escutando o ventilador do motor fazer tique e tuque, ainda não entendi. Então percebi que, caso substituísse a estola de mink por uma blusa da Ship N Shore, teria Wanda Frati.

Chaz Frati, de Derry, pusera Bill Turcotte atrás de mim. Esse pensamento chegara a me passar pela cabeça... mas eu o desdenhara. Má ideia. Quem Frank Frati de Fort Worth pusera atrás de mim? Bom, ele tinha de conhecer Akiva Roth da Financeira Fé; afinal de contas, Roth era namorado da sua filha.

De repente, quis a minha arma, e já.

Saí do Chevy e subi correndo os degraus da varanda, as chaves na mão. Eu remexia nelas quando uma camionete fechada veio rugindo pela esquina da avenida Haines e parou guinchando na frente do 214 com as rodas do lado esquerdo em cima do meio-fio.

Olhei em volta. Não vi ninguém. A rua estava deserta. Nunca há um transeunte para a gente gritar por socorro quando precisa. Muito menos um guarda.

Enfiei a chave certa na fechadura e a girei, pensando em trancá-los do lado de fora — quem quer que fossem eles — e chamar a polícia pelo telefone. Estava dentro, sentindo o cheiro do ar quente e viciado do apartamento deserto quando me lembrei que não havia telefone.

Homens grandes corriam pelo gramado. Três deles. Um tinha um pedaço de cano que parecia enrolado em alguma coisa.

Não, na verdade havia sujeitos suficientes para jogar bridge. O quarto era Akiva Roth, e não corria. Ele subia a calçada com as mãos no bolso e um sorriso plácido no rosto.

Bati a porta. Girei o ferrolho. Mal terminara quando ela se abriu numa explosão. Corri para o quarto e cheguei ao meio do caminho.

15

Dois capangas de Roth me arrastaram para a cozinha. O terceiro era o do cano. Estava enrolado em tiras de feltro escuro. Vi quando o pousou com cuidado na mesa onde eu fizera muitas boas refeições. Ele calçou luvas amarelas de couro cru.

Roth se inclinou na porta, ainda sorrindo placidamente.

— Eduardo Gutierrez está com sífilis — anunciou. — Já chegou ao cérebro. Em dezoito meses estará morto, mas quer saber? Ele nem liga. Acredita que vai voltar como emirado árabe ou uma merda dessas. Que tal, hem?

Responder a coisas sem sentido — em festas, no transporte público, na fila do cinema — já é bastante arriscado, mas é muito difícil saber o que dizer quando a gente está sendo segurado por dois homens, prestes a levar uma surra de um terceiro. Por isso, não disse nada.

— O fato é que você ficou na cabeça dele. Você ganhou apostas que não devia ganhar. Às vezes perdia, mas Eddie G. ficou com essa ideia maluca de que, quando perdia, era de propósito. Entende? Aí você ganhou uma bolada no Derby e ele decidiu, sei lá, que você era um tipo de maluco telepático que conseguia ver o futuro. Sabe que ele queimou a sua casa?

Eu não disse nada.

— Aí — continuou Roth —, quando aqueles vermezinhos começaram mesmo a roer o seu cérebro, ele começou a achar que você era um tipo de espírito do mal, um demônio. Mandou a notícia para todo o Sul, Oeste, Meio-Oeste. “Procurem aquele tal de Amberson e acabem com ele. Matem. O sujeito é antinatural. Senti o cheiro dele mas não prestei atenção. Agora olhem para mim, doente e moribundo. E a culpa é dele. Ele é um demônio, um espírito, uma merda dessas.” Maluquice, sabia? Parafuso solto.

Eu não disse nada.

— Carmo, acho que o meu amigo Georgie não está ouvindo. Acho que está cochilando. Acorde ele.

O homem de luvas amarelas de couro cru deu um uppercut de Tom Case, da altura do quadril até o lado esquerdo do meu rosto. A dor explodiu na minha cabeça e, por alguns momentos, vi tudo daquele lado através de uma névoa escarlate.

— Tudo bem, agora você parece um pouco mais acordado — disse Roth. — Onde é que eu estava? Ah, já sei. Como você virou o fantasma particular de Eddie G. Por causa da sífilis, todos sabemos disso. Se não fosse você, seria algum cachorro doido. Ou uma garota que lhe bateu uma punheta com força demais no drive-in quando ele tinha 16 anos. Às vezes ele não consegue se lembrar do próprio endereço, tem de chamar alguém pra buscar. Triste, né? São aqueles vermezinhos na cabeça dele. Mas todo mundo mima ele, porque Eddie sempre foi um bom sujeito. Sabia contar uma piada, amigo, a gente ria de chorar. Ninguém achava que você fosse de verdade. Aí o fantasma de Eddie G. aparece em Dallas, na minha loja. E o que acontece? O fantasma aposta que os Pirates vão vencer os Yankees, coisa que todo mundo sabe que não vai acontecer, e, dali a sete jogos, e todo mundo sabe que a Série não vai durar.

— Foi só sorte — disse eu. A minha voz soou peluda, porque o lado da minha boca estava inchando. — Uma aposta de impulso.

— Isso é estúpido, e sempre é preciso pagar pela estupidez. Carmo, quebre os joelhos desse filho da puta.

— Não! — berrei. — Não, por favor, não faça isso!

Carmo sorriu como se eu tivesse dito algo engraçadinho, catou na mesa o cano enrolado em feltro e o lançou contra o meu joelho esquerdo. Ouvi algo lá embaixo fazer um som estalado. Como grandes nós dos dedos. A dor foi requintada. Engoli um grito e amoleci contra os homens que me seguravam. Eles me puseram em pé de novo.

Roth ficou à porta, de mão no bolso, sorrindo o seu sorriso plácido e feliz.

— Tudo bem. Legal. Isso vai inchar, aliás. Você nem acreditaria em como vai ficar grande. Mas, ora, você comprou, você pagou, agora é seu. Enquanto isso, os fatos, meu caro, apenas os fatos. — Os imbecis que me seguravam riram.

— O fato é que ninguém vestido como você no dia em que entrou na minha loja faz apostas desse tipo. Para homens vestidos como você, apostas de impulso são de dez dólares, vinte no máximo. Mas os Pirates venceram, isso também é um fato. E estou começando a achar que Eddie G. pode ter razão. Não que você seja um demônio, um espírito nem um maluco com percepção extrassensorial, nada disso, mas quem sabe se você não conhece alguém que sabe de alguma coisa? Por exemplo, que o jogo foi comprado e os Pirates têm de vencer em sete jogos?

— Ninguém compra beisebol, Roth. Não desde o Black Sox em 1919. Você faz apostas, devia saber disso.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Você sabe o meu nome! Ora, talvez você seja um sujeito com percepção extrassensorial. Mas não tenho o dia inteiro.

Ele deu uma olhada no relógio como se quisesse confirmar. Era grande e volumoso, provavelmente um Rolex.

— Tento ver onde você mora quando vem buscar a grana, mas você põe o polegar sobre o endereço. Tudo bem. Muita gente faz isso. Decido que vou deixar assim. Deveria mandar alguns rapazes rua abaixo para lhe dar uma surra, talvez até matar você para que a mente de Eddie G., o que restou dela, possa descansar? Porque um sujeito aceitou uma probabilidade de merda e me arrancou mil e duzentos? Foda-se, o que os olhos de Eddie G. não viram o coração não sente. Além disso, com você fora do caminho, ele vai simplesmente pensar em outra coisa. Talvez que Henry Ford era o Annie Cristo ou uma merda dessas. Carmo, ele não está escutando de novo e isso me irrita.

Carmo lançou o cano contra o meio do meu corpo. Ele me atingiu sob as costelas com força paralisadora. Houve dor, primeiro irregular, depois engolida numa explosão crescente de calor, como uma bola de fogo.

— Dói, não é? — perguntou Carmo. — Deixa a gente do balacobaco.

— Acho que você rompeu alguma coisa — disse eu. Ouvi um som rouco de locomotiva a vapor e percebi que era eu ofegando.

— Tomara mesmo que sim — disse Roth. — Eu deixei você ir embora, seu imbecil! Que merda, deixei você ir embora! Esqueci de você! Aí você aparece no Frank, em Fort Worth, para apostar na maldita luta de Case e Tiger. O mesmo modus operandi — aposta grande no azarão e a maior probabilidade que conseguir. Dessa vez você prevê a merda do assalto exato . Então eis o que vai acontecer, amigo: você vai me contar o que sabe. Se fizer isso, tiro umas fotos de como você está agora e Eddie G. vai ficar satisfeito. Ele sabe que não pode matar você, porque Carlos lhe disse que não, e Carlos ainda é o único sujeito que ele obedece. Mas se ele vir você fodido... ah, mas você ainda não está bastante fodido. Fode ele mais um pouco, Carmo. Na cara.

Assim, Carmo martelou o meu rosto enquanto os outros dois me seguravam. Quebrou o meu nariz, fechou o meu olho esquerdo, arrancou alguns dentes e rasgou a minha bochecha esquerda. Eu não parava de pensar: vou desmaiar senão ele me mata, dos dois jeitos a dor sumiria. Mas não desmaiei, e, em algum momento, Carmo parou. Ofegava e havia manchas vermelhas nas luvas amarelas de couro cru. O sol entrava pelas janelas da cozinha e fazia losangos alegres no linóleo desbotado.

— Assim é melhor — disse Roth. — Vá buscar a Polaroid na camionete, Carmo. Depressa, agora. Quero acabar com isso aqui.

Antes de sair, Carmo descalçou as luvas e as colocou na mesa, ao lado do cano de chumbo. Algumas tiras de feltro tinham se soltado. Estavam encharcadas de sangue. O meu rosto latejava, mas o abdome estava pior. Lá, o calor continuava a se espalhar. Havia algo muito errado por lá.

— Mais uma vez, Amberson. Como sabia que estava combinado? Quem lhe contou? A verdade.

— Foi só palpite. — Tentei dizer a mim mesmo que soava como um homem com um resfriado forte, mas não. Eu soava como um homem que acabara de ser moído de pancada.

Ele pegou o cachimbo e o bateu contra a mão gorducha.

— Quem lhe contou, cara de cu?

— Ninguém. Gutierrez tinha razão. Sou um demônio e os demônios conseguem ver o futuro.

— Você está perdendo a chance.

— Wanda é alta demais para você, Roth. E magra demais. Quando você fica em cima dela, deve parecer um sapo tentando trepar com um tronco. Ou talvez...

O rosto plácido dele se enrugou em fúria. Foi uma transformação completa e aconteceu em menos de um segundo. Ele jogou o cachimbo na minha cabeça. Ergui o braço esquerdo e ouvi-o rachar como um galho de bétula sobrecarregado de gelo. Dessa vez, quando amoleci os imbecis me deixaram cair no chão.

— Espertinho de merda, como detesto espertinhos de merda. — Isso parecia vir de uma grande distância. Ou de uma grande altura. Ou ambos. Finalmente me preparava para desmaiar, e muito grato por isso. Mas me restava visão suficiente para ver Carmo voltar com a câmera Polaroid. Era grande e pesada, do tipo em que a lente sai num acordeão.

— Vire ele — disse Roth. — Vamos pegar o lado bom.

Quando os brutamontes obedeceram, Carmo entregou a câmera a Roth e Roth entregou o cano a Carmo. Depois, Roth ergueu a câmera até o rosto e disse:

— Olha o passarinho, seu balde de merda filho da puta. Essa é para Eddie G....

Flash.

— ... outra para a minha coleção pessoal, que ainda não tenho mas agora posso começar...

Flash.

— ... e uma pra você. Pra se lembrar que quando gente séria faz perguntas, é bom responder.

Flash.

Ele puxou a terceira foto da câmera e a jogou na minha direção. Caiu diante da minha mão esquerda... na qual então ele pisou. Ossos se esmagaram. Gemi e puxei a mão ferida para junto do peito. Ele quebrara pelo menos um dedo, talvez até três.

— É bom se lembrar de puxar aquilo em sessenta segundos, senão vai revelar demais. Quer dizer, se estiver acordado.

— Quer lhe perguntar mais alguma coisa, agora que está amaciado? — perguntou Carmo.

— Tá brincando? Dá só uma olhada nele. Ele nem sabe mais o próprio nome. Que se foda. — Ele começou a ir embora e, então, se virou. — Ei, seu merda. Tome uma pra crescer.

Foi então que ele me chutou o lado da cabeça com um sapato que parecia de aço. Foguetes explodiram na minha visão. Então a parte de trás da cabeça bateu no assoalho e fui.

16

Acho que não fiquei desmaiado muito tempo, porque os losangos de luz do sol no linóleo não pareciam ter se mexido. A minha boca tinha gosto de cobre molhado. Cuspi sangue meio coagulado no chão, junto com um pedaço de dente, e tentei me levantar. Tive de me segurar numa das cadeiras da cozinha com a única mão que funcionava, depois na mesa (que quase caiu em cima de mim), mas no geral foi mais fácil do que pensei. A perna esquerda estava dormente e as calças estavam justas na parte de baixo, onde o joelho inchava como prometido, mas achei que poderia ter sido muito pior.

Olhei pela janela para me assegurar de que a camionete tinha ido embora e comecei uma viagem lenta e manquitolante até o quarto. O meu coração dava grandes batidas suaves e sovadas no meu peito. Cada uma delas latejava no meu nariz quebrado e fazia vibrar o lado esquerdo do rosto, onde o osso do zigoma tinha de estar quebrado. A parte de trás da cabeça também latejava. O pescoço estava duro.

Podia ter sido pior, lembrei a mim mesmo enquanto arrastava os pés pelo quarto. Você está em pé, não está? Pegue a maldita arma, entre no carro, ponha no porta-luvas e vá para o pronto-socorro. No geral você está bem. Provavelmente melhor do que Dick Tiger esta manhã.

Consegui continuar me dizendo isso até que estendi a mão para a prateleira do armário. Quando fiz isso, primeiro algo puxou na minha barriga... e depois pareceu rolar. O calor mal-humorado centralizado no meu lado esquerdo ardeu como brasas quando a gente joga gasolina. Pus a ponta dos dedos na coronha da arma, virei-a, enfiei o polegar na proteção do gatilho e a puxei da prateleira. Ela caiu no chão e pulou no quarto.

Provavelmente, nem carregada. Curvei-me para pegá-la. O joelho esquerdo rangeu e cedeu. Caí, e a dor na barriga subiu de novo. Mas peguei a arma e rolei o cilindro. Estava carregada, afinal de contas. Todas as câmaras. Coloquei-a no bolso e tentei me arrastar de volta para a cozinha, mas o joelho doía demais. E a dor de cabeça estava pior, estendendo tentáculos escuros para fora da sua caverninha na minha nuca.

Consegui chegar à cama me arrastando sobre a barriga. Quando cheguei lá, dei um jeito de me pôr de pé de novo, usando o braço e a perna direitos. A perna esquerda me aguentou, mas eu perdia a flexão do joelho. Tinha de sair de lá depressa.

Eu devia parecer Chester, o ajudante de xerife que mancava em Gunsmoke, quando saí do quarto, cruzei a cozinha e saí pela porta da frente, que pendia aberta com lascas em torno da fechadura. Cheguei a pensar sr. Dillon, sr. Dillon, há encrenca lá em Longbranch!

Atravessei a varanda, segurei a cerca com o punho direito e me arrastei até a calçada. Eram só quatro passos, mas a dor de cabeça piorava cada vez que dava um deles. Parecia estar perdendo a visão periférica, o que não podia ser bom. Tentei virar a cabeça para ver o meu Chevrolet, mas o pescoço não queria cooperar. Consegui girar o corpo inteiro e, quando avistei o carro, percebi que dirigir seria uma impossibilidade. Até abrir a porta do passageiro e guardar a arma no porta-luvas seria uma impossibilidade: se me curvasse, a dor e o calor no lado do corpo explodiriam de novo.

Consegui tirar o 38 do bolso e voltei à varanda. Segurei o corrimão da escada e larguei a arma debaixo dos degraus. Teria de servir. Endireitei o corpo de novo e segui devagar da entrada até a rua. Passos de bebê, disse a mim mesmo. Passinhos de bebê.

Dois garotos vieram pedalando nas bicicletas. Tentei lhes dizer que precisava de ajuda, mas a única coisa a sair da minha boca inchada foi um seco som hhhahhhh. Eles se entreolharam, pedalaram mais depressa e se desviaram de mim.

Virei para a direita (com o joelho inchado, ir para a esquerda parecia a pior ideia do mundo) e comecei a cambalear pela calçada. A minha visão continuava a se fechar; agora eu parecia espiar pela mira de uma arma ou pela boca de um túnel. Por um momento, isso me fez pensar na chaminé caída na Metalúrgica Kitchener, lá em Derry.

Vá para a avenida Haines, disse a mim mesmo. Haverá tráfego na avenida Haines. Você tem pelo menos de chegar até lá.

Mas eu ia na direção da Haines ou me afastava dela? Não conseguia me lembrar. O mundo visível se reduzia a um único círculo nítido com uns quinze centímetros de diâmetro. A minha cabeça rachava; havia um incêndio florestal na minha barriga. Quando caí, pareceu ser em câmera lenta, e a calçada estava tão macia quanto um colchão de plumas.

Antes que eu desmaiasse, algo me cutucou. Algo duro e metálico. Uma voz enferrujada, uns dez ou quinze quilômetros acima de mim, disse:

— Você! Você, menino! O que há com você?

Virei a cabeça. Precisei do resto das minhas forças, mas consegui. Assomando sobre mim estava a velha que me chamara de covarde quando me recusei a me intrometer entre Lee e Marina no Dia do Zíper. Deve ter sido naquele dia, porque, com ou sem calor de agosto, ela estava usando de novo a camisola de flanela rosa e o casaco acolchoado. Talvez porque eu ainda tivesse boxe no que me restava de cabeça, dessa vez o seu cabelo eriçado me lembrou Don King em vez de Elsa Lanchester. Ela me cutucara com uma das pernas dianteiras do andador.

— Aimeudeus — disse ela. — Quem bateu em você?

Era uma longa história e eu não podia contar. A escuridão se fechava, e fiquei contente porque a dor na minha cabeça estava me matando. Al pegou câncer de pulmão, pensei. Eu peguei Akiva Roth. Seja como for, o jogo acabou. Ozzie vence.

Não se eu pudesse impedir.

Juntando toda a minha força, falei com o rosto bem acima de mim, a única coisa brilhante que restava na escuridão invasora.

— Ligue... nove-um-um.

— O que é isso?

Claro que ela não sabia. Nove-um-um, o número de emergência, ainda não tinha sido inventado. Aguentei o suficiente para tentar de novo.

— Ambulância.

Acho que devo ter repetido, mas não tenho certeza. Foi então que a escuridão me engoliu.

17

Desde então me perguntei se foram garotos que roubaram o meu carro ou os brutamontes de Roth. E quando aconteceu. Seja como for, os ladrões não o destruíram nem bateram; Deke Simmons o recolheu no depósito da polícia uma semana depois. Estava em condições bem melhores do que as minhas.

A viagem no tempo é cheia de ironias.