Novembro de 63
Capítulo 22
1
A tarde de 10 de abril estava quente e clara, uma amostra do verão. Vesti uma calça e um dos paletós esporte que comprara durante o ano que passara ensinando na Denholm Consolidated. O .38 Police Special, totalmente carregado, foi para a pasta. Não me lembro de ter ficado nervoso; agora que chegara a hora, me sentia como um homem envolto num envelope frio. Conferi o relógio de pulso: três e meia.
O meu plano era estacionar mais uma vez no terreno da Alpha Beta, na avenida Wycliff. Chegaria lá no máximo às quatro e quinze, mesmo que o trânsito da cidade estivesse intenso. Examinaria o beco. Se estivesse vazio, como esperava que estivesse àquela hora, verificaria o buraco atrás da tábua solta. Se as anotações de Al estivessem certas sobre o fato de Lee guardar o Carcano com antecedência (muito embora tivesse errado o lugar), a arma estaria lá.
Voltaria ao meu carro por algum tempo, vigiando o ponto de ônibus para o caso de Lee aparecer cedo. Quando o culto dos recém-chegados começasse às sete da noite na igreja mórmon, eu iria até o bar que servia café da manhã o dia inteiro e me sentaria junto à vitrine. Comeria sem fome nenhuma, remexendo, fazendo-a durar, vigiando a chegada dos ônibus e torcendo para que, quando finalmente descesse de um deles, Lee estivesse sozinho. Também torceria para não ver o baita carrão de George de Mohrenschildt.
Pelo menos, esse era o plano.
Peguei a pasta, dando uma olhada no relógio ao mesmo tempo. Eram 15h33. O Chevy estava com o tanque cheio, pronto para partir. Se eu tivesse saído e entrado nele nesse momento, como planejara, o meu telefone teria tocado num apartamento vazio. Mas não saí, porque alguém bateu à porta bem quando estendi a mão para a maçaneta.
Abri e Marina Oswald estava ali em pé.
2
Por um momento, só fiquei boquiaberto, incapaz de falar e de me mexer. Era principalmente a presença inesperada dela, mas havia outra coisa também. Até ela ficar bem na minha frente, eu não percebera como os seus grandes olhos azuis se pareciam com os de Sadie.
Marina ignorou a minha expressão de surpresa ou não a notou. Tinha problemas próprios.
— Por favor, desculpa, viu moí marits? — Ela mordeu o lábio e balançou um pouco a cabeça. — Meu marido. — Ela tentou sorrir, e tinha aqueles dentes bem recauchutados para mostrar, mas não teve muito sucesso. — Desculpa, senhor, não fala bom inglês. Ser Bielorrússia.
Ouvi alguém — acho que era eu — perguntar se ela falava do homem que morava no andar de cima.
— Sim, por favor, meu marido, Lee. Mora andar de cima. Essa nossa malishka... nossa filha. — Ela apontou June, sentada no carrinho junto à escada, sugando contente a chupeta. — Ele agora sai todo hora, perdeu emprego. — Ela tentou o sorriso de novo e, quando os olhos se franziram, uma lágrima transbordou do canto do olho esquerdo e escorreu pela bochecha.
Pois é. Parecia que, afinal de contas, o velho Bobby Stovall podia se virar sem o seu melhor técnico em ampliação.
— Não o vi, sra... — Oswald quase saiu, mas segurei a tempo. E isso foi bom, porque como eu saberia? Parecia que nunca recebiam correspondência. Havia duas caixas de correio na entrada, mas o nome deles não estava em nenhuma. Nem o meu. Eu também não recebia correspondência.
— Os-wal — disse ela, e estendeu a mão. Apertei-a, mais convencido do que nunca de que aquilo era um sonho. Mas a palma pequena e seca era real demais. — Marina Os-wal, prazer conhecer senhor.
— Sinto muito, sra. Oswald, não vi ninguém hoje. — Não era verdade; eu o vira sair pouco depois do meio-dia, logo após a camionete de Ruth Paine levar Marina e June para Irving.
— Eu preocupo dele — disse ela. — Ele... Não sei... desculpa. Não queria incomodar senhor. — Ela sorriu de novo — o sorriso mais doce e triste — e limpou a lágrima do rosto devagar.
— Se eu o vir...
Agora ela pareceu alarmada.
— Não, não, não diz nada. Ele não gosta eu fala com estranhos. Vem pra casa jantar, talvez, vem sim. — Ela desceu os degraus e falou em russo com o bebê, que riu e ergueu para a mãe os braços gorduchos. — Adeus, senhor moço. Muito obrigado. O senhor diz nada?
— Tudo bem — disse eu. — Boca fechada. — Isso ela não entendeu, mas concordou e pareceu aliviada quando pus o dedo sobre os lábios.
Fechei a porta, suando muito. Em algum lugar, pude ouvir não só uma borboleta bater as asas, mas uma nuvem inteira delas.
Talvez não seja nada.
Observei Marina empurrar o carrinho de June pela calçada rumo ao ponto de ônibus, onde provavelmente pretendia esperar o marits... que ia aprontar alguma. Isso ela sabia. Estava bem visível na cara dela.
Estendi a mão para a maçaneta quando ela saiu de vista e foi então que o telefone tocou. Quase não atendi, mas poucas pessoas tinham o meu número, e uma delas era uma mulher que tinha muita importância para mim.
— Alô!
— Alô, sr. Amberson — disse um homem. Tinha um suave sotaque sulista. Não sei se soube quem era na mesma hora. Não consigo me lembrar. Acho que soube. — Alguém aqui quer falar com o senhor.
Vivi duas vidas no final de 1962 e no começo de 1963, uma em Dallas e outra em Jodie. Elas se reuniram às 15h39 da tarde de 10 de abril. No meu ouvido, Sadie começou a gritar.
3
Ela morava numa casa pré-fabricada de um andar só na travessa Bee Tree, parte de um conjunto habitacional de quatro ou cinco quarteirões de casas iguais no oeste de Jodie. Uma fotografia aérea do bairro num livro de história de 2011 poderia ter a legenda CASAS DE BAIXO CUSTO EM MEADOS DO SÉCULO. Ela chegara lá por volta das três da tarde, após uma reunião depois das aulas com as alunas que a ajudavam na biblioteca. Duvido que tenha notado o Plymouth Fury branco e vermelho estacionado junto ao meio-fio um pouco mais abaixo no quarteirão.
Do outro lado da rua, quatro ou cinco casas mais abaixo, a sra. Holloway lavava o carro (um Renault Dauphine que o resto dos vizinhos olhava com desconfiança). Sadie acenou para ela quando saiu do seu fusquinha. A sra. Holloway acenou de volta. Únicas proprietárias de carros estrangeiros (e um tanto alienígenas) no quarteirão, eram informalmente amistosas.
Sadie subiu até a porta da frente e ficou lá um instante, a testa franzida. Estava escancarada. Será que a deixara assim? Ela entrou e fechou a porta. A fechadura não prendeu porque fora arrombada, mas Sadie não notou. Nisso, toda a sua atenção se fixou na parede acima do sofá. Lá, escrito com o seu batom, havia duas palavras em letras de um metro. BOCETA SUJA.
Ela deveria ter fugido nesse momento, mas o horror e o ultraje foram tão grandes que não houve espaço para medo. Ela sabia quem fizera aquilo, mas sem dúvida Johnny já se fora. O homem com quem se casara tinha pouco gosto por confrontos físicos. Ah, houvera muitas palavras duras e aquele único tapa, mas nada mais.
Além disso, a sua roupa de baixo estava espalhada pelo chão.
Formava uma trilha tosca pelo corredor curto, da sala até o quarto. Todas as peças — combinações, anáguas, sutiãs, meias, a cinta que ela não precisava mas às vezes usava — tinham sido cortadas. No fim do corredor, a porta do banheiro estava aberta. O porta-toalhas fora arrancado. Escrito também com batom no azulejo onde estivera, havia outra mensagem: PUTA IMUNDA.
A porta do quarto de dormir também estava aberta. Ela foi até lá e ficou ali parada sem perceber de jeito nenhum que Johnny Clayton estava em pé atrás dela com uma faca numa das mãos e um .38 Smith & Wesson Victory na outra. O revólver que levava naquele dia era da mesma marca e modelo que aquele que Lee Oswald usaria para tirar a vida do policial de Dallas J. D. Tippit.
A sua pequena nécessaire estava aberta na cama, o conteúdo, quase só maquiagem, espalhado sobre a colcha. As portas de correr do armário estavam abertas. Algumas roupas ainda pendiam tristes dos cabides; a maioria estava no chão. Todas tinham sido cortadas.
— Johnny, seu canalha! — Ela quis berrar essas palavras, mas o choque era grande demais. Só conseguiu sussurrar.
Ela partiu para o armário, mas não foi longe. Um braço lhe envolveu o pescoço e um pequeno círculo de aço se apertou contra a sua têmpora.
— Não se mexa, não lute. Se tentar, mato você.
Ela tentou se afastar e ele lhe bateu no alto da cabeça com o cano curto do revólver. Ao mesmo tempo, o braço em torno do pescoço se apertou. Ela viu a faca no punho na ponta do braço que a sufocava e parou de lutar. Era Johnny — ela reconheceu a voz —, mas na verdade não era Johnny. Ele mudara.
Eu devia ter lhe dado ouvidos, pensou ela — pensando em mim. Por que não lhe dei ouvidos?
Ele a levou para a sala, o braço ainda na garganta, depois a girou e a jogou no sofá, onde ela caiu de pernas abertas.
— Baixe o vestido. Consigo ver as suas ligas, sua meretriz.
Ele usava um macacão jeans (bastava isso para ela sentir que estava sonhando) e pintara o cabelo de um estranho louro-alaranjado. Ela quase riu.
Ele se sentou no pufe diante dela. A arma estava apontada para o meio do corpo dela.
— Vamos ligar para o seu pica doce.
— Não sei o que...
— Amberson. Aquele com quem você brinca de esconder o salame naquele lugar quente lá em Kileen. Sei de tudo. Estou vigiando você faz tempo.
— Johnny, se você for embora agora, não chamarei a polícia. Juro. Mesmo você tendo estragado a minha roupa.
— Roupa de meretriz — disse ele com desprezo.
— Eu não... Eu não sei o telefone dele.
A agenda telefônica, aquela que ela costumava deixar no pequeno escritório ao lado da máquina de escrever, estava aberta junto ao telefone.
— Eu sei. Está na primeira página. Olhei primeiro em P de Pica Doce, mas não estava lá. Vou fazer a ligação para você não inventar coisas para dizer à telefonista. Depois você fala com ele.
— Não vou falar, Johnny, se você for machucar ele.
Ele se inclinou para a frente. O estranho cabelo louro-alaranjado caiu nos olhos e ele o afastou com a mão que segurava o revólver. Depois, usou a mão da faca para tirar o fone do gancho. A arma continuou apontada com firmeza para o meio do corpo dela.
— O negócio é o seguinte, Sadie — disse ele, e agora soava quase racional. — Vou matar um de vocês. O outro pode viver. Você decide qual será.
Ele dizia cada palavra a sério. Dava para ver no rosto dele.
— E... e se ele não estiver em casa?
Ele deu uma risadinha da estupidez dela.
— Então morre você, Sadie.
Ela deve ter pensado: posso ganhar tempo. São pelo menos três horas de Dallas a Jodie, mais se o tráfego for intenso. Tempo suficiente para Johnny voltar a si. Talvez. Ou para a sua atenção se distrair o suficiente para eu jogar alguma coisa nele e sair correndo pela porta.
Ele discou 0 sem olhar a agenda telefônica (a sua memória para números sempre fora praticamente perfeita) e pediu Westbrook 7-5430. Escutou. Disse “obrigado, telefonista”.
Então, silêncio. Em algum lugar, mais de 150 quilômetros ao norte, um telefone tocava. Ela deve ter se perguntando quantos toques Johnny esperaria antes de desligar e lhe dar um tiro no estômago.
Então a expressão atenta dele mudou. Ele se alegrou, até sorriu um pouco. Os dentes eram brancos como sempre, observou ela, e por que não? Ele sempre os escovara pelo menos meia dúzia de vezes por dia.
— Alô, sr. Amberson. Alguém aqui quer falar com o senhor.
Ele saiu do pufe e entregou o telefone a Sadie. Quando ela o encostou na orelha, ele atacou com a faca, rápido como uma serpente no bote, e cortou a lateral do rosto dela.
4
— O que fez com ela? — berrei. — O que você fez, seu canalha?
— Calma, sr. Amberson. — Ele soava contente. Sadie não gritava mais, mas dava para ouvi-la soluçar. — Ela está bem. Está sangrando bastante, mas isso vai passar. — Ele fez uma pausa e depois falou com uma voz de avaliação judiciosa. — É claro que não será mais bonita. Agora ela se parece com o que é, só uma meretriz barata de quatro dólares. A minha mãe disse que ela era assim, e a minha mãe tinha razão.
— Deixe-a em paz, Clayton — disse eu. — Por favor.
— Eu quero deixá-la em paz. Agora que a marquei, eu quero. Mas eis o que já disse a ela, sr. Amberson. Vou matar um de vocês. Ela me custou o emprego, sabe; tive de largar e ir para o hospital de tratamento de choque senão iam me prender. — Ele fez uma pausa. — Empurrei uma garota escada abaixo. Ela tentou me tocar. Tudo culpa desta cadela suja, esta bem aqui, sangrando no colo. Estou com o sangue dela nas mãos também. Vou precisar de desinfetante. — E ele riu.
— Clayton...
— Você tem três horas e meia. Até as sete e meia. Então porei duas balas nela. Uma na barriga, outra na boceta imunda.
Ao fundo, ouvi Sadie gritar.
— Não faça isso, Jacob!
— CALE A BOCA! — berrou Clayton para ela. — FECHE ESSA BOCA!
Então para mim, friamente coloquial:
— Quem é Jacob?
— Eu — respondi. — É o meu nome do meio.
— Ela chama você assim na cama quando chupa a sua pica, Pica Doce?
— Clayton. Johnny. Pense no que está fazendo.
— Estou pensando nisso há mais de um ano. Me deram tratamento de choque elétrico no hospital, sabe. Disseram que acabaria com os sonhos, mas não adiantou. Só piorou.
— Ela está muito cortada? Deixe eu falar com ela.
— Não.
— Se me deixar falar com ela, talvez eu faça o que quer. Se não me deixar, é quase certo que não farei. Está tão zonzo com o seu tratamento de choque que não entende isso?
Parecia que não. Houve um barulho de movimento no meu ouvido e depois Sadie falou. A voz dela estava aguda e trêmula.
— É fundo, mas não vai me matar. — Ela baixou a voz. — Ele quase acertou o olho...
Então Clayton voltou.
— Viu? A sua vagabundinha está bem. Agora você vai entrar no seu Chevrolet superveloz e sair daí tão depressa quanto o giro das rodas, que tal? Mas escute bem, sr. George Jacob Amberson Picadoce: se chamar a polícia, se eu vir uma única luz azul ou vermelha, mato esta cadela e depois me mato. Acredita nisso?
— Acredito.
— Ótimo. Estou vendo aqui uma equação em que os valores se equilibram: o picadoce e a bocetassuja. Estou no meio. Sou o sinal de igual, Amberson, mas você tem de decidir. Que valor vai ser riscado? A escolha é sua.
— Não! — gritou ela. — Não! Se você vier aqui ele vai matar nós d...
O telefone desligou no meu ouvido.
5
Até então eu disse a verdade e aqui vou dizer a verdade mesmo que lance sobre mim a pior luz possível: o meu primeiro pensamento quando a minha mão dormente repôs o fone no gancho foi que ele estava errado, que os valores não se equilibravam. Num prato da balança, estava uma linda bibliotecária de escola secundária. No outro estava um homem que conhecia o futuro e, pelo menos em teoria, tinha o poder de mudá-lo. Por um segundo, parte minha pensou realmente em sacrificar Sadie e cruzar a cidade para observar o beco que corria entre a avenida Oak Lawn e o bulevar Turtle Creek para descobrir se o homem que mudara a história americana estava sozinho.
Então entrei no meu Chevy e segui para Jodie. Assim que cheguei à rodovia 77, grudei o velocímetro em 110 e o deixei lá. Enquanto dirigia, abri os fechos da pasta, peguei a arma e a pus no bolso do meu paletó esporte.
Percebi que teria de envolver Deke nisso. Ele estava velho e não tinha mais firmeza nos pés, mas simplesmente não havia mais ninguém. Ele gostaria de ser envolvido, disse eu com os meus botões. Amava Sadie. Eu via isso na cara dele toda vez que a olhava.
E ele já teve a vida dele, disse a minha mente fria. Ela, não. Seja como for, ele terá a mesma probabilidade que o lunático lhe deu. Ele não tem de ir.
Mas ele iria. Às vezes, as coisas que nos são apresentadas como escolhas não são escolhas de jeito nenhum.
Nunca desejei tanto o meu celular há tanto tempo sumido quanto naquela viagem de Dallas a Jodie. O melhor que pude fazer foi uma cabine telefônica num posto de gasolina na SR 109, cerca de um quilômetro depois do outdoor de futebol. Na outra ponta, o telefone tocou três vezes... quatro... cinco...
Quando eu estava prestes a desligar, Deke disse:
— Alô? Alô? — Parecia irritado e sem fôlego.
— Deke? É George.
— Oi, garoto! — Agora a versão dessa noite de Bill Turcotte (daquela peça popular e comprida chamada O marido homicida) soou contente em vez de irritada. — Eu estava no meu jardinzinho ao lado da casa. Quase deixei tocar, mas aí...
— Fique quieto e escute. Aconteceu uma coisa péssima. Ainda está acontecendo. Sadie já foi ferida. Talvez muito.
Houve uma breve pausa. Quando voltou a falar, Deke soava mais jovem: como o homem rijo que sem dúvida fora quarenta anos e duas esposas antes. Ou talvez fosse apenas esperança. Naquela noite, esperança e um homem de sessenta e muitos anos eram tudo o que eu tinha.
— Você está falando do marido dela, não é? A culpa é minha. Acho que o vi, mas foi semanas atrás. E o cabelo dele estava muito mais comprido do que na foto do livro de formatura. E de outra cor. Estava quase laranja. — Uma pausa momentânea e depois uma expressão que nunca o ouvira dizer. — Puta que pariu!
Eu lhe contei o que Clayton queria e o que eu me propunha a fazer. Era um plano bastante simples. O passado se harmoniza? Beleza, que se harmonizasse. Eu sabia que Deke podia ter um enfarte — Turcotte tivera —, mas não ia deixar que isso me detivesse. Eu não deixaria nada me deter. Era Sadie.
Esperei que ele me perguntasse se não era melhor recorrer à polícia, mas é claro que ele sabia que não. Doug Reems, o policial de Jodie, tinha a vista ruim, usava aparelho numa das pernas e era ainda mais velho do que Deke. E Deke também não perguntou por que eu não ligara de Dallas para a polícia estadual. Se perguntasse, eu lhe diria que acreditava que Clayton falava a sério sobre matar Sadie se visse uma única luz piscar. Era verdade, mas não a razão real. Eu mesmo queria cuidar do filho da puta.
Estava zangadíssimo.
— A que horas ele espera que você chegue, George?
— No máximo sete e meia.
— E agora são... quinze para as sete, pelo meu relógio. O que nos dá um fiapo de tempo. A rua atrás da Bee Tree é Apple alguma coisa. Não me lembro direito. É lá que você vai estar?
— Isso. Na casa atrás da casa dela.
— Encontro você lá em cinco minutos.
— Claro, se dirigir feito um lunático. Melhor dez. E leve um adereço, algo que ele consiga ver da janela da sala se olhar para fora. Não sei, talvez...
— Uma terrina serve?
— Serve. Vejo você lá em dez minutos.
Antes que eu desligasse, ele perguntou:
— Você está armado?
— Estou.
A resposta dele foi quase um rosnado de cachorro.
— Ótimo.
6
A rua atrás da casa de Doris Dunning era a travessa Wyemore. A rua atrás da de Sadie era a Apple Blossom. O número 202 da Wyemore estava à venda. O número 140 da Apple Blossom não tinha placa VENDE-SE no jardim, mas estava escura e o gramado malcuidado, cheio de dentes-de-leão. Estacionei na frente e olhei o relógio. Seis e cinquenta.
Dois minutos depois, Deke parou a sua Ranch Wagon atrás do meu Chevy e desceu do carro. Usava jeans, camisa xadrez e gravata fininha. Nas mãos, segurava uma terrina com uma estampa de flor na lateral. A tampa era de vidro e parecia conter uns três ou quatro litros de ensopadinho.
— Deke, nem sei como agrade...
— Não mereço agradecimento, mereço um chute rápido nos fundilhos. No dia em que o vi, ele estava saindo da Western Auto na hora em que eu estava entrando. Tinha de ser Clayton. Era um dia de vento. Uma lufada soprou o cabelo dele para trás e vi aquela entrada na têmpora só por um segundo. Mas o cabelo... comprido e de outra cor... ele estava com roupa de caubói... caramba. — Ele balançou a cabeça. — Estou ficando velho. Se Sadie se machucar, nunca me perdoarei.
— Está se sentindo bem? Sem dor no peito nem nada parecido?
Ele me olhou como se eu estivesse maluco.
— Vamos ficar aqui discutindo a minha saúde ou vamos tentar tirar Sadie da enrascada em que ela está?
— Vamos fazer mais do que tentar. Contorne o quarteirão até a casa dela. Enquanto você faz isso, vou cortar caminho por este quintal, passar pela sebe e entrar pelos fundos da casa de Sadie. — É claro que eu estava pensando na casa dos Dunning na rua Kossuth, mas enquanto falava me lembrei que havia uma sebe no fundo do quintal minúsculo de Sadie. Eu a vira muitas vezes. — Você bate e diz algo alegre. Bem alto para eu escutar. Nisso já estarei na cozinha.
— E se a porta dos fundos estiver trancada?
— Ela guarda a chave debaixo do degrau.
— Tudo bem. — Deke pensou um momento, a testa franzida, e ergueu a cabeça. — Direi “Avon chama, entrega especial de ensopadinho”. E erguer a terrina, para ele me ver pela janela da sala, se olhar. Isso serve?
— Serve. Só quero que você o distraia alguns segundos.
— Não atire se houver qualquer possibilidade de atingir Sadie. Agarre o canalha. Vai dar tudo certo. O sujeito que vi era magro como um varapau.
Olhamos um para o outro, meio lúgubres. Esse tipo de plano podia dar certo em Gunsmoke ou Maverick, mas ali era a vida real. E na vida real os mocinhos — e as mocinhas — às vezes levam um chute na bunda. Ou morrem.
7
O quintal atrás da casa da rua Apple Blossom não era igual ao que ficava atrás da casa dos Dunning, mas havia semelhanças. Por exemplo, havia uma casinha de cachorro, mas sem nenhuma placa escrito FEITA PARA O SEU LULU. Em vez disso, pintadas com mão instável de criança acima da entrada redonda em forma de porta, estavam as palavras CAZA DO BUTCH. E nada de crianças atrás de gostosuras ou travessuras. Estação errada.
No entanto, a sebe parecia igualzinha.
Passei por ela, mal notando os arranhões que os ramos rígidos riscaram nos meus braços. Atravessei o quintal de Sadie correndo agachado e experimentei a porta. Trancada. Tateei debaixo do degrau, com certeza de que a chave teria sumido porque o passado se harmonizava mas era obstinado.
Ela estava lá. Pesquei-a, a pus na fechadura e apliquei uma pressão lenta e crescente. Houve um leve ruído dentro da porta quando a lingueta se soltou. Endureci, esperando um grito de alarme. Não veio nenhum. A luz estava acesa na sala, mas não ouvi vozes. Talvez Sadie já estivesse morta e Clayton, sumido.
Deus, por favor, não.
Mas, assim que abri a porta, o escutei. Ele falava em voz alta e monótona, parecendo Billy James Hargis depois de tomar tranquilizantes. Dizia que ela era uma meretriz, que arruinara a vida dele. Ou talvez fosse da garota que tentara tocá-lo que ele falava. Para Johnny Clayton, eram todas iguais: transmissoras de doenças famintas de sexo. Era preciso impor a lei. E, claro, a vassoura.
Tirei os sapatos e os deixei no linóleo. A luz estava acesa sobre a pia. Verifiquei a minha sombra para me assegurar de que ela não me precederia na porta. Tirei a arma do bolso do paletó esporte e comecei a atravessar a cozinha, na intenção de ficar ao lado da porta da sala até ouvir Avon chama! Então entraria correndo.
Só que não foi assim que aconteceu. Quando Deke gritou, não havia alegria nenhuma no grito. Foi um grito de fúria chocada. E não foi diante da porta da frente; foi bem dentro da casa.
— Meu Deus! Sadie!
Depois disso, tudo aconteceu muito, muito depressa.
8
Clayton forçara a fechadura da porta da frente, e ela não fechava. Sadie não notou, mas Deke, sim. Em vez de bater, ele a abriu e entrou com a terrina nas mãos. Clayton continuava sentado no pufe com a arma ainda apontada para Sadie, mas deixara a faca no chão ao seu lado. Mais tarde, Deke disse que nem sabia que Clayton tinha uma faca. Duvido que tenha notado a arma. A atenção dele estava fixada em Sadie. A parte de cima do vestido azul estava agora de um marrom lamacento. O braço dela e o lado do sofá onde ele pendia estavam ambos cobertos de sangue. Mas o pior era o rosto dela, voltado para ele. A bochecha esquerda pendia em duas abas, como uma cortina rasgada.
— Meu Deus! Sadie! — O grito foi espontâneo, apenas puro choque.
Clayton se virou, o lábio superior torcido numa careta. Ergueu a arma. Vi isso quando irrompi pela porta entre a cozinha e a sala. E vi Sadie estender o pé, chutando o pufe. Clayton disparou, mas a bala foi para o teto. Quando ele tentou se levantar, Deke jogou a terrina. A tampa caiu. Macarrão, carne moída, pimentões e molho de tomate se espalharam num leque. O prato, ainda cheio até mais da metade, bateu no braço direito de Clayton. O ensopadinho se derramou. A arma saiu voando.
Vi o sangue. Vi o rosto arruinado de Sadie. Vi Clayton agachado no tapete manchado de sangue e ergui a minha arma.
— Não! — gritou Sadie. — Não, não, por favor, não!
Isso limpou a minha cabeça como um tapa. Se eu o matasse, seria submetido à investigação da polícia, por mais justificado que fosse o homicídio. A minha identidade de George Amberson desmoronaria e toda possibilidade que tinha de impedir o assassinato em novembro sumiria. E, na verdade, que justificativa eu tinha? O homem estava desarmado.
Ou assim pensei, porque também não vi a faca. Ela estava escondida pelo pufe virado. Mesmo que estivesse à vista, talvez eu não a enxergasse.
Pus a arma de volta no bolso e o levantei.
— Você não pode me bater! — Voou cuspe dos lábios dele. Os olhos adejaram como os de um homem em convulsão. A urina escorreu; escutei-a pingar no tapete. — Sou doente mental, não sou responsável, não posso ser responsabilizado, tenho um certificado, está no porta-luvas do meu carro, vou lhe mostrar...
O queixume da voz dele, o terror abjeto no seu rosto agora que estava desarmado, o modo como o cabelo tingido de louro-alaranjado pendia em mechas, até o cheiro do ensopadinho... todas essas coisas me enraiveceram. Mas principalmente foi Sadie, encolhida no sofá e encharcada de sangue. O cabelo dela se soltara, e do lado esquerdo pendia num coágulo ao lado do rosto gravemente ferido. Ela usaria a cicatriz no mesmo lugar onde Bobbi Jill usava o fantasma da dela, era claro que sim, o passado se harmoniza, mas o ferimento de Sadie parecia muito, muito pior.
Dei-lhe um tapa no lado direito do rosto, com força suficiente para fazer voar cuspe do lado esquerdo da boca.
— Seu maluco fodido, esse é pela vassoura!
Voltei pelo outro lado, dessa vez derrubando cuspe do lado direito da boca e adorando o seu uivo do jeito amargo e infeliz reservado apenas para as piores coisas, aquelas em que o mal é grande demais para ser retribuído. Ou mesmo perdoado.
— Esse é por Sadie!
Fechei o punho. Num outro mundo, Deke berrava ao telefone. E esfregava o peito do jeito que Turcotte esfregava o dele? Não. Pelo menos, ainda não. Naquele mesmo outro mundo, Sadie gemia.
— E esse é por mim!
Avancei o punho e — eu disse que falaria a verdade, cada pedacinho dela —, quando o nariz dele rachou, o seu grito de dor foi música para os meus ouvidos. Deixei-o ir e ele desmoronou no chão.
Então me virei para Sadie.
Ela tentou sair do sofá e caiu de volta. Tentou erguer os braços para mim, mas também não conseguiu. Eles caíram na bagunça encharcada do vestido. Os olhos começaram a subir e tive certeza de que desmaiaria, mas ela se segurou.
— Você veio — sussurrou. — Ah, Jake, você veio me salvar. Vocês dois vieram.
— Travessa Bee Tree! — gritou Deke ao telefone. — Não, não sei o número, não me lembro, mas vocês vão ver um velho com ensopadinho no sapato do lado de fora, agitando os braços! Depressa! Ela perdeu muito sangue!
— Fique parada — disse eu. — Não tente...
Os olhos dela se arregalaram. Ela olhava por cima do meu ombro.
— Cuidado! Jake, cuidado!
Virei o corpo, remexendo o bolso atrás da arma. Deke também se virou, segurando o fone com ambas as mãos deformadas pela artrite como se fosse um bastão. Mas, embora Clayton tivesse pego a faca que usara para desfigurar Sadie, os seus dias de atacar os outros tinham acabado. Quer dizer, os outros menos ele.
Foi outra cena que eu já representara, esta na avenida Greenville, não muito depois de chegar ao Texas. Não havia Muddy Waters berrando no Rosa do Deserto, mas havia outra mulher gravemente ferida e outro homem sangrando de outro nariz quebrado, a camisa para fora das calças e caindo quase até os joelhos. Segurava uma faca em vez de uma arma de fogo, mas fora isso era igualzinho.
— Não, Clayton! — berrei. — Baixe isso!
Os olhos dele, visíveis entre as mechas de cabelo alaranjado, estavam arregalados quando fitou a mulher tonta que quase desmaiava no sofá.
— É isso o que quer, Sadie? — gritou. — Se é o que você quer, vou lhe dar o que você quer!
Sorrindo desesperado, ele ergueu a faca até a garganta... e cortou.