Novembro de 63
Capítulo 2
1
Dei outro passo à frente e desci mais um passo. Os meus olhos ainda me diziam que eu estava em pé no chão da despensa do Al’s Diner, mas eu estava ereto e o topo da minha cabeça não encostava mais no teto da despensa. O que, naturalmente, era impossível. O meu estômago revirou descontente como reação à confusão sensorial, e senti o sanduíche de salada de ovos e o pedaço de torta de maçã que comera no almoço se prepararam para apertar o botão de ejetar.
Atrás de mim — mas um pouco distante, como se estivesse a quinze metros de distância e não a apenas um metro e meio — Al disse:
— Feche os olhos, amigo, é mais fácil assim.
Quando fechei, a confusão sensorial sumiu na mesma hora. Foi como desenvesgar os olhos. Ou pôr os óculos especiais num filme em 3-D, uma analogia mais adequada. Movi o pé direito e desci outro degrau. Eram degraus; com os olhos fechados, o meu corpo não teve dúvidas a respeito.
— Mais dois e abra — disse Al. Ele parecia mais longe do que nunca. No outro lado da lanchonete, em vez de bem na porta da despensa.
Desci com o pé esquerdo. Desci com o pé direito de novo e, de repente, ouvi um estalo dentro da cabeça, exatamente do mesmo tipo que a gente sente quando está no avião e a pressão muda de súbito. O campo escuro dentro das minhas pálpebras se avermelhou e havia calor na pele. Era a luz do sol. Nenhuma dúvida a respeito. E aquele leve cheiro sulfuroso ficara mais espesso, subindo na escala olfativa de malperceptível para ativamente desagradável. Também não havia nenhuma dúvida a respeito disso.
Abri os olhos.
Eu não estava mais na despensa. Também não estava mais no Al’s Diner. Embora não houvesse porta entre a despensa e o mundo exterior, eu estava do lado de fora. Estava no pátio. Mas não era mais de tijolos e não havia lojas de fábrica em volta dele. Eu estava em pé no cimento sujo e esfarelado. Havia vários receptáculos imensos de metal encostados no muro branco e vazio onde deveria estar a loja de casacos. Estavam carregadíssimos e cobertos com panos de lona marrom e áspera, do tamanho de velas de navio.
Virei-me para olhar o grande trailer prateado que abrigava a lanchonete do Al, mas ele sumira.
2
Onde o trailer deveria estar havia o vasto vulto dickensiano da Tecelagem Worumbo, em pleno funcionamento. Dava para ouvir o estrondo das máquinas de tingir e secar, o chont-HUUCH, chont-HUUCH dos imensos teares que antes enchiam o segundo andar (eu vira fotos dessas máquinas, operadas por mulheres de guarda-pó e lenço na cabeça, no minúsculo prédio da Sociedade Histórica de Lisbon, no alto da rua Principal). Uma fumaça cinza-esbranquiçada se despejava de três chaminés altas que, na década de oitenta, caíram durante uma grande ventania.
Eu estava parado ao lado de um grande prédio em forma de cubo, pintado de verde — supus que fosse o barracão de secagem. Enchia metade do pátio e tinha uns seis metros de altura. Eu descera uma escada, mas agora não havia degraus. Não havia como voltar. Tive um surto de pânico.
— Jake? — era a voz de Al, muito fraca. Parecia chegar aos meus ouvidos por um mero truque de acústica, como uma voz que se propaga quilômetros dentro de um desfiladeiro comprido e estreito. — Você pode voltar do mesmo jeito que chegou aí. Sinta os degraus.
Ergui o pé esquerdo, baixei-o, senti um degrau. O meu pânico diminuiu.
— Continue. — Fraco. Uma voz aparentemente movida pelo próprio eco. — Dê uma olhada por aí e volte.
A princípio não fui a lugar nenhum, só fiquei parado, limpando a boca com a palma da mão. Parecia que os meus olhos iam saltar das órbitas. Meu couro cabeludo e uma faixa estreita de pele que descia pelo meio das costas estavam arrepiados. Eu estava com medo — quase apavorado — mas equilibrando esses sentimentos, e muito curiosamente mantendo o pânico sob controle (por enquanto). Eu via minha sombra no concreto, tão nítida como se fosse de pano preto recortado. Via flocos de ferrugem na corrente que isolava o barracão de secagem do resto do pátio. Sentia o cheiro do poderoso efluente que era despejado das chaminés triplas, forte o suficiente para fazer os meus olhos arderem. Bastava um inspetor de meio ambiente dar uma cheirada naquela merda para fechar tudo aquilo numa fração de segundo. Só que... acho que não havia inspetores de meio ambiente na vizinhança. Eu nem sabia se esse tipo de coisa já tinha sido inventada. Eu sabia onde estava: Lisbon Falls, no estado do Maine, bem no coração do condado de Androscoggin.
A verdadeira pergunta era quando eu estava.
3
Havia uma placa pendurada na corrente, mas não dava para ler — a mensagem estava voltada para o outro lado. Comecei a andar até ela, depois dei meia-volta. Fechei os olhos e arrastei os pés à frente, lembrando-me de dar passinhos de bebê. Quando o pé esquerdo bateu no primeiro degrau que levava de volta à despensa do Al’s Diner (ou assim eu esperava com devoção), enfiei a mão no bolso de trás e tirei uma folha de papel dobrada: o memorando do meu exaltado chefe de departamento dizendo: “Tenha um bom verão e não esqueça o dia da reunião geral em julho.” Imaginei por um instante o que ele pensaria se no ano que vem Jake Epping desse um curso de seis semanas intitulado A literatura da viagem no tempo. Depois, rasguei uma tira do alto, amassei e deixei cair no primeiro degrau da escada invisível. Caiu no chão, é claro, mas de qualquer maneira marcava o lugar. Era uma tarde quente e parada e achei que a bolinha não seria soprada, mas catei um pedaço de concreto e o usei como peso de papel, só para ter certeza. Ficou no degrau, mas também ficou no pedaço do memorando. Porque não havia degrau. Um trechinho de uma antiga música popular me passou pela cabeça: First there is a mountain, then there is no mountain, then there is (Primeiro há uma montanha, depois não há montanha, depois há.)
Dê uma olhada por aí, dissera Al, e decidi que era o que faria. Imaginei que, se ainda não tivesse enlouquecido, provavelmente continuaria bem por mais algum tempo. Quer dizer, a menos que eu presenciasse um desfile de elefantes cor-de-rosa ou um óvni sobrevoando a John Crafts Auto. Tentei dizer a mim mesmo que aquilo não estava acontecendo, não podia estar acontecendo, mas não adiantou. Filósofos e psicólogos podem discutir o que é real ou não, mas a maioria de nós, que levamos vidas comuns, conhecemos e aceitamos a textura do mundo à nossa volta. Aquilo estava acontecendo. Afinal, era fedorento demais para ser uma alucinação.
Andei até a corrente, que pendia no nível da coxa, e passei debaixo dela. Do outro lado estava escrito, com tinta preta e letras em estêncil: PROIBIDO PASSAR DESTE PONTO ATÉ CONSERTO DO CANO DE ESGOTO . Olhei para trás de novo, não vi sinais de que houvesse reparos iminentes, contornei o canto do barracão de secagem e quase tropecei no homem que tomava sol ali. Não que ele pudesse se bronzear muito. Usava um sobretudo velho e preto que se amontoava em torno do corpo como uma sombra amorfa. Havia manchas rachadas de catarro seco em ambas as mangas. O corpo dentro do casaco era magro a ponto de estar emaciado. O cabelo cinza-chumbo pendia emaranhado em torno das bochechas ásperas de barba. Era um bebum, o mais típico dos bebuns.
Meio torto na cabeça tinha um fedora imundo que parecia saído diretamente de um filme noir da década de 1950, do tipo em que todas as mulheres têm uma baita comissão de frente e todos os homens falam depressa em torno do cigarro pendurado no canto da boca. E, claro, enfiado na fita do fedora, como o passe de imprensa dos repórteres de antigamente, estava um cartão amarelo. Provavelmente já fora de um amarelo vivo, mas o manuseio frequente por dedos sujos o tinham deixado turvo.
Quando a minha sombra caiu sobre o seu colo, o Homem do Cartão Amarelo se virou e me examinou com olhos turvos.
— Que merda você é? — perguntou, só que saiu Quimééda ceé?
Al não me dera instruções detalhadas sobre como responder perguntas, e eu disse o que me pareceu mais seguro.
— Não é da porra da sua conta.
— Ora, então vá se foder.
— Ótimo — disse eu. — Estamos de acordo.
— Hem?
— Tenha um bom dia. — Parti na direção do portão, aberto sobre um trilho de aço. Além dele, à esquerda, havia um estacionamento que nunca estivera lá. Estava cheio de carros, a maioria já desgastada, e todos velhos o suficiente para estarem num museu de automóveis. Havia Buicks com escotilhas e Fords com nariz de torpedo. Eles pertencem a operários de verdade, pensei. Operários de verdade que estão lá dentro agora, trabalhando para ganhar o seu salário.
— Tenho um cartão amarelo da fachada verde — disse o bebum. Ele soava truculento e perturbado ao mesmo tempo. — Então me dê um dólar porque hoje é dia de grana dupla.
Estendi a moeda de cinquenta centavos. Sentindo-me o ator que só tem uma fala na peça, respondi:
— Um dólar não posso gastar, mas tome cinquentinha.
Então lhe dê a moeda, dissera Al, mas nem precisei. O Homem do Cartão Amarelo a arrancou de mim e a segurou junto ao rosto. Por um instante pensei que ia mesmo mordê-la, mas ele só fechou em torno dela a mão de dedos compridos e a fez sumir. Ele me espiou de novo, o rosto quase cômico de desconfiança.
— Quem é você? O que está fazendo aqui?
— Não faço a menor ideia — respondi e me virei de volta para o portão. Esperei que me lançasse mais perguntas, mas só houve silêncio. Saí pelo portão.
4
O carro mais novo do estacionamento era um Plymouth Fury, provavelmente do meio ou fim da década de 1950. A placa parecia uma versão absurdamente antiga da placa de trás do meu Subaru; a pedido da minha ex-esposa, viera com uma fita rosa da campanha contra o câncer de mama. Aquela que eu olhava agora dizia mesmo TERRA DAS FÉRIAS, mas era alaranjada em vez de branca. Como na maioria dos estados, hoje as placas do Maine têm letras — a do meu Subaru é 23383 IY — mas a placa de trás do Fury branco e vermelho quase novo era 90-811. Sem letras.
Toquei o porta-malas. Estava duro e quente do sol. Era real.
Atravesse os trilhos e estará no cruzamento da Principal com a Lisbon. Depois disso, amigo, o mundo é seu.
Não havia trilhos de trem passando diante da velha fábrica — no meu tempo não, não havia —, mas lá estavam eles direitinho. E também não eram restos de artefatos. Estavam polidos, faiscantes. E em algum lugar a distância dava para ouvir o uuff-chuff de um trem de verdade. Quando foi a última vez que os trens passaram por Lisbon Falls? Acho que já não passam por aqui desde a época em que a tecelagem fechou e a U.S. Gypsum funcionava noite e dia.
Só que a U.S. Gypsum está funcionando noite e dia agora mesmo, pensei. Aposto que sim. E a tecelagem também. Porque isto aqui não é mais a segunda década do século XXI.
Eu começara a andar de novo sem sequer perceber — andar como um homem num sonho. Agora estava na esquina da Principal com a Rodovia 196, também conhecida como Estrada Velha de Lewiston. Só que nela não havia nada velho. E, na diagonal, do outro lado do cruzamento, na esquina oposta...
Era a Kennebec Fruit Company, sem dúvida um nome grandioso para uma loja que tinha cambaleado à beira do esquecimento — ou pelo menos assim me parecia — durante os dez anos que passei dando aulas na LHS. A sua improvável raison d’être e único meio de sobrevivência era o Moxie, o mais esquisito dos refrigerantes. O proprietário da Fruit Company, um senhor idoso de temperamento doce chamado Frank Anicetti, me disse certa vez que a população do mundo se dividia naturalmente (e provavelmente por herança genética) em dois grupos: os pouquíssimos eleitos abençoados que punham o Moxie acima de todos os outros refrigerantes e refrescos... e o resto. Frank chamava o resto de “triste maioria deficiente”.
A Kennebec Fruit Company do meu tempo é um caixote verde e amarelo desbotado com uma vitrine suja e desprovida de mercadorias... a não ser que o gato que às vezes dorme ali esteja à venda. O telhado está acanalado pela neve de muitos invernos. Há pouco à venda lá dentro, a não ser suvenires Moxie: camisetas laranja vivo que diziam ADORO MOXIE!, chapéus laranja vivo, calendários antigos, plaquinhas de lata que pareciam antigas mas provavelmente foram feitas ano passado na China. Durante a maior parte do ano, o lugar fica abandonado pelos fregueses, a maioria das prateleiras vazia de mercadorias... embora ainda se consigam alguns petiscos açucarados ou um saco de batatas fritas (quer dizer, se você gostar do tipo com sal e vinagre). A geladeira de refrigerantes só tem Moxie. A de cerveja está vazia.
Todo mês de julho, Lisbon Falls abriga o Festival de Moxie do Maine. Há bandas de rock, fogos de artifício e um desfile — juro que é verdade — com balões em forma de Moxie e misses locais vestidas de maiô cor de Moxie, ou seja, um alaranjado tão vivo que pode queimar a retina. O comandante do desfile sempre se veste como o doutor Moxie que aparece na latinha, ou seja, de jaleco branco, estetoscópio e um daqueles espelhos esquisitos presos na cabeça com uma faixa. Dois anos antes, a comandante foi Stella Langley, diretora da LHS, e ela nunca superou o trauma.
Durante o festival, a Kennebec Fruit Company ganha vida e vende muito, principalmente a turistas confusos a caminho das áreas de veraneio no oeste do Maine. No resto do ano, mal passa de uma casca assombrada pelo leve odor de Moxie, um cheiro que sempre me lembrou — provavelmente porque pertenço à triste maioria deficiente — do Musterole, o troço fabulosamente fedorento que a minha mãe insistia em esfregar na minha garganta e no meu peito quando eu me resfriava.
Porém, o que eu via agora do outro lado da Estrada Velha de Lewiston era uma próspera empresa na flor da idade. A placa pendurada acima da porta (BEBA 7-UP em cima, BEM-VINDO À KENNEBEC FRUIT CO. embaixo) era vistosa a ponto de refletir os raios de sol nos meus olhos. A tinta estava fresca, o telhado ainda não tinha sido curvado pelo tempo. Havia gente entrando e saindo. E na vitrine, em vez de um gato...
Laranjas, pelo amor de Deus. A Kennebec Fruit Company já vendera frutas de verdade. Quem diria?
Comecei a atravessar a rua e recuei quando um ônibus roncou na minha direção. O letreiro acima do para-brisa dividido dizia LEWISTON EXPRESS. Quando o ônibus freou num ponto no cruzamento da ferrovia, vi que a maioria dos passageiros fumava. A atmosfera ali dentro devia estar bem parecida com a de Saturno.
Depois que o ônibus seguiu o seu caminho (deixando para trás um cheiro de diesel semicozido a se misturar com o fedor de ovo podre das chaminés da Worumbo), atravessei a rua, me perguntando rapidamente o que aconteceria se eu fosse atropelado. Sumiria da existência? Acordaria caído no chão da despensa de Al? Provavelmente, nenhum dos dois. Provavelmente apenas morreria aqui, num passado do qual muita gente provavelmente sentia saudades. Talvez porque esqueceram como o passado cheirava mal, ou porque nunca tinham pensado nesse aspecto dos bacanas anos 1950.
Havia um garoto parado diante da Fruit Company, com um pé calçado de bota preta encostado no revestimento de madeira. O colarinho da camisa estava virado para cima na nuca e o cabelo penteado num estilo que reconheci (principalmente pelos filmes antigos) como Jovem Elvis. Ao contrário dos garotos que eu costumava ver nas minhas aulas, ele não usava cavanhaque, nem sequer uma mosca no queixo. Percebi que, no mundo que agora eu visitava (torcia que fosse só uma visita), ele seria chutado da LHS por aparecer com um único pelo no rosto. Sumariamente.
Cumprimentei-o com a cabeça. James Dean devolveu o cumprimento e disse:
— Olá, bacana.
Entrei. Um sino tilintou acima da porta. Em vez de poeira e madeira em suave apodrecimento, senti cheiro de laranja, maçã, café e fumo perfumado. À minha direita, havia uma estante de revistas em quadrinhos com as capas arrancadas — Archie, Batman, Capitão Marvel, O Homem Elástico, Cripta. O cartaz pintado à mão acima desse tesouro que causaria uma crise histérica em qualquer viciado no eBay dizia: QUADRINHOS 50 ¢ CADA TRÊS POR 10 ¢ NOVE POR 25 ¢ FAVOR NÃO MEXER SE NÃO FOR COMPRAR.
À esquerda havia um mostruário de jornais. Nenhum New York Times , mas havia exemplares do Portland Press Herald e restava um Boston Globe. A manchete do Globe trombeteava DULLES INSINUA CONCESSÕES SE CHINA VERMELHA RENUNCIAR À FORÇA EM FORMOSA. A data de ambos era terça-feira, 9 de setembro de 1958.
5
Peguei o Globe, que custava oito centavos, e andei até uma máquina de refrigerante com tampo de mármore que não existia no meu tempo. Atrás dela estava Frank Anicetti. Era ele igualzinho, até as costeletas grisalhas visíveis acima das orelhas. Só que essa versão — Frank 1.0, digamos — era magra em vez de gorducha e usava bifocais sem aro. Também era mais alto. Sentindo-me um estranho no meu próprio corpo, me sentei num dos bancos altos.
Ele indicou o jornal com a cabeça.
— Isso aí lhe basta ou deseja alguma coisa da máquina?
— Qualquer coisa gelada que não seja Moxie — ouvi a minha voz dizer.
Frank 1.0 sorriu.
— Não vendo isso, filho. Que tal uma root beer?
— Parece bom. — E parecia. A garganta estava seca, a cabeça quente. Eu me sentia febril.
— Cinco ou dez?
— Como assim?
— Root beer de cinco ou de dez centavos? — Ele falava do jeito do Maine: biiah em vez de beer.
— Ah. Dez, acho.
— Pois acho que você achou certo. — Ele abriu um congelador de sorvetes e tirou uma caneca gelada quase do tamanho de uma jarra de limonada. Encheu-a numa torneira e senti o cheiro da root beer, rico e forte. Ele raspou a espuma do alto com o cabo de uma colher de pau, encheu a caneca até a borda e a pôs no balcão. — Aí está. Ela mais o jornal são dezoito centavos. E mais um centavo para o governador.
Entreguei um dos dólares antigos de Al e Frank 1.0 me deu o troco.
Suguei pela espuma do alto e me espantei. Era... completa. Totalmente gostoso. Não sei como exprimir melhor do que isso. Esse mundo sumido há cinquenta anos cheirava muito pior do que eu teria esperado, mas o sabor era muitíssimo melhor.
— Está maravilhosa — disse eu.
— Aié? Que bom que gostou. Você não é destas bandas, é?
— Não sou não.
— De fora do estado?
— Wisconsin — respondi. Não era inteiramente mentira; a minha família morou em Milwaukee até eu fazer 11 anos, quando o meu pai arranjou emprego para ensinar inglês na Universidade do Sul do Maine. Desde então, pulei daqui para lá no estado.
— Bem, você escolheu a época certa para chegar — comentou Anicetti. — A maioria dos veranistas já se foi e, quando isso acontece, os preços caem. O que você está tomando, por exemplo. Depois do Dia do Trabalho, na primeira segunda-feira de setembro, uma root beer de dez centavos vai custar só cinco.
O sino sobre a porta tilintou; as tábuas do assoalho rangeram. Era um rangido amistoso. Na última vez que me aventurara na Kennebec Fruit, na esperança de encontrar um tubo de antiácido (me desapontei), elas gemeram.
Um garoto que devia ter 17 anos se enfiou atrás do balcão. O cabelo escuro estava cortado curto, mas não à moda militar. A semelhança com o homem que me servira era inequívoca, e percebi que esse era o meu Frank Anicetti. O sujeito que raspara o colarinho de espuma da minha root beer era o pai dele. Frank 2.0 não me deu nem uma olhada; para ele, eu era só mais um freguês.
— Titus botou a camionete no macaco — informou ao pai. — Disse que fica pronta às cinco.
— Ah, que bom — comentou Anicetti Pai, acendendo um cigarro. Pela primeira vez percebi que o tampo de mármore da máquina de refrigerante era decorado com pequenos cinzeiros de cerâmica. Escrito nas laterais, havia WINSTON TEM O VERDADEIRO SABOR DE UM BOM CIGARRO! Ele voltou a me olhar. — Quer uma bola de sorvete de creme na root beer? Por conta da casa. Gostamos de tratar bem os turistas, ainda mais quando vêm no fim da estação.
— Obrigado, assim está bom — disse eu, e estava. Mais um pouco de doçura e achei que a minha cabeça explodiria. E era forte, como beber um café expresso com gás.
O garoto me deu um sorriso tão doce quanto o conteúdo da caneca gelada — não havia nada do desdém divertido que sentira emanar do projeto de Elvis lá fora.
— A gente leu um conto hoje na escola — contou — em que os moradores comem os turistas que aparecem fora da temporada.
— Frankie, isso é uma coisa muito feia de se dizer a um visitante — ralhou o sr. Anicetti. Mas ele sorria ao falar.
— Tudo bem — assegurei eu. — Eu mesmo já usei esse conto nas aulas. Shirley Jackson, não é? The Summer People.
— Esse mesmo — concordou Frank. — Não entendi direito, mas gostei.
Dei outro gole na minha root beer e, quando a pousei (ela fez um barulho denso e satisfatório no balcão de mármore), não fiquei exatamente surpreso ao ver que estava quase no fim. Eu poderia me viciar nisso, pensei. Deixa Moxie comendo poeira.
O Anicetti mais velho exalou a fumaça para o teto, onde um ventilador a puxou em preguiçosas vigas azuis.
— Dava aulas em Wisconsin, sr...?
— Epping — respondi. Estava surpreso demais até para sequer pensar num nome falso. — Dou, sim. Mas esse é o meu ano sabático.
— Isso quer dizer que ele está tirando um ano de folga — disse Frank.
— Sei o que quer dizer — retorquiu Anicetti. Ele tentava soar irritado e fazia um péssimo serviço. Decidi que gostava desses dois tanto quanto gostava da root beer . Gostava até do candidato a rebelde sem causa lá fora, no mínimo porque ele não sabia que já era um clichê. Havia uma sensação de segurança ali, uma sensação — não sei — de preordenamento. Sem dúvida era falsa, pois este mundo era tão perigoso quanto qualquer outro, mas eu possuía um conhecimento que, antes desta tarde, acreditaria só estar reservado a Deus: sabia que o garoto sorridente que gostara do conto de Shirley Jackson (muito embora não tivesse “entendido”) viveria até o fim daquele dia e ainda durante mais de cinquenta anos. Não morreria num acidente de automóvel, não teria um enfarte nem contrairia câncer de pulmão por respirar em segunda mão a fumaça do pai. Frank Anicetti estava positivo e operante.
Dei uma olhada no relógio na parede (COMECE O DIA COM UM SORRISO, dizia o mostrador, TOME CAFÉ ALEGRIA). Marcava 12h22. Para mim isso não era nada, mas fingi me espantar. Tomei o resto da minha biiah e me levantei.
— Tenho de ir andando, senão não encontro os meus amigos em Castle Rock a tempo.
— Então vá com calma na 117 — disse Anicetti. — Aquela estrada é uma brasa. — Fazia anos que eu não ouvia um sotaque tão forte do Maine. Então percebi que isso era literalmente verdadeiro, e quase soltei uma gargalhada.
— Pode deixar — respondi. — Obrigado. E, filho? Sobre aquele conto de Shirley Jackson.
— Sim, senhor? — Senhor, pois é. E sem nenhum sarcasmo. Eu estava decidindo que 1958 tinha sido um ano muito bom. Quer dizer, fora o fedor da fábrica e a fumaça de cigarro.
— Não há nada a entender.
— Não? Não foi o que o sr. Marchant disse.
— Com todo o devido respeito ao sr. Marchant, pode lhe dizer que Jake Epping disse que às vezes um charuto é só um charuto e um conto é só um conto.
Ele riu.
— Vou dizer! Terceira aula amanhã de manhã.
— Ótimo. — Cumprimentei o pai com a cabeça, com vontade de lhe dizer que, graças ao Moxie (que ele não vendia... ainda), a sua empresa estaria ali, na esquina da rua Principal com a Estrada Velha de Lewiston, muito depois que ele se fosse. — Obrigado pela root beer.
— Volte quando quiser, filho. Estou pensando em baixar o preço da caneca grande.
— Para dez centavos?
Ele sorriu. Como o do filho, o sorriso era fácil e franco.
— Agora o senhor está chegando lá!
O sino tilintou. Três senhoras entraram. Nada de calças compridas; elas usavam vestidos com bainhas que chegavam à metade da canela. E chapéu! Dois com pomponzinhos de véu branco. Começaram a remexer nos caixotes abertos de frutas, em busca de perfeição. Comecei a me afastar da máquina de refrigerante, depois me lembrei de uma coisa e voltei.
— Vocês saberiam me dizer o que é a fachada verde?
O pai e o filho trocaram um olhar divertido que me fez pensar numa velha piada. O turista de Chicago num carrão esporte para diante de uma casinha bem no meio da roça. O velho agricultor sentado na varanda fuma um cachimbo de sabugo. O turista se inclina para fora do seu Jaguar e pergunta: “Meu velho, sabe me dizer como chegar a East Machias?” O velho roceiro dá uma ou duas baforadas pensativas no cachimbo e depois responde: “É só ficar bem aí mesmo.”
— O senhor é mesmo de fora do estado, não é? — perguntou Frank. O sotaque não era tão forte quanto o do pai. Provavelmente ele assiste mais à TV, pensei. Nada como a TV para desgastar um sotaque regional.
— Sou — respondi.
— Engraçado, eu podia jurar que ouvi uma puxada ianque no sotaque.
— É sotaque yooper — disse eu. — Da região da Upper Peninsula, sabe? — Só que... droga! A Upper Peninsula ficava em Michigan.
Mas parece que nenhum deles percebeu. Na verdade, o jovem Frank se virou e começou a lavar a louça. À mão, percebi.
— A fachada verde é a loja de bebidas — explicou Anicetti. — Do outro lado da rua, se quiser comprar uma garrafa de qualquer coisa.
— Acho que a root beer já basta para mim — respondi. — Só fiquei curioso. Um bom dia para vocês.
— Para o senhor também, amigo. Volte sempre.
Passei pelo trio examinador de frutas, murmurando “Senhoras” ao passar. E desejando ter um chapéu para cumprimentar. Um fedora, talvez.
Como aqueles que a gente vê nos filmes antigos.
6
O candidato a baderneiro deixara o posto e pensei em subir a rua Principal para ver o que mais mudara, mas só por um segundo. Seria bobagem desafiar a sorte. E se alguém perguntasse sobre as minhas roupas? Achei que as calças e o paletó esporte pareciam mais ou menos bons, mas como ter certeza? E também havia o meu cabelo, que tocava o colarinho. No meu tempo, isso seria considerado perfeitamente aceitável para um professor do secundário — conservador, até —, mas poderia provocar olhares numa década em que raspar a nuca era considerado parte normal do serviço do barbeiro e as costeletas ficavam reservadas para os roqueiros, como aquele que me chamara de bacana. É claro que podia dizer que era turista, que todos os homens usavam o cabelo um pouco comprido no Wisconsin, que era a última moda, mas cabelo e roupas — aquela sensação de se destacar, como algum alienígena do espaço num disfarce humano usado com imperfeição — eram só uma parte.
Eu estava basicamente apavorado. Não cambaleante em termos mentais, acho que a mente humana moderadamente bem-ajustada consegue absorver um monte de estranheza antes de realmente cambalear, mas apavorado, sim. Não parava de pensar nas senhoras de vestido comprido e chapéu, senhoras que ficariam com vergonha de mostrar até a beiradinha da tira do sutiã em público. E o sabor daquela root beer. Como fora completo.
Bem do outro lado da rua havia uma loja modesta com LOJA DE BEBIDAS DO ESTADO DO MAINE impresso em alto-relevo na pequena vitrine da frente. E, sim, a fachada era verde-clara. Lá dentro, consegui perceber o meu colega do barracão de secagem. O casaco preto comprido pendia dos ombros de cabide; ele havia tirado o chapéu e o cabelo se mantinha em torno da cabeça como o de um pateta de desenho animado que acabou de enfiar o Dedo A na Tomada B. Ele gesticulava com ambas as mãos para o vendedor, e pude ver o precioso cartão amarelo numa delas. Tenho certeza que o meio dólar de Al Templeton estava na outra. O vendedor, que usava um jaleco branco e curto bastante parecido com o do doutor Moxie no desfile anual, parecia singularmente imperturbável.
Andei até a esquina, esperei o tráfego e atravessei de novo a Estrada Velha de Lewiston para o lado da Worumbo. Dois homens empurravam um carrinho cheio de fardos de algodão pelo pátio, rindo e fumando. Fiquei me perguntando se saberiam o que a combinação de fumaça de cigarro e poluição da fábrica fazia com as suas entranhas, e supus que não. Provavelmente era uma bênção, embora fosse mais uma questão para professores de filosofia do que para um cara que ganhava o pão de cada dia expondo moleques de 16 anos às maravilhas de Shakespeare, Steinbeck e Shirley Jackson.
Quando entraram na fábrica, empurrando o carrinho por entre as mandíbulas de metal enferrujado das portas com três andares de altura, fui de novo até a corrente com a placa PROIBIDO PASSAR DESTE PONTO pendurada. Disse a mim mesmo para não andar depressa demais nem olhar em volta — não fazer nada que atraísse a atenção —, mas foi difícil. Agora que estava quase de volta ao ponto de chegada, a ânsia de me apressar era quase irresistível. Minha boca estava seca e a enorme root beer que bebera rolava no estômago. E se eu não conseguisse voltar? E se o marcador que deixei tivesse sumido? E se ainda estivesse lá, mas a escada não?
Calma, disse a mim mesmo. Calma.
Não consegui resistir a uma olhada rápida antes de passar debaixo da corrente, mas o pátio era inteiramente meu. Em algum lugar distante, como um barulho num sonho, escutei de novo aquele grave uuff-chuff de motor diesel. Ele me trouxe à mente outro verso de outra música: This train has got the disappearing railroad blues (Esse trem pegou a tristeza do sumiço da ferrovia.)
Andei pelo flanco verde do barracão de secagem, o coração batendo com força e bem alto no peito. O naco de papel rasgado com o pedaço de concreto em cima ainda estava lá; até agora, tudo bem. Chutei-o de leve, pensando Por favor Deus tomara que dê certo, por favor Deus que eu consiga voltar.
A ponta do sapato chutou o pedaço de concreto — vi-o sair saltitando para longe — mas também bateu e parou contra o degrau. Essas coisas eram mutuamente exclusivas, mas ambas aconteceram. Dei mais uma olhada em volta, muito embora ninguém no pátio pudesse me ver nesse caminho estreito a menos que, por acaso, passasse diretamente na frente dele, numa ponta ou na outra. Não havia ninguém.
Subi um passo. O meu pé conseguia sentir, muito embora os olhos me dissessem que eu ainda estava parado no pavimento rachado do pátio. A root beer deu outra guinada de alerta no meu estômago. Fechei os olhos e ficou um pouco melhor. Subi o segundo degrau, depois o terceiro. Eram estreitos aqueles degraus. Quando subi o quarto, o calor do verão sumiu da minha nuca e o escuro diante das minhas pálpebras ficou mais profundo. Tentei subir o quinto degrau, só que não havia quinto degrau. Em vez disso, bati a cabeça no teto baixo da despensa. Uma mão segurou o meu antebraço e quase gritei.
— Relaxe — disse Al. — Relaxe, Jake. Você voltou.
7
Ele me ofereceu uma xícara de café, mas fiz que não. O meu estômago ainda espumava. Ele se serviu e voltamos ao compartimento onde começáramos essa viagem de loucos. A minha carteira, o celular e o dinheiro estavam empilhados no meio da mesa. Al se sentou com um suspiro de dor e alívio. Parecia um pouco menos cansado e um pouco mais relaxado.
— Então — disse. — Você foi e voltou. O que acha?
— Al, não sei o que pensar. Estou abalado até meus alicerces. Você achou isso por acaso?
— Totalmente. Menos de um mês depois de me instalar aqui. Eu ainda devia ter poeira da rua Pine no salto do sapato. A primeira vez eu realmente caí por aquela escada, como Alice na toca do coelho. Achei que tinha enlouquecido.
Dava para imaginar. Pelo menos eu pude me preparar, um pouco que fosse. Enfim, será que existiria algum modo adequado de preparar alguém para uma viagem de volta ao passado?
— Quanto tempo fiquei lá?
— Dois minutos. Já lhe disse, são sempre dois minutos. Não importa quanto tempo fique. — Ele tossiu, cuspiu num novo maço de guardanapos, que dobrou e enfiou no bolso. — E quando você desce os degraus, é sempre 11h58 da manhã de 9 de setembro de 1958. Toda viagem é a primeira viagem. Aonde você foi?
— À Kennebec Fruit. Tomei uma root beer. Fantástica.
— É, tudo é mais gostoso lá. Menos conservantes ou coisa assim.
— Conhece Frank Anicetti? Eu o encontrei como um garoto de 17 anos.
De certo modo, apesar de tudo, esperava que Al risse, mas ele aceitou como coisa óbvia.
— Claro. Encontrei Frank muitas vezes. Mas ele só me encontra uma vez; naquela época, quero dizer. Para Frank, cada vez é a primeira. Ele entra, não é? Vindo do posto Chevron. Diz ao pai: “Titus botou a camionete no macaco. Disse que fica pronta às cinco.” Ouvi isso pelo menos cinquenta vezes. Não que eu sempre vá ao Fruit quando volto, mas quando vou, escuto. Aí entram as senhoras para escolher frutas. A sra. Symonds e as amigas. É como ver o mesmo filme várias e várias vezes.
— Toda vez é a primeira vez — repeti devagar, pondo um espaço em torno de cada palavra. Tentando conseguir que fizessem sentido na cabeça.
— Isso.
— E toda pessoa que encontramos nos encontra pela primeira vez, não importa quantas vezes já nos encontramos.
— Isso.
— Eu poderia voltar e ter a mesma conversa com Frank e o pai e eles não saberiam.
— Isso mesmo. Ou você poderia mudar alguma coisa — pedir um banana split em vez de uma root beer , digamos — e o resto da conversa seguiria um rumo diferente. O único que parece desconfiar de alguma coisa é o Homem do Cartão Amarelo, e ele está fodido demais pela bebida para saber o que pensa. Quer dizer, isso se eu estiver certo e se ele pensar alguma coisa. Se ele pensa, é porque por acaso está sentado perto da toca de coelho. Sei lá o que é aquilo. Talvez crie algum tipo de campo de energia. Ele...
Mas Al voltou a tossir e não conseguiu continuar. Observá-lo com o corpo dobrado, segurando a lateral e tentando não me mostrar como doía, como o rasgava por dentro, já era doloroso. Ele não pode continuar assim, pensei. Ele está a menos de uma semana do hospital, provavelmente a poucos dias. E não fora por isso que me chamara? Porque tinha de passar esse segredo espantoso a alguém antes que o câncer fechasse os seus lábios para sempre?
— Achei que conseguiria lhe passar todo o rolo esta tarde, mas não consigo — admitiu Al quando recuperou o controle. — Tenho de ir para casa, tomar meu bagulho e botar os pés pra cima. Nunca tomei nada mais forte do que aspirina durante a vida inteira, e o lixo daquele Oxy me apaga feito lâmpada. Vou dormir seis horas mais ou menos e aí me sentir melhor por algum tempo. Um pouco mais forte. Você pode passar lá em casa por volta das nove e meia?
— Até poderia, se eu soubesse onde você mora — respondi.
— Uma casinha na rua Vining. Número 19. Procure o gnomo de jardim ao lado da varanda. Não dá para errar. Ele agita uma bandeira.
— Sobre o quê vamos conversar, Al? Quero dizer... você me mostrou. Agora acredito em você. — Acreditava mesmo... mas por quanto tempo? A minha breve visita a 1958 já assumira a textura desbotada de um sonho. Dali a algumas horas (ou dias), provavelmente eu conseguiria me convencer de que sonhara.
— Temos muito para conversar, amigo. Você vem? — Ele não repetiu pedido de um moribundo, mas li nos olhos dele.
— Está bem. Quer uma carona?
Com isso os olhos dele faiscaram.
— Estou com a picape e são só cinco quarteirões. Posso dirigir sozinho até lá.
— Claro que pode — concordei, torcendo para soar mais convincente do que me sentia. Levantei e comecei a enfiar as minhas coisas de volta no bolso. Encontrei o maço de notas que ele me dera e o tirei. Então entendi as mudanças na nota de cinco dólares. Provavelmente havia mudanças nas outras notas também.
Estendi o maço e ele fez que não.
— Não, guarde, tenho muito.
Mas deixei as notas na mesa.
— Se toda vez é a primeira vez, como é que consegue ficar com o dinheiro que traz de volta? Por que não apaga na próxima vez que você vai?
— Não faço ideia, amigo. Já lhe disse, tem um monte de coisas que não sei. Há regras, e descobri algumas, mas não muitas. — O rosto dele se iluminou com um sorriso fraco mas genuinamente divertido. — Você trouxe a sua root beer de volta, não foi? Ainda está se sacudindo na barriga, não está?
Na verdade, estava.
— Viu só? A gente se encontra de noite, Jake. Vou estar mais descansado e aí conversamos.
— Mais uma pergunta?
Ele me fez um gesto de vá em frente. Notei que as unhas, que ele sempre mantinha escrupulosamente limpas, estavam amarelas e rachadas. Outro mau sinal. Menos revelador do que a perda de 15 quilos, mas ainda assim algo ruim. O meu pai costumava dizer que se pode saber muito sobre a saúde de alguém apenas pelo estado das unhas.
— O Famoso Gordobúrguer.
— O que tem? — Mas havia um sorriso brincando nos cantos da boca.
— Você vende barato porque compra barato, não é?
— Capa de costela moída do Red & White — disse ele. — Cinquenta e quatro centavos o meio quilo. Vou lá toda semana. Ou ia até a minha última aventura, que me levou para muito longe de Lisbon Falls. Compro com o sr. Warren, o açougueiro. Se lhe peço cinco quilos de capa de costela moída, ele diz: “Tá saindo.” Se peço seis ou sete, ele diz: “Me dê um minuto para moer uma fresquinha. Almoço de família?”
— É sempre o mesmo.
— É.
— Porque é sempre a primeira vez.
— Exato. É como a história dos pães e dos peixes da Bíblia, quando a gente pensa bem. Compro a mesma capa de costela moída semana após semana. Alimentei com ela centenas de milhares de pessoas, apesar daqueles boatos estúpidos sobre gatobúrguer, e ela sempre se renova.
— Você compra a mesma carne várias vezes. — Tentando enfiar a ideia no meu crânio.
— A mesma carne, à mesma hora, do mesmo açougueiro. Que sempre diz as mesmas coisas, a menos que eu diga algo diferente. Admito, amigo, que já me passou pela cabeça ir até ele e dizer: “Como vão as coisas, sr. Warren, seu careca escroto? Andou fodendo algum cu de galinha ultimamente?” Ele nunca lembraria. Mas nunca fiz isso. Porque ele é um bom homem. A maioria das pessoas que conheci lá atrás é gente de bem. — Com isso ele ficou meio tristonho.
— Não entendo como você consegue comprar carne lá... servir aqui... e comprar de novo.
— Bem-vindo ao clube, amigo. Estou contente pra diabo de você ainda estar aqui... eu podia ter perdido você. Aliás, você nem tinha de atender ao telefone quando liguei para a escola.
Uma parte de mim desejava não ter atendido, mas isso eu não disse. Provavelmente nem precisava. Ele estava doente, mas não cego.
— Venha à minha casa hoje à noite. Vou lhe contar o que estou pensando e aí você faz o que achar melhor. Mas terá de decidir bem depressa, porque o tempo é curto. Meio irônico, não acha, considerando para onde vão os degraus invisíveis da minha despensa?
Mais devagar do que nunca, eu repeti:
— Toda... vez... é... a... primeira... vez.
Al sorriu de novo.
— Acho que essa parte você entendeu. A gente se encontra à noite, tudo bem? Rua Vining, 19. Procure o gnomo com a bandeira.
8
Saí do Al’s Diner às três e meia. O período de seis horas que esperei até as nove e meia não foi tão esquisito quanto visitar Lisbon Falls 53 anos antes, mas foi quase. O tempo parecia se arrastar e se apressar ao mesmo tempo. Voltei à casa que estava comprando em Sabattus (Christy e eu vendemos a nossa em Lisbon Falls e dividimos a grana quando nossa empresa conjugal se dissolveu). Pensei em tirar um cochilo, mas é claro que não consegui dormir. Depois de passar vinte minutos deitado de costas, duro como uma tábua, encarando o teto, fui ao banheiro dar uma mijada. Enquanto observava a urina espirrar no vaso, pensei: Isso é root beer de 1958, processada. Mas, ao mesmo tempo, pensava que era tudo bobagem, que Al dera um jeito de me hipnotizar.
Aquela coisa de visão dupla, sabe?
Tentei terminar a leitura da última redação do seminário e não me surpreendi nem um pouco ao ver que não conseguia. Brandir a temível caneta vermelha do sr. Epping? Fazer juízos críticos? Só rindo. Não conseguia nem conectar as palavras. Então liguei o “tubo” (velha gíria dos fantásticos anos cinquenta; os televisores nem têm mais tubos) e surfei os canais algum tempo. No TMC, me deparei com um filme antigo chamado Dragstrip Girl. E fiquei observando os carros antigos e os adolescentes angustiados com tanta atenção que me deu dor de cabeça, e desliguei. Fiz um refogado rápido e não consegui comer, embora estivesse com fome. Fiquei ali sentado, olhando o prato, pensando em Al Templeton servindo as mesmas doze libras de hambúrguer várias vezes, ano após ano. Era realmente como o milagre dos pães e dos peixes, e daí circulavam boatos sobre gatobúrguer e cachorrobúrguer devido ao preço baixo? Considerando quanto Al pagava pela carne, ele tirava um lucro absurdo em cada Gordobúrguer que vendia.
Quando percebi que estava andando de um lado para outro na cozinha — incapaz de dormir, incapaz de ler, incapaz de assistir à TV, um refogadinho perfeito jogado no lixo —, peguei o carro e voltei à cidade. Nisso eram quinze para as sete, e havia muito lugar para estacionar na rua Principal. Parei do outro lado da Kennebec Fruit e fiquei sentado atrás do volante, fitando a relíquia de tinta descascada que já fora uma próspera empresa de cidade pequena. Já fechada, parecia pronta para demolição. O único sinal de habitação humana eram alguns cartazes de Moxie na vitrine empoeirada (BEBA MOXIE E GANHE SAÚDE!, dizia o maior), tão fora de moda que podiam ter sido abandonados há anos.
A sombra da Fruit se estendia pela rua e tocava o meu carro. À minha direita, onde ficava a loja de bebidas, havia agora um prédio arrumadinho de tijolos que abrigava uma agência do Key Bank. Quem precisava de uma fachada verde se podia entrar em qualquer supermercado do estado e sair com um litro de uísque ou meia garrafa de licor de café? E nada de saco de papel; nesta época moderna usamos plástico, filho. Dura mil anos. E, por falar em supermercado, nunca ouvira falar de nenhum chamado Red & White. Quem quisesse comprar mantimentos em Lisbon Falls iria ao IGA, um quarteirão abaixo, na 196. Ficava bem na frente da antiga estação de trem. Que hoje era uma combinação de loja de camisetas com ateliê de tatuagem.
Ainda assim, mesmo naquele momento o passado parecia muito próximo — talvez fosse apenas o brilho dourado da luz do sol poente, que sempre me parecera levemente sobrenatural. Era como se 1958 ainda estivesse bem ali, só escondido debaixo de uma frágil película de anos intermediários. E, se eu não tivesse imaginado o que me acontecera à tarde, era verdade.
Ele quer que eu faça algo. Algo que ele mesmo teria feito, mas que o câncer impediu. Disse que voltou e ficou quatro anos (pelo menos achei que foi o que disse), mas quatro anos não foram suficientes.
Eu estaria disposto a descer de novo aqueles degraus e ficar quatro anos ou mais? Basicamente me instalar? Voltar dois minutos depois... só que quarentão, com fios brancos começando a aparecer no cabelo? Não conseguia me imaginar fazendo isso, mas também não conseguia imaginar o que Al encontrara de tão importante lá atrás. A única coisa que eu sabia era que quatro, seis ou oito anos da minha vida era pedir demais, mesmo para um moribundo.
Ainda tinha mais de duas horas antes de ir à casa de Al. Decidi voltar, preparar outra refeição e, dessa vez, me forçar a comer. Depois, faria outra tentativa de terminar as redações. Eu podia ser uma das pouquíssimas pessoas que já tinham viajado no tempo — aliás, Al e eu podíamos ser os únicos que já tinham feito isso na história do mundo —, mas os meus alunos de poesia ainda quereriam as notas finais.
Não ligara o rádio quando vim à cidade, mas liguei-o agora. Como a TV, ele recebe a programação de viajantes espaciais guiados por computadores que saem girando em torno da Terra numa altitude de 35 mil quilômetros, uma ideia que sem dúvida seria recebida com espanto arregalado (mas provavelmente não com total descrença) pelo adolescente que Frank Anicetti era naquela época. Sintonizei na Sixties on Six e captei Danny & the Juniors tocando Rock and Roll Is Here to Stay — três ou quatro vozes urgentes e harmônicas cantando por cima da britadeira de um piano. Foram seguidos por Little Richard gritando Lucille a plenos pulmões, e depois Ernie K-Doe mais ou menos gemendo Mother-in-Law: Ela acha que conselho é contribuição, mas se deixasse pra lá é que seria solução. Tudo soava tão fresco e doce quanto as laranjas que a sra. Symonds e amigas escolhiam no início da tarde.
Soava novo.
Eu queria passar anos no passado? Não. Mas queria voltar. No mínimo para ouvir como Little Richard soava quando ainda estava na parada de sucessos. Ou pegar um avião da Trans World Airlines sem ter de tirar os sapatos, fazer raios X do corpo inteiro e passar pelo detetor de metais.
E queria outra root beer.